terça-feira, 29 de novembro de 2011

Quando Ruth, a balconista, não estava.

Sinceramente, tem horas – e não são poucas – que invejo o Daniel Francoy, a quem basta sair de casa e tomar o rumo certo – sentido bar da esquina –, e tem grandes chances de, nem que seja de relance, ver sua idolatrada chinesinha. Se tiver tempo e alguns poucos reais, pode ainda desfrutar do seu aroma, ao comprar uma água tônica, ou um pacote das suas ainda mais idolatradas jujubas, com o que não apenas alivia a modorra do trabalho burocrático, como preenche diariamente seu facebook. 

Eu, de minha parte, mesmo que morasse próximo, e não distante dez quilômetros da farmácia de Ruth, de nada adiantaria acertar o rumo, já que o referido estabelecimento não é escancarado para a rua, e pior: não me bastam alguns reais, preciso também de uma receita para poder ir até lá, tentar a sorte de ser atendido por ela – para, quem sabe, ela encetar novamente o papo sobre final de semana do nosso primeiro encontro, e, finalmente, acabar me convidando pra sair. Infelizmente, não tenho sequer a oportunidade de freqüentar a farmácia com freqüência, o que dizer da sorte do que viria a seguir.

Não precisar ir sempre à farmácia já é alguma sorte, não? Perguntará alguma desavisada leitora que desconhece em absoluto os encantos de Ruth, e que há de pensar que estou sendo irônico em minha queixa de não ter uma receita sempre à mão. Meu lamento é, contudo, sincero: doente crônico, o remédio me é uma constante durante o mês, o passeio na farmácia que não o é: saio do médico e vou logo à botica, “fazer o rancho” pro mês, como se diz nas terras que me pariram – tal qual faziam meus pais outrora, na época dos dragões gordos, mal recebiam o salário, numa demonstração de falta de criatividade e de comunhão nacional.

Pois lá estava eu, saindo do Aílton, o homeopata que há mais de meia década me assiste, e rumando, não precisava dizer, rumo à farmácia da Ruth, ou melhor, onde ela trabalha. No caminho, ia imaginando mil situações, ensaiando n frases de efeito, planejando como seria nossa lápide – isto para o último quarto do século, não que eu queira abreviar qualquer coisa.

Ao chegar lá, receita em mãos – depois me questionei, por que a pressa? – passo o olho pela farmácia: cadê ela? Onde está Ruth, a balconista? Será seu dia de folga e eu não sei? Saiu de férias? Banco de horas? Foi demitida? Estará doente? Teria morrido? (e nossa lápide, como fica?) Casou e foi viver com o marido, me deixando ali, com a receita na mão, como uma noiva com o buquê em pleno altar?

Pois não? Pergunta outra atendente, na verdade farmacêutica – bonitinha, até, com um jeitinho delicado, merecedora de um olhar mais atento, não trabalhasse na mesma farmácia que Ruth, pobrecita. Queria este remédio. Ela vai em busca do remédio, quando vejo Ruth saindo de uma sala no fundos da loja, carregada de caixas, que quase a cobrem. Ah, Ruth é tão bela! Deixa as caixas sobre o balcão, conversa algo com duas colegas, e retorna à sala. Tem um sorriso nos lábios – é pena que não me viu, senão diria que era por ter me visto que sorria. A farmacêutica volta com o remédio que me cabe, diz quais são as ofertas para mim naquele dia. Agradeço, vou até o caixa: o cartão enrosca para passar, a caixa se atrapalha, pede desculpas. Imagina, digo, com extrema sinceridade, quase pedindo para que se atrapalhe um pouco mais – ou que peça ajuda para aquela atendente que naquele momento não atende ninguém, apenas carrega caixas. Ainda me demoro um tempo mais para digitar a senha do cartão, na esperança de Ruth aparecer uma vez mais. Nada.

Saio de lá um tanto decepcionado. No caminho, encontro um amigo, que me informa que minha outra paixão platônica – aquela que minha amiga disse que dava futuro (ao que tudo indica, tanto quanto papéis da dívida grega) – entrou para a banda de um amigo que toca cover do Morphine. Legal!, pensei num primeiro momento. Então me dou conta: nos últimos seis shows da banda, cinco eu soube só depois de terem acontecido, o outro fiquei sabendo tão em cima da hora que não pude aparecer – e de nada adiantou xingá-lo por não ter me avisado, ele segue sem me avisar.

Decido, por fim, que é melhor achar um jeito de planejar como voltar à farmácia de Ruth em menos de um mês – e sem precisar ficar mais doente nesse ínterim.


Campinas, 29 de novembro de 2011.

ps: Ruth, a balconista

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Estimular as crianças


Dizem os livros de auto-ajuda pedagógica que é bom estimular as crianças desde cedo, para que se desenvolvam mais inteligentes. Uma pena que há mães que parecem seguir tudo o que dizem por aí, menos a parte boa dos estímulos.

O cartunista Angeli tem uma série que adoro: “duas coisas que eu odeio... e uma que eu adoro”. Numa das tirinhas, não lembro quais as duas que ele odeia, mas lembro a que ele adora: crianças hiperativas: no quadrinho, defronte a ele, uma criança alucinada, e ele pergunta: e chimpanzé, você sabe imitar? Lembrei dessa tirinha quando fiquei dez minutos dentro do ônibus, esperando dar a hora dele sair do terminal.

Uma menina, devia ter seus cinco anos (sou ruim pra chutar idade de criança), corria do fundo do carro pra frente e se pendurava na catraca, da frente pro fundo e pulava no banco, do fundo pra frente, da frente pro fundo... enquanto isso a mãe, mal-humorada e preguiçosamente, sentada num dos bancos da frente, mandava ela parar – no máximo, o que ela conseguiu foi que ela mudasse a rota: subia em um banco na frente, se pendurava na catraca, pulava em outro, no imediatamente atrás, subia na catraca...

Eu estava sentado no último banco, e a menininha, quando vinha para o fundo, pulava exatamente ao meu lado. Uma hora, tendo provocado algum barulho que não ouvi, ela parou, achando que havia quebrado algo. Interagi qualquer coisa com ela: está pesada, ein? Não, estou forte! UAAAH!!! E foi pra frente, onde mudou de rota, pulando um pouco pelos bancos daquela região, enquanto a mãe mandava ela sossegar. Foi nessa hora que lembrei da tira do Angeli e lamentei meu sempre lerdo raciocínio – principalmente quando na interação com outrem.

Ela, porém, resolveu voltar, e eu resolvi aproveitar a chance. Consegue se pendurar ali em cima? Perguntei, apontando para a barra de segurar. A mãe me olhou com cara feia nessa hora. Não, sou pequena. Me respondeu a guria. Tem que pular alto. Não dá, olha. E pulou – duas vezes –, demonstrando que não conseguia. Foi o suficiente, porém, para que ela, que já andava um tanto agitada, ficasse a mil, para irritação maior da mãe, que não deixou ela se sentar ao meu lado, quando o ônibus partiu, e teve, então, que aguentar ela pulando e a pentelhando durante boa parte da viagem – até o momento em que, finalmente, cansada de mandar que parasse, se dignou a se levantar, pegou ela no colo e a segurou à força.

Lamentei por ambos o fim da diversão, aquela mãe mal humorada, para quem o problema da filha saracotear no ônibus em movimento não era ela se machucar, mas ela estar enchendo o saco. De qualquer forma, descobri que Angeli tinha razão: pôr pilha em crianças já em estado de serelepice profunda é divertido – inclusive pra elas, que devem ter poucas oportunidades de um adulto dando corda. E a diversão ganha um gosto extra quando a mãe não gosta e em breve você vai descer, deixando que ela cuide da filha – que só queria brincar sem atrapalhar ninguém.

Campinas, 28 de novembro de 2011.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Quem tem medo das ruas ocupadas?

A internet tornou-se parte importante da arena política, isso é inegável. Uma mostra foi a eleição para presidência dos EstadosUnidos de Barack Obama, que soube fazer bom uso da rede, principalmente para arrecadação de fundos pra campanha. No Brasil, temos presenciado este ano reiteradas discussões – classificá-lasde “quente” seria eufemismo –, cuja repercussão tem reverberado muito além da internet: nos meios de comunicação tradicionais, como também foi responsável pela articulação do protesto “churrascão da gente diferenciada”, por exemplo.

De modo que a internet pode ser encarada como um paliativo – apresentado pelo status quo como suficiente – para a falta de legitimidade das instâncias representativas das atuais democracias – legitimidade aqui não no sentido legal, antes nosentido “moral” –, como dão mostras não apenas os índices de abstenções, votos brancos e nulos de eleições pelo mundo, como o efervescente ano de 2011, seus ni-ni espanhóis, estudantes chilenos, turba londrina, e por último o Occupy Wall Street – para não falar dos mimados-vagabundos-mascarados da USP e de Harvard, que invadem reitorias.

Os exemplos acima não foram ao acaso. O Brasil, até os recentes eventos da USP, curiosamente vinha num contínuo contra-fluxo, comper da de visibilidade dos seu principais movimentos sociais “de rua” – como MST e MTST. Na sociedade do espetáculo, um movimentode massa perder visibilidade implica quase necessariamente na perda de poder – serve de ilustração a grande disputa pelo edifício São Vito, em São Paulo, sinônimo de discussão sobre moradia popular e direito à cidade, que foi ignorado pela imprensa, e passou despercebido pelo respeitável público.

Me volto à mais aclamada das manifestações do ano, depois da primavera árabe, o Occupy Wall Street,que se disseminou por diversas cidades dos Estados Unidos e do mundo. O “Empty Wall Street” promovido pelo governo, com apoio da corte suprema do país, que declarou legal a proibição de acampar em locais públicos, deixou claro que a internet pode ser auxiliar na arena política, mas está longe de ser seu palco principal – que continua sendo a rua.

Comonos séculos passados, quem está com a rua está com o poder de fato, e as demonstrações desta semana mostram que não é preciso sequer estar armado. Buscou-se no discurso médico-científico a alegação do risco de doenças, e no discurso do medo (que já prescinde de cientistas) a necessidade de segurança, sob o pretenso aumento da violência (brigas, mortes, drogas), a legitimidade para ouso da repressão policial; sem precisar, assim, admitir que o verdadeiro motivo para o esvaziamento dos locais públicos é o fato da efetividade da representatividade democrática e desse poder descolado da população estarem sendo não apenas questionados, mas corroídos por algumas milhares de pessoas acampadas em uma ou algumas praças.

Retomo a discussão mais em evidência por estestristes trópicos, semana passada: por que a PM e não uma estação de metrô na USP?


Pato Branco, 16 de novembro de 2011.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Ordem ou conflito: democracia e a PM na USP

A parceria da reitoria da USP com a PM pode não ser, por princípio, nada benéfica para o ambiente acadêmico; contudo, a presença da PM no campus tem se mostrado, na prática, de grande interesse para sociedade, que fica conhecendo um pouco da principal universidade do país, e para a USP, que fica conhecendo um pouco destes tristes trópicos que a cercam. É evidente que o pretenso objetivo da PM no campus – coibir a criminalidade – não tem sido posto em prática – autuar estudantes com cigarro de maconha não soa inibidor de assassinos. Isso, porém, não é extraordinário: é dever do Estado zelar pela vida, como explicar a PM paulista ser responsável por 20% dos assassinatos da capital paulista, conforme dados do próprio governo [http://glo.bo/tQlaB2]? Por sinal, a morte do estudante da FEA ainda não foi bem explicada, e a explicação oficial – assalto – não foi bem digerida por boa parte dos estudantes – diante dos boatos que pairam, a não-solução do caso parece ser interessante para a reitoria.

Trato novamente das reações raivosas dos cidadãos de bem às atitudes radicais de uma minoria dos estudantes, que resolveram invadir primeiro o prédio da direção da FFLCH, o da reitoria da USP, depois.

Curiosamente, uma das grandes virtudes alardeadas do sistema democrático representativo liberal é a garantia de poder para as minorias (minorias no sentido de classes, não de grupos étnicos, opção sexual ou afins). O Brasil, com a necessidade de maioria qualificada para alterações constitucionais e parlamento bicameral, segue o melhor do receituário para a preservação da voz e dos direitos dessas minorias. Salvo as esquerdas radicais, quase ninguém questiona tais garantias, que no Brasil ganham o status de privilégio – basta ver o número de grandes proprietários de terra que o país possui e a força que eles têm no congresso.

Garantias que são ótimas no parlamento, aquele antro de corruptos, onde são todos farinha do mesmo saco, conforme os incorruptíveis e politizados homens de bem – muitos deles professores da USP.

Quando a questão desce para o mundo quotidiano, e as minorias deixam de ser as endinheiradas, a reação é diametralmente diferente. No caso motivador desta crônica, a primeira acusação – seja da comunidade acadêmica, seja dos homens de bem de fora da academia, seja dos meios de comunicação – costuma ser a de que se trata de uma minoria dos estudantes. Isso é inquestionável! Mas vem a questão: não vi o grupo que invadiu a reitoria ter dito que falava por todos os alunos, no máximo pode ter dado a entender que defendia os interesses da universidade e dos estudantes – isso, porém, a imprensa faz todo santo dia: diz defender interesses gerais, sendo que se é geral, é de todos, sem que tenha nunca consultado os todos por quem diz falar.

E por qual motivo tal minoria, a exemplo do que ocorre nas casas representativas, não deveria ter direito a voz e voto (que não simbólico) na universidade? Não tendo, deveria simplesmente se calar e aceitar o que vem de cima (bovinamente, como os cidadãos de bem)?

Ao mesmo tempo, se a minoria radical aceitar ter voto em instâncias representativas, implica que concordou a “ordem burguesa”: como vai poder defender suas bandeiras? Logo, suas bandeiras são factíveis com atos isolados, como ocupação de reitorias, ou, sem a grande noite da revolução, se trata somente de oba-oba-hormono-revolucionário?

E o Estado, sendo democrático e de direito, não teria a obrigação de entrar na justiça contra aqueles que descumpriram as leis – ou, como as manifestações são de “esquerda”, cabe o “dois pesos duas medidas”? Por outro lado, que democracia é essa que não suporta conflitos? (Notem que não estou falando nem de movimentos sociais, nem da questão de sindicâncias internas da universidade).

Sem dúvida, a discussão é bem mais complexa do que simplesmente PM ou não PM no campus, e exige reflexões mais profundas e soluções menos simplistas. A única certeza que se pode ter é que com cassetetes é que não se aprenderá a dialogar, e sem diálogo a solução fica na dependência de métodos definitivamente anti-democráticos – nada que os homens de bem e a imprensa não tenham apoiado num passado recente e não voltariam a apoiar, caso necessário.

Pato Branco, 07 de novembro de 2011.

domingo, 6 de novembro de 2011

Vagabundos, baderneiros, maconheiros, irresponsáveis... incompetentes?

Richard Dawkins questiona algures o que não seria da física e da ciência se Newton tivesse se dedicado integralmente a ela, ao invés de ter perdido tempo com discussões estéreis, como as sobre religião. Não lembro se ele faz a mesma pergunta sobre Einstein, Heisenberg e outros físicos e cientistas da primeira metade do século XX. De qualquer forma, chuto uma resposta à sua pergunta: se Newton tivesse se abstido das atividades extra-científicas, assim como os grandes cientistas da primeira metade do século XX, em geral bastante engajados politicamente, teria sido tão medíocre quanto a grande maioria dos pesquisadores da atualidade.
A intelligentsia acadêmica brasileira (para ficar na parte tida por pensante da sociedade) não é nenhum Richard Dawkins, mas bem gostaria de sê-lo: ter panca de inteligente e intelectual, morar na Inglaterra, dando aula para ou tendo como colegas pessoas com boa formação, convivendo com gente “civilizada”, enfim (salvo eventuais hordas bárbaras, como a de agosto). Claro, não precisa ser ateu – apenas pró-ciência e anti-comunista.
Novo protesto na USP, e lá vemos novamente as mesmas manifestações dos bons cientistas da universidade e dos homens de bem de nação, criticando os baderneiros que não querem estudar e atrapalham o bom andamento da ciência tupiniquim.
Afinal, conforme ranqueamentos internacionais, da TopUniversities, para ser mais exato, a USP é a melhor universidade latino-americana, e a 169º do mundo. Não que eu ache que esses rankings sirvam para muita coisa, mas nossa intelligentsia certamente se guia por ela – publicações, prazos, congressos, papérs, bolsas, tudo é feito em função do que os gringos dizem que é bom.
É de se questionar, portanto, onde não estaria a USP, não tivesse todos os incômodos causados por esses alunos que fazem protestos, greves, ocupam prédios.
Bem... talvez estivesse fora do ranking das 200 melhores: dos nove cursos que aparecem entre os 200 melhores, nas diversas áreas, seis – filosofia, sociologia, história, lingüística, ciência política e geografia – são da FFLCH. E se esses alunos estavam fumando maconha e fazendo greve, é de se questionar, então, o que estavam fazendo os demais dos 198 programas de pós da USP. Assistindo tevê, lendo Folha e Veja?
Surpresa? Não deveria ser. A ciência pura pode até existir (não vou entrar nesta questão), mas o cientista puro, certamente não. Não por acaso, quando a Science publicou reportagem sobre a ciência no Brasil, quem ganhou destaque não foi a Fapesp e seus quase 800 milhões de reais – que não mereceu uma mísera linha –, e sim um cientista que faz bastante alarde político – ainda que questão de política científica, mas com uma visão bem menos tacanha de ciência que Brito Cruz, ou demais coronéis da ciência paulista –, Miguel Nicolelis.
Esta ocupação de prédios na USP poderia ser uma ótima oportunidade para esses pesquisadores fazerem uma auto-crítica (proposta ingênua, eu sei): ao invés de desqualificarem o outro, entrarem realmente no debate – não é obrigado a concordar com a atitude, contudo, é radicalmente diferente negar a política, exigindo logo a ordem e a autoridade –, e admitirem: pessoas, mesmo as diferentes, as chatas, as que usam vermelho, as que fedem, eventualmente podem ter mais assuntos e ser mais interessantes do que ratos e átomos.

Pato Branco, 06 de novembro de 2011.