quarta-feira, 18 de abril de 2012

Em busca de uma nova Ruth, a balconista.


Desde que mudei de Campinas tenho andado em busca de uma nova Ruth, para ter o que escrever quando me falta assunto – ou, mesmo com assunto, enquanto me falta alguém. Dizem que o amor supera barreiras. Para amor platônico, barreiras inexistem. A questão com Ruth é que a impossibilidade de um convívio, não digo diário, mas mais seguido, faz falta: que vou eu escrever de Ruth, a balconista, se a única coisa que sei é que se trata de uma linda bochechuda sardenta, com belos olhos, que trabalha como balconista de farmácia próxima à casa da minha ex? Poderia virar personagem de conto, não de crônica.

Para suprir provisoriamente essa lacuna, elegi Flávia, a moça parecida com a Carla Bruni, que se interessou em dividir apartamento comigo, mas foi atropelada em suas aspirações pela chegada da Hugo – amigo então recém despejado, carente de teto. Dizia a Flávia que trabalha perto de casa. Já passei várias vezes, em vários horários, pelo endereço, nunca a vi, de modo que desanimei: paixão platônica baseada em foto – apenas uma, ainda por cima! –, eu poderia escolher uma atriz de tevê, cinema, cinema pornô. Se tal atriz morasse em São Paulo, ainda teria chance de trombar com ela. De qualquer forma, não quero uma musa eletrônica para me inspirar – até porque não vejo como não sair crônicas um tanto pobres dessa experiência.

Logo que mudei, por duas vezes, cruzei com uma bonita ruivinha – que suspeitei fosse minha conterrânea, inclusive, o que é um ponto negativo, mas seria curioso –, uma vez no mercado, outra na rua. Me preparava para alçá-la à minha chinesinha do momento – por sinal, Francoy anda parado, desde que arranjou uma namorada –, mas não a encontrei mais. Notei, então, que precisava estipular uma regra, ao estilo "Manuscrito hallado en un bolsillo", do Cortázar: ao menos três encontros para poder escrever uma crônica – e encarar isso como sinal de que novos encontros aconteceriam.

Semana passada, ao sair de uma lanchonete, eis que dou cinco passos e trombo com Camila, a moreninha da balada. São três, portanto, os encontros! Camila é uma guria das mais belas – uns olhos penetrantes –, que eu vira em dois shows cover do Radiohead, na Rua Augusta, e que já tinha mais de meia crônica pronta na cachola – estragando meu jogo, por sinal – quando resolvi puxar papo. A conversa continuou, foi para além daquele dia da segunda balada, salvando, assim, meu jogo, mas estragando minha crônica: Camila – que descobri não ser morena, mas japonesa – perdeu toda oportunidade de platonismo, e ainda fez dos meus dias confusão. Pena que foram poucos – coisas da vida, essas desilusões (ou ilusões?) amorosas, e que não me arrependo, mesmo que tudo isso tenha me levado a voltar a ouvir Engenheiros do Hawaii e Los Hermanos.

A próxima da lista de aspirantes a nova Ruth é japonesa também – pura coincidência! Piercings pelo rosto, tatuagem nas costas, na nuca, na testa (não é modo de dizer), e provavelmente em várias outras partes do corpo. Já a encontrei em uma apresentação de dança – no dia em que mais tarde conversaria com Camila –, e no Masp, na época em que ainda estava com Camila. Tem um belo olhar, duro, e sou do palpite que todo aquele visual agressivo dela serve mais para se proteger. Comentando sobre ela com o Cássio, me perguntou se não era uma que se vestia assim e assado. Era! Me animei: "Conhece?", "não, mas é o tipinho básico da Galeria do Rock." Bah! Será que eu deveria passar a freqüentar a galeria do rock? Fazer o que lá? Não pretendo fazer tatuagem, pôr piercing, não gosto de comprar roupas e não lembro de farmácia ou sebo no recinto.  

Não deveria estar escrevendo sobre a japonesa do piercing na testa, afinal, ainda não foram os três encontros. Ocorre que nenhuma atendente de nada até agora me chamou a atenção – não o suficiente. Há as bonitinhas e simpáticas, como a do Sukiya, que se lembra de mim por 007 (meu cpf), mas falta qualquer coisa no olhar – e não é olho puxado –, ou nas bochecas, não sei. Sequer na PUC ou no CCSP, locais que tenho ido para estudar, tenho encontrado alguém para ser minha musa inspiradora. Já me sugeriram abrir um concurso pra isso, achei a idéia descabida. Do jeito que vai, Ruth ainda terá vida longa pelo meu blogue.


São Paulo 18 de abril de 2012.

Sem comentários: