quinta-feira, 30 de julho de 2015

Um café com a Nova Ruth

E não é que a Nova Ruth me respondeu? Mandou um texto muito bem escrito com uma "Receita para uma paixão platônica de sucesso". Meu coração brega quase não resistiu. Sua mensagem me fez lembrar a receita do Leminski para um bom poema - e aqueles bigodões do poeta me soaram exógenos na bela face da Nova Ruth. Tratei logo de esquecer o poema, Leminski e seus bigodes na Nova Ruth, e respondi fazendo alguns ajustes na receita e passando as duas novas crônicas em que ela era móbil. Ela achou as correções pertinentes e me chamou para um café - assim, na chincha. Quer dizer, na verdade ela me deixou escolher entre a "Caverna de Platônica Paixão" e o "Imperfeito Iluminado Mundo Real (a-crônico)". Claro que não hesitei em abrir mão da crônica - já pensava no nosso romance. Mas eu quis parecer difícil e disse que estava com a agenda cheia. Ela não se incomodou e marcou o café para a semana seguinte. Não achei que ela fosse se conformar tão fácil e tive que passar uma semana nessa angustiosa espera, que aproveitei para ensaiar como me aproximar, elenquei assuntos interessantes para a conversa e temas impertinentes, fiz para mim mesmo todas as piadas infames que ela me despertara, para não correr a tentação na hora - afinal, minha veia humorística ainda pulsa -, e até passei a roupa que ia usar (estréia do meu ferro de passar, comprado em maio do ano passado).
Enfim, o encontro com a nova Ruth!
Para não parecer ansioso, cheguei apenas dois minutos adiantado. Ela não estava. Me sentei no balcão, na última banqueta, e fiquei esperando. Com seis minutos de atraso ela chegou. Ah... a Nova Ruth, pensei. Se sentou do meu lado e fez seu pedido - a mesma simpatia radiante de dois meses atrás. Olhou para a porta, me ignorando solenemente. Não me deixei abalar, e pus em ação meu plano de aproximação: cutuquei-a e disse um oi com uma entonação mais tchã - se é que me entendem. Ela me olhou, disse um oi seco e se virou. Não imaginava que ela fosse se fazer de tão difícil. Insisti: Nova Ruth? Eu sou o Mick Jagger... Aí ela foi mais simpática: ah, oi! Nossa, nada a ver com a foto do seu fake. Senti ali uma ponta de decepção - ela diria mais tarde que não -, mas não desisti, e encetamos assim a conversa - muito boa, passado esse desconforto inicial, eu de ter que conversar com minha paixão platônica, ela de ter que conversar com seu apaixonado platônico. Papo vai, papo vem, notei que minha imagem platônica era quase perfeita diante da apresentação não-platônica. Apenas uma hora, pra me certificar se realmente acertara em tudo, perguntei se ela curtia Chrysta Bell e ela me respondeu que não era de curtir fossa, muito menos ficar ouvindo músicas pra se afundar mais; no resto, sei que acertei. Depois de longa conversa sobre assuntos variados, ela chegou nos finalmentes. Muito fofamente me disse que não gostava de se expôr e não tinha aspirações para ser sub-celebridade (não foi bem assim que ela disse, mas simplifico), e terminou com um golpe certeiro na alma deste cronista: caso ainda seguisse paixão, ela deixava de ser platônica, afinal, ela estava ali, na minha frente, e já até havíamos encostado bochecha com bochecha, logo, não cabia mais crônicas sobre a Nova Ruth. Fazia sentido e, como já comentei alhures, nada mais quebra-clima, quebra-paixão, do que uma contradição gritante - e o Segundos Analíticos ainda pulsa, eu parafrasearia Arnaldo Antunes. E fazia mais sentido ainda na medida em que uma coisa é Ruth, a balconista bochechuda e sardenta, de quem nada sei além disso; outra é a Nova Ruth, de quem, graças ao Fakebook, sei nome, sobrenome, onde trabalha, com quem anda, que festas freqüenta, o que fez no verão passado e coisas do tipo. Assim sendo, não tive outra opção que decretar o fim da Nova Ruth - mas, para não me deixar na mão, ela me indicou um encontro de ruivas onde posso tentar me deparar com a Nova Nova Ruth. Fiquei de pensar na indicação - haveria um balcão no encontro?
30 de julho de 2015

obs: a pedido da Nova Ruth, nomes foram ocultados









um bom poema
leva anos
  cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
  seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
  sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
  três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
  uma eternidade, eu e você,

caminhando junto