quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Ruth, a balconista: o fim de uma saga.

Ao passar em frente à casa de minha ex, em Campinas, o coração disparou e me veio aquela tensão: será? Era virar a esquina - um trajeto de vinte metros, se tanto -, e poder, quem sabe, me deparar novamente Ruth, a balconista da farmácia, que há cinco meses e umas cinco tentativas não encontro. Ah, Ruth, que há um ano, em outubro de 2011, tive o prazer de ver pela primeira vez.

Mesmo sem qualquer receita que justificasse minha visita, já possuía uma desculpa para adentrar aquele recinto: comprar suplemento de uma marca específica, que tem o gosto um pouco menos pior, e que ainda não encontrei em São Paulo - é certo que não procurei muito.

Foi quando estava prestes a adentrar na farmácia que me dei conta: para comprar suplemento não é preciso se dirigir ao balcão. Estanquei. Devo ter passado um minuto ou mais pensando em algo para comprar (cheguei a me ver como um rapaz saudável nesse instante), e tentando ver se Ruth, a balconista, estava. Não apenas achei o que comprar - claro, minhas imprescindíveis vitaminas, como tinha esquecido? -, como elaborei uma tática: se Ruth estivesse atendendo, eu primeiro analisaria os suplementos, e esperaria o momento para dar o bote. A única coisa incerta desse plano infalível era se Ruth estaria mesmo trabalhando - de fora não a enxergara. 

Estava ali, era ir pro tudo ou nada. Coragem! Na pior das hipóteses, me refrescaria um pouco no ar-condicionado (apesar de nove da manhã fazia um calor desgraçado) e teria uma crônica; na melhor, a mesma coisa, com o adendo de ter recebido um "oi" de Ruth.

Entrei. A impressão de fora se confirmou: nada de Ruth. Decepção. Ainda mais que na noite anterior havia dito a mim mesmo que era hora de dar um passo além, e tinha até título para essa crônica-do-passo-além: 
"De quando nosso herói, num rompante de coragem, se encontra com sua amada, Ruth, a balconista da farmácia, e decide contar-lhe as reais intenções de sua visita: escrever uma crônica." 
Desanimado, nem fingi que o celular tocava, como fizera outrora. Pedi minhas vitaminas e me dirigi ao caixa. Enquanto esperava a vez, uma porta do fundo da loja se abriu e saiu uma funcionária: não, não era Ruth. 

Paguei minha compra e saí para a realidade: fazia calor e, sem que eu tenha encontrado uma substituta (na verdade, cheguei a flertar com uma nova Ruth, a atendente da academia, mas ela sumiu no dia seguinte que escrevi a primeira crônica sobre ela), melancolicamente chegava ao fim da saga da Ruth, a bela bochechuda sardenta de olhos verdes balconista da farmácia.


Campinas, 31 de outubro de 2012.



terça-feira, 23 de outubro de 2012

Textos meus na Casuística 12

A edição 12 de Casuística. artes antiarter heterodoxias [www.casuistica.net], tem os seguintes textos de minha autoria:

* "Quem não reagiu está vivo": a mentira aceita como mentira - Artigo
* Cores e sombras no vazio até o Outro - Crônica
* C. - Conto
* Desde a morte da avó, - Conto
* Pássaros eletroacústicos, músicas esvoaçantes - Crônica

sábado, 20 de outubro de 2012

Atrás de um cachorro-quente: uma andança pela Paulista

Com pouca fome, mas precisando comer, sem vontade de fazê-lo, saio de casa, ver se me animo a jogar algo pra dentro do estômago. É pouco mais das seis da tarde. Na esquina de casa, um mendigo ainda dorme na calçada. Está lá desde a uma, quando saí pra almoçar. Choveu nesse ínterim, ele puxou um cobertor, mas segue no mesmo lugar. Desço a Augusta em busca de inspiração: se cozinhar é uma arte, por que comer também não seria? É certo que comer junkie e fast-food seria, na melhor das hipóteses – e olhe lá –, kitsch. No baixo Augusta penso em seguir até a Liberdade, comprar guioza e comer em casa, mesmo. Mas sempre me perco no caminho, e não estou disposto a conferir se seria uma aventura me meter pelo centrão de São Paulo num sábado à noite. Volto pela mesma Augusta. No caminho me decido por um cachorro-quente, apesar de não gostar muito: meu estômago não anda tão bom, hoje havia tomado chimarrão depois de mais de um mês sem beber nada com cafeína, por que não aproveitar pra ferrar de uma vez, se for o caso?

Sigo um tanto ensimesmado pela Paulista, cantarolando a quinta sinfonia de Mahler. O único cachorro-quente que lembro fica antes da metade da avenida. Skatistas passam, pessoas param nos postes para seus cachorros marcarem território, num ponto de ônibus um mendigo grita "ai ai ai" com as mãos na cintura, como se estivesse segurando as calças. As pessoas olham, eu passo, observo, mas faço como os europeus – conforme contou esta semana uma conhecida –, e finjo que não se trata de nada extraordinário que mereça virar atração principal. Em frente ao Reserva Cultural vejo uma guria que parece Camila, a moreninha da balada. Passado o susto inicial (custou uma bambaleada nas pernas), reparo que é japonesa demais para ser a referida senhorita – que é mais bonita, diga-se de passagem. Vou até a casa de uma amiga. Sei o prédio onde ela mora, o bloco, mas não sei o apartamento. Descubro que ela não é amiga do porteiro, que, muito solícito, procura no caderno de correspondências, liga para o zelador, mas termina sem descobrir onde poderia morar minha amiga. Vou ao cachorro-quente sozinho, mesmo. Cinco reais um básico, salsicha, purê, maionese, vinagrete e batata-palha – sendo que não gosto de maionese e batata-palha. Quase nove um um pouco melhor. Para São Paulo, um valor normal. Porém, para uma salsicha, está caro. Resolvo, então, encarar um sanduíche de junkie-food: é o mesmo preço ou mais barato, e apesar de também não gostar muito, soa mais interessante – por mais que já anteveja o final. Entro em um shopping, ver se há ali a rede que gostaria de provar. Não. Mas há cachorro-quente gourmet: o kitsch do kitsch. Quatorze reais: quem se presta a comer num lugar assim merece pagar um valor desses por uma salsicha. No outro shopping, já no início da Paulista, também não há loja da rede que busco e me contento com o Bob's.

Na segunda mordida, minha boca já está levemente dolorida. Ao fim, minha garganta está irritada. A quantidade de porcaria naquele hamburguer foge da minha compreensão, então acho que é culpa do sal: ele me forneceu mais da metade do que eu precisava pro dia. Não que eu seja assíduo freqüentador desse shopping, mas me surpreendo de, pela primeira vez, me deparar com um negro que fala português e não é funcionário. Nas lojas, desconto de ternos, mantas e roupas de inverno. Orientais loiras, tenho visto várias, mas de cabelo castanho e encaracolado, é a primeira, até onde me lembro. Pela postura corporal dá sinal de vinda diretamente do Japão (e não sei se houve mesmo pênalti no segundo gol). O dia das crianças foi semana passada, e a decoração de natal já está quase pronta. Para meu alívio, ainda não puseram Simone para cantar, mas logo logo começa – então é natal, e o que você fez (para merecer toda essa tortura)?

O caminho de volta é o mesmo de ida. Um morador de rua, cabelo quase parecendo uma coroa, com um cobertor marrom como manto, fumando um cigarro amaçado, faz discurso. Passo em frente a uma igreja no exato instante em que os noivos saem dela. Os convidados comemoram. Sorrisos de todos. Alegria, alegria! Pra que ler tanta notícia assim?, talvez perguntasse Caetano, se tivesse escrito sua música hoje. Eu vou. E uma canção me consola. Eu vou... ao mercado. Lá, não um jingle, mas um blues inteiro canta as maravilhas de um dado posto de gasolina. Como dizer que a música que toca no rádio é arte, se um publicitário faz algo exatamente equivalente? Lembro de My Iron Lung, do Radiohead, em que a banda se questiona repetir a fórmula que fez sucesso com Creep: this is our new song, just like the last one, a total waste of time. Para um criador, perder tempo não é necessariamente problema – inclusive, os artistas de fato são capazes de fazer arte e crítica a partir da redundância, questionando o próprio processo, como o próprio Radiohead –, o ponto é ser consumidor e perder tempo passivamente com mais do mesmo, sempre. Lembrar de My Iron Lung me fez parar de cantarolar Mahler. Por sinal, do terceiro ao sétimo minuto do terceiro movimento, o scherzo, o que é aquilo?! De um clima alegre, quase triunfal, para uma tensão que se desenvolve rapidamente e, ao invés de ser resolvida, surge a trompa cortando feito navalha e deixando terra devastada.

Outra vez a Paulista. Numa esquina, um homem chega a um grupo de jovens, que animadamente conversava, enquanto espera o sinal abrir: já viram a última folha? Os jovens se olham, assustados com a interpelação do estranho. Já viram a última folha? Não, responde um deles, meio se desviando. Aqui, a última folha, e abre a mão (desconfio que com uma folha). O sinal abre, os jovens seguem, o homem insiste: e agora, viram a última folha? Sobra um clima estranho no grupo, que acaba num riso tenso. Noto o quanto é positivo esses episódios inusitados e inofensivos: abre chances de novos assuntos, que o ambiente asséptico do shopping, definitivamente, não daria oportunidade.

Skatistas seguem passando. Pessoas seguem parando nos postes. Uma hora passa um skatista com um skate sem prancha, apenas dois suportes para os pés. Um amigo dele, um pouco à frente, uma hora se joga no chão para não atropelar um casal de garotas. Pouco antes, uma senhora seguia com dois cachorros que pareciam dois leitões de tão cilíndricos. Três hippies cantam e tocam, sem qualquer chapéu pedindo dinheiro. Em frente ao Reserva não há o saxofonista tocando músicas melosas – para alívio dos casais que aproveitam das escadarias e do movimento da avenida. Para meu alívio, também não vejo ninguém que me lembre Camila, a moreninha da balada – ou a própria. A capa da Veja é sobre a China, só que, claro, tem que falar do julgamento do mensalão petista. Independência entre os poderes, não implica em interesses independentes. Fico imaginando as conseqüências do bom exemplo que esses togados da moralidade seletiva estão dando ao país – nem vou falar da Grande Imprensa, que não há nada além de mais do mesmo. Ao passar em frente ao centro cultural Fiesp, lamento ter perdido a exposição da Thereza Collor, e digo a mim mesmo que a da Lygia Clark, no Itaú Cultural, eu não posso perder – o trio neoconcreto do Rio mais que me encanta, já foi capaz de mudar minha percepção de mundo. Uma colega da engenharia disse que está interessada em conhecer o local, a oportunidade é ótima.

Cruzo com um homem que fica me encarando. Me pergunto porque mulheres, quando fazem o mesmo, desviam o olhar quando encaro de volta. A Paulista está bem movimentada. Tenho flanado pouco por ela, desde que as aulas começaram – nem nos fins de semana, que, quando saio, prefiro a Augusta. Por falar nela, falta ainda uma quadra para chegar ao seu cruzamento, entretanto são visíveis girocopteros luminosos cortando o céu. Pretendo comprar um desses antes de ir para Pato Branco uma próxima vez, para brincar com ele na praça da cidade e fazer meus amigos – que tem um nome a zelar na cidade – morrerem de vergonha.

São Paulo, 20 de outubro de 2012.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

O estouro da noiada: outra andança pelo centro

Faz tempo que não tenho dado minhas voltas pelo centro de São Paulo – o que reflete na ausência de crônicas sobre o assunto. Um pouco receio da polícia, que anda dando tiro como se jogasse videogame, bastante por causa do clima destes últimos meses, que oscila entre seco, chuvoso e frio, sem parar num meio termo minimamente aprazível; e principalmente porque tenho que acordar às cinco e meia da manhã pra ir pra aula.

Aproveitando o clima agradável e o fato de não ter aula na quarta, decidi sair para tomar a fresca e comer fora, um junkie-not-so-fast-food oriental, na Augusta. Como havia fila na lanchonete, decidi ir na outra filial, na praça da República. No caminho passo pela praça Roosevelt – pela primeira vez desde que reabriu da sua "revitalização". Concreto concreto concreto concreto. Degraus degraus degraus. Skatistas skatistas skatistas. Policiais e mais policiais. Uns canteirinhos perdidos em meio a isso tudo. Sou mais de uma praça com mais verdes e menos agitos, como a praça Camões, em Ribeirão Preto, onde velhinhos, moradores de rua, cachorros acompanhados de suas respectivas madames e maconheiros se encontram pacificamente sob as árvores. De qualquer forma, sabendo que a parte concreto e degraus será sempre predominante na praça (até nova revitalização), se continuar havendo mais skatistas que policiais, creio que estamos bem. O problema é se os moradores de bem do entorno – que já teve um prostíbulo derrubado – conseguirem impôr toque de recolher aos skatistas, tornando-a outro espaço inóspito da capital – restrições sempre com as melhores das intenções, em nome dos bons costumes e da moral, é claro.

Na avenida São Luís, a calçada, refeita, tem o mapa estilizado de São Paulo distorcido, assumindo formas ora sem sentido, ora de pato. Troco a comida japonesa por um xis numa lanchonete próxima à galeria Olido. Já alimentado, no trajeto de volta, uma moradora de rua, indignada, comenta com outro que está sem cobertor pela terceira noite seguida, porque emprestou a não sei quem. Não passará frio, com certeza, fico me perguntando se não o utilizaria como colchonete. Parada súbita no Shopping Light, para usar o banheiro – que não é catraca livre. Aliviado, decido, então, por uma volta no centro.

Esqueço que já havia me comprometido comigo mesmo a não ir além da avenida São João depois do horário comercial. Não resisto. No cruzamento da Ipiranga com a Rio Branco, acho por bem voltar. De repente, da rua do Boticário, sai um enorme número de nóias. Não adianta parar ou continuar, o resultado é o mesmo: acabo no meio deles – um tanto apreensivo, admito. Andam em ritmo até que acelerado, sempre olhando para trás, assustados. O responsável pelo estouro da noiada: um carro da polícia que passa lentamente. Trato de acelerar o passo para sair do meio (só depois me dou conta que eles estavam preocupados demais com a polícia para se darem conta d'eu ali no meio, e que mais perigoso era a polícia ainda resolver me pegar).

Não me enrolo muito pela Boca do Lixo, basta de emoções pela noite. Volto pela Augusta, como sempre. Alguns novos empreendimentos imobiliários brotam no caminho, colocando a vida noturna da rua sob perigo – que a efervescência da Augusta fique na rua e pelo centro, ao menos! Estranho alguns garotos, na faixa dos treze anos, vestidos relativamente bem, no baixo Augusta. Estranho também o alto Augusta estar mais movimentado que o resto, apesar de já ser quase onze da noite. Não estranho o fato de estar cansado: estou há duas horas e meia caminhando, com breve pausa para o xis. Já do outro lado da Paulista, a revenda de automóveis de luxo próxima à minha casa fechou – mas o simpático morador de rua que ficava como se fosse o segurança da loja continua lá. Para compensar, entro na internet descubro que a diária no hotel que há no caminho é de quase trezentos dólares, a mais barata (sem café da manhã).

São Paulo, 17 de outubro de 2012.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Liberdade de expressão e o direito a se expressar

Em artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo (4/10), o jornalista e professor Eugênio Bucci mais confunde do que esclarece quando pretende defender a tese de que “a censura judicial encontra uma estrada aberta, desimpedida, e cresce”, com apoio de parte da população.

Bucci começa seu artigo afirmando que há certa difusão da ideia de que “a defesa da liberdade de imprensa é coisa da direita, é uma agenda patronal”, com o que concordo: mesmo na academia, a divisão precária em esquerda e direita serve para julgamentos rápidos e definitivos e impede uma reflexão minimamente crítica acerca do problema – a começar pela própria definição de esquerda e direita. A seguir, o autor diz que esse bordão é a versão esquerdista da direitista “essa conversa de direitos humanos só serve para proteger bandidos”. Os dois falam de direitos fundamentais, certo, mas não há motivo para misturar uma coisa com a outra: censura é péssimo e não há argumentos razoáveis num Estado democrático para sua defesa, mas achar que é equivalente a pau-de-arara, execuções sumárias e coisas do gênero, é desrespeitar o sofrimento físico e psicológico de pessoas e familiares.

Com essa introdução, o articulista parece querer se pôr numa pretensa posição de isenção e neutralidade. O que se segue não corrobora essa impressão: ao se fiar em exemplos e mais exemplos para mostrar o avanço da censura, ele causa mais confusão ainda ao leitor, discute filigranas de pouca importância e foge do cerne do problema. Por qual motivo censura prévia e disputas judiciais pela retirada de conteúdo ofensivo devem ter igual tratamento, se são casos distintos? Que sejam condenáveis muitas das decisões para retirada de conteúdo já publicado, o próprio Judiciário oferece caminhos para seu questionamento – o que não isenta a sociedade de pressões políticas.
Frouxos e lenientes

A questão que sobra é: a partir de que momento e em que direção essas pressões devem (ou deveriam) ser feitas? Bucci foge dela.

Como consequência do desenvolvimento (?) de seu texto, Bucci chega a igual conclusão que a Folha de S.Paulo, em editorial de 28 de setembro: “A maior ameaça à liberdade de expressão no Brasil, hoje, parte do Judiciário”. Liberdade para a expressão de quem? Não de todos, com certeza. Ouso dizer que a maior ameaça à liberdade de expressão no Brasil, hoje, parte da própria imprensa – que se mostra pouco interessada em liberdade num sentido pleno, com deveres e direitos.

Sintomaticamente, no parágrafo seguinte, afirma que “O Brasil unificou-se para derrotar a inflação, assim como agora se articula para combater a pobreza”. Faltam sujeitos a essa união e essa articulação. Sobra generalização. Os que criticam o Bolsa Família como “Bolsa Vagabundagem” não parecem tão interessados assim no combate à pobreza, por mais que tentem edulcorar seu discurso com “ensinar a pescar, ao invés de dar o peixe”: alguém acredita nesse discurso, proferido desde tempos remotos de nossa história? Bucci também ignora que no mesmo dia a Folha lançou um editorial criticando as atitudes da presidente argentina, Cristina Kirchner, contra o Grupo Clarín. Nada mais natural: ao atacar a concentração da mídia (e, consequentemente, da informação), Kirchner abre um perigoso precedente: e se decidirem fazer o mesmo no Brasil, obrigando o quarto poder a seguir, ele também, a Constituição? Motivos para fazê-lo sobram. Temor, por parte dos grandes grupos de que seja feito, também. Mas os governos petistas têm sido frouxos e lenientes no cumprimento da lei: vale lembrar que a revista Veja publicou reportagem de capa difamando sem provas o chefe do poder executivo, representante do Estado nacional, de ter conta na Suíça. O que fizeram Lula e a Presidência? Uma resposta numa entrevista, na volta da sua viagem à Europa.
Um privilégio

A defesa da liberdade de expressão sem questionar se ela existe de fato no país serve apenas para reforçar o status quo. “Se queremos defender o direito à informação, precisamos defender a liberdade do Google”, diz Bucci. Corretíssimo! Contudo essa defesa está muito aquém de significar direito à informação e à liberdade de expressão. A pura e simples defesa do atual desenho da mídia serve apenas para que a imprensa possa seguir agindo como um poder paralelo, supraconstitucional, o “quarto poder”, como ela adora se apelidar – esquecendo que os outros três possuem limitações recíprocas e obrigações constitucionais a serem seguidas (não me alongo neste aspecto, que discuti no texto “O Quarto Poder para além do Estado Democrático de Direito no Brasil”, na edição 101 da revista eletrônica Casuística, páginas 93-99).

A liberdade de imprensa, nesta configuração de forças, acaba sendo, na verdade, liberalidade de imprensa, com claro pendor para os grupos com maior poder econômico; e deixa toda a população à mercê de interesses não declarados. Não se trata de defender a censura desses meios, mas a contingência de seu poder para os parâmetros exigidos pela Carta Magna do país (art. 220, § 5º) – os EUA, pais da liberdade de expressão, fazem isso.

O término do seu texto apenas acentua o caráter nada parcial e a argumentação carente de uma análise mínima de contexto desenvolvida até então: dizer que “a liberdade de imprensa não é um privilégio de jornalistas ou meios de comunicação: é um direito de todos nós” não corresponde à realidade tupiniquim: a liberdade de imprensa é, sim, privilégio de alguns poucos jornalistas e meios de comunicação – que o diga Maria Rita Kehl, com quem Bucci lançou o livro Videologias, quando demitida do Estado de S.Paulo por “delito de opinião” (ver aqui) –, quando deveria ser um direito de todos nós.

São Paulo, 04 de outubro de 2012.

Publicado originalmente no Observatório da Imprensa, edição 716.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Leituras diversas

O bom de ser um "anti-fluxista" é pegar trem e metrô vazios, geralmente com lugar para sentar. Desta feita não foi diferente. Voltava pra casa, pouco depois da uma da tarde. Peguei o trem na Estação Celso Daniel. Sentei ao lado de uma mulher que, mal sentara, já sacava da bolsa um livro. A imitei, e tirei da mochila o livro que começara a ler no dia anterior. Na minha frente se sentou uma bela mulher, com um estilo interessante: parecia beirar os trinta, esbelta, saia, meia-calça preta, cabelo laranja, alargador de orelha, piercings, braços cobertos de tatuagens. Não que eu ache que alguém com esse visual seja necessariamente rebelde, mas acredito (ingênuo...) que seja minimamente contestadora e não seja careta (no sentido existencial do termo).

Reparei no livro que a mulher ao lado lia: Ágape, do Padre Marcelo Rossi. Ri da distância de nossas leituras: me acompanhava na viagem História do olho, do Bataille (por sinal, depois de 120 dias de Sodoma, História do Olho soa agradavelmente pueril nas suas demi-escatologias). Antes de começar a leitura, o livro ostentado como a disputar com a pessoa ao meu lado (e o marca-páginas da Casuística aparecendo, claro), reparei uma vez mais na mulher na minha frente. "Fiz alguma moral com ela", pensei, ainda que não esperasse nada além disso: ter feito alguma moral com ela.
 
Segui minha leitura, com um olho no livro, outro na moça. Não demorou muito, a interessante mulher resolveu pegar também um livro. Calmamente tirou da bolsa um grosso livro preto. Interrompi minha leitura para ver o que ela estava lendo, já quase no final. Desacreditei ao ver que era um do Augusto Cury. Contestadora? Não-careta? Senti uma pontinha de decepção, por, muito provavelmente, não ter feito a "alguma moral" imaginada com a senhorita tatuada – o que não quer dizer, em absoluto, que trocaria meu livro pelo dela ou da mulher ao meu lado.
 
No metrô, apesar de não ser preferencial, ofereci meu lugar a uma senhora que entrou. Recusou: "estou bem em pé, e pra quem lê é melhor sentado". Insisti, recusou novamente. Agradeci. E por consideração à simpática senhora, escondi a capa do livro.

São Paulo 02 de outubro de 2012.