quinta-feira, 30 de julho de 2015

Um café com a Nova Ruth

E não é que a Nova Ruth me respondeu? Mandou um texto muito bem escrito com uma "Receita para uma paixão platônica de sucesso". Meu coração brega quase não resistiu. Sua mensagem me fez lembrar a receita do Leminski para um bom poema - e aqueles bigodões do poeta me soaram exógenos na bela face da Nova Ruth. Tratei logo de esquecer o poema, Leminski e seus bigodes na Nova Ruth, e respondi fazendo alguns ajustes na receita e passando as duas novas crônicas em que ela era móbil. Ela achou as correções pertinentes e me chamou para um café - assim, na chincha. Quer dizer, na verdade ela me deixou escolher entre a "Caverna de Platônica Paixão" e o "Imperfeito Iluminado Mundo Real (a-crônico)". Claro que não hesitei em abrir mão da crônica - já pensava no nosso romance. Mas eu quis parecer difícil e disse que estava com a agenda cheia. Ela não se incomodou e marcou o café para a semana seguinte. Não achei que ela fosse se conformar tão fácil e tive que passar uma semana nessa angustiosa espera, que aproveitei para ensaiar como me aproximar, elenquei assuntos interessantes para a conversa e temas impertinentes, fiz para mim mesmo todas as piadas infames que ela me despertara, para não correr a tentação na hora - afinal, minha veia humorística ainda pulsa -, e até passei a roupa que ia usar (estréia do meu ferro de passar, comprado em maio do ano passado).
Enfim, o encontro com a nova Ruth!
Para não parecer ansioso, cheguei apenas dois minutos adiantado. Ela não estava. Me sentei no balcão, na última banqueta, e fiquei esperando. Com seis minutos de atraso ela chegou. Ah... a Nova Ruth, pensei. Se sentou do meu lado e fez seu pedido - a mesma simpatia radiante de dois meses atrás. Olhou para a porta, me ignorando solenemente. Não me deixei abalar, e pus em ação meu plano de aproximação: cutuquei-a e disse um oi com uma entonação mais tchã - se é que me entendem. Ela me olhou, disse um oi seco e se virou. Não imaginava que ela fosse se fazer de tão difícil. Insisti: Nova Ruth? Eu sou o Mick Jagger... Aí ela foi mais simpática: ah, oi! Nossa, nada a ver com a foto do seu fake. Senti ali uma ponta de decepção - ela diria mais tarde que não -, mas não desisti, e encetamos assim a conversa - muito boa, passado esse desconforto inicial, eu de ter que conversar com minha paixão platônica, ela de ter que conversar com seu apaixonado platônico. Papo vai, papo vem, notei que minha imagem platônica era quase perfeita diante da apresentação não-platônica. Apenas uma hora, pra me certificar se realmente acertara em tudo, perguntei se ela curtia Chrysta Bell e ela me respondeu que não era de curtir fossa, muito menos ficar ouvindo músicas pra se afundar mais; no resto, sei que acertei. Depois de longa conversa sobre assuntos variados, ela chegou nos finalmentes. Muito fofamente me disse que não gostava de se expôr e não tinha aspirações para ser sub-celebridade (não foi bem assim que ela disse, mas simplifico), e terminou com um golpe certeiro na alma deste cronista: caso ainda seguisse paixão, ela deixava de ser platônica, afinal, ela estava ali, na minha frente, e já até havíamos encostado bochecha com bochecha, logo, não cabia mais crônicas sobre a Nova Ruth. Fazia sentido e, como já comentei alhures, nada mais quebra-clima, quebra-paixão, do que uma contradição gritante - e o Segundos Analíticos ainda pulsa, eu parafrasearia Arnaldo Antunes. E fazia mais sentido ainda na medida em que uma coisa é Ruth, a balconista bochechuda e sardenta, de quem nada sei além disso; outra é a Nova Ruth, de quem, graças ao Fakebook, sei nome, sobrenome, onde trabalha, com quem anda, que festas freqüenta, o que fez no verão passado e coisas do tipo. Assim sendo, não tive outra opção que decretar o fim da Nova Ruth - mas, para não me deixar na mão, ela me indicou um encontro de ruivas onde posso tentar me deparar com a Nova Nova Ruth. Fiquei de pensar na indicação - haveria um balcão no encontro?
30 de julho de 2015

obs: a pedido da Nova Ruth, nomes foram ocultados









um bom poema
leva anos
  cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
  seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
  sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
  três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
  uma eternidade, eu e você,

caminhando junto

terça-feira, 28 de julho de 2015

Menos Odílio, mais Francisco, por favor [ou, praça da Sé, 28 de julho de 2015, 16h]

Enquanto o Papa Francisco anima progressistas dos mais variados matizes - incluídos os ateus - com o direcionamento que tenta dar à igreja católica, mais próxima ao povo e sensível às questões sociais, a igreja católica do Brasil - ou ao menos a de São Paulo - caminha na direção diametralmente oposta. Ainda fico a me questionar se os rumos ditados por dom Odílio Scherer são mera questão de vingança de um ressentido, afinal, ele foi preterido por um argentino (e, diria Nietzsche, nada mais cristão que ressentimento e vingança), ou se ele possui uma convicção verdadeira (fé?) no fascismo e nos ideais da Casa Grande.
Começo com um exemplo requentado. Não sei o quanto saiu do círculo dos filhos da PUC (como este que aqui escreve) ou do restrito círculo universitário, a polêmica em torno do veto à Cátedra Michel Foucault, na PUC de São Paulo, feita pelo arcebispo de São Paulo, Dom Odilio Scherer. Com o veto, a universidade - na qual estão dois dos principais especialistas do Brasil nesse seminal filósofo do século XX, Márcio Alves da Fonseca e Salma Tannus Muchail - pode ter que devolver os áudios com as palestras do francês, recebidas do Collège de France. O argumento: as idéias de Foucault não estão em consonância com os princípios católicos. Argumento bastante razoável, pensando na igreja da Idade Média. Inclusive, Foucault merecia ter ido para a santa fogueira por pelos menos dois bons motivos: pensar e ser homossexual. Como Foucault mortuus est, ainda se pode jogar seus livros na fogueira - ou ao menos seus heréticos áudios.
Admito, isso de início me deixou perplexo: teria a igreja católica brasileira complexo de ser sempre do contra? Quando no Vaticano estavam reacionários, a PUC-SP abrigava comunistas e ateus; agora que na basílica de São Pedro está um progressista que prega, dentre outras coisas, o diálogo com as outras religiões, a PUC-SP tenta excluir tudo o que soe minimamente desviante dos "princípios católicos" - o pensamento de Foucault ou os professores Peter Pál Pelbart, Jonnefer Barbosa e Yolanda Gloria Gamboa Muñoz [http://j.mp/1D6KSI4]. E onde fica a infabilidade papal para Odílio Scherer? Valeu de Pacelli a Ratzinger, mas não vale para Bergoglio?
Tive nova mostra da cara da igreja católica de dom Odílio na tarde deste 28 de julho.
Eu caminhava pela Sé quando avistei dois policiais militares levando um homem pelo braço. A cena me chamou a atenção pela estranheza da atitude dos militares: agiam com firmeza, mas não com a truculência que, via de regra, dispensam à (chamada) escória social. Pensei que talvez o homem tivesse sido apartado de uma briga com outros moradores de rua que estavam ali perto, mas o homem estava muito calmo para alguém que brigava, e o resto da escória social também - definitivamente, não houvera briga. Ele tentava argumentar com os militares, que apenas ordenavam que caminhasse um pouco mais. Não poderia ser algo relacionado ao metrô, pois para isso há a segurança da empresa. Passando mal? Se era intenção ajudá-lo (mas por que a polícia militar ajudaria um pobre, que não produz nem paga imposto?), por que o levavam com aquela firmeza e tantos passos?
Ao passar ao lado da catedral da Sé, minha dúvida é, ao menos parcialmente, sanada. Comenta o segurança da igreja com um grupo de pessoas, como se estivesse no púlpito, diante da cena que ainda se desenrola ao longe: "olha, olha o que eles vão fazer: levam até lá e soltam. Fazer só isso não adianta nada, logo ele volta...". Provavelmente o homem estava pedindo dinheiro ou havia entrado na casa de Cristo (que heresia!). Fiquei a me indagar o que o segurança da catedral da Sé queria que os policiais fizessem: prendessem-no por ser negro e pobre (e quer motivo maior que esses dois?)? Dessem uma "geral" das antigas, pra ver se ele aprende a não importunar os cidadãos de bem? Ou simplesmente "apagassem" o cidadão, que nada tem a contribuir com a sociedade (afinal, é sabido há longo tempo que o Brasil é esse país de segunda categoria por causa dos negros e nordestinos, incompententes para a vida civilizada, como atestam as recentes investigações sobre a corrupção)?
Bem, essa cena que presenciei talvez prove que, contrariamente ao que disse acima, dom Odílio Scherer siga os passos do papa Francisco: atento à questão social, não hesita em chamar a polícia militar para tratar dela, como sempre aconteceu nestes tristes trópicos; e quanto à proximidade do povo, apenas uma questão de definir povo: se for patriarcal, conservador, branco, heterossexual e com uma conta digna de entrar no ramo VIP dos bancos, a igreja católica e o reino dos céus está de braços abertos ao povo. Por fim, tolerância de pensamento é algo que Dom Odílio Scherer também deve visar: os que ele considera povo têm total liberdade de se expressarem, mesmo que isso possa parecer contraditório aos "princípios católicos" - como ser favorável à pena de morte e à violência contra minorias por serem minorias, por exemplo.
Talvez o papa Francisco seja um ponto fora da curva da história católica - e ainda não conseguiram enviá-lo para se retratar diretamente com deus. Mas nele eu tenho esperança - quase ouso dizer fé. Para o Brasil: menos Odílio, mais Francisco, por favor.


28 de julho de 2015.


Não basta emporcalharem a praça, querem ainda entrar na igreja?

sábado, 18 de julho de 2015

Gatos mágicos somem com toalha!

Logo ao acordar notei que faltava a toalha de chão que eu havia deixado secando na porta da máquina de lavar (parênteses: minha casa é "estilo londrino", conforme uma amiga que morou em Londres, isto é, a lavanderia fica no banheiro. Fecha parênteses). Não fui tomado por nenhum espanto com esse sumiço, sabia que era coisa da dupla com quem divido apartamento. Procurei no banheiro, não achei. Estranhei que tivessem arrastado para fora dele sem deixar qualquer marca, uma vez que a toalha estava bem molhada. No quarto, embaixo da cama, nada. Na sala, nada. Na cozinha também não, já que ela fica fechada. Encafifei onde os dois teriam enfiado a toalha - e como?! Busquei mais uma, duas vezes, nada. Sai para meus afazeres, perplexo da toalhar ter desaparecido assim: seriam meus gatos mágicos? Descartei que pudessem tê-la comido: era muito grande, mesmo que cada um ficasse com metade. Mais plausível que tivesse conseguido enfiar no canto onde somem bolas, canetas e outras coisas que dou pra eles - ou eles pegam sem eu dar -, apesar de toalhas não rolarem, ainda mais molhadas. Voltei para casa, me pus a buscar a dita toalha - agora, com mais calma, eu daria conta que estava na minha fuça, mas me passara despercebido. A contar que eu sabia onde estava minha fuça, a toalha não estava junto a ela. Nem embaixo dos móveis, nem em cima deles. Nem embaixo da colcha - vai que na pressa para arrumar a cama, não tivesse notado que eles tinham subido ela para meu leito. Gatos mágicos? Comecei a ficar preocupado: eventualmente tenho o sono bem pesado - já perdi concurso por ter desligado quatro despertadores sem acordar de fato -, e sonhei algumas vezes que eles haviam tentado (e conseguido) escapar pela porta - num dos sonhos Guile se atirava do corredor, quatorze andares abaixo. Seria eu sonâmbulo, e parte do que eu achava que eram sonhos se tratavam, na verdade, de fatos mal-percebidos pela minha consciência semi-desperta no meio do deambular dormente? Teria eu levantando à noite, aberto a porta, posto a toalha no lixo e voltado a dormir? Temi não só pelos gatos, como por mim mesmo! Outra busca pela casa, nada. À noite eu conversava com minha mãe pelo telefone, falava justo dessa preocupação que ia me tomando, de que eu fosse sonâmbulo nível hard, abrisse a porta de casa pela madrugada, perseguisse gatos fugitivos e jogasse toalhas no lixo. Ou seriam meus gatos realmente especiais? Foi quando abri a janela da sala para eles irem um pouco "fora" (os cinco centímetros entre a janela e a rede de segurança): a toalha estava no trilho da janela (e assim que se chama?): então lembrei! Eu havia posto ela ali durante a madrugada, quando começou a chover forte e com vento, para evitar que entrasse água no apartamento. A sensação de alívio, admito, foi enorme! Resumo da história: nem gatos mágicos ou comedores de toalhas, nem sonambulismo hard, apenas um lapso causado pelo sono e uma crônica sem graça.


18 de julho de 2015.

E o medo que eles tivessem levado uma toalha molhada pra cima dos meus livros?

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Tudo o que é leve se desfaz no chão [Diálogos com a dança]

"Dançar na selva de pedra" - foi a leitura feita pela amiga que me acompanhou ao espetáculo Sim, da KeyZetta&Cia, na Galeria Olido. De minha parte, não saí com leitura alguma, e mesmo depois, pouca coisa consegui captar do que o espetáculo pretendia comunicar. Não, isso não é uma crítica ao espetáculo: não quer dizer que não aproveitei ou não gostei, apenas não entendi, não consegui decifrá-los em códigos que me são familiares - e como o estranho, o estrangeiro, me atrai, estar em território desconhecido, me deparar com signos alienígenas pode ser algo prazeroso, ainda que um prazer diferente de quando me deparo com algo que me é familiar.
Este blablablá sobre mim mesmo pode soar egocêntrico e sem muita relação com o espetáculo que me propus comentar, contudo mostra ou uma severa limitação deste escriba ou algo sobre a companhia. Sem negar limitações razoáveis de minha parte, prefiro atribuir o estranhamento ao mérito de Key Sawao, Ricardo Iazetta e demais integrantes. Sim foi o quarto ou quinto espetáculo da companhia a que assisti - já deveria estar, portanto, mais familiarizado com sua linguagem. Sem contar que há um ano e meio sou aluno da Key Sawao.
A KeyZetta&Cia parece sempre disposta a pesquisar e experimentar elementos exógenos ou pouco usuais à sala de espetáculos e a apresentações de dança: sua veia é claramente na performativa, em jogos - questionadores - com o logos ou com o espaço. Sim dialoga com o espaço - e com a própria dança. Logo de cara, causa estranhamento a paisagem de um bosque pintada ao fundo, como cenário - não parece ornar com dança contemporânea. O chão, coberto de pedras brita, também desloca o espectador da sua zona de conforto - inclusive olfativa (daí haver máscaras cirúrgicas para o público se proteger da poeira) e sonora. A união entre esses dois elementos, admito, eu não consegui concatenar, diferentemente da minha amiga - talvez pelas pedras me remeterem imediatamente a estacionamento (não sou da cidade grande, onde shoppings oferecem estacionamentos asfaltados).
E são as pedras, em especial seu barulho, o que mais me chama a atenção: elas dão um grande peso aos gestos, a toda a dança. Me fazem lembrar de um dos meus trechos favoritos de Em busca do tempo perdido, no qual Proust comenta da importância da audição para dar corpo ao que é visto: “quanto ao surdo integral, visto que a perda de um sentido acrescenta tanta beleza ao mundo como o não faria a sua aquisição, é com delícia que passeia agora por uma Terra quase edênica onde o som ainda não foi criado. As mais altas cascatas se desenrolam, para os seus olhos apenas, mais calmas que o mar imóvel, como cataratas do Paraíso. Como o ruído era para ele, antes da surdez; a forma perceptível sob a qual jazia a causa de um movimento, os objetos movidos sem rumor parecem movidos sem causa”
Pode não ser agradável, mas Sim está intimamente ligado à audição, ao barulho das pedras sob os corpos que dançam sobre elas. Assim, todo gesto do espetáculo ganha corpo, esse corpo pesado que o balé clássico tenta fazer esquecer em seus saltos, que muito da dança - ao menos para o senso comum - tenta ocultar com seu ideal de leveza e superação da gravidade. Foi nos solos de Beatriz que essa condição e contradição me saltou aos olhos: seus gestos são leves, o movimento de seus braços me soam aquosos, mas o som desfaz a impressão de leveza que os olhos captam. Não querendo acreditar que aqueles gestos fossem capaz de tamanho peso, desconfio que o chão seja microfonado - minha amiga diz que não, e ela tem razão, uma vez que não há variação na altura do som, esperado conforme se aproxima ou se distancia do microfone.
Saio da Olido sem fazer ligação entre os movimentos dos intérpretes com o cenário e a trilha sonora de bosque com os sutis movimentos de luz com o chão cheio de pedras. A única ligação que consegui fazer foi entre a leveza e o peso - e para tanto, alguma coisa, algum preconceito, algum conceito há muito arraigado, se rompeu.

17 de julho de 2015


quarta-feira, 15 de julho de 2015

1964 e 2015: algumas comparações

É evidente e explícito que parte do Establishment tupiniquim se organiza com vistas ao poder. Há um golpe em curso - que ora parece almejar a destituição da presidenta da República, ora parece se conformar em agir como a Rede Globo, Veja, Fiesp e congêneres, agiram na eleição de 1989, com manipulação, mentiras, terrorismo e tudo aquilo que é de conhecimento público (a quem tem interesse por conhecer algo da história recente do país). Porém, entre desejar e organizar um golpe (e mesmo aplicar um golpe midiático) e achar que a tomada do poder está em marcha, como parte da esquerda vê desde o fim do ano passado, vai uma certa distância. Contudo, mesmo deixando de lado casos folclóricos (como Paulo Henrique Amorim, que vê golpe em cada esquina, parecendo a versão à esquerda de Dennis Lerrer Rosenfield, professor de filosofia que no início dos governos petistas via comunista em cada poste e ganhava amplo espaço na Grande Mídia, quando a direita ainda buscava um ideólogo com algum estofo intelectual), tanto se fala em golpe que soa conveniente traçar alguns paralelos entre a situação atual e a que antecedeu o golpe civil-militar de 1964 - não por achar que a história se repita, mas porque parte das forças sociais atuantes continuam as mesmas, e seguem agindo de modo semelhante à de cinqüenta anos atrás.
Conforme Caio Navarro de Toledo, em "A democracia populista golpeada", as características principais do país no momento anterior ao golpe de 64 são: "uma intensa e prolongada crise econômico-financeira (recessão e uma inflação com taxas jamais conhecidas); constantes crises político-institucionais; ampla mobilização política das classes populares (as classes médias, a partir de meados de 1963, também entram em cena); fortalecimento do movimento operário e dos trabalhadores do campo; crise do sistema partidário e um inédito acirramento da luta ideológica de classes". Enquanto isso, no sub-continente americano vários governos popularmente eleitos foram, estavam ou seriam desestabilizados e derrubados por golpes de Estado: Colômbia, 1957; Venezuela, 1958; Cuba, 1959 (vale lembrar que Fidel e companhia foram inicialmente saudados pelos EUA, que patrocinou tentativa de golpe contra o regime em 1961); Argentina, 1962 e 1966; Peru, 1962; Guatemala, Equador, República Dominicana e Honduras, 1963; Bolívia e Brasil, 1964 - para ficarmos só em uma década. Atualmente, acompanhamos tensões políticas na Argentina, Venezuela, Chile, Peru, Colômbia, Honduras e México - além da crise no Brasil.
Para além do que foi levantado acima, Dilma, assim como Jango, é herdeira política de um estadista com apuradíssimo faro político, está diante de um congresso conservador e sua base de sustentação nele é limitada. Recentemente, os movimentos sociais - cujos ânimos arrefeceram após a ascenção de Lula - retomaram parte da pauta da sociedade, via Movimento Passe Livre e Movimento de Trabalhadores Sem Teto; enquanto os panelaço anti-PT, assim como a Marcha da família com Deus pela liberdade, são marcadamente manifestações de uma elite (branca) e aspirantes a. Na economia, observa-se uma guinada à direita na economia - então com o Plano Trienal, adesão à ortodoxia proposta pelos EUA para ajuda externa, agora via (Anti-)Plano Levy. A semelhança mais importante a se levantar talvez seja o conluio feito pelas elites locais com apoio do capital internacional, capitaneada por uma direita pouco comprometida com a democracia e seus valores e defendida, justificada e estimulada pela Grande Imprensa - essa descaradamente anti-democrática.
Há, contudo, diferenças, e muitas soam bastante fortes para inibir um golpe de fato - restando a alternativa de golpe via mídia para influenciar as urnas. A primeira e mais visível é que os militares - no Brasil e nas vizinhanças - não têm intervindo diretamente na dinâmica política. Diante das manifestações de março, por exemplo, eu apostaria antes no exército atuando conforme ordens da presidenta Dilma a debandar para o lado golpista - poderiam, com isso, cobrar o fim de investigações sobre a ditadura. Outra diferença: conforme Toledo, no governo Jango, a partir do segundo semestre de 1963, "uma pergunta passou a dominar a cena política: Quem dará o golpe?". Atualmente, amplo espectro da esquerda defende a democracia - inclusive prega seu aprofundamento -, e tanto o governo Dilma quanto o PT já deram reiteradas mostras de respeitarem as regras do jogo democrático, diferentemente do PSDB, que aprovou a ementa da reeleição em benefício próprio e agora fala em destituir a presidenta sem qualquer base legal (não apareceu qualquer escuta em que o principal ministro do chefe do executivo combinava com um subordinado, "no limite da irresponsabilidade", quem seriam os vencedores das privatizações da telefonia, por exemplo). Por fim, outra diferença marcante é que, enquanto o prógono de Goulart havia dado um tiro no peito uma década antes, o de Dilma segue vivo, ativo e forte - mesmo com a campanha cerrada da Grande Imprensa contra Lula há mais de uma década. Inclusive, seu nome é reiteradamente ventilado, tanto pela direita quanto pela esquerda, como candidato a ser batido em 2018 - e seria parte do golpe midiático mudar esse panorama até lá.
Não vejo, portanto, condições para um golpe de Estado neste momento, como apregoam muitos analistas de esquerda - e apologistas de direita. O que não quer dizer que esteja tudo tranqüilo: há um intenso movimento para enfraquecer a presidenta e tirar o PT do comando do executivo federal, se aproveitando do poder desproporcional que a direita possui, graças ao oligopólio da mídia - com o qual tenta reviver a questão de 1964, sobre quem dará o golpe -, e aos aliados na presidência das casas legislativas federais, dois personagens sem qualquer pudor nem respeito pela democracia. Com esse panorama, o PSDB, o Cunhistão e os barões da mídia não deixariam passar a oportunidade de um golpe "dentro das regras democráticas", como foi feito para a aprovação da reforma política ou da maioridade penal. Esperar a tentativa de golpe para então reagir é um modus operandi típico de nossa esquerda super-intelectual. A esquerda está numa situação bastante delicada: precisa defender a democracia sem defender as atuais regras de eleição, que geram esse parlamento abjeto, e sem defender o atual governo - ao menos enquanto enquanto Dilma não decidir dar uma guinada à esquerda e se aproximar dos movimentos sociais, como defende Boulos. É preciso nos anteciparmos: cerrar fileiras pela democracia e pelo seu aprofundamento, defender políticas sociais e principalmente, neste momento, combater a direita dentro do seu próprio campo.


15 de julho de 2015

sexta-feira, 10 de julho de 2015

De quando escrevi para a Nova Ruth (e ela respondeu!)

Mal soltei minha última crônica sobre a Nova Ruth, e a amiga que tinha ma indicado me chamou pelo Fake: e aí? aí aí o que? - não entendi o que ela queria saber. O que você fez? Ora, o que fiz, escrevi a crônica, não leu? Sim, mas além disso? Teria dado aquela risada forçada se estivéssemos cara-a-cara antes de responder com outra pergunta, você esperava algo além de uma crônica - talvez duas? À resposta afirmativa dela, não tinha muito mais o que dizer: se nem para a Ruth, a balconista, que era A Ruth, a balconista - a linda sardenta e bochechuda de olhos verdes -, eu tive coragem de falar qualquer coisa - passar um bilhete, indicar meu blogue, deixar uma carta anônima na porta da farmácia, sei lá -, imagina a Nova Ruth, com quem corro o risco de trombar outras vezes por São Paulo. Digo oi, a conversa morre ali, e no dia seguinte estamos lado a lado tomando mate: vou dizer o que? Te mandei um oi ontem, no Fake, você me respondeu, mas eu não tinha mais nada pra dizer? Isso, claro, se ela se desse ao trabalho de responder. O duro é que essa idéia ficou fermentando na cachola. Será? Passou uma semana, ainda ali: e se...? Como a idéia insistia, comecei a tomar atitudes práticas. A primeira foi criar um perfil falso no Fakebook, pra facilitar a aproximação. Mas então me lembrei da minha ótima-horrível cantada do cedê com Hello, I love you para PPU2 (Paixão Platônica da Unicamp/IA, 2) - a partir de então denominada "Japa do cedê" pelos meus amigos (e prefiro nem saber que apelido ganhei entre os amigos dela que presenciaram a cena). Pareceu (ainda me parece) uma ótima idéia, mas a impressão que tive é que a partir de então ela tanto notou minha existência que passou a fugir de mim. Desisti do perfil falso e desisti de entrar em contato com Nova Ruth. Isso até o dia, ou melhor a noite, quer dizer, já era quase dia (cinco e pouco da manhã), em que, com o superego nocauteado pelo sono (sono funciona melhor que álcool), decidi, solene sonoleso: vou escrever - e escrevi. Uma mensagem rocambolesca, um tanto ébria, que tropeça na própria história, na ânsia de evitar chegar de sopetão. Descrevi desde a primeira vez que a vi, as coincidências, do porquê estava escrevendo para ela e tal, para então, depois de reler a mensagem, cortar o supérfluo (90%), adicionar algumas advertências, como a de que sou prolixo e confuso, para, enfim, depois de dizer que só escrevia por culpa do sono, mandar o link do texto em que eu falava dela. Enviei, corajoso, e deixei o futuro em aberto, esperançoso - eu estava com sono. Pois não é que ela me respondeu? No mesmo dia! Quando vi que havia uma mensagem dela, pensei em deletá-la sem ler - vai que meu coração não agüenta. Ou, pior, vai que me arrependo amargamente de não ter feito algo do tipo com Ruth, a balconista. Claro, isso é tudo um blefe pra enrolar ainda mais esta crônica e ver se consigo prender a atenção do leitor e da leitora ávidos por um affair picante. A resposta foi simples, mas reforçou a impressão que dela tive, de ser uma guria simpática e doce. Reproduzo aqui, ipsis litteris "Boa tarde, Daniel. Te responderei com calma quando tiver um tempo livre." Certo, não foi uma declaração de amor, um pedido de casamento, como eu gostaria, sequer um convite pra um café ou cerveja, como eu aceitaria, porém foi uma resposta, mais do que eu esperava - e uma resposta super educada, ainda por cima!, eu diria quase-fofa. E fiquei na expectativa da Resposta. No dia seguinte, no dia seguinte ao seguinte, na semana seguinte, e assim foi, até eu me dar conta que minha mensagem fora afogada por mensagens outras que ela deve receber diariamente - mais urgentes, mais importantes, mais diretas e mais comuns e ordinárias! -, e que minha saga com a Nova Ruth, ao menos pela internet, terminava ali. A não ser (!) que eu puxasse assunto, algo do seu interesse, como, sei lá, tatuagem. Sabendo que ela não lera minha crônica - se tivesse lido, teria me respondido ou me bloqueado -, eu poderia me mostrar interessado em fazer uma. Poderia ser minha assinatura de beija-flor (que salvo duas pessoas, ninguém consegue enxergar beija-flor ou qualquer coisa). Ou, quem sabe, algo como "Carpe Nova Ruthis" - um modo sutil de mostrar meu interesse por ela. Porém, logo vi dois poréns: o primeiro é que não lembro qual a declinação do feminino acusativo terminado em i (sem falar que prefiro grego, e ando empolgado com árabe), e isso poderia causar uma má impressão; segundo, e se ela propusesse fazer a tatuagem de graça, só pra me testar, eu, que não quero tatuagem? Aceitei, conformado, o ostracismo. Quem sabe numa próxima trombada na rua, ela desacompanhada, eu também desacompanhado, ela não tome coragem e diga olá!

10 de julho de 2015

Felipe me representa!

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Lei da terceirização e privatização

Em abril, o Cunhistão aprovou a lei da terceirização (PL 4330/04), que libera as empresas para terceirizarem também suas atividades fim. Os críticos do projeto dizem que terceirizar significa precarizar; os defensores, que não implica necessariamente em precarização do emprego. Penso estarem corretos os segundos, na teoria; na prática, os primeiros se mostram pornograficamente certos - ou alguém tem algum conhecido que trocou um emprego contratado por um equivalente em uma terceirizada? Já os que fizeram, ou gostariam de fazer o caminho inverso...
Nos destaques à lei, foi aprovado um que excluía as empresas públicas e de economia mista das novas regras da terceirização. Um dos defensores do destaque é o deputado udenista Carlos Sampaio, do PSDB de São Paulo, que diz que isso garantiria o ingresso por concurso público. O intuito aparentemente é nobre, mas - infelizmente - convém ter atenção redobrada àquilo que udenistas em geral - os tucanos em particular - apregoam como benéfico ao público. Vale para a água, vale para a CPMF, vale para a redução da idade penal, vale também para esse destaque na lei da terceirização.
Deixar as empresas públicas de fora significa preparar o terreno para a sua privatização. A relação não está explícita, mas é evidente. O principal ataque dos ideólogos do neoliberalismo às empresas e à administração pública é quanto a sua presumida ineficiência - diferentemente do presumido eficiente setor privado. Eficiente ou ineficiente neste caso pensado em termos estritamente monetários, sem qualquer preocupação social: fazer mais com menos. Ora, um principais custos de uma empresa é sua folha de pagamento. Terceirizar ataca justamente esse custo: o funcionário contratado que custava dez, terceirizado custa seis (por mais que o funcionário mesmo receba quatro). Se uma empresa cobra R$ 2 por um produto ou serviço, e a empresa concorrente cobra R$ 1,60 pelo mesmo produto ou serviço, o consumidor não vai comprar o mais caro porque a empresa paga R$ 1 ao funcionário, enquanto a outra paga R$ 0,50: vai comprar o mais barato. Excluir as empresas públicas da terceirização é colocá-las em grande desvantagem competitiva - ineficiência que será sanada pela privatização.

Não estou aqui defendendo a terceirização - pelo contrário, diante do retrocesso social que ela representa, sou contra. O que pretendo alertar é para o fato de que o ataque às empresas públicas continua cerrado, e vai além de escândalos de corrupção na Petrobrás (curiosamente o Metrô de São Paulo passa incólume, por ora), se insinuando muitas vezes de forma sutil, preparando o terreno onde parece não ter nenhuma relação.

08 de julho de 2015

domingo, 5 de julho de 2015

Por outras notícias, por outras provocações!

Em seu livro Sociedade Excitada: filosofia da sensação, Christoph Türcke comenta que não é qualquer fato que merece ser notícia, e sim aqueles que dizem respeito a todos - ao menos era assim na Roma antiga, em que eram noticiadas questões concernentes à res pública. Com o advento da imprensa de massa e da indústria cultural - da empresa jornalística -, o que merece ou não ser notícia, que coisas são relevantes ao público ou não, passa a ser alvo de disputa - tanto quanto aquilo que é noticiado. Na pressão por vendas, a imprensa corporativa não hesita em dar relevância a temas irrelevantes - mas que atraem o público -, e não tem pudores em ser seletiva nos assuntos da res pública que devem ser considerados importantes.
Além desta necessidade de sobressair, Türcke destaca outros dois denominadores comuns da notícia em nosso tempo: deve ser nova e deve ser compreensível. Este último aspecto implica na simplificação da realidade, em tornar um assunto complexo em familiar ao grande público, em algo quantificável, em uma imagem - ou seja, em algo próximo da linguagem publicitária: que demande o mínimo de atenção e esforço mental. Sobre a necessidade de ser sempre nova, algo merecedor de ser notícia em um dia deixa de sê-lo no dia seguinte se não houver desdobramentos que o justifiquem. Ao cabo, a lógica da notícia acaba sendo invertida: "a ser comunicado, porque importante" a ideologia apregoa, sub-repticiamente, que "importante, porque comunicado".
Tudo isto mostra algumas das dificuldades da imprensa alternativa, tanto na questão do conteúdo quanto da forma: como impôr pautas no debate público, quais pautas postas pela Grande Imprensa merecem ser discutidas; de que modo fazer isso?
Não resta dúvida que as novas tecnologias têm alterado nossa percepção: cada vez é mais difícil manter a concentração em um longo texto enquanto links para assuntos relacionados surgem aos borbotões em todos os lados da tela do computador ou do celular. Isso justificaria reduzir a análise a um tuíter, a um slogan publicitário, a uma palavra de ordem? Coxinha e petralha são dois exemplos de "conceito-síntese" que permitem uma crítica em uma linha: enuncia-se o "descalabro" ou o "desrespeito" e avisa que é coisa de petralha ou coxinha. No que isso contribui para o debate?
Ademais: devemos aceitar como notícia apenas o que está candente? Estamos estarrecidos com a votação da PEC da maioridade penal, mas não podemos esquecer que ainda correm a reforma política e a lei da terceirização. Assim como rebatemos o que a Grande Imprensa nos faz lembrar diuturnamente, não podemos sucumbir ao esquecimento seletivo que ela - e o ritmo alucinado da timeline do Fakebook - nos propõe.
Provocar, mas não pela provocação rasteira veiculada na Grande Imprensa e repetida alhures, que apenas reforça posições e incita o ódio. Por uma provocação que nos desestabilize da nossa zona de conforto, que critique também o ponto onde estamos. Por uma provocação que nos convide a repensar e a rediscutir - e nos incite a agir.


05 de julho de 2015

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Disputas na madrugada

Após ler minha última crônica sobre meus companheiros de apartamento, a voluntária da ONG Adote Um Gatinho que intermediou a adoção de Mafalda e Guile, hoje minha amiga no Fakebook, se disse espantada de eu ainda disputar com os peludos se eles dormirão comigo ou não. Se me conhecesse um pouco melhor, bem provável que se espantasse dos gatos ainda insistirem em dividir cama - e travesseiro! - comigo. Conto aqui um pouco dessa questão tensa que é dormir.
De início, as primeiras duas semanas, uma maravilha: eles dormiam na cadeira "deles", eu na minha cama. Se durante a noite precisavam ir ao banheiro - onde fica sua caixa de areia -, atravessavam meu quarto sem fazer barulho. É que ainda se consideravam visitas. Foi notarem que a casa era deles também e folgaram. Talvez tenha sido esse o período mais tenso da nossa relação noturna - até esta semana. Quando eu pensava em dormir, eles acordavam com a pilha toda. Não importava a hora: se num dia eu ia dormir à uma, eles estavam hiperativos às dez pra uma. Se no dia seguinte eu fosse dormir às três, à uma eles dormiam satisfeitos, e às dez pras trés eles acordavam - na pilha. Correm, pulam, derrubam, brincam, batem, sobem na cama, miam, sacolejam, alopram: tudo o que não haviam feito o dia todo, quando eu estava acordado - ou sequer estava em casa -, os dois dito cujos faziam na hora que eu ia dormir - e não havia o que fizessem param. Até então minha cama tinha um estatuto ainda ambíguo, certas noites era apenas um dos brinquedos desse apertado parque de diversões notívago, outras era a cama deles também. Meu irmão passou uma semana em minha casa nessa temporada, sofreu com a hiperatividade deles: houve uma noite que ele trancou os dois na sala, junto comigo, sem lembrar de pôr junto a caixa de areia. Foi durante a visita de meu irmão que eles, pelo visto, passaram a identificar a cama mais com o dono do que com a cama mesmo: antes de serem trancados sem banheiro novamente, passaram a me procurar para dormir.
Essa fase passou, felizmente. Digo, a fase de fazerem bagunça justo na hora em que vou dormir: agora eles esperam eu começar a roncar para só então tocarem o terror no apartamento, conforme verifico seguidamente pela manhã. Não me acordando, não me incomodo. A nova - e atual - fase, apesar de mais tranqüila, não o é de todo. Seria, se Mafalda seguisse os passos de Guile: ele chega, sobe pelos pés da cama, procura um lugar livre na metade de baixo, deita e dorme. Mafalda, não. Ela chega miando, não sei se anunciando sua chegada ou reclamando de não ter sido chamada, sobe na cama, passa por cima do meu rosto, cheira meu nariz, se preciso, passa por cima do meu rosto de novo, e insiste até achar uma brecha e dormir de conchinha: ou ela "por trás", uma pata entre meu braço e o corpo, se eles estão próximos, ou ela enconchada, se acaso deixo espaço entre o braço e o corpo suficiente para se enfiar. Para coroar, começa a roncar. Sim, também acho uma graça gato ronronar - mas não quando quero dormir! Aquele barulho bem junto ao meu ouvido e aquela mini britadeira me chacoalhando. Tento afastá-la, ela reclama, volta, afasto uma vez mais, ela demora pra voltar, e quando volta (se volta) já não estou mais neste mundo.
Esta semana, em outra (incomum) noite de insônia, Mafalda querendo dormir de conchinha, coloquei ela pra dormir junto com Guile, nos pés da cama - uma, duas, três vezes. Até os cobri com um outro cobertor - para ficarem mais à vontade. Ela reclamou, desceu da cama, logo voltou, ficou com o irmão e dormimos. Manhã seguinte, preparo minha vitamina para o café da manhã e vou me sentar na espreguiçadeira que tenho - um tecido em uma armação de metal. Ao sentar, sinto o pijama molhar. Me levanto, desacreditando que fosse o que parecia ser. E era: ela tinha mijado em minha espreguiçadeira (por sorte, para limpar é só jogar na máquina de lavar). Passou o dia arredia, mesmo à noite, quando tentei fazer as pazes. Na hora de dormir, se achegou direto com Guile. Gostei, e se ela se sentia vingada pela nova distribuição na cama, nem reclamaria mais da sua travessura. Por vias das dúvidas dormi com uma orelha em pé.


02 de julho de 2015