sábado, 14 de fevereiro de 2015

Da vez que acordei morto

Isso nunca tinha me acontecido antes. É verdade. Foi neste carnaval, e o fato de ser em meio a essa festa é apenas uma coincidência sem qualquer significado. Eu ia de São Paulo a Pato Branco. Eram seis e meia da manhã, o ônibus chegara na garagem, em Ponta Grossa, para reabastecer e troca de motorista. Eu não sei com o que sonhava; sei que dormia gostoso, na profundidade que o excesso de estímulos me permitia: a música em meus fones de ouvido, tentando abafar a música que vazava potente dos fones de ouvido de meu vizinho de viagem - uma versão tampinha do Cássio, goleiro do Corinthians -, com quem eu tivera uma pequena disputa pela demarcação de território antes da viagem começar de fato; o ruído do motor, o barulho do ar-condicionado, a luz que entra de fora pela cortina escancarada; o foco de luz de meu vizinho, o Cássio baixinho, que parece ter medo de escuro, aceso; o pra esquerda e pra direita das curvas da estrada, e o próprio "balancinho do ônibus", como diz minha mãe - que me faz perguntar por que alguém paga para usar aquelas cadeiras massageadoras na rodoviária. Pois era esse o ambiente que me rodeava quando (soube disso depois, é claro) o ônibus adentrou a garagem, foi até um canto escuro, onde fica a bomba de combustível e o motorista desligou motor e tudo o mais. De repente me vejo privado de estímulos: há tempos a música havia acabado em meus fones e do meu vizinho, sem motor ou ar-condicionado, sem esquerda-direita nem balancinho, sem luzes de fora e de dentro, diante dessa escuridão silenciosa, desse silêncio escuro, acordo assutado: Putaqueopariu, morri! Ainda grogue de sono, abro os olhos, vejo onde estamos e me certifico que, apesar de por um instante achar que não, sigo vivo, sim. Mesmo com todo o alívio, uma sensação desagradável perdura.   

14 de fevereiro de 2015

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