segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Da vez que fui impedido de me encontrar com Ruth, a balconista.


Começo a rever meus conceitos, me questionar se os deuses estão realmente a meu favor, ou apenas tirando uma com a minha cara. Precisava novamente ir à Campinas, apresentar o resultado de exames ao médico. Consegui horário apenas no início da noite, às seis e meia – o que acarretava em chegar atrasado ao evento de lançamento do livro de poesias Pontualmente ao encontro ou pomos, um adão cada, do meu amigo André Nogueira, lançado pela Medita Editora, e no qual eu ansiava encontrar minha paixão platônica “com futuro”. Não obstante o horário tardio da consulta, eu necessitava antes buscar os tais exames, o que deveria ser feito até às cinco da tarde, o que implicava em sair de casa antes das quatro.

Vendo que a tarde estaria toda comprometida nisso, decidi antecipar um pouco meu roteiro, para ter tempo de passar na farmácia da Ruth num horário em que ela, provavelmente, ainda estivesse atendendo.

Depois de pegar um ônibus guiado por um troglodita armado de CNH e volante– vulgo um típico motorista campineiro –, peguei os referidos exames e me pus em marcha para as tão necessárias vitaminas. No caminho, hesitava se deveria mesmo ir ao encontro da Ruth: aquele envelope enorme com timbre de hospital, que não cabia na minha mochila, talvez me emprestasse um aspecto de doente: o que pensaria Ruth de mim? Me imaginaria um jovem acabado? Entretanto, ponderei: estou prestes a voltar para Pato Branco, talvez esta fosse a última oportunidade de rever Ruth e, conseqüentemente, dar chances ao destino. Entraria assim mesmo!

No caminho, planejava deixar os novos cartões da Casuística na portaria do prédio de uma amiga, ver se convencia a ela ou sua irmã a participarem da revista. Não sei qual o estilo da irmã, mas essa amiga escreve muito bem, um estilo gracioso, que eu imaginava inato, até ela me contar que escrevia já há anos, escondida – uma verdadeira Lucienne L'accord, eu diria hoje –; além de ter um forte quê heterodoxo, como pude conferir em sua monografia. Coincidentemente essa amiga é minha ex, que coincidentemente mora ao lado da farmácia em que Ruth trabalha. Nova coincidência: não precisei deixar os cartões na portaria, nos trombamos na rua, mesmo – creio que foi a segunda vez na vida. Simpática como sempre, ficamos ali um tempo, conversando. Trabalho, vestibular – ela também resolveu começar nova faculdade –, férias, não-férias, mestrado. Nos estendemos bem uns quinze, vinte minutos nesse bate-papo, e eu teria me alongado mais, não tivesse atrasado para um compromisso: encontrar Ruth.

Logo descobri que poderia ter me prolongado na conversa: ao chegar na farmácia, notei aquela habitual movimentação de quando se está começando o turno, e vi que Ruth não estava. Para esta minha nova saída de mãos abanando, interpretei que havia esquecido a receita – achei que repetir a do celular poderia levantar suspeitas. Quem sabe o médico, dali três horas, não me receitasse qualquer nova oportunidade, para na terça-feira eu voltar à farmácia?

Não maldisse minha ex, não penso que tenha feito propositadamente, até porque sei que não tem o hábito de ler minhas crônicas – quando muito meus prolixos e-mails –, e mesmo que as estivesse acompanhando, não acho que esteja a fim de Ruth, para me ter como um concorrente. Apesar que Ruth, encantadora do jeito que é, melhor não duvidar de nada...


Campinas, 19 de dezembro de 2011

1 comentário:

P. disse...

Apenas duas pontuais considerações e eu já fico satisfeita:
1) Você leu minha monografia?!
2) Você conhece a minha opção sexual, mas a Ruth não. Se você soubesse como ela se agita quando peço um Cebion não tardaria um instante sequer em invadir aquela farmácia e me deixar falando sozinha.