quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Meu deus particular

As religiões orientais tem a idéia do deus interior. Eu, de minha parte, tenho a forte impressão que meu deus interior foi substituído por um deus particular, mas exterior. Talvez a substituição da meditação por acalorados bate-bocas e a ausência de atitudes dármicas, tenham me dado de brinde não o acesso ao meu ser superior, mas ao bom deus cristão, na versão atualmente mais difundida, de que deus é amor só se você provar antes que merece. Desmerecedor que sou, deus se apresenta todo santo dia (há algum dia que não seja de santo?), em sua versão “customizada”, para me lembrar dos meus pecados, de como não fui um bom menino.

Digo isso porque nos idos anos de 2006, em meio a muitas brigas (até aí, nenhuma novidade) que arranjei no cursinho popular no qual dava aula, me sobrou um desafeto - também me sobraram alguns ótimos amigos, mesmo dentre esses que fechei o pau. Tem nome bíblico, inclusive, esse meu desafeto, e se achava o dono da verdade, da consciência mais clarividente sobre tudo o que estava acontecendo. Claro, com toda essa consciência, alguém que o questionasse não era o que mais o agradava, e nisso forjamos nossa “relação”.

Que não teve fim quando cada um tomou seu canto e o projeto educacional se desfez.

Disse acima que o vejo todo santo dia. É exagero da minha parte, admito. Como não somos vizinhos - sequer sei onde ele mora, só que deve ser em Barão -, possuo uma zona livre: posso ir até o mercado sem trombar com ele. Contudo, se eu resolver atravessar a rua para ir até a farmácia - onde Ruth não trabalha -, se não encontrá-lo comprando uma aspirina, a chance de vê-lo saindo do mercado, é de praticamente cem por cento. Aposto que se algum dia eu sair e não me deparar com ele, quando eu já estiver comemorando o milagre, serei obrigado a engolir meu júbilo, pois estará passando em frente à porta da minha casa.

Daí eu sempre brincar ao vê-lo: eis deus! Houve dia que não vi que ele seguia atrás de mim e uma amiga, e deve ter escutado eu o tratando por deus - espero que não tenha se achado mais do que já se acha.

E não há férias, feriado, dia de tempestade em que eu, me aventurando me afastar um pouco mais de meu lar, não cruze com o infeliz. Imaginei que estaria livre esta primeira semana do ano: em Barão, estão apenas as pessoas que aqui trabalham ou tem residência fixa, e alguns gatos pingados da Unicamp: pós-graduandos seqüestrados por ratos ou feijões, reféns de laboratórios, re-vestibulando (como o meu caso), e, claro, o meu deus particular.

Bem... lembro quando anos atrás, ao invés de um deus particular, eu tinha um serial killer particular. Posso encarar isso como uma evolução, sem dúvida, mas que eu dispensava essas particularidades, isso eu dispensava.

Campinas, 04 de janeiro de 2012.

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