sábado, 30 de junho de 2012

Apenas outra andança pelo centro.

Eu voltava apressado para casa, preocupado com a hora, se daria tempo de pegar a academia ainda aberta, e antes disso, de anotar os tópicos para esta crônica. Quase em casa, um homem com o andar ébrio e caixa de papelão dobrada debaixo do braço provavelmente busca um lugar para dormir sem ser importunado por algum segurança que não quer a "calçada suja". A padaria está sendo fechada: mau sinal. Passo por uma mocinha e seu cachorro de madame – agora toda mocinha que passo me pergunto se é minha vizinha que inadvertidamente (ou talvez em plena consciência, por que não?) se troca de janela aberta. Passo por uma madame e seu cachorro em forma de tamanduá. Cinco minutos antes, na av. Paulista, por muito pouco não sou atropelado na faixa de pedestres por um skatista. Me eximo de qualquer responsabilidade, por mais que naquele instante eu estivesse pensando que o rock meio grudento que um artista de rua tocava em sua guitarra, na saída do metrô Consolação, era uma boa trilha sonora para um fim de noite frustrada, e que a mocinha bonita que conversava próxima à entrada da estação seria um bom (e belo) motivo para uma noite de frustração (poderia ser também motivo para um ótimo fim de noite, mas fiquemos com o evento mais plausível): o sinal estava verde para mim, que sou pedestre.

A rua Augusta estava movimentada, diferente dos dois dias anteriores, surpreendentemente vazia – é certo que na quarta eu passara por ela durante o jogo do Corinthians, aí não vale. Passo por um casal de belas mulheres com quem havia cruzado na quarta – foi, inclusive, motivo para a conversa com a amiga com quem me encontrara aquele dia mudar de rumo, para sobre o que nos atrai em uma mulher (e eu, nessa hora, volta e meia falando do meu esboço para o doutorado) –, e preciso admitir: apesar de terem aparentemente a minha idade, no máximo, mesmo estando de calça jeans e não tailleur, têm aquele ar, aquele porte que desautoriza chamá-las de moças, jovens ou gurias: são Mulheres. Por falar em Augusta e mulheres, um leve gosto avinagrado me subiu à boca quando adentrei a rua, ao pensar em possíveis reencontros: felizmente foi só com o referido casal.

Na Augusta, nada que chamasse muito a atenção, nada além do que estou habituado a presenciar ali. No centrão, Boca-do-Lixo, sim, algumas cenas extraordinárias (para mim). Um homem se aproxima de um catador de latinhas, consideravelmente sujo: “quer trabalhar?” O catador aceita, e então o homem grita para dentro de um sobrado decadente “alguém aí quer trabalhar?”. Vários “eu” apressados saem de lá. “Só tem vaga pra mais dois. Só mais dois! É pra ajudar na mudança daquela mulher”, e aponta para uma mulher na esquina, uma perua com seus móveis – talvez antigos e pesados, para precisar de tanta gente? Pouco antes presencio uma cena que esqueço que deve ser comum ali, pela própria condição de marginalidade dupla da maioria que trabalha naquela região à noite (dupla enquanto ser humano e enquanto profissional): uma travesti cheira uma carreira oferecida por um potencial cliente. Não deixo de ficar chocado com a cena – tão óbvia e eu nunca pensara nisso? Descubro onde fica o teatro da Aliança Francesa. Acabei nessa região porque havia virado na rua do Arouche, atraído por uma batucada que parecia bizarramente uma manifestação – e era! Bandeiras do PSTU e outras vermelhinhas, um boneco do Bolsonaro com mordaça, cartazes pedindo a criminalização da homofobia. De início estranho, mas logo noto que faz sentido: sexta-feira à noite, Arouche, ato contra a homofobia: propício. Até a batucada, eu me perdia em meus pensamentos, falava a mim mesmo que talvez fosse de bom tom não ir além da av. São João nas minhas flanagens noturnas.

Andava pela av. Rio Branco e decido entrar uma perpendicular, para inicar meu trajeto de retorno ao lar – a confiar na minha bússola interna, e porque não queria andar muito. Estou no meio da quadra e ouço, no outro lado da rua, o barulho de uma garrafa estourando. Logo vejo uma pessoa saindo em perseguição daquela que atirou (ou bateu, não vi) a garrafa nele. "Anda complicado morar aqui nos últimos tempos", comenta um homem sentado sob uma marquise. "Mas tem muito apartamento pra alugar?", pergunta seu interlocutor. Faço, então, algo que não me autorizo normalmente, salvo na Augusta e na Paulista: dou meia volta e retorno por onde vim. E penso como se trata realmente de uma questão das mais complexas, como lidar com o centro de São Paulo: o que fazer com a população de rua? Essas pessoas têm direito à cidade tanto quanto qualquer outra pessoa. Muitas preferem viver na rua, e não querem morar em albergues cheio de regras, nem ter uma vida pequeno-burguesa como jovens doutores em direito creem ser a vontade de todos. Políticas higienistas, como têm sido praticadas pelos governos municipal e estadual, além de atentarem contra a dignidade desses cidadãos, não resolve o problema, no máximo o despacham para algum outro lugar – e isso vem de longa data, vide os contos de João Antônio. A dita esquerda também não sabe o que fazer, e prefere crer que o pobre e o marginalizado são a reencarnação do bom selvagem de Rousseau. Como garantir uma cidade tranqüila, relativamente segura (para todos, em que não haja nem assaltos, nem grupos de extermínio, nem pirados avançando contra você) sem atentar contra os direitos individuais, sem ter todo pobre como suspeito – ou pior, como um estorvo, quase um dejeto que não se pode mandar logo pra uma vala.

E toda essa digressão porque ao sair de uma apresentação de dança de rua na Galeria Olido, resolvo não voltar pra casa direto, mas dar um rolê pelo centro. Ao lado da Olido, uma base da Polícia Comunitária Móvel. Defronte a ela, um policial segurando uma escopeta (não sou um entendido em armas, mas era uma espingardona dessas truculentas): eles querem angariar apoio da comunidade ostentando esse tipo de arma? Ainda mais num dia em que há um bando de jovens da periferia (não só pela apresentação de dança de rua como pelo som que está tocando no espaço de dança)? É para mostrar democracia, como a dizer "somos truculentos em qualquer lugar", ou é para avisar "cuidado, malandros, que estamos aqui só esperando vocês aprontarem"? Não sei, só sei que me sinto incomodado e ofendido com aquela arma na mão do policial sem nenhuma razão para que ele a segurasse.

E no fim, mesmo dando um rolê pelo centro, consigo anotar os tópicos para a crônica e chegar a tempo na academia.

São Paulo 30 de junho de 2012.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Ridículos

Comentário de um amigo à minha última crônica, "Moças no mercado ou balconistas", além de mais divertida do que a própria (sim, ela se pretendia divertidinha), me fez pensar um pouco mais do porquê do meu fracasso com Ruth, por exemplo – não era bem em Ruth, mas deixo a crônica sobre o "GFS" para uma próxima –, e foi um dos temas de um passeio-parlante que tive com uma amiga, hoje, que durou umas quatro horas (vinte quilômetros?). É certo que se se pensar que Ruth, a balconista, já figurou em mais de uma dúzia de textos não se pode falar em fracasso completo: me rendeu uma personagem para crônicas, ao menos. Em seu comentário, Alexandre fala da "bofetada do destino" pelo seu atrevimento em paquerar a atendente da livraria: ao se virar para apreciar uma vez mais o sorriso da moça – "uma dessas suas criaturas mágicas: doce, de sorriso sincero e alumiador, coisa tocante mesmo", segundo ele – meteu a fuça na quina de uma prateleira.

Apesar de ter aprendido a ser um pouco mais articulado com o tempo, não abandonei a timidez, ou melhor, não fui abandonado por ela, que me persegue como uma sombra – mesmo por onde não há luz. Para não chamar a atenção – apesar da minha altura e do meu jeitão de Pinky (do Pinky e Cérebro) não contribuírem muito –, para evitar alarmes e surpresas, tento não destoar do ambiente, mantenho involuntariamente minha cara de paisagem, e fujo de qualquer ridículo, qualquer embaraço. Depois lamento que não me percebam, e escrevo uma crônica do ridículo que consegui evitar.

Comentava minha amiga: o que foge da ordem, o ridículo, o cômico, é algo que não apenas chama a atenção, como pode ser algo que atraia – bofetadas do destino levaremos de qualquer forma. Pensei nas minhas "abordagens" a balconistas: sempre me restrinjo ao esperado de um cliente normal – inclusive com a receita na mão, para agilizar o atendimento! –, e deixo o ridículo para minhas crônicas, quando já não tem muita serventia que rir de si próprio. E como avisou minha amiga: evitar o ridículo é evitar também o atrevimento. Ok. Mas um tipo cafajeste tiraria de letra o ridículo e se garantiria no atrevimento; para um tipo mais do perfil "idiota" – que dispensa o convite de um guria linda pra comer um cachorro-quente depois da faculdade porque já jantou e deixa ela ir sozinha, por exemplo –, temo que me sobre apenas o ridículo, sem o atrevimento: eu vermelho pedindo desculpas por não sei o que e querendo sumir o quanto antes – sem olhar pra ver se a moça não estaria me dando bola.

Outra coisa que me chamou a atenção no comentário do Alexandre: ele trata do ridículo acontecido com uma leveza que muito se assemelha à do Francoy, de quem admito abertamente inspiração para minhas crônicas sobre Ruth – só não me inspirou mais do que a própria. Invejo essa leveza, ainda vejo minhas crônicas pesadas, e se tento aliviá-las, soam-me "querido diário". 

Enfim, a ver se no meu próximo encontro com Ruth – ou outra balconista –, não me permito alguma gafe, e que essa gafe me faça esquecer que eu pretendia escrever uma crônica.


São Paulo, 28 de junho de 2012.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Moças no mercado ou balconistas?

Amigo meu colocou em seu Facebook, dias atrás, que havia visto uma moça bonita no mercado que, segundo ele, bem poderia ser sua namorada, e concluía: “gente interessante mesmo a gente encontra é no mercado". Em partes me vejo obrigado a concordar com ele. Lembro uma época, quando ainda era estudante da Unicamp, que se eu fosse no mercado às sete da noite do sábado, grandes chances de encontrar uma guria muito bonita que bem poderia ser minha namorada – é certo que era sempre a mesma, uma das minhas duas paixões platônicas. Isso era no tempo de Barão, que é uma cidade pequena, ou menos que isso.

Em São Paulo, a coisa muda de figura. Mercado segue sendo um bom local para se deparar com moças bonitas – citei em crônica antiga uma ruiva, e ontem mesmo vi uma sardenta de olhos castanhos claros e um olhar de bicho assustado, toda delicada, linda!, apesar de que o que mais me chamou a atenção foi o fato d'ela estar calçando All-Star e ser mais alta do que eu –, o problema são as chances de reencontros: raros, raríssimos (salvo com Camila, a moreninha da balada)! Logo, a possibilidade de virarem ao menos uma paixão platônica ou um mote para crônicas é pequena. Se for pensar em algo mais real, então, exige uma abordagem de primeira – e não consigo lembrar de nada que eu consiga fazer de primeira, muito menos me aproximar de alguém. Ademais, há o problema de como puxar assunto num mercado: reclamar do preço da alface não parece muito sedutor, dar uma de entendido em vinho sem sê-lo pode te pôr em apuros, se ela resolver comentar algo do buquê ou do retrogosto. Pior: pode ser que você descubra que ela é uma enochata logo na primeira conversa – evitemos esse tipo de decepção de cara.

Por isso sigo preferindo as balconistas: essas você sabe onde e que horas encontrá-las – e pode até fingir para si próprio que estão te esperando não para atendê-lo, mas para te fazer um convite para sair. Francoy, se não fosse hoje um homem compromissado, certamente concordaria comigo.

Hoje caminhava pela Liberdade em busca de algum lugar pra almoçar: eram quase três da tarde e estava difícil achar algum restaurante aberto. O negócio era um PF numa cantina, mesmo. Foi quando passei em frente a uma portinha que se dizia fast-food oriental. Acabei entrando por causa da atendente, uma bochechuda bonitinha – que se mostrou de grande simpatia. Anotou meu pedido, yakissoba; pedi também a nota fiscal, até pra ver se ela se animava em puxar papo por causa do meu cpf (007). Às vezes dá certo – nunca quando eu quero. Ela preencheu a nota à mão, com uma letra bonita – tranqüila, eu diria –, plenamente legível. Como o outro fast-food oriental que eu conheço, esse também exigiu tempo e paciência – e estranhei o yakissoba com ovo de codorna e champignon, mas enfim.

Entretanto, por mais que a atendente fosse bonitinha, nada que se compare a Ruth, a balconista da farmácia. O problema da Ruth é que ela é de Campinas, não de São Paulo (nem de Barão, apesar de hoje isso não importar mais). Para ajudar na minha falta de sorte para com ela, quando eu começava a preparar o terreno pra convencer minha ex a sondar se Ruth tinha marido, namorada, compromisso, facebook, eis que ela me conta das novidades, que acabam por me impedir de qualquer pedido esdrúxulo. Argunta que é, pode ter percebido minhas intenções e usou de subterfúgios para não ter que assumir qualquer compromisso bizarro. Creio, contudo, que é sincera, não tinha porque mentir... a não ser que tivesse mentido também quando disse que Ruth não era do gênero que ela curtia.

São Paulo, 22 de junho de 2012.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Politicamente correto e preconceituoso

Quem me conhece sabe que não sou afeito ao politicamente incorreto: encaro-o como, via de regra, um verniz modernex utilizado como subterfúgio para ocultar uma inteligência limitada e um moralismo encruado. Se ficarmos nos exemplos dos humoristas que seguem essa linha, não lembro de nenhum que, quando chamado a falar sério, se mostrou digno de respeito por sua inteligência – podem ser espertos, vivos, mas capacidade de reflexão é algo que passa longe. Talvez alguém pudesse sugerir o Marcelo Tas, raposa esperta (que oculta muito bem sua plumagem), mas ele antes coordena seus miquinhos amestrados do que ele próprio apela para esse tipo humor. Exemplo do moralismo dos adeptos desse pensamento, dou sempre o mesmo: uma noite, passava em frente ao teatro Comedians, especializado em stand up comedy, e havia a tradicional enorme fila de pessoas descoladas que esperavam para rir de piadas de pretos, pobres, putas, gordos e gays. Estava havendo ali um forrobodó porque um dos espectadores insistiu em furar fila. Chamaram a polícia e o homem foi preso. Politicamente incorreto só com os outros, porque para si o mais tacanho respeito à ordem.

Nestes tempos de informática, zero e um, quem não me conhece vai achar que, por não coadunar com o politicamente incorreto, automaticamente defendo o politicamente correto. Equivocam-se. O politicamente correto soa como um mar de boas intenções para o século XXI em uma mentalidade pré-moderna, que não aceita a diversidade, a alteridade, e nega a democracia mais radical: aquela fundada no dissenso. Para não dizer que ainda não conseguiram se adaptar a contento no Estado democrático de direito – por mais precária e limitada que seja esta forma de organização da sociedade. Dizer o que pensa deveria ser livre, assim como arcar com os custos de suas opiniões: como disse Renato Janine Ribeiro em um dos casos envolvendo o comediante Rafinha Bastos: deixa ele falar, ele que não se faça de vítima depois, que tenha responsabilidade por aquilo que fala, diante de quem ofende, e responda judicialmente. Parênteses: utilizar de concessão pública – emissoras de rádio e tv – para divulgar preconceitos e racismos é outra história, porque aí entra a anuência do Estado. Fecha. Em entrevista à Folha, a advogada Janaína Conceição Paschoal traça bem as limitações (intelectuais e de concepção de mundo) da onda do politicamente correto que vivemos: enfatizar a prisão, ao invés de penas alternativas, serve para transformar ladrão de galinhas (ou torturador de galinhas, vá lá, agora que aprovaram a lei que pune quem maltrata animais com retenção) em homicida profissional (de gente). Como André Dahmer, dos Malvados, diz em uma tira: “um sistema penal preocupado com a segurança das galinhas”.


É no campo semântico que ocorrem dos mais quixotescos gládios – alguns dos quais, assumo, eu encampo, ao menos para meu próprio uso. E não só no Brasil. Denys Arcand em seu filme A idade das trevas (traduzido horrorosamente como A era da inocência) retrata o absurdo (e ridículo) do politicamente correto no Canadá. Isso para não dizer das feministas e sua luta contra o latim.

Foi uma amiga minha, cujo pai é angolano, que me fez me dar conta do tamanho do preconceito que o politicamente traz embutido: e traz como pressuposto positivo, e não como algo a ser combatido. Politicamente correto não diz “negro” ou “preto” para “pessoas de cor”, e sim “afro-descendentes” ou “afro-brasileiros”. Como o próprio termo diz, se trata de pessoas cujos ancestrais vieram da África. Oculta está a idéia de que tais ancestrais eram necessariamente negros. Vem daí a questão da minha amiga: ela é filha de um angolano não negro, mas moreno claro: deixa de ser afro-descendente? Pior se eu lembrar do porteiro do prédio que eu morava em Ribeirão: era moçambicano, e bem mais branco do que eu, que sou bem branquelo. Alguém tentando manter a pureza das boas intenções do termo pode argumentar que antes de serem africanos, eles têm origem européia: ótimo, voltaremos à questão de etnia, ligada ao solo, a uma tradição cultural – e só não falaremos em raça porque é politicamente incorreto. Mas mesmo a esse há argumentos: o mar Mediterrâneo não banha só a Europa: na outra margem está a África, a África branca (geralmente islâmica): Zidane, para ficar apenas num exemplo famoso, é neto de argelinos, e a Argélia fica na África. Se trata de branquelão tanto quanto eu. Deixa de ser afro-descendente por não ser negro?

Vão me acusar de má-fé, pois eu sei bem o que quer dizer afro-descendente, e apenas quero confundir as coisas. É verdade: abuso da má-fé com o termo e sua acepção politicamente correta. Acontece que a África não possui só negros, como não é feita só de savanas com leões e girafas. Nem tudo está perdido, contudo. Minha mãe deu uma boa sugestão de como combater esse preconceito dos politicamente corretos sem abandonar o termo “afro-descendentes”: basta chamar aos que tem origens na África negra de “afro-negro-descendentes”.


Pato Branco, 19 de junho de 2012.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Uma crônica ou uma guria.

Sexta recebi mensagem de uma amiga, a mesma que me sugeriu uma substituta oriental a Ruth, a balconista: "chochile à tarde que hoje vamos te arranjar uma crônica ou uma guria". Mandou tarde o sms: eu havia combinado de me encontrar com alguns amigos de Ribeirão, e estava já no CCBB, na exposição "Corpos presentes", de Antony Gormley.

Breve parênteses para comentário: a parte interna eu preciso ir de novo, ver com mais calma. A parte externa, espalhada pelo centro da cidade, essa eu já havia visto em outros momentos, e acabei discordando dos meus amigos, talvez por ter começado por elas: aquelas estátuas no alto dos prédios, na interação com a urbe, não me soavam como suicidas – à distância, pareciam eretas e rígidas demais para estarem como hesitando para o salto final –, e sim como vigilantes em postos avançados, nesta cidade super-vigiada, super-protegida (de quem, do que, para quem, são outras questões). Fecha parênteses.

A falta do cochilo não impedia a saída à noite, de qualquer forma. Acontece que depois do CCBB fomos à Galeria Olido, assistir à coreografia "Farmácia", e de lá subimos a rua Augusta. No meio do caminho, recebo nova mensagem da Misson, avisando que está, junto com outros amigos, no mesmo bar da semana passada. Esqueceu que na semana anterior havíamos parado em dois bares: vou para o segundo, já quase na Paulista, estão no primeiro, próximo à região dos inferninhos. Cansado, com a meia molhada desde às três da tarde, voltei pra casa e não me animei em sair, quando depois me ligaram, insistindo.

Isso não significou, contudo, que ela não tivesse me arranjado uma crônica! Apenas que ao invés de qualquer possível acontecimento ou desacontecimento da madrugada, sua própria mensagem me serviu de mote.

Porque notei o quanto estou desacreditado entre meus amigos, por mais que a sorte já tenha sorrido (e eu correspondido, detalhe importante) pra mim este ano – talvez eles sejam daquela teoria do raio que não cai no mesmo lugar duas vezes no mesmo ano. Pois na mensagem de Misson, apesar da sua boa vontade em me ajudar, não dava para fazer a leitura "vamos te arranjar uma guria, mas se não rolar, ao menos terá uma crônica". A frase vinha invertida: "vamos te arranjar uma crônica, quem sabe não consiga até uma guria". Ou seja, o fracasso era dado certo, como a crônica que dele derivaria – mais um sinal de que ando com fama de transformar tudo em texto. Só se algo realmente extraordinário acontecesse eu poderia me arranjar com uma nova Camila, a moreninha da balada – "alguém legal pra me abandonar", como na música do Lobão.

Acabei indo para a balada no dia seguinte, com os amigos de Ribeirão. Havia até uma atraente moça – essa perceptivelmente oriental –, com belas maçãs do rosto (ou bochechuda, como digo), que passei um bom tempo encarando, pra ver se a sorte não sorria para mim de novo. Mal me olhou. Ao menos o som era bom e deu pra dançar. Mas no fim, me restou a crônica, como sempre – e meia boca, ainda por cima. Admito: Ruth me é mais inspiradora.

São Paulo, 14 de junho de 2012.

domingo, 10 de junho de 2012

Impressões da Parada do Orgulho Gay (a primeira que fui)

Hoje era dia da Parada Gay de São Paulo – a décima sexta edição –, e precisando sair pra almoçar, com ela acontecendo a duas quadras de casa, achei que não tinha porque perder a oportunidade de conhecê-la. Minha primeira surpresa foi que imaginei que ela seria audível de casa, mas praticamente passou despercebida.

Peguei ela não bem no início, metade dos trios elétricos – pelo que li, eram catorze – já haviam dobrado a rua da Consolação. Mesmo assim me impressionou o mundaréu de gente. Numa das pistas passavam os trios elétricos (com muita gente atrás), na outra, a aglomeração era um pouco menor.

Conversando no dia anterior, um amigo era da opinião que a Parada Gay se transformara numa grande micareta. Outro achava que ela ainda guardava um tanto da sua veia de reivindicação, mesmo que mais fraca. Não sei dizer como era antigamente, porém não tenho como discordar do primeiro amigo: sim, a parada parece um grande carnaval fora de época. Tampouco posso discordar do segundo: pôr tudo aquilo de gente na rua não deixa de ser um ato de demonstração de força política, por mais que o tema do ano (“Homofobia tem cura”) possa não ser conhecido por boa parte dos manifestantes. E uma manifestação em tom mais alegre não deixa de ser mais interessante (no sentido de novas possibilidades) do que as tradicionais passeatas sisudas da esquerda “séria” – pode soar como um convite, um ensaio para um porvir desejado.

Decidi almoçar no outro extremo da av. Paulista. Conheci a parada, portanto, na contramão. Nessa ida, presenciei cenas mais ou menos dentro do que eu imaginava. Uma garotinha com seus quatro anos de idade, se muito, pulava alegre cheia de plumas e acessórios da parada, acompanhada de seus pais (um homem e uma mulher, pra deixar claro). Pouco adiante, uma criança mais ou menos da mesma idade se divertia com um balão feito de camisinha. Um carro de som passava defendendo a família – reivindicação que compreendo, mas discordo, e acho que dá força para a posição da igreja católica. Pessoas distribuíam panfletos de uma igreja evangélica “inclusiva” (tucanismo pra gay), mostrando que há mercado pra tudo no mundo da religião. Em um dos trios elétricos, de um site de encontros gay, acredito reconhecer um amigo. Um garoto dá as indicações de onde está: em frente ao metrô Trianon-não sei o que. Reparo que alguns homens – em geral sem camisa – ficavam parados, esperando de frente aqueles que vinham, na expectativa de beijar alguém. Havia momentos em que não dava para saber se a moça que eu cruzara era mulher ou travesti. Um cara com pinta de pit-boy – sem camisa – e achando que homossexualidade é sinônimo de promiscuidade, levantava as saias, passava a mão na bunda das garotas, quero ver se é mulher ou tem alguma coisa a mais (não entendi como não havia tomado um tapa, talvez pelo tamanho). Ao meu lado, certa hora, um grupo decidiu se confraternizar com socos e pontapés. Dois policiais, de longe, pediam pra pararem com a briga, esbanjando uma autoridade em nada maior do que minha. Os brigões foram apartados por outras pessoas, um pouco mais “pró-ativas” do que os PMs.

O mais interessante da parada, contudo, estava depois que passava a micareta. Eu ainda andava na contramão quando avistei um grupo de pessoas pedindo a Jesus que despachasse logo o green card pro inferno pros pecadores que estavam na quadra seguinte. A seguir berravam feito macacos bonobos (Jesus Jesus Jesus Jesus repetido alto e rapidamente dá uma sonoridade simiesca de uh uh uh). Achei curioso: se deus está em todo lugar, não precisavam ir até a Paulista para fazer esse pedido – a não ser que tivessem algum desejo outro, não admitido. E o pior: só choveu depois de terminada a parada; durante toda a tarde, um clima ameno, agradável: deus não parece estar muito atento ao que pedem os que se declaram seus fiéis.

Depois do almoço, com a parada já bem avançada, o choque maior. Parecia quase mesmo um carnaval, um desfile de escola de samba dividido em alas: os trios-elétricos, aí vinha uma massa de retardatários (até pela questão de impossibilidade espacial), uma quadra depois desses últimos, três depois de onde ainda havia multidão, um grupo de seguranças de terno e gravata seguravam uma corda. A seguir, um grande grupo de policiais mal-encarados, logo atrás, com a quadra quase toda para eles, os garis – estes mais animados com a festa, apesar de estarem lá a trabalho –, depois carros de varredura, caminhões pipa com garis lavando a avenida, e outra linha de policiais. Compreensível fazer a faxina logo a seguir: havia bastante lixo (normal para grandes aglomerações, só ver saída de show ou festa de faculdade), e não tinha mesmo como deixar para o dia seguinte. Porém, todo aquele aparato militar dava mostras de que a parada deveria seguir à revelia do ritmo dos participantes – me remeteu à lógica da exigência da sociedade contemporânea de estar sempre em movimento, examinada por Paul Virilio. Mais agressivo, entretanto, me pareceu a questão de lavar a rua com água: dava a impressão da necessidade de desinfetar a área. E não eram as regiões onde estavam os banheiros químicos, ou as calçadas, onde eventualmente alguém poderia ter utilizado como mictório, era a rua por onde no dia seguinte passariam pessoas protegidas por uma camada de borracha e outra de metal. Mas sabe como é, a “homossexualidade” é altamente transmissível, todo cuidado é pouco.

Por fim, comentários sobre o que vi e li na internet sobre a parada, no site do Uol. Primeiro, a ausência dos pré-candidatos à prefeitura da cidade, como o próprio portal apontou: de olho no eleitorado conservador, nenhum dos grandes deu as caras: apenas os candidatos do PPS (Soninha), PSOL (Carlos Giannazi) e do PRB (Celso Russomano), além de políticos ligados à causa GLS. Um desalento à aqueles que têm posições um pouco mais progressistas. O outro, as fotos. Em duas delas havia uma participante da parada com uma faixa de Miss Brasil. Na legenda "Participante fantasiada de Miss Brasil". Abuso de má-fé seria mais condizente com a legenda: faltava uma parte da faixa, em que dizia "Transex", "Miss Brasil Transex": uma personagem, portanto, de alguma importância numa parada gay, e que bastava uma pesquisa no Google para descobrir seu nome (Yasmin Pires). Ademais, havia várias fotos com moças (provavelmente travestis) com os peitos à mostra: ou cheguei tarde pra essa parte da festa, ou se tratava de uma minoria que ganhou destaque especial: vi várias travestis e drag queens por lá, nenhuma tão à vontade. Isso não seria problema – muito pelo contrário, ou talvez o problema fosse que as mulheres também não as acompanhassem –, não estivéssemos numa sociedade altamente preconceituosa – que exige paradas gays, por exemplo, na luta por direitos que por princípio seriam básicos de uma sociedade que já saiu da Idade Média –, em que é forte o estigma contra homossexuais, em especial travestis.

Daqui um mês vem a marcha pra Jesus. Se não mudaram o roteiro (parece que não), passarão longe da minha casa, graças a deus! Essa, a princípio, não faço questão de estar presente – nem mesmo como observador distanciado.


São Paulo, 10 de junho de 2012.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Visita a Ruth, a balconista, com duas testemunhas

Depois de haver me conformado que teria que desistir de Ruth, a balconista da farmácia, por incompatibilidade de horários, eis que vejo a sorte me dando nova chance: greve na UFABC e um horário no início da tarde com o Aílton, meu homeopata, me permitiriam um novo encontro com Ruth! Quem sabe essa confluência de coincidências não fosse um sinal? Céptico que sou, não sou de acreditar nisso de sinal, mas já fazia planos para o feriado em sua companhia.

Como sempre, aproveitei a ida ao médico em Campinas para rever alguns amigos. Como desta feita foi mais corrido e não me estiquei até Barão, me encontrei apenas com Ricardo, com quem combinara de almoçar, e com o Vannucci, para um café à tarde.

Ao combinar com Ricardo, perguntei se queria me acompanhar até a farmácia de Ruth. Deixei claro, contudo, o perigo que ele corria, de acabar sendo encantado pelos encantos (como diriam os gregos) da bela balconista, e terminar numa situação um tanto patética como a minha. Aceitou os riscos (quem resiste ao convite a ouvir o canto das sereias?). Notei, então, que eu também corria perigo: e se Ricardo fizesse o tipo dela, e saísse da farmácia não apenas encantado, como nas graças da guria? Ficaria contente por ele, é certo, mas imagino que ficaria um clima estranho, eu tantas vezes tendo falado daquela que seria sua namorada.

Fomos à farmácia depois do almoço – havia passado em frente antes e não a vira. Entramos, ficamos um tempo na porta, parados, dando aquela olhada geral. E aí?, perguntou Ricardo, ansioso. Nada de Ruth. Mesmo? Mesmo. Senti um tom de decepção na sua pergunta, creio que sentiu o mesmo em minha resposta. Fomos até o balcão, pedi um remédio para azia. No caixa, vimos duas pessoas saindo de uma porta interna da loja. E aí?, novamente perguntou Ricardo, dando mostras da sua expectativa. Nenhuma delas era Ruth. Tive vontade de perguntar à caixa – afinal, aquele era o turno de Ruth –, mas fiquei com vergonha – além da minha dúvida se seu nome é mesmo Ruth, ou se não é Rita.

Depois do médico, me encontrei com o Vannucci. O café se estendeu até a noite, até a hora da janta. Porém como o restaurante aonde iríamos ainda não estava aberto (restaurante do pai da ex que mora ao lado da farmácia da Ruth), ele me propôs de irmos à farmácia de Ruth (ao lado da casa da ex filha do dono do restaurante), vai que ela não trocou de turno. Não cria, mas vai que.

Como o Vannucci tem sua companheira, acabei me esquecendo de alertá-lo dos riscos. Entramos na farmácia. Não está, disse logo de cara. Em compensação, estava a mesma farmacêutica que me atendera no início da tarde, o que me fez ficar um pouco constrangido. Vannucci insistiu, desconfiado da rapidez da minha afirmativa: não mesmo? Não. Uma outra atendente veio perguntar o que buscávamos – devíamos estar com a cara de bem perdidos. Como nenhum dos dois é cara-de-pau o suficiente para falar Uma balconista bochechuda e sardenta, de nome Ruth, se não me engano, precisamos achar uma desculpa. Vannucci, talvez mais calejado com farmácia básica, ou talvez porque trabalhe na área de saúde, foi rápido em seu raciocínio e pediu uma dipirona. Eu, lerdo como sempre, hesitei, soltei aquele ééé....de quem tenta se lembrar da mentira que tinha planejado; até, por fim, perguntar por suplemento.

Já fora da farmácia, Vannucci me perguntou: Será que ela não trocou de emprego? Acho que não, respondi. Ela tinha cara de quem queria ser balconista de farmácia pra sempre?, insistiu. Ah, sei lá. Ela tinha um rosto lindo, serve? E atribuí a ausência de Ruth – e nosso conseqüente não-encontro – ao feriado do dia seguinte. E sigo acreditando em novos lances de sorte que me permitirão um encontro com ela – por mais que me diga céptico para acreditar em sorte. Meus amigos é que andam cada vez mais desconfiados da existência de Ruth – por mais crédulos que sejam.


São Paulo 08 de junho de 2012.

domingo, 3 de junho de 2012

Quando o amarelo piscante piscou para mim (e eu não entrei).

“Entre com cuidado no amarelo piscante” é um crônica escrita no fim do mês passado por uma amiga, Jessica Ueno. Trata-se da frase presente em duas placas na avenida Vergueiro, que em seu texto Jessica não apenas faz uso do duplo sentido, como se insinua ela própria num texto insinuante. Uma crônica bem escrita e divertida, que recomendo a leitura [http://j.mp/qcQD6b]. Se alguém resolver ler outros textos dela, vai notar que “Entre com cuidado...” destoa do seu estilo habitual, que bebe muito em Clarice, e soam textos bastante apaixonados, tempestuosos, existenciais.

Terça-feira a acompanhei em parte do trajeto do CCSP até sua casa, que, além de prolongar um pouco mais o agradável papo, ela fez questão de me mostrar os sussurrantes convites para entrar com cuidado no amarelo piscante.

Lembrei desse seu último texto este domingo, quando ia para uma apresentação de dança na Galeira Olido. Pelo caminho me deparei com duas placas como as que Jessica só conhecia na avenida Vergueiro: uma na rua Augusta, quase na praça Roosevelt, outra na esquina da rua da Consolação com a avenida São Luís. Chutando baixo, muito baixo, passei mais de sessenta vezes por ao menos uma dessas placas. Nunca as tinha percebido – e talvez levasse outras cento e oitenta para, quem sabe, me dar conta delas.

Foi, portanto, graças a uma crônica quotidiana – banal, que alguns (eu um par de anos atrás, por exemplo) talvez até a qualificassem de “bobinha”, por não lidar com política ou alguma grande questão –, que o que era mero fundo, indiferente em meio à profusão de estímulos da cidade, despontou em primeiro plano, ganhando realidade por si. Isso me remeteu a Merleau-Ponty, que comenta que em um texto literário, as palavras conduzem tanto quem fala (ou escreve) quanto quem ouve (ou lê) “a uma significação nova, mediante uma potência de designação que excede a definição que elas [as palavras] receberam, mediante a vida surda que levaram e continuam a levar em nós”. Encarar as palavras de uma maneira inusual acaba também por nos fazer – se sairmos do nosso casulo e nos pormos no mundo – ver coisas que fugiam do nosso hábito até então – que seja placas sobre amarelos piscantes, ou mendigos que já fazem parte da paisagem.

Mesmo não se tratando de um gênero com o estatuto do romance, não deixei de me surpreender ao notar que uma simples crônica, escrita em um tom de jogo mais do que qualquer outra coisa, como ela nos oferece outras oportunidades de perceber a cidade, nosso entorno, a vida que nos cerca e em meio a qual passamos nossos dias.

Disse eu algures (para ser mais específico, o texto “a prosa do mundo”, na Casuística 101 [http://j.mp/casu101]), que toda escrita começa pelo olhar. Faço, pois, um adendo: quando de qualidade e posta para circular, novos olhares começam a partir da escrita.

São Paulo, 03 de junho de 2012.

ps: como dá para reparar na foto, uma placa dessas há (ou havia) também na Liberdade.

Sugestão de uma nova Ruth, a balconista.

Amiga minha, dia desses, condoída com minha agruras com Ruth, a balconista, me mandou uma mensagem sugerindo uma nova balconista para ter o que escrever. Disse que eu precisava conhecer a do quiosque do nota paulistana – ou algo assim –, no metrô Tatuapé: pode ser sua nova Ruth, dizia. Eu bem troco uma nova Ruth por algo mais real, mas vá lá, na falta...

Perguntei se era bonita, bochechuda e sardenta. Sua resposta foi: não é bochechuda, nem sardenta. Mas é linda. E oriental. Na hora notei que esse “oriental” se devia a qualquer visão equivocada que essa amiga tem – como muitos outros amigos que cismaram com isso –, de eu ser um aficionado por gurias japonesas – e não adianta eu dizer que não é o caso, que minha tara por Japão é pela sua literatura do século XX, e alguma coisa na música pop ou jazz.

O que não quer dizer que eu não ande com uma certa queda por orientais, um certo nipotropismo; porém nada exagerado, nada que fundamente a visão que têm de mim. E isso parece ter começado por causa de paixão platônica e uma namorada – o que não me soa justificativa suficiente. Ok, se é linda e oriental, vou relaxar nas exigências. Mas pra avisar: Ruth não é japonesa, respondi. Uns dias depois encontrei essa amiga, e ela se surpreendeu com a revelação: Escuta, a Ruth não é japonesa? Por que sempre achei que fosse? Preferi não responder, ainda que soubesse: preconceito.

Várias vezes já tentei ilustrar a esses recalcitrantes que não se trata de perseguição deliberada à colônia, mas tropismo – algo acidental e não causal –, ao contar que Camila, garota que me envolvi mais recentemente, eu só descobrira que era japonesa quando ela me contara – até então a tinha por morena. Ninguém levava a sério esse meu episódio. Até que...

Estava eu e essa minha amiga descendo a Augusta neste sábado quando, pela quinta vez, encontro Camila na fila do cinema (é a única pessoa com quem já me encontrei mais de uma vez na Augusta). Parei para cumprimentá-la rapidamente e seguimos nossa flanância. Eis essa a Camila. Você diz, a Camila, aquela Camila? Sim, a que me deixou meio atordoado uns meses atrás. Ela não pareceu japonesa, pareceu muito mais morena. Não imaginava um comentário desses, mas gostei de ouvir, quase comemorei: encarei como a prova de que minha primeira impressão estava correta: ela não parecia japonesa! Além de ir ao encontro de minha tese de que não sou um tarado por japas. Devia ter me avisado que era essa Camila, para eu reparar melhor, se queixou minha amiga.

Seguimos nosso caminho, fomos encontrar alguns amigos, jogar conversa fora. Um deles, carioca, certa hora, começou a falar da arte da paquera, de como paulistano não sabia fazer isso, que era tão simples, mera questão de troca de olhares. Isso me soou de uma absurdidade sem tamanho! Lembrei de um caso, uma amiga contou de uma amiga dela que me achava atraente, mas “com olhar de psicopata”; ou mesmo Camila, que no nosso flerte, disse que eu a olhava não com o olhar blasé – que esse dá pra notar que é pose –, e sim com desdém – e eu achando que estava sendo sexy. Não, paquerar não é nada simples – como a troca de olhares não é nada fácil.

Ficamos pela Augusta e Frei Caneca, andando e conversando. Torcia para encontrar a japonesa da tatuagem na testa – seria a terceira vez –, para ter algo mais o que falar. Nada d'ela aparecer, de forma que para uma crônica sobrou apenas o encontro com Camila, a moreninha da balada [http://j.mp/cG180412] – e a impressão que talvez eu devesse algum dia desses parar no metrô Tatuapé, ver se não consigo inspiração para escrever algo melhor, quem sabe até superar Francoy e sua esquecida chinesinha.


São Paulo, 03 de junho de 2012.