domingo, 29 de abril de 2012

Três meses de São Paulo

Há três meses, na noite de 29 de janeiro, depois de um dia melancólico em Barão, eu aportava em São Paulo, que me recebia com sua famosa garoa. O apartamento aquela noite era só para mim. Estava todo bagunçado, abarrotado de expectativas e caixas para serem desempacotadas, que atrapalhavam a locomoção, mas não diminuíram minha alegria – era uma questão de me organizar.

Pois eis São Paulo sob garoa neste 29 de abril – não, São Paulo não é a "terra da garoa", não no século XXI, aqui é a terra das tempestades –, e eu com o apartamento inteiro só para mim: as duas pessoas com quem dividia saíram esta semana, uma porque daqui parte para a Europa; a outra porque os santos não bateram. Não há caixas a atrapalhar o movimento, apesar de ainda haver muitas expectativas a espera de ganharem a luz do dia (ou da noite). Outras pessoas já estão acertadas de virem morar, mas até se mudarem, relembro o que é morar sozinho. E este apartamento grande e branco e vazio reflete bem meu estado de espírito melancólico deste instante – deste instante!, é bom salientar.

Porque vivi neste três meses de São Paulo mais do que vivera nos últimos quatro anos em Barão. Uma cidade que tem meu ritmo – agitado –, e por isso faz com que eu me sinta mais tranqüilo: estamos em sintonia, em sincronia. Uma cidade que, se procurar, se encontra a cada dia horizontes novos, e oferece caminhos que permitem não andar em círculos. Ou mesmo onde percorrer o trajeto  de sempre não significa revivenciar as mesmas coisas.

Cidade que me abriu liberdades que eu não vislumbrava em Campinas, e com elas, coragens que eu não me permitia. É certo que São Paulo me faz rever muitas pessoas que não via há tempos, me permite encontrar sem querer com conhecidos. Mas, acima de tudo, me permite essa estranha comunhão do anonimato e da insignificância. Ser um anônimo, conhecer pessoas novas – interessantes, inteligentes, inusitadas –, e poder me apresentar também de formas novas. Que carregam ainda muito do velho – medos, limitações, e um jarro que eu julgava vazio, mas que descobri ser quase que uma caixa de Pandora para mim mesmo (ou de mim mesmo?). E sentir que mais do que à espreita, ao meu lado está a pantera que tanto temo. Ao mesmo tempo, notar o quão simples (não significa fácil) pode ser encontrar o refúgio quase idílico que almejo.

Descobri que São Paulo, que me soava hostil, por ser quase só cimento e asfalto, é poética, porque há pessoas, pessoas dos mais variados tipos, circulando e parando e te interpelando por entre o concreto e o piche. Que há o pixo, o lambe-lambe, que podem ser – parecem ser, muitas vezes – sinais de amor pela cidade. Cidade que por mais que autoridades e parte da população tentem, não permite que brinquem de esconde-esconde com ela, que se apresenta sempre inteira para quem quiser enxergar: nobre e mendiga, revolucionária e conservadora, violenta e pacífica, ampla e bitolada.

Como gosto de coincidências... neste dia 28 veio me visitar o Rafael, amigo de Barão – um dos poucos que, depois de terem entrado no mestrado em filosofia ou ciências sociais, consegui manter o mesmo contato franco e agradável de antes. Chegou quando o antigo morador terminava de retirar suas coisas. Em 28 de janeiro, Rafael foi um dos que estiveram no meu encontro de despedida. Esteve nas minhas duas despedidas: a de Barão, e a desta fase de São Paulo. Se da outra me deixou melancólico, me trouxe alegria desta feita: foi uma mostra mais de que o importante eu não deixei para trás.

Minha vinda pra São Paulo foi uma mudança, não uma revolução. São Paulo se apresentou a mim como uma cidade aberta, cabia a mim estar aberto a ela também para aproveitá-la, desfrutá-la. Esse me abrir – ainda incompleto – talvez tenha sido uma das minhas mudanças mais significativas nestes três meses. Que São Paulo agora dentre por completo este apartamento hoje vazio.


São Paulo, 29 de abril de 2012.

ps: a foto é do fotografo japonês Tatewaki Nio, que tomei conhecimento na exposição "Escultura do insconsciente", na Funarte, Campos Elíseos.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Um casal adolescente na minha frente

Tenho variado meus locais de estudo em São Paulo entre minha casa, a PUC e o Centro Cultural São Paulo (CCSP). Se na PUC há basicamente universitários, no CCSP, há uma considerável variedade de tipos: universitários, estudantes do ensino médio e cursinho, concurseiros, gente sem vínculo oficial com o ensino, e sei lá quais outras possibilidades.

Hoje – agora – havia vindo no CCSP almoçar e decidi estudar no próprio restaurante. Há um pouco de conversa, mas isso é uma constante do lugar – o que torna impossível concentração para estudar Hegel, por exemplo, e moda usar protetor auricular. Na minha frente, um casal, apostilas de cursinho ou ensino médio a acompanhá-los. Já havia notado uma vez o rapaz: outro dia dera uma mini-aula de física, de quase meia hora, a um amigo, em um local onde geralmente faz-se um pouco mais de silêncio. A mocinha, ainda não a notara, apesar que havia belos motivos para isso – bonita, belos olhos, bochechudinha, enfim.

Quando me sentei para almoçar – isso umas três da tarde –, discutiam o que estudar – decidiram por geopolítica, se não me engano. Seguiram um tempo lado a lado, cada um com sua caneta grifa texto, até que ela se apoiou em seu ombro, para estudar mais confortavelmente. Tão confortável que logo dormiu. Ou talvez nem tanto, porque não demorou para se debruçar sobre a mesa e dormir mais agradavelmente. Ele seguia a mudar as páginas e fazer correr a caneta por elas. A mocinha acordou depois de um tempo, e sem ter estudado muito, quando olhei para eles novamente, estava o namorado a explicar-lhe não sei bem o que.

Fiquei pensando. Tinham seus dezessete anos, mais ou menos, e o futuro em aberto, amplo, farto – assustador, se se parar para pensar. Em um ano ele poderia estar cursando o curso que queria, na melhor universidade do país, em São Paulo, mesmo; enquanto ela teria de decidir entre um curso que não lhe apetecia, só para seguir morando em Sampa, ou aceitar entrar no curso que era sua segunda opção, a oito horas da casa dos pais e do namorado. Em dez anos, ela poderia ser uma mulher bem-sucedida, uma carreira de sucesso e um futuro promissor dentro dela, engolindo a vida ao fim do dia, junto com dois comprimidos, para afogar qualquer pensamento acerca do caminho que trilhara. Ele poderia se descobrir em algo absolutamente inesperado e diferente e, a despeito da pressão dos pais por ganhar dinheiro ou deixar de ser “vagabundo”, se sentir feliz diante de tudo o que poderia ser e abandonou.

Tinham o devir em aberto, com ampla gama de opções – até pela condição social. Deviam ter suas angústias. Certamente as teriam – passarei, não passarei, onde, no que, terei sucesso –, mas pareciam estar presentes o suficiente para saber desfrutar do agora – por mais que fossem chatas apostilas ao lado do companheiro –, alheios a possibilidades – futuras ou passadas.

É claro que me projetava neles, em boa medida. Daqui um mês estarei começando uma faculdade que é minha segunda opção, porque não consegui passar na FAU-USP. Daqui um ano é esperado que eu já tenha defendido meu mestrado, e que já esteja preparando o projeto de doutorado. Mas vejo diante de mim um futuro amplo, talvez mais vasto do que via quando tinha dezessete anos. Ao mesmo tempo, sinto que algo precioso do agora se me escapa, escorrendo em possibilidades pretéritas que tornam o desabrochar do presente abrupto, em solavancos, carente da leveza necessária.

Quando estava prestes a terminar de escrever esta crônica, explicação do namorado já encerrada, a garota troca de apostila e boceja. A invejo por se permitir um quê de preguiça em plena quinta-feira, como quem não sente que tem tempo perdido para recuperar.

São Paulo, 26 de abril de 2012.

Discussão de trânsito


Porra, não freia assim, caralho!
Estou descendo (à pé, claro) a Augusta, já depois da meia noite. O grito é nas minhas costas.
Quase que bato em você!
Cara, eu vi onde você tava, não tinha risco.
Não tinha risco?! Não tinha risco?!
Sinto que os dois gladiadores do trânsito seguem descendo, se aproximando de mim, apesar de prosseguirem com a discussão.
Se eu não freio com tudo tinha acabado em cima de você, porra!
Tinha nada, tinha distância, eu vi. Acha que fiz sem ver?
Olho para trás, surpreso da discussão seguir em movimento, e também por curiosidade mórbida de uma discussão de trânsito de madrugada em São Paulo.
Viu o caralho!
O sinal vermelho, os dois páram – eles, não a discussão.
Claro que vi, você tava longe!
O caralho! Eu tava logo atrás!
Eu segui meu trajeto. Carros passavam. O sinal abriu, e os dois patinadores (rollerskater) seguiram sua discussão, se haviam quase batido ou não.

São Paulo, 26 de novembro de 2012.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Dilma, a gerente nos tempos da política da lição de casa.

A última pesquisa de opinião do Datafolha, que dá à presidenta Dilma Rousseff 64% de aprovação, muito acima dos seus antecessores no mesmo tempo de governo, serve para reforçar uma vez mais a idéia de que a polarização irracional entre PT e PSDB que imprensa, internet e redes sociais alardeiam está superdimensionada. Se somar os que consideram o atual governo regular, Dilma alcança 93% de opiniões favoráveis – o que não implica, nas simulações de segundo turno (!) contra candidatos tucanos, que a atual presidenta consiga reverter automaticamente todo seu apoio em votos.

De qualquer forma, alguém que aprova Dilma votar no PSDB é sinal que não vê diferença substancial entre os partidos. E, salvo no PSDB paulista, não está tão equivocado, não. O grande carro chefe de Lula, o Bolsa Família, atendia a proposta que corria entre muitos economistas neoliberais, de adoção de políticas compensatórias para a devastação do livre-mercado – nada que PSDB não adotaria, ou que não tenha adotado, ainda que mais timidamente. Quanto à sanha privatista tucana, não é demais lembrar que dos primeiros atos relevantes do segundo governo Lula foi a privatização das estradas, como de Dilma, a dos aeroportos. A guinada neo-nacional-desenvolvimentista, aprofundada com a crise de 2008, talvez seja uma das diferenças mais substanciais entre os partidos – mas essa opção de política de governo, para além da esfera de economistas, cientistas políticos e meia dúzia mais preocupados em macro-economia, pouco influencia a visão de grande parte da população sobre um partido, e aqui incluo a parcela que se crê politizada.

Outra diferença mais marcante está entre PT e PSDB paulista, talvez o grande motor da pseudo-polarização que afeta a sociedade, a se crer no que se lê e se vê. E isso por conta, principalmente, de dois caciques do partido: Serra, que desde 2010 abraçou abertamente as propostas mais reacionárias no quesito de costumes; e Alckmin, que tem como política de governo uso sistemático de repressão policial contra populações marginalizadas não-criminosas. Ou seja, a diferença aqui estaria no respeito ou não aos direitos humanos [bitly.com/cG24112]. O terceiro cacique do partido no Estado, FHC, até tentou problematizar em busca de norte menos reacionário – ainda que conservador – ao partido; não obteve respaldo, ao menos em São Paulo. A imprensa, claro, tem seu papel fundamental nesse superdimensionamento, uma vez que, como mostrou Maria Ines Nassif em texto para revista Interesse Nacional [j.mp/J5zd9k], acabou se tornando a base da oposição – o PSDB até anda tentando adentrar nos sindicatos, mas ainda é muito frágil socialmente.

A aprovação de Dilma ser maior do que a de Lula mostra, por outro lado, que a popularidade do ex-presidente vai além da sua figura, foi transferida ao PT no governo federal. Dilma, ao manter a linha mestra de políticas econômicas e sociais do antecessor conseguiu preservar a popularidade entre aqueles que o aprovavam. O extra frente Lula se deve, muito provavelmente, a dois fatores. O primeiro, ao estilo discreto da atual mandatária da República, que se trata, no fundo, da aplicação do slogan de Alckmin em 2006, “O Brasil precisa de um gerente”. O segundo é que, como Dilma possui diploma universitário, quebrou-se a rejeição nutrida por uma parte da população – que por ser letrada e ter um diploma “superior” na parede crê ser instruída e saber ler – contra Lula, que tinha como base unicamente o preconceito e o rancor contra alguém que já foi do populacho se tornar presidente.

Nestes tempos de esvaziamento da política (fruto do fim das ideologias, aliado às políticas neoliberais da década de 90) e guinada conservadora – quando não reacionária –, o “fazer a lição de casa”, como dizem Mirian Leitão e tantos outros “intelectuais” da mesma (diminuta) envergadura, tem sido o suficiente para garantir uma alta aprovação. A política transformada em disputa de escândalos e dossiês não tem se mostrado forte suficiente para mobilizar a opinião pública, ao menos nas pesquisas de opinião. Porque na internet e na Grande Imprensa, temos governos prestes a cair de podre.


São Paulo, 23 de abril de 2012.

domingo, 22 de abril de 2012

Cores e sombras no vazio até o Outro

(livre interpretação da coreografia "Estudos em Chrom.Aqui")

Encontros, desencontros e reencontros com o Outro. Essa foi minha livre interpretação da coreografia "Estudos em Chrom.Aqui", de Alex Soares, do grupo Mov'ola, na segunda vez que assisti à apresentação.

Talvez isso ajude a diminuir a coreografia: na primeira vez que a vi, consegui me deixar levar pelo desfrutar da dança, sem buscar se não haveria uma mensagem – até pela descrição do programa, "Estudos em Chrom.Aqui" parece não ter uma mensagem positiva a dizer, no sentido de ter um discurso que afirma algo: estaria muito mais para um discurso negativo de embaralhar o quotidiano, deixando ao espectador a possibilidade de uma outra percepção do mundo, ao fim da apresentação. Foi essa a sensação que saí da primeira vez: certo estupor e um repensar muito das minhas opiniões sobre o que vejo e vislumbro no dia-a-dia.

Talvez foi já com esse repensar efervescendo que vi "Estudos em Chrom.Aqui" esta segunda vez. E quem sabe por isso eu tenha me atido a detalhes da coreografia, e me deixado interpretá-la ao sabor do que me soava, conforme as emoções das minhas últimas vivências.

A coreografia começa com as bailarinas Aline Campos e Natacha Takahashi dançando iguais, porém a primeira à sombra, a segunda à luz. Sons de máquina e essa coreografia equivalente me fez pensar se os caminhos que trilhamos, claramente ou sem saber, não estariam, no fim, sujeitos à mesma reificação, ao mesmo carregar caixas sem sentido – como Sísifo.

Entra, então, o terceiro bailarino da coreografia, Woody Santana. Os três em cena dançam, até que uma das bailarinas, Natacha, se oculta atrás de um punhado de caixas empilhadas no fundo do palco.

Restam Woody e Aline, que carregam caixas – reais e imaginárias – da pilha para alguns lugares do palco – Sísifo? Toc? –, até começarem um duo de tensão e delicada agressividade. Em meio a essa harmonia que não é sincrônica, um lento escapar de Aline, como a caminhar pelo espaço. Woody ainda a segura, pelo pé, mas no fim o que Aline arrasta até um canto do palco – para depois se retirar – é o corpo inerte de Woody – como se carregasse um peso morto.

Reaparece Natacha, e o duo agora é de quedas, de sustentar-se com o Outro, sempre com grande delicadeza, leveza, apesar de haver certa tensão: uma nova harmonia sem sincronia.

Volta Aline. Em um caminhar hesitante, Woody se apóia em ambas, sem chão, mas também sem que uma delas – ou as duas – o segure firme. O próximo passo é um empurrar de Woody – que vai junto – para a beira do abismo. Há, então, uma disputa por Woody, por esse Outro que as empurra mas as segura, e Natacha sobra sozinha no palco, para o solo final. Traz ainda o braço esticado, como a esperar a mão de alguém que a acompanhe. Vai um tempo até desistir desse apoio que não vem, e ela recolha o braço. No final, a cada golpe, ela sente no peito o apagar das luzes e das cores, até que, sem ninguém que a segure, o corpo pendente pra trás, o golpe final e a escuridão – a queda solitária, finalmente.

São Paulo, 22 de abril de 2012.


sábado, 21 de abril de 2012

Toca Raul!


Virou piada sem graça e manjada, mas houve época que era pra valer gritar "toca Raul!" quando a banda era fraca – no repertório ou na execução, tanto faz. "Toca Raul!", foi a vontade que me deu de gritar, de verdade, depois de pensar um pouco sobre o filme Raul – o início, o fim e o meio, de Walter Carvalho, que havia assistido há pouco. O filme não chega a ser ruim, mas é um filme fraco, ainda mais quando se leva em conta todo o material que foi conseguido – inclusive é essa montueira de material que dá uma primeira impressão do filme ser mediano.

Difícil saber por onde começa o mau uso do material. Talvez pelo título, que não é verdadeiro: Raul – o início, o meio e o fim, deveria ser. Pois o filme perde a ótima oportunidade de fugir do calendário, embaralhar um pouco a vida – as imagens e as músicas, ao menos – de Raul, e fazer um filme menos literal e mais poético. Isso não implicaria em uma apresentação equivocada do roqueiro, apenas poderia dar chance a Raul Seixar compôr a trilha sonora do filme sobre a própria vida. Um exemplo. Conforme o documentário, Raul estava artisticamente quase morto na década de oitenta, sem gravadora, sem empresário, sem agenda, isso até ser resgatado por Marcelo Nova, do Camisa de Vênus. Quando morreu, em 1989, não fazia dez dias que tinha feito seu último show, em Brasília. Por que mostrar o caixão só após a morte biológica? Não tinha ele já sido fechado, para depois ser reaberto? Eventualmente, repetir imagens não seria problema. Inclusive, a fase decadente de Raul Seixas foi passada meio por alto, confusamente – lembro de cenas interessantes dessa fase, vistas em documentários sobre o músico –, dando a impressão que o ostracismo foi simplesmente porque Raul não conseguiu ser a metamorfose ambulante que a indústria cultural exige de seus produtos.

O final, como um todo, é precário, por demais apelativo: pra que mostrar Dalva, a empregada que encontrou Raul morto, entrando no elevador do Edifício Aliança, vinte anos depois, e tendo uma crise de choro? E durante todo o filme, por que intrigas entre os entrevistados, como ao contrapôr opiniões das ex-parceira de Raul, umas sobre as outras? Ou ao dizer a Paulo Coelho que a Sociedade Alternativa ainda o considera um membro? Risível a infalitidade desse tipo de provocação – não por acaso que riso foi primeira resposta do escritor.

Outro ponto negativo: Pedro Bial. Deu a clara impressão que foi imposição da Globo Filmes para aceitar fazer a distribuição. Se acaso foi fã de Raul Seixas, Bial dá ululantes mostras de que não conseguia entender o que ele dizia, e que não se deu ao trabalho de se interar sobre o assunto: disse, por exemplo, que Raul não tentou entrar na indústria cultural, diferentemente dos Tropicalistas, que ele agia por si próprio; poucas cenas depois, Raul diz que faz uma música fácil, pra ser o mais acessível possível. Antes já havia sido informado que ele aceitara assumir um figurino pra satisfazer a gravadora.

De qualquer forma, o filme tem seus pontos positivos, para além do tanto de material recolhido. Creio que o principal é a forma bastante ponderada e natural com que as drogas são tratadas. Paulo Coelho não se arrepende – nem deveria – de ter apresentado as drogas para Raul – que então só conhecia álcool e tabaco. Raul Seixas se acabou por causa de álcool e cocaína. Mas era a mesma cocaína que ajudava-o a se inspirar. Todos ali usaram, apenas ele se deu mal. Poderia ter sido diferente, Raul ter levado de boa e Paulo Coelho se afundado. O detalhe é que o filme desautoriza a creditar unicamente às drogas a decadência do músico: ele foi a exceção à regra na relação com elas, em não conseguir se deixar dominar – e não se trata de uma questão moral, definitivamente, e esse tipo de julgamento o filme tem todo o cuidado para evitar.

Em suma: o filme trabalha para criar uma imagem positiva de Raul, apesar dos seus altos e baixos, e sem distribuir culpas pelos pontos baixos do artista. Raul Seixas, contudo, por tudo o que foi e que fez, merecia um documentário melhor – e material para isso havia.

São Paulo, 21 de abril de 2012.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

O peso de cada dia


Conversava ontem com uma amiga, e ela disse que anda com insônia: acorda às vezes às duas, às vezes às cinco da manhã. Insatisfação com o trabalho – é professora de ensino básico numa escola particular –, crê ela que seja a causa principal do seu problema de sono – se Cartola dizia que o mundo é um moinho, tenho até medo de pensar o que não seria, então, a escola, fábrica de salsichas, como em The Wall, do Pink Floyd (e penso por ora nos professores)?

Lembrei do meu pai, ele também, tem dias que acorda preocupado, antes das seis da manhã; e em períodos um pouco mais pesados que teve, seu desânimo vinha sempre no início do dia.

De minha parte, não tenho problemas com trabalho, pelo simples fato de não trabalhar nem me incomodar com essa situação; nem problemas mais graves. Apenas questões existenciais-banais, em geral com relação ao Outro – minha gagueira, tal como definiu Mishima o que é ser gago, meu coxear social, como tenho utilizado ultimamente. Tampouco tenho problema com sono – eventualmente pra acordar, mas ando abusando na hora de me deitar, admito. O curioso, contudo, é como os extremos do dia me são pesados – não sempre, é claro –, por mais que consiga passá-lo leve. O dia por vir, o dia que passou, e alguma falta, um vazio que persistiu, por mais que o dia tenha sido mais do que ocupado, agradável, farto – feito de descobertas, de perdas, de perder-me e descobrir-me, de novidades, de satisfações pequenas (e não tão pequenas) que eu carecia não sabia o quanto, quando morava em Campinas. Tem momentos que acho que é o preço que pago por não me prender a uma dessas âncoras sociais firmes, fortes e bitoladoras – religião, crença numa verdade política compartilhada, exoterismo –, e ter a liberdade de olhar para frente e para trás e pesar o que fiz ou pretendo fazer – ou o que não fiz e, por mais que queira, pretendo deixar de fazer.

Relendo os originais (ou seria ainda o rascunho?) de uma novela que escrevi há pouco mais de um ano, um dos personagem dizia, num existencialismo de botequim, que encarar a vida de frente era "se deparar com a angústia pela manhã, a nulidade à noite, e saber criar nesse intervalo, com o pouco de liberdade que nos cabe, a felicidade." Quem sabe minha grande questão do momento seja: estarei mesmo aberto – e não digo racionalmente, mas inconscientemente – para inventar e construir essa tal felicidade que me apraz e que anseio e desejo?


São Paulo, 20 de abril de 2012.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Em busca de uma nova Ruth, a balconista.


Desde que mudei de Campinas tenho andado em busca de uma nova Ruth, para ter o que escrever quando me falta assunto – ou, mesmo com assunto, enquanto me falta alguém. Dizem que o amor supera barreiras. Para amor platônico, barreiras inexistem. A questão com Ruth é que a impossibilidade de um convívio, não digo diário, mas mais seguido, faz falta: que vou eu escrever de Ruth, a balconista, se a única coisa que sei é que se trata de uma linda bochechuda sardenta, com belos olhos, que trabalha como balconista de farmácia próxima à casa da minha ex? Poderia virar personagem de conto, não de crônica.

Para suprir provisoriamente essa lacuna, elegi Flávia, a moça parecida com a Carla Bruni, que se interessou em dividir apartamento comigo, mas foi atropelada em suas aspirações pela chegada da Hugo – amigo então recém despejado, carente de teto. Dizia a Flávia que trabalha perto de casa. Já passei várias vezes, em vários horários, pelo endereço, nunca a vi, de modo que desanimei: paixão platônica baseada em foto – apenas uma, ainda por cima! –, eu poderia escolher uma atriz de tevê, cinema, cinema pornô. Se tal atriz morasse em São Paulo, ainda teria chance de trombar com ela. De qualquer forma, não quero uma musa eletrônica para me inspirar – até porque não vejo como não sair crônicas um tanto pobres dessa experiência.

Logo que mudei, por duas vezes, cruzei com uma bonita ruivinha – que suspeitei fosse minha conterrânea, inclusive, o que é um ponto negativo, mas seria curioso –, uma vez no mercado, outra na rua. Me preparava para alçá-la à minha chinesinha do momento – por sinal, Francoy anda parado, desde que arranjou uma namorada –, mas não a encontrei mais. Notei, então, que precisava estipular uma regra, ao estilo "Manuscrito hallado en un bolsillo", do Cortázar: ao menos três encontros para poder escrever uma crônica – e encarar isso como sinal de que novos encontros aconteceriam.

Semana passada, ao sair de uma lanchonete, eis que dou cinco passos e trombo com Camila, a moreninha da balada. São três, portanto, os encontros! Camila é uma guria das mais belas – uns olhos penetrantes –, que eu vira em dois shows cover do Radiohead, na Rua Augusta, e que já tinha mais de meia crônica pronta na cachola – estragando meu jogo, por sinal – quando resolvi puxar papo. A conversa continuou, foi para além daquele dia da segunda balada, salvando, assim, meu jogo, mas estragando minha crônica: Camila – que descobri não ser morena, mas japonesa – perdeu toda oportunidade de platonismo, e ainda fez dos meus dias confusão. Pena que foram poucos – coisas da vida, essas desilusões (ou ilusões?) amorosas, e que não me arrependo, mesmo que tudo isso tenha me levado a voltar a ouvir Engenheiros do Hawaii e Los Hermanos.

A próxima da lista de aspirantes a nova Ruth é japonesa também – pura coincidência! Piercings pelo rosto, tatuagem nas costas, na nuca, na testa (não é modo de dizer), e provavelmente em várias outras partes do corpo. Já a encontrei em uma apresentação de dança – no dia em que mais tarde conversaria com Camila –, e no Masp, na época em que ainda estava com Camila. Tem um belo olhar, duro, e sou do palpite que todo aquele visual agressivo dela serve mais para se proteger. Comentando sobre ela com o Cássio, me perguntou se não era uma que se vestia assim e assado. Era! Me animei: "Conhece?", "não, mas é o tipinho básico da Galeria do Rock." Bah! Será que eu deveria passar a freqüentar a galeria do rock? Fazer o que lá? Não pretendo fazer tatuagem, pôr piercing, não gosto de comprar roupas e não lembro de farmácia ou sebo no recinto.  

Não deveria estar escrevendo sobre a japonesa do piercing na testa, afinal, ainda não foram os três encontros. Ocorre que nenhuma atendente de nada até agora me chamou a atenção – não o suficiente. Há as bonitinhas e simpáticas, como a do Sukiya, que se lembra de mim por 007 (meu cpf), mas falta qualquer coisa no olhar – e não é olho puxado –, ou nas bochecas, não sei. Sequer na PUC ou no CCSP, locais que tenho ido para estudar, tenho encontrado alguém para ser minha musa inspiradora. Já me sugeriram abrir um concurso pra isso, achei a idéia descabida. Do jeito que vai, Ruth ainda terá vida longa pelo meu blogue.


São Paulo 18 de abril de 2012.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Dizeres e não-respostas


Trombei na PUC com uma conhecida – amiga de uma amiga –, com quem já encontrara duas vezes e conversara algo para além de meia dúzia de frases vagas, sem ter chegado, contudo, a conversas existenciais-banais. Neste encontro de hoje – o primeiro sem mediação da amiga em comum –, ao nos despedirmos, não sei por que cargas d'água resolveu comentar que sempre tivera a impressão de que eu era um cara bacana. Agradeci e deixei por isso, por mais que também tenha uma boa impressão dela: achei que não convinha falar isso só porque ela comentara: se era o tempo dela, não era o meu.

Meu mutismo no que poderia ser uma troca de elogios me fez recordar da minha última "desilusão amorosa", como classificou uma amiga – o que desde o início me fez questionar, por que não "ilusão amorosa"? Pois bem, em esse meu namorico, a guria, sempre bastante sincera, comentou que seu silêncio frente o que eu dizia – e não era nada demais, ao menos para mim –, fruto de uma escolha de não mentir sobre o que sentia, só para atender ao que ela imaginava ser meu anseio de ouvir (ou ler), a causava especial incômodo, a ponto de fazê-la decidir por não mais mantermos nosso relacionamento tal como ele engatinhava. Disse que achava que, caso nossa relação se tornasse séria, seria uma injustiça termos esse desnível.

Esses dois casos – em que em cada um eu estava de um lado – me chamou a atenção para algumas coisas, que para mim, no meu coxear nas relações sociais – ainda sou dos que respondem quando me perguntam "como vai?" como estou, e não "bem, e você?" –, soaram curiosas.

A primeira é a idéia de contrato que parece arraigada em nossa sociedade – esse meu caso não é exemplo isolado –, e que pressupõe uma igualdade mais do que radical, absoluta, para que uma relação íntima – pode ser de amizade próxima – seja "justa", franca, verdadeira. Me fez lembrar a vez que notei que só eu buscava o Paulo – amigo a quem me refiro como "irmão mais velho" – quando em apertos: não havia movimento dele na direção contrária. Me dei conta, tempos depois, que a questão era que ele possuía outros expedientes para trabalhar suas urgências, e que eu, não abusando – se abusasse, ele avisava, de qualquer modo –, não tinha porque me privar de suas palavras, sua acolhida, quando precisasse. Não havia nada de errado nessa dissimetria: apenas formas de se pôr diferentes, que conseguem se harmonizar muito bem (há mais de uma década).

A segunda – derivada da primeira –, foi me questionar: falamos o que sentimentos porque sentimos, ou porque queremos ouvir o mesmo do outro? Se falamos para nos expressar, o calar do outro não é um problema, já que estamos nos exprimindo e não cobrando. Se falamos esperando uma reação na mesma proporção do outro lado, estamos sentindo mesmo, ou estamos tateando até onde arriscar a pele no relacionamento sem nos comprometer com uma futura desilusão?

Isso me fez lembrar de conversa que tive com o Mártin, amigo sociólogo. Ele comentava que um dos ethos de nossa sociedade é "arriscar-se sem riscos" – se pôr em pseudoriscos, para falar mais direto. Bungee jumping, saltar de paraquedas, fazer rapael, tudo seguindo normas de segurança, que garantem que não sofreremos nenhum acidente grave. Se envolver com alguém – se não for pela lógica comercial do networking – parece seguir a mesma lógica, um pseudo-entregar-se, porque feito não conforme o desejo, mas a partir das reações do outro.

Contrato entre iguais talvez deva mesmo ser a tônica, mas para empresas; normas de segurança me soam imprescindíveis para que esportes radicais sejam esportes; relações humanas talvez devessem ser mais fluidas, instáveis, maleáveis, arriscadas. Até chegarmos nisso, fico com a dúvida: não terei sido mal educado ao responder um elogio com tão-somente um sincero obrigado?

São Paulo, 17 de abril de 2012.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Das mortes que morri por estes dias


Pela primeira vez fui pra Ribeirão Preto depois de ter me mudado pra São Paulo – tinha o casamento de um amigo da época do cursinho, Leonardo. A caminho de Ribeirão, terminei de ler Em busca do tempo perdido, cujo primeiro volume, No caminho de Swann, havia começado a ler nos idos 2003. O livro termina com uma série de reflexões sobre o tempo e sua passagem, e eu acabei embarcando nelas, pensando em todos os que passei – todas as pessoas e todos os eus –, ainda mais que me dirigia para a cidade em que comecei minha vida “independente”, em que deixava – finalmente! – de ser filho dos meus pais para ser eu próprio, Dalmoro – até na escola eu era tratado como filho dos meus pais, e não eles como pais do Daniel.

O que me chamou a atenção é que, se das vezes que eu chegava vindo de Campinas, sempre me batia aquela nostalgia, um sentimento confuso de “já foi o meu tempo aqui, mas ele bem poderia voltar”, ou melhor, “não adianta voltar pra cá, simplesmente, pois não estou mais em 2001, mas bem poderia haver novamente a oportunidade de ter um novo tempo em Ribeirão”; desta feita lembrar de tal sentimento soou tão distante que quase não parecia ser comigo, não parecia que eu sentira isso em novembro ou dezembro – não lembro bem quando fui pela última vez para lá – e, confesso, tive até uma certa raiva de pensar que por tanto tempo essa foi minha auto-recepção na então “Califórnia brasileira”, agora “capital nacional do agronegócio”.

Quarta-feira, quando fora à minha consulta mensal com Aílton, sensação parecida já havia me assaltado, por outros motivos. Conhecera Camila não fazia uma semana e parecia sem sentido falar de como havia passado o mês até o dia em que a conhecera. Pior: eu tinha dificuldade em lembrar de como me sentira na semana anterior, e reportava como se falasse de alguém distante.

Em Ribeirão fiquei na casa do Paulo, com quem o encontro é sempre um sentir-se em casa, como já comentei alhures [j.mp/cG090311]. Estamos em 2012, não mais 2001. Paulo já tem cabelos brancos, eu, menos cabelo, a av. Jerônimo Gonçalves não tem mais suas belas e imponentes palmeiras imperiais, o cruzamento dela com a Francisco Junqueira não tem mais uma árvore enorme – está agora limpa, luminosa para a passagem dos carros –, a praça Camões segue aconchegante como há uma década, mas eu agora a freqüento acompanhado do Paulo e de sua cachorrinha, a Faísca (por sinal, fica a dica para encalhados de Ribeirão: passear com cachorro na praça). Fiquei contente com meu descompasso com Ribeirão: parece que depois de mais de uma década, eu me reencontrei em alguma cidade.

São Paulo, 03 de abril de 2012.