quarta-feira, 1 de junho de 2011

O direito ao preconceito e à intolerância

Acho que já é passada a hora do PSDB mais do que fazer um mea-culpa, agir para tentar reparar todo o obscurantismo que seu candidato à presidência de 2010, José Serra, autorizou e fortaleceu sobremaneira.

Aproveitando-se do momento de fragilidade do ministro da casa civil, Antônio “pepita de R$ 20 milhões” Palocci, a frente parlamentar evangélica, liderada por Anthony Garotinho (PP), mostra bem a interpretação bíblica sui generis que esse grupo de eleitos representa: ao invés do “ofereça a outra face”, o “é dando que se recebe”. Poderia ser só na política, na negociação de verbas e migalhas de poder, tal qual se espera de um político padrão brasileiro; porém a pressão contra o kit anti-homofobia e agora contra a lei que criminaliza a homofobia mostram que esse pensamento vai muito além da esfera parlamentar, ele é um pensamento conseqüente do que isso traz de implicações na sociedade.

Porque Realengo pode não ser rotina, mas não foi algo sem causas, e a bancada evangélica lava as mãos para o fato inconteste de que o assassino foi influenciado antes e acima de tudo pelo ideal ascéptico tão característico do cristianismo e pelo uso que os “homens de bem” fazem dele nas suas pregações. Pode ter havido bullying, desequilíbrio mental, e mais outras tantas causas; quem juntou tudo isso e ofereceu como solução a chacina purificadora foi a religião cristã.

Quem se opõe à criminalização da intolerância só pode ser o intolerante. E o discurso da intolerância, nunca é demais lembrar, é o discurso do ódio, do assassinato, da morte.

Como disse no início, o PSDB tem sua grande dose de culpa, ainda que não seja, claro, responsável pela eleição ou formação da bancada evangélica. Se quer agir como oposição conseqüente e como partido progressista que um dia foi – ao menos nos costumes e direitos civis –, é hora de reconhecer o momento e perder uma boa oportunidade de encurralar o governo para evitar que a mentalidade mais reacionária encurrale o país.

Contudo, Alckmin continua no partido, José Serra continua no partido, FHC defende que o PSDB busque as novas classes médias, essas que votam em Bolsonaros, Enéas, xerifes e pastores. Talvez nossa esperança deva ficar mesmo fora da política, no STF. Até porque se formos tentar fazer política com as próprias mãos, a polícia fará a dela, que é a da repressão autorizada pelo Estado Democrático de Direito – esse que democraticamente autoriza o direito ao preconceito e à intolerância.


Campinas, 01 de junho de 2011.

1 comentário:

Hugo Ciavatta disse...

Ficou bom o texto.
Sem recriminações dessa vez! rs
Abraços