quinta-feira, 21 de maio de 2015

A Nova Ruth na casa de mate

Quando mudei para São Paulo, início de dois mil e doze, tentei achar uma nova Ruth, a balconista, platônica paixão capitalista de balcão, da época de Campinas - série que, descobri este ano, fez mais sucesso que os três leitores que haviam se manifestado então [http://j.mp/cG111021]. Cheguei até a escrever um texto sobre a possível nova Ruth, a linda, simpática e cativante atendente da academia, única razão capaz de me fazer correr vinte minutos naquela chata e insuportável esteira. Contudo, antes que eu a publicasse (a crônica) a balconista sumiu, sem que eu sequer soubesse seu nome. Um duro golpe, admito. Antes dela, eu já tinha uma crônica quase pronta na minha cabeça sobre Camila, a moreninha da balada (e fã de Radiohead), porém antes de escrevê-la, antes mesmo de terminar de pensá-la, Camila a interrompeu ao fim do show a que assistíamos na Augusta, e me propôs algo mais interessante que escrever uma crônica. Ainda antes delas, houve outra pretendente ao cargo de nova Ruth, na verdade a primeira interessada - ou melhor, a primeira que me interessou para preencher os rincões platônicos de minha brega alma romântica -, a tal japa da tatuagem na testa (com a cauda de cobra no pescoço), que encontrei primeiro na galeria Olido, atrás de mim, na fila para a dança; a seguir, uma ou duas semanas depois, no MASP, na exposição do De Chirico. Um amigo até me deu esperanças, perguntando se era uma que andava sempre de preto, com piercings e tal, e diante de minha resposta afirmativa, constatou: "é o tipinho básico da galeria do Rock" - e eu achando que ele soubesse quem ela era. Enfim, já esperava o terceiro encontro - por que não naquela semana mesmo? - para coroá-la Nova Ruth, mas esse terceiro encontro levou mais de um ano: foi na quinta horror, a quinta seguinte à quinta terror, em junho de dois mil e treze. Ela bebia um mate defronte o cinema da Augusta, e eu passava com uma amiga - estávamos com pressa. Pouco depois, um, talvez dois meses depois, a vi novamente, no Municipal de São Paulo, sozinha como das outras vezes - eu quem estava acompanhado, novamente. Lastimei minha sorte - justo quando eu teria coragem! Depois disso, ela sumiu, e eu até havia esquecido dela, ocupado com meus tropeços nas calçadas tortas da vida e de São Paulo. Mas eis que hoje chego na casa de mate que sempre freqüento - está cheia. Um rapaz acabou de deixar seu lugar no balcão, findo sua refeição. Me achego, cumprimento Fabinho, peço o de sempre, pequeno. Olho então para o lado, uma garota de preto, vários piercings no rosto, cabelo raspado na parte de baixo e só com um pouco em cima - muito bonito o corte, ainda que pouco usual -, uma tatuagem de cobra no pescoço e outra que começa no lado da cabeça e termina no rosto. Seria ela? Ela olha para mim. A tatuagem na testa! É ela! É ela! A Nova Ruth! Ali, ao meu lado, eu desacompanhado, finalmente!, e ela... e ela está acompanhada... Tento ser discreto ao observá-la, como de costume - o que pode ser um equívoco meu, já me alertou uma amiga, esse excesso de discrição. Além de bonita, a minha impressão de sempre: que por trás daquele visual agressivo se esconde uma moça doce - que ouviria Chrysta Bell ou Radiohead, e não Atari ou emocore em momentos de fossa -, algo meio gauche, quase drummondianamente brega. Estão terminando seu mate, e logo se vão. Ela cumprimenta, muito simpática, o também simpático Fabinho. Bem, ao menos saberei o seu nome - para esta e futuras crônicas -, me consolo. Nada. Fabinho tampouco a conhece: "não sei, nunca veio antes", "ah, pela despedida, achei que viesse sempre", "não, é só simpática". Poxa, lamento: comigo ela nunca foi simpática, sempre fechada por trás de seus piercings, da tatuagem na testa e da impressão doce.


21 de maio de 2015


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