domingo, 3 de junho de 2012

Sugestão de uma nova Ruth, a balconista.

Amiga minha, dia desses, condoída com minha agruras com Ruth, a balconista, me mandou uma mensagem sugerindo uma nova balconista para ter o que escrever. Disse que eu precisava conhecer a do quiosque do nota paulistana – ou algo assim –, no metrô Tatuapé: pode ser sua nova Ruth, dizia. Eu bem troco uma nova Ruth por algo mais real, mas vá lá, na falta...

Perguntei se era bonita, bochechuda e sardenta. Sua resposta foi: não é bochechuda, nem sardenta. Mas é linda. E oriental. Na hora notei que esse “oriental” se devia a qualquer visão equivocada que essa amiga tem – como muitos outros amigos que cismaram com isso –, de eu ser um aficionado por gurias japonesas – e não adianta eu dizer que não é o caso, que minha tara por Japão é pela sua literatura do século XX, e alguma coisa na música pop ou jazz.

O que não quer dizer que eu não ande com uma certa queda por orientais, um certo nipotropismo; porém nada exagerado, nada que fundamente a visão que têm de mim. E isso parece ter começado por causa de paixão platônica e uma namorada – o que não me soa justificativa suficiente. Ok, se é linda e oriental, vou relaxar nas exigências. Mas pra avisar: Ruth não é japonesa, respondi. Uns dias depois encontrei essa amiga, e ela se surpreendeu com a revelação: Escuta, a Ruth não é japonesa? Por que sempre achei que fosse? Preferi não responder, ainda que soubesse: preconceito.

Várias vezes já tentei ilustrar a esses recalcitrantes que não se trata de perseguição deliberada à colônia, mas tropismo – algo acidental e não causal –, ao contar que Camila, garota que me envolvi mais recentemente, eu só descobrira que era japonesa quando ela me contara – até então a tinha por morena. Ninguém levava a sério esse meu episódio. Até que...

Estava eu e essa minha amiga descendo a Augusta neste sábado quando, pela quinta vez, encontro Camila na fila do cinema (é a única pessoa com quem já me encontrei mais de uma vez na Augusta). Parei para cumprimentá-la rapidamente e seguimos nossa flanância. Eis essa a Camila. Você diz, a Camila, aquela Camila? Sim, a que me deixou meio atordoado uns meses atrás. Ela não pareceu japonesa, pareceu muito mais morena. Não imaginava um comentário desses, mas gostei de ouvir, quase comemorei: encarei como a prova de que minha primeira impressão estava correta: ela não parecia japonesa! Além de ir ao encontro de minha tese de que não sou um tarado por japas. Devia ter me avisado que era essa Camila, para eu reparar melhor, se queixou minha amiga.

Seguimos nosso caminho, fomos encontrar alguns amigos, jogar conversa fora. Um deles, carioca, certa hora, começou a falar da arte da paquera, de como paulistano não sabia fazer isso, que era tão simples, mera questão de troca de olhares. Isso me soou de uma absurdidade sem tamanho! Lembrei de um caso, uma amiga contou de uma amiga dela que me achava atraente, mas “com olhar de psicopata”; ou mesmo Camila, que no nosso flerte, disse que eu a olhava não com o olhar blasé – que esse dá pra notar que é pose –, e sim com desdém – e eu achando que estava sendo sexy. Não, paquerar não é nada simples – como a troca de olhares não é nada fácil.

Ficamos pela Augusta e Frei Caneca, andando e conversando. Torcia para encontrar a japonesa da tatuagem na testa – seria a terceira vez –, para ter algo mais o que falar. Nada d'ela aparecer, de forma que para uma crônica sobrou apenas o encontro com Camila, a moreninha da balada [http://j.mp/cG180412] – e a impressão que talvez eu devesse algum dia desses parar no metrô Tatuapé, ver se não consigo inspiração para escrever algo melhor, quem sabe até superar Francoy e sua esquecida chinesinha.


São Paulo, 03 de junho de 2012.

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