quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

31 de dezembro de 2015, no hospital [saudades feitas de afetos]

Sinto o choro ganhar força. Começo a pensar nesta crônica para afogar as lágrimas - funciona. A dor que me traz ao hospital não é para tanto - mas a dor que o hospital me traz, essa, sim, é enorme. Cogito pedir pedaço de papel e caneta à atendente, mas desisto: sou o próximo. Foi enquanto esperava ser chamado, olhando pela porta para o pronto-socorro deixada aberta: vi um homem ser levado numa maca por uma porta, devia ser uma sala; dela saía o pi pi pi pi de alguma máquina - talvez de uma "bomba". O barulho me fez voltar cinqüenta dias no tempo, numa sala do pronto-socorro do outro hospital da cidade, na qual meu pai esperava por uma vaga na uti. Eram várias máquinas a apitar, em ritmos, alturas e intensidades diferentes. Numa das telas que circundavam-no, gráficos estranhos se repetiam a intervalos regulares - para minha ignorância aquilo poderia ser o sinal emitido da estrela Vega, no livro Contato, do Carl Sagan (lembro do meu pai chegar esfuziante do cinema, agradecendo por eu ter indicado o filme, isso no século passado). O que mais me marcou (e machucou), entretanto, foi aquela estranha sinfonia dos aparelhos - algo meio Tarkovski, meio Fritz Lange. Talvez para muitos aquilo seja um último ribombar da esperança, o som o que antecipa a cura inesperada. Para mim, foi a continuação de uma vida que não mais se sustentava, de uma situação que só um verdadeiro (e impossível) milagre - como o nascer espontaneamente um braço num maneta, como o exemplo-desafio que tantas vezes ouvi - reverteria. Meu pai. Tinha planos para quando retomasse a vida normal. Junto com o otimismo quanto a sua recuperação, eu temia que nosso ano novo fosse no hospital, esperando pela reação do seu organismo. Apesar da demora, acreditava que se recuperaria, como recuperado ficou nas outras duas vezes, operado nesse hospital que agora eu esperava resolver um problema ridículo (e me recordo da virada para 2013, quando pouco antes da meia-noite eu havia matado um aranha marrom em meu braço, sem saber se havia me picado ou não. De madrugada acordo com meu pai em meu quarto, iluminando meu braço com uma lanterna, "só para conferir se a aranha não te picou mesmo"). Nas duas vezes saiu cansado, fraco fisicamente, mas revigorado na vida - por que não foi assim desta vez? O futuro do pretérito me toma: e se ele tivesse feito a terceira cirurgia aqui, ou a segunda no outro hospital? No futuro do pretérito tudo é possível; no presente, o que tenho são lembranças, a sensação dos móveis de minha casa de Pato estarem todos com três pernas, ao invés de quatro, e uma unha encravada na mão direita. O som pára, pouco depois a enfermeira me chama. Diante do meu problema, sequer chega a medir minha pressão. Faltam menos de doze horas para 2015 acabar. A comemoração será como sempre: em casa, de pijama, estourando um espumante e indo dormir assim que os fogueteiros permitam. Falta, entretanto, a quarta pessoa das viradas anteriores. Minha mãe reclama que meu pai não deveria ter ido tão cedo. Concordo. Desconfio que ele também. Mas quando notou que estava em suas últimas horas de vida, se despediu sereno: sabia que a hora de partir não é nem cedo nem tarde, é tão-somente a hora. 2015 termina, mas deixa uma marca indelével feita de vazio.


31 de dezembro de 2015

sábado, 19 de dezembro de 2015

As ruas começam a incomodar a Grande Imprensa

Um das principais conseqüências das chamadas "jornadas de junho", de 2013, é a assunção da rua como espaço político ordinário. Num país em que "político" é tido como termo pejorativo pelos próprios políticos, e no qual rua como espaço público é duramente questionado pela Grande Imprensa e pelas parcelas bem-remediadas do país - a ponto de se dizer, por exemplo, que o centro de São Paulo é área morta e precisa ser "revitalizada" -, conseguir que a rua assuma positivamente o papel político é algo a ser comemorado - na história destes Tristes Trópicos, talvez isso tenha acontecido apenas no interregno democrático entre 1945 e 1964; os caras-pintadas do Fora Collor, em 1992, não conseguiram deixar esse legado: tão logo caiu o presidente, tudo tomou seu lugar, depois que a banda passou.
E assim seguiu, de 1992 até a "quinta terror", aquela de repressão a la Pinheirinho contra os manifestantes classe-média que protestavam contra o reajuste da tarifa de transporte público: toda manifestação era tida por baderna e perturbação da ordem, um bando de desocupados que ao invés de trabalhar prefere atrapalhar os cidadãos de bem. Desde então, como espaço político, fechar uma faixa da Paulista para meia dúzia protestar contra o que for passou a ser legítimo. E como a rua ainda resiste em ser pública, cabe manifestação de esquerda, cabe manifestação de direita, cabe pobre pedir direitos, cabe rico pedir fim de direitos (dos outros, claro). Após dois anos das tais jornadas, as diferenças entre manifestação de esquerda e de direita foram se sedimentando e hoje são evidentes: na primeira, os policiais militares pronto para atacar; na segunda, os mesmo soldados fazendo poses para selfies; numa, diversas cores e classes; na outra, a padronização nas camisas da seleção em corpos brancos e bem nutridos; uma acontece durante a semana ou quando for necessário, na Paulista, no Viaduto do Chá, em Itaquera, na Praça da República, na Sé, no Grajaú, na Anhanguera, nas marginais; a outra ocorre aos domingos, na avenida Paulista, no máximo no Largo da Batata, com chamadas na rede Globo.
A importância da ocupação das ruas é vital se pretendemos construir uma sociedade democrática: conforme o filósofo francês Paul Virilio, mesmo em tempos de internet, de petições online, de xingar muito no tuíter e de páginas de protesto, o real poder está onde sempre esteve: na rua. Tem o controle da situação quem tem o controle da rua - daí todo o aparato do urbanismo e dos avanços técnicos para retirar a massa da rua.
Exemplo do poder das ruas: foi quando os estudantes - que desde o início agiam politicamente, diga-se de passagem - que ocupavam as escolas estaduais passaram a ocupar também as ruas que Alckmin recuou no fechamento das noventa escolas para 2016, não sem antes ter enviado para o diálogo - conforme o governador - seu porta-voz principal para questões sociais, a polícia militar e sua retórica feita de balas de borracha, bombas de gás e porrada democraticamente distribuída.
Nesta semana, a direita foi para a rua domingo, como é do seu feitio, protestar contra Dilma e a favor do golpe - nem precisa mais ser militar. Na quarta, a esquerda assumiu o protagonismo, em defesa da democracia.
A Grande Imprensa, como era de se esperar, manteve sua narrativa anti-democrática e golpista. Em tempo: não seria golpista se tivéssemos pluralidade nos meios de comunicação; contudo, com a Grande Imprensa agindo em monobloco, distorcendo os fatos de acordo com seus interesses, sem qualquer contraditório, aplicando os ensinamentos de Goebbels - sem conseguir atualizá-los para o tempo de internet -, resulta em pacto com um golpe de Estado. No domingo dos protestos pró-golpe, o Estadão trazia o protesto na primeira página; O Globo falava do futuro governo Temer; enquanto a Folha de São Paulo - versão diária para a Veja - estampava como manchete que "após 13 anos de PT, 68% não veem melhora de vida" (por mais que todos os indicadores digam o contrário), e imprimia na sua primeira página nota sobre os protestos. Na segunda, o Globo sequer os mencionava na sua capa, os jornalecões de São Paulo falavam do fracasso, ainda que Folha tentasse dar um ar Poliana a ele. Na quinta, os jornais noticiavam como atos pró-Dilma os protestos que foram antes de tudo anti-golpe - como dissera em entrevista à BBC Brasil Guilherme Boulos, boa parte, se não a maioria, não estava ali para defender o governo, mas a democracia. Por terem levado mais gente que os protestos de domingo, mereceram figurar na primeira página dos três jornalecões, não sem antes explicitar que era movimento de centrais sindicais (seriam manifestações comunistas?).
O que mais me chamou a atenção, todavia, foi o tuíter da jornalista Eliana Cantanhêde, uma das principais porta-vozes dos barões da mídia - talvez por não ter constrangimento em ser velhaca para defender o patrão. No dia das manifestações contra o golpe, quarta-feira, ela disse: “Devia ser proibido fazer manifestação em dia útil. São Paulo está um caos. Irritante!”. Fosse outra pessoa, e esse comentário poderia passar em branco. Sendo de quem é, merece um pouco de reflexão. O irritante para a jornalista (e todo o pensamento que ela representa) não é manifestação em dia útil, é manifestação de esquerda. José Serra reclamou da avenida Paulista interditada para carros, num domingo, por prejudicar o trânsito; Cantanhêde faria o mesmo tranqüilamente. Nenhum dos dois, contudo, reclamou da Paulista fechada para protesto contra a Dilma - os colegas de Serra até foram discursar no dia treze. Ao querer restringir protesto para domingo, Cantanhêde mostra bem seu apreço pela democracia sem povo e sem contraditório, uma democracia que não perturbe a ordem viável (e viária) apenas para as classes abastadas - porque as classes subalternas sofrem diariamente com trânsito, transporte público, violência policial, omissão estatal, etc -; e discretamente afirma que há uma manifestação legítima e outra não: como apontado acima, manifestação de domingo não diz respeito apenas ao dia da semana, mas também ao tipo de manifestante e as bandeiras que defendem.
A rua como espaço ordinário de política começa a incomodar os detentores do poder, assim como a rua como espaço público. O projeto do PSDB e da Grande Mídia - que é sua mentora intelectual - mostra cada dia mais seu deprezo pela democracia: dois pesos duas medidas para a corrupção, golpe para vencer eleições, tropa de choque da polícia militar para dialogar com movimento sociais, rua para carros, circo (Faustão, Datena, Bonner, Ratinho e afins) para o povo, para o qual fazem a promessa seguir com seu direito de dar a última palavra: sim, senhor.


19 de dezembro de 2015

domingo, 29 de novembro de 2015

E agora, escrever para quem? [saudades feitas de afetos]

Como acontece muitas vezes, não precisei pensar na crônica: ela quem surgiu espontaneamente (era sobre a entrevista do secretário de educação de São Paulo). Tendo identificado os pontos de ancoragem da argumentação, abri o Open Office e, diante do branco da tela, meu trabalho era conseguir que os pensamentos mantivessem a velocidade dos dedos, que passeavam rápida e familiarmente pelo teclado. Findo o primeiro parágrado, como se estivesse em uma encruzilhada, precisei decidir a ordem da exposição, o impacto e os desdobramentos de cada argumento. Foi então que estanquei: ao pensar no meu interlocutor ideal, me veio a constatação de que eu já não possuía meu principal leitor - ele, que seguidamente usava minhas crônicas de gancho nas conversas, seja para complementar, para acrescentar ou para contestar pontos específicos. Nosso espectro de concordância era grande, e o respeito nos pontos dissonantes também: ele devia me achar muito moderado, eu o achava muito radical, pouco atento às forças envolvidas nos embates políticos. De qualquer forma, estávamos numa esquerda bem longe do centro e a prudente distância de extremismos apedeutas. Ali, diante do primeiro parágrafo escrito e com o resto da análise apenas precisando de meus dedos, me perguntei por que eu escrevia, para quem eu escrevia. Dos porquês, dois deles eu tenho muito claro desde longa data: porque gosto e porque me ajuda a organizar e entender o mundo que me cerca - social como interno e afetivo. O para quem me soou uma pergunta que eu nunca havia me posto. Não era para mim, que os textos escritos para mim eu nunca publico. Me lembrei de uma conversa com uma antiga terapeuta. Eu apanhava para conseguir escrever o texto de qualificação do mestrado, basicamente por conta de preocupações formais excessivas: eu fazia uma leitura quase estruturalista d'A Sociedade do Espetáculo; e tinha como objetivo escrever a dissertação o mais rigorosa possível, mas numa linguagem que meu pai fosse capaz de ler e entender (e não se entediar). A terapeuta não entendeu por quê meu pai, achou que era qualquer coisa psicanalítica, de filho dependendo da aprovação do pai. Precisei me explicar: meu pai não possuía curso superior, não tinha um conhecimento especializado (academicamente falando), mas muita leitura, vasto campo de interesse, e uma cultura geral bem acima da média (academicamente falando também). Eu poderia escrever uma dissertação hermética difícil árida que a banca (Peter Pal Pélbart, Jeanne Marie Gagnebin e Vladimir Safatle) compreenderia sem qualquer dificuldade; mas preferia alcançar um público mais amplo, ainda que qualificado, que não necessitasse de simplificações dos conceitos, apenas um texto minimamente aprazível à leitura, talvez uma ou outra explicação mais detalhada de pontos mais complexos. Meu pai foi o representante imaginário desse público - para minha dissertação e para a grande maioria das minhas crônicas. Isso não quer dizer que eu escrevia para ele, escrevia para o mundo - mas um mundo ideal feito de Dejanirs. Não apenas isso: ele era de fato meu leitor e interlocutor privilegiado - ou talvez eu fosse o escritor e interlocutor privilegiado dele. E agora, o que fazer? Eu sabia como seguir com a crônica, mas ao pé daquele primeiro parágrafo, a ausência dele fez com que perdesse o sentido continuar a escrever. Escrever para quem? Lembrei que todo meu interesse por política era clara influência dele - assim como minha vontade de saber sobre tudo (ou quase) e meu apetite por livros. Na ausência de quem, achei um novo quê para justificar minha crônica - e as vindouras. Como homenagem: não tenho mais sua interlocução, porém ainda posso mostrar ao mundo parte da herança que ele me deixou.


29 de novembro de 2015.



quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Aula de democracia dos estudantes de São Paulo

Ao ouvir a entrevista do secretário de educação do Estado de São Paulo, Herman Jacobus Cornelis Voorwald, na rádio CBN, quarta-feira, o primeiro escritor que me veio à memória foi Millôr Fernandes: "Democracia é quando eu mando em você, ditadura é quando você manda em mim". As alusões bibliográficas não se encerraram por aí: o duplipensar orwelliano também era claro na fala do secretário. Para não falar na máxima de Goebbels, tão em voga nestes Tristes Trópicos - afinal, se algo é repetido o tempo todo, só pode ser verdade, não?
Em quarenta e cinco minutos montados para o secretário "explicar para a população" as medidas adotadas pelo governo tucano, Voorwald conseguiu irritar as muito complacentes entrevistadoras, Fabíola Cidral e Ilona Becskeházy. Para alguém um pouco mais crítico, sua fala foi temerária do início ao fim, uma boa mostra de desapreço à democracia por parte dele e do governador para quem trabalha, o senhor Geraldo Alckmin.
Diz o secretário que o projeto de reorganização das escolas está em "fase de discussão" e que não é uma medida atabalhoada, antes parte de um processo que vem desde dois mil e onze - ou seja, desde a gestão anterior. Duas questões importantes quanto a isso: se é um processo, como os agentes diretamente envolvidos - professores, alunos e pais, para não falar nos cidadãos sem ligações diretas com a escola - não estavam a par? Inadmissível em um governo sob regime democrático um processo que afeta toda a sociedade passar quatro anos na sombra. Já dizer que o fechamento das escolas está em fase de discussão é negar a realidade, ao gosto do Grande Irmão, de 1984, ou como bem definiu Millôr Fernandes: desde quando baixar uma norma determinando o fechamento de escolas é discussão? O secretário usa como exemplo de "abertura para o debate" do governo o fato de ter revertido a decisão de fechar duas escolas, por terem conseguido provar que eram importantes. Isso não é debate, é ceder a movimentos de resistências: diante de uma norma ditada de cima, decida em gabinetes com ar-condicionado, sem qualquer discussão com a sociedade, provou-se que os tecnocratas que a elaboraram durante quatro anos foram incapazes de perceber a relevância dessas duas escolas - nada surpreendente, já que a comunidade é um dos atores mais indicados para indicar a importância e os porquês de dados equipamentos públicos.
Como todo político no poder, Voorwald tenta desqualificar os movimentos reivindicatórios e todo e qualquer crítico de sua proposta. Sobre as críticas dos professores das faculdades de educação da USP e da Unicamp, disse que não tinham qualquer importância, que os pesquisadores de educação pouco (ou nada) sabem de educação - e completou que se a crítica partisse da FEA, aí ele daria crédito. 
Na sua fixação em desqualificar as ocupações - que são, afinal de contas, contestações efetivas e não beletrismo acadêmico em busca de revistas indexadas -, conseguiu tirar do sério as entrevistadoras. Depois de repetir pela enésima vez que seria anti-democrático e inadmissível que as escolas "invadidas" fosse trancadas pelos invasores, aparelhados por "movimentos políticos". "Secretário, o senhor já falou quatro vezes isso", retrucou a certa hora a entrevistadora, diante de um secretário que ignorava a questão feita para explicar o plano para a população. Pouco a seguir, depois de Voorwald chorar novamente sua ladainha sobre a falta de democracia dos alunos aparelhados por "movimentos políticos", a entrevistadora teve que lembrar o secretário de educação que ele não podia generalizar, pois a maioria das ocupações não ostentava bandeiras de partidos ou do MTST.
Estavam numa empresa do grupo Globo, é claro que passou sem problemas o discurso proto-fascista do ex-reitor da Unesp: ao usar o argumento de "movimento político" para desqualificar o protagonismo dos estudantes, como se fosse uma falha óbvia, desmerecedora - e pior, ilegal e autoritária - discutir política e usar instrumentos político numa questão política. Os desembargadores do Tribunal de Justiça de São Paulo deram uma pequena lição de democracia ao governador Alckmin, ao negar o pedido de reintegração de posse: "[as ocupações] não envolvem questão possessória, pois o objetivo dos estudantes é apenas fazer com que o Estado abra discussão sobre o projeto de reorganização da rede de ensino". Desta vez a justiça negou a educação feita na base de porrada, bombas e balas "não-letais" (que eventualmente matam), tão ao gosto dos governadores paulista nos últimos vinte anos. Talvez a proposta tucana seja das mais razoáveis para o momento (não tenho opinião formada e não palpito sobre), e me parece que os alunos não estão negando de antemão essa possibilidade: é certo que duvidam que seja, e questionam, principalmente pela forma como Alckimin está tentando implementá-la. Se o governo apresentar argumentos sensatos, as ocupações perdem força no momento seguinte.
Há pressões para que o governador abra discussões sérias - dessas que envolve apresentação e discussão de propostas e não o-governo-fala-a-população-acata. Entretanto, não é de agora que o PSDB demonstra apreço nenhum pela democracia: gestões feitas de cima para baixo, questões sociais resolvidas preferencialmente com polícia militar e porrada, negação e desqualificação do contraditório, leis em interesse próprio, complacência com corrupção e descrédito do processo eleitoral. Para sorte do partido de Alckmin, a Grande Imprensa brasileira defende o mesmo modelo de democracia dos cemitérios - e das ditaduras -, em que o povo acata bestializado o que pequenos ditadores da Casa Grande determinam - "sim, senhor". Desta feita os estudantes da rede estadual de São Paulo decidiram dizer "Não!", ao gosto do operário de Vinícius de Moraes: "E o operário disse: Não!/ E o operário fez-se forte/ Na sua resolução/ (...)/ Em vão sofrera o operárioSua primeira agressãoMuitas outras se seguiramMuitas outras seguirão.Porém, por imprescindível/ Ao edifício em construção/ Seu trabalho prosseguiaE todo o seu sofrimento/ Misturava-se ao cimentoDa construção que crescia".

ps: não era o foco de meu texto, mas destaco que a pauta dos estudantes da rede estadual, diferentemente das usuais pautas da Apeoesp ou dos universitários (professores e alunos), não é corporativa. Que professores e universitários aprendam algo com toda essa mobilização.

26 de novembro de 2015.

E os estudantes ensinam: a escola é nossa, não do governo.

sábado, 24 de outubro de 2015

O horror

O horror. Se meus gatos falassem, muito provavelmente teriam usado essa palavra para descrever o que passaram com a utilidade doméstica que recém comprei. Sentimento bastante contrastante com a curiosidade que enfiavam seus focinhos enquanto eu abria a caixa e montava o aparelho - estavam tão interessados que nem notaram que havia o fio da tomada para eles brincarem. Aparelho montado, ligado na tomada, firme em punho, ligo o aspirador de pó. Meu irmão havia avisado que o modelo era barulhento. Eu, contudo, impregnado pela lembrança ensurdecedora do antigo aspirador de pó da casa de meus pais, achei-o barulhento pero no mucho. Não foi o que acharam Mafalda e Guile. Ao ligar, se assustaram - melhor: se atemorizaram. Mafalda foi para baixo da mesa e começou com seu miado curto - quase um latido; Guile correu para debaixo da cama (na minha última temporada na casa dos meus pais, eles aproveitaram minha ausência para abrir um buraco no forro da cama e fizeram ali uma cabaninha, na qual passam madrugadas brincando, quase sem dar trancos que balançam a cama toda). Comecei a limpeza pelo quarto, e Guile tratou de fugir de seu precário esconderijo, achando um local seguro sobre a cama: embaixo da colcha. Mafalda eu não vi até desligar o aparelho - o que não levou muito tempo, dez minutos, se muito, visto que minha casa tem trinta metros quadrados. 
Limpo o filtro, enrolo o cabo, e guardo o aspirador num dos poucos lugares ainda vagos na minha casa: embaixo da pia da cozinha. Vou em busca dos gatos, e tenho certa dificuldade em fazer as pazes - tenho que agarrar o Guile, que foge de mim como se eu fosse o próprio aspirador de pó. Já acalmados, notam o monstro guardado. Mafalda tão logo vê, tão logo sai da cozinha. Guile várias vezes inspeciona - sempre a prudente distância e cheio de cuidados. Dois dias depois, quando vou utilizar o aspirador de pó pela segunda vez, ao me verem com o monstro em mãos, ficam alerta. Ao soar do estrondo, fogem ambos para um lugar escondido e seguro - embaixo da colcha -, e só saem de lá depois do som ter cessado há um tempo. O horror, dá pra perceber em seus corpos.

24 de outubro de 2015
Os irmãos muito bem escondidos em lugar seguro

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

A perversidade do discurso da impunidade do menor de idade

Doze de outubro, dia das crianças. A depender de uma parcela considerável da população (considerável não por ser maioria, mas por ser poderosa), em breve estaremos discutindo se as crianças merecem saidão nessa data, ou apenas no natal. Enquanto nossas crianças-soldado morrem sem saber o que é infância e sem a garantia do paraíso por Alá - executados por criminosos com e sem farda -, religiosos, políticos, empresários (quando não os três na mesma figura) lavam uns as mãos dos outros com o dinheiro que toda essa indústria do medo e da punição gera. Na linha de frente, policiais militares apedeutas que executam e repetem o que o governador manda, e criminosos televisivos que durante a tarde e a noite defendem execuções sumárias e destilam discursos de ódio, encampados pelo direito de "liberdade de opinião", que não são opinativos (são criminoso), nem são livres (porque passam longe de ser democráticos). Datena, serviçal de uma das famílias midiáticas brasileiras que rasgam as leis sem pudores, certa feita já nos ensinou que a causa da criminalidade é não acreditar em deus - de onde pode-se deduzir que crianças mortas nas favelas são ateus, enquano Eduardo Cunha não é criminoso. Sargento Fahur, da PM do Paraná, em qualquer país em que o Estado Democrático de Direito é sério, já teria sido afastado de suas funções - ou ao menos de dar entrevistas.
Que não seja para um ano ou dois a redução da minoridade penal, o discurso desses sacripantas televisos, religiosos e políticos é de uma perversidade pouco notada, mas de efeitos reais. Uma professia auto-realizável, dada a força dos setores que a defendem. A justificativa pelo encarceramento de crianças e jovens tem dois argumentos: eles seriam conscientes de seus atos e, conforme a lei atual, eles poderiam praticar crimes impunemente. Quanto ao argumento da consciência, esses senhores ilustrados são de uma desfaçatez vergonhosa; ou então falta eles serem conscientes da realidade social, saber que uma pessoa não se faz sozinha, mas a partir das suas relações - o que não implica em concordar com certa esquerda-Peter-Pan, para quem a condição social é habeas corpus suficiente para crimes. Já no argumento da impunidade eles demonstram sua perversidade.
Ao dizer em rede nacional, em horário nobre, que menor de idade pode cometer o crime que quiser que não é punido, além de ser mentira - por mais que o menor não seja escalado para ingressar o PCC, ele sofre punições, inclusive de privação de liberdade -, esse discurso, repetido diuturnamente faz com que muitas crianças - sem plena consciência de seus atos - acreditem nele e passem a cometer crimes, crentes de que "não serão punidos". Ao repetir o discurso da impunidade, Datena, Cunha, Sgto. Fahur e afins estão, na verdade, chamando jovens e crianças para o crime: "você, jovem que ainda não completou dezoito anos, que sabe que nunca será nada na vida, aproveite agora e tente ganhar dinheiro rápido pra ser alguém. Mas venha logo, antes que você cresça e a polícia te prenda!". Não é difícil jovens de formação muito precária, sem perspectivas, sob o bombardeio da publicidade e do consumismo, se deixarem encantar por esse canto da sereia. Como não são Ulisses atados ao poste, se afogarão.
Ouvi dizer que nas UPPs do Rio de Janeiro, a exemplo do que ocorre nas periferias das grandes cidades brasileiras, o governo distribui balas para crianças - quareta milímetros. "Quem não reagiu está vivo", explica o governador Alckmin.


12 de outubro de 2015.


Bandido bom é bandido morto. Mas só quando o bandido é o Outro.


domingo, 20 de setembro de 2015

O centro de São Paulo não é violento

Em abril deste ano, fomos eu e uma estrangeira que também estagiava no Teatro da Vertigem comer algo depois do estágio. Dado momento conversamos sobre a violência no Brasil, em especial São Paulo. Eu discordava e tentava desmontar a afirmação senso-comum de que o centro de São Paulo é violento e perigoso, ainda mais à noite. Que não seja tranqüilo, ok, mas não é para tanto. Fui elencando meus argumentos, ela ajudou com exemplo vivenciado no dia anterior quando, na Vila Mariana, ao quase ser atropelada ao atravessar a rua ("eu estava na faixa e ele estava virando a esquina", ela argumentava, desconhecedora que diante de uma vaca sagrada só outra vaca sagrada tem poder, nunca o pedestre), seu amigo batera no carro para que ele parasse e acabou apanhando do motorista, que tão valente quanto desceu do carro fugiu a seguir. Ao fim da minha argumentação, me dei conta, estarrecido, do quanto eu tinha razão sobre o fato do centro de São Paulo não ser muito violento, mas para ter essa razão o quanto não naturalizei toda sorte de violências quotidianas - que me chocam e me indignam, mas passam, como as chuvas de verão e as secas de inverno. Diante da violência geral, de cima a baixo na sociedade, a violência do pobre contra o rico ("passa o dinheiro") é só mais uma - e das mais leves: das entradas de serviço à proibição de certas classes de pessoas em locais públicos, da ofensa de classe, cor, orientação sexual, gênero ("pobre favelado", "preto", "viado", "homem de peruca"), à invisibilidade de toda uma classe de sub-pessoas (as "pessoas marrons" tratadas pela Eliane Brum [http://j.mp/1hbvAXT], serviçais da segurança, da faxina, do dia-a-dia que acontece sem que a classe-média ilustrada precise pensar nisso), quando não à aniquilação física ou emocional dos mais fracos (pobres, pretos, periféricos, mulheres, desviantes). Lembrei desse diálogo - que desde então queria transformar em reflexão, e não foi desta vez - por conta de um trecho do livro 1Q84, do japonês Haruki Murakami, que dá um pouco a medida do descaminho da violência destes tristes trópicos:
"- Acho que temos muita coisa em comum, não acha?
- Acho que sim - concordou Aomame. 'Mas você é uma policial e eu mato pessoas. Estamos em lados opostos da lei e isso certamente nos torna muito diferente', pensou". (1Q84, p. 201)
Uma policial e uma assassina: em "lados opostos da lei" porque uma mata pessoas e a outra, não. Pelas nossas leis, esse diálogo poderia ocorrer no Brasil, mas é sabido que soaria totalmente irreal. Sob aplausos de uma classe-média que não pensa e pedidos de "quero mais" e "tem que matar" de apresentadores de tevê tão criminosos quanto os pretensos criminosos assassinados por criminosos fardados de policiais, que agem com o beneplácito do governador Alckmin - PMs que assassinam até com mais frieza que os  pretensos "bandidos".
Deveras: se formos tratar violência como algo extraordinário que irrompe em dado local contra determinadas pessoas, São Paulo não é violenta. Mas se formos tratar por "violência" toda forma de violência, não a encontramos só no centro "degradado", na Cracolândia: São Paulo - a exemplo do Brasil - é violenta nas periferias, nos bairros nobres, nas ruas, nos edifícios privados e nos prédios públicos. É violenta na avenida Paulista tanto quanto na avenida Duque de Caxias. Cidade Tirandentes, Jardim Ângela, Jardim Europa, Pinheiros (e seu fetiche classe-média, Vila Madalena): impossível caminhar dez metros sem se deparar com uma violência - qualquer que seja. Quem enxerga só um lado da violência é porque compactua com o outro. Infelizmente, a maioria parece enxergar só um dos lados.

20 de setembro de 2015.

Favelas são uma violência - tolerada e naturalizada. As favelas auto-inflamáveis durante a gestão Kassab, então. Mas não é isso que torna São Paulo violenta para uma parcela da população.

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Mariposas, flores, jardineiros e os ventos da morte a cultivar a vida [diálogos com a dança]

O corpo nu, de costas, sob a luz fraca, não permite identificar de início se se trata de homem ou mulher. E a questão principal ali está para além de gênero: temos uma pessoa, um corpo humano. A baixa intensidade da luz cria relevos inusitados no corpo que se retorce. Em certos momentos, o corpo em seu lento mover se deforma - ainda assim, o que há ali, em seus relevos desconhecidos, em sua deformidade, é um corpo humano. Em Uma batida de uma borboleta, Maki Watanabe diz querer dançar como uma mariosa girando em torno de uma lâmpada. O corpo tenso e teso, em agonia, me faz perguntar: seria em volta da luz da Little Boy que Watanabe dança? Ou a referência é pesada demais, e posso ser menor, mais mesquinho, e pensar que a lâmpada que mariposamente giramos em volta não precisa ser de uma destruição instantânea, pode ser do nosso quotidiano baço e banal, feita de brilhos artificais que não nos levam a lugar algum?
Estou no Centro de Referência da Dança de São Paulo, no Viaduto do Chá. É minha segunda experiência com Butô. A primeira, Sankai Juku na imensidão do teatro Alfa, me fez perder algo desse caráter minuciosamente humano que Watanabe e Zaitsu me trazem e me tocam.
Na segunda metade, Gyohei Zaitsu me emociona com seu Uma flor sem nome. Mesmo sem ter lido o programa, é perceptível notar como morte e vida convivem naquele corpo que se apresenta sem gênero - ou com todos os gêneros -, sob a luz inicialmente tênue. Morte e vida, destruição e renascimento, devastação e esperança. Em terra devastada, aquele corpo se faz esperança - de inicio, a esperança parece renascer à custa de lucidez. Vale a pena a esperança quando não há sequer solo onde ela possa brotar? me pergunto. Zaitsu defende que sim: a flor a desabrochar - e o que parecia loucura se transforma em realidade. Não é a flor de Drummond, não se deve parar tudo para vê-la surgir no asfalto, porque não há mais asfalto, e é de se questionar se há ainda alguém para poder observá-la. É uma flor e nada mais. Em torno, os seres invisíveis, as almas perdidas, e o jardineiro esperançoso orgulhoso de seu cultivo. Diz o programa: "O vento sopra da terra da morte/ O ar está repleto de seres invisíveis e desconhecidos/ Nele, as almas estão perdidas tranqüilamente/ Nutrindo a loucura de uma flor desabrochando.../ Uma flor se desabrochou graças a todos os cadáveres...".
Saio do CRD com uma frase lancinante que minha mãe falou pouco tempo atrás: "a gente não morre de uma vez, a gente vai morrendo aos poucos. Viver é morrer aos pedaços". Depois desses dois espetáculos, interrogo: para além da morte, o que há? E penso que talvez morrer seja renascer em terras até então aparentemente áridas e estéreis, das mãos de um jardineiro aparentemente louco.

18 de setembro de 2015.

agradeço ao Luis F. pelo convite para a dança!


terça-feira, 15 de setembro de 2015

Uma conversa na portaria do prédio

Vida de porteiro em prédio de classe média de São Paulo não é fácil. Além de ganhar pouco, ouve muito - de que ganham demais (miseráveis mil reais por mês) pro pouco que trabalham a todo tipo de doutrinamento dos moradores que se crêem ilustrados. Mas a coisa começa a assustar quando o porteiro assume esse discurso classe-média-fascista - o que não é difícil, visto que os moradores que se crêem ilustrados não fazem nada mais que repetir sem qualquer mostras de reflexão Datena, Rezende, Bonner, Sheherazade e "formadores de opinião" afins.
No meu prédio há um senhor que volta e meia está parlando seu discurso fascista aos porteiros que, presos pela profissão ao pouco espaço que possuem, não têm como fugir de tal vilania (esse mesmo senhor era sempre simpático e educado comigo, até a vez que, na frente de sua platéia, peguei meu jornal e não aceitei sua verdade de que tudo de ruim é culpa do PT, lembrando-o que havia também uma crise internacional, que se arrasta desde 2008, não me cumprimenta mais desde então, numa clara mostra de apreço pela democracia e pela pluralidade de opiniões).
Hoje, o porteiro da tarde - que, apesar de pernambucano, tenta ser um bom paulistano imitando aqueles que dizem que nordestino (ele) é quem estraga São Paulo - conversava com outro morador - branco, claro. Falavam mal do Haddad e dos novos limites de velocidade na cidade - medida que tem como objetivo (alcançado, conforme primeiros levantamentos) diminuir os acidentes automobilísticos e permitir que o trânsito flua sem percalços. O porteiro dizia que agora tinha que ir devagar na Marginal - ele tem uma moto - e, pior, se acelerasse além do limite, tomaria multa - "esse governo petista só quer ganhar em cima do povo". Eu, já com vontade de chorar, me segurando para não intervir, pensava "obra pro povo é oito bilhões de reais para não despoluir o rio Tietê, é ponte e viaduto superfaturados, é trem superfaturado, é novas pistas da marginal a preço de trilho de metrô, é conta no HSBC da Suiça", quando intervêm o morador: "e o pior, eles dizem que na Marginal tem muito atropelamento. Mas quem é atropelado? Mendigo, drogado, ambulante." Espero pela conclusão do raciocínio, mas o raciocínio está concluído, a ponto do porteiro concordar: "é isso mesmo!". O elevador chega, adentro querendo sumir logo dali. Ainda escuto o morador reclamar "aí somos nós que pagamos a conta". Contra minha vontade, deve me incluir no grupo dos "somos nós", esses que perdem velocidade por causa de vidas que não valem nada.

15 de setembro de 2015.

Malditos pedestres (que resolvem dirigir).



quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Brasília de poucos contatos humanos [Diálogos com a dança]

O branco domina espaço, luzes e roupas, alguns detalhes em cinza evitam a monocromia - e também a monotonia. Os bailarinos são sincrônicos nos movimentos - mesmo que em sentidos diferentes. Sincrônicos e sem contatos. Os raros momentos de encontro entre os três são marcados também pela música "normal", com ritmo e melodia identificáveis - no restante, o que predomina são ruídos eletroacústicos. Vinil de asfalto, espetáculo de Edson Beserra, se propõe a dançar Brasília, e, sem inovar, soa feliz no seu intento. Consegue ser bonito e delicado - com uso de certa linguagem consagrada na dança, sem soar virtuosista -, captar algo da Brasília - típico de qualquer grande cidade baseada em asfalto e concreto -, e apresentar faltas da cidade: a monumentalidade anti-povo, anti-gente, anti-humano, típica da arquitetura modernista de Niemeyer - arquiteto pouco afeito a pessoas, e menos ainda à pólis e à política -, que garante o fluxo e impede encontros, que mantém a ordem e evita contatos. Conceitualmente convidativo, existencialmente árido - de uma aridez que não dialoga com o cerrado ao redor, uma aridez fria, branca, das teorias desprovidas de humanidade -, eis a Brasília sugerida por Vinil de Asfalto. Entretanto, ambos - a cidade e a coreografia - insistem em ser mais que fluxo ordenado, a monotonia monocórdia do poder autocrático: há encontros, há raros momentos em que se aproveita para que entre corpos haja mais que espaços vazios - ou, se preferir, há raros espaços em que se aproveita para que entre corpos haja mais que momentos vazios. Há convite ao diálogo - esse aspecto da sociabilidade moderna tão em falta no mundo atual. O espetáculo ressalta a pertinência de ocupar ao enfatizar o volume dos corpos dos três dançarinos - reforçado pela iluminação preponderantemente feita de contra -, e mostra o ocaso que talvez esteja à nossa vista, mas não enxergamos, ao apresentá-los como sombras de si próprios diante da cidade banal que é projetada ao fundo. A tensão é tênue, fácil de se desfazer na imensidão pastel da Esplanada dos Ministérios, mas importante para que não se esqueça que há homens e mulheres em meio a todo o concreto asfalto lobby e poder da capital federal.

10 de setembro de 2015



sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Certa crise na esquerda: reflexo da precariedade da direita

Quando eu era ainda aluno de graduação da Unicamp, costumava ter idéias tidas por fracas, perigosas ou mesmo conservadoras por meus amigos de então - os quais se afirmavam convictos esquerdistas revolucionários. Não sei como estão hoje esses amigos, se já chegaram no "estágio evolutivo natural" de achar que ser de esquerda é coisa para jovens, ou se ainda se consideram revolucionários - desde que não mexam no seu status quo -, mas tenho a impressão de que algumas de minhas idéias de antanho não apenas não eram perigosas como eram necessárias; e se não eram revolucionárias, tampouco eram conservadoras, dado o estado da arte política no Brasil. Fui bastante execrado quando levantei a questão da necessidade de uma direita inteligente e bem embasada na realidade para a própria garantia de uma esquerda também inteligente e bem embasada. Para a maioria dos acadêmicos de esquerda do IFCH-Unicamp (e não estou falando somente dos então alunos) desejar qualquer coisa que não a aniquilação da direita era coisa de conservador, e assim fui taxado.
Vinda mais de uma leitura heterodoxa do Groucho-Marxismo do Bob Black que de algo mais embasado, como Hegel, eu defendia (ainda defendo) que dentro da arena da democracia liberal burguesa, os rumos da esquerda e da direita são dados antes pelo próprio embate entre essas forças adversas - mas não antagônicas -, que por um desenvolvimento interno dentro de cada campo, independente desse diálogo - ainda que o desenvolvimento interno seja importante. O que tínhamos então era uma esquerda teoricamente robusta, mas não raro carente de um pé na realidade - vejo a adesão petista à Realpolitik como conseqüência dessa precariedade de "princípio de realidade", mal que o PSOL me parece sofrer também -, e uma direita reacionária, com um pé na realidade e o outro no pior do nosso passado, papagaiando teorias alienígenas para justificar posições injustificáveis mesmo diante de um olhar de direita. Se uma década atrás, pouco mais, na esquerda tínhamos intelectuais do porte de Marilena Chauí e jornalistas do naipe de Maria Inês Nassif e Jânio de Freitas problematizando o debate, na direita, Vinícius Torres Freire e José Alexandre Scheikman eram espécimes raros de uma direita pensante com voz na Grande Imprensa. Nesse ínterim, a esquerda, a duras penas, tenta manter certo nicho e nível nessa imprensa, enquanto a direita mantém e amplia: na sua maioria, ela era e continuou sendo representada por "formadores de opinião" torpes e limitados. Paulo Francis e José Guilherme Merquior foram substituídos por Leitões, Ronsenfields, Jabores, Mervais e Cantanhêdes da vida, que acabaram abrindo espaço para figuras lastimáveis do porte de Marco Antonio Villa, Nelson Ascher, Luiz Felipe Pondé e Demétrio Magnoli - grandes intelectuais não-pensantes -, os quais trouxeram à vida Olavo de Carvalho e toda essa trupe de apedeutas microcéfalos que são indignos de terem os nomes citados aqui - peço desculpas pelos termos, sou contra predicados agressivos no debate político, mas as referidas figuras de direita não promovem qualquer debate, muito menos político.
A esquerda, se ainda vinha conseguindo manter o nível - descontado sectários extremistas -, não conseguia chamar a direita inteligente ao debate - ou ela não tinha o mesmo acesso à Grande Imprensa que seu colegas submissos (aos patrões) e agressivos (com os diferentes). Ao fim de anos nessa situação, e com o advento das redes sociais, que "exigem" respostas imediatas (seria a internet a versão pós-moderna da Caixa de Skinner?), a esquerda começou a sucumbir à burrice que lentamente mas incessantemente tomava a Grande Imprensa. Chauí se retirou do debate, tamanha a vileza da imprensa corporativa - Folha com especial destaque - sobre o que ela dizia; Paulo Henrique Amorim se tornou um caricato paranóico, meio de esquerda, meio petista, que vê o golpe em marcha em cada esquina; o site Brasil247 (com o qual não perdi muito tempo) surgiu como versão da "esquerda" alinhada ao PT para a Folha - ou seja, uma pré-Veja, com muito viés para pouca informação. 
Outro site de esquerda que vai pouco a pouco aderindo ao conceito de "reflexão zero" é o Diário do Centro do Mundo, do jornalista Paulo Nogueira. Acompanho há tempos o DCM e não há como não perceber a ladeira que Nogueira se mete. Ainda assim, apesar das reiteradas e cada vez mais comuns derrapadas, ele próprio tem ficado acima do debate proposto pela direita brasileira. Seu site, em compensação, na ânsia de ser crítico apenas reforça aquilo que gostaria de combater, e vai aos poucos minando sua credibilidade. A ênfase dada pelo DCM para figuras medíocre e dispensáveis - a não ser quando realmente falam alguma atrocidade - é espantosa: não teria nada importante pra informar, nenhum assunto ignorado pela Grande Imprensa que mereça atenção (violência policial, violência do crime organizado não-estatal, exclusão social, especulação imobiliária, corrupção fora da esfera federal, etc), para tanto repisar em sub-notícias sobre o ex-músico João Luiz, o "humorista" Danilo e o economista (é esse o nível da academia tupiniquim?) Rodrigo?

João Luiz, admito, é um caso que me deprime: fui fã dele, e ainda acho a seqüência de
discos em fins do século passado, início deste, excelente - até se afundar num acústico pasteurizado de quinta categoria, junto com o qual mudou seu discurso. Note a diferença entre países: enquanto na Austrália, Malcolm Young, ex-guitarrista do AC/DC, uma vez diagnosticado com demência é colocado sob os cuidados recomendados, no Brasil, João Luiz ganha coluna na Veja e passa a se anunciar como salvador da pátria e uma das únicas consciências lúcidas do país. Que interesse, que contribuição ao debate traz saber que ele teve cinqüenta espectadores num show ou que falou mal da Dilma em outro? Serve para inflar o ego em frangalhos do caquético senhor ao promover estardalhaço com subnotícia de subcelebridade subpensante de direita fascistóide - um fantoche que repete o que lhe sopram no ouvido e é insignificante para essa direita que ele hoje defende. DCM dá mais importância a ele que a própria Veja: é isso o jornalismo de esquerda?
Danilo, esse sempre foi deprimente. Seu ponto alto da carreira, pelo visto, foi seu primeiro quadro, "repórter inexperiente", no CQC do Tas (não confundir o este inescrupuloso reacionário em tempo integral com a Zona Autônoma Temporária, por favor!), creio que o que de melhor vi no programa (tinha amiga que insistia em me mostrar porcarias), que dá pra falar que é "ok" (CQC sempre me soou, nos seus melhores momentos, humor de segunda categoria, e para além do humor nem isso [http://j.mp/cG2010421]). Danilo ainda exige uma atenção maior, reconheço, visto que preconceito e incitação ao ódio são duas características marcantes do seu "humor", e não convém deixar que esse tipo de pensamento seja alardeado como natural e até mesmo benéfico - há quem diga "inteligente". Daí para noticiar que ele fez piada falando que ganhava um salário de dezesseis milhões de reais é dizer que o tempo dos leitores do site não tem valor algum e qualquer porcaria deve ser jogado na sua linha do tempo do Fakebook. É isso a esquerda crítica?
Rodrigo, sobre esse não me alongo - seria alguém completamente irrelevante em um país sério. Parece que seu momento de glória foi a resposta recebida da Miriam Leitão - até ela conseguiu não ter paciência com suas patifarias. O que vi de mais inteligente da sua parte foi uma foto abraçado com o Pateta, na Disney. Qualquer vírgula que não seja extremamente necessária dada a esse sujeito é desvalorizar a si próprio. E por que DCM gosta tanto de dar audiência a alguém assim?
Por fim, a cereja do bolo do DCM, que me deixou indignado e me motivou a escrever estas longas, enfadonhas e contraditórias linhas sobre a necessidade de não se escrever sobre o que, no fim, estou escrevendo. O Diário do Centro do Mundo não é um site que se propõe ao contraditório dentro dele: ali se apresentam versões alternativas à Grande Mídia, ao discurso conservador, mas evita-se estimular qualquer debate dentro do seu domínio, nem entre esquerdas, muito menos entre esquerda e direita. É uma escolha do site, explícita, legítima. Na minha opinião, o site perde, mas não é por isso que se torna ruim - inclusive, em dadas situações pode ser necessário esse radicalismo, visto o poder desmesurado do outro lado da Ágora política contemporânea (ou do que restou dela com a internet). Dada essa característica, não penso ser desonesto de minha parte imaginar que o que se publica ali é referendado por Paulo Nogueira.
Dia 8 de agosto, eis outra subnotícia - no caso, uma subanálise - sobre o ex-músico João Luiz. A autoria é de Moisés Mendes, do diário Zero Hora, de Porto Alegre. Informa ele que um show do ex-músico foi cancelado - ele se recusara a cantar para cinqüenta pessoas - e analisa sua postura política e artística atual. Pelas tantas, solta o analista: "Outra coisa que Lobão não sabe é que não há arte de direita [...]. Artistas que se dedicam a espinafrar governos são, de fato, os que produzem o melhor humor. Mas isso não significa 'arte' de direita, que raramente funciona, no humor ou na música. A transgressão nunca será produto de reacionários. Não há no mundo um caso de humor direitoso de qualidade como o pretendido por Lobão e sua viola. Quem discordar deve apresentar provas" [http://j.mp/1EJ42z5]. Repito o que destaquei: NÃO HÁ ARTE DE DIREITA. O senhor Mendes - assim como os editores do DCM - demonstram com isso um repertório assustadoramente limitado! Em parte concordo: não há arte de direita, assim como não há arte de esquerda: o que há é arte! Porém, como o texto quer conciliar arte e política, impossível não discordar que não haja arte de direita. A pedidos do próprio, apresento algumas provas que me vieram rapidamente - é discutível se são geniais ou apenas bons, mas são artistas maiores, sem dúvida. Salvador Dali. Jorge Luís Borges - que no seu conservadorismo mais reacionário faz a gente pensar e repensar nossa postura diante do mundo. Mario Vargas Llosa e seu A guerra do fim do mundo. Ou, para ficarmos no Brasil, chega a ser covarde comparar a qualidade literária e a capacidade de perturbar nosso comodismo por parte de Nelson Rodrigues com a literatura fraca e previsível de um Fausto Wolff (certa feita encarei seu À Mão esquerda, após ler que era um dos principais romances da esquerda do Brasil. É melhor que CQC, sem dúvida, mas mais proveitoso é ir passear no centro de São Paulo e no Ibirapuera).
Esse tipo de generalização é um golpe a mais na política, tentativa de assassinato, e a ascensão da burrice e de totalitarismos. Corriqueiro na direita que domina as comunicações do Brasil, vai tomando também a esquerda, para além dos extremistas sectários. Esfaquear, bater, matar, aniquilar passa a ser a única possibilidade de diálogo a quem nega qualquer qualidade e qualquer capacidade ao campo oposto - afinal, se não há arte de direita, nada mais lógico que queimar quadros, livros, discos e, por que não, pessoas de direita. É um pensamento posto em prática pela direita no mundo, durante o século passado, e tem sido revivido neste últimos tempos (não só no Brasil, assustadoramente), sem dizer realmente seu nome, para não mostrar o que realmente querem - esse pensamento prima pela desonestidade e ameaça.
Encerro esta longa crônica para dizer que há, sim, resistência à burrice galopante, ao menos na esquerda, campo que me identifico e que acompanho com mais afinco. DCM caminha a passos largos para o lixo, mas ainda não está condenado a ser outro peão acéfalo nessa disputa de fígados que é nosso debate político. Vladimir Safatle tem assumido com consistência a voz que tenta fazer a ponte entre a torre de marfim tupiniquim e o mundo real em que nem criminoso nem polícia são ontologicamente "do bem" - ainda que às vezes derrape em falta de contato com o chão. Azenha com o Vi o Mundo [http://j.mp/1JxSllW], Nassif com seu blog [http://j.mp/1KAKLSh], o recente site Brasil em 5 [http://j.mp/1hyk1ek] - que conta com a participação do cada vez mais imprescindível Guilherme Boulous, alguém que realiza na práxis a intersecção entre teoria e prática - e, principalmente, o hebdomadário Carta Capital [http://j.mp/1NAInQB] ainda se negam a adentrarem a latrina geral que tem tomado conta do cenário político atual.
Resta ainda a lacuna na esquerda de refletir efetivamente - em ato -, sem achar que possui uma resposta teórica capaz de dar conta da "infinitude do real", e sem capitular à mediocridade geral, simplesmente porque só sabe trabalhar na chave do tudo ou nada. Boulos, como disse, é um nome importante nessa frente. Faltam outros. Falta o Outro com quem debater.

21 de agosto de 2015

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Grupo Corpo, 40 anos: que venham logo os próximos! [diálogos com a dança]

Conheci o Grupo Corpo há cerca de quinze anos, e me tornei fã de imediato. Mais do que isso: foi com o Grupo Corpo que me tornei apreciador de dança contemporânea - a que muito assisto, quase nada entendo (mas mesmo assim palpito) e há pouco pratico. A companhia de Belo Horizonte tem um nível técnico que salta aos olhos - mesmo leigos -, e não se contenta em seguir caminhos fáceis, de garantida aprovação do público - ainda que seja perceptível a linguagem de Rodrigo Pederneiras, coreógrafo do grupo (certa feita assisti a uma apresentação da São Paulo Companhia de Dança, sem saber que uma das coreografias era dele, e ao verificar no programa, ao fim do espetáculo, me surpreendi em ter reconhecido o que achei que era somente "influência" dele). Me pergunto se, alcançado esse nível, e com toda essa história, algum dia o Grupo Corpo produzirá um espetáculo de qualidade questionável - como grupo que se arrisca, há altos e baixos nas suas obras, mas os pontos baixos ainda são de um nível excepcional. Esse prolegômeno todo para relativizar minha afirmação de que saí um tanto decepcionado da apresentação das comemorações pelos quarenta anos da companhia, Suíte Branca e Dança Sinfônica. As duas coreografias - inéditas - apresentadas no programa são boas, bonitas, mas eu esperava mais - reconheço uma expectativa excessiva pela comemoração da data redonda. Me pareceu faltar a elas certa dose de tensão que pusesse o coreógrafo - e o público - em um ponto incômodo, um quê de estranhamento, de conflito. São espetáculos comemorativos e são fiéis à acepção positiva que domina o termo ultimamente: alegres, leves, festivos, harmônicos - isso não deveria ser ruim, eu sei, e talvez não seja, mas a mim decepciona um pouco.
Adeptos de uma estética que tenta trabalhar com pouco e disso extrair muito - a luz simples e de recortes precisos em cenários e figurinos elaborados mas reduzidos ao necessário -, tanto Suíte Branca quanto Dança Sinfônica radicalizam no pouco, mas não logram chegar no muito. Na verdade, invertem certo padrão do grupo, e recorrem a desenhos de luz que parecem tentar preencher o que figurinos e cenários mínimos não dão conta de transmitir.
Suíte Branca inova por não ser uma coreografia de Rodrigo Pederneiras - pelo que pude verificar, a quarta apresentada pelo grupo, sendo a última, de Suzanne Linke, em 1989. Assina-a Cassi Abranches, cria da casa, bailarina do grupo por doze anos. É praticamente uma coreografia-homenagem a Pederneiras, tão evidente é a influência deste. Bailarinos de branco, sobre chão branco, diante de um fundo branco - que remete a papel amassado - e sob luzes brancas. Ao leigo que aqui escreve pareceu um espetáculo com alta dose de exigência técnica, dançada com maestria pelos bailarinos. O excesso de técnica, contudo, não oculta o que parece ser uma falta de propósito - de "alma", como comentou a amiga que me acompanhava. Dançam bem, são muito técnicos e causam impacto sem maiores firulas, mas a que dançam? E por falar em impacto, mais que a técnica, o que me impressionou foi o belo efeito produzido pelas luzes laterais incidindo sobre os bailarinos, que dão a eles algo como luz própria, ao provocarem reflexos sob seus corpos (quando estava apenas um bailarino no palco, cheguei a achar que estivessem usando canhão a baixa intensidade, mas quando entraram os demais, vi que tecnicamente não fazia sentido dois canhões por dançarino). Ou, então, quando os dançarinos, enfileirados lado a lado diante do público, sutilmente vão e vem com seus corpos, produzindo diferentes luminescências do "cenário" ao fundo.
Menos homogêneo nos elementos de palco, Dança Sinfônica - essa, sim, de Pederneiras -, causa impacto de cara, mas parece perder vigor no correr da coreografia. Entram dançarinos de preto, caminhando de costas, sustentando dançarinas de vermelho - em pé. No palco, as pernas da caixa preta substituídas por tecido vermelho e luz quente sob intensidade baixa. Apesar da alta verticalidade, há um peso no gesto. Esse peso, contudo, vai se desfazendo no correr do espetáculo, que, diante de Suíte Branca, abusa de movimentos do balé - pode ser fruto de minha ignorância em dança, mas Cassi me soou mais Pederneiras que o próprio. Dança Sinfônica também é menos harmônico: um elemento branco - frio - surge em meio ao quente vermelho e negro. A bailarina destoante no figurino permite mais facilmente uma leitura ao público mais simples (no caso, eu) - numa chave de diferença-tentativa de assimilação-reafirmação e aceitação do diferente, por exemplo -, mas ainda assim, o clima geral é de harmonia, de diferenças que se entendem sem conflito.
Quanto às trilhas sonoras, elas também quebraram minhas expectativas. De Samuel Rosa, da banda Skank, que compôs para Suíte Branca, eu pouco esperava, mas o som que lembra Explosion In The Sky com toques Beatles foi do meu agrado e criou algo de uma leve tensão com todo o resto do espetáculo - não foi outro elemento de virtuosismo branco sobre branco. Já da obra de Marco Antônio Guimarães, do Uakti, teve um diálogo muito sincrônico com a coreografia, o que reforça minha crítica - sem contar que esperava mais por ser do Uakti.
Talvez minha impressão sobre as coreografias seja fruto de certo amargor que me acompanha e busco encontrar também na arte - ou então de querer achar discursos racionais em tudo, sei lá. Talvez tenha mesmo faltado uma faca no pescoço do coreógrafo, como em Triz. Ou talvez eu simplesmente não tenha entendido nada. O certo é que, dado meus precários predicados em dança, a "análise" acima é descaradamente apoiada em questão de gosto (se alguém quiser ter alguma referência, achei as duas coreografias do nível de Ímã, a que menos gostei até agora; sendo Breu Bach minhas favoritas). E, como digo no título, não deixo de esperar que venham logo novos espetáculo do grupo. De qualquer forma, apesar de tudo o que recém disse, são duas obras de grande beleza estética e que valem ser vistas!


13 de agosto de 2015

ps: para quem chegou ao fim desta crônica, sugiro a leitura de uma boa crítica das danças, dizendo o contrário do que falei acima. Por Helena Katz, "Os códigos sutis dos movimentos sempre renovados".

ps2: nas fotos, dois exemplos (pontuais) da beleza plástica das coreografias



quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Convenção de tatuagem

Convenção de tatuagem: eis um programa que nunca me passou pela cabeça, de modo que achei inusitado o convite. Na verdade, não fora bem um convite: perguntei o que ela faria à tarde, e respondeu que iria a essa convenção e, a seguir, ao show do Tetine. Fui ouvir Tetine, já que a tal convenção pareceu por demais longe do meu universo. Gostei do som, já me preparava para perguntar que horas nos encontraríamos, quando ela perguntou se eu a acompanhava nesse evento heterodoxo para meus padrões. Hesitei. Desde o início uma dúvida que me assomava: o que é uma convenção de tatuagem? Preferi conferir in loco, na esperança de uma crônica - e também pela companhia. Não sei por que cargas d'água eu imaginava algo meio feirinha - com venda de acessórios para a arte, pois minha amiga ia justo para comprar alguns instrumentos de perfuração e piercings -meio acadêmico - com mesas-redondas sobre o tema - , por mais que não me fizesse muito sentido colóquios sobre tatuagens. Também imaginava um sem número de pessoas cobertas o corpo todo por desenhos, e que o branquelo aqui, sem qualquer marca que não cicatrizes de tombos, seria um total estrangeiro no ambiente, identificável à distância. Difícil saber onde errei mais nos meus pré-conceitos. A começar que não havia mesa-redonda nenhuma - me precipitei em concluir. Minha amiga me explicou, depois, que havia, sim, uma série de palestras e workshops, freqüentados pelos profissionais da área, sobre técnicas de tatuagem e piercing, legislação e biosegurança - que o passeio só para ver tatuagens e estilos era coisa mais para o público em geral. De qualquer forma, como grande público, a tal convenção me lembrou muito as Expopato da minha pré-adolescência, com vários expositores de acessórios para modificação corporal e outro tanto de tatuadores em plena ação. Minha amiga - ela própria com umas quinze tattoos - tentava me mostrar os diferentes estilos e escolas de tatuagem, que eu pouco conseguia distingüir, salvo a de pontinhos e a hiper realista, como um cristo que levantava a sobrancelha quando o rapaz encolhia um dos ombros - o que me fez notar, já na convenção, que mesas-redondas sobre o tema são concebíveis, sim. Havia expositores que tinham seu trabalho filmado e reproduzido em telão, tantos eram os interessados. Outros, sem toda essa preocupação com os espectadores, deixavam o povo se amontoar em frente do estande (separado por vidro) para ver seu trabalho - num desses minha amiga explicou que era um bãbãbã, que usava vara de bambu e não o habitual aparelho com barulho de broca de dentista. E se o som de dentista imperava, apesar do batuque de uma escola de samba - outro dos meus preconceitos, eu imaginava punk rock, hardcore ou industrial de trilha sonora, não samba -, um dos estúdios que expunha montou o que parecia uma enfermaria de campanha, com várias macas nas quais pessoas ficavam imóveis enquanto mascarados se debruçavam sobre uma parte do corpo do paciente - tentei pensar uma crônica a partir dessa cena, de que guerra seriam aquelas pessoas vítimas, obrigadas a dupla tortura de dor e barulho de dentista, mas da qual saíam renovadas e felizes. No quesito visual, meu choque também foi grande. Havia, claro, pessoas muito tatuadas - da cabeça aos pés, literalmente -, outras com modificações corporais drásticas - como chifres implantados e brancos dos olhos tatuados -, mas eram exceções, a ponto de vários desses merecerem fotos dos muitos freqüentadores. A maioria que estava lá, se tivesse tatuagens, eram discretas ou sequer apareciam. Pessoas com piercings e alargadores, havia - inclusive um rapaz com dois alargadores no nariz, com quem trombamos tão logo eu havia comentado, estupefato, da foto que eu vira de um guarapuavano que tinha, bem dizer, quatro narinas, duas em cima, duas embaixo -, mas nada que destoasse da rua Augusta num sábado. E lá se foi outro pré-conceito meu quando minha amiga cumprimentou o tatuador do local onde ela trabalha: um homem na faixa dos quarenta anos, sem tatuagem aparente, com um ar de pacato funcionário administrativo (mas tinha algo de satisfeito nesse ar, se não de realizado, com seu trabalho). Outro amigo de minha amiga era um desses personagens com transformações corporais radicais - chifres, branco dos olhos tornados pretos, muitos piercings e tatuagens -, resultando num visual muito agressivo, e uma delicadeza no trato e na voz que eram ressaltados pelas contradições frente os pré-conceitos que este escriba, apesar de tudo, insistia - inconscientemente - em alimentar. No meio da convenção ainda tive tempo de ver a amiga que me passara o Fakebook da Nova Ruth. Lembrei da Misson, que seguidamente me dizia: "Dalmoro, no futuro você vai provar aos seus netos sua porra-loquice da  juventude ao mostrar não ter nenhuma tatuagem ou piercing". Do jeito que vai, parece que a Misson estava certa - ainda que eu critique minha mãe por ter tolhido meus desejos avant-garde de modificação corporal, quando eu tinha onze anos: queria eu pintar o cabelo e pôr um piercing no septo nasal, tal qual cruzei aos borbotões na convenção.

05 de agosto de 2015


quinta-feira, 30 de julho de 2015

Um café com a Nova Ruth

E não é que a Nova Ruth me respondeu? Mandou um texto muito bem escrito com uma "Receita para uma paixão platônica de sucesso". Meu coração brega quase não resistiu. Sua mensagem me fez lembrar a receita do Leminski para um bom poema - e aqueles bigodões do poeta me soaram exógenos na bela face da Nova Ruth. Tratei logo de esquecer o poema, Leminski e seus bigodes na Nova Ruth, e respondi fazendo alguns ajustes na receita e passando as duas novas crônicas em que ela era móbil. Ela achou as correções pertinentes e me chamou para um café - assim, na chincha. Quer dizer, na verdade ela me deixou escolher entre a "Caverna de Platônica Paixão" e o "Imperfeito Iluminado Mundo Real (a-crônico)". Claro que não hesitei em abrir mão da crônica - já pensava no nosso romance. Mas eu quis parecer difícil e disse que estava com a agenda cheia. Ela não se incomodou e marcou o café para a semana seguinte. Não achei que ela fosse se conformar tão fácil e tive que passar uma semana nessa angustiosa espera, que aproveitei para ensaiar como me aproximar, elenquei assuntos interessantes para a conversa e temas impertinentes, fiz para mim mesmo todas as piadas infames que ela me despertara, para não correr a tentação na hora - afinal, minha veia humorística ainda pulsa -, e até passei a roupa que ia usar (estréia do meu ferro de passar, comprado em maio do ano passado).
Enfim, o encontro com a nova Ruth!
Para não parecer ansioso, cheguei apenas dois minutos adiantado. Ela não estava. Me sentei no balcão, na última banqueta, e fiquei esperando. Com seis minutos de atraso ela chegou. Ah... a Nova Ruth, pensei. Se sentou do meu lado e fez seu pedido - a mesma simpatia radiante de dois meses atrás. Olhou para a porta, me ignorando solenemente. Não me deixei abalar, e pus em ação meu plano de aproximação: cutuquei-a e disse um oi com uma entonação mais tchã - se é que me entendem. Ela me olhou, disse um oi seco e se virou. Não imaginava que ela fosse se fazer de tão difícil. Insisti: Nova Ruth? Eu sou o Mick Jagger... Aí ela foi mais simpática: ah, oi! Nossa, nada a ver com a foto do seu fake. Senti ali uma ponta de decepção - ela diria mais tarde que não -, mas não desisti, e encetamos assim a conversa - muito boa, passado esse desconforto inicial, eu de ter que conversar com minha paixão platônica, ela de ter que conversar com seu apaixonado platônico. Papo vai, papo vem, notei que minha imagem platônica era quase perfeita diante da apresentação não-platônica. Apenas uma hora, pra me certificar se realmente acertara em tudo, perguntei se ela curtia Chrysta Bell e ela me respondeu que não era de curtir fossa, muito menos ficar ouvindo músicas pra se afundar mais; no resto, sei que acertei. Depois de longa conversa sobre assuntos variados, ela chegou nos finalmentes. Muito fofamente me disse que não gostava de se expôr e não tinha aspirações para ser sub-celebridade (não foi bem assim que ela disse, mas simplifico), e terminou com um golpe certeiro na alma deste cronista: caso ainda seguisse paixão, ela deixava de ser platônica, afinal, ela estava ali, na minha frente, e já até havíamos encostado bochecha com bochecha, logo, não cabia mais crônicas sobre a Nova Ruth. Fazia sentido e, como já comentei alhures, nada mais quebra-clima, quebra-paixão, do que uma contradição gritante - e o Segundos Analíticos ainda pulsa, eu parafrasearia Arnaldo Antunes. E fazia mais sentido ainda na medida em que uma coisa é Ruth, a balconista bochechuda e sardenta, de quem nada sei além disso; outra é a Nova Ruth, de quem, graças ao Fakebook, sei nome, sobrenome, onde trabalha, com quem anda, que festas freqüenta, o que fez no verão passado e coisas do tipo. Assim sendo, não tive outra opção que decretar o fim da Nova Ruth - mas, para não me deixar na mão, ela me indicou um encontro de ruivas onde posso tentar me deparar com a Nova Nova Ruth. Fiquei de pensar na indicação - haveria um balcão no encontro?
30 de julho de 2015

obs: a pedido da Nova Ruth, nomes foram ocultados









um bom poema
leva anos
  cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
  seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
  sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
  três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
  uma eternidade, eu e você,

caminhando junto

terça-feira, 28 de julho de 2015

Menos Odílio, mais Francisco, por favor [ou, praça da Sé, 28 de julho de 2015, 16h]

Enquanto o Papa Francisco anima progressistas dos mais variados matizes - incluídos os ateus - com o direcionamento que tenta dar à igreja católica, mais próxima ao povo e sensível às questões sociais, a igreja católica do Brasil - ou ao menos a de São Paulo - caminha na direção diametralmente oposta. Ainda fico a me questionar se os rumos ditados por dom Odílio Scherer são mera questão de vingança de um ressentido, afinal, ele foi preterido por um argentino (e, diria Nietzsche, nada mais cristão que ressentimento e vingança), ou se ele possui uma convicção verdadeira (fé?) no fascismo e nos ideais da Casa Grande.
Começo com um exemplo requentado. Não sei o quanto saiu do círculo dos filhos da PUC (como este que aqui escreve) ou do restrito círculo universitário, a polêmica em torno do veto à Cátedra Michel Foucault, na PUC de São Paulo, feita pelo arcebispo de São Paulo, Dom Odilio Scherer. Com o veto, a universidade - na qual estão dois dos principais especialistas do Brasil nesse seminal filósofo do século XX, Márcio Alves da Fonseca e Salma Tannus Muchail - pode ter que devolver os áudios com as palestras do francês, recebidas do Collège de France. O argumento: as idéias de Foucault não estão em consonância com os princípios católicos. Argumento bastante razoável, pensando na igreja da Idade Média. Inclusive, Foucault merecia ter ido para a santa fogueira por pelos menos dois bons motivos: pensar e ser homossexual. Como Foucault mortuus est, ainda se pode jogar seus livros na fogueira - ou ao menos seus heréticos áudios.
Admito, isso de início me deixou perplexo: teria a igreja católica brasileira complexo de ser sempre do contra? Quando no Vaticano estavam reacionários, a PUC-SP abrigava comunistas e ateus; agora que na basílica de São Pedro está um progressista que prega, dentre outras coisas, o diálogo com as outras religiões, a PUC-SP tenta excluir tudo o que soe minimamente desviante dos "princípios católicos" - o pensamento de Foucault ou os professores Peter Pál Pelbart, Jonnefer Barbosa e Yolanda Gloria Gamboa Muñoz [http://j.mp/1D6KSI4]. E onde fica a infabilidade papal para Odílio Scherer? Valeu de Pacelli a Ratzinger, mas não vale para Bergoglio?
Tive nova mostra da cara da igreja católica de dom Odílio na tarde deste 28 de julho.
Eu caminhava pela Sé quando avistei dois policiais militares levando um homem pelo braço. A cena me chamou a atenção pela estranheza da atitude dos militares: agiam com firmeza, mas não com a truculência que, via de regra, dispensam à (chamada) escória social. Pensei que talvez o homem tivesse sido apartado de uma briga com outros moradores de rua que estavam ali perto, mas o homem estava muito calmo para alguém que brigava, e o resto da escória social também - definitivamente, não houvera briga. Ele tentava argumentar com os militares, que apenas ordenavam que caminhasse um pouco mais. Não poderia ser algo relacionado ao metrô, pois para isso há a segurança da empresa. Passando mal? Se era intenção ajudá-lo (mas por que a polícia militar ajudaria um pobre, que não produz nem paga imposto?), por que o levavam com aquela firmeza e tantos passos?
Ao passar ao lado da catedral da Sé, minha dúvida é, ao menos parcialmente, sanada. Comenta o segurança da igreja com um grupo de pessoas, como se estivesse no púlpito, diante da cena que ainda se desenrola ao longe: "olha, olha o que eles vão fazer: levam até lá e soltam. Fazer só isso não adianta nada, logo ele volta...". Provavelmente o homem estava pedindo dinheiro ou havia entrado na casa de Cristo (que heresia!). Fiquei a me indagar o que o segurança da catedral da Sé queria que os policiais fizessem: prendessem-no por ser negro e pobre (e quer motivo maior que esses dois?)? Dessem uma "geral" das antigas, pra ver se ele aprende a não importunar os cidadãos de bem? Ou simplesmente "apagassem" o cidadão, que nada tem a contribuir com a sociedade (afinal, é sabido há longo tempo que o Brasil é esse país de segunda categoria por causa dos negros e nordestinos, incompententes para a vida civilizada, como atestam as recentes investigações sobre a corrupção)?
Bem, essa cena que presenciei talvez prove que, contrariamente ao que disse acima, dom Odílio Scherer siga os passos do papa Francisco: atento à questão social, não hesita em chamar a polícia militar para tratar dela, como sempre aconteceu nestes tristes trópicos; e quanto à proximidade do povo, apenas uma questão de definir povo: se for patriarcal, conservador, branco, heterossexual e com uma conta digna de entrar no ramo VIP dos bancos, a igreja católica e o reino dos céus está de braços abertos ao povo. Por fim, tolerância de pensamento é algo que Dom Odílio Scherer também deve visar: os que ele considera povo têm total liberdade de se expressarem, mesmo que isso possa parecer contraditório aos "princípios católicos" - como ser favorável à pena de morte e à violência contra minorias por serem minorias, por exemplo.
Talvez o papa Francisco seja um ponto fora da curva da história católica - e ainda não conseguiram enviá-lo para se retratar diretamente com deus. Mas nele eu tenho esperança - quase ouso dizer fé. Para o Brasil: menos Odílio, mais Francisco, por favor.


28 de julho de 2015.


Não basta emporcalharem a praça, querem ainda entrar na igreja?

sábado, 18 de julho de 2015

Gatos mágicos somem com toalha!

Logo ao acordar notei que faltava a toalha de chão que eu havia deixado secando na porta da máquina de lavar (parênteses: minha casa é "estilo londrino", conforme uma amiga que morou em Londres, isto é, a lavanderia fica no banheiro. Fecha parênteses). Não fui tomado por nenhum espanto com esse sumiço, sabia que era coisa da dupla com quem divido apartamento. Procurei no banheiro, não achei. Estranhei que tivessem arrastado para fora dele sem deixar qualquer marca, uma vez que a toalha estava bem molhada. No quarto, embaixo da cama, nada. Na sala, nada. Na cozinha também não, já que ela fica fechada. Encafifei onde os dois teriam enfiado a toalha - e como?! Busquei mais uma, duas vezes, nada. Sai para meus afazeres, perplexo da toalhar ter desaparecido assim: seriam meus gatos mágicos? Descartei que pudessem tê-la comido: era muito grande, mesmo que cada um ficasse com metade. Mais plausível que tivesse conseguido enfiar no canto onde somem bolas, canetas e outras coisas que dou pra eles - ou eles pegam sem eu dar -, apesar de toalhas não rolarem, ainda mais molhadas. Voltei para casa, me pus a buscar a dita toalha - agora, com mais calma, eu daria conta que estava na minha fuça, mas me passara despercebido. A contar que eu sabia onde estava minha fuça, a toalha não estava junto a ela. Nem embaixo dos móveis, nem em cima deles. Nem embaixo da colcha - vai que na pressa para arrumar a cama, não tivesse notado que eles tinham subido ela para meu leito. Gatos mágicos? Comecei a ficar preocupado: eventualmente tenho o sono bem pesado - já perdi concurso por ter desligado quatro despertadores sem acordar de fato -, e sonhei algumas vezes que eles haviam tentado (e conseguido) escapar pela porta - num dos sonhos Guile se atirava do corredor, quatorze andares abaixo. Seria eu sonâmbulo, e parte do que eu achava que eram sonhos se tratavam, na verdade, de fatos mal-percebidos pela minha consciência semi-desperta no meio do deambular dormente? Teria eu levantando à noite, aberto a porta, posto a toalha no lixo e voltado a dormir? Temi não só pelos gatos, como por mim mesmo! Outra busca pela casa, nada. À noite eu conversava com minha mãe pelo telefone, falava justo dessa preocupação que ia me tomando, de que eu fosse sonâmbulo nível hard, abrisse a porta de casa pela madrugada, perseguisse gatos fugitivos e jogasse toalhas no lixo. Ou seriam meus gatos realmente especiais? Foi quando abri a janela da sala para eles irem um pouco "fora" (os cinco centímetros entre a janela e a rede de segurança): a toalha estava no trilho da janela (e assim que se chama?): então lembrei! Eu havia posto ela ali durante a madrugada, quando começou a chover forte e com vento, para evitar que entrasse água no apartamento. A sensação de alívio, admito, foi enorme! Resumo da história: nem gatos mágicos ou comedores de toalhas, nem sonambulismo hard, apenas um lapso causado pelo sono e uma crônica sem graça.


18 de julho de 2015.

E o medo que eles tivessem levado uma toalha molhada pra cima dos meus livros?