quarta-feira, 28 de março de 2012

Quando Ruth, a balconista, se esquivou de encarar a realidade

Há pessoas que têm dificuldade em lidar de frente com situações difíceis.

Tinha eu meu mensal programa da terceira idade - médico - em Campinas, e aproveito a deixa, é claro, para encontrar alguns amigos. Saio da consulta com o Aílton e tenho tempo de ir até a farmácia onde Ruth trabalha, antes de encontrar com Vannucci, com quem almoçaria. O horário da consulta, marcada há um mês, foi escolhido a dedo, para dar tempo de ir à farmácia de Ruth, no horário em que, a princípio, ela deveria estar atendendo.

Chego à farmácia, e tão logo a porta abre, dou uma olhada geral, ver se desta feita ela está lá. Sim, Ruth, a balconista, está! E está no caixa, pra facilitar: ou seja: não teria como não ser atendido, em algum momento, por ela.

Há, porém, entre a consulta anterior e esta, além da distância, um namorico no meio do caminho, e esta ida à farmácia era praticamente uma compra de adeus.

Vou até o balcão, peço minhas imprescindíveis vitaminas, as quais ainda sequer terminei o pote anterior - sinal de que ou o controle de qualidade do laboratório é falho, e estão e dando comprimidos a mais, ou não ando tomando elas com a esperada regularidade. A caminho do caixa, me vem uma idéia rápida, dessas que não tive (ainda não costumo ter) quando precisei de verdade: páro para comprar um pacote de preservativos. Chego no caixa e qual não é minha surpresa ao ver que Ruth, a balconista, que estava no caixa, voltou ao balcão, se negando a encarar os fatos, rejeitando minha sutileza de avisá-la que há outras mulheres no mundo - assim como há outros homens, e que desejo a ela muita sorte. Poderia até explicar: não é questão da distância, menos ainda contra uma bochechuda sardenta de belos olhos - a questão é que outro belíssimo par de olhos (e bochecas - quer dizer, corrijo: maçãs do rosto proeminentes) havia tido mais sorte.

Ok, cada um lida com sua dor como crê ser o melhor, pensei ao sair da farmácia. Mas então também pensei: por que raios eu comprei as tais vitaminas, se ainda tenho meio pote, me enrolando com uma balconista outra e perdendo a oportunidade de me encontrar frente a frente com Ruth, e dar meu recado a ela? Veio então outra dúvida: e se ela encarasse meu sutil sinal de adeus como um convite para daqui a pouco? Seria um momento já um tanto tarde pra ela tomar essa iniciativa... entendo que a distância, os desencontros atrapalharam muito... mas de qualquer forma, seria uma situação complexa... seria Ruth do outro lado do balcão... enfim, me abstenho de dizer qual seria minha resposta, para não me comprometer, já que Camila é capaz de vir a ler esta crônica.

Ao  sair da farmácia, vi Ruth me acompanhar com o olhar. Preferi não observá-la muito: esse olhar, essa conversa, esse convite, estavam já fora do tempo - gaguejavam.

Ao encontrar o Vannucci, dez minutos depois, já nem lembrava de Ruth: tinha novidades sobre um belo par de olhos para lhe contar. 

Campinas, 28 de março de 2012.

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