sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Ruth, a balconista.

Não é incomum pessoas mais velhas e mais doentes se apaixonarem pelas suas enfermeiras, até mesmo se casarem com elas – vide o caso de Stephen Hawking. Incomum também não é pessoas mais novas, na efervescência dos seus hormônios, se apaixonarem pela caixa do mercado, pela atendente da loja ou, como Daniel Francoy – apesar de já estar um tanto além dessa idade hormonal –, pela chinesinha da lanchonete da esquina – casos que dificilmente sairão desse platonismo de balcão, que tenta se rebelar contra as relações mercantis que se interpõem a uma grande paixão. Eu, apesar da “ralidade” dos cabelos e das muitas doenças que coleciono este ano – em 2011 já tive contato com mais doenças diferentes do que com mulheres, o que não é algo muito difícil; de qualquer forma, não mudaria a frase mesmo que fosse um Don Juan –, insisto em parecer jovem, abaixo dos vinte e cinco anos. Daí que, tendo minha mania de não ficar nem lá nem cá – o que acaba por não desagradar tanto quem está pra lá quanto quem está pra cá, como acaba também por não agradar ambos os lados –, decido me apaixonar não pela enfermeira, que meu caso não é dessa gravidade, mas pela atendente da farmácia de nome Ruth – porque ainda tenho meu lado jovem.
Entrei naquela farmácia, ao lado da casa da minha última namorada – coincidentemente –, de uma rede que possui loja não tão longe de onde moro, porque era caminho para a acupuntura. Calhou que o remédio estava mais barato do que nos outros lugares. É claro que não foi a economia que me fez ficar apaixonado por Ruth: é que além da beleza e simpatia, ela ainda ostentava um belo par de olhos, um belo par de bochechas e sardas na quantidade certa. E é claro também, não sou mais adolescente, não é porque preciso de um antisséptico bucal, ou um complexo vitamínico, ou algum remédio que irei pegar dois ônibus para ir, outros dois para voltar, gastando assim seis reais, apenas para ver se na farmácia onde Ruth trabalha é mais barato: fico sem o antisséptico, as vitaminas, o remédio, até o dia em que, tendo que ir ao centro por qualquer motivo, dou uma desviada no caminho até o Cambuí, e aí, sim, sabendo o horário que trabalha – próximo ao meio-dia –, vou em busca do que me falta – falo dos remédios. Assim faço, e lá está ela! Já ocupada com outro cliente, fazendo outra coisa que não atendendo, e eu sem outra oportunidade de ser atendido pela própria, ter seu sorriso só pra mim.
Uma amiga já me avisou que cantada na farmácia, comprando remédio, não parece uma boa, não passa a melhor das impressões. Sugeriu que minha outra paixão platônica daria mais futuro – apesar de eu não conseguir saber que futuro dá o platonismo. Concordei com ela, ainda que não tenha desistido de freqüentar a farmácia da Ruth. E sobre a ressalva posta, ainda guardo minhas esperanças: vai que ela imagine que todos aqueles remédios que eu compro, com a receita em meu nome, são para outra pessoa que não eu?

Campinas, 21 de outubro de 2011.

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