sábado, 24 de dezembro de 2011

A Grande Imprensa e o pseudo-combate à corrupção no Brasil

Renato Janine Ribeiro comentou em seu artigo no jornal Valor, de segunda (“Apurar até depois do fim”); Vladmir Safatle, no seu espaço na Folha de São Paulo, terça (“O inimigo da moral”); Maria Inês Nassif, na sua coluna do dia 22, quinta, no portal de notícias Carta Maior (“2011, o ano em que a mídia demitiu ministros. 2012, o ano da Privataria.”). Os três criticam a parcialidade da Grande Imprensa diante da corrupção no Brasil, e como essa parcialidade, a despeito da impressão de combate à corrupção, não altera em absolutamente nada o panorama, simplesmente porque a corrupção por ela denunciada é um subterfúgio para fazer proselitismo partidário disfarçado.

Maria Inês Nassif, em artigo na revista Interesse Nacional número 11, de outubro de 2010, comentava o fato da chamada direita (PSDB-DEM), carente de base social, ter a Grande Imprensa – ou mídia tradicional, como ela prefere – como tal base, encabeçando os ataques ao governo Lula. Já no governo Dilma, diante do esfacelamento da oposição com o surgimento do PSD, à imprensa coube todo o papel de oposição ao PT: ela assume, então, claramente, ainda que de maneira não admitida, o papel de veículo partidário.

A tática utilizada no correr de todo o ano para tentar desestabilizar o governo Dilma, um governo que teoricamente começou fraco – pela primeira vez o presidente era mais fraco que seu partido, como a própria Nassif assinalara quando Dilma ainda era uma possibilidade de candidata –, tratou de utilizar o que Renato Janine Ribeiro chamou de “tática de artilharia”: mirar um ministro por vez para derrubá-lo. O efeito, contudo, foi contrário ao esperado: Dilma conseguiu passar a imagem de intransigente com os corruptos, além de ter conseguido se tornar credora dos partidos da base aliada – como assinalou Nassif. Isso até o ministro-alvo ser Fernando Pimental, o primeiro da cota de Dilma.

A princípio esse denuncismo parece benéfico, preocupado em combater a corrupção. A forma de agir, contudo, soltando denúncias a conta-gotas e sempre direcionado – exceção a Haddad, que sempre merece uma lembrança, por não ter sido pego em caso algum de corrupção e pôr medo na oposição de perder a principal cidade do país –, é o primeiro sinal de que o interesse é outro.

Como em política, no Brasil, o suspeito é culpado até que se prove o contrário, uma campanha orquestrada pelos grandes veículos de massa tem um poder considerável. Entretanto, uma vez derrubado o alvo, logo a Grande Imprensa se volta para o próximo da lista, como se o caso estivesse encerrado: não tem qualquer preocupação em seguir com a apuração e confirmar se as denúncias são, de fato, procedentes, para, em caso afirmativo, mostrar quais os caminhos da corrupção – obra do sistema e não de um pessoa individualmente –, ou, em caso negativo, em fazer um mea culpa pela reputação manchada.

Mas não é apenas de leviandade: como comentou Safatle, não há sequer simetria na apuração dos casos de corrupção: a Grande Imprensa é extremamente seletiva no que fala, no que cala, no quanto e quando fala. Ele lembra que o esquema do mensalão, que ficou grudado ao PT, teve início no governo PSDB.
 
O assunto do momento é o livro do jornalista Amaury Ribeiro Jr., A privataria tucana, que, conforme Nassif, faz “denúncia fundamentada e grave” sobre o processo de privatização durante o governo tucano – cujo projeto político, junto com a redução do Estado, típico do receituário neoliberal, era de criar uma burguesia moderna, “escolhida a dedo por uma elite iluminada, e tecida especialmente para redimir o país da velha oligarquia, mas em aliança com ela própria”. A tentativa de ignorar o livro, num primeiro momento, a campanha de desqualificação do autor, depois, mostram que não se trata de uma obra desprezível – sem contar que acabaram por fazer propaganda ao livro, já esgotado.

O risco de um CPI a partir daquilo que o livro constrange a Grande Imprensa a moderar no seu apetite contra o governo Dilma: afinal, seu grande aliado nas últimas cinco eleições presidenciais, o PSDB, está no alvo, afora o fato de nunca se sabe aonde termina uma CPI – nem nós sabemos até onde se estende o quarto poder.

A conclusão dos três colunistas é basicamente a mesma: para combater a corrupção estrutural do Brasil, não adianta fazer denúncias para derrubar ministros, ou encarar toda denúncia como disputa partidária: é preciso levar as investigações adiante, em busca do que esquema que move, e não das pessoas que se aproveitam dele – e fazê-lo sem coloração partidária necessária.


Pato Branco, 24 de dezembro de 2011.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Da vez que fui impedido de me encontrar com Ruth, a balconista.


Começo a rever meus conceitos, me questionar se os deuses estão realmente a meu favor, ou apenas tirando uma com a minha cara. Precisava novamente ir à Campinas, apresentar o resultado de exames ao médico. Consegui horário apenas no início da noite, às seis e meia – o que acarretava em chegar atrasado ao evento de lançamento do livro de poesias Pontualmente ao encontro ou pomos, um adão cada, do meu amigo André Nogueira, lançado pela Medita Editora, e no qual eu ansiava encontrar minha paixão platônica “com futuro”. Não obstante o horário tardio da consulta, eu necessitava antes buscar os tais exames, o que deveria ser feito até às cinco da tarde, o que implicava em sair de casa antes das quatro.

Vendo que a tarde estaria toda comprometida nisso, decidi antecipar um pouco meu roteiro, para ter tempo de passar na farmácia da Ruth num horário em que ela, provavelmente, ainda estivesse atendendo.

Depois de pegar um ônibus guiado por um troglodita armado de CNH e volante– vulgo um típico motorista campineiro –, peguei os referidos exames e me pus em marcha para as tão necessárias vitaminas. No caminho, hesitava se deveria mesmo ir ao encontro da Ruth: aquele envelope enorme com timbre de hospital, que não cabia na minha mochila, talvez me emprestasse um aspecto de doente: o que pensaria Ruth de mim? Me imaginaria um jovem acabado? Entretanto, ponderei: estou prestes a voltar para Pato Branco, talvez esta fosse a última oportunidade de rever Ruth e, conseqüentemente, dar chances ao destino. Entraria assim mesmo!

No caminho, planejava deixar os novos cartões da Casuística na portaria do prédio de uma amiga, ver se convencia a ela ou sua irmã a participarem da revista. Não sei qual o estilo da irmã, mas essa amiga escreve muito bem, um estilo gracioso, que eu imaginava inato, até ela me contar que escrevia já há anos, escondida – uma verdadeira Lucienne L'accord, eu diria hoje –; além de ter um forte quê heterodoxo, como pude conferir em sua monografia. Coincidentemente essa amiga é minha ex, que coincidentemente mora ao lado da farmácia em que Ruth trabalha. Nova coincidência: não precisei deixar os cartões na portaria, nos trombamos na rua, mesmo – creio que foi a segunda vez na vida. Simpática como sempre, ficamos ali um tempo, conversando. Trabalho, vestibular – ela também resolveu começar nova faculdade –, férias, não-férias, mestrado. Nos estendemos bem uns quinze, vinte minutos nesse bate-papo, e eu teria me alongado mais, não tivesse atrasado para um compromisso: encontrar Ruth.

Logo descobri que poderia ter me prolongado na conversa: ao chegar na farmácia, notei aquela habitual movimentação de quando se está começando o turno, e vi que Ruth não estava. Para esta minha nova saída de mãos abanando, interpretei que havia esquecido a receita – achei que repetir a do celular poderia levantar suspeitas. Quem sabe o médico, dali três horas, não me receitasse qualquer nova oportunidade, para na terça-feira eu voltar à farmácia?

Não maldisse minha ex, não penso que tenha feito propositadamente, até porque sei que não tem o hábito de ler minhas crônicas – quando muito meus prolixos e-mails –, e mesmo que as estivesse acompanhando, não acho que esteja a fim de Ruth, para me ter como um concorrente. Apesar que Ruth, encantadora do jeito que é, melhor não duvidar de nada...


Campinas, 19 de dezembro de 2011

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Quando Ruth, a balconista, realmente não estava.

Imaginei que os deuses haviam sorrido para mim esta semana, e sem ironias me permitiriam um passeio até a farmácia de Ruth. Sem ironias porque eram médicos marcados de antemão, e não que tiveram que aparecer às pressas, por conta de uma cólica renal, que está à espreita, mas ainda não veio – e espero que não venha. Mas que nada, nenhum dos dois médicos me receitou receita que a farmácia da Ruth vendesse. Aílton me receitou dois medicamentos homeopáticos, e ainda que a filha da dona da farmácia homeopática seja bonitinha, não é a Ruth – o que não espanta, afinal, a Ruth...

Entretanto, na sexta consegui um bom pretexto para ir ao centro – leia-se sair de Barão destino Campinas: buscar os novos cartões de visita e os marca-páginas da Casuística. Só chegariam no meio da tarde, de forma que eu precisaria ser preciso nos meus horários, a tempo de buscar a encomenda e ter tempo de encontrar Ruth ainda em serviço. Esperança extra para o pacote com os cartões, feitos a partir de duas belas fotos de Vinícius Libardoni, para que o cartão colado nele chamasse a atenção da Ruth, e assim conseguíssemos encetar mais facilmente um assunto qualquer, para podermos, finalmente, chegar aos assuntos interessantes.

Pacote sobre o braço, suando em bicas, a barba por fazer (não tive tempo de me arrumar direito), adentro a farmácia onde Ruth trabalha e logo me deparo com o delicado frescor do ar-condicionado. Vejo duas balconistas, as duas ocupadas: comemoro minha sorte e fico no aguardo de Ruth aparecer para me atender. Reparo, então, que não reconheço as atendentes: não são as mesmas do horário de Ruth. Um tempinho mais de espera, e nada da Ruth dar o ar da graça, sendo que um dos clientes dava pintas de estar concluindo sua compra.

Penso rápido e resolvo atender meu celular desligado. Como sou uma pessoa educada, saio da loja para não perturbar outras pessoas com minha conversa imaginária – até porque minha ascendência italiana pode me tornar um tanto inconveniente nessas horas, digo, nas com interlocutores verdadeiros do outro lado da linha. Ainda me quedo um tempo na entrada da loja, celular no ouvido. Definitivamente, Ruth não estava mais àquela hora. Caminho distraidamente, sempre ao celular, e trato de ir embora logo dali: me resta ainda um motivo para nova tentativa de encontrar Ruth, algum outro dia. Não terei um pacote com um cartão bonito colado, porém sou capaz de elogiar a decoração de natal da loja, se preciso for, para conseguir conversar algo mais do que queria este remédio, ou no caso, queria estas vitaminas. Contudo, o maior problema, o de convidá-la, queria sair contigo, esse ainda segue sem uma boa estratégia.

Campinas, 16 de dezembro de 2011.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

O grande fiasco da Fuvest?

Quando li a notícia de que uma questão de matemática da Fuvest 2012 deveria ser anulada, comemorei: um ponto mais!, já que a havia chutado errado. E a vida continuaria, eu pensando que precisava começar a estudar pro vestibular, enquanto tentava agilizar o fim do meu mestrado, e organizar a próxima Casuística, não fosse o e-mail do professor da UFPA, João Batista do Nascimento – que tem se dedicado a organizar dossiês com falhas do gênero, sendo que só o do Enem tem 350 páginas –, me alertando para as implicações do “erro monstruoso” em um vestibular em que se tem três minutos para resolver cada questão.

Tendo me dado conta do quão prejudicial aos vestibulandos é uma questão mal-formulada, resolvi dar uma olhada mais atenta à cobertura do problema, e compará-lo com a do Enem: não houve editorial ou “formador de opinião” condenando a USP ou a Fuvest, reitor, governador. 

Tampouco houve repórter indo fazer a prova para ver as falhas de segurança da Fuvest, que são as mesmas do Enem – como pude conferir in loco. Muito menos a ação articulada da Grande Imprensa para a produção de factóides, como em 2010 [j.mp/cG14nv10] e em 2011, tentando criar a impressão de que falha sistemática de segurança e de organização – logo, de gerência e de credibilidade.

Questão anulada, falhas de segurança, problemas na identificação no nome dos alunos: estamos falando do Enem, seis milhões de candidatos; ou do vestibular para a mais rica e importante universidade do país, 150 mil candidatos, R$ 120 de inscrição?

A diferença de tratamento pela Grande Imprensa é tão evidente quanto o erro da questão anulada matemática para quem é da área: o grande problema do Enem é o fato do PT ser governo – bem avaliado, para piorar a situação –, com o agravante de Fernando Haddad ser pré-candidato à prefeitura de São Paulo, num processo de renovação de quadros do lulo-petismo que já culminou com a eleição da atual presidenta, e que não encontra similar na oposição, em que os novos nomes tem os velhos sobrenomes – num país cuja modernização-conservadora da política dos últimos oito anos conseguiu, ao menos, diminuir a importância da sucessão hereditária nos currais eleitorais: Magalhães, Maias, Richas, Neves...

Modernização-conservadora que na educação estagnou a principal tendência fernandista, de sucateamento da universidade pública e extinção do ensino superior gratuito – o tal “financiamento por aluno e não por instituição” que Paulo Renato já havia vaticinado. É certo que o PT conseguiu isso com afagos às fábricas de diplomas, mas o resultado foi, conforme a Grande Imprensa, “o inchaço da máquina pública” – e não alocação mal feita de recursos –, com contratações de professores doutores e funcionários – tudo por querer dar às universidade federais padrões semelhantes aos dos países de primeiro mundo, vejam a petulância do ex-presidente analfabeto.

O maior problema, contudo, é que este imbróglios com Enem e Fuvest apenas ocultam os verdadeiros problemas da educação brasileira: a estruturação de todo o sistema, a inadequação não apenas dos currículos, mas do próprio papel da escola para a sociedade contemporânea, a completa falta de prioridade na discussão séria sobre educação e cultura no país, pensadas simplesmente a partir dos seus rendimentos em testes ou na desova de mão-de-obra qualificada (qualificada para o que?, para quem?).


Campinas, 08 de dezembro de 2011.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Quando Ruth, a balconista, não estava.

Sinceramente, tem horas – e não são poucas – que invejo o Daniel Francoy, a quem basta sair de casa e tomar o rumo certo – sentido bar da esquina –, e tem grandes chances de, nem que seja de relance, ver sua idolatrada chinesinha. Se tiver tempo e alguns poucos reais, pode ainda desfrutar do seu aroma, ao comprar uma água tônica, ou um pacote das suas ainda mais idolatradas jujubas, com o que não apenas alivia a modorra do trabalho burocrático, como preenche diariamente seu facebook. 

Eu, de minha parte, mesmo que morasse próximo, e não distante dez quilômetros da farmácia de Ruth, de nada adiantaria acertar o rumo, já que o referido estabelecimento não é escancarado para a rua, e pior: não me bastam alguns reais, preciso também de uma receita para poder ir até lá, tentar a sorte de ser atendido por ela – para, quem sabe, ela encetar novamente o papo sobre final de semana do nosso primeiro encontro, e, finalmente, acabar me convidando pra sair. Infelizmente, não tenho sequer a oportunidade de freqüentar a farmácia com freqüência, o que dizer da sorte do que viria a seguir.

Não precisar ir sempre à farmácia já é alguma sorte, não? Perguntará alguma desavisada leitora que desconhece em absoluto os encantos de Ruth, e que há de pensar que estou sendo irônico em minha queixa de não ter uma receita sempre à mão. Meu lamento é, contudo, sincero: doente crônico, o remédio me é uma constante durante o mês, o passeio na farmácia que não o é: saio do médico e vou logo à botica, “fazer o rancho” pro mês, como se diz nas terras que me pariram – tal qual faziam meus pais outrora, na época dos dragões gordos, mal recebiam o salário, numa demonstração de falta de criatividade e de comunhão nacional.

Pois lá estava eu, saindo do Aílton, o homeopata que há mais de meia década me assiste, e rumando, não precisava dizer, rumo à farmácia da Ruth, ou melhor, onde ela trabalha. No caminho, ia imaginando mil situações, ensaiando n frases de efeito, planejando como seria nossa lápide – isto para o último quarto do século, não que eu queira abreviar qualquer coisa.

Ao chegar lá, receita em mãos – depois me questionei, por que a pressa? – passo o olho pela farmácia: cadê ela? Onde está Ruth, a balconista? Será seu dia de folga e eu não sei? Saiu de férias? Banco de horas? Foi demitida? Estará doente? Teria morrido? (e nossa lápide, como fica?) Casou e foi viver com o marido, me deixando ali, com a receita na mão, como uma noiva com o buquê em pleno altar?

Pois não? Pergunta outra atendente, na verdade farmacêutica – bonitinha, até, com um jeitinho delicado, merecedora de um olhar mais atento, não trabalhasse na mesma farmácia que Ruth, pobrecita. Queria este remédio. Ela vai em busca do remédio, quando vejo Ruth saindo de uma sala no fundos da loja, carregada de caixas, que quase a cobrem. Ah, Ruth é tão bela! Deixa as caixas sobre o balcão, conversa algo com duas colegas, e retorna à sala. Tem um sorriso nos lábios – é pena que não me viu, senão diria que era por ter me visto que sorria. A farmacêutica volta com o remédio que me cabe, diz quais são as ofertas para mim naquele dia. Agradeço, vou até o caixa: o cartão enrosca para passar, a caixa se atrapalha, pede desculpas. Imagina, digo, com extrema sinceridade, quase pedindo para que se atrapalhe um pouco mais – ou que peça ajuda para aquela atendente que naquele momento não atende ninguém, apenas carrega caixas. Ainda me demoro um tempo mais para digitar a senha do cartão, na esperança de Ruth aparecer uma vez mais. Nada.

Saio de lá um tanto decepcionado. No caminho, encontro um amigo, que me informa que minha outra paixão platônica – aquela que minha amiga disse que dava futuro (ao que tudo indica, tanto quanto papéis da dívida grega) – entrou para a banda de um amigo que toca cover do Morphine. Legal!, pensei num primeiro momento. Então me dou conta: nos últimos seis shows da banda, cinco eu soube só depois de terem acontecido, o outro fiquei sabendo tão em cima da hora que não pude aparecer – e de nada adiantou xingá-lo por não ter me avisado, ele segue sem me avisar.

Decido, por fim, que é melhor achar um jeito de planejar como voltar à farmácia de Ruth em menos de um mês – e sem precisar ficar mais doente nesse ínterim.


Campinas, 29 de novembro de 2011.

ps: Ruth, a balconista

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Estimular as crianças


Dizem os livros de auto-ajuda pedagógica que é bom estimular as crianças desde cedo, para que se desenvolvam mais inteligentes. Uma pena que há mães que parecem seguir tudo o que dizem por aí, menos a parte boa dos estímulos.

O cartunista Angeli tem uma série que adoro: “duas coisas que eu odeio... e uma que eu adoro”. Numa das tirinhas, não lembro quais as duas que ele odeia, mas lembro a que ele adora: crianças hiperativas: no quadrinho, defronte a ele, uma criança alucinada, e ele pergunta: e chimpanzé, você sabe imitar? Lembrei dessa tirinha quando fiquei dez minutos dentro do ônibus, esperando dar a hora dele sair do terminal.

Uma menina, devia ter seus cinco anos (sou ruim pra chutar idade de criança), corria do fundo do carro pra frente e se pendurava na catraca, da frente pro fundo e pulava no banco, do fundo pra frente, da frente pro fundo... enquanto isso a mãe, mal-humorada e preguiçosamente, sentada num dos bancos da frente, mandava ela parar – no máximo, o que ela conseguiu foi que ela mudasse a rota: subia em um banco na frente, se pendurava na catraca, pulava em outro, no imediatamente atrás, subia na catraca...

Eu estava sentado no último banco, e a menininha, quando vinha para o fundo, pulava exatamente ao meu lado. Uma hora, tendo provocado algum barulho que não ouvi, ela parou, achando que havia quebrado algo. Interagi qualquer coisa com ela: está pesada, ein? Não, estou forte! UAAAH!!! E foi pra frente, onde mudou de rota, pulando um pouco pelos bancos daquela região, enquanto a mãe mandava ela sossegar. Foi nessa hora que lembrei da tira do Angeli e lamentei meu sempre lerdo raciocínio – principalmente quando na interação com outrem.

Ela, porém, resolveu voltar, e eu resolvi aproveitar a chance. Consegue se pendurar ali em cima? Perguntei, apontando para a barra de segurar. A mãe me olhou com cara feia nessa hora. Não, sou pequena. Me respondeu a guria. Tem que pular alto. Não dá, olha. E pulou – duas vezes –, demonstrando que não conseguia. Foi o suficiente, porém, para que ela, que já andava um tanto agitada, ficasse a mil, para irritação maior da mãe, que não deixou ela se sentar ao meu lado, quando o ônibus partiu, e teve, então, que aguentar ela pulando e a pentelhando durante boa parte da viagem – até o momento em que, finalmente, cansada de mandar que parasse, se dignou a se levantar, pegou ela no colo e a segurou à força.

Lamentei por ambos o fim da diversão, aquela mãe mal humorada, para quem o problema da filha saracotear no ônibus em movimento não era ela se machucar, mas ela estar enchendo o saco. De qualquer forma, descobri que Angeli tinha razão: pôr pilha em crianças já em estado de serelepice profunda é divertido – inclusive pra elas, que devem ter poucas oportunidades de um adulto dando corda. E a diversão ganha um gosto extra quando a mãe não gosta e em breve você vai descer, deixando que ela cuide da filha – que só queria brincar sem atrapalhar ninguém.

Campinas, 28 de novembro de 2011.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Quem tem medo das ruas ocupadas?

A internet tornou-se parte importante da arena política, isso é inegável. Uma mostra foi a eleição para presidência dos EstadosUnidos de Barack Obama, que soube fazer bom uso da rede, principalmente para arrecadação de fundos pra campanha. No Brasil, temos presenciado este ano reiteradas discussões – classificá-lasde “quente” seria eufemismo –, cuja repercussão tem reverberado muito além da internet: nos meios de comunicação tradicionais, como também foi responsável pela articulação do protesto “churrascão da gente diferenciada”, por exemplo.

De modo que a internet pode ser encarada como um paliativo – apresentado pelo status quo como suficiente – para a falta de legitimidade das instâncias representativas das atuais democracias – legitimidade aqui não no sentido legal, antes nosentido “moral” –, como dão mostras não apenas os índices de abstenções, votos brancos e nulos de eleições pelo mundo, como o efervescente ano de 2011, seus ni-ni espanhóis, estudantes chilenos, turba londrina, e por último o Occupy Wall Street – para não falar dos mimados-vagabundos-mascarados da USP e de Harvard, que invadem reitorias.

Os exemplos acima não foram ao acaso. O Brasil, até os recentes eventos da USP, curiosamente vinha num contínuo contra-fluxo, comper da de visibilidade dos seu principais movimentos sociais “de rua” – como MST e MTST. Na sociedade do espetáculo, um movimentode massa perder visibilidade implica quase necessariamente na perda de poder – serve de ilustração a grande disputa pelo edifício São Vito, em São Paulo, sinônimo de discussão sobre moradia popular e direito à cidade, que foi ignorado pela imprensa, e passou despercebido pelo respeitável público.

Me volto à mais aclamada das manifestações do ano, depois da primavera árabe, o Occupy Wall Street,que se disseminou por diversas cidades dos Estados Unidos e do mundo. O “Empty Wall Street” promovido pelo governo, com apoio da corte suprema do país, que declarou legal a proibição de acampar em locais públicos, deixou claro que a internet pode ser auxiliar na arena política, mas está longe de ser seu palco principal – que continua sendo a rua.

Comonos séculos passados, quem está com a rua está com o poder de fato, e as demonstrações desta semana mostram que não é preciso sequer estar armado. Buscou-se no discurso médico-científico a alegação do risco de doenças, e no discurso do medo (que já prescinde de cientistas) a necessidade de segurança, sob o pretenso aumento da violência (brigas, mortes, drogas), a legitimidade para ouso da repressão policial; sem precisar, assim, admitir que o verdadeiro motivo para o esvaziamento dos locais públicos é o fato da efetividade da representatividade democrática e desse poder descolado da população estarem sendo não apenas questionados, mas corroídos por algumas milhares de pessoas acampadas em uma ou algumas praças.

Retomo a discussão mais em evidência por estestristes trópicos, semana passada: por que a PM e não uma estação de metrô na USP?


Pato Branco, 16 de novembro de 2011.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Ordem ou conflito: democracia e a PM na USP

A parceria da reitoria da USP com a PM pode não ser, por princípio, nada benéfica para o ambiente acadêmico; contudo, a presença da PM no campus tem se mostrado, na prática, de grande interesse para sociedade, que fica conhecendo um pouco da principal universidade do país, e para a USP, que fica conhecendo um pouco destes tristes trópicos que a cercam. É evidente que o pretenso objetivo da PM no campus – coibir a criminalidade – não tem sido posto em prática – autuar estudantes com cigarro de maconha não soa inibidor de assassinos. Isso, porém, não é extraordinário: é dever do Estado zelar pela vida, como explicar a PM paulista ser responsável por 20% dos assassinatos da capital paulista, conforme dados do próprio governo [http://glo.bo/tQlaB2]? Por sinal, a morte do estudante da FEA ainda não foi bem explicada, e a explicação oficial – assalto – não foi bem digerida por boa parte dos estudantes – diante dos boatos que pairam, a não-solução do caso parece ser interessante para a reitoria.

Trato novamente das reações raivosas dos cidadãos de bem às atitudes radicais de uma minoria dos estudantes, que resolveram invadir primeiro o prédio da direção da FFLCH, o da reitoria da USP, depois.

Curiosamente, uma das grandes virtudes alardeadas do sistema democrático representativo liberal é a garantia de poder para as minorias (minorias no sentido de classes, não de grupos étnicos, opção sexual ou afins). O Brasil, com a necessidade de maioria qualificada para alterações constitucionais e parlamento bicameral, segue o melhor do receituário para a preservação da voz e dos direitos dessas minorias. Salvo as esquerdas radicais, quase ninguém questiona tais garantias, que no Brasil ganham o status de privilégio – basta ver o número de grandes proprietários de terra que o país possui e a força que eles têm no congresso.

Garantias que são ótimas no parlamento, aquele antro de corruptos, onde são todos farinha do mesmo saco, conforme os incorruptíveis e politizados homens de bem – muitos deles professores da USP.

Quando a questão desce para o mundo quotidiano, e as minorias deixam de ser as endinheiradas, a reação é diametralmente diferente. No caso motivador desta crônica, a primeira acusação – seja da comunidade acadêmica, seja dos homens de bem de fora da academia, seja dos meios de comunicação – costuma ser a de que se trata de uma minoria dos estudantes. Isso é inquestionável! Mas vem a questão: não vi o grupo que invadiu a reitoria ter dito que falava por todos os alunos, no máximo pode ter dado a entender que defendia os interesses da universidade e dos estudantes – isso, porém, a imprensa faz todo santo dia: diz defender interesses gerais, sendo que se é geral, é de todos, sem que tenha nunca consultado os todos por quem diz falar.

E por qual motivo tal minoria, a exemplo do que ocorre nas casas representativas, não deveria ter direito a voz e voto (que não simbólico) na universidade? Não tendo, deveria simplesmente se calar e aceitar o que vem de cima (bovinamente, como os cidadãos de bem)?

Ao mesmo tempo, se a minoria radical aceitar ter voto em instâncias representativas, implica que concordou a “ordem burguesa”: como vai poder defender suas bandeiras? Logo, suas bandeiras são factíveis com atos isolados, como ocupação de reitorias, ou, sem a grande noite da revolução, se trata somente de oba-oba-hormono-revolucionário?

E o Estado, sendo democrático e de direito, não teria a obrigação de entrar na justiça contra aqueles que descumpriram as leis – ou, como as manifestações são de “esquerda”, cabe o “dois pesos duas medidas”? Por outro lado, que democracia é essa que não suporta conflitos? (Notem que não estou falando nem de movimentos sociais, nem da questão de sindicâncias internas da universidade).

Sem dúvida, a discussão é bem mais complexa do que simplesmente PM ou não PM no campus, e exige reflexões mais profundas e soluções menos simplistas. A única certeza que se pode ter é que com cassetetes é que não se aprenderá a dialogar, e sem diálogo a solução fica na dependência de métodos definitivamente anti-democráticos – nada que os homens de bem e a imprensa não tenham apoiado num passado recente e não voltariam a apoiar, caso necessário.

Pato Branco, 07 de novembro de 2011.

domingo, 6 de novembro de 2011

Vagabundos, baderneiros, maconheiros, irresponsáveis... incompetentes?

Richard Dawkins questiona algures o que não seria da física e da ciência se Newton tivesse se dedicado integralmente a ela, ao invés de ter perdido tempo com discussões estéreis, como as sobre religião. Não lembro se ele faz a mesma pergunta sobre Einstein, Heisenberg e outros físicos e cientistas da primeira metade do século XX. De qualquer forma, chuto uma resposta à sua pergunta: se Newton tivesse se abstido das atividades extra-científicas, assim como os grandes cientistas da primeira metade do século XX, em geral bastante engajados politicamente, teria sido tão medíocre quanto a grande maioria dos pesquisadores da atualidade.
A intelligentsia acadêmica brasileira (para ficar na parte tida por pensante da sociedade) não é nenhum Richard Dawkins, mas bem gostaria de sê-lo: ter panca de inteligente e intelectual, morar na Inglaterra, dando aula para ou tendo como colegas pessoas com boa formação, convivendo com gente “civilizada”, enfim (salvo eventuais hordas bárbaras, como a de agosto). Claro, não precisa ser ateu – apenas pró-ciência e anti-comunista.
Novo protesto na USP, e lá vemos novamente as mesmas manifestações dos bons cientistas da universidade e dos homens de bem de nação, criticando os baderneiros que não querem estudar e atrapalham o bom andamento da ciência tupiniquim.
Afinal, conforme ranqueamentos internacionais, da TopUniversities, para ser mais exato, a USP é a melhor universidade latino-americana, e a 169º do mundo. Não que eu ache que esses rankings sirvam para muita coisa, mas nossa intelligentsia certamente se guia por ela – publicações, prazos, congressos, papérs, bolsas, tudo é feito em função do que os gringos dizem que é bom.
É de se questionar, portanto, onde não estaria a USP, não tivesse todos os incômodos causados por esses alunos que fazem protestos, greves, ocupam prédios.
Bem... talvez estivesse fora do ranking das 200 melhores: dos nove cursos que aparecem entre os 200 melhores, nas diversas áreas, seis – filosofia, sociologia, história, lingüística, ciência política e geografia – são da FFLCH. E se esses alunos estavam fumando maconha e fazendo greve, é de se questionar, então, o que estavam fazendo os demais dos 198 programas de pós da USP. Assistindo tevê, lendo Folha e Veja?
Surpresa? Não deveria ser. A ciência pura pode até existir (não vou entrar nesta questão), mas o cientista puro, certamente não. Não por acaso, quando a Science publicou reportagem sobre a ciência no Brasil, quem ganhou destaque não foi a Fapesp e seus quase 800 milhões de reais – que não mereceu uma mísera linha –, e sim um cientista que faz bastante alarde político – ainda que questão de política científica, mas com uma visão bem menos tacanha de ciência que Brito Cruz, ou demais coronéis da ciência paulista –, Miguel Nicolelis.
Esta ocupação de prédios na USP poderia ser uma ótima oportunidade para esses pesquisadores fazerem uma auto-crítica (proposta ingênua, eu sei): ao invés de desqualificarem o outro, entrarem realmente no debate – não é obrigado a concordar com a atitude, contudo, é radicalmente diferente negar a política, exigindo logo a ordem e a autoridade –, e admitirem: pessoas, mesmo as diferentes, as chatas, as que usam vermelho, as que fedem, eventualmente podem ter mais assuntos e ser mais interessantes do que ratos e átomos.

Pato Branco, 06 de novembro de 2011.

sábado, 22 de outubro de 2011

Até o final!


Torcedor 1 – Olha, gol!
Torcedor 2 – Gol?
Torcedor 3 – Que gol bizarro!
Torcedor 2 – Gol mesmo?! Vamos comemorar!
(A torcida comemora com grande entusiasmo, apesar de ser 47 do segundo tempo).
Torcedor 1 – O cara da imprensa nem tá mais aqui.
Torcedor 2 – Sacanagem!
Torcedor 1 – Ah, o cara já se mandou...
Torcedor 3 – Mas a torcida ainda tá aqui!
Torcedor 2 – E como foi o gol?
Torcedor 1 – Você não viu?
Torcedor 2 – Não.
Torcedor 1 – Foi um gol feio, bate-rebate-entrou.
Torcedor 3 – Já pensou se o Paraná empata?
Torcedor 2 – Seria bonito.
Torcedor 1 – A Ponte tá vacilando muito.
Torcedor 2 (subindo na grade) – A gente podia provocar a torcida adversária.
Torcedor 3 – Como aquele ali? – e aponta para um torcedor ponte-pretano que acha uma brecha na lona que oculta uma torcida da outra, grita dois impropérios e pára.
Torcedor 1 – Desistiu.
Torcedor 2 (grita para a torcida adversária, que nessa hora pressiona pedindo o fim do jogo) – Tão com medo? Tão com com medo?
Torcedor 1 (apontando para um integrante da comissão técnica, na beira do gramado) – Olha aquele lá, o desespero.
Torcedor 2 – Chuta pra frente! Chuta pra frente! Antes que o jogo aca...be... acabou.
Torcedor 3 – Quase, ein?
Torcedor 1 – Deu um sufoco na Ponte nesse finalzinho.
Final: Ponte Preta 4 x 3 Paraná Clube.
E quando Vannucci, eu e Ricardo saímos do Moisés Lucarelli, toda a torcida do Paraná que resistiu até o final e pôde comemorar o terceiro gol da equipe deixou o estádio (detalhe: eu, que não vi o gol, era o único torcedor paranista). Enquanto nos afastávamos, combinávamos de aparecermos para um próximo jogo – mas na torcida animada.

Campinas, 22 de outubro de 2011.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Ruth, a balconista.

Não é incomum pessoas mais velhas e mais doentes se apaixonarem pelas suas enfermeiras, até mesmo se casarem com elas – vide o caso de Stephen Hawking. Incomum também não é pessoas mais novas, na efervescência dos seus hormônios, se apaixonarem pela caixa do mercado, pela atendente da loja ou, como Daniel Francoy – apesar de já estar um tanto além dessa idade hormonal –, pela chinesinha da lanchonete da esquina – casos que dificilmente sairão desse platonismo de balcão, que tenta se rebelar contra as relações mercantis que se interpõem a uma grande paixão. Eu, apesar da “ralidade” dos cabelos e das muitas doenças que coleciono este ano – em 2011 já tive contato com mais doenças diferentes do que com mulheres, o que não é algo muito difícil; de qualquer forma, não mudaria a frase mesmo que fosse um Don Juan –, insisto em parecer jovem, abaixo dos vinte e cinco anos. Daí que, tendo minha mania de não ficar nem lá nem cá – o que acaba por não desagradar tanto quem está pra lá quanto quem está pra cá, como acaba também por não agradar ambos os lados –, decido me apaixonar não pela enfermeira, que meu caso não é dessa gravidade, mas pela atendente da farmácia de nome Ruth – porque ainda tenho meu lado jovem.
Entrei naquela farmácia, ao lado da casa da minha última namorada – coincidentemente –, de uma rede que possui loja não tão longe de onde moro, porque era caminho para a acupuntura. Calhou que o remédio estava mais barato do que nos outros lugares. É claro que não foi a economia que me fez ficar apaixonado por Ruth: é que além da beleza e simpatia, ela ainda ostentava um belo par de olhos, um belo par de bochechas e sardas na quantidade certa. E é claro também, não sou mais adolescente, não é porque preciso de um antisséptico bucal, ou um complexo vitamínico, ou algum remédio que irei pegar dois ônibus para ir, outros dois para voltar, gastando assim seis reais, apenas para ver se na farmácia onde Ruth trabalha é mais barato: fico sem o antisséptico, as vitaminas, o remédio, até o dia em que, tendo que ir ao centro por qualquer motivo, dou uma desviada no caminho até o Cambuí, e aí, sim, sabendo o horário que trabalha – próximo ao meio-dia –, vou em busca do que me falta – falo dos remédios. Assim faço, e lá está ela! Já ocupada com outro cliente, fazendo outra coisa que não atendendo, e eu sem outra oportunidade de ser atendido pela própria, ter seu sorriso só pra mim.
Uma amiga já me avisou que cantada na farmácia, comprando remédio, não parece uma boa, não passa a melhor das impressões. Sugeriu que minha outra paixão platônica daria mais futuro – apesar de eu não conseguir saber que futuro dá o platonismo. Concordei com ela, ainda que não tenha desistido de freqüentar a farmácia da Ruth. E sobre a ressalva posta, ainda guardo minhas esperanças: vai que ela imagine que todos aqueles remédios que eu compro, com a receita em meu nome, são para outra pessoa que não eu?

Campinas, 21 de outubro de 2011.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Entre escolhas e a indignação


Em Indignação, Philip Roth narra parte da história de vida de Marcus Messner, que para fugir do pai repentinamente super controlador, transfere a faculdade da Robert Treat, na sua natal Newark, próximo a Nova Iorque, para Winesburg, localizada na área rural de Ohio, e dedicada a formar engenheiros e profissionais liberais. De uma vida urbana, em que dividia bancos da praça com mendigos e tinha aulas com professores vindos de NY e de viés esquerdistas – a história se passa em 1951, a Guerra das Coréias acontecendo e a ameaça de ser chamado para lutar, caso não esteja cursando uma universidade é uma constante –, acaba numa universidade em que é obrigado a freqüentar aulas de religião, onde impera o moralismo mais tacanho e os alunos se segregam por “fraternidades”. De um lugar onde ele estava relativamente bem adaptado e em que o diferente era o outro, passa a ser ele o diferente: judeu, ateu, que pretende ser um livre-pensador, independente, que se nega a participar de uma fraternidade, a se adequar aos moldes que todos os alunos da Winesburg seguem.
Por conta disso, fica difícil conciliar seu espírito cosmopolita com a visão estreita dos demais alunos, e suas desavenças com colegas de quarto surgem rapidamente. Primeiro com Flusser, num quarto de judeus no qual lhe havia sido reservada uma cama; depois com Elwyn, cuja frieza e distância de início pareceram positivas, mas depois se tornaram insuportáveis. A única pessoa com quem consegue ter uma relação mais próxima é Olivia Hutton, primeira garota com quem tem algum tipo de relação sexual, e que fora mandada a Winesburg pelos pais com o intuito de que se reabilitasse, depois de, bêbada, ter tentado suicídio cortando os pulsos – com ela, mais do que amor romântico, há um quê de identificação. Por conta das mudanças de quarto, é chamado pelo diretor da instituição, o dr. Caudwell, com quem acaba discutindo asperamente desde a vigilância sobre suas mudanças de quarto até a obrigatoriedade das aulas de religião, passando pela sua recusa em entrar no time de beisebol ou em alguma fraternidade.
Estão postos os elementos para a crônica de um fim anunciado. Marcus sabe – como quem lê sabe – que, na vida dele, para dar errado, basta fazer o “certo”, basta deixar de ser diferente – apesar que foi justo por ser diferente que ele vai se emaranhando nas tramas em que se perde cada vez mais. É sempre pensando no seu melhor – ou por amor –, que seu pai, sua mãe, Sonny Cottler, da fraternidade judaica, Flusser, Caudwell, vão empurrando Marcus para um fim que não é inexorável, mas que lhe custará abdicar da sua independência, de ser o livre-pensador em tempo integral – por um período, que seja. Mas parece ser justo essa liberdade o que mais o caracteriza.
E se por um lado Marcus, na efervescência dos seus dezoito anos ainda não é capaz de saber que suas escolhas mais banais podem levar a resultados desproporcionais, Caudwell tem plena certeza disso – como tem plena ciência do que está acontecendo no mundo. Porém Caudwell é um acadêmico, cristão, moralista. Marcus Messner é apenas outro aluno qualquer – da pior espécie, dos que não obedecem hierarquias.

Campinas, 19 de outubro de 2011.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Médicos, palhaços e uma minoria que faz questão de ir além.

Outlier é como a estatística chama os casos em uma amostra que estão muito fora do espectro das respostas padrões, e por isso são desconsiderados. Reconheço que eu via como outliers o que chamo de bons médicos, aqueles que além dos conhecimentos técnicos exigidos, têm atenção e cuidado para com seus pacientes – nada excessivo, apenas o necessário na relação entre duas pessoas. Resistia – e ainda resisto – em taxar essa minha postura como preconceituosa, ainda que tampouco a julgue positiva: diria antes que se trata de má vontade com a classe médica, fruto de interação não apenas com médicos enquanto profissionais, mas com parentes que seguiram a profissão, e de ter morado com estudantes de medicina, numa república que virou ponto de encontro de parte da turma – para não falar do relato de amigos não-médicos que trabalham na área da saúde.

Semana passada tive a oportunidade de pôr essa minha concepção à prova, ao aceitar o convite para participar de uma mesa sobre máscaras sociais, no evento Medicina, Cultura e Arte 2, organizado pelos alunos da Faculdade de Medicina do ABC – convite que me surpreendeu, tanto quanto o teor do evento.

Por conta de alguns acasos, acabei ficando além, muito além da mesa que participei, e do que havia planejado e esperava: como domingo precisaria estar em São Paulo de novo, aceitei a sugestão e o convite para dormir no Diretório Acadêmico, onde acampavam parte dos participantes de outras cidades. Com isso pude ter um contato com os alunos bem maior do que havia tido durante a tarde, alunos tanto da FMABC, quanto de outras universidades, Unesp, Curitiba, Recife. 

Como um deles mesmo admitiu, estudantes e médicos como os participantes do MCA são minoria – porém minoria é diferente de outlier! E, mais animador: trata-se de um pessoal ciente que está numa posição de poder perante a sociedade, e que está disposto a refletir sobre as próprias práticas – disposição que me pareceu até maior do que na grande maioria de quem é das ciências humanas, até porque enquanto estes se julgam pensadores natos, e isso os desobrigaria da auto-reflexão, aqueles sabem que estão tendo uma formação técnica e se vêem forçados a ir além do que a faculdade oferece.

Voltei do ABC mais otimista: descobri que médicos e futuros médicos com uma visão holística do paciente existem em maior número do que eu imaginava, e estão se organizando – pelo que entendi, começam a. Quem sabe em um futuro não tão distante, aliado a políticas governamentais e iniciativas institucionais que já ocorrem, médico da saúde da família, por exemplo, não seja considerada uma carreira para os fracassados.

Campinas, 11 de outubro de 2011.

ps: o título fica por conta de muitos dos estudantes com quem conversei participarem do projeto "Sorrir é viver", que, pondo alunos transformados em palhaços (clowns), procura humanizar a formação médica e dar uma aliviada no carregado ambiente hospitalar. É inspirado nos Doutores da Alegria (que fizeram uma apresentação-palestra no primeiro dia do evento, por sinal) e na medicina de Patch Adams.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Ah, tantos chamados!

Andava eu por Campinas, ensimesmado em minha dor nada poética – pelo contrário, até me impedia de pensar nos eventos recém ocorridos que caberiam em uma crônica como a do macho cordial –, quando ouvi uma voz feminina me interpelando impaciente “Vem logo, Dalmoro”. Dalmoro é como muitos de meus amigos me chamam – e eu mesmo prefiro ser chamado assim. Olhei para o lado, a mulher insistiu uma vez mais: “anda, amor”.

Sem respirar aliviado, porque a dor continuava, entendi o ocorrido: a habitual confusão entre “amor” e “Dalmoro”. Não que eu me ache um cara que apaixona loucamente mulheres casamenteiras à primeira vista, ou à segunda, terceira, décima; ou que esteja carente a ponto de sair à cata de chamados de amor atirados ao zéfiro (apesar de teimarem que meu negócio seria mais os chamados atirados ao euro). É que se se falar amor meio enrolado, acaba soando como Dalmoro – por isso eu achar que é comigo. Felizmente não é sempre que amor e Dalmoro se parecem – digo na sonoridade, que é o móbil desta crônica.

Pior é com meu irmão: ninguém pode escutar mal, não entender algo ao seu lado, que logo acha que a parada é com ele.

Graças a uma foto minha, que teimaram que era dele, ostenta desde a adolescência o lacônico apelido de . Um dia, quando eu falava do meu problema com chamados vindos de desconhecidos, contou que seu drama era muito maior: é alguém ao seu lado perguntar “ã?”, e já está se virando, achando que estão falando com ele. E poucas vezes de fato estão: gasta a virada do pescoço à toa, e encena novamente a cara de “disfarça...” – que segue ruim, por sinal.

Nessa conversa, até cheguei a cogitar se não teríamos algum problema mal resolvido de egocentrismo crônico, achar que o mundo gira ao nosso redor: só porque eu ligo do celular da namorada do meu amigo e ele atende dizendo meu nome, antes d'eu falar qualquer coisa, e eu encafifo “como ele descobriu que era eu quem estava ligando?”; ou meu irmão que atende a todos não-entendimentos, “ã?”. Coisa que vem de casa, sem dúvida, já que meu pai, de nome pouco usual – Dejanir –, em alguns casos se espicha para atender a uma solicitação “de janeiro”, até que O engole toda sua prontidão.

Cheguei à conclusão, então, que nossos apelidos, associados a uma atenção, essa sim um tanto carente, acabam por nos pôr nessas situações que soam como quem leva o mundo no umbigo. E no fim das contas, enquanto eu ouço chamados que não são pra mim, recebo e-meios – ou até comentários no blogue –, reivindicando que eu desça um pouco do planeta onde estou com a cabeça e seja capaz de ouvir quando me chamam, “Dalmoro!”, realmente.

Campinas, 08 de setembro de 2011.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Os cientistas que poderiam estar matando, roubando, mas estão apenas pedindo mais dinheiro para...?

O mandarinato júnior tupiniquim tem se mexido ultimamente, ao menos na Unicamp: em nome da ciência de qualidade, dizem, querem reajuste de suas bolsas de pós-graduação.

Quem me conhece sabe que estou anos-luz de defender a ética do trabalho; sabe também da minha birra com a torre-de-marfim que é a universidade pública brasileira, ainda privilégio de uma elite, sem reais intenções de alterar o quadro.

A alienação com o mundo extra-muros por parte dos pós-graduandos não é completa, contudo, como é claramente perceptível no escárnios com os mais marginalizados da sociedade que eles dizem atender.

Um dos cartazes, seguindo a toada que começa nos idos tempos do trote, em que veteranos põem calouros pra brincar de pedintes em sinais, diz "Eu poderia estar matando. Eu poderia estar roubando. Mas estou pedindo sua colaboração. Ajude-me a fazer ciência". Certo. Poderia estar trabalhando também, porque qualificação ele tem – é portador no mínimo de um diploma de nível superior, quando não de mestrado –, caso ache que esteja vivendo em situação próxima à de mendicância com sua bolsa de R$ 1.200 ou R$ 1.800 – valores baixos, sem dúvida, mas há questões outras que um pesquisador deveria levar em conta além de achincalhar com quem não teve as mesmas oportunidades que ele e de pedir grana pro cafezinho.

A desculpa geralmente utilizada em favor das bolsas é que ter um trabalho tornaria inviável a pesquisa. Se assim fosse, a PUC-SP não poderia ter o conceito que tem nos parâmetros ditados pelos doutores das universidades públicas – bolsa ali serve no máximo para não pagar a mensalidade. Trabalhar, na verdade, não permitiria noitadas cinco vezes por semana.

Concordo que seria uma perda trocar noitadas por uma rotina enfadonha, mas parece ser a única forma dessas pessoas descobrirem que a universidade não é um mundo em miniatura, com tudo o que há lá fora mimetizado.

Prova da ignorância do mundo real por parte desse mandarinato em (má) formação, que usa o preço do cafezinho para mostrar a perda do seu poder de compra, é a briga pelo aumento do valor das bolsas, tão-somente. Questões outras, tanto de interesse da universidade, da sociedade e da ciência, quanto deles próprios, são deixadas de lado. O fato, por exemplo, de não ser permitido trabalhar com carteira assinada – o que leva-os a trabalhar sem, contrariamente ao contrato assinado e muitas vezes prejudicando colegas que não conseguiram bolsa. Ou então não reivindicar que o período de bolsa passe a contar para a aposentadoria (são seis anos, mestrado e doutorado, para não falar no pós-doc).

Contudo, se os pós-graduandos da Unicamp não enxergam além da universidade, além do umbigo, surpresa seria se conseguissem pensar além de um presente imediatista.


Campinas, 05 de setembro de 2011.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Fora de forma

Há quem ache reconfortante achar um bode expiatório para seus problemas. Não costuma ser o meu caso, ainda mais se o tal bode vier acompanhado (uma cabra expiatória?) do fator tempo.

Tenho tentado voltar a escrever crônicas, após breve intervalo. Entretanto me vejo muito fora de forma: levo no mínimo duas horas, ao invés dos trinta minutos, como era minha média de antigamente; ademais, não tenho conseguido ser sucinto como havia me proposto – tenho outros espaços, como a Casuística, para me alongar e ser mais prolixo –, e o pior: no geral, ando insatisfeito com o que tenho escrito. Atribuo essa minha perda de forma aos apertos do mestrado, que me fez abandonar temporariamente esse hábito que me é agradável – ou costumava ser.

Não é, contudo, a primeira vez que o mestrado me põe fora de forma. Costumo dizer que fiz três besteiras ao começá-lo: parar com o tai-chi, com o yoga e com a musculação.

Já tentei correr, mas acho muito chato. Por três vezes tentei retomar a musculação, mas não consegui – antes fiz cinco anos porque gostava! O tai-chi, esse até voltei por um ano, mas fui obrigado a abandonar, por causa do prazo para qualificar o mestrado e dos seus horários não propícios – ou muito cedo, ou na hora em que eu estava mais rendendo.

E fico me perguntando se essa minha forma atual, em que minha idade parece ter invertido seus números – 82 e não 28 –, com trocentos probleminhas de saúde, além de falta de fôlego e raciocínio (mais) lento, não será o que ostentarei ao fim do mestrado, além do meu título – que ficará bem menos visível.

Se eu soubesse que iria acabar assim, e que isso é culpa mesmo do mestrado, teria partido para a terceira graduação antes da pós. Mas não sei, tenho a impressão que meus cabelos têm caído não para dar lugar a conhecimentos mais aprofundados, e que não adianta eu tentar achar bode expiatório, até porque o tempo já passou. Ou melhor, segue passando, e meu prazo final se aproxima – e é bom eu me aligeirar, se não quiser perder o resto da minha cobertura superior por causa de preocupação.


Campinas, 29 de agosto de 2011.

domingo, 28 de agosto de 2011

O macho cordial latino-americano


Há no imaginário a figura do macho latino-americano, aquele sempre seguro de si, que não pede informações porque nunca se perde, e que não aceita desfeita, ainda mais de mulher – só do chefe, mas é que ali é diferente, há seus motivos, que o referido macho não vê porque se justificar, afinal, duas desfeitas é demais. Eventualmente, os machos mais sentimentais, como Vinícius de Moraes, podem chorar de tristeza de amar, porém o farão na mesa do bar, ao lado de um copo, dos amigos – nada de correr atrás da amada. Bibelô, personagem do Angeli, é um outro exemplo do tipo, atualmente não raro sob roupagem um pouco mais moderna, num discurso mais doce – até mesmo com um visual metro-sexual.

Por Sofia, Luiz Tatit promoveu uma quebra nesse homem todo-poderoso: insistia todo dia, mas Sofia, Sofia!, não ouvia. Ele esperava, cedia, tudo para mostrar seu haicai, para ela especialmente feito. Porém, parece que haicai não cabia bem no conceito de poesia de Sofia – ou seria Tatit por inteiro que não cabia no seu conceito de homem?

De qualquer forma, com “Haicai” o macho cordial latino-americano saiu do armário, criou coragem para cantar suas agruras no tom que elas merecem ser cantadas: sem choros, melodramas, aquele ar sério que o macho típico gosta de dar, e que acabaria dando à sua desilusão amorosa um tom patético – porque de ridículo, já basta a situação e seu protagonista.

Mas para o macho cordial, ao menos o do século XXI, Tatit é ousado demais para estes tempos de pessoas audazes. A cordialidade do macho na América Latina não raro oculta um quê de desajuste existencial com a sociedade machista – porque homem também sofre com machismo.

Eis então que surge Alice, ali, parada, sentada, com a cabeça esvaziada, que o macho cordial observa ao longe, calado, fazendo planos, divagando. Cuja aproximação, desgastante e hesitante, é cantada em “Alice”, música de André Vac e Thomas Huszar, da banda paulistana Memórias de um Caramujo: “Alice, que tolice, eu aqui me declarando para você e você nem aí para minha declaração. Declaração talvez nem seja, só um convite humilde para um dia tomarmos um café, se der, se por acaso sobrar um tempinho no seu expediente – ou não, 'cê vê, me liga”. É a abordagem anti-machista, tudo o que uma mulher não quer ouvir. E o pior, ainda resta a dúvida: ele se “declara” mesmo, ou apenas almeja em fazê-lo? “logo eu, que de te olhar já me arrepio, me desmonto, caio em peças; imagina, eu falando com você, quando te olhar já dói bastante”. Ao contrário de “Haicai”, não há música alta a tornar inaudível o que ele tem a dizer, só o próprio homem a perder a voz diante de toda a responsabilidade que lhe cabe.

Da projetada sabedoria de Sofia ao imaginado país maravilhoso de Alice, o macho cordial latino-americano não apenas sonha em ser visto e desejado por sua Dulcineia, tenha ela o nome que tiver – meus casos foram pouco criativos, ou foi Karina, ou foi Carine, ambas das artes –, como em se ver desobrigado de tomar a iniciativa por ser o macho, simplesmente. Até lá, fazer disso motivo de choro? Como Tatit e Memórias de Um Caramujo, o macho cordial sabe que melhor é dar risada de si mesmo.


Campinas, 28 de agosto de 2011.

Passo o myspace da Memórias de Um Caramujo, já que o Luiz Tatit não é nada difícil de achar referências na internet: http://www.myspace.com/memoriasdeumcaramujo

sábado, 20 de agosto de 2011

Da precariedade dos argumentos – o movimento feminista da Unicamp (III)

(ou, de quando a defesa ajuda quem ataca)


Aproveito a manifestação “contra a violência à mulher” promovido pelas estudantes da Unicamp há pouco para terminar minha trilogia contra o movimento feminista da universidade.

Me atenho ao detalhe da chamada: a questão feminina estará tão bem encaminhada que haverá apenas uma espécie de violência contra a mulher? Ou estará num patamar tal, da violência total – o apocalipse, o campo de concentração –, de forma que é de se questionar o porquê de uma passeata e não de um convite a um ato um pouco mais radical – suicídio coletivo ou mulheres-bomba. Claro, não é um erro de grafia que invalida a iniciativa. Invalida-a, por exemplo, ter sido encampada pelo DCE-PSol (foge ao escopo e ao espaço desta crônica explicar o porquê, mas este vídeo ilustra um pouco a ética do grupo/partido: www.vimeo.com/7630032).

O lapso na grafia, contudo, aponta o que trouxe nas outras duas crônicas: um problema conceitual que não é inconsciente – ainda que a seja de se imaginar que as feministas (feministas, não as mulheres!) não consigam ir muito além de onde estejam.

Começa que para elas violência parece ser só a física – no máximo as discriminatórias –, e de homens contra mulheres ou do sistema contra elas – em geral externas, via intervenções cirúrgicas ou indumentária. As auto-inflingidas, as de mulheres contra mulheres, essas inexistem ou são aberrações. Disso decorre que os inimigos são poucos e facilmente identificados (o texto das feministas da Unicamp é de uma precariedade exemplar): o homem, o machismo, o capitalismo – como se não houvesse uma tradição no Ocidente de no mínimo dois mil anos de história reforçando dado papel da mulher, para ficar apenas numa faceta bem visível da questão.

Ademais, banalizar toda tentativa de assédio como sendo estupro e ponto, ao espalhar boatos em série de estupros (passei a desacreditar todos quando em dado período de 2008 se tornaram semanais), o movimento perde credibilidade e a própria violência contra a mulher perde a seriedade com que merece ser tratada – acho que estas minhas crônicas ilustram bem isso.

Pior: certa feita ouvi no Bandejão uma conversa entre um grupo de alunos ao meu lado: criticavam um deles por ter embriagado uma amiga para que ela “consentisse” fazer sexo anal com ele: “fazer isso com puta tudo bem, com amiga é sacanagem”. O fato de ser um “amigo” embrumaça a história, mas que se trata de um estupro, como aquele em que um desconhecido encosta a faca contra o pescoço da mulher, não há dúvidas.

Porém, apesar do mesmo nome, são violências diferentes – e não falo aqui de gradações –, que exigem precauções diferentes. Uma exige não dar bobeira entrando sozinha numa viela às onze horas da noite; a outra, tomar cuidado com o seu colega de sala, um cara que parecia tão legal, isso numa festa, onde tudo até então era só diversão. Ao começar logo com a palavra ESTUPRO, em letras garrafais, e sem ter o cuidado de fazer a distinção entre as diversas modalidades dessa violência – pelo contrário –, o imaginário popular fixa logo o caso “violento”, deixando que o caso mais corriqueiro continue acontecendo, encarado como mera “sacanagem”.

Que defesa das mulheres é essa?


Campinas, 27 de julho - 20 de agosto de 2011.


ps: Questão que me surgiu ao ver chamada para nova marcha contra "a violência contra a mulher em Campinas": as feministas querem mesmo que os estupros acabem, o que, dado o atual contexto sócio-histórico brasileiro exige, infelizmente, certas precauções e auto-restrições - e não falo das mini-saias -; ou desejam acima de tudo punição ao estupradores, sem notar que isso pressupõe a necessidade do estupro?

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Da precariedade dos argumentos – o movimento feminista da Unicamp (II)

(ou, de quando as alunas da Unicamp estiveram prestes a pedir asilo na África do Sul)


Falei na crônica passada da fase cretina sobre aborto pichado pelo coletivo feminista da Unicamp.

Há também um e-mail que recebi falando de mais um estupro em Barão Geraldo. As feministas adoram boatos de estupros. Chego a achar que sentem prazer em espalhar o medo, mas prefiro acreditar que se trate de mera tática para angariar apoio a qualquer custo à causa – inclusive ao custo de perder esse apoio com requintes de ressentimento no futuro, se não for constantemente alimentado. É tática corriqueira utilizada pela esquerda caduca e pela direita up-to-date, e que consiste em fugir da realidade apelando para o emocional mais rasteiro, na esperança do medo ter o poder convencimento que o seu discurso racional não possui.

Enfim. Conforme a mensagem, trata-se do terceiro estupro em duas semanas. Para ficar na média estadual (1 para 5800 mulheres, mais ou menos), Barão precisa de sete por ano. Se seguir nesse ritmo alucinado de estupros em produção fabril, Barão terá aproximadamente 1 estupro para cada 1400 mulheres ao fim de doze meses. Falta pouco para as alunas da Unicamp pedirem asilo na África do Sul.

Conforme a lógica da apelação ao medo, vale tudo: de inflar dados, a lembrar casos de cinco anos atrás (ouvi isto de uma garota homossexual, que não sei quão atuante foi, mas teve contato com o movimento), a interpretar de maneira sui generis a fala do delegado do 7º DP: o fato d'ele ter dito que a falta de atenção da vítima contribuía para a abordagem do estuprador – eu tinha ouvido ele falar isso sobre assaltos, duas semanas atrás, ele deve gostar de se repetir –, foi interpretado como tendo jogado a culpa do estupro na vítima. Não se trata de pôr a culpa, mas de alertar que a grande placenta Barão Geraldo está no Brasil, um Brasil com índices de criminalidade acima da Suécia ou dos condomínios fechados.

Diz o “arreal” e-mail: “não é possível que tenhamos nossa liberdade cerceada, que sintamos medo toda vez que saímos de casa ou que usamos tal ou qual roupa”. Passar sozinha às 23h por uma viela escura que eu não me aventuro depois que escurece não exime o estuprador de culpa, mas que é prova de falta de percepção de realidade, isso é (há três anos tive discussão sobre esse suposto caso de estupro). E o mais divertido é o e-mail terminar identificando o verdadeiro inimigo por trás da ideologia do crime de estupro: o capitalismo.

Respiro aliviado ao saber que antes do século XVIII não havia violência contra a mulher, e vislumbro uma luz de esperança no passado.


Campinas, 27 de julho de 2011.


ps: não serei desleal, me contaram de dois dos casos de estupro. Ficou faltando o terceiro, na verdade o primeiro, que pode muito bem ter acontecido, não nego, mas também não acredito piamente. Pelo que me contaram, prenderam também o estuprador – o mesmo para todos casos.


ps2: o e-mail feminista:

"Na última sexta-feira foi notificado mais um caso de estupro em Barão Geraldo, desta vez perto da moradia da Unicamp. Infelizmente este não é um caso isolado, o que se comprova pelo absurdo de três estupros em apenas duas semanas, um deles perto de um distrito policial próximo à Unicamp. A própria universidade muitas vezes mascara estes dados ao abafar os casos de estupro e mostra total descaso com esta violência brutal ao não tomar medidas, ainda que mínimas, que garantam a integridade física das estudantes, como iluminação adequada, circular interno, e seguranças com concurso público, preparados para prevenir casos como este e receber estudantes que tenham sofrido tamanho trauma.

A resposta da polícia a esta situação, que vem assustando e indignando principalmente moradoras e estudantes, é dizer que é normal em um local com muitos moradores de cidades menores e outros países, que não têm o hábito de tomar os mesmos cuidados que quem já mora em Campinas, haver este tipo de crime. De acordo com o delegado do 7º DP, Tadeu de Almeida, não há motivo para preocupação, já que o número de casos registrados está dentro da média esperada.

Achamos que o machismo é uma ideologia imperante em nossa sociedade, que tem o estupro como sua face mais perversa; repudiamos a declaração do delegado, que apenas naturaliza esta ideologia, isto é, a própria opressão. É um direito nosso, das mulheres, de ter relações sexuais com quem queremos, mas também é nosso direito de dizer NÃO. E a culpa não é e nunca pode ser jogada na vítima: não é possível que tenhamos nossa liberdade cerceada, que sintamos medo toda vez que saímos de casa ou que usamos tal ou qual roupa.

Porém, também acreditamos que as saídas individuais, como as aulas de defesa pessoal, não bastam. Além de medidas imediatas que busquem prevenir a violência machista, devemos nos organizar, mulheres e homens trabalhadores e da juventude, para combater essa ideologia. E identificar qual o nosso verdadeiro inimigo: o capitalismo, que utiliza do machismo para melhor oprimir e explorar o povo, dividindo mulheres e homens trabalhadores numa luta entre si.

Exigimos nosso direito de estudar e trabalhar sem ter receio na hora de voltar para nossas casas! Exigimos nosso direito de usar minissaias e roupas que desejamos sem o medo de que sejamos as próximas a serem estupradas! Exigimos nosso direito de ter relações sexuais com quem quisermos!

ACORDA UNICAMP!"

domingo, 24 de julho de 2011

Da precariedade dos argumentos – o movimento feminista da Unicamp (I)

(ou, de como fiquei sabendo que os homens de Malta têm placenta)

Em uma democracia de massas os movimentos de massas são fundamentais para seu funcionamento. São eles quem põem – muitas vezes impõem – debates à sociedade – ainda mais num país em que a pauta do dia costuma ser dada prioritariamente pelo presidente de turno. Por exemplo, não fosse o MST e a questão agrária – que atualmente avançou para uma questão territorial – teria ficado em terceiro plano, e a violência no campo talvez hoje fornecesse mão-de-obra para o crime organizado, assim como nossas prisões.

Os movimentos de massas, além de colocar o debate, são também importantes para mantê-los na cena pública. Porém, na hora de conduzi-lo, quando esses movimentos conseguem não se prejudicar a si próprios, já saem no lucro. Poderia buscar exemplos no MST, mas me centro num que tem me incomodado por ser mais próximo e mais presente para mim: o movimento feminista da Unicamp.

Me incomoda por dois motivos, primeiro porque são pessoas que estão numa universidade, muitas já na pós-graduação, e são incapazes de elevar o nível da discussão; segundo porque sou favorável à boa parte das – se não todas – bandeiras defendidas pelo movimento: fim da chamada jornada dupla exclusiva para mulheres, legalização do aborto, e, onde cabe, igualdade entre os sexos – pois, apesar das feministas negarem, há diferenças entre macho e fêmea, mesmo no gênero humano.

Quer dizer, ao menos eu, um reaça desinformado, assim cria. Porque a levar a sério uma das pichações das feministas, no Canadá, na Espanha, em Malta, na Nova Zelândia, homens já possuem placenta. Diz a tal pichação: “Se homem engravidasse, aborto já seria lei”. A conclusão lógica não é nada difícil de se alcançar. Perceber a precariedade do raciocínio tampouco.

Quem o movimento pretende sensibilizar com esse tipo de “argumento”? Os convertidos mais dogmáticos talvez aplaudam, mas os que não vêem motivos para apoiar o aborto, seguirão tão convictos quanto. E na minha visão é para esses que o debate deveria ser direcionado.

Quem sabe se as integrantes do movimento feminista da Unicamp saíssem de seu mundinho muito estreito e fossem atrás de outros exemplos, dentro da própria causa feminista, como os quadros da artista lusitana Paula Rego – seja a série em defesa do aborto, ou outras obras não tão específicas, mas muito forte na abordagem da temática da violência contra a mulher –, não conseguissem elevar o debate, alcançar ouvidos surdos à sua causa? Quem sabe se não agissem muitas vezes contra a própria causa o aborto não estaria mais próximo de se tornar lei, sem necessidade de homem ter ovário e placenta?

Campinas, 24 de julho de 2011.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Sinais dos tempos

Não é apenas da minha densa cabeleira que eu sinto falta. Bons (e saudáveis) os tempos em que eu ia ao médico uma vez por ano, para ele olhar os numerosinhos dos exames, botar o estetoscópio nas minhas costas e dizer que eu estava bem – no máximo que eu apresentava uma anemia e que precisava engolir uns comprimidos de ferro do tamanho de uma castanha-do-pará.

Comecei há pouco tempo a fazer tratamento com acupuntura. Para quem quase desmaiou da última vez que fez exame de sangue, ser toda semana espetado por uma dúzia de agulhas e não passar mal é um avanço. Já vinha de outros carnavais a minha vontade de me aventurar por essas terras, mas sempre me esquecia de pedir referências ao Aílton, o médico homeopata que há um par de anos me assiste. Lembrei finalmente no início de maio quando, por conta de estresse com o mestrado, fisgadas que se tem na coxa quando se tem uma distensão eu estava tendo na cabeça. Isso passou junto com a entrega do texto da qualificação, e eu nem precisei ir à acupunturista. E tudo parecia se encaminhar para um organismo mais saudável: minha “pangastrite severa com três úlceras” do início ano (dava nome de banda, conforme um amigo), por exemplo, tinha dado lugar a uma mera gastrite crônica. Oficialmente eu até poderia me aventurar a comer pizza novamente (não livre de riscos).

Mas eis que fiquei sabendo que possuía uma disfunção, cuja causa talvez seja o estresse. Não é a erétil, por enquanto, e sim hipoglicemia.

Hipo, pouco, glicemia, açúcar. Oba! Dieta à base de chocolate, leite-condensado e pipoca doce, pensei. Que nada: lá estou eu, no alto do meu obsceno peso, pedindo adoçante, por favor. Doeu mesmo ter que restringir queijos e chimarrão. Porque os doces, no fim estou comendo mais do que antes, por ter que comer cada duas horas (o que eu já vinha mais ou menos fazendo por causa da gastrite) e frutas secas serem uma das melhores opções. O mais curioso é a possibilidade de, quem sabe, vir a ganhar peso agora que parei de comer doces.

E esta semana ficou bem marcado o sinal desses novos tempos. Num dos potes em que guardava uma das variedades de erva-mate, esvaziei-o para pôr as frutas secas: banana, tâmara, pera, figo, damasco, abacaxi. Ficou bonito, parece um pote de doces sortidos. Uma hora o pus ao lado do pote em que ainda resta os velhos tempos, a erva-mate. Analisava-os, degustando os prazeres de cada um e me perguntava: qual será minha doença do fim do ano?

Campinas, 08 de julho de 2011.