quarta-feira, 30 de julho de 2014

São Paulo não esconde sua violência

Quatro e meia da tarde, estou no intervalo da minha aula. Em frente a praça Roosevelt, do outro lado da rua da Consolação, dois mendigos estão apoiados na "mureta" que evita que os pedestres se aproximem da rua que passa abaixo - o fim do Minhocão. Um deles aparenta embriaguez, o outro parece alheio. Passam por eles três jovens, na casa dos vinte anos, trajam roupas de marca. Um deles pára, olha para trás, tira seu iPhone, entrega a um amigo: "tira uma foto", e se põe entre os dois mendigos. "Uma foto cozamigo", ainda ouço ele dizer. Quando a miséria, a dor ou o sofrimento do Outro não merecem nada mais que escárnio, qual o limite para a desumanidade? Não sei, e tenho medo de descobrir. Mais medo ainda porque já me parece muito o pouco que sei. Adiante, novas pistas de que nada sei. Garotas passam pintadas e com as roupas rasgadas. Garotos passam pintados, cabelos estragados e bêbados. Uma bonita demonstração da divisão sexual do trote: às mulheres, perder a roupa, aos homens, o juízo. Comento com meu amigo o quanto, desde a Unicamp, me alegra presenciar esses simulacros de celebração da juventude hitlerista. O fato dos fascistóides na nossa frente serem da Universidade Presbiteriana Mackenzie (ah, como o cristianismo ajuda a construir um mundo mais digno!), em nada altera: um pouco mais ou um pouco menos, são a fina flor do país, a nata intelectual e financeira - junto com os acadêmicos da PUC, USP, Unicamp, UFAbc ou algumas outras. Até a UNIP tem seu simulacro fascista, expondo a pobreza de todos - veteranos e calouros - de maneira absurda: porque ali não há berço esplêndido para ocultar a pobreza do ato. De volta à escola de teatro, um exemplo que me ainda choca, e não acredito que algum dia deixe de me chocar: comento com a secretária - sempre leve, bem disposta, bonita - que não consegui ver o vídeo em que ela é entrevista pela BBC, apenas lera o breve resumo do seu relato. Ela me conta ao vivo, então, o que pode ser resumido como: teve a sorte de "só" perder um rim após levar um chute - e desta vez não estou sendo irônico. Nove pessoas - homens e mulheres -, entre dezesseis e vinte e dois anos atacaram-na quando passava pela praça da República, em direção a uma lanchonete. Ela perdeu um rim, o amigo que tentou protegê-la, "só" sofreu escoriações e acabou com o nervo ciático grudado no fêmur - três meses de fisioterapia para começar a voltar a ter os movimentos da perna. Seu crime: ser uma transexual. E eu que ingenuamente achava que esse tipo de violência seria excesso de testosterona, e não premeditação pela qual esteve presente a razão. Dava tudo isso por suficiente para o dia, queria chegar em casa, escrever esta crônica, seguida de uma mais leve, mas o dia me ofertava mais um belo exemplo do neofascismo das classes paulistanas favorecidas. Estou entrando no Centro Cultural São Paulo, um homem fecha sua mochila enquanto reclama: "é claro que eu vou ficar assustado, saio do banheiro e três seguranças me cercam e me intimidam", o segurança fala algo que não ouço, ele responde: "então vamos entrar e conferir", ele e dois seguranças entram no banheiro, um terceiro fica na porta. O homem está bem vestido (bem melhor do que eu), demonstra bom domínio do português. Seu crime: ser negro. O CCSP segue aprofundando seu processo de limpeza social para se tornar um Sesc público. Talvez seja isso uma das coisas que me faz gostar de São Paulo, em especial de seu centro: ela não é uma cidade hipócrita, não esconde suas mazelas, não disfarça seu racismo, não doura seu preconceito, não finge nenhuma democracia racial ou social. Não que eu goste de presenciar isso tudo, mas esconder o rosto para não ver toda essa violência simbólica diária e ostensiva não a torna menos violenta ou menos quotidiana. O centro de São Paulo nos cospe na cara nossa precariedade como sociedade e como humanos.



São Paulo, 30 de julho de 2014.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Jorge C. [Retratos feitos de memórias]

Reconheço que eu possuía um pouco de preconceito com historiadores da arte. Conheço alguns alunos tranqüilos, fazem sua pesquisa, não se acham nem mais nem menos por isso. Conheço outros, em compensação, que arrotam em francês, tão finos e cultos são. Conheço professores assim também - que aliviam um pouco essa postura, passado o contato inicial. É certo que conheço alunos, professores e profissionais de outras áreas do conhecimento que agem do mesmo modo, mas meu foco agora é em história da arte. Ainda que não achasse que todo historiador da arte seria um chato-prepotente, estava sempre preparado para me deparar com um desses. E foi com esse preparo que entrei na sala de aula para assistir ao curso de história de arquitetura um, com o professor Jorge C. Ele havia lecionado na França, escrevia livros (eu havia lido um, bem introdutório), escrevia em jornal. Imaginava que aprenderia muito nesse curso, apenas precisaria tolerar seu mau humor em ter que dar aula para um bando de adolescente de dezessete, dezoito anos. Logo na primeira aula, me dei conta de que me equivocara: qual não foi minha surpresa ao ouvi-lo dizer sobre o quanto gostava de dar aula para calouros - e não era só uma forma de tentar ganhar os alunos, era perceptível seu ânimo, durante o curso todo. Mais: chegou a propôr uma excursão para Paris: aulas de história da arte sem slides, direto na fonte: nas ruas, nos museus da capital francesa (não aconteceu, por desorganização nossa, dos alunos). Apesar de eu não ter mais dezoito anos, sabia tanto ou menos que meus colegas, e aprendi bastante (esqueci boa parte, mas isso é outra história) sobre arquitetura greco-romana e um pouco mais. Mas o que mais aprendi foi ver como aquele homem que poderia se pôr no alto de um pedestal e só dar aula para pós-graduação, assumia que aula para primeiro-anistas não era nenhum rebaixamento, e que a possibilidade de erro, típico da ousadia jovem que ainda não tem o traquejo de mundo, traz junto a possibilidade de descobertas inusitadas e que, como os versos de Pessoa que tanto gosto, "é sempre melhor o impreciso que embala do que o certo que basta,/Porque o que basta acaba onde basta, e onde acaba não basta,/E nada que se pareça com isso devia ser o sentido da vida...". Dias atrás li um artigo seu sobre um concerto. Seus cabelos eram brancos e não desbranquearam nesse ínterim, como não mudou seu espírito jovem: não rejeita um programa confortável e sem surpresas, conduzido por um regente escolado, porém não deixa de prestigiar jovens orquestras e jovens maestros, em uma récita sujeita a erros - parece, inclusive, preferir estas.


São Paulo, 29 de julho de 2014

sábado, 26 de julho de 2014

Unidos x cindidos

Em um país em que a democracia engatinha, quando muito, e o dissenso típico de uma sociedade democrática é visto como crise - ou então calado na base de balas de borracha e prisões arbitrárias -, colunas que pipocaram nos jornais do grupo Folha no início da semana podem significar algo mais do que informação: podem ser uma tentativa um pouco menos explícita de influenciar o voto de quem está em dúvida, ou mesmo dar subsídio para a época de campanha na tevê - "não somos nós quem estamos dizendo: saiu na imprensa, que é imparcial".
Não que não tenha havido desentendimentos no comitê de Dilma, e não que não possa haver uma união tucana em São Paulo em torno de Aécio. O pertinente é se questionar qual é, exatamente, a relevância disso e o porquê de tamanho espaço.
Na Folha de São Paulo de segunda, Valdo Cruz comentava que a campanha de Dilma foi tomada por conflitos, dado o medo de perder a eleição no segundo turno. A disputa entre "lulistas e "dilmistas" teria estourado quando Franklin Martins fez críticas à CBF. A revista Carta Capital (que não subestima seus leitores e é declaradamente favorável ao governo) dá a pista da importância dessa tensão: Martins é tido como O inimigo da Grande Imprensa corporativa, por ter diminuído, quando ministro de Lula, o envio de verbas governamentais a tais veículos e preparado uma lei dos meios de comunicação - a exemplo do que há em países desenvolvidos e tem sido implementando em países subdesenvolvidos, como México e Argentina. Diante da mera possibilidade de Martins ter algum papel relevante num enventual segundo mandato de Dilma, vale tudo para queimá-lo.
No dia seguinte, no Valor Econômico, é a vez de Raymundo Costa informar que o alto tucanato está unido como nunca, arestas aparadas e sem pontos de atritos: "PSDB de São Paulo se rende a Aécio". O tom do artigo é louvatório às pretensas qualidades conciliatórias e agregadoras do mineiro (perto do Serra, qualquer um é conciliador e agregador), e o próprio título pode ser encarado assim, dentro da mentalidade de que todo e qualquer desentendimento é pernicioso. Olhado de fora, o título é um tanto comprometedor: rendição é um termo militar, que não implica em conciliação e sim em sujeição. Ou o título foi infeliz, ou o artigo está equivocado, ou o PSDB paulista sofre da síndrome de Estocolmo - pois quem se engajaria "efetivamente" no projeto de um inimigo ao qual foi subjugado? -, ou, mais provável, pode ser um pouco de cada: Aécio calou a boca de alguns com o apoio e engajamento de outros.
Colocar as candidaturas petista e tucana em dois pólos bem antagônicos - um em crise, outro em lua-de-mel -, serve para tentar explicar por causas internas o que seria a queda da presidenta e a subida do oposicionista nas pesquisas. Ademais, serve para, discretamente, reforçar o discurso tucano, de que o PT divide o país, enquanto o PSDB se propõe a governar para todos: "se internamente já são rachados, imagina com relação à sociedade". Eis um discurso difícil de ser quebrado pelo PT, visto que a união tucana se baseia numa cisão velada, enquanto o PT se une ao explicitar essa cisão - periferia-centro, norte-sul, pobres-ricos, empreendedores-rentistas.
A moral da história óbvia dos artigos é que "a união faz a força", por trás, contudo, há a mentalidade pouco afeita à democracia do brasileiro médio: mais que a força, a união sem oposição seria o fundamento da democracia.


São Paulo, 26 de julho de 2014.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Lob-Esponja e Canções dentro da noite escura.

Na virada do século, Lobão era o cara no rock brasileiro. Em um momento em que as grandes gravadoras ainda tinham enorme força, ao ser posto de lado pela máquina da indústria cultural, levantou a voz contra o jabá, criou seu próprio selo - o Universo Paralelo - e lançou um disco, A vida é doce (1999). Uma jogada de márquetim e tanto - que iludiu alguns ingênuos, como este escriba -, mas que serviu pra apresentar ao grande público um pouco do modus operandi dessa indústria que se diz movida a talento.
Foi a polêmica que permitiu vendas expressivas do A vida é doce, mas o disco fazia por merecer. Seu antecessor, Noite, de 1998, era excelente, e o rockeiro manteve a qualidade. Claramente Lobão era um artista no seu auge, arriscando experimentações que o mercado não aprova e fugindo de modismos - Nostalgia da modernidade (1995) ia de samba, Noite, de eletrônica, enquanto isso os Titãs lançavam em 1997 seu disco-bunda Acústico MTV, ideal para tocar em elevador ou em reuniões de família classe-média conservadora.
Ainda por seu selo, Lobão lançou um disco ao vivo, 2001: Uma odisséia no universo paralelo (2001), razoável, e outro disco de estúdio, Canções dentro da noite escura (2005), em que as quatro primeiras músicas são uma seqüência que já vale o disco. Aqui ele encerra a fase áurea da sua carreira.
Depois desse disco, disse ele que se frustrou em fazer o disco e não ter a vendagem merecida, achou mais digno fazer jabá (mesa no II Congresso de Jornalismo Cultural) e gravar o que a gravadora queria. Fazendo tudo o que a gravadora mandava, lançou com dez anos de atraso, quando o modelo já estava esgotado, o Acústico MTV, releituras pobres e clichês de músicas antigas (é só tirar as letras e fazer alguns poucos consertos nos arranjos e se tem o acústico do Charlie Brown, do Lulu Santos, dos Titãs, etc). Conforme a wikipedia, Acústico teve uma venda nem 10% acima de Canções, os vinte mil que compraram o primeiro pela sua qualidade, foram substituídos por vinte mil que compraram porque apareceu na tevê. Desde então, sua mais alta rebeldia foi sua camiseta "Peidei, mas não fui eu" - sem dúvida chocante para o clube das avós das viúvas da ditadura, seu novo público cativo. E toda vez que ele abriu a boca, foi pra mostrar que peidos era coisa pouca pra ele: no melhor dos casos falou merda.
E por que raios venho ressussitar zumbi? Admito, ouvia Canções dentro da noite escura e no fundo lamento que seu cérebro tenha virado algo um pouco abaixo de um porífero decrépito. Tinha um futuro promissor ainda, aquele rockeiro semi-gagá da virada do século.

São Paulo, 17 de julho de 2014

terça-feira, 15 de julho de 2014

Política travestida de análise: quando distorcer os fatos é sinônimo de bom jornalismo.

Costumo dividir os formadores de opinião da Grande Imprensa tupiniquim (em letras maiúsculas pra serem grandes ao menos em alguma coisa) em três grandes grupos: os que fazem análise política, os que fazem política travestida de análise e os que latem o que os donos querem. Estes últimos são os tais polemistas: Sheherazade, Jabor, Pondé, Mainardi (alguém lembra dele?), Azevedo, entre tantos, que destilam ódio e intolerância mal disfarçados em silogismos constrangedores pela precariedade. Talvez num passado longínquo já tenham escrito algo razoável, digno de reflexão. Hoje, o que refletem é a ignorância que assola o país, o pior do senso comum classe-média-alta conservadora. Os primeiros são raros de encontrar. Antes da vejanização da Folha de São Paulo e conseqüente folhização do Valor Econômico, este tinha a fantástica Maria Inês Nassif, analista do mais alto quilate que, sem esconder suas preferências políticas, busca deixá-las de lado quando faz suas análises (lembro um artigo sobre o PFL-DEM, seu risco de sumir e as alternativas que lhe restava, parecia ter escrito para o partido). O Estado de São Paulo, não sei como, mantém um patinho feio desse naipe, às segundas-feiras: José Roberto de Toledo, que antes da copa do mundo já avisava que haveria uma surpresa àqueles que criam nas manchetes dos jornais sobre as eleições de outubro. A Folha, mesmo a contragosto, mantém Jânio de Freitas e alguns poucos outros, ciente que eles sustentam boa parte das suas assinaturas, resquícios de quando o jornal dava credibilidade aos colunistas e não o contrário.
Já os que fazem política travestida de análise, esses proliferam aos borbotões na Grande Imprensa: mais do que pregar aos convertidos, como os tais polemistas, ele tentam legitimar os desejos dos chefes, ao justificar manchetes fictícias (para não usar um termo muito pesado), ao tentar argumentar o porquê do que eles querem ser o mais provável. As apresentações das pesquisas de intenção de voto para a eleição de outubro são um ótimo exemplo: falam em risco real para o PT de vitória da oposição, sendo que as pesquisas, mesmo depois de mais de um ano de fogo intenso contra a presidenta Dilma, apontam vitória da petista ainda no primeiro turno. Diante dos dados de hoje, essa possibilidade de vitória de Aécio está mais ou menos equivalente à do Brasil contra a Alemanha, no intervalo do jogo: pode ganhar? Pode. Mas vai ter que suar um bom tanto a mais, ou esperar qualquer milagre, um apagão alemão, um escândalo atingindo diretamente a chefe do executivo e sem equivalente no campo oposicionista, um proconsult, uma edição um pouco enviesada do último debate.
Exemplifico um pouco mais este grupo majoritário com dois exemplos do jornal Valor Econômico, jornal que assino (sim, sou um jurássico que gosta de tomar café sujando o jornal) não por mérito dele, mas por demérito dos concorrentes. No jornal do dia nove de julho, Cristiano Romero escreve artigo intitulado "Inflação em 12 meses supreende governo" (na semana anterior ele já havia escrito "Indicadores de crise"). O texto serve para reafirmar o que seria o ponto fraco do governo petista, depois que mensalação petista, Petrobrás e fiasco da copa parecem ter perdido sua capacidade de comover o eleitor. O próprio título já sinaliza um governo pouco preparado, que é pego de surpresa com algo que a Grande Imprensa tem dito, dia sim, outro também, desde que o tomate teve sua elevação sazonal de preços, no ano passado. As medidas para conter a inflação são postas em dúvida, há inflação represada nos preços administrados, o governo petista tem histórico de descumprir o centro da meta. O resultado disso tudo, ele não anuncia, mas é alardeado em todo lugar: inflação alta é igual a crise, país na bancarrota, população na miséria. Discurso que parece não ter surtido muito efeito no eleitorado, talvez porque o país tenha taxa de desemprego abaixo de 5% e aumentos reais dos salários. Na página seguinte à coluna de Romero há uma reportagem com Francisco Lopes, ex-presidente do Banco Central, entre 1995 e 1998 - durante o primeiro governo tucano, portanto -, e sócio de uma consultoria. Vaticina ele, que não pode ser acusado de petista, não apenas que a inflação de 2014 fica abaixo da meta, como que analisar a inflação dos últimos doze meses, tal qual o colunista ao lado, não faz muito sentido: primeiro, dado os solavancos naturais no índice de preços; segundo porque o que vale é a inflação do ano (no caso, 2014), não a acumulada em um ano; terceiro, porque é a previsão para os próximos doze meses que deve ser levada em conta (hoje em 5,89%) - o que está afim à teoria das expectativas racionais que economistas neoliberais tanto gostam e se utilizam para criticar a indexação de salários (nunca dos preços).
No mesmo dia nove de julho, o incauto leitor do Valor é alertado pela sagaz colunista Rosângela Bittar, chefe de redação do jornal (reparem que não me rebaixei ao precário Raymundo Costa), de uma "armação ilimitada" da petista: votar em Dilma é votar em sabe-se-lá-o-que: enquanto os adversários já anunciaram suas equipes econômicas e delimitaram com clareza o caminho que seguirão, a presidenta, não diz nomes e só aponta linhas mestras para um eventual segundo mandato: "noutras palavras, quem quiser votar em Dilma, que o faça no escuro (...). O que ela apresentou ao Tribunal Superior Eleitoral como programa de sua candidatura foi um plano fantasia, para cumprir tabela legal. O eleitor que crie a expectativa que quiser sobre o que vem aí, prenúncio de que boa coisa não é, senão o governo propagaria". Para chamar o eleitor da petista de idiota só faltou o adjetivo - por isso incluo ela nos analistas que fazem política e não nos que latem, porque ela tem um resquício de educação, mesmo que honestidade intelectual não seja seu forte. Ou então ela não lê o jornal que paga seu salário. Dois dias antes, reportagem de Vandson Lima e Raqual Ulhôa mostrava o festival de chavões lugares-comum e desconectados do discurso efetivo dos três principais postulantes ao Planalto, em que é quase impossível saber quem apresentou o que no seu programa de governo registrado no TSE. Bittar fala meia verdade ao dizer que Dilma apresentou um plano fantasia: esqueceu de dizer que não foi a única. Dois dias depois, Bittar foi contradita no mesmo Valor Econômico por Leandra Peres, em seu artigo "Dilma continuará na Fazenda em 2015". Ué? Mas não era um voto no escuro? Como, então, Leandra diz que ao votar em Dilma sabe-se bem o que virá? Para complicar a situação de Bittar: Peres tem argumentos bem mais consistentes que a chefe.
O que mais me irrita nesse tipo de "análise" é o pressuposto de que o leitor é incapaz de ler e interpretar fatos e gráficos e, principalmente, incapaz de perceber que eles estão distorcendo os fatos e não interpretando. Em outras palavras: pressupõem que o leitor é um apedeuta microcéfalo. Um burro. (Folha é especialista nesse em tratar o leitor com essa falta de respeito). O que me assusta é que se esses são os exemplos de formadores de opinião ponderados, o que nos resta é um rebaixamento ainda maior do debate - não por acaso o desprezo à "verdade factual" (por mais que falar em verdade ao se tratar de sociedade seja difícil, há pontos mínimos que não se pode negar) já é replicado em blogues, à direita e à esquerda (e sequer me refiro aos blogueiros raivosos).

São Paulo, 15 de julho de 2014.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

O espetáculo envelheceu? O louvor de Ivana Bentes ao espetáculo.

Acompanho o Facebook da professora de comunicação da UFRJ Ivana Bentes há um bom tempo. Não se trata de alguém que eu admire, nem que eu concorde. Acompanho porque acho interessante alguém de dentro do establishment espetacular apoiar tentativas de criar formas heterodoxas de questionamento da ordem, coisa que professores marxistas que acompanho pela rede do senhor Zukenberg reprovam (para falar o mínimo). Estamos, em tese, no mesmo espectro político, o que não impede que eu tenha muitas críticas às suas colocações. Até hoje evitei explicitá-las para além do círculo de amigos por uma questão hierárquica: afinal, ela é uma doutora, pesquisadora e professora universitária, enquanto eu sou um reles mestre em filosofia, estudante de iluminação cênica e metido a escrever. Se hoje me atrevo a redigir algumas de minhas críticas e publicá-las, é porque ela resolveu se meter numa área para a qual estou qualificado para discutir, dentro da chancela acadêmica a partir da qual fala: Guy Debord e a sociedade do espetáculo. []Não falarei aqui da sua produção acadêmica, que desconheço, e sim do que chega ao grande público leigo, o que não deve ser desprezado nem visto como secundário, a se acreditar no que ela fala a esse público - o que lhe garante o rótulo de ativista. Facebook, entrevistas, mesas-redondas, penso eu que, dentro da sua concepção, são momentos de um mesmo pensamento que se pretende prático e, portanto, se recusa a se engessar em artigos acadêmicos herméticos. Antes de chegar na postagem recente no Facebook, trago minha visão sobre outros dois momentos da professora Ivana. 

 1. II Congresso de Jornalismo Cultural - Ivana x Veja 
A primeira vez que tive contato com Bentes foi no segundo Forum de Jornalismo Cultural, promovido pela revista Cult, no TUCA, em 2009. Ela participava de uma mesa-redonda com Carlos Graieb, editor-executivo da revista Veja. Foi talvez a mesa mais constrangedora a que já assisti. Graieb falou primeiro, calmamente defendeu posições grosseiramente conservadoras, principalmente a hierarquização dentro da mídia: segundo ele, o editor daria credibilidade àquilo que é publicado, e evitaria que os leitores fiquem perdidos em meio a uma miríade de informações contraditórias e contestáveis. Terminou sua fala provocando: "acho que a professora Ivana deve ter algo a dizer". E tinha. Apesar de não ter deixado de tuitar enquanto o editor de Veja falava, prestou atenção e criticou de maneira enfática a hierarquização defendida por ele, toda a midia tradicional - não hesitou em nomear e adjetivar a revista Veja -, defendeu a pesquisa na internet, louvou o fim da mediação que o Google dava com toda a sua liberdade. O público aplaudiu a professora-ativista: ela tinha detonado os precários argumento de Graieb. Abriu-se para debate, e este precisou de menos de um minuto para derrubar toda a fala de Ivana, sem possibilidade de revide: "você acha mesmo que o Google faz isso pelo bem da humanidade? Ela é uma empresa, igualzinho a Veja, quer lucro, vende os primeiros resultados pra quem pagar mais. O que há de horizontal nisso?" E ainda completou: os blogueiros mais lidos seriam os que fizeram seu nome da imprensa tradicional. Silêncio na platéia. "Inocente, pura e besta", segundo a própria Bentes, em entrevista à revista Cult 188, foi como ela chegou ao Rio. Parece que ainda guarda um bom tanto das suas raízes. 

2. Respeitosamente vândala 
Bentes foi capa da edição 188 da revista Cult, de março de 2014. Como sói acontecer com entrevistas destinadas à apresentação ao grande público de um intelectual ou afim, não se aprofunda muito. Me pareceu antes delimitar o campo de onde ela fala do que exatamente esmiuçar suas críticas. Mesmo assim, não deixa de haver contradições incômodas. Um exemplo: ela termina dizendo que "temos que lutar contra a financeirização da vida", sendo que no início havia dito que "as favelas e periferias são o maior capital nas bolsas de valores simbólicas do país". Se precisamos lutar contra a financeirização da vida, por que sujeitar a análise dessa luta à gramática financeira hegemônica? Ao falar em "capital" e "bolsas de valores" para questões sociais, Bentes me soou uma versão radical-cult do Dimenstein, sem extrapolar o campo conservador que o colunista da Folha e da Globo se situa com seu entusiasmo pelo "capital humano" tupiniquim. Outro: ao mesmo tempo que ela defende a necessidade de sair do papel de intelectual do tédio, que do alto faz o julgamento da situação, regurgita um calhamaço de termos técnicos filosóficos - muitas vezes sem necessidade -, capazes de deixar qualquer um menos afeito à linguagem pós-estruturalista se sentindo um parvo carente de Luz. Mas o que mais chamou a atenção na entrevista à Cult, principalmente nas redes sociais, não foi algum trecho da entrevista, suas idéias, nada disso: foi a capa da edição, em que Bentes apresenta seu dedo médio ao distinto público. A capa me fez lembrar de um amigo que invadiu a reitoria da Unicamp, em 2004, baixou as calças e mostrou a bunda ao fotógrafo da Folha. Virou capa do caderno quotidiano. Contudo, meu amigo conseguiu uma polêmica mais rica do que a professora. De qualquer modo, polêmica pela polêmica me soa sempre muito pobre. 

 3. Guy Debord envelhecido 
Dia 29 de junho a professora publicou em sua conta no Facebook: 
"Guy Debord envelheceu: Nós somos o espetáculo! Um dia o mundo será uma imensa Copacabana! O sábado do jogo sufoco do Brasil contra o Chile consegui fazer o mais incrivel sintese e reedição de um tropicalismo tardio (remixofagia) da nossa 'geléia geral brasiliera' na Av. Atlântica. O Ato que juntou o Copa da Rua com a Carnavandalirização misturou manifestante torcedor e torcedor manifestante e evoluiu em clima politico delirante. Porque fazer politica é uma das formas do delirio. Dessa vez a policia formou literalmente uma 'ala' ao final do cortejo, disciplinadamente, fechando e 'cortejando' a parada civico-contestatória. E estavam lá todas as pautas, das micropoliticas do desejo até as remoções nas favelas e a desmilitarizaçao da policia. Como diria Jean Luc Godard turistas e torcedores se encantavam e fotografavam, manifestantes protestavam, a comunidade LGBT e os pink bloc mostravam os corpos purpurinados e a policia policiava. E as centenas de jornalistas acompanhavam tentando decifrar o cortejo-obra da politica em linguagem pós realismo mágico. Sociedade do espetáculo? Guy Debord envelheceu: Nós somos o espetáculo! Seja para perturbar e criar tensões e confrontos, seja para sermos domesticados e neutralizados! Como decide? Não vai ser nos penaltis. O ato continuou pelas areias do Leme, parou para ver o jogo decisivo e continuou noite adentro. https://ninja.oximity.com/article/Futebol-sem-roupa-e-tropa-rosa-shock-n-1 
P.S. Debord continua inspirador, mesmo não acompanhando todas as consequências do seu discurso, muitas vezes usado de forma imobilizante." 
N'A sociedade do espetáculo, Debord põe os Conselhos Operários como uma demonstração, um embrião do que seria a sociedade pós-capitalista. Em tais conselhos, os produtores teriam controle sobre o que produzem, e haveria um clima de liberdade e festa permanentes, graças a essa condição de controle da própria história. Ivana parece aludir a essa festa dos Conselhos quando fala do manifestante torcedor unido ao torcedor manifestante em um delírio político. Atores sociais conscientes, assumindo a história como produtos de suas ações e comemorando em comum essa liberdade. Será? O que há é um carnaval que não perturba a ordem, apenas comemora a ampliação da política. Um ganho, sim, mas muito longe de ser uma vitória, e muito, mas muito longe de desqualificar as teses de Debord. 
Uma primeira falta é perceptível nessa descrição de Ivana: a Política. Talvez essa manifestação de torcedores manifestantes fosse político em junho de 2013, não o é mais um ano depois. Em junho de 2013 manifestações populares, ainda mais as manifestações parando as ruas das cidades eram uma excrescência que deveria ser combatida pelas forças da ordem, para manter o tráfego e a paz social. O MPL São Paulo conseguiu ampliar o estretíssimo campo político brasileiro, recolocando as ruas como parte da Ágora. Pouco depois, os defensores das táticas black blocs conseguiram impedir que a tomada das ruas perdesse seu caráter contestatório e político - em que inocentes cartazes atrapalhavam o trânsito em uma faixa e se tornavam rotina protegida pelos militares. Garis do Rio e metroviários de São Paulo, já em 2014, foram dois exemplos de aprofundamento dessa disputa política que, como caracteriza Rancière, consiste no processo de desestabilização da ordem imposta pelo poder - que distribuiu e legitima corpos e funções dentro de uma ordem hierárquica - em favor de uma lógica mais igualitária (os movimentos dos trabalhadores sem teto entram nesta mesma lógica, porém sua luta vem desde antes das revoltas de junho de 2013, por isso não cito como exemplo pontual). 
Na descrição do delírio político de Ivana o máximo que se vê é a afirmação dos ganhos políticos do último ano: não há embate, não questionamentos à ordem, não há disputa para ampliação da pauta do que é considerado como sendo legitimamente político, não há, enfim, política. Há uma festa, só. A política como delírio de intelectuais. (Reforço meu ponto de partida: a descrição da professora). Prova maior é a sua descrição da polícia militar: cortejava disciplinadamente essa festa, estava incluída nela. Nesse caso, ou temos uma revolução, ou temos uma contestação autorizada, porque não viola pactos e limites postos pelo espetáculo (governo, mercado e mídia) para seus súditos. E os críticos espetaculares do espetáculo louvam o poder quando imaginam questioná-lo. 
A leitura que Bentes indica ter feito de Debord, centrada no seu aspecto mais visível e mais sujeito à ideologização, reforça o desvio do seu pensamento que o próprio pensador já previa. No capítulo VIII d'A sociedade do espetáculo, "A negação e o consumo da cultura", Debord alertava tanto para "a crítica espetacular do espetáculo" (§196) quanto para o uso do conceito de espetáculo como "fórmula vazia da retória sociológico-política para explicar e denunciar abstratamente tudo, e assim servir à defesa do sistema espetacular" (§203). Nos Comentários de 1988, ele retoma: "A discussão vazia sobre o espetáculo - isto é, sobre o que fazem os donos do mundo - é organizada pelo próprio espetáculo: destacam-se os grandes recursos do espetáculo, a fim de não dizer nada sobre seu uso. Em vez de espetáculo, preferem chamá-los de domínio da mídia" (item III). Negar a teoria debordiana porque em um carnaval fora de época em que se gritavam palavras de ordem e a polícia militar acompanhava sem incomodar é uma leitura muito rasa - é um assujeitamento muito descarado para quem diz se revoltar contra essa política nos corpos -, e um uso ideológico que corrobora ainda mais a atualidade de Debord. 
Quando Bentes exclama "nós somos a mídia!", "nós somos o espetáculo!", a professora não mente, em certo sentido: sim, estamos submetidos à mesma lógica de especialização e alienação do trabalho que sustenta o espetáculo. Somos nós que o sustentamos e o aplaudimos. Sempre fomos, isso está dito por Debord desde a década de 1960. Estamos sujeitos à sua gramática, à sua linguagem, por isso a Mídia Ninja pode disputar de igual para igual com a mídia tradicional: porque fala àqueles que entendem a língua espetacular. É uma visão diferente, pode ser mesmo questionadora de certo status quo, mas não é subversiva. Assim como o Fora do Eixo, tão elogiado pela professora na sua entrevista à Cult: ou ela acha que formar uma empresa de promoção cultural paralela às grandes indústrias culturais é romper com a lógica de valorização do capital e com o trabalho alienado? Nos shows do Fora do Eixo no Studio SP, eu pagava pra entrar, os funcionários recebiam para trabalhar por tantas horas, tudo seguia o fluxo normal do capitalismo. Onde está o revolucionário? Até uma questão de impossibilidade objetiva, as experiências heterodoxas de questionamento da ordem que Ivana aplaude entusiasticamente não são anti-capitalista - e assumir isso não é um fracasso, mas uma potência para repensar novos atos. A afirmação efusiva de que somos os espetáculo, como se isso fosse uma novidade ou algo positivo, chega a ser preocupante a alguém que se pretende crítico e engajado. 
Lembro uma coisa que o professor Marcos Nobre disse em uma aula, ainda na minha graduação: "se você achou um erro num grande autor, releia, porque o mais provável é que você não entendeu". Bentes, ao cravar que Debord envelheceu, fala o contrário do que diz, mostra que não entendeu o cerne da crítica do francês, e reforça o poder do espetáculo. 

São Paulo, 02 de julho de 2014