sábado, 29 de dezembro de 2012

Planos de ano novo (versão softcore)

Apesar de dizer que não dou bola pra essas coisas, não resisto: vai chegando a virada do calendário e eu começo a esboçar sonhos, a fazer planos, estabelecer metas para o ano vindouro. Poderia ser influência dos métodos científicos de governança pessoal, porém creio que seja mesmo resquício de infância – ainda que quando pecorrucho eu me contentasse com planos do tipo “o ano que vem vai ser mais legal”, “fazer mais coisas que este ano”, no máximo, “jogar mais videogame” ou “bater tal jogo”. A vida era mais simples, também – eu ainda não tinha tido Kant.

O pior dos planos de ano novo é que estão sempre fadados ao fracasso, eu sei. O que não sei é por que insisto. 

Houve uma vez que decidi ser pragmático, ao menos aparentemente: estabeleci que minha meta de ano novo seria arrumar a casa e jogar fora tudo o que não me servisse mais. Havia até esse evidente efeito renovador. Linda idéia! A parte de arrumar a casa foi fácil. Difícil foi estabelecer o que não me servia mais – vai que pudesse me servir no futuro, como saber? Essa resolução de ano novo, tão singela, que deveria me trazer a satisfação de ter concretizado todas minhas metas, acabou sendo outra frustração. Para piorar, das poucas coisas que joguei fora, uma delas – um tubo de cartão no qual veio um calendário e que nunca tinha utilizado – me fez, deveras, falta no correr do ano.

Nos últimos tempos meus planos têm sido um pouco mais quantitativos. Chamo-os de metas Lula. Eles dão a impressão de que é só você querer que assim será. Falharam, e não porque eu não quis, eu sei, mas ao menos sabe-se por que falhou – por quanto falhou, na verdade. Teve ano que minha resolução foi engordar dez quilos. Musculação, suplemento, refeições reforçadas. Depois de três meses e tinha ganho míseros dois quilos. É um começo, e assim que deslanchar, chego aos dez quilos pretendidos, me consolava, enquanto a balança não se mexia. Uma gripe em maio me fez perder quatro. Passei o resto do ano penando para conseguir recuperar apenas um dos quilos perdidos.

Em dois mil e doze tinha estabelecido escrever todos os dias – pouco importa o que –, ler mais do que em dois mil e onze e comprar tantos livros quanto no ano anterior. A meta de escrever todos os dias, não sei bem, mas devo ter furado em dez dias, no máximo. Me consolei que uma falha ou outra acontecia. E mais outra e mais outra e mais outra, de forma que antes do fim de janeiro já tinha desistido desse plano mirabolante. Ler mais, eu até teria lido, não existisse a internet e o facebook – não culpo a Augusta ou qualquer oriental por isso. Também poderia ter apelado para o expediente de livros fininhos e com gravuras, porém achei que seria deslealdade. Já comprar tantos livros quanto no ano anterior eu consegui cumprir. Além de gastar dinheiro, pra que isso me serviu, eu não sei. Mas cumpri!

Para dois mil e treze, fiz várias cogitações. Ora pensava em ser o mais pragmático possível, ora pensava em arriscar metas impossíveis. Um dos meus planos foi parar de fumar. Chegaria dia primeiro para os meus pais (com quem passarei a virada), pouco depois da hora derradeira, e anunciaria: a partir de hoje não ponho um cigarro na boca! (Nem em outro lugar, caso algum leitor engraçadinho resolva fazer qualquer piadinha cretina). Pronto, era passar o novo ano como passei os últimos trinta, e teria cumprido meu plano. Confesso: teria cumprido a resolução, mas ela em si me soou um tanto frustrante – não sei, faltou um pouco de desafio.

Na linha dos que eu não conseguiria cumprir, pensei em me tornar um Don Juan. Para quem transou oito vezes na vida – aí já incluída a da semana passada –, seria um choque de gestão. Uma das coisas que mais me animou nesse plano é que poderia, quem sabe, surgir a inspiração para um novo romance: a história de um Don Juan ciumento que, em meio a sua seqüência de mulheres, encontra sua cara metade – uma “Dona Juana” ciumenta –, e passa a ter crises agudas de ciúmes, até porque nota que sua parceira é mais eficiente que ele na arte da conquista. Não surgisse esse romance e eu seguisse apenas com as crônicas, ainda assim teria sempre algo sobre o que escrever – mulheres –, e ao invés de passar um ano escrevendo sobre Ruth, a balconista da farmácia, todo mês, poderia escrever sobre uma mulher por semana. Seriam cinquenta e duas crônicas, quem sabe não daria um best-seller, Cinquenta e dois tons de mulheres? Desisti desse plano estapafúrdio: não, não daria um romance, nem crônicas, nem best-seller.

Insisti, contudo, nessa coisa da escrita, e pedi ajuda a um amigo, crupiê de jogos literários. Também me pus como meta, auxiliado pela PUC, que este ano termino, finalmente!, o mestrado – até porque serei jubilado se não o fizer. E decidi que aprenderia a tocar duas músicas novas por mês – independente da dificuldade. Com o peso, resolvi não mexer, deixarei que ele oscile por sua conta, enquanto eu oscilo na insustentável leveza do ser.

E meus planos de ano novo começavam mal, antes mesmo de começar o novo ano. Deixei para o último dia e não consegui montar minha série na Osesp – não achei essa opção no site, e acabei não fazendo a assinatura.

No fim, ao contemplar minha bela obra de engenharia pessoal, senti um certo aperto: cumprir todas minhas metas não me fará uma pessoa melhor (só em titulação), nem mais feliz. Não cumprir, em compensação... Mas, como sou uma pessoa metódica (dizem), não abro mão de ter meu futuro planejado. Aceito contribuições.


Pato Branco, 29 de dezembro de 2012.

sábado, 22 de dezembro de 2012

Último dia do ano em SP

Guardas-chuvas se trombam na calçada da Galvão Bueno, que em dias de sol já se mostra insuficiente para o fluxo de pedestres – mas vagas para estacionar há. Daqui uma semana faz onze meses que me mudei para São Paulo. Graças à rua da Liberdade hoje não me embrulha o estômago quando ouço falar esse nome. A filosofia já me serviu pra algo, vejam só! Me surpreendo de ainda estar em lua-de-mel com a cidade. Não a trocaria nem pelas minhas Pasárgadas, Buenos Aires e Barcelona (quem sabe por Nova Iorque, talvez por conta de uma visão idílica de uma cidade que não conheço). Num futuro governo do moço de bem do Brasil, Luciano Huck, será que o famigerado narrador seria seu porta-voz? No metrô, duas crianças se embasbacam com as luzinhas que piscam do caminhãozinho de brinquedo, ainda em sua caixa – o natal chegou mais cedo. Na Paulista, os chatos (mais que chatos) de coletes cercam os transeuntes – minha cara de hoje fuzilo um tem me poupado dessa maçada. No restaurante japonês, enquanto tomo ban-chá, findo o almoço, chego a achar que as árvores de metal e vidro que acendem à noite ficaram bem – e que poderiam ficar o ano todo, espalhadas pela cidade toda, numa nova forma de iluminação pública das calçadas. Fora isso, sigo com minha opinião sobre decoração de natal. Que me chamem de amargo. Mirian Leitão pra ministra da economia, Coronel Telhada pro ministério da justiça, Silas Malafaia ou algum outro bispo do ramo pra igualdade social, Juliana Paes para ministra do turismo, Adriano (ou o brahmeiro Ronaldo) pro esportes, Zeca Pagodinho na cultura, Aécio Neve na coordenação política? Sim, essa São Paulo de marginais (Pinheiros e Tietê), de Minhocão, de motoboys que levam espelhinhos, de policiais que jogam gasolina em motoboys, de policiais que matam e são ovacionados pelo governador do Estado, de gays e moradores de rua que são espancados por serem gays ou moradores de rua, de universidade estadual para poucos e praças cercadas ao público, de favelas que sofrem de auto-combustão (fenômeno típico). O passeio pela Liberdade – para comprar uns quitutes pra minha mãe – me faz lembrar das minhas aventuras e desventuras com orientais – japonesas, coreanas, taiwanesas. Tenho me perguntado esses últimos dias o que foi meu 2012 – mais intenso do que os últimos cinco anos de Unicamp. No vão do Masp, integrantes de alguma orquestra jovem afinam seus instrumentos ao lado de hippies vendedores de artesanato bêbados turistas e transeuntes que se protegem da chuva. Em São Paulo, o segredo é estar aberto e na rua, comentei com amigo meu, recém mudado, quando flanávamos pela cidade, após um recital de órgão no mosteiro São Bento. Sim, a São Paulo da classe média cheirosa e limpinha (não de preconceitos e de ignorâncias) e que tem na Augusta, com seus bares baladas puteiros, skatistas putas bombados pedintes fanfarras francesas veganos bêbados (pobres e ricos) caídos travestis notebooks baratos oferecidos às duas da manhã policiais com escopetas policiais que perseguem mendigos para mostrar serviço playboys indies conhecidos patricinhas adolescentes, um dos focos de resistência da rua como local de convívio democrático (até quando?); que tem na praça Roosevelt outro ponto de disputa entre quem quer o espaço público para o público e quem quer a lei do silêncio (e não percebe que isso é, na verdade, o que leva à lei do medo), entre o poder econômico e o interesse público; que tem nas ocupações dos prédios do centro um grito de protesto contra a especulação que há tanto tempo estraga a cidade – e ela resiste, como resistem seus habitantes. No metrô, linha verde, ouço a conversa entre dois homens. Um deles comenta: a gente ganhava setecentos reais, aumentaram o aluguel pra quatrocentos e cinqüenta. Eu falei pra mulher: ou a gente entra, ou vai morar em baixo da ponte. Eu tava com um dinheiro sobrando. Essa São Paulo em que o Copan não é uma agressão (como seria em Barcelona), que tem também Pinacoteca, Olido, Boca do Lixo, Sala São Paulo, Municipal, Paulista, boas peças de teatro quase em Itaquera e lixo mass-media para a classe-média idiota, em teatros de stand-up comedy; em que pipocam shoppings centers culturais que oferecem produtos de boa qualidade e sem risco de questionamento da boa ordem – também conhecidos por Sesc. São Paulo que se transformou numa grande zona leste no dia da vitória do Corinthians. Acho que consigo entender: se afirmar como o oposto ao centro da cidade, ser da “ZL”, apesar de morar nos Jardins, não deixa de ser uma provocação, quase aviltante aos homens de bem, para quem pobreza é problema moral (faço mais ou menos o mesmo quando digo que torço pro time da favela). São Paulo que quase me matou com problemas respiratórios no inverno – poluição tempo seco e calor, que maravilha! Que tem o Centro Cultural São Paulo, quase uma continuação da rua, aberto a usos e desvios de seus corredores – talvez meu lugar preferido da cidade. Dia desses, na avenida Paulista, vi um homem engravatado de mãos dadas com uma mulher (muito bonita, por sinal) com um vestido de cauda longa verde-limão. A mulher brilhava, me perguntei se não seria alguma performance. Não deu a impressão. Dias antes, cegos que também foram lidos como mortos. E são performers ou simples malucos aqueles que dançam em cima de lixeiras, na Paulista? Na transferência para a linha azul, sigo ouvindo a conversa: Paguei quase tudo a vista. E pergunta se ela hoje quer sair da nossa casinha? Não quer. Está tudo pago, não tem documento, escritura, mas paguei tudo direitinho. No restaurante japonês, calendários de bolso fazem me lembrar da coleção que minha mãe tinha – eram da década de setenta. É meu último dia do ano em São Paulo. Chovia quando cheguei, como chove hoje. Vejo uma beleza melancólica nessa garoa (que não é tão fina). Como vejo beleza no que deve ter sido e no que pode ser, e principalmente no que São Paulo hoje é. São Paulo dos que se orgulham da sua honestidade e dos que se vangloriam da sua malandragem.

São Paulo, 22 de dezembro de 2012.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Boatos, acusações e interesses

Sobre as novas acusações de Marcos Valério, divulgadas em manchete de primeira página pelo jornalecão O Estado de São Paulo, um pouco de desconfiança não faz mal a ninguém. Não há provas de que aquilo que o empresário disse à procuradoria-geral da república sobre o ex-presidente Lula é verdadeiro, mas há evidências significativas de que existem interesses fortes por trás de mais esse episódio de tentativa de desmoralização do PT e do ex-presidente Lula.

Há uma perceptível disputa pelo poder, entre um grupo – não apenas político – alijado do executivo nacional desde a eleição de Lula, e o que está no governo desde então. Há quem veja nisso um cerrar fileiras contra um projeto político do PT de enfrentamento de desigualdades históricas. Tenho cá minhas dúvidas se se passa por algo tão elevado – o confronto parece, antes, pelo butim estatal. E a grande questão que levanto aqui não é a de que o PT não tenha suas culpas, mas da forma como está sendo tratado em relação aos seus opositores. Em tempo: se o partido colhe o que plantou, uma das suas semeaduras foi o republicanismo do governo Lula na escolha do Procurador-Geral da União e dos ministros do STF (sob o PSDB fernandista, com Geraldo Brindeiro, Nelson Jobin, Gilmar Mendes e afins, qualquer suspeita de corrupção do executivo seria rechaçada).

Ainda que um presidente da República não tenha como saber de todos os atos de seus subordinados – mas não por isso deva ser isentado de responsabilidade –, é difícil acreditar que Lula não soubesse do principal esquema de articulação política do seu governo, que não o tenha avalizado. Porém, fica a dúvida: por que alguém que tinha suas contas pagas pelo partido, depois pela presidência – além do salário –, precisaria de cem mil reais para pagar despesas pessoais? Não que seja impossível, mas não faz muito sentido, convenhamos. Os caciques do Brasil desenvolvido, o sul-sudeste, sabem que podem fazer dinheiro dentro da lei, sem se exporem a esse tipo de corrupção baixa. Se não é mera bravata, onde estão as provas? Fazer jornalismo baseado em boatos e ouvi dizer não soa muito sério.

A explicação para a exposição desse factóide pode estar na capacidade média de raciocínio de leitores de Veja, Folha, Estadão e afins. Talvez com as novas denúncias, uma parte da nossa “classe média ilustrada” (leitora e crente na Grande Imprensa), não sensibilizada pelos ataques ao partido, se sinta ofendida quando avisada de que o desvio de recursos era para enriquecimento próprio do governante. E não é difícil a essa parcela crer que Lula, que não era professor universitário, mas um ex-operário, tenha desejos de se tornar milionário a qualquer custo – sabe como é, pobre é sempre suspeito.

O novo herói da ética no Brasil, o presidente do STF, Joaquim Barbosa, foi interpelado sobre as denúncias. Mesmo admitindo que só as conhecia oficiosamente, cedeu e admitiu que elas precisam ser apuradas. Pode ter sido ingenuidade do magistrado. Isso pouco importa à Grande Imprensa, que pôs em sua boca, na capa do jornal, que ele “quer Lula investigado no mensalão”.

Trata-se de mais um episódio da verdadeira disputa atual da política tupiniquim – evidente mas velada –, que passa por um pseudo-combate à corrupção. Já disse alhures: se o interesse fosse mesmo por moralizar a administração pública, junto com a discussão de episódios, deveria ser levantado também (principalmente) a questão do nosso sistema político e de representação, de como está estruturado. As relações entre interesses públicos e interesses privados, as relações entre executivo e congresso nacional, as relações entre Grande Imprensa e grandes interesses. Apontar o dedo para Dirceu ou Lula, responder apontando o dedo para Azeredo ou Perillo, nada resolvem – antes colaboram para a descrença na política institucional –, são apenas condições iniciais para um debate, muito longe de qualquer mudança efetiva na prática da corrupção no país. Não é arranjando julgamentos com eleições que se vai moralizar a política – mas é arranjando reportagens em grandes revistas que se cria políticos moralizadores de fachada (a interesse de quem?).

São Paulo, 12 de dezembro de 2012.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Executivos de argila atrapalham o fluxo na Paulista

Na esquina da avenida Paulista com a rua Augusta, um grupo de pessoas munidas de poderosas máquinas fotográficas. Conversam animados, mostram suas capturas, buscam um novo alvo. Deve ser mais um desses grupos de aula de fotografia que se tropeçam pela Paulista. Quando minha câmera quebrou (era uma simples, ainda da época do filme) e pensei em comprar uma nova, me dei conta de que se a máquina fosse determinante pra qualidade da foto, teríamos Sebastiões Salgados em série. Não me parece o caso. Desisti de gastar muito numa máquina – na verdade, ainda não comprei uma substituta à minha velha Nikkon sugadora de baterias.

Palhaçada. Parecem múmias do Egito. Encheção de saco. É um protesto. Mas estão protestando contra o que? É um bando de viados, isso sim. Parecem aqueles soldados chineses.

Pouco depois da rua Padre João Manuel, vem caminhando lentamente na direção contrária à minha uma horda de executivos de argila. Argila da cabeça aos pés – digo, sapatos –, em suas pastas, celulares, óculos. Nos olhos, venda. Reações diversas. A primeira e mais comum é sacar o celular para fotografias e pequenos filmes – depois pensa-se sobre o que é aquilo. Há os que param para assistir, tentam entender – pra que isso? Estão protestando contra o que? –, outros xingam por atrapalhar seu caminhar apressado – e não deixa de me chocar terem usado o argumento de que eram “viados” para menosprezar a performance, isso um dia depois de outro homossexual ter sido agredido por cometer o crime de ofender as pupilas puras de pessoas de bem com sua existência –, outros olham, tiram uma foto e seguem, abrindo espaço por entre a argila dos corpos (com cuidado, para não se sujarem); há os que vêem, se surpreendem e seguem; alguns acompanham o cortejo por alguns metros.

Admito, ser pego de surpresa por uma performance é mais interessante do que ir pra Paulista em busca dela – a relação com o ato é muito diferente. Mas não há sorte que garanta sempre se deparar com performances sem querer, às vezes é preciso ir atrás.

Na avenida Paulista, árvores de metal e vidro foram plantadas no canteiro central. Podia ser uma performance, mas é a decoração de natal. No cruzamento com a Padre João Manuel, forma-se uma pequena fila de carros, obrigados a parar pelo grupo que segue seu lento caminhar. Ao liberarem uma das pistas, um motorista faz o motor roncar mais forte, para mostrar sua viril indignação por terem feito perder tempo. É vaiado. Ignora (ou se faz de cego às vaias), e segue com a cara fechada, pondo medo e impondo respeito a ninguém. Em frente à entrada principal do Conjunto Nacional, uma mulher trabalha como estátua viva, faz pose por moedinhas em sua brancura clássica. Algumas pessoas a observam (e tiram fotos) quando vêem os executivos de argila se aproximarem. Fotos para registrar o encontro. O branco neoclássico com o barro anti-pós-moderno. A pureza de um passado idealizado e a sujeira de um presente ignorado. Os homens de argila não querem moedinhas, nem podem parar para contemplar a estátua viva em seu modelito greco-romano. Passam – lentamente.

O grupo munido de poderosas máquinas segue na esquina com a Augusta e se anima com a aproximação da performance: tiraram a sorte grande, algo inusitado para treinarem suas técnicas de fotojornalismo artístico! Menos dois que, cegos para os Cegos, quase de gatinhas, quase enfiando suas objetivas na bunda da mulher, perseguem uma senhora de bengala que atravessa a rua.


São Paulo, 05 de dezembro de 2012.

ps: mais informações sobre a performance Os Cegos podem ser encontradas em j.mp/QL0MhZ

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Aqui e ali (atti kotti)

Desço na estação República. Logo na porta, jabuticabas substituídas por lichias nos carrinhos de mão dos ambulantes. Aranhas feitas artesanalmente e dvds piratas são vendidos logo à frente. Atti kotti. Cenas urbanas. Dança. Mate. Na avenida São João, próximo à galeria Olido, um grande número de pessoas reunidas – imantadas, para usar o termo feliz de Lygia Pape (só não mais feliz que sua obra). Passo próximo, tentando observar o que está pegando ali. Numa mesa improvisada, vendem algo ou jogam, não consigo distinguir; uma pessoa examina uma calça, outra chama um homem próximo para ver a revista pornô que tem em mãos. Pego meu ingresso para o espetáculo de dança e vou comer um xis com um mate. Ao sair da lanchonete, presencio uma grande confusão. Tudo muito rápido, pessoas correndo, pessoas caindo. Briga generalizada? Bem parecia briga entre torcidas. Seria alguma disputa entre facções? É o rapa?, um rapaz pergunta a outro próximo a mim. Não, a polícia mesmo. A polícia militar, cuja função primeira não é proteger ninguém, não é garantir a integridade das pessoas, não é proporcionar segurança, mas preservar a ordem – que ordem?, é de se questionar. E ela garante, a ferro e fogo, se for preciso. Garante. Provocando tumulto e arruaça, se for preciso. Batendo, espancando, matando, se for preciso. Garante. Que ordem? A polícia em vez de prender graúdo vem avacalhar com a nossa feira, que só tem coitado, fala, indignado, um homem. A apresentação a que assisto pouco entendo mas gosto muito. Tem momentos de uma leve tensão irônica, é algo divertida – me fazem lembrar da “moça da dança”, que deve ter traumatizado minha ex-terapeuta, com um ano de um assunto sem fim e sem desenvolvimento. A mulher atrás de mim na fila veste blusa de oncinha, tem as unhas num tom estranho de azul e o dedo mínimo meio torto. Começo a perceber algumas figurinhas carimbadas da Olido – estarei eu me transformando em uma também? E a oriental de tatuagem na testa? Nunca mais a vi. São dezessete pessoas na platéia, quatro no palco, duas na produção – dentre elas a diretora Alice K, uma oriental. O oriente parece que me persegue. E a recíproca parece ser verdadeira. Taomolo, Fei Shuang, we are accidents waiting waiting to happen (em que Gigante vale por três), as coisas aconteciam com alguma explicação, o lunático em Murakami e Subaru de segunda mão; a Luanda de Lobo Antunes, antes em guerra, agora canteiro de obras dos chineses. O que seria de nós, não é, se fôssemos, de facto, felizes? Já imaginou como isso nos deixaria perplexos, desarmados, mirando ansiosamente em volta em busca de uma desgraça reconfortadora, como as crianças procuram os sorrisos da família numa festa de colégio? Um comprimido de antiácido pelo xis e pelo mate e pelo litro de chimarrão durante o dia. A feira se refez, reimantou pessoas. Lembro do homem no trem, na volta da faculdade. Falava em AK-47 e gesticulava muito. Se as frases se encerravam com palavras terminadas em e ou o, parecia balir. Mas nunca matei ninguém, importante é o amor. O homem recém sentado ao seu lado, interpelado, concorda: amor, saúde e trabalho é o importante. Isso mesmo-o-o-o-o. Porém logo o homem que balia se retifica: eu vou admitir pra você-ê-ê-ê-ê-ê, eu não gosto de trabalhar. Eu também não. Bukowski, que me acompanhou nas viagens da semana passada, tampouco parecia empolgado com a labuta. Dentre as diferenças, Bukowski era escritor. Quando me perguntam de onde sou, digo que sou do mundo-o-o-o-o. Resposta errada, creio: no Brasil, para a polícia, cidadão do mundo, só os com três idiomas e carimbos no passaporte. Zé Ninguém filho de Zé Ninguém tem que vir de algum lugar e ir pra algum lugar, ou então é bandido – e se estiver vindo da periferia, da terra dos Zé Ninguéns, é tão bandido quanto, só vai passar porque (se) não acharam motivo pra pará-lo por ali. Mudo de lugar, para poder ler o livro sobre dança que tenho em mãos. Você sabe porque Gabriela não fala mais comigo?, leio no celular da moça ao lado-o-o-o-o-o-o. Ouço o balir de tempo em tempo. De uns dias pra cá, os pedintes na rua sempre hesitam e me cumprimentam antes de pedir dinheiro – acho estranho. E nunca tenho – desde que um deles reclamou que lhe menos de um real. E ao bom dia de uma senhora respondo com um automático não – ela carregava um monte de revistas religiosas e achei que iria me oferecer uma. Na Augusta, vejo um homem parado de quatro sobre um papelão. Poderia ser uma performance. Não é. Passo por ele, fede. Mas poderia. Olho para trás, não parece estar ansiando, passando mal, bêbado, nada, apenas parado, de quatro, na Augusta. Me pergunto qual a diferença entre uma performance e aquela cena? A atitude consciente de perturbar o banal do quotidiano? A atitude consciente de nos fazer ter olhos também para o banal do quotidiano? A possibilidade de tudo acabar quando o performer decidir que é hora? Creio eu que só tenho olhos para aquela cena graças às muitas apresentações de artes e antiartes que vi – As dos Festivais de Apartamento, que me parecem sem sentido, dentre elas. Imantados, pessoas de quatro, a feira dos humilhados do parque com os seus jornais, parangolé (grafitti), atti kotti. Disse certa feita que toda escrita começa pelo olhar: me vejo um analfabeto em enxergar o mundo.

São Paulo, 29 de novembro de 2012.
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sábado, 24 de novembro de 2012

Fora ladrão que já está fora?

Num país em que considerável parte da população do Estado mais rico da federação, em arroubo de bairrismo antiquado e proto-fascista, se orgulha de ser a “locomotiva do Brasil”, a levar o país nos trilhos corretos da história rumo à verdadeira civilização – algo pouco além de uma maria-fumaça da inovação –; em que cargos burocráticos de alto escalão dão abrigo à vanguarda do nosso atraso, um mandarinato acadêmico que tem nojinho de povo e se ressente quando lhes revelam que as grandes novidades que o deslumbra foram questionados no século XIX – como o conceito de universidade, por exemplo –; não é de se espantar que a mentalidade política – tanto da chamada esquerda quanto da chamada direita – não seja lá o supra-sumo progressista.

Há muito critico a chamada esquerda tupiniquim de ter se perdido em algum ponto entre 1848 e 1917 (mesmo a não marxista), seja nas análises, nas quais que ainda espera (enxerga, às vezes) o crescimento do proletariado e ignora o aumento da classe média/pequena burguesia, seja no plano de ação, de apoiar a burguesia a fazer a revolução burguesa, para então preparar o terreno para a grande noite da mudança social.

A chamada direita, por seu turno, conseguiu passar os anos noventa sob um figurino mais modernex. Claro, havia as exceções, como Denis Lerrer Rosenfield, paranóico um tanto atrasado nas últimas notícias, que ainda teme Cuba, vê comunista nas esquinas e crê que, por conta do PT, logo terá que dividir seu carro com os pobres (porque o comunismo, sabe como é). Via de regra, contudo, a direita, graças ao papagaiar passivo de fórmulas da metrópole passava por up-to-date e, sem ter que se preocupar com o pensar, se dava ao luxo de criar frases jocosas com todo o tempo livre de que dispunha: chamou de jurássicos seus opositores, fracassomaníacos e neobobos os que insistiam em criticar as idéias que ela comprava nos USA, Petrossauro e Petrobrax à estatal de petróleo do país.

Quando a esquerda, via PT, assumiu o poder federal, além de roubar o grosso das políticas macro-econômicas da dita direita, ainda teve a audácia de diminuir a oferta de domésticas nas cidades, levar luz elétrica para desdentados dos sertões e pôr pobre em universidade da elite. Com isso a direita perdeu aquela sua aura tão bem envernizada: não podia atacar a esquerda por fazer o que ela fazia, nem tinha propostas para se contrapôr; na ânsia de conseguir fazer alguma crítica, evidenciou sua precariedade e seu atraso: não foi capaz de criticar a partir dos pressupostos que ela dizia se embasar, e tudo o que conseguiu foi manifestar preconceitos, que alguns até tentaram travestir de crítica séria: pobre em aeroporto, preto em universidade, nordestino em supermercado, favelado com casa e carro, e por aí vai (um bom show de stand-up comedy a la Marcelo Tas deve dar um panorama razoável desse pensamento, com os adendos nos costumes).

Ontem, ao sair de casa, noto que colaram um adesivo na lixeira em frente ao prédio – se não foi esta noite, foi esta semana. Nele o sinal de proibido sobre uma mão sem o dedo mínimo, em baixo a frase “Fora Ladrão”. Na hora penso, para além do seu mau-gosto preconceituoso evidente: a chamada direita é retrógrada não somente nas suas idéias, mas suas informações. Assim como alguém precisa informar o Rosenfield que a União Soviética acabou, que Mao morreu (McCarthy também), e que o “deixe a esquerda livre” nas escadas rolantes do metrô não são propaganda subliminar dos comunistas, precisam avisar os militantes da nossa direita que o governo Dilma já vai pra sua metade do seu governo como presidente da república – ou seja, o tal ladrão já está fora, e eles estão gastando dinheiro à toa.


São Paulo 24 de novembro de 2012.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

A violência “sob controle” do sr. Alckmin

Quando o governador Geraldo Alckmin diz que a violência em São Paulo está "sob controle", ou ele está por demais alienado da realidade do estado que comanda, ou é conivente com assassinatos e todo tipo de truculência que a PM sob suas ordens tem sido acusada.

É normal que ele veja a PM paulista como "bem preparada" e dotada de "alta tecnologia" – afinal, um governador que assume falhas, por mais evidentes que sejam, é visto como incompetente na nossa sociedade da hipocrisia –, entretanto, daí para tentar desqualificar a série de denúncias contra abusos cometidos pela polícia já vai contra o que seria de se esperar de um político sério e afim à democracia – o que não surpreende em Alckmin, portanto –, mas agrada a uma boa parcela da população de São Paulo, obscenamente conservadora.

Independente se ignorância ou má-fé do governador, o que de fato está sendo transmitido em seu discurso é um aval às ações truculentas, violadoras dos direitos humanos e do Estado democrático de direito, por parte da polícia. Entra no rol da assustadora “quem não reagiu está vivo”. Pois a impressão que se tem é de que o único controle da violência que o Estado possui – e bem duvidoso, para qualquer um minimante crítico – é de o número de mortos. Ou então a violência “sob controle” a que o governador alude é sinal de que a série de assassinatos que vêm acontecendo há tempos são ações sabidas, respaldadas e legitimadas pelo governo. 

Achar que policiais serem mortos nas horas de folga, ou vinte e cinco civis assassinatos em um fim de semana, ou um publicitário não parar em uma blitze ser autorização para assassiná-lo, é sinal de uma situação sob controle é temerário. Ofende qualquer cidadão que preze pelos direitos humanos – o pessoal de Veja e muitos de seus leitores, que babam ao lê-la pela manhã, não se encaixam neste grupo. Um homem que aparece morto depois de ter sido filmado sob os cuidados da PM não pode estar em conflito, como alegaram os policiais. Não se trata de um caso “lamentável”, como lamentaram as autoridades, é contra a lei, é crime, é inaceitável – ou deveria sê-lo, só não ao defensores da Ordem e do Progresso –, afinal, é a polícia fazendo aquilo que teoricamente ela devia evitar, é o Estado agindo igual ao PCC. E já comentei alhures: escolher entre quem mata menos é uma falsa escolha.

Num Estado em que um partido teoricamente progressista dá abrigo a um jagunço fardado, e que a população o elege para a câmara da capital, os seguidos endossos que o governador dá à violência apenas indicam a continuidade da guerra urbana há muito vivenciada – em especial pelos moradores da periferias pobres. Se trancar em casa, em shoppings super-vigiados, em condomínios fechados, em carros blindados pode parecer uma alternativa razoável – àqueles que podem pagar por esses paliativos, é claro – para fugir dessa guerra que tememos mas não fazemos nada para minimizar, porém apenas estreitam nossa rotina e nossos horizontes, e afirmam num grito mudo que não temos mais esperanças.

São Paulo, 14 de novembro de 2012.

domingo, 11 de novembro de 2012

Os lentos cantos do destino no oriente.

Gestos vagarosos, em harmonia com o lento desenrolar da coreografia. Assistir ao Chants de la destinée, da companhia taiwandesa Legend Lin Dance Theatre foi – não apenas, mas primeiramente – uma experiência de estranhamento – para mim, recém saído da leitura de O império dos signos, de Roland Barthes, também de auto-reflexão sobre o Ocidente. Como pouco sei da cultura de Taiwan ou do extremo oriente como um todo, os muitos elementos – aparentemente alegorias com forte simbolismo – me soaram impenetráveis, de forma que não tentei compreendê-los e acabei atentando para aspectos talvez menores da coreografia.

Lin Lee-Chen, a coreógrafa da companhia, retomou suas atividades, após breve pausa para cuidar da família, com o intuito de revitalizar e reafirmar a identidade da cultura taiwandesa, que ela via ameaçada pela invasão das formas ocidentais. Se ela cede algo ao ocidente, é muito tenuemente.

O espetáculo começa em ritmo muito lento – dá até a impressão de que parado –, num vagaroso progredir para a frente do palco. Apesar de lento, esse ritmo não deixa de trazer certa tensão, e acaba por gerar ansiedade a um espectador ocidental típico (eu, por exemplo): que horas vai vir a grande explosão com a qual se iniciará a dança, finalmente? Passados mais de vinte minutos, desconfia-se que aquilo não é um prólogo para a coreografia, mas ela em seu desenvolvimento. O exercício é aceitar aquela tensão quase estática como permanente durante a apresentação.

O estranhamento vem não apenas do tempo e do ritmo, como da gramática gestual utilizada: diferentemente das danças ocidentais, o movimento dos bailarinos é principalmente o de assumir posições no palco e lentamente se moverem por ele, com gestos largos, nem leve nem pesados – a impressão é de ausência de peso –, até saírem pela coxia. Soa ritualístico em boa parte da apresentação. Em apenas dois duos os bailarinos fogem dessa relação, em que quase parecem elementos de cena, para uma interação mais direta – em apenas um deles há toque (essa falta do toque me fez lembrar um pouco do filme do japonês Kore-Eda, O que eu mais desejo).

Próximo ao fim, mudança de ritmo, e tambores deixam bem marcada a tensão – os bailarinos, por duas vezes, chegam até a correr! Porém, como na parte lenta, não há o desenvolvimento da música – ela uma hora simplesmente vai diminuindo até cessar –, e a dança segue a mesma lentidão. Beira o monótono – para alguns ultrapassa a barreira, como atestavam, desde o início, pessoas saindo, gente conferindo as horas nos seus celulares, ou conversas na saída, “que coisa mais chata!”, “deu sono”.

Beira também o choque: o desconforto de estar diante de algo que não conhecemos e não temos repertório para traduzir, nossa ânsia de que “coisas aconteçam”, a dificuldade em se centrar nos pequenos gestos (eu estava na última fileira, e pareceu que perdi bastante por conta disso), nos detalhes: queremos o maior número de eventos no menor espaço-tempo. Chants de la destinée oferece a nós, ocidentais, uma outra estética do tempo, e a oportunidade de por duas horas sair da nossa zona de conforto – em que até o incômodo tem, em alguma medida, uma forma familiar e previsível.

São Paulo, 11 de novembro de 2012.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Andança pelo Brás numa tarde de novembro

Costumo fazer minhas andanças pelo centro de São Paulo – noturnas ou diurnas – pela região da República, Santa Ifigênia, Liberdade. Esta semana, em busca de preços mais camaradas em frutas secas, castanhas e afins, fui pro lado de lá do centro, as quebradas do Brás, que nunca tinha ido antes. Apesar de ter um local específico para chegar e ter visto no mapa antes, claro que me perdi.

Desço no metrô da Sé, passo pelo Páteo do Colégio e não acho a rua que devia. Quando consigo virar à direita, viro, e sei lá onde estou. Desconfio que as abóbodas que vejo ao longe devem ser o mercado municipal, assim como um prédio xis deve ser a tal zona cerealista que me recomendaram. Não peço informações, um tanto para poder flanar pela região, outro tanto porque não gosto de pedir informações. Vou (mais ou menos) em direção ao prédio xis.

Na passarela entre os terminais Dom Pedro II e Mercado cruzo com um rapaz, e me viro para olhar para trás quando passa: deve ser a pessoa mais alta que já vi na vida – a constituição parecida com a minha, o que acentuava a altura –, me senti pequeno com meu modesto um metro e noventa.

Caminho um tanto e chego finalmente ao tal prédio. Não é a zona cerealista, mas o Centro Cultural Catavento. Caminho um pouco mais e me rendo: peço informações a um vendedor de água mineral. “É só atravessar aqui, é aquela rua”, e aponta a direção da zona cerealista – que não tinha nada a ver com o que eu imaginava.

Faço as compras que desejava e vou até mercado municipal – esse eu tinha acertado. Bem haviam me dito que era um local turístico e não para fazer compras. E aqui preciso dar o braço a torcer: o mercado de Campinas pode ser mais feio mas é bem mais interessante: serve para fazer compras do dia-a-dia, essas ordinárias e necessárias. Salvo os queijos (me falaram também dos peixes), os preços de frutas e frutas secas rivalizam – ou mesmo ganham – do Pão de Açúcar. Trinta reais o quilo da jabuticaba (pago quinze), dez a caixa de pêssego (paguei cinco no vendedor que fica na esquina de casa, que já não é muito barato). Saio do mercado municipal, espero um SUV da Audi estacionar minhas impressões, e me dirijo para a Sé. A igreja e o pedaço do cento vistos daquele ângulo são muito bonitos – talvez só percam para a visão no viaduto sobre a avenida Prestes Maia, na Luz.

Descubro, veja só!, a rua vinte e cinco de março. Gentes, muitas gentes – e ainda não deve ser o fervo do natal. Camisas de marcas a partir de dez reais. Estátuas vivas brancas contrastam com o colorido da rua. Um artista de rua faz malabarismos com bola de futebol, bola de golfe, bola-de-gude. Está no meio da sua apresentação quando um policial pára. Dá para ver que o artista hesita, sobra certa tensão no ar. Ele está mostrando a bolita (aqui conhecida como bola-de-gude) com que vai fazer embaixadinhas. Mostra pro PM também, este abre um sorriso e todo o público ri, aliviando a tensão. Faz as embaixadinhas, domina no peito, na nuca. Pede aplausos antes do último número, em que vai levantar um ovo. O policial segue. Assim como a apresentação. Vejo a última acrobacia, dou umas moedas e sigo também. DVDs, programas, séries, jogos para PC, Play dois. Enfeites de natal à venda. Churrasquinho grego e suco por dois e cinqüenta. Flores de plástico me fazem voltar ao século passado, a um dos meus professores de biologia, que tinha substituído as naturais por artificiais no seu jardim. Na vitrine de uma loja de calçados um tênis tem como chamativo “Apareceu na RGTV” (o RGTV é por minha conta), como se isso fosse qualquer prova de qualidade. O PF parece tabelado em toda a cidade: nove reais o mais barato. Passo em frente a um treco – uma estátua? – coberto por um pano vermelho. Desconfio o que é, e minha desconfiança é logo confirmada pela conversa de dois ambulantes: tão dizendo que o Kassab vai vir inaugurar o papai noel, eu vou dar garrafada se ele aparecer, diz o vendedor de água mineral. Fico me questionando se o PT tivesse conseguido o apoio do Kassab para a eleição municipal, como seria o discurso? Vai uma camisa Hollister, amigo? Acredito que venceria o Serra de qualquer forma – outro nome do PSDB eu teria dúvidas se seria tão fácil. E certamente o apoio do Kassab a propaganda não traria uma vírgula a mais de política na propaganda do PT – nem a menos, porque isso era praticamente impossível. Sabonetes Haddad. Olha a água mineral, um real, água mineral gelada. Uma loja de produtos indianos faz com que me lembre de um amiga, professora de ioga, que ficara de vir para São Paulo em outubro e não tocou mais no assunto. Ao lado, uma sinfonia de músicas (“músicas”) de luzinhas de natal tornam insalubre a loja para os clientes – e prefiro nem pensar nos pobres vendedores. Depositar uma moeda e pegar um salgado exposto – não lembro dessas pros outros cantos da região central. Aleijados expõe suas chagas em troca de moedas e misericórdia. No início da vinte e cinco, duas praças cercadas garantem a grama verde e limpa – e eu me pergunto para que serve uma praça com grades. As grades servem para moradores de rua estenderem roupas e armarem precários barracos. Olha o pen-drive de trinta e dois giga. Me admiro que neste trecho da vinte e cinco e na general Carneiro os anúncios vêm como que ensaiados, combinados a hora de cada um entrar, pois as vozes não se sobrepõem.

Na praça da Sé, alguns homens compram ouro, dois repentistas juntam um pequeno grupo ao seu redor – e me lembro da genial obra da Lygia Pape, Espaço Imantado. Compro ouro. Em um quadrado delimitado, dois homens pregam para um pequeno grupo de excluídos do baile. Porque Jesus me deu um apartamento, aleluia, diz um deles, sem fazer menção em repartir o pão com os moradores de rua que o ouvem. Os humilhados do parque com os seus jornais. Compro cabelo. Outro pequeno grupo se junta atrás de um câmera filmadora – não trazia símbolo de emissora alguma, mas já imantava gente.

Ao esperar para atravessar a rua atrás da catedral da Sé, dois homens se reencontram. Rapaz, quanto tempo! Pois é, nunca mais te vi! Está morando no lugar de sempre? De sempre? Faz quase um ano e meio que estou aqui perto. Um ano e meio?! Quanto tempo faz que a gente não se encontra? Olha, desde que você comprou o carro não nos vimos mais. É capaz de levarem outro ano e meio, penso. Vencer distâncias sem cansar, superar encontros, andar a velocidade média de galinhas. Bons motivos para não comprar um carro.

Na banca, a capa de uma revista diz que o Brasil lidera o consumo de substâncias banidas. Não é Veja, então não estão falando de drogas (que fazem mal, afinal), mas de agrotóxicos, nosso benfazejo tempero de cada dia. No restaurante próximo de casa um prato de salada – vi no cardápio, dia desses – sai na faixa de quarenta e oito reais. Nem verduras orgânicas justificam um preço desses – e gente pagar esse preço, prefiro não me alongar em possíveis explicações agora.

Resolvo não voltar caminhando e pego o metrô na estação Liberdade. Quando terminar O império dos signos talvez me anime em ler Tokyogaqui. Ainda que movimentada, como é tranqüila a região, se comparada ao final de semana! No metrô, a teletela anuncia que é sem intermediário, sem atravessador. Empréstimo? Não, vaga na Uninove a preços reduzidos – daqui a pouco os preços alcançam a qualidade, será? Na minha frente, uma garota – dezoito anos, por aí – guarda o celular no sutiã. No trajeto entre duas estações, tira-o três vezes para ver qualquer coisa, e a cada vez que tira e guarda, um baita trabalho. Larissa Riquelme fazendo escola, ainda que a mocinha aqui fosse miudinha, proporcional – e só podia mesmo com o celular, enquanto a Riquelme, se quisesse, guardava até um notebook. Penso que se a guria tivesse guardado o celular no tênis seria mais fácil de pegá-lo – mas seriam menores as chances de tiozões ficarem reparando.

Tenho muita coisa pra estudar e sei que ao chegar em casa vou escrever esta crônica, ficar cansado, me convencer que a soneca que tirarei é de apenas dez minutos, e dormir a tarde toda. Faz calor. É novembro mas o clima segue consideravelmente seco. Bem que um amigo português tem me perguntado: e o clima tropical, onde está?


São Paulo, 06 de novembro de 2012.

domingo, 4 de novembro de 2012

A publicidade e a relação com o Outro (ou onde encontrar a felicidade?)

Comentei em crônica passada que dia desses me dei o desprazer de ir comer um lanche em fast-food, mais especificamente no Bob's. Como não pedi um refrigerante para ajudar a engolir o sanduíche, terminei a iguaria com a boca meio dolorida e a garganta bem irritada. Entretanto, o que mais me chocou foi o papel que forrava a bandeja. Mais do que tosco, machista, feio, contra-eficiente, como disseram uns amigos a quem mostrei o tal papel, achei ele sintomático.

"Boas desculpas não faltam para você não ter que compartilhar o seu milk shake do Bob's", é a chamada, seguida de nove dessas "boas desculpas". Uma bela mostra do fracasso da sociedade do fracasso – essa em que self-made men vendem livros de auto-ajuda mostrando (cientifica e empiricamente) à massa que basta agir racionalmente com vistas a um fim e não ser incompetente para ser um vencedor, como se fosse uma mera questão de querer e agir, independente de questões sociais e históricas, e como se fosse possível haver vencedor sem perdedores.

A propaganda do Bob's causa certa estranheza por ir na contramão da tônica das propagandas atuais, que pregam "divida seus melhores momentos", sendo esses melhores momentos o consumo de qualquer coisa – de lenço de papel a viagem à Jerusalém. Em tais propagandas o exclusivismo é em relação ao outro distante, não ao outro próximo: em família, entre amigos, com seu amor, os serviços VIP; aos demais, que não conheço (nem pretendo ou preciso), a entrada de serviço, o transporte público, a comida sem sabor, as férias sem fotografias maravilhosas.

No fundo, a referida propaganda apenas leva ao extremo o que a sociedade do espetáculo tanto apregoa: a felicidade prometida como conseqüência do consumo e não da troca com o Outro.

Se na publicidade em geral essa troca se faz por intermédio de mercadorias, do consumo, a do Bob's desmascara que o Outro nada mais é que acessório supérfluo da mercadoria da pseudo-felicidade – nela, o Outro não é sequer apresentado como polo oposto o qual se nega para se afirmar. É esse o ciclo da busca da felicidade que nos vendem e que compramos – a começar com a idéia da felicidade como algo pronto e dado e não construído –, que não cumprem seu prometido e nos deixam apenas um vazio que prometem preencher com alguma outra mercadoria, essa, sim, a que trará a felicidade desde sempre adiada para a próxima compra.

Aristóteles já definia o homem como animal social, o zoon politikon – entendamos político aqui como o interessado pelos assuntos da pólis, da vida em sociedade, e não restrito à política representativa de hoje em dia –, e se Sartre dizia que “o inferno são os outros”, esquecia de pôr, logo em seguida, a outra face da moeda: a felicidade também está no Outro. Não que a outra pessoa seja a portadora da nossa felicidade. Contudo, são nos relacionamentos, nas relações de alteridade, no perder-se de si para se encontrar no Outro que podemos alcançar um existência mais ampla – ampla o suficiente para que a felicidade caiba em nós.

Assim como os shopping-centers substituíram os banhos da antiguidade, lipoaspirações e produtos zero fazem as vezes do vomitorium das construções romanas. Estamos aptos para seguir com nossa busca da felicidade individual pelo consumo racional do que for: na estreiteza de nosso egoísmo, exasperado em 500mL de um milk-shake vagabundo, orgulhosos do sucesso em um trabalho que nos dilapida, vaidosos com o exclusivismo da bolha metálica ordinária que nos protege do calor no congestionamento e dos encontros na cidade, ostentando roupas que nos simplificam e nos confinam, podemos nos sentir saciados, nunca satisfeitos. E não compreendemos porque não conseguimos ser felizes em nossa solidão – nem mesmo na solidão a dois –, porque não percebemos que quem é consumido, no fim, somos nós próprios.


São Paulo, 04 de novembro de 2012.

ps: texto afim: Excesso zero (23 de dezembro de 2007).

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Ruth, a balconista: o fim de uma saga.

Ao passar em frente à casa de minha ex, em Campinas, o coração disparou e me veio aquela tensão: será? Era virar a esquina - um trajeto de vinte metros, se tanto -, e poder, quem sabe, me deparar novamente Ruth, a balconista da farmácia, que há cinco meses e umas cinco tentativas não encontro. Ah, Ruth, que há um ano, em outubro de 2011, tive o prazer de ver pela primeira vez.

Mesmo sem qualquer receita que justificasse minha visita, já possuía uma desculpa para adentrar aquele recinto: comprar suplemento de uma marca específica, que tem o gosto um pouco menos pior, e que ainda não encontrei em São Paulo - é certo que não procurei muito.

Foi quando estava prestes a adentrar na farmácia que me dei conta: para comprar suplemento não é preciso se dirigir ao balcão. Estanquei. Devo ter passado um minuto ou mais pensando em algo para comprar (cheguei a me ver como um rapaz saudável nesse instante), e tentando ver se Ruth, a balconista, estava. Não apenas achei o que comprar - claro, minhas imprescindíveis vitaminas, como tinha esquecido? -, como elaborei uma tática: se Ruth estivesse atendendo, eu primeiro analisaria os suplementos, e esperaria o momento para dar o bote. A única coisa incerta desse plano infalível era se Ruth estaria mesmo trabalhando - de fora não a enxergara. 

Estava ali, era ir pro tudo ou nada. Coragem! Na pior das hipóteses, me refrescaria um pouco no ar-condicionado (apesar de nove da manhã fazia um calor desgraçado) e teria uma crônica; na melhor, a mesma coisa, com o adendo de ter recebido um "oi" de Ruth.

Entrei. A impressão de fora se confirmou: nada de Ruth. Decepção. Ainda mais que na noite anterior havia dito a mim mesmo que era hora de dar um passo além, e tinha até título para essa crônica-do-passo-além: 
"De quando nosso herói, num rompante de coragem, se encontra com sua amada, Ruth, a balconista da farmácia, e decide contar-lhe as reais intenções de sua visita: escrever uma crônica." 
Desanimado, nem fingi que o celular tocava, como fizera outrora. Pedi minhas vitaminas e me dirigi ao caixa. Enquanto esperava a vez, uma porta do fundo da loja se abriu e saiu uma funcionária: não, não era Ruth. 

Paguei minha compra e saí para a realidade: fazia calor e, sem que eu tenha encontrado uma substituta (na verdade, cheguei a flertar com uma nova Ruth, a atendente da academia, mas ela sumiu no dia seguinte que escrevi a primeira crônica sobre ela), melancolicamente chegava ao fim da saga da Ruth, a bela bochechuda sardenta de olhos verdes balconista da farmácia.


Campinas, 31 de outubro de 2012.



terça-feira, 23 de outubro de 2012

Textos meus na Casuística 12

A edição 12 de Casuística. artes antiarter heterodoxias [www.casuistica.net], tem os seguintes textos de minha autoria:

* "Quem não reagiu está vivo": a mentira aceita como mentira - Artigo
* Cores e sombras no vazio até o Outro - Crônica
* C. - Conto
* Desde a morte da avó, - Conto
* Pássaros eletroacústicos, músicas esvoaçantes - Crônica

sábado, 20 de outubro de 2012

Atrás de um cachorro-quente: uma andança pela Paulista

Com pouca fome, mas precisando comer, sem vontade de fazê-lo, saio de casa, ver se me animo a jogar algo pra dentro do estômago. É pouco mais das seis da tarde. Na esquina de casa, um mendigo ainda dorme na calçada. Está lá desde a uma, quando saí pra almoçar. Choveu nesse ínterim, ele puxou um cobertor, mas segue no mesmo lugar. Desço a Augusta em busca de inspiração: se cozinhar é uma arte, por que comer também não seria? É certo que comer junkie e fast-food seria, na melhor das hipóteses – e olhe lá –, kitsch. No baixo Augusta penso em seguir até a Liberdade, comprar guioza e comer em casa, mesmo. Mas sempre me perco no caminho, e não estou disposto a conferir se seria uma aventura me meter pelo centrão de São Paulo num sábado à noite. Volto pela mesma Augusta. No caminho me decido por um cachorro-quente, apesar de não gostar muito: meu estômago não anda tão bom, hoje havia tomado chimarrão depois de mais de um mês sem beber nada com cafeína, por que não aproveitar pra ferrar de uma vez, se for o caso?

Sigo um tanto ensimesmado pela Paulista, cantarolando a quinta sinfonia de Mahler. O único cachorro-quente que lembro fica antes da metade da avenida. Skatistas passam, pessoas param nos postes para seus cachorros marcarem território, num ponto de ônibus um mendigo grita "ai ai ai" com as mãos na cintura, como se estivesse segurando as calças. As pessoas olham, eu passo, observo, mas faço como os europeus – conforme contou esta semana uma conhecida –, e finjo que não se trata de nada extraordinário que mereça virar atração principal. Em frente ao Reserva Cultural vejo uma guria que parece Camila, a moreninha da balada. Passado o susto inicial (custou uma bambaleada nas pernas), reparo que é japonesa demais para ser a referida senhorita – que é mais bonita, diga-se de passagem. Vou até a casa de uma amiga. Sei o prédio onde ela mora, o bloco, mas não sei o apartamento. Descubro que ela não é amiga do porteiro, que, muito solícito, procura no caderno de correspondências, liga para o zelador, mas termina sem descobrir onde poderia morar minha amiga. Vou ao cachorro-quente sozinho, mesmo. Cinco reais um básico, salsicha, purê, maionese, vinagrete e batata-palha – sendo que não gosto de maionese e batata-palha. Quase nove um um pouco melhor. Para São Paulo, um valor normal. Porém, para uma salsicha, está caro. Resolvo, então, encarar um sanduíche de junkie-food: é o mesmo preço ou mais barato, e apesar de também não gostar muito, soa mais interessante – por mais que já anteveja o final. Entro em um shopping, ver se há ali a rede que gostaria de provar. Não. Mas há cachorro-quente gourmet: o kitsch do kitsch. Quatorze reais: quem se presta a comer num lugar assim merece pagar um valor desses por uma salsicha. No outro shopping, já no início da Paulista, também não há loja da rede que busco e me contento com o Bob's.

Na segunda mordida, minha boca já está levemente dolorida. Ao fim, minha garganta está irritada. A quantidade de porcaria naquele hamburguer foge da minha compreensão, então acho que é culpa do sal: ele me forneceu mais da metade do que eu precisava pro dia. Não que eu seja assíduo freqüentador desse shopping, mas me surpreendo de, pela primeira vez, me deparar com um negro que fala português e não é funcionário. Nas lojas, desconto de ternos, mantas e roupas de inverno. Orientais loiras, tenho visto várias, mas de cabelo castanho e encaracolado, é a primeira, até onde me lembro. Pela postura corporal dá sinal de vinda diretamente do Japão (e não sei se houve mesmo pênalti no segundo gol). O dia das crianças foi semana passada, e a decoração de natal já está quase pronta. Para meu alívio, ainda não puseram Simone para cantar, mas logo logo começa – então é natal, e o que você fez (para merecer toda essa tortura)?

O caminho de volta é o mesmo de ida. Um morador de rua, cabelo quase parecendo uma coroa, com um cobertor marrom como manto, fumando um cigarro amaçado, faz discurso. Passo em frente a uma igreja no exato instante em que os noivos saem dela. Os convidados comemoram. Sorrisos de todos. Alegria, alegria! Pra que ler tanta notícia assim?, talvez perguntasse Caetano, se tivesse escrito sua música hoje. Eu vou. E uma canção me consola. Eu vou... ao mercado. Lá, não um jingle, mas um blues inteiro canta as maravilhas de um dado posto de gasolina. Como dizer que a música que toca no rádio é arte, se um publicitário faz algo exatamente equivalente? Lembro de My Iron Lung, do Radiohead, em que a banda se questiona repetir a fórmula que fez sucesso com Creep: this is our new song, just like the last one, a total waste of time. Para um criador, perder tempo não é necessariamente problema – inclusive, os artistas de fato são capazes de fazer arte e crítica a partir da redundância, questionando o próprio processo, como o próprio Radiohead –, o ponto é ser consumidor e perder tempo passivamente com mais do mesmo, sempre. Lembrar de My Iron Lung me fez parar de cantarolar Mahler. Por sinal, do terceiro ao sétimo minuto do terceiro movimento, o scherzo, o que é aquilo?! De um clima alegre, quase triunfal, para uma tensão que se desenvolve rapidamente e, ao invés de ser resolvida, surge a trompa cortando feito navalha e deixando terra devastada.

Outra vez a Paulista. Numa esquina, um homem chega a um grupo de jovens, que animadamente conversava, enquanto espera o sinal abrir: já viram a última folha? Os jovens se olham, assustados com a interpelação do estranho. Já viram a última folha? Não, responde um deles, meio se desviando. Aqui, a última folha, e abre a mão (desconfio que com uma folha). O sinal abre, os jovens seguem, o homem insiste: e agora, viram a última folha? Sobra um clima estranho no grupo, que acaba num riso tenso. Noto o quanto é positivo esses episódios inusitados e inofensivos: abre chances de novos assuntos, que o ambiente asséptico do shopping, definitivamente, não daria oportunidade.

Skatistas seguem passando. Pessoas seguem parando nos postes. Uma hora passa um skatista com um skate sem prancha, apenas dois suportes para os pés. Um amigo dele, um pouco à frente, uma hora se joga no chão para não atropelar um casal de garotas. Pouco antes, uma senhora seguia com dois cachorros que pareciam dois leitões de tão cilíndricos. Três hippies cantam e tocam, sem qualquer chapéu pedindo dinheiro. Em frente ao Reserva não há o saxofonista tocando músicas melosas – para alívio dos casais que aproveitam das escadarias e do movimento da avenida. Para meu alívio, também não vejo ninguém que me lembre Camila, a moreninha da balada – ou a própria. A capa da Veja é sobre a China, só que, claro, tem que falar do julgamento do mensalão petista. Independência entre os poderes, não implica em interesses independentes. Fico imaginando as conseqüências do bom exemplo que esses togados da moralidade seletiva estão dando ao país – nem vou falar da Grande Imprensa, que não há nada além de mais do mesmo. Ao passar em frente ao centro cultural Fiesp, lamento ter perdido a exposição da Thereza Collor, e digo a mim mesmo que a da Lygia Clark, no Itaú Cultural, eu não posso perder – o trio neoconcreto do Rio mais que me encanta, já foi capaz de mudar minha percepção de mundo. Uma colega da engenharia disse que está interessada em conhecer o local, a oportunidade é ótima.

Cruzo com um homem que fica me encarando. Me pergunto porque mulheres, quando fazem o mesmo, desviam o olhar quando encaro de volta. A Paulista está bem movimentada. Tenho flanado pouco por ela, desde que as aulas começaram – nem nos fins de semana, que, quando saio, prefiro a Augusta. Por falar nela, falta ainda uma quadra para chegar ao seu cruzamento, entretanto são visíveis girocopteros luminosos cortando o céu. Pretendo comprar um desses antes de ir para Pato Branco uma próxima vez, para brincar com ele na praça da cidade e fazer meus amigos – que tem um nome a zelar na cidade – morrerem de vergonha.

São Paulo, 20 de outubro de 2012.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

O estouro da noiada: outra andança pelo centro

Faz tempo que não tenho dado minhas voltas pelo centro de São Paulo – o que reflete na ausência de crônicas sobre o assunto. Um pouco receio da polícia, que anda dando tiro como se jogasse videogame, bastante por causa do clima destes últimos meses, que oscila entre seco, chuvoso e frio, sem parar num meio termo minimamente aprazível; e principalmente porque tenho que acordar às cinco e meia da manhã pra ir pra aula.

Aproveitando o clima agradável e o fato de não ter aula na quarta, decidi sair para tomar a fresca e comer fora, um junkie-not-so-fast-food oriental, na Augusta. Como havia fila na lanchonete, decidi ir na outra filial, na praça da República. No caminho passo pela praça Roosevelt – pela primeira vez desde que reabriu da sua "revitalização". Concreto concreto concreto concreto. Degraus degraus degraus. Skatistas skatistas skatistas. Policiais e mais policiais. Uns canteirinhos perdidos em meio a isso tudo. Sou mais de uma praça com mais verdes e menos agitos, como a praça Camões, em Ribeirão Preto, onde velhinhos, moradores de rua, cachorros acompanhados de suas respectivas madames e maconheiros se encontram pacificamente sob as árvores. De qualquer forma, sabendo que a parte concreto e degraus será sempre predominante na praça (até nova revitalização), se continuar havendo mais skatistas que policiais, creio que estamos bem. O problema é se os moradores de bem do entorno – que já teve um prostíbulo derrubado – conseguirem impôr toque de recolher aos skatistas, tornando-a outro espaço inóspito da capital – restrições sempre com as melhores das intenções, em nome dos bons costumes e da moral, é claro.

Na avenida São Luís, a calçada, refeita, tem o mapa estilizado de São Paulo distorcido, assumindo formas ora sem sentido, ora de pato. Troco a comida japonesa por um xis numa lanchonete próxima à galeria Olido. Já alimentado, no trajeto de volta, uma moradora de rua, indignada, comenta com outro que está sem cobertor pela terceira noite seguida, porque emprestou a não sei quem. Não passará frio, com certeza, fico me perguntando se não o utilizaria como colchonete. Parada súbita no Shopping Light, para usar o banheiro – que não é catraca livre. Aliviado, decido, então, por uma volta no centro.

Esqueço que já havia me comprometido comigo mesmo a não ir além da avenida São João depois do horário comercial. Não resisto. No cruzamento da Ipiranga com a Rio Branco, acho por bem voltar. De repente, da rua do Boticário, sai um enorme número de nóias. Não adianta parar ou continuar, o resultado é o mesmo: acabo no meio deles – um tanto apreensivo, admito. Andam em ritmo até que acelerado, sempre olhando para trás, assustados. O responsável pelo estouro da noiada: um carro da polícia que passa lentamente. Trato de acelerar o passo para sair do meio (só depois me dou conta que eles estavam preocupados demais com a polícia para se darem conta d'eu ali no meio, e que mais perigoso era a polícia ainda resolver me pegar).

Não me enrolo muito pela Boca do Lixo, basta de emoções pela noite. Volto pela Augusta, como sempre. Alguns novos empreendimentos imobiliários brotam no caminho, colocando a vida noturna da rua sob perigo – que a efervescência da Augusta fique na rua e pelo centro, ao menos! Estranho alguns garotos, na faixa dos treze anos, vestidos relativamente bem, no baixo Augusta. Estranho também o alto Augusta estar mais movimentado que o resto, apesar de já ser quase onze da noite. Não estranho o fato de estar cansado: estou há duas horas e meia caminhando, com breve pausa para o xis. Já do outro lado da Paulista, a revenda de automóveis de luxo próxima à minha casa fechou – mas o simpático morador de rua que ficava como se fosse o segurança da loja continua lá. Para compensar, entro na internet descubro que a diária no hotel que há no caminho é de quase trezentos dólares, a mais barata (sem café da manhã).

São Paulo, 17 de outubro de 2012.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Liberdade de expressão e o direito a se expressar

Em artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo (4/10), o jornalista e professor Eugênio Bucci mais confunde do que esclarece quando pretende defender a tese de que “a censura judicial encontra uma estrada aberta, desimpedida, e cresce”, com apoio de parte da população.

Bucci começa seu artigo afirmando que há certa difusão da ideia de que “a defesa da liberdade de imprensa é coisa da direita, é uma agenda patronal”, com o que concordo: mesmo na academia, a divisão precária em esquerda e direita serve para julgamentos rápidos e definitivos e impede uma reflexão minimamente crítica acerca do problema – a começar pela própria definição de esquerda e direita. A seguir, o autor diz que esse bordão é a versão esquerdista da direitista “essa conversa de direitos humanos só serve para proteger bandidos”. Os dois falam de direitos fundamentais, certo, mas não há motivo para misturar uma coisa com a outra: censura é péssimo e não há argumentos razoáveis num Estado democrático para sua defesa, mas achar que é equivalente a pau-de-arara, execuções sumárias e coisas do gênero, é desrespeitar o sofrimento físico e psicológico de pessoas e familiares.

Com essa introdução, o articulista parece querer se pôr numa pretensa posição de isenção e neutralidade. O que se segue não corrobora essa impressão: ao se fiar em exemplos e mais exemplos para mostrar o avanço da censura, ele causa mais confusão ainda ao leitor, discute filigranas de pouca importância e foge do cerne do problema. Por qual motivo censura prévia e disputas judiciais pela retirada de conteúdo ofensivo devem ter igual tratamento, se são casos distintos? Que sejam condenáveis muitas das decisões para retirada de conteúdo já publicado, o próprio Judiciário oferece caminhos para seu questionamento – o que não isenta a sociedade de pressões políticas.
Frouxos e lenientes

A questão que sobra é: a partir de que momento e em que direção essas pressões devem (ou deveriam) ser feitas? Bucci foge dela.

Como consequência do desenvolvimento (?) de seu texto, Bucci chega a igual conclusão que a Folha de S.Paulo, em editorial de 28 de setembro: “A maior ameaça à liberdade de expressão no Brasil, hoje, parte do Judiciário”. Liberdade para a expressão de quem? Não de todos, com certeza. Ouso dizer que a maior ameaça à liberdade de expressão no Brasil, hoje, parte da própria imprensa – que se mostra pouco interessada em liberdade num sentido pleno, com deveres e direitos.

Sintomaticamente, no parágrafo seguinte, afirma que “O Brasil unificou-se para derrotar a inflação, assim como agora se articula para combater a pobreza”. Faltam sujeitos a essa união e essa articulação. Sobra generalização. Os que criticam o Bolsa Família como “Bolsa Vagabundagem” não parecem tão interessados assim no combate à pobreza, por mais que tentem edulcorar seu discurso com “ensinar a pescar, ao invés de dar o peixe”: alguém acredita nesse discurso, proferido desde tempos remotos de nossa história? Bucci também ignora que no mesmo dia a Folha lançou um editorial criticando as atitudes da presidente argentina, Cristina Kirchner, contra o Grupo Clarín. Nada mais natural: ao atacar a concentração da mídia (e, consequentemente, da informação), Kirchner abre um perigoso precedente: e se decidirem fazer o mesmo no Brasil, obrigando o quarto poder a seguir, ele também, a Constituição? Motivos para fazê-lo sobram. Temor, por parte dos grandes grupos de que seja feito, também. Mas os governos petistas têm sido frouxos e lenientes no cumprimento da lei: vale lembrar que a revista Veja publicou reportagem de capa difamando sem provas o chefe do poder executivo, representante do Estado nacional, de ter conta na Suíça. O que fizeram Lula e a Presidência? Uma resposta numa entrevista, na volta da sua viagem à Europa.
Um privilégio

A defesa da liberdade de expressão sem questionar se ela existe de fato no país serve apenas para reforçar o status quo. “Se queremos defender o direito à informação, precisamos defender a liberdade do Google”, diz Bucci. Corretíssimo! Contudo essa defesa está muito aquém de significar direito à informação e à liberdade de expressão. A pura e simples defesa do atual desenho da mídia serve apenas para que a imprensa possa seguir agindo como um poder paralelo, supraconstitucional, o “quarto poder”, como ela adora se apelidar – esquecendo que os outros três possuem limitações recíprocas e obrigações constitucionais a serem seguidas (não me alongo neste aspecto, que discuti no texto “O Quarto Poder para além do Estado Democrático de Direito no Brasil”, na edição 101 da revista eletrônica Casuística, páginas 93-99).

A liberdade de imprensa, nesta configuração de forças, acaba sendo, na verdade, liberalidade de imprensa, com claro pendor para os grupos com maior poder econômico; e deixa toda a população à mercê de interesses não declarados. Não se trata de defender a censura desses meios, mas a contingência de seu poder para os parâmetros exigidos pela Carta Magna do país (art. 220, § 5º) – os EUA, pais da liberdade de expressão, fazem isso.

O término do seu texto apenas acentua o caráter nada parcial e a argumentação carente de uma análise mínima de contexto desenvolvida até então: dizer que “a liberdade de imprensa não é um privilégio de jornalistas ou meios de comunicação: é um direito de todos nós” não corresponde à realidade tupiniquim: a liberdade de imprensa é, sim, privilégio de alguns poucos jornalistas e meios de comunicação – que o diga Maria Rita Kehl, com quem Bucci lançou o livro Videologias, quando demitida do Estado de S.Paulo por “delito de opinião” (ver aqui) –, quando deveria ser um direito de todos nós.

São Paulo, 04 de outubro de 2012.

Publicado originalmente no Observatório da Imprensa, edição 716.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Leituras diversas

O bom de ser um "anti-fluxista" é pegar trem e metrô vazios, geralmente com lugar para sentar. Desta feita não foi diferente. Voltava pra casa, pouco depois da uma da tarde. Peguei o trem na Estação Celso Daniel. Sentei ao lado de uma mulher que, mal sentara, já sacava da bolsa um livro. A imitei, e tirei da mochila o livro que começara a ler no dia anterior. Na minha frente se sentou uma bela mulher, com um estilo interessante: parecia beirar os trinta, esbelta, saia, meia-calça preta, cabelo laranja, alargador de orelha, piercings, braços cobertos de tatuagens. Não que eu ache que alguém com esse visual seja necessariamente rebelde, mas acredito (ingênuo...) que seja minimamente contestadora e não seja careta (no sentido existencial do termo).

Reparei no livro que a mulher ao lado lia: Ágape, do Padre Marcelo Rossi. Ri da distância de nossas leituras: me acompanhava na viagem História do olho, do Bataille (por sinal, depois de 120 dias de Sodoma, História do Olho soa agradavelmente pueril nas suas demi-escatologias). Antes de começar a leitura, o livro ostentado como a disputar com a pessoa ao meu lado (e o marca-páginas da Casuística aparecendo, claro), reparei uma vez mais na mulher na minha frente. "Fiz alguma moral com ela", pensei, ainda que não esperasse nada além disso: ter feito alguma moral com ela.
 
Segui minha leitura, com um olho no livro, outro na moça. Não demorou muito, a interessante mulher resolveu pegar também um livro. Calmamente tirou da bolsa um grosso livro preto. Interrompi minha leitura para ver o que ela estava lendo, já quase no final. Desacreditei ao ver que era um do Augusto Cury. Contestadora? Não-careta? Senti uma pontinha de decepção, por, muito provavelmente, não ter feito a "alguma moral" imaginada com a senhorita tatuada – o que não quer dizer, em absoluto, que trocaria meu livro pelo dela ou da mulher ao meu lado.
 
No metrô, apesar de não ser preferencial, ofereci meu lugar a uma senhora que entrou. Recusou: "estou bem em pé, e pra quem lê é melhor sentado". Insisti, recusou novamente. Agradeci. E por consideração à simpática senhora, escondi a capa do livro.

São Paulo 02 de outubro de 2012.