segunda-feira, 25 de maio de 2015

A coreografia do poder - Sobre a Cisne Negro Cia de Dança e Trama [diálogos com a dança]

Querer representar um éthos nacional é um cipoal que deveria fazer com que qualquer artista pensasse e pesasse bem seu objetivo, a forma como fazê-lo e como apresentá-lo. Não a ponto de desistir, mas para evitar qualquer caminho batido, que ofusque o que a obra pode ter de positivo. Vale para qualquer país, porém creio que ganha ares ainda mais complexos no Brasil, cuja formação da idéia de nação está antes atrelada ao território que a um povo (Antônio Carlos Robert de Moraes faz uma interessante análise nesse sentido em Território e história no Brasil).
O coreógrafo Rui Moreira até teve cuidado na apresentação de seu espetáculo Trama, de 2001, dançado pela Cisne Negro Cia de Dança no CCSP, no penúltimo fim de semana deste maio. Ele trata de avisar no programa: "Neste Brasil mestiço, misterioso e mágico, todos os retratos são tendenciosos, parciais ou comprometidos". Como não podia deixar de ser, portanto, tendencioso também é o retrato que ele traça do "contagiante caminho da alegria neste País". Contudo, por mais que seja avisado da parcialidade, há algo no ângulo por ele assumido que merece uma maior reflexão.
Antes, um breve comentário sobre a primeira obra do programa, Sra. Margareth - excertos de "Monger", do coreógrafo israelense Barak Marshall - que reflete também minha atual opinião sobre a Cisne Negro (não sou um profundo conhecedor da companhia para fazer assunções mais peremptórias). Sra Margareth é um espetáculo bonito, engraçadinho, simpático, porém de um conformismo assombroso. Segundo o programa, ele "conta a história de um grupo de funcionários presos no porão da casa de uma patroa abusiva". O argumento do espetáculo abre uma ótima oportunidade para uma crítica sobre as relações sociais entre classes, sem precisar comprometer o humor das vivências retratadas. Oportunidade que é jogada fora não apenas na descrição recém reproduzida, como na própria peça: ao problema ser a patroa abusiva o caminho mais óbvio é deduzir que fosse a patroa boazinha, não haveria problemas: seriam os mesmos dez funcionários para servir uma pessoa, e isso seria harmonia social. Por sinal, não li na coreografia nenhuma prisão em porão: prisão, apenas a da fome: para comer é preciso trabalhar, e a Sra Margareth era impassível ao demitir as ineptas para servi-la (seria esse o seu abuso, exigir competência e eficiência?).
Sobre Trama, enfim. A forma como retrata a presumida alegria destes tristes trópicos, sem tensão e sem gênese, como se a alegria fosse um traço genético do Brasileiro - esse metafísico ente de nossa unidade nacional -, não apenas conta só metade da história: ela reproduz o discurso do poder. Não se trata sequer de retratá-lo - pois se retratasse esse discurso, teríamos uma crítica potente -, ele o reproduz, reforça, ilustra. Ele convida o público a se conformar.
Vemos corpos alegres, gingados, sedutores - a tal "malemolência" que um narrador (sic) de futebol adora atribuir como nossa característica-mor. De onde vem esse gingado? Para onde leva essa sedução? O coreógrafo passa ao largo de qualquer problematização. Tal qual a emissora oficial da ditadura civil-militar, Rui Moreira - e a Cisne Negro - tenta forjar uma imagem positiva do Brasil e do Brasileiro a partir do esquecimento e da inconseqüência. Será mesmo que vivemos num país em que a sexualidade é encarada com leveza, como diversão? Tenho sérias dúvidas, antes me vejo morando em um país repressor do corpo e dos afetos, muito longe de qualquer liberdade, de qualquer leveza: mais gritante que o padrão imposto e aceito de corpo, ditado pela mídia, é o fato de que tirar a roupa em público seja crime, por exemplo; ou que beijar em público seja considerado impudico, merecedor de reprimenda e insultos - e não atribuo isso à guinada conservadora que estamos presenciando, potencializada pelo crescimento evangélico. Terá o Brasileiro sempre esse corpo gingado? E sequer questiono se seria todo brasileiro assim, assumo que Moreira estaria retratando um tipo específico, "mais povo", o tal mulado-made-in-Brazil-for-export. Mesmo esse, teria essa tal malemolência em qualquer situação? Nas rotineiras abordagens policiais que presencio nas ruas de São Paulo - sempre contra esse Brasileiro típico -, me deparo sempre com corpos duros, rígidos, a cabeça baixa, nenhum sorriso.
"Ah, mas apesar de toda a precariedade do quotidiano, o Brasileiro segue sorrindo, segue feliz, segue otimista", poderia ser argumentado. E eu não discordaria, e sim questionaria: será que sorrir, tentar ser feliz, otimista, não é a forma que o tal Brasileiro achou para lidar com a precariedade de vida que o poder lhe impõe? Por que, então, não mostrar de onde ela vem, para onde ela aponta? Nada. O Brasileiro é feliz por natureza, e isso é o que importa, ponto.
Trama é a louvação do Brasil Grande da Ditadura, da unidade nacional feita da aniquilação das diferenças e dos diferentes apregoada ainda hoje pela Rede Globo. Trama antes de ser arte é propaganda.


25 de maio de 2015

quinta-feira, 21 de maio de 2015

A Nova Ruth na casa de mate

Quando mudei para São Paulo, início de dois mil e doze, tentei achar uma nova Ruth, a balconista, platônica paixão capitalista de balcão, da época de Campinas - série que, descobri este ano, fez mais sucesso que os três leitores que haviam se manifestado então [http://j.mp/cG111021]. Cheguei até a escrever um texto sobre a possível nova Ruth, a linda, simpática e cativante atendente da academia, única razão capaz de me fazer correr vinte minutos naquela chata e insuportável esteira. Contudo, antes que eu a publicasse (a crônica) a balconista sumiu, sem que eu sequer soubesse seu nome. Um duro golpe, admito. Antes dela, eu já tinha uma crônica quase pronta na minha cabeça sobre Camila, a moreninha da balada (e fã de Radiohead), porém antes de escrevê-la, antes mesmo de terminar de pensá-la, Camila a interrompeu ao fim do show a que assistíamos na Augusta, e me propôs algo mais interessante que escrever uma crônica. Ainda antes delas, houve outra pretendente ao cargo de nova Ruth, na verdade a primeira interessada - ou melhor, a primeira que me interessou para preencher os rincões platônicos de minha brega alma romântica -, a tal japa da tatuagem na testa (com a cauda de cobra no pescoço), que encontrei primeiro na galeria Olido, atrás de mim, na fila para a dança; a seguir, uma ou duas semanas depois, no MASP, na exposição do De Chirico. Um amigo até me deu esperanças, perguntando se era uma que andava sempre de preto, com piercings e tal, e diante de minha resposta afirmativa, constatou: "é o tipinho básico da galeria do Rock" - e eu achando que ele soubesse quem ela era. Enfim, já esperava o terceiro encontro - por que não naquela semana mesmo? - para coroá-la Nova Ruth, mas esse terceiro encontro levou mais de um ano: foi na quinta horror, a quinta seguinte à quinta terror, em junho de dois mil e treze. Ela bebia um mate defronte o cinema da Augusta, e eu passava com uma amiga - estávamos com pressa. Pouco depois, um, talvez dois meses depois, a vi novamente, no Municipal de São Paulo, sozinha como das outras vezes - eu quem estava acompanhado, novamente. Lastimei minha sorte - justo quando eu teria coragem! Depois disso, ela sumiu, e eu até havia esquecido dela, ocupado com meus tropeços nas calçadas tortas da vida e de São Paulo. Mas eis que hoje chego na casa de mate que sempre freqüento - está cheia. Um rapaz acabou de deixar seu lugar no balcão, findo sua refeição. Me achego, cumprimento Fabinho, peço o de sempre, pequeno. Olho então para o lado, uma garota de preto, vários piercings no rosto, cabelo raspado na parte de baixo e só com um pouco em cima - muito bonito o corte, ainda que pouco usual -, uma tatuagem de cobra no pescoço e outra que começa no lado da cabeça e termina no rosto. Seria ela? Ela olha para mim. A tatuagem na testa! É ela! É ela! A Nova Ruth! Ali, ao meu lado, eu desacompanhado, finalmente!, e ela... e ela está acompanhada... Tento ser discreto ao observá-la, como de costume - o que pode ser um equívoco meu, já me alertou uma amiga, esse excesso de discrição. Além de bonita, a minha impressão de sempre: que por trás daquele visual agressivo se esconde uma moça doce - que ouviria Chrysta Bell ou Radiohead, e não Atari ou emocore em momentos de fossa -, algo meio gauche, quase drummondianamente brega. Estão terminando seu mate, e logo se vão. Ela cumprimenta, muito simpática, o também simpático Fabinho. Bem, ao menos saberei o seu nome - para esta e futuras crônicas -, me consolo. Nada. Fabinho tampouco a conhece: "não sei, nunca veio antes", "ah, pela despedida, achei que viesse sempre", "não, é só simpática". Poxa, lamento: comigo ela nunca foi simpática, sempre fechada por trás de seus piercings, da tatuagem na testa e da impressão doce.


21 de maio de 2015


domingo, 10 de maio de 2015

Marilda G. [retratos feitos de memórias]

Não sabia perdoar. Assim como não sabia esquecer. Não sabia porque não queria. Não queria porque apesar de passado, é dessa matéria do tempo (ou seria da mente e dos afetos?) que se reconhece no presente. Não queria esquecer a infância de dificuldades, do labuta árdua do pai, do esforço da mãe, da maçã dividida entre as seis irmãs, do trabalho de bóia-fria em plantação de batata de japoneses, nas férias. Não esquecia também porque não eram lembranças ruins. Não queria esquecer a ascenção social que teve, a qual foi fruto de muito trabalho - mas também não queria esquecer que chegou aonde chegou por sorte: metade de suas irmãs não tiveram a mesma oportunidade, estancaram na rabeira da classe-média. Não esquecia das ajudas recebidas, tampouco esquecia das desfeitas. Mas não é por não esquecer que não sabia perdoar. Não perdoava porque para perdoar é preciso se achar superior à pessoa que merece o perdão, e ela não conseguia ver qualquer hierarquia existencial que justificasse superioridade ou inferioridade - não havia ninguém a perdoar, nem a pedir perdão. Não oferecia a outra face: evitava brigas, mas se se visse compelida a entrar numa, entrava para brigar. E passada a briga, passado o tempo - esse que pode ser cura, mas pode ser um lento veneno -, não alimentava revanchismo, dispensava ódios - não por perdoar, nem por esquecer, mas por saber distinguir presente do passado, por entender que apesar do tempo que sedimenta em nosso ser, somos dinâmicos. E num mundo onde as pessoas se vêem como vítimas do passado, como credores do bem-estar dos próximos e dos distantes, ela não faz esse tipo de leitura, de cálculos - e muitas vezes se pergunta se tem algo de errado consigo, por não cair nesse pensamento viciado de tantos que se dizem cristãos. E então lembra que para esses, ela poderia ser taxada de otária, por deixar o passado enquanto passado - mas prefere assim a mudar. Teimosa? Nesse aspecto, bom que seja. E a humanistas ingênuos, como este escriba, causa admiração: se a mão que outrora a apedrejava agora pede ajuda, não nega nem cobra: acolhe. E nessas horas eu me pergunto: quantos tem não apenas coragem, como dignidade de fazer isso?


10 de maio de 2015.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

O banheiro coletivo

De início achei que fosse por algum prazer sádico: sempre que ia limpar a caixa de areia, os dois bichanos se punham a espreitar-me, em especial a gata (Mafalda?). Um pouco mais de convivência entre nós e vi que fazia um juízo equivocado acerca dos meus colegas de apartamento: a gata logo perdeu o medo e tem me ajudado na limpeza da caixa - o gato (Guile?), tem perdido o receio mais vagarosamente, ainda mais acompanha do que ajuda, mas já se insinua. Mafalda tem sido tão diligente na sua ajuda que continua o trabalho, mesmo quando já recolhi tudo o que havia para recolher, jogando areia por toda área próxima. Resultado: meu banheiro em estado lastimável, com barro por tudo. Não tive dúvidas: comprei uma caixa fechada, na esperança de tornar meu (nosso) banheiro minimamente habitável. Conseqüência: se recusam a entrar nela se estiver com a tampa. Sem a tampa, Mafalda segue ajudando ao seu modo.
E não é só a limpeza da caixa de areia que os atrai para o referido recinto: notei que minha ida ao banheiro é um evento para eles. No início era toda ida, agora estão um pouco mais seletivos: houve vez que eu tomava banho, porta obviamente fechada (o banheiro é pequeno, não tem box e se não fechar a porta molha o quarto), do outro lado uma sinfonia de miados reivindicava o direito de assistir às minhas abluções. Abri a porta e diante daquele mundaréu de água que caía, fugiram - e nunca mais quiseram me ver tomando banho. Escovar os dentes também não tem sido muito atrativo para eles: ficam um tempo a observar, logo cansam. Mas todo o resto que eu faço no banheiro, se acaso faço de porta aberta - e não tem porque fechá-la, se moro sozinho -, eles me acompanham e me assistem. Ficam a me observar, curiosos. Há vezes que sinto neles uma vontade de pularem e alcançarem aquele pedaço de mim que despeja água na retrete, mas até agora nunca tentaram de verdade. Penso que ganhamos todos com isso: eles evitam de cair no vaso, eu, de ter um arranhão em área delicada.


06 de maio de 2015
Imagem meramente ilustrativa do meu ideal para o banheiro.
Nesta foto, os irmãos assistem à máquina de lavar roupa.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Novos colegas de apê

Foi May quem primeiro respondeu meu e-mail. É nome de personagem de Dance, Dance, Dance, do Murakami. Poderia ser a própria, penso. Ornaria com o momento de minha vida, de pessoas que de repente aparecem, de repente somem, com explicações que tornam a história levemente surreal. Faça reiki, faço reiki, coincidências, perseguições de (e a) ex-namorados e ex-namoradas, mudanças de país e de planos, umbanda e búzios, especulação imobiliária e Dogde Dart V8, como em meu último conto. Por ora, faltam telefonemas do além e homens-carneiro - mas não me surpreenderá que logo deixem de faltar.
Há anos - uns oito - penso em arranjar um bicho de estimação. Abandono a idéia com dó do bicho: viajo com certa freqüência, há semanas que passo a maior parte do tempo fora de casa, deixaria ele solitário em meu lugar - não parece legal. Para não falar nas dificuldades mais mundanas: dar comida quando viajo, levar ao veterinário, aumento nos gastos, coisas do gênero. Voltei a pensar em adotar um no início do ano, com uma seriedade que não tivera até então, talvez influenciado por histórias de amigos e amigas com seus gatos. Pondero em terapia, converso com meus pais - recebo muitas objeções de meu irmão -, inquiro amigos, visito o site de uma ONG de adoção, e o principal empecilho - o gato ficar solitário - soa solucionável quando eles sugerem a adoção de dois - os custos, dizem, não aumentam na mesma proporção.
Os amigos felinófilos se dividiram quanto a minha decisão. Os que têm um gato, me criticaram pretender adotar dois. Os que têm dois ou mais, me apoiaram. Minha mãe sugeriu que eu visitasse os gatos antes de decidir, mas isso é difícil pra quem não tem carro. Escolho a partir das descrições do site, mesmo. Dois irmãos - apesar de a princípio querer dois gatos mais diferentes, como branco e preto, me conformo com um macho e uma fêmea. Separo deles o irmão anão que exigia maiores cuidados. A partir de então, minhas maiores preocupações são a integridade dos meus livros e o tamanho do apartamento: trinta e seis metros quadrados comporta dois gatos? Alguns amigos dizem que não, outros dizem que sim, desde que tenha lugar pra eles subirem e se enfiarem, o que não falta na minha casa, desde que não estraguem meus livros - por sinal, até animo com a idéia de eles passeando pelos livros me pouparem da maçada de tirar o pó. Da ONG, dizem que não é problema. Penso em nomes, discuto com amigos, tenho dúvidas: Arara Teresa e Trumbica, em homenagem à Misson? Joaninha e Beterraba? Uai e Tchê? Me sugerem uma convivência com os gatos antes de escolher.
Quem mos entregou tinha o nome de ex-namoradas e de amigas próximas: Mari. São tantas que quando vou me referir a uma delas, trato pelo sobrenome. Junto com a Mari, Denise, que hospedou temporariamente a mãe e a prole. Duas moças muito simpáticas. Vistoriam o apartamento. Sugerem que deixe as janelas fechada, pois como são filhotes, são capazes de passar pelas redes. Os gatos saem investigar a casa enquanto conversamos. Após as duas partirem, os gatos se escondem, ora embaixo de minha cama, ora atrás da cama-sofá da sala. Ao irem de um esconderijo a outro, passam por mim cheios de pó - parece que minha idéia pros livros funciona para rincões escondidos.
Início da noite resolvo socializar com eles. Bolinhas de papel e um cadarço para atraí-los, e um minuto com eles no colo, antes de fugirem. O macho é o mais desesperado - crava as unhas na minha perna. De certa forma funciona: passam a circular pela casa, de início timidamente, logo com desenvoltura. Evitam que eu chegue perto, mas aceitam freqüentar o mesmo ambiente que eu. Enquanto a fêmea descobre que o sofá é delicioso para cravar as unhas, o macho parece ter predileção pelos livros e pelos cantos apertados. Provam minha babosa, temo que comam o cacto ou a espada de São Jorge, que são venenosas para gatos.
De repente a fêmea (Arara Teresa? Joaninha? Uai? Borboleta? Maria Bonita?) sobe na minha cama e descobre que a casa já é habitada por outro gato - ou ao menos assim parece. Eriça o pelo e fica a encarar o espelho, estudando o adversário. O macho (Trumbica? Beterraba? Tchê? Banana?) tenta subir na cama e leva um corridão dela. Por um bom tempo, até eu conseguir tirá-lo de debaixo da cama, a fêmea investiga sozinha o ambiente.
Fico a observá-los, vários sentimentos me tomam. Da saudade da felinófila Misson à alegria de finalmente adotar um bicho de estimação. Da lembrança das cachorras que tive, à lembrança do meu avô - hoje o time dele, que adotei também, faz cento e três anos e pode ganhar seu primeiro título domingo. Penso na responsabilidade que terei pelos próximos quinze anos. Quinze anos... Parece muito mas é tão pouco! Quinze anos atrás eu saía da casa dos meus pais, parece que foi ontem. Lembro quando, ainda antes de me mudar, num dia de prova da segunda fase da Fuvest, da janela do quarto do hotel, em Sorocaba, avistei uma pomba que tocava seus filhotes para o vôo, que resistiam a abandonar o ninho. Me ponho a me perguntar quantas pessoas não conheci nesses quinze anos. Quantas ainda mantenho contato? Quantas nunca perdi contato nesse tempo todo? Ligo para o Paulo, ele comenta que quando arranjou a Faísca, cachorra de estimação, foi mesmo uma mudança na vida - ele não sabia explicar, mas algo mudava. Talvez seja esse o sentimento principal que me passa e que não consigo apreender: mudança. Uma primeira mudança me soa forte: ter uma responsabilidade a qual não é possível discutir a relação para resolvê-la - algo que passa aquém ou além do logos. Felizes eles, que podem conviver comigo sem ter que passar por intermináveis conversas cabeçudas sobre a existência - vide esta crônica.
É quase meia noite, os gatos finalmente se mostram despertos e cheios de energia - a noite promete ser longa. Pela manhã, sem falta, vou atrás de sílica pra caixa de areia.



01 de maio de 2015.

PS: o site de adoção onde encontrei os dois: www.adoteumgatinho.org.br
PS2: Dá-lhe Operário Ferroviário de Ponta Grossa!