sábado, 20 de junho de 2015

De quando me passaram o fakebook da Nova Ruth

Um dos meus bons e velhos amigos, o Vannucci, é perspicaz frasista, daqueles que sabe encerrar discussão ou iniciar uma balbúrdia com uma frase aguda solta na hora certa. Uma frase que ele gosta de repetir - muito certeira, na minha opinião - é que "não é o mundo que é pequeno, a renda é que é concentrada". Sua companheira o acusa de quebrar a magia dos acasos com essa frase, mas ele não se abala: "o que rege o mundo é o dinheiro, não a magia". Este preâmbulo todo, que nada tem a ver com o assunto do título, é porque minha primeira vontade era começar esta crônica dizendo que o mundo é pequeno, ou então que São Paulo é um ovo - talvez de avestruz, mas ovo -, mas a frase do meu amigo surgiu para me desviar do reto caminho do clichê.
Não faz muito, escrevi sobre a Nova Ruth, a japonesa da tatuagem na testa. Pouco depois de publicá-la, resolvi fazer uma busca na internet - vai que. Coloquei como palavras-chave "japonesa tatuagem na testa são paulo". Para meu espanto, eis que me surge, logo como uma das primeiras imagens, a foto de um homem com uma Hello Kitty tatuada na testa - nada mais longe da Nova Ruth, não sei se era preciso dizer. Alguns dias depois, uma amiga me pergunta se a japonesa da tatuagem na testa, tratada como Nova Ruth em meu escrito, não era a senhorita do link que ela me passava. Duvidei: fosse uma cidade pequena, Pato Branco, por exemplo, alguém com tatuagem na testa já daria pra saber quem é, seria de conhecimento da cidade toda; mas em São Paulo, onze milhões de habitantes só na cidade - e eu com a suspeita de que a Nova Ruth é de Diadema -, convenhamos, ela pouco chama a atenção, e duvido que não haja outras japonesas com tatuagem na testa. Mas a Nova Ruth, a japonesa com a tatuagem na testa, me faz descobrir que São Paulo não é tão grande quanto parece - e me arrependo de não ter soltado a crônica da terceira Nova Ruth, a linda atendente da academia: quem sabe hoje eu soubesse o nome dela, onde ela é balconista atualmente, e toda uma série de crônicas já tivesse sido publicada, quem sabe já não tivéssemos tido um affair, um casamento, filhos, um prêmio na loteria, um prêmio literário por minha história, digo, nossa?
Mas interessa agora a Nova Ruth, a japonesa da tatuagem na testa. No perfil do Fakebook que me foi passado, a ascendência japonesa é facilmente identificável pelo habitual segundo nome. Por sorte, a moça tem fotos públicas, e pude ver que, sim, se trata da Nova Ruth. Tatuagem na testa, na cabeça, nos ombros, no peito, nas costas, nas pernas, na boca e provavelmente outras mais que não vi. O visual agressivo (não confundir com violento) é reforçado nas fotos, e me causa forte impressão a língua bifurcada. Me vem à memória a personagem Lui, do romance Cobras e piercings, da japonesa Hitomi Kanehara [http://j.mp/cG14128]. Será? É certo que ela está ainda longe de seu amigo, tatuado até o branco dos olhos. Por um momento até me pergunto como ela me passa a impressão de doçura - mas logo lembro que uma imagem é uma simplificação grosseira de uma pessoa, que pouco diz sobre ela (por mais que minha impressão seja outra simplificação grosseira). 
Se bem entendi, diante de mil ocupações, a principal da Nova Ruth não é a de balconista, como a bela bochechuda sardenta de olhos verdes de Campinas - ou a da atendente da academia -, e sim tatuadora. E isso ajuda a explicar o porquê não ter sido tão dificíl à minha amiga identificá-la: quase todo mundo tem tatuagem hoje em dia, alguém ter feito uma com ela não chega a ser surpresa. Duro que isso também ajuda a me distanciar dela: diferentemente de farmácia, não vou a um estúdio de tatuagem todo mês, com a desculpa de comprar vitaminas ou preservativos (ou remédios, que seja). Pior: a chance de eu ir é muito baixa, no máximo para acompanhar alguém (algo que até agora nunca aconteceu), já que não está nos meus planos passar por nenhuma modificação corporal - nem à maldita careca a que estou fadado. (Minha amiga Misson costumava dizer que daqui vinte anos vou provar minha porra-loquice da juventude ao mostrar que não tenho qualquer tatuagem ou piercing - apenas algumas fotos de cabelo colorido, quando eu tinha cabelo para colorir).
Com sentimentos contraditórios, agradeci o achado à minha amiga. Eu não lamentava, na crônica sobre ela, sequer saber o seu nome? Pois agora posso ficar feliz: sei como ela se chama - para esta e futuras crônicas! Não só isso: sei muito mais que o nome: onde trabalha, com quem anda, aonde vai, qual seu contato... Fico a me questionar: num próximo encontro - numa casa de mate ou fila para um espetáculo de dança -, olharei a Nova Ruth com que olhos? Nem preciso chamá-la de Nova Ruth. Eu, sabendo tanto sobre ela, e ela nem sabendo que eu existo. Reconheço: talvez fosse melhor quando eu pouco sabia dela.



20 de junho de 2015

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