sexta-feira, 8 de junho de 2012

Visita a Ruth, a balconista, com duas testemunhas

Depois de haver me conformado que teria que desistir de Ruth, a balconista da farmácia, por incompatibilidade de horários, eis que vejo a sorte me dando nova chance: greve na UFABC e um horário no início da tarde com o Aílton, meu homeopata, me permitiriam um novo encontro com Ruth! Quem sabe essa confluência de coincidências não fosse um sinal? Céptico que sou, não sou de acreditar nisso de sinal, mas já fazia planos para o feriado em sua companhia.

Como sempre, aproveitei a ida ao médico em Campinas para rever alguns amigos. Como desta feita foi mais corrido e não me estiquei até Barão, me encontrei apenas com Ricardo, com quem combinara de almoçar, e com o Vannucci, para um café à tarde.

Ao combinar com Ricardo, perguntei se queria me acompanhar até a farmácia de Ruth. Deixei claro, contudo, o perigo que ele corria, de acabar sendo encantado pelos encantos (como diriam os gregos) da bela balconista, e terminar numa situação um tanto patética como a minha. Aceitou os riscos (quem resiste ao convite a ouvir o canto das sereias?). Notei, então, que eu também corria perigo: e se Ricardo fizesse o tipo dela, e saísse da farmácia não apenas encantado, como nas graças da guria? Ficaria contente por ele, é certo, mas imagino que ficaria um clima estranho, eu tantas vezes tendo falado daquela que seria sua namorada.

Fomos à farmácia depois do almoço – havia passado em frente antes e não a vira. Entramos, ficamos um tempo na porta, parados, dando aquela olhada geral. E aí?, perguntou Ricardo, ansioso. Nada de Ruth. Mesmo? Mesmo. Senti um tom de decepção na sua pergunta, creio que sentiu o mesmo em minha resposta. Fomos até o balcão, pedi um remédio para azia. No caixa, vimos duas pessoas saindo de uma porta interna da loja. E aí?, novamente perguntou Ricardo, dando mostras da sua expectativa. Nenhuma delas era Ruth. Tive vontade de perguntar à caixa – afinal, aquele era o turno de Ruth –, mas fiquei com vergonha – além da minha dúvida se seu nome é mesmo Ruth, ou se não é Rita.

Depois do médico, me encontrei com o Vannucci. O café se estendeu até a noite, até a hora da janta. Porém como o restaurante aonde iríamos ainda não estava aberto (restaurante do pai da ex que mora ao lado da farmácia da Ruth), ele me propôs de irmos à farmácia de Ruth (ao lado da casa da ex filha do dono do restaurante), vai que ela não trocou de turno. Não cria, mas vai que.

Como o Vannucci tem sua companheira, acabei me esquecendo de alertá-lo dos riscos. Entramos na farmácia. Não está, disse logo de cara. Em compensação, estava a mesma farmacêutica que me atendera no início da tarde, o que me fez ficar um pouco constrangido. Vannucci insistiu, desconfiado da rapidez da minha afirmativa: não mesmo? Não. Uma outra atendente veio perguntar o que buscávamos – devíamos estar com a cara de bem perdidos. Como nenhum dos dois é cara-de-pau o suficiente para falar Uma balconista bochechuda e sardenta, de nome Ruth, se não me engano, precisamos achar uma desculpa. Vannucci, talvez mais calejado com farmácia básica, ou talvez porque trabalhe na área de saúde, foi rápido em seu raciocínio e pediu uma dipirona. Eu, lerdo como sempre, hesitei, soltei aquele ééé....de quem tenta se lembrar da mentira que tinha planejado; até, por fim, perguntar por suplemento.

Já fora da farmácia, Vannucci me perguntou: Será que ela não trocou de emprego? Acho que não, respondi. Ela tinha cara de quem queria ser balconista de farmácia pra sempre?, insistiu. Ah, sei lá. Ela tinha um rosto lindo, serve? E atribuí a ausência de Ruth – e nosso conseqüente não-encontro – ao feriado do dia seguinte. E sigo acreditando em novos lances de sorte que me permitirão um encontro com ela – por mais que me diga céptico para acreditar em sorte. Meus amigos é que andam cada vez mais desconfiados da existência de Ruth – por mais crédulos que sejam.


São Paulo 08 de junho de 2012.

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