sexta-feira, 8 de outubro de 2010

O segundo turno é do mal

O título acima não foi só para chamar a atenção ou para chocar. Se acaso você se sentiu chocado, sinal de que não acompanhou a campanha eleitoral deste ano. Ou se acompanhou, o fez de maneira impressionantemente displicente ou cega – escolha. Antes do início da campanha, até o comecinho, eu até torcia por um segundo turno – afinal, as três principais forças eram oriundas da esquerda, duas delas do nacional-desenvolvimentismo –, pois havia a promessa de um debate político quente. Promessa de político tem má-fama no Brasil, essa não foi diferente.

O primeiro turno foi algo como temeroso e lastimável. Dilma pedia para esquecerem seu passado, ainda que pouca gente, praticamente ninguém, soubesse quem ela tinha sido. No máximo sabiam que ela era “a mulher do Lula”, sendo que a mulher do Lula é a Marisa Letícia.

Serra, por seu turno, não pedia para esquecerem nada, mas reescrevia sua história, assumindo um discurso neo-udenista tosco, que apelava aos órfãos da marcha pela família, com deus, pela liberdade.

Já Marina… bem, Marina é a boa moça, a moça para casar, a conservadora de fala firme que não diz nada, o discurso moderno no modelito retrógrado, um sabonete político feito por publicitários sem cor com ingredientes amazônicos (biopirateados pelo vice?). Em suma: o Alckmin de saias, com a diferença que este é da Opus Dei, aquela, da Assembléia de Deus.

O segundo turno, recém terminado o primeiro, mostrou que tinha tudo para ser muito pior. Não precisava ser assim: bastava que os dois candidatos agissem como políticos e não como fantoches – desprovidos de vontade e idéias próprias – nas mãos de publicitários. Um acordo entre os dois para evitar baixar (ainda mais) o nível da campanha e até, quem sabe, trazer um pouco de política ao debate (que ficou por conta do velhinho punk do PSOL), mostraria a estatura de ambos e que seriam realmente dignos de serem presidentes da república. Não são. Ganhe quem ganhar, será uma farsa no poder.

Excluído o lado conservador da disputa, Serra e Dilma brigam não só pelo seu apoio como para ocupar seu espaço. Não se trata de atrair os eleitores para suas idéias, trata-se de ir até onde os eleitores estão, de se camalear para ser o que querem que eles sejam. Serra agradece a Deus o resultado do primeiro turno. Mas o Estado não é laico? E não seria mais condizente agradecer aos seus eleitores, visto que Deus não tem título de eleitor no Brasil? Dilma é contra o aborto, mas não era uma questão de saúde pública até pouco tempo atrás? Agora virou sem-vergonhice?

A cereja do bolo ficou por conta do novo slogan de campanha de Serra: “Serra é do bem”. Jogada publicitária fantástica: tenta desqualificar a adversária sem falar diretamente mal dela. Afinal, se Serra é do bem, pelo silogismo precário que impera no nosso ambiente social, importado pelas campanhas políticas, Dilma só pode ser do mal. Ademais, cria outra boa identificação: quem mais é do bem? Sim, Deus e Jesus Cristo. A divisão do mundo em bem e mal é o discurso que se ouve nas igrejas neopentecostais (ligue a tv e confira), nos extremos políticos burros – à direita e à esquerda. Serra, ao aceitar essa grande jogada publicitária mostra sua diminuta estatura. Dilma, ao menos, é o fantoche de Lula, não de Luiz Gonsalez.

PS: apenas para deixar claro meu voto: justifico e me nego a legitimar nosso tratante sistema democrático-político-partidário-eleitoral. Faço isso desde que tirei meu título.

Campinas, 08 de outubro de 2010.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

As pesquisas e as eleições

Gosto dos gráficos de pizza, mais ainda dos de linhas que sobem e descem. Talvez sirvam para compensar o quanto não gosto de montanha russa, ou o quanto gosto de seguir por aí sem grandes sobressaltos, tranqüilo. Gostar de gráficos, contudo, não me parece bastar para me tornar um estatístico ou qualquer coisa minimamente semelhante a. Tive duas disciplinas de estatística na universidade, uma péssima, na psicologia, outra ótima, nas ciências sociais. Nesta, o professor, o Paulinho - nunca me dei ao trabalho de saber qual seu sobrenome -, ciente de que havia um curso de quatro anos para ensinar a parte técnica da estatística, preferiu passar alguns conceitos e a linha de raciocínio básica da ciência nos seis meses que cabia àquele bando de gente que já nem as quatro operações básicas devia saber – se é que se lembrava o que eram as tais quatro operações básicas (greve, protesto, barricadas, revolução?). Talvez eu tenha aprendido errado, não sei, mas me arrisco aqui a falar do que não sei.

Se entendi bem, alguém com o dobro de intenção de votos do adversário não pode estar tecnicamente empatado. Com cinco vezes mais votos, menos ainda. Mas segundo Datafolha, Ibope e afins, se o candidato 1 tiver 8% e o candidato 2, 4% dos votos, com 2 pontos percentuais de margem de erro, estão “tecnicamente empatados”. 5% a 1%, a mesma coisa. Mesmo não sendo estatístico, não soa muito sensato isso. Ah, mas isso é coisa dos peixes pequenos, nem vale a pena perder tempo, vai dizer o leitor interessado na grande política. Displicente leitor, esse pequeno erro em dizer que 1% e 5% estão tecnicamente empatados equivale a dizer que Tiririca e Ivan Valente estavam disputando voto a voto o topo da eleição para o congresso em São Paulo.

Bem, talvez esse pequeno lapso ocorra porque os tais dois pontos percentuais devessem ser aplicados sobre o índice dos candidatos e não sobre a base 100. Daí que, conforme o Datafolha da véspera das eleições, Dilma teria 50%, entre 49% e 51%, na margem de erro. Serra, com 31%, poderia ficar entre 31,6% e 30,4%, e Marina oscilaria entre 17,3% e 16,6%, Plínio, por seu turno, com seu 1% que eventualmente alcança, oscilaria não entre 0% e 3%, mas entre 1,02% e 0,98%.

Porém vamos dizer que eu e minhas aulas de estatística com o Paulinho da Gpp e o bom senso estamos errados nisso, e vamos acreditar na margem de erro dos institutos de pesquisa e da Rede Globo e da Folha e da Grande Imprensa em geral, essa que merece até letra maiúscula, pra gente se lembrar que ela é grande (e de que é imprensa).

Datafolha e Ibope para presidente: Dilma, Serra, Marina: 50%, 31%, 17%; 51%, 31%, 17%, respectivamente. Resultado das eleições (arredondando): 47%, 32%, 19%. Serra e Marina ficaram na margem de erro, mas existe acertar pesquisa pela metade? Creio que não.

Nos estados, escolho aleatoriamente cinco. Começo por Minas. Pelo Datafolha de véspera, para o governo: Anastasia, 55%, Hélio Costa, 42%. Nas urnas, 62% a 34%. Sem comentários. Para o senado, Aécio, 43%, Itamar, 27%, Pimentel, 23%. Nas urnas, 39%, 26%, 24%. Uhhh!!! Fosse futebol e isso seria quase uma bola na trave! Quem sabe no próximo estado, Ceará. Pelo Datafolha, Cid Gomes levava por 65% a 19% de Lúcio Alcântara. Mário Cals teria 14%. O TSE resolveu, veja que audácia!, desmentir a Folha – mais uma prova do golpismo do Lula: 61%, 20%, 16% respectivamente para Cid, Mário e Lúcio. No senado, outra vez o TSE resolveu contrariar o Datafolha. Enquanto este dava Eunício com 33%, Tasso com 31% e Pimentel com 29%, o governo resolveu dizer que Eunício teve 36%, Pimentel, 33% e Tasso, 24%.

Como o Instituto Datafolha parece estar meio ruinzinho nos palpites, resolvo tentar o Ibope. Ia ver como foi no Paraná, mas me lembrei que as pesquisas foram proibidas pelo candidato vencedor, temeroso de um segundo turno. Até liberaram na véspera, mas estava difícil achar. Desço um estado, ao “Maranhão do Sul”, como é carinhosamente chamado politicamente o estado de Santa Catarina. Prevê o Ibope: Colombo, 41%, Amin, 27%, Ideli, 16%. Contradiz o TSE: Colombo: 53%, Amin: 25%, Ideli, 22%. Senado: Luiz Henrique: 28% na ficção contra 31% no Ibope (há quem diga que é o contrário, mas não custa lembrar o caso Proconsult. Por sorte, todos os candidatos importantes do momentos estão bem amestrados), Paulo Bauer: 25% na ficção, 22% no Ibope; Vignatti, 22% no Ibope e 19% na ficção. Proporcionalmente, 17% de acerto – na margem de erro –, ou seja, o Ibope não conseguiria nem vaga pro senado...

Como o negócio está feio e o texto começa a ficar grande, resolvo ver só quatro estados, e o último há de ser o do principal estado da federação (sic), São Paulo. Nada muito promissor, pois se erram para presidente, em São Paulo claro que errarão também, e eu sei de um erro grosseiro de antemão. Todos sabemos, menos os donos dos institutos de pesquisa e os jornalistas da Grande Imprensa.

Governador. Datafolha: Alckmin: 55%, Mercadante: 28%, Russomano: 9%, Skaf: 5%. Senado: Netinho e Marta: 24%, Aloysio: 20%, Tuma: 14%. Ibope: Alckmin: 51%, Mercadante: 33%, Russomano: 8%, Skaf: 6%. Pro senado: Marta e Netinho: 27%, Aloysio: 19%, Tuma: 12%. Na ficção do TSE: para governador, Alckmin, 51%, Mercadante, 35%, Russomano, 5% e Skaf, 5%. Uhhhh!!!! A pesquisa Ibope chegou a tirar tinta da trave na pesquisa para o governo paulista! Já para o senado, Datafolha e Ibope podem se afogar juntos, e tentar se explicar como alguém sobe 10% (uns quatro milhões de votos) em uma noite: Aloysio Nunes: 30%, Marta Suplicy: 23%, Netinho: 21%, Ricardo Young: 11%. Outra explicação que os institutos devem é quem é esse tal de Young, visto que o quarto lugar foi sempre dedicado ao xerife Tuma, depois da desistência do Quércia.

Em resumo, depois deste texto longo e cheio de número e %, típico de alguém que não entende nada mas adora ver gráficos e essas coisas: para estatística, numerologia deve ter um índice de acerto não muito longe dos dois principais institutos de pesquisa do Brasil, tendo em vista que, pela amostragem acima, o acerto foi de 0% (fosse índice de eleição e perdia até pro Zé Maria, do PSTU). Claro, isso não quer dizer que Datafolha, Ibope, VoxPopuli e outros não tenham sua utilidade. Em caso de bolão no bar, por exemplo, eles dão alguma base, alguma dica pra você fundamentar seu chute, se sentir menos inseguro na hora de palpitar. Ao menos se furar muito feio pode se eximir da vergonha: pô, tinha visto no Datafolha, por isso achei que a Marina ia ganhar. De qualquer forma, não vale perder tanto tempo com essas pesquisas: numa boa conversa de bar, além de maiores chances de acerto dos resultados, de visões políticas mais aprofundadas do que as análises dos analistas da Grande Imprensa, dá para se divertir muito mais com o bolão!


Pato Branco, 04 de outubro de 2010.

sábado, 2 de outubro de 2010

Adjetivos

Prescindir de adjetivos num texto – não necessariamente escrito –, sem que esse texto se empobreça é uma difícil técnica, que poucos alcançam, até porque é pouco estimulada – vide a supervalorização da encheção de lingüiça. Não falo em abolir os adjetivos, mas utilizá-los o mínimo possível, apenas quando necessários. Dalton Trevisan é a grande referência nesse estilo.

Por favor, não seja precipitado, ó leitor, em achar que sou contra o uso de adjetivos. Não! Acho que seu uso é importantíssimo para tornar o texto mais leve fluido agradável. O problema é quando são mal empregados ou utilizados em excesso – o que costuma representar a maioria dos casos.

Da minha parte, tento me controlar: sei que se eu soltar a pena, minha descrições acabam por tornar o texto longo piegas choroso cansativo, em suma, chato. Outros momentos, em meus textos opinativos-políticos, peso bem a adjetivação porque sei que, a depender do termo usado, todo o argumento fica obnubilado por uma provocação que torna uma possível discussão em garantida rinha. Diga-se de passagem, esse é um expediente usado por jornalistas para se passarem por vítimas quando já não possuem muito o que falar – Clóvis Rossi, da Folha, me parece o melhor exemplo.

O Rossi, definitivamente, não é alguém em quem me espelho. Porém anda difícil, nestes últimos tempos, maneirar nos adjetivos em meus textos – boçal, idiota, trouxa, palhaço, e por aí vai. Atribuo isso ao meu corrente mau humor, o qual creio ter como uma das causas principais as eleições – essa grande farsa da pseudo-democracia brasileira. Daí minha grande torcida para que amanhã as eleições se resolvam em primeiro turno, todas elas, para encerrar logo essa nossa longa agonia (apesar de curta no tempo), visto que política mesmo, debate de verdade, isso não houve nem haverá.

E já peço desculpas à leitora se meu mau humor persistir uma semana mais: sinal que a justiça eleitoral resolveu me complicar a vida na hora de justificar minha deliberada ausência do meu sagrado dever de votar. Ou que talvez não fossem só as eleições quem pisassem em meus calos.

Pato Branco, 02 de outubro de 2010.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Eleições limpas? O caminho é longo.

Esperava a decisão do STF sobre lei da ficha limpa para escrever esta crônica, porém escrevo sem decisão, mesmo. Não que ela alteraria o que pretendo escrever, apenas o início. Pois bem, das considerações iniciais pensadas, deixo aqui expresso que sou favorável à lei. Entretanto, é uma lei que tem uma eficiência muito pequena. E, pior, repete os vícios do nosso sistema político-partidário.

Nada mais lógico que barrar candidatos condenados pela justiça de serem representantes do povo. Parênteses: se fossem mesmo representantes do povo, por que se deveria ter normas sobre quem pode e quem não pode sê-lo? Fecha. Ela porém vem apenas como punição a quem já cometeu atos ilícitos: sua influência em desestimular outros políticos de seguirem por trilhas similares (e são muitas) decresce à medida que aumenta a sensação de impunidade. Uma lei para longo prazo, portanto.

De qualquer forma, repare que a lei e suas possíveis reverberações se dão em políticos, em candidatos, em pessoas. E com os partidos políticos, o que acontece? Afinal, não existe, no Brasil, candidatura independente. Ora, os partidos fingem que não têm nada a ver com seus quadros, e seguem aceitando e se vangloriando de nomes como Maluf, Collor, Roriz.

A lei da ficha limpa começaria a ter efetividade na cultura política nacional a partir do momento em que estendesse a punição também ao partido que deu abrigo ao infrator, seja na época em que ele cometeu algum crime como administrador público, seja quando concorreu às eleições. Punição que poderia passar por multas, perda do dinheiro do fundo partidário, do tempo no horário da tv, até ao banimento da legenda, a depender do número de foras-da-lei filiados. Isso obrigaria os partidos a serem minimamente criteriosos, se não na admissão dos seus filiados, ao menos na seleção dos seus candidatos e dos seus quadros – afinal, se se trata de partido, porque um bode expiatório resolveria a culpa de todos? Por outro lado, isso poderia dar um pouco mais de força aos políticos para cobrarem dos partidos certa coerência programática-ideológica. Sei que uma lei só não faz a redenção, mas dá uma ajudinha.

Por conta disso, comemoro a lei da ficha limpa, mas não a considero um avanço: apenas um começo – que o caminho para eleições limpas ainda é longo.

Campinas, 24 de setembro de 2010.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Dia da piada do dia sem carro

Ultimamente meu mau humor tem excedido limites aceitáveis, toda vez que vou fazer papel de idiota e pegar um ônibus urbano em Campinas. Meus pais bem queriam que eu tivesse carteira de motorista, carro e tal, eu que sou teimoso e insisto em vivenciar certas situações.

Estava no ponto esperando a (única) noiva – que pelo tanto que demora, os ônibus em Campinas podem ser chamados de noivas – que me cabia na rodoviária (que chega a ter intervalos de 52 minutos entre um ônibus e outro, conforme a página da Emdec), e pensei se não era melhor engolir aquele mau humor, fazer de conta que o lixo quotidiano é também normal. Seria mais cômodo. Mas como já tenho eventuais problemas de digestão, achei melhor manter meu mau humor e, mais, compartilhá-lo com os poucos infelizardos que me lêem.

Esta semana tivemos a jornada internacional na cidade sem meu carro. Não sei como é em outros países, desconheço em absoluto. No Brasil essa jornada é patética, situada algo entre a palhaçada e a idiotice. Em Campinas, o estímulo ao dia sem carro teve até um episódio grotesco, para completar a cena. Domingo a prefeitura, para promover o evento de quarta, organizou um show gratuito, às 11h da manhã, na lagoa do Taquaral. Como moro perto, tivesse carro, poderia sair às 10h30, contando dez minutos para achar vaga para estacionar. Como não tenho, saindo às 9h eu tinha chances de chegar justo na hora – se tivesse sorte nos horários das baldeações. São Paulo não ficou tão atrás no grotesco, com pessoas circulando em cavalos e bois pela avenida Paulista.

Mas, para não parecer que eu só ranzinzo negativamente, ranzinzarei aqui positivamente, com algumas sugestões para o ano que vem tornar a tal jornada algo sério e não um evento irrisório cuja única marca são os cartazes.

Primeiro pressuposto: sei que é coisa de economistas, mas nestas horas os políticos sempre se esquecem de consultá-los: vamos trabalhar com “expectativas racionais” dos cidadãos, e não “expectativas polianais”. Ninguém vai deixar o seu Civic na garagem por uma mera questão de civilidade. Se fosse assim, fariam o ano todo, e não só no dia 22 de setembro. Portanto, se a idéia é sensibilizar as pessoas, deve-se ou tomar uma atitude chocante, ou fazer algo que dure um pouco mais. Poderia multar todo mundo que saísse de carro no dia: infração gravíssima, sete pontos a mais na carteira e 500 reais a menos. Me parece uma opção burra, em todos os sentidos. Sou mais de forçar certa adesão demi-voluntária. Daí que ao invés de um dia deveria ser uma semana, para as pessoas poderem planejar um quotidiano sem carro – idas ao trabalho, compras, festas, shopping, etc.

Mas isso, claro, não basta. Há 52 semanas por ano em que as pessoas podem fazer isso e se não fazem, é pela razão óbvia que não há qualquer estímulo. Frases do tipo “começa com você” só servem de estímulo para vender ingressos, não para mudar qualquer atitude. O transporte público, por essa semana, que seja, precisa ser vantajoso para o usuário, e não para o dono das empresas.

Economicamente significa que ônibus tem que ser mais barato que carro. Tomemos um trajeto mediano, coisa que se faz em 45 minutos, uma hora à pé: quatro quilômetros. Ignoremos as pessoas que vão à padaria da esquina de carro (e não são poucas), não apelemos às grandes distâncias. Ida e volta são oito quilômetros, e vamos supor que o carro não seja lá muito econômico, e nisso consuma um litro de gasolina, R$ 2,50, portanto. Usar esse carro para essa distância só deveria ser mais barato do que ônibus se quatro pessoas estivessem no carro na ida e duas na volta. Para tanto, a passagem de ônibus deveria algo em torno de R$ 0,50. Em Campinas está em R$ 2,60. Em São Paulo, R$ 2,70. Impossível esses R$ 0,50? No dia a dia pode ser, mas convém lembrar que a tarifa integrada metrô-trem-ônibus-etc em Madrid sai 0,90 Euros. Mas há planos bem mais em conta para quem usa transporte público diariamente.

Porém, apenas dinheiro não é suficiente para que se deixe o carro em casa. É preciso haver racionalização dos trajetos. Racionalização pensando no usuário, e não no lucro do dono das empresas. Um trajeto que me é muito familiar, e que já reclamei acima: do terminal Barão até a rodoviária (não faço da minha casa para não ficar muito irreal). Diz-me o Google Mapas que a distância entre esses dois pontos é de 10km. Diz-me a página da empresa que organiza o trânsito em Campinas que a distância entre esses dois pontos é de 25km. Convenhamos não é muito convidativo passar 38 minutos num ônibus (sic. são 50) quando se pode ir em 18 minutos de carro (sic, em 15 se chega tranqüilamente). E não estou propondo aqui uma linha direta, sem paradas, e sim uma que passe por bairros bastante povoados. Também não adianta fazer em 20 minutos esse trajeto se se espera 52 minutos pelo ônibus – e olha que estamos falando do ônibus que serve a rodoviária e não terminal-bairro, em que fica um pouco mais feio. Novamente um tempo máximo de espera deveria ser estipulado: dez minutos para linhas principais, vinte para as secundárias.

Como seria apenas uma semana, não dá para trocar de ônibus, querer carros mais confortáveis, o máximo que se pode pedir é que os motoristas (alguns) sejam um pouco menos brutos ao volante: certamente se carregassem tomates seriam demitidos na segunda viagem. E como seria por uma semana, as empresas não faliriam em estimular o uso do transporte público, a melhora da qualidade do ar, o convívio entre as pessoas, etc.

Por fim, faixas das ruas exclusivas para bicicletas (quem sabe o governo federal não se animasse e abrisse uma linha de crédito para a compra de bicicleta elétrica?), e semáforos que dessem preferência à passagem dos pedestres e não ao fluxo dos veículos

Há apenas um porém em toda esta minha proposta: não falei que a campanha pelo dia sem carro deveria se pautar em expectativas racionais e não em expetativas polianiais dos cidadãos. Pois é de esperar o mesmo dos donos do poder, os donos das empresa e os político. Resumindo: em 2011 espere uma jornada internacional pela cidade sem meu carro tão idiota quanto a de 2010: shows para quem tem carro, passeios a cavalo, cartazes e camisetas espalhados por aí, propagandas, “Começa com você”, e tudo como está, porque onde se deve realmente começar, esses não têm o menor interesse, e a parte que cabe a nós, se nós formos realmente fazer, teremos que enfrentar a polícia.


Campinas, 22 de setembro de 2010.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

A escolha entre o seis e o meia-dúzia

Está difícil acompanhar o ritmo da campanha presidencial deste ano. Tinha escrito uma crônica na segunda, mas por conta de excesso de afazeres não tivera tempo de passar pro computador. Resultado: o assunto já não é mais o da vez. Assusta, contudo, a forma como o “quarto poder” tem participado das eleições, em muito lembrando 1989. Não critico a imprensa por ser investigativa, critico por ser parcial, e por ser investigativa apenas em momentos que ela julga oportunos.

Escutei há pouco no rádio. Enquanto Dilma Rousseff chama uma das suas principais assessoras quando integrante do governo – a qual só chegou a ministra por influência bem calculada da petista –, de “uma ex-assessora”; do outro lado dessa disputa política de araque, José Serra critica o uso do Estado para fins particulares e de partido, e diz que em 27 anos de vida pública nunca teve problema do tipo – o que talvez até seja verdade, se se ignorar que fez parte do governo FHC e teve Alckmin como seu secretário. Para arrematar concluiu que basta pôr pessoas certas e ilibadas nos cargos que desvios de conduta não ocorrerão mais.

A frase está correta, não tem como discordar dela, mas é assustadora.

Desde quando se descobriu que as pessoas que fazem políticas não são anjos, havendo seguidamente desvios – por ma-fé ou por equívocos naturais ao ser humano –, e se instituiu um sistema democrático representativo, escolher pessoas probas é importantíssimo. Tão importante quanto, porém, é implementar e melhorar sistemas institucionais de fiscalização e controle da conduta dos chamados homens públicos. Ficar na dependência da boa vontade e bom aconselhamento do governante de turno não é um caminho seguro para um país menos corrupto.

Por fim. Muito se tem falado – absurdamente – que a safra de “escândalos” petista aponta para a ruptura do Estado Democrático de Direito, deixando o país a um passo do fascismo. Coincidentemente, uma das características dos estados fascistas do século XX era o personalismo excessivo dos seus líderes, que se auto-apregoavam todas as virtudes humanas – inclusive a de saber tudo sobre seus assessores, a ponto de prescindir de mecanismos legais e institucionais que viessem a cercear toda sua capacidade.

Campinas, 17 de setembro de 2010.

sábado, 4 de setembro de 2010

Pára, que pode ser que o cachorro te morda

Já é de longa data que não acredito na pureza da infância. Que as crianças sejam castas, tudo bem: dizem que faz bem ao desenvolvimento psicológico e emocional. Mas santas puras castas e ilibadas, como pretendem as mães sobre seus pimpolhos, aí é forçar a barra. Inclusive, duvido que as mães realmente acreditem nessa pavada. Não que eu ache que a criança se corrompa ao sair das entranhas da mãe, não. Até porque não sou simpático a teorias sobre a natureza humana – seja a bondade ou a maldade inata.

Já teve vez que quase cheguei a ficar com medo de crianças. Foi depois de ler O marinheiros que perdeu as graças do mar, do Yukio Mishima. Crianças nada puras, nada santas, e sem qualquer justificativa social, como em Os capitães da areia, do Jorge Amado. Apenas sadismo.

A lembrança de Mishima não é sem propósito. Voltava para casa no início da noite e me deparei com duas crianças com seus cinco, seis anos, brincando de bater ou atirar garrafas pets vazias em dois cachorros de pequeno porte, acuados contra o portão de casa. Tinha sérias intenções de parar e perguntar o porquê deles estarem fazendo aquilo, se achariam graça se fossem eles os acuados. Perguntaria de boa, mais para ver se se tocavam. Quando eu me dirigia a eles, porém, a mãe de um mandou que parassem com aquilo: “Pára, que pode ser que o cachorro te morda”.

Fiquei perplexo diante do argumento e preferi seguir meu rumo. O problema de maltratar os animais era que eles poderiam se rebelar e devolver os mal-tratos! O sadismo e a covardia da brincadeira não mereciam qualquer menção! Pode-se argumentar que a questão do especismo é pouco conhecida, discutida, e muito difícil de ser lidada – os veganos que o digam.

Porém, na sociedade atual, os animais não são alvos exclusivos desse tipo de brincadeira. O bullying entre crianças ou atear fogo em pobre, como muitos jovens gostam de brincar, mostram que o que presenciei não era algo atípico, apenas de pouca importância por não se tratarem de pessoas. Ou melhor, por não se tratarem dos cachorros ou dos filhos daquela mãe que gritou ao filho “Pára, que pode ser que o cachorro te morda”.

Campinas, 04 de setembro de 2010.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Literatura de esquerda com moral da história

Esta semana fiz uma coisa que até então eu só fizera uma vez na vida: parar de ler um livro no meio. Claro que eu só poderia ter feito isso em vida! Quando mais seria, sendo que nunca morri e nem acredito que se possa fazer algo depois de morto, a não ser por procuração? Enfim, volto à interrupção. Não que eu ache isso uma heresia ou uma profanação, não. Minha questão é que costumo ter boa vontade para com a literatura, sempre acredito que ela, mesmo não sendo boa, não é perda de tempo.

O primeiro livro que desisti antes do fim foi Diário de um magro, do Mário Prata, isso já vai pra mais de dez anos. Não lembro de nada do livro, só que achei ele muito, mas muito ruim. O eleito desta vez foi Fausto Wolff e seu À mão esquerda. Não achei o livro ruim – fraquinho, não recomendaria, porém ruim não é–, mas ao chegar na página 200 me dei por satisfeito, decidi que pouco teriam a me acrescentar as 300 páginas restantes – ainda mais quando em minhas prateleiras Vila-Matas, Perec, Pinilla e Campos de Carvalho me esperam. Contou também para minha decisão, admito, o fato de Wolff ou seu livro não serem tidos por obra ou autor de referência – motivo pelo qual me arrastei dolorosamente até o fim do On the road, do Kerouac. Quem sabe se ele tivesse morrido há mais tempo. Por fim, ainda que não fosse motivo para interromper a leitura, me sinto aliviado por não prosseguir por aquela história de um anti-herói exemplar, da luta do bem contra o mal, com moral da história ao fim de cada capítulo (cheguei ao trigésimo).

Por sinal, isso me intriga: por que tantos escritores de esquerda se vêem necessitados de escrever histórias com moral, não raro explicitando-a? Uns o fazem de maneira mais elaborada (Steinbeck), outros, mais tosca (Brecht), mas no fundo são devotos enrustidos pregando uma moral cristã-católica, com o reino dos céus reservado para os pobres – boas almas ilibadas e sofredoras – assim que a revolução chegar. Por conta disso, apesar de gostar de Steinbeck, não raro prefiro autores conservadores, como Borges ou Nelson Rodrigues, justo por eles conseguirem de maneira bem mais profunda nos instigar a pensar, a questionar e – por que não – a desejar uma revolução, um mundo radicalmente diferente.

Campinas, 18 de agosto de 2010.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

La que le gusta el negro!

Ainda há pessoas que me estranham quando digo que não gosto de jogos de baralho. Principalmente aquelas que sabiam da existência, por quase dois anos, de jogatinas (regadas a muito chimarrão e bolos e tortas e troca de receitas) semanais na minha casa. Os jogos eram Master, Imagem e ação, presidente e mau-mau (praticamente os únicos jogos de cartas dos encontros), nada que justificasse o nome de jogatina.

Acho truco um jogo chato, pessoas gritando me cansam, e a única graça que vejo é tentar quebrar esse clima testosterônico que ele acaba por gerar. Pôquer, quase parece legal. Talvez se algum dia eu tivesse jogado sua versão strip na companhia de mulheres reconhecidas por seus dotes físicos, a história fosse diferente. Como nunca joguei…. Cacheta, acho que é trauma de infância, que sempre perdia pro meu pai, e quando este não jogava, para meu irmão. Os demais – canastra, buraco, sei lá quais outros – sempre achei que podia usar minha memória para guardar coisas mais interessantes, como, sei lá, a ordem das músicas dos discos do Patu Fu.

Porém, mais do que estranhamento, chega a causar certa indignação quando digo que prefiro dominó a cartas. Não que eu ache dominó um jogo legal, emocionante, ele serve mais para ilustrar meu gosto por baralho. Isso até este domingo.

Recém-chegado de viagem, a geladeira vazia, fui ao mercado. No caminho encontrei a Aline, amiga de longa data, que me chamou para almoçar na casa do namorado um almoço cubano. Aceitei de pronto. E lá estava eu comendo comida cubana, ouvindo música cubana, em companhia de dois cubanos que contavam causos não só da ilha como da Rússia, Itália, Brasil, e em companhia de uma série de outros latino-americanos (brasileiros, inclusive), bebendo cerveja galega e comendo chocolate estadunidense. Passado o almoço, os dois cubanos falaram em fazer algo típico da ilha nas tardes de domingo: jogar dominó. Reação geral – minha inclusive – foi um “putz, dominó?”. Mas não adiantou reclamar, logo um deles vinha com o jogo.

Ainda que não tenha chegado a lamentar pelos cubanos não terem Faustão e Gugu, pensei que lhes faltava algo de interessante para fazer – discutir política ou futebol, que fosse –, para terem que ocupar seus domingos com dominó. Mas passada a reticência inicial, lamentei é que no Brasil não se tenha tal hábito. Claro, não é o dominó que eu conhecia. Primeiro que tinha mais pedras – elas iam de zero a nove. Segundo que não havia pescar as pedras que sobravam. Por fim, o que restava era um jogo de análise das pedras e das jogadas dos adversários, sem direito a blefe, com leves pitadas de truco – batidas na mesa, falar o nome das pedras –, mas sem tanto escândalo.

Voltei do almoço decidido a comprar um dominó daqueles para mim, e já avisei meus pais que nas próximas férias se preparassem para passar tardes cubanas. Claro, tive que explicar que não, dominó não é um jogo chato. Não se empolgaram muito, nem acreditaram muito no que eu disse. Certeza que quando eu aparecer com o jogo vão soltar um “putz, dominó?”.

Campinas, 09 de agosto de 2010.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Tecnologia expansiva

Na rodoviária, fiquei sabendo que a moça atrás de mim tinha tentado ligar para todo mundo, mas como ninguém atendera, decidira ir para São Paulo, mesmo, e que era para o pai ligar pra Bruna, avisar para ela deixar dinheiro em cima da mesa, para pagar o táxi.

Dia desses, no ônibus para a Unicamp, vi que o cara ao meu lado era amigo de um garanhão arrasa corações. No mesmo trajeto, em outro dia, soube que o namorado – provavelmente já ex – da moça uns três bancos atrás era um baita de um cafajeste, que tinha traído ela com não sei quem, com não sei quantas. Como não fiquei com inveja do garanhão, também não me condoí pela moça.

Já teve um dia, era final de semestre, que acompanhei os últimos detalhes do cruzeiro que o rapaz ia fazer com a avó (que se tratava de um cruzeiro eu só soube quando ele contou aos amigos que bandejavam com ele).

O quadrinista Alan Sieber certa feita reclamou que tinha o azar de toda sessão de cinema em que ia, a sala estar cheia de bombeiros e enfermeiras, que não podiam desligar seus aparelhos por uma hora e meia.

Pior foi a vez que um médico atendeu ao celular durante a consulta. Três vezes! Eu bem já andava desgostando dele – que era meu médico há uns quatro anos –, e isso no máximo precipitou as coisas. Bom para mim, que passei a freqüentar meu atual homeopata, excelente. De qualquer forma, com sorte ou não, julguei e sigo julgando uma falta de educação dele. E acredito que a recíproca dos médicos para com os pacientes seja verdadeira.

Como também falta de educação acho em ficar sabendo dos detalhes das vidas alheias, sem que eu tenha o menor interesse. Sei que celular é estranho, a gente acaba gritando, mesmo que isso não seja necessário. Porém, faz um tempinho que o aparelho está na mão de (quase) todo mundo, já era hora para se ter uma certa etiqueta no uso dos trambolhinhos, regrinhas elementares para evitar o seu uso anti-social, sem precisar esperar a Glória Kalil escrever, quem sabe, um livro sobre – um “Chiq Celular”.

Enquanto isso, sigo com meu sonho de ter um aparelho que você aperta um botão – e tchum! – interrompe-se o sinal de celular pelo entorno por míseros vinte segundos, o suficiente para a ligação cair.


Pato Branco, 26 de julho de 2010.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Receita para um crime de sucesso

Como o interesse pela Copa, e todas as discussões que ela acarretava – técnico, imprensa, craques, refeições dos jogadores, etc –, acabou mais cedo, a imprensa foi em busca de notícias com que rechear a monotonia do dia a dia das cidades.
Teria as enchentes no nordeste. Contudo, além de enchente ser algo um tanto rotineiro nestes tristes trópicos, já era notícia velha, por mais que tenha ficado em enésimo plano frente os guerreiros rumo ao hexa. Haveria as eleições, porém ainda está longe a data de votar, que é quando o assunto vira papo nas esquinas e merece destaque.
Mas eis que a imprensa conseguiu juntar três das principais paixões do país: futebol, sede de sangue e espírito de justiça. Desde 2008 ela vinha tentando criar um novo caso Isabela, mas não encontrava um que emplacasse, por mais que tentasse repetir os elementos. Pelo visto, o caso do goleiro Bruno será assunto para longos e acalorados debates sobre o quanto ele é culpado e o quanto deve ser punido. A imprensa fará a festa, com aumento da sua audiência, os apresentadores policiarescos babarão de alegria, e o povo se ocupará com esse esporte sub-lúdico que só perde em preferência, ao que tudo indica, para o futebol.
Receita de furo jornalístico-policial de sucesso:
Em um programa jornalístico pretensamente sério, junte uma criança com uma morte mal resolvida (pode ser da criança ou não) e reserve. Ao mesmo tempo, coloque os suspeitos para negar relação com o crime. Junte os dois com uma pitada de investigação, ou algo que se pareça com, preferencialmente com reconstituição do crime (estes ingredientes darão o toque CSI do prato, que faz com que seja um sucesso). Depois de rápido aquecimento do caso, salteio os ex-suspeitos, agora criminosos, com doses de discurso de “direitos humanos para humanos direitos”. Manifestações e gritos de “assassinos” dão um tempero extra – desde que devidamente televisados, claro. Além de políticos e Datenas, pode-se acrescentar religiosos ou filósofos para justificarem a pena capital.
Está pronto para servir o caso. Necessário que seja servido quente, pois assim que esfria perde a graça e se torna necessário achar um novo bode expiatório para nossa vidinha miserável.

Campinas, 09 de julho de 2010.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Meu amigo Gato

Quantos anos vive um gato? A dúvida me veio com as primeiras luzes do dia, quando, pela janela, vi um felino prestes a fazer uso santiário do meu diminuto quintal. Assutei-o. Porém, ao invés de fugir espantado, se aproximou e começou a miar. Reconheci: era o Gato!

Gato (certamente deve ter outro nome, mais criativo e condizente) é uma gata, ao que tudo indica prestes a cumprir com o mandamento bíblico, e que desde 2008 andava sumida. O que não era de todo ruim, admito, porque além de banheiro, ela costumava trazer seus paqueras (dizem que aquilo é acasalamento de gatos, como não sou entendido, acreditei) para meu quintal nas madrugadas. Sei quando é o Gato não só por ela não fugir quando apareço, como por responder quando mio para ela (ou será que sou eu que respondo quando ela mia para mim?), o que já me causou certo constrangimento na frente dos amigos. Outro sinal de que é ela, é a insistência do bicho em entrar na minha casa. Isso desde 2003.

Daí que me veio a dúvida sobre quanto vive um gato: cogitei se ela já não teria morado aqui, quando tinha realmente um dono, e não um cara que um dia comprou o peixe errado pra receita e fez a sua festa por dias. Porém, até onde me lembro, a pessoa que morou antes de mim nesta casa - três anos, ao menos - não tinha gato, mas três cachorros: uma chatíssima de pequeno, outro de médio, e outro de grande porte - o qual babava horrores. Sei que cachorro vive lá seus quinze anos. E gato?

Isso era fácil de descobrir: bastava ligar o computador (que, novo, não leva mais seis minutos para estar pronto) e perguntar pro Gugou. Estaria ali a resposta, em milisegundos, pronta para saciar minha curiosidade - essa e outras -, exterminhar minha questão e matar a chance de pensar tantas coisas à respeito, me divertir com o fato e desfrutar da dúvida. Pelo mesmo ralo virtual de certezas iria também esta crônica.


Campinas, 30 de junho de 2010.

domingo, 27 de junho de 2010

De novo a bebida

O colunista da Folha Gilberto Dimenstein costuma trazer seguidamente pesquisas e experiências interessantes. Porém não é sempre que o leio, não só porque seu estilo me desagrada, como por discordar dos pressupostos, das crenças que ele nutre: a benevolência empresarial e a malevolência estatal. Na relação de forças, temos o Estado que suga e subjuga a indefesa iniciativa privada, e a possibilidade de neutralizá-lo por meio de organizações sociais. Simples assim.

A sua coluna do dia 27 de junho, “Porres de elite”, ele comenta do abuso de álcool, que começa cada vez mais cedo. Apesar de meus cabelos estarem migrando do topo para regiões adjacentes da cabeça, sou jovem o bastante para acompanhar – ou ao menos notar – os hábitos de quem está na chamada adolescência, e não me surpreende que pesquisa da Unifesp constate que 30% dos alunos de escolas particulares paulistanas fique bêbado ao menos uma vez por mês. Me surpreenderia se esse número não aumentasse quando entram na faculdade.

Ponto interessante da coluna é quando ele levanta as conseqüências do álcool, a droga mais devastadora que há. Amigo meu que trabalha na assistência de usuários de drogas já me havia dito, tempos atrás, quando perguntara se o crack merecia o alarde que tem merecido, que nada se compara aos estragos do álcool. A diferença é que a sociedade sente comiseração pela criança e adolescente, tradicionais viciados em crack (sem falar no quão feio são os nóias perambulado por aí), e não pelos alcoolistas, que geralmente sentem os efeitos do vício quando adultos ou velhos.

No fim de seu artigo, Dimenstein comenta da possibilidade em diminuir o abuso do álcool, mais ou menos como foi feito com o cigarro, e pede a participação do governo e sociedade, “além da indústria da bebida e dos publicitários” em estimular o "consumo responsável".

Crente na benevolência privada, Dimenstein não consegue enxergar que a diminuição do cigarro não teve participação de quem lucrava com ele, muito pelo contrário: foi pela abolição da propaganda e com pesada contra-propaganda que se conseguiu diminuir o uso. A diminuição do abuso de álcool passa pelo mesmo caminho.


Campinas, 27 de junho de 2010.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Adeus, sr. José

Não importa a hora que chegue, a morte chega sempre em má-hora. Se se trata daqueles casos em que a vida, na prática, acabou, e nada mais resta que aguardá-la, ela tarda, alonga a espera, como a mostrar, ironicamente, o quanto ela é a dona da situação. Por outro lado, quando ela chega de repente, de chofre, quanto dor, quanta tristeza.

Mas é bom que ela venha mesmo – nem mais cedo, nem mais tarde, na hora, ainda que o melhor que tal hora seja já em anos avançados -, e que chegue de surpresa, sem cartas de cor violeta avisando das últimas vinte e quatro horas. “Porque morrer é, afinal de contas, o que há de mais normal e corrente na vida, facto de pura rotina, episódio da interminável herança de pais a filhos” – o organismo que definha, o corpo mutilado, a dor insuportável, a morte em algum momento, por causas naturais ou externas, será bem vinda àquele que parte.

Uma das pessoas que me ensinou isso foi o sr. José, ele que em 18 de junho de 2010 encerrou seu mais longo, mais complexo e – por isso mesmo – mais belo romance. Homem de seu tempo, não mudou de opinião a cada modismo, nem se engessou em velhas concepções, e avançou os anos com crítica, delicadeza, sensibilidade, lucidez, tudo ao mesmo tempo.

Sua morte é, sem dúvida, triste. Mas não sei se é o caso de lamentar: foi também o sr. José quem me disse que a vida de uma pessoa vai além da morte, que ela perdura firme e pulsante no amor do outro. E sua obra seguirá criando apaixonados por ele – como este que escreve. Não seremos nenhuma Pilar, mas ajudaremos a garantir a vida de seu pulso.

José Saramago era ateu convicto. Se das suas obras é possível destacar transcendências e crenças, não é sinal de incoerência, é sinal de que ele sabe que uma pessoa é mais do que se vê, que a vida é mais do que podemos pensar. Como explicar? Não sei. Sei que José Saramago segue vivo, que não foi agora que o calaram.


Campinas, 18 de junho de 2010.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

A greve 2010

A Unicamp tem pego pesado contra os funcionários grevistas nesta greve de 2010. Pesado não por recusar a negociar aumento além dos 6,7%, mas na resposta aos ataques que o sindicato tem deferido contra a instituição.

No seu portal (www.unicamp.br) há uma lista de reportagens sobre o quão bom é trabalhar na universidade e quantas pessoas não o querem. Há artigos de professores criticando grevistas e ocupacionistas. E as reiteradas notas do Cruesp, o conselho dos reitores, afirmando que o aumento acima da inflação é parte de um programa de valorização da carreira, sem comprometer o orçamento das universidades paulistas. Até que pondo é verdade, não entro no mérito.

Os grevistas, claro, acusam o reitor de intransigente. Mas perto da greve de 2004, quando o atual todo-poderoso da Fapesp, Carlos Henrique de Brito Cruz, era o reitor da Unicamp e presidente do Cruesp, a evolução política da universidade é gigantesca.

Apesar de ser uma greve pequena, fraca, mal articula e apenas de funcionários, a Unicamp tem se dado o trabalho de rebater os argumentos. Em 2004, o portal da universidade simplesmente não noticiava nada, absolutamente nada, da greve, até a ocupação da reitoria e, dias depois, o piquete em frente ao Bandejão. Foi só com o uso de expedientes extremos que foram não só abertas as negociações com funcionários e professores numa greve longa e forte, como admitida que havia na universidade um litígio político pendente. E que quando admitiu, de pronto desqualificou o movimento, sem entrar no mérito das reivindicações, chamando professora do IFCH para taxar de fascista o ato de ocupação da reitoria – num anacronismo que uma intelectual não poderia cometer.

Da greve deste ano. A reivindicação pode ser justa, mas a forma de pressão é equivocada. Serve para animar o que resta de uma esquerda carnavalesca (que imagina que greve é carnaval), demonstrar a fraqueza do movimento, e isolar ainda mais o sindicato. O problema é que, dado o tiro errado, se a elite sindical retroceder sem conseguir as reivindicações, terá cravado mais um prego no caixão – a cova, ela já cavou há tempos, não é fruto da contratação de tercerizados. Enquanto não se decide se perde ou perde, o sindicato dá mais força às críticas vindas dos setores mais conservadores, que questionam por que pagar o quanto se paga a um funcionário da Unicamp, se se pode contratar um tercerizado – muito mais eficiente – por um terço do custo. Essa disputa, não será com greves dispensáveis que se conseguirá reverter.


Campinas, 17 de junho de 2010.

A copa

Enquanto os patriotas bissextos discutem porque os guerreiros-evangélicos-cervejeiros sob o comando do general ascético Dunga penam para ganhar da seleção que empatou com o Atlético Sorocaba, e que salvo nos cifrões só são capazes de encantar ufanistas de quinta a la Galvão, a copa 2014 vai mostrando a que veio aqui nestes tristes trópicos.

Ela, que de início não teria dinheiro público para além da infra-estrutura, tem se resumido a uma disputa sobre quem e onde será a sua abertura. São Paulo, Belo Horizonte ou Brasília? No Morumbi, ou em algum novo elefante branco, como o Engenhão? Uma das propostas já vem até com o aumentativo do famigerado desperdício do Pan: Piritubão.

As discussões sobre infra-estrutura? Quase acontecem. E por conta disso são tão decisivas como para o resultado de um jogo são os quase gols. Melhoria do sistema de transporte aéreo e terrestre? Eventualmente se discute sobre, sempre centrando a discussão nos cifrões: tantos milhões para o trem-bala, que só ficará pronto para depois da copa, outros tantos para um novo aeroporto ou para ampliar Viracopos. E no resto do país? Acesso aos estádios, transporte público, questões urbanísticas? Disso, ainda não ouvi palavra, salvo reportagens apontando problemas e críticas.

Das autoridades, é crença que tudo se resolve em cima da hora. E talvez seja assim, na hora dá-se um jeito. A questão é a que custo. Há ainda a questão da violência, sempre tratada de maneira muito leviana por políticos e imprensa, e que por ora não teve tratamento diferente do habitual. O que não é de todo mal, ao menos para grandes empresas, visto a chegada da maior multinacional do ramo de segurança, a G4S. Cifrões, sempre eles, como a nossa seleção.

No andar da carroça, em 2014, não será surpresa se além da grande quantidade de dinheiro público jogado no ralo, vermos turistas chegando atrasados a jogos, por conta de congestionamentos e seleções européias desembarcando aqui com coletes a prova de balas: uma bela jogada de anti-marketing!

Campinas, 17 de junho de 2010.

sábado, 12 de junho de 2010

Florianópolis pela janela do avião

Pela primeira vez cheguei a Nossa Senhora do Desterro de avião. Pelo alto, Floripa me pareceu uma cidade feia. Quem me conhce me acusará de tê-la visto feia porque não gosto da cidade. Do meu lado, acredito que a visão desde cima ajudou a entender o porquê d'eu ser um herege que não sonha em um dia morar no Éden dos paulistas.

De cima fica muito evidente o clima nada harmônico da ilha: a divisão homem x natureza é muito clara: onde o homem conseguiu se fixar, o verde está expulso. Onde a mata ainda resiste, a ocupação humana avança. Uma batalha desigual. E a mim, a natureza sempre me pareceu o principal atrativo da capital catarinense, uma vez que no quesito atividades artístico-culturais e mesmo no de serviços, ela fica aquém de outras cidades de porte similar. Porém, se sua principal qualidade é repelida com tal veemência, o que resta?

Meu irmão tentou justificar: apertada, qualquer lugar que se tem, que pode, o homem aproveita. Que se tem e que não se tem, como a Beira-Mar Sul. Que pode e que não pode, como casas sobre dunas, condomínios sobre praias, shoppings sobre mangues. Minha interrogação foi: precisava crescer o tanto que cresceu, da forma que cresceu? Claro que não. Mas Florianópolis, a exemplo de tantas outras precárias cidades brasileira - São Paulo, para ficar no caso mais famoso -, parece que nunca teve preocupação séria com o urbanismo, nem com a natureza. E quem chega, chega com a mesma mentalidade: aproveitar o que a ilha tem de bom, sem calcular os custos.

A cidade cresce desordenadamente para todos os lados, por mais que a estrutura há tempos esteja saturada. Diante das necessidades de ocupação humana e lucros imobiliários, o principal atrativo se torna um estorvo - contornável, felizmente. Não sei, talvez seja crença entre os moradores - os velhos e os novos - que não há combinação melhor do que praia, sol e cimento.


Florianópolis, 12 de junho de 2010.

domingo, 16 de maio de 2010

Corridas de rua

As fotos no blogue do colunista de esportes a motor da Folha, Fábio Seixas, mostrando as obras para a etapa de Ribeirão Preto de stock car me fizeram lembrar deste assunto, que gostaria de ter abordado há certo tempo.

Ribeirão tentou sediar a etapa brasileira de Fórmula Indy. Perdeu para São Paulo, que montou um circuito de rua digno da capital: obras de urgência tiveram que ser feitas na madrugada antes da prova, os carros pareciam touros mecânicos, do tanto que pulavam com as ondulações da pista; e a prova teve que ser interrompida porque a chuva alagara parte do trajeto. Se perdeu a Indy em 2010, a prefeita da Califórnia brasileira, Dárcy Vera – como boa brasileira, diria a propaganda do governo federal –, não desistiu da de 2011. Em seu requento precário de um populismo de quinta categoria – algo meio janista, meio malufista –, que já tentara sediar o jogo de retorno de Ronaldo, conseguiu emplacar um circuito de rua para a stock car. Crê que um bom serviço aqui pode trazer a prova de monopostos.

Quem conhece Ribeirão sabe quão irônico é a cidade ter corridas de automóveis – como São Paulo, por sinal. A cidade fica a cada dia mais estagnada... não no tempo, mas no trânsito, mesmo. Nada diferente de outras cidades do país, apenas um pouco mais grave, por conta da altíssima proporção de carros por habitante e as vias estreitas do centro – e que o transporte público, de péssima qualidade, é falta de opção, e não uma opção.

Mas o que me assustou nessa prova de rua foi um vídeo, divulgado em março ou abril, tanto no blogue do Seixas quanto na página do Tázio. Nesse vídeo, um altruísta morador de Ribeirão, Sérgio Campos Gonçalves, munido de uma mapa com o futuro trajeto, de um carro e de uma câmera, deu uma volta pelo circuito de rua de Ribeirão. Disse que, para fazer o filme, respeitou todas as leis de trânsito; não vou duvidar disso.

Porém me questionei quantas pessoas outras não se animaram com o trajeto e resolveram brincar de pilotos pelas ruas da cidade, aí sem respeitar limites de velocidade, leis de trânsito ou princípios de bom senso. Diante disso, questiono: uma coisa é prova de automóveis em um autódromo, local designado para isso, para testar limites de velocidade. Outra é prova de rua num país conhecido por ser um dos mais violentos no trânsito. Se a primeira pode passar a idéia de que piloto é uma coisa, motorista é outro; a segunda serve de estímulo aos milhares de Ayrtons Sennas das nossas ruas, rodovias e marginais.

Alguns terão a mesma sorte do ídolo, em uma Tamburello qualquer, sem nome. E nessas horas, o que nos cabe é torcer que, como o falecido tri-campeão, não levem mais ninguém com sua imprudência estimulada por nossos governantes.

Um brinde!


Campinas, 16 de maio de 2010.

ps: para quem quiser conferir a “façanha” do referido vídeo:

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Planos

Por uma questão de época e de classe social, cresci lendo não Monteiro Lobato, como a presidenta da Argentina, mas Maurício de Souza e a turma da Mônica. Daí que toda vez que ouço falar em planos tenho a impressão que algo errado há, por mais infalível que seja. Certo, há planos que são feitos para dar errado: os planos de vida são um caso típico. Uma das maiores intelectuais do século XX, Mafalda, do Quino, comenta, certa feita, que “para não viver ao acaso, estou traçando um plano que me ajude a organizar minha vida com clareza”, e completa, “teoricamente, é claro”. O problema é que na teoria a prática é simples – como sempre digo, inclusive na assinatura do meu emeio.

Mas há aqueles planos que, se não são apresentados como infalíveis, estão quase lá: te dão as chaves para o paraíso na terra. Necessários, imprescindíveis, vitais, têm todas as vantagens e nenhum problema. Não, não estou falando dos planos de governo dos candidatos – até porque, pelo visto, passaremos a eleição sem ter visto um de verdade. Tampouco vou falar de religião hoje. Falo dos diversos planos que são anunciados a rodo em todo local a toda hora, ocupando espaços que antigamente eram dedicado a quinquilharias diversas – de pipoqueira elétrica a carro de luxo. Aparecem principalmente nas datas importantes – dia das mães, dos namorados, dos pais, das crianças, natal –, mas não só. Há os planos de televisão, de internet, de telefonia – tem até um que se anuncia como infinito, apesar de ter limites bem estreitos. Há também os de saúde, que dizem estar preocupados com sua saúde – o que não duvido, dado os custos de operação –, e que não raro te complicam a vida na doença. Deve ser uma tática para as pessoas se preocuparem, elas também, em não adoecerem.

Exemplos mais há muitos, não vou cansar o leitor e a leitora em reprisar o exaustivamente repetido. O que ressalto é que para quem, como eu, cresceu vendo o Cebolinha e o Cascão apanharem por conta dos planos infalíveis do primeiro, me pergunto o que não haveria de profético nos gibis da turma da Mônica; e se talvez não seja esse excesso de planos que têm dificultado tanto a nossa vida.

Campinas, 14 de maio de 2010.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Os suspeitos de sempre

O ônibus estava na rodovia Castello Branco, menos de cem quilômetros de São Paulo, quando teve que parar para revista da Polícia Rodoviária Federal. Normal, é trabalho da polícia, ainda mais quando o veículo vem da região de fronteira com Argentina e Paraguai. Mas os policiais pareciam desconhecer esse detalhe, a rotina era de rotina. Normal, de qualquer forma.

Estávamos em uns vinte e cinco passageiros. No meio do ônibus, dois policiais se detêm diante do primeiro suspeito: um negro. Pedem documentos, mandam ficar em pé, revistam, abrem a bagagem de mão, perguntam o que faz da vida, o que pretende fazer em São Paulo. Outros dois policiais entram e seguem para o fim do ônibus, em busca de novos suspeitos. Encontram-no no banco ao lado do meu: um rapaz moreno. Mesmo procedimento acima descrito. Para não parecerem preconceituosos, repetem uma vez mais, agora com um branco, amigo do moreno. Os dois são obrigados a descer, para uma geral mais bem dada.

Nisso um dos policiais vê um volume suspeito em meu bolso e põe logo a mão. Era um spray de mel com própolis para a garganta. Pergunta se sou brasileiro, o que levo na mochila, o que faço da vida, se fumo. Respondo secamente. Sim, pertences pessoais, estudante, não. "Nem do fumo bom". Me recuso a responder tal pergunta, ainda que a vontade fosse devolver com outra pergunta "por que, está com vontade", e ele se afasta. Os dois amigos voltam, pouco depois recebem seus documentos, eram joões ninguém sem nada suspeito. A viagem segue, "vai com Deus", diz o policial que devolveu os documentos aos dois, não sei se numa tentativa de consertar a antipatia ou se por mero cacoete religioso, mesmo.

Falta de respeito, de educação, de cordialidade, grosseria, preconceito, escárnio (esqueci de contar que os policiais se divertiram com a foto em um documento do primeiro suspeito). Isso que era Polícia Federal abordando pessoas de classe média. Não preciso tentar imaginar o que não seria a Polícia Militar na favela. Muito se fala em melhorar a imagem das polícias frente a população. Não sei se o percurso é longo ou curto, sei apenas que não começaram sequer o óbvio.


Campinas, 06 de maio de 2010.

sábado, 1 de maio de 2010

Control Z

As novas tecnologias influenciam para muito além do seu raio de ação o dia-a-dia das pessoas, reverberando até em seus sistema de crenças. Uma delas, por exemplo, é a crença - a esperança, ao menos - na universalidade do "control z". Porque se o "backspace" foi uma evolução, ao permitir que se apagasse o que se digitara errado, o control z foi uma revolução que permitiu desapagar o que fora apagado sem querer. E se expandindo para além do editor de textos, se tornou ferramenta essencial ao computador. O sonho de muitos é que a vida possuísse um control z, de forma que voltaríamos ao estágio anterior a um equívoco, pronto para tentar novamente, sem qualquer vestígio a apontar as tentativas frustradas.

Mas a vida não possuí control z, assim como ele não funciona para tudo num computador.

Fui instalar a nova versão do Ubuntu no meu pc. E eis que, ao invés de mandá-lo para o espaço no HD já reservado para ele, fiz não sei o quê que mandou tudo o que eu tinha no HD para o espaço. Ao ver a ca...racterística do que tinha feito, abortei a instalação, voltei ao estágio anterior. Tarde demais. A me...dida feita anteriormente não permitia control z ou similar. Resultado: perdi meus arquivos - dos quais possuo cópia da grande maioria, felizmente -, e já mais de doze horas nessa brincadeira, sem conseguir consertar o coiso.

Quem me conhece deve estar se perguntando qual a novidade em eu apagar o HD, sendo que as primeiras vezes eu ainda fazia isso em um winchester. Novidade há, sim: pela primeira vez faço isso em meu computador, e não no do meu pai, que perdeu a conta de quantas vezes teve que respirar fundo quando eu chegava para avisá-lo que acontecera qualquer coisa inesperada e... e os computadores são assim, sem control z para tudo.

Se computadores são assim, o que dizer da vida. E parte dela - doze horas, por enquanto - vai-se à toa, por conta, por exemplo, de paus em computadores, sem controls zês salvadores.


Campinas, 01 de maio de 2010.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

O humoralismo inteligente de CQC

Aproveitando que uma crise ciática me fez estender a estadia na casa dos meus pais, resolvi ligar a tevê esta segunda para assistir ao CQC. Há quem diga que é o programa de humor inteligente da tevê brasileira. Como não assisto nem ao CQC – esse deve ter sido o quinto –, nem aos concorrentes, vou acreditar. Mas o que me parece é que o CQC é um programa inteligente no sentido de esperto, de enganar o espectador.

Nesta segunda o quadro “Cidadão em ação” foi ver se o cidadão respeitava as leis e a moral e se recusava a dar acesso a bebida, cigarro e revista pornográfica a crianças (atores contratados pelo programa). Num primeiro momento, as crianças pediam a transeuntes que comprassem para elas. Depois, foram elas mesmas comprar. Nesta, destaco a vez em que uma delas entra num bar, pede pinga com mel e é atendida. Depois pede cigarro, e o atendente nega. Sinal de que as ações anti-fumo têm surtido efeito, assim como sinal de que é urgente, ao invés de reforçar ainda mais o discurso contra o cigarro, empreender ações da mesma magnitude contra o álcool.

Antes de embarcar na crítica aos zé ninguéns abordados pelo programa, questiono se os cidadãos do CQC e da Band estão em ação. Que tal questionar direitos humanos ao Datena? Ou respeito à dignidade do próximo à Márcia Goldsmith? Poderíamos perguntar sobre jornalismo imparcial ao Boechat? Algo sobre cordialidade e civilidade ao Milton Neves? Ou fazer muitas dessas perguntas ao Marcelo Tas?

Porque Tas ou é ignorante ou abusa de má-fé. Não acredito na primeira opção, sobra a segunda. Já comentei acerca da reportagem sobre pedofilia na rede, belo exemplo de engodo travestido de jornalismo. Agora essa de correr atrás de pessoas que pactuam com menor que vê pornografia ou bebe. No início da reportagem Gentili fala da curiosidade que crianças podem ter por tais produtos. Esquece de perguntar o que poderia estimular essa curiosidade – seriam os poemas do Gonçalves Dias? Coerente esse olvido, visto ele sugerir que a orientação dos pais só vem depois do problema surgir, como se educação fosse um processo de punição a posteriori e não de liberdade dada de antemão. Assim, se os pais não estão por perto e a criança, estimulada por alguma gostosa na tevê em trajes sumários – quem sabe em alguma propaganda de desodorante na internet –, ou então por qualquer vinheta super divertida de cerveja, resolve sair de casa e comprar o que lhe é anunciado como elixir da felicidade, culpa dos pais, que não estavam por perto para proibir, e culpa dos zé ninguéns, que não têm caráter para se opor ao que diz a propaganda, a televisão e os programas de humor inteligente.

Poderia se argumentar sobre o horário do programa, horário em que criança já está dormindo – ou ao menos era assim meio século atrás. De qualquer forma, o CQC é feito também para a internet, tanto é que as propagandas são ligadas às matérias, para garantir a visibilidade do patrocinador a quem busca os vídeos no youtube. E não se trata somente de estampar a marca da Skol, mas de fazer campanha ativa: mostrar que festa, alegria e mulheres bonitas são coisas que acompanham necessariamente a bebedeira. Ou então gravar dois minutos de show para falar que redondo é rir da vida, como fez o próprio Gentili.

Em suma, a trupe do CQC age como todo bom moralista: critica nos outros o que ela mais faz. Comprar bebida para menor é feio; estimular o uso, não. Porque, afinal, a propaganda deles não visaria crianças nem contraria a lei. Se menores e maiores acabam caindo nesses cantos das sereias, a culpa não é das sereias, mas dos remadores, pessoas fracas de caráter.


Pato Branco, 21 de abril de 2010.

domingo, 11 de abril de 2010

O início

Conforme a lei, ainda não temos campanha, ainda não há candidatos - no máximo pré-candidatos, como se aqui, a exemplo dos EUA, houvesse prévias. Saindo da lei e caindo no mundo, penso que o sábado último pode ser considerado o início pra valer da campanha presidencial de 2010: não só porque o lançamento da candidatura Serra marca a definição de um dos dois principais eixos da disputa, como pelo fato do PT ter marcado evento concorrente ao do PSDB, em claro sinal de disputa.

Mas disputam o que, ja que não há candidatos?

Por ora a disputa entre PT e PSDB se dá pelo recorte dos temas que balizarão o debate político e a conseqüente clivagem do eleitorado que tais temas imprimirão. "Debate político", que fique claro, não tem nada de discussão de programas, é antes de tudo disputa de slogans.

Acreditando na tese da transferência de votos, Dilma Rousseff desde o início da sua pré-campanha - e isso já faz tempo - se atrelou ao presidente Lula, dono de uma popularidade recorde. Com esse mesmo raciocínio tem tentado ligar o agora pré-candidato (até pouco tempo atrás apenas o nome mais bem colocado na disputa pelo Planalto) Serra ao governo FHC. O PSDB também crê nessa tese, de forma que tem tentado escapar desse recorte. De início, acuado, tentou caracterizar Rousseff como fantoche de Lula, falava em discutir futuro e não o passado. A resposta do PT era sempre a mesma, reforçando o recorte que julgava mais proveitoso.

O PSDB saiu da defensiva com o slogan do Serra, "o Brasil pode mais". Com essa frase ele conseguiu abrandar a pecha de opositor a Lula: admite os ganhos dos oito anos do lulismo e propõe avanços - ou melhor, insinua avanços, já que, no fundo, não propõe nada além de um esfumaçado mais do mesmo. Uma espécie de "carta ao povo brasileiro" do PSDB, lançada não para apaziguar o andar de cima, mas o de baixo.

Por ora, o recorte do PSDB parece ser o dominante. Não só pela nova tônica do discurso petista - pobres x ricos -, como pela forma que, no evento de sábado, Lula respondeu ao slogan serrista: "se eles podem mais, nós fazemos mais". A discussão, portanto, está nesse "mais". O PT deverá insistir na comparação dos governos, mesmo que seja para ilustrar o seu "mais" frente o "mais" do PSDB. Porém, quem agora está dando as cartas é o PSDB.

De qualquer forma, a campanha ainda está bem no início e é bom lembrar que Serra e Rousseff não são os únicos candidatos.


Campinas, 11 de abril de 2010.

domingo, 4 de abril de 2010

Greve política

A principal crítica que vejo à atual greve da Apeoesp – o sindicato dos professores da rede estadual de São Paulo – é que se trata de uma “greve política”. Sou obrigado a concordar: afinal, qual greve não é política? “Eu quis dizer política no sentido eleitoral”, replica meu interlocutor, um tanto desconfiado da minha resposta – talvez da minha capacidade intelectual, em ter que explicar o óbvio.

Acho no mínimo curioso o uso que se tem feito da palavra política. Primeiro aspecto que destaco é o fato de político ser considerado um termo pejorativo por si. “É uma greve política”, toda a crítica está condensada nessa frase, qualquer coisa além é mera tautologia. Não é preciso especificar eventuais problemas na forma que a Apeoesp faz política, ou os fins ocultos sob a política dos grevistas, ou da visão política dos atores que dela participam. O problema está na política, ponto. No máximo, aos bobinhos de plantão, explica-se que política aqui pode ser tratada como sinônimo de política eleitoral.

Nisso vem a curiosidade: quem são os atores e quais são os espaço legítimos para a política, ou melhor, para a política eleitoral?

Dos espaços. Diante das reiteradas reclamações a toda e qualquer manifestação de rua, penso que legítimo sejam apenas os espaços reservados especificamente para isso: propaganda eleitoral na tevê, casas legislativas, executivos. Fora disso haveria um desvirtuamento da política, prejudicando o dia a dia das pessoas comuns, que apenas querem fazer seu trabalho bem feito. Curiosamente, se se faz política nos espaços estatais, cai-se em cima, por apropriação do Estado por um partido, sendo o bolsa-família o exemplo mais evidente dessa crítica.

Já na questão dos atores, não é preciso grandes malabarismos para notar os pressupostos: em uma sociedade que prega o individualismo, com um sistema eleitoral personalista, em que partidos são figurantes menores, nada mais lógico que a base desse sistema, antenado com a sociedade ao seu redor, seja ela também individual. Reivindicações em grupo, de grupos, são considerados anacronismos, formas de fazer política ultrapassadas, por desrespeitarem a “individualidade” de cada um. Não é coincidência que quando a classe empresarial emite suas opiniões, o faça de maneira particular – Antônio Ermírio de Moraes, Abílio Diniz, Eike Batista, Roger Agneli -, por mais que todos encarem isso como uma posição da classe. Mesmo Paulo Skaf ou o Luiz Flávio D’Urso, ainda que seus cargos sejam representativos de classe, eles não explicitam falar em nome dos industriais ou dos advogados. Logo, por que professores, funcionários da saúde, policiais, ou quem for, teriam o direito a agir de maneira diferente? Resultado é que a greve se torna de inteira responsabilidade da presidente da Apeoesp, Maria Izabel Noronha. Para piorar a situação, ela é filiada ao PT, de forma que o objetivo eleitoral se torna automático. E não cabe, claro, aos professores enquanto classe, mas apenas enquanto indivíduos separados, tentar influir nos rumos políticos ou eleitorais.

Por fim, ao reduzir política a política eleitoral, há um evidente esvaziamento do quotidiano, que perde o pilar mestre da vida em sociedade. Os sujeitos, tornados meros parafusos do sistema de compra e venda, se vêem desobrigados do seu engajamento ético na cidade – conseqüência do pensar e do agir políticos. Mais: passam a exigir o mesmo tratamento de parafuso nesse pseudo-leilão bienal que são as eleições no país, se tornando não mais que homologadores de uma representatividade falsa, de uma veracidade igual à exclusividade dos produtos de luxo (sempre produzidos em série) ou dos tratamentos personalizados (que seguem um padrão pré-estipulado universal).


Campinas, 04 de abril de 2010.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Folha, PSDB e o discurso de imparcialidade

Dos jornais diários e pretensamente sérios que mal-e-mal conheço, Gazeta do Povo, de Curitiba; Correio do Povo (pré-Universal), de Porto Alegre; Correio Popular, de Campinas; Estado de São Paulo e Folha de São Paulo, considero a Folha o melhor. Não, isso não é um elogio, é uma frase de desespero.

Leio a Folha desde 1996 e acompanho in loco sua decadência. Por um tempo imaginei que se tratava de amadurecimento meu – afinal, em 1996 eu não tinha 15 anos –, porém é evidente que se trata mesmo de demérito do jornal.

Além de ter perdido uma série de bons – ainda que controversos – colunistas ao longo desse tempo, a Folha tem cometido quase que semanalmente erros os mais elementares a qualquer cartilha de jornalismo, e mesmo ao seu manual da redação. Exemplos há aos borbotões: editoriais com referência ao “aiatolá Stedille” ou à “ditabranda brasileira”, artigos sobre abuso sexual cometido na prisão pelo presidente Lula, em 1980, algo de conhecimento exclusivo de Cesar Benjamin, negado até pelo suposto abusado.

Mas o que mais tem me irritado é o jornal seguir se dizendo independente e imparcial. Claro, a busca pela imparcialidade é o ideal, mas chegar a ele é impossível. De qualquer forma, um primeiro passo para quem almeja isso é admitir sua parcialidade. A Folha é claramente um jornal liberal demi-conservador, com grandes afinidades com o tucanato paulista. Isto é uma constatação, não uma crítica, e não implica necessariamente que o jornal seja partidário, mero propagandista do PSDB. Ao subestimar a inteligência dos seus leitores, porém, essa imagem se reforça a cada dia. Como as reportagens favoráveis à rede estadual de educação que têm pipocado em suas páginas.

Todos sabem que a condução da educação nos governos tucanos é temerosa, não só no estado de São Paulo como em nível federal, impossível de ser defendida por quem seja, além do Paulo Renato e dos donos das instituições privadas – e olhe lá. O Anderson reiteradamente trata do tema na Hypnos. Mas eis que Folha descobre que há pontos positivos, que nem tudo está perdido, muito pelo contrário: a salvação está próxima – talvez em outubro, é o que se pode deduzir. Se a Folha acredita mesmo que educação pública paulista não é uma lástima, cabe então informar seus leitores quantos (e quais) dos cabeças do jornal possuem filhos em escolas estaduais. Até lá, não adianta vociferar contra quem acusa o jornal de parcial e partidário.


Campinas, 26 de março de 2010.


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segunda-feira, 15 de março de 2010

Passeio pela blogosfera política

Não tenho o hábito de acompanhar a blogosfera política. Não só por não gostar de ler no pc, como porque - me parece - boa parte dos blogues é requento de pressupostos e preconceitos, e porque o número de blogues é enorme e eu não faria outra coisa na vida, caso resolvesse seguir apenas os principais. A leitura diária da Folha me parece dar alguma precária (porque a qualidade do jornal está cada vez mais lastimável) noção do que acontece por aí - não que eu acredite em tudo. Eventualmente leio algo no Fazendo Média, Observatório da Imprensa, New York Times, Finantial Times, Apocalipse Motorizado.
Dia desses, dando uma fuçada nos favoritos do meu pai, vi alguns blogues de jornalistas que me parecem sérios. Resolvi, então, acompanhar, dentre outros, o blogue do Paulo Henrique Amorim. Confesso que fiquei decepcionado: encontrei ali o Gre-nal (ou Fla-flu, se preferirem algo mais carioca) que situação, oposição e imprensa (golpista, conforme Amorim) querem (e precisam) para manter tudo como está. Gritos de torcida, hinos contra o adversário, muita fala inflamada e reflexão primária, precária, quando não inexistente.
Nessas horas lamento que convites à reflexão política, como os que Maria Ines Nassif faz toda semana, sejam extremamente raros.

Campinas, 15 de março de 2010.

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quarta-feira, 10 de março de 2010

O fim do encarte

Minhas ex-namoradas, depois de terminarem comigo, costumavam me dar um cedê do Pato Fu. Não, não se tratava de uma dose extra de sadismo: eu gostava mesmo da banda e acontecia deles lançarem álbum novo mais ou menos na mesma época – todo mundo costuma ter uma queda por coisas de qualidade questionável, como Pato Fu, Girls Against Boys, Del-O-Max ou comida do bandejão. Minha última namorada rompeu com esse hábito: bem que eu esperei, mas nada dela me presentear com o último disco da banda – isso já faz dois anos.
Retomo o lançamento de um disco já velho (para os parâmetros da sociedade atual) porque só lembrei disso dia desses. Fui ver de comprar o disco: R$ 25,00. Já há um bom tempo que não pago mais do que dez reais por um disco – desde que descobri as promoções da gravadora Trama. Optei, então, por baixar da internet, como é o mais comum de se fazer hoje. Admito que fiquei um tanto chateado por isso. Não por estar cometendo um “crime”, definitivamente. Um artista viver da arte é para poucos e em poucas épocas: se um artista diz que vai se sentir desestimulado a produzir por conta da “pirataria”, é de se questionar se se trata realmente de um artista, ou não seria apenas um operário da indústria cultural – daí, até melhor que pare mesmo de (re)produzir.
Minha chateação se deu, primeiro, por causa da qualidade do som: o som do computador, a não ser que se tenha excelentes acessórios, é bem mais fraco do que o de um aparelho de som mediano (os entendidos dizem que a diferença do cedê pro vinil já é uma queda medonha de qualidade). Segundo, por não ter o encarte. Há encartes e encartes. Muitos – a maioria – são dispensáveis. Mas há aqueles que são imprescindíveis: o disco possui uma concepção estética que vai além do som e das letras, passa também pelo visual. Ok computer, do Radiohead, de 1997, para mim é o melhor exemplo. Em mp3, essa outro aspecto do disco, da banda, se perde. Por fim, não sei se é só comigo – creio que não –, computador é um aparelho multi-tarefas compulsório: não consigo ficar parado em frente a ele apenas aproveitando a música.
Não lamento a emergência do mp3 e o fim do cedê, o que me pergunto é se não haveria como transpor para o mundo virtual essa outra dimensão dos artistas musicais, perdida com o fim dos encartes.

Campinas, 10 de março de 2010.

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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Trote de elite

Novamente me surpreendo ao chegar na PUC-SP no início do ano letivo: ainda é segunda semana de aula e os trotes já acabaram! Mais impressionante foi ano passado: no segundo dia e já não se sentia mais o clima de trote! Acostuma com a USP e Unicamp - onde a primeira semana é dedicada quase que exclusivamente a isso, e de que a parte mais radical não se encerra em menos de um mês, tendo os veteranos direito a abusar dos calouros até o dia 13 de maio - chego a me perguntar se não e uma evolução essa condensação do trote.

Mas leio no jornal de hoje que calouros de uma uniesquina qualquer, a Unifeb, de Barretos, sofreram queimaduras durante uma brincadeira nas comemorações de recepção dos bichos. Me dou conta, então, de que o trote durar um dia ao invés de um mês não é avanço: é necessidade. Porque boa parte desses acadêmicos trabalha e não tem tempo para perder com o ócio. E imagino que já sendo lesados uma vez por pagarem por um direito constitucional, duas ao pagarem por algo precário (não é o caso da PUC-SP, claro), não se animam em serem lesados uma terceira vez, perdendo aulas (não que eu pense que aulas, via de regra, não sejam perda de tempo).

Já nas universidades públicas, uma semana, um mês, três meses de trote não servem apenas para marcar a hierarquia interna: servem também para mostrar aos excluídos desse Olimpo que quem está ali é elite.


Campinas, 24 de fevereiro de 2010.

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sábado, 20 de fevereiro de 2010

Pequenas crenças

Sei que não é novidade alguma, de qualquer forma me espanto toda vez que me dou conta do quanto nossas crenças nos dão chão. Não falo aqui das grandes crenças – em Deus, na ciência, na razão, na humanidade, na arte, na literatura, na dúvida –, mas das miúdas, bem pequenas e rasteiras, como a de que conhecemos a pessoa que está na nossa frente e com quem conversamos.

Conversava eu com uma velha amiga, a Paula, que está de partida para estudar na França. Eu estava hospedado na casa dela e tomávamos café da manhã – ela depois de mais uma noite de insônia, por conta da expectativa da viagem. Tratávamos de um assunto qualquer, acho que dos seus seis cachorros. Em dado momento ela falou: “Minha irmã não é assim, eu até digo para ela: Paula, pára”. Nessa hora, me veio um certo assombro, que me fez perguntar de imediato, quase instintivamente: “tua irmã se chama Paula?”. Eu estava pronto a arremedar que desde sempre havia chamado ela pelo nome errado, quando me dei conta de que se a irmã da minha amiga se chamasse Paula, o nome dela só podia então ser… qual era o nome dela? Por um breve instante me senti sem chão e meu cérebro partiu em disparada em busca de qualquer referência, qualquer ponto de apoio para que conseguisse me localizar onde estava e com quem estava.

Durou pouco essa diferente e angustiante sensação. Logo a Paula, também surpresa, consertou: “eu chamei minha irmã pelo meu nome? Nossa, que coisa!”, e reclamou uma vez mais das noites mal dormidas, antes de retomar o que contava, chamando sua irmã pelo nome certo.


Campinas, 20 de fevereiro de 2009

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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

É tempo de festa?

E começou minha temporada anual de mau-humor crônico. Não, não se trata de inferno astral, ou qualquer alteração hormonal, nem mesmo carnaval – festa que, admito, não gosto, mas também não odeio. Meu incômodo é com a tradicional boas-vindas aos alunos nas universidades brasileiras, o chamado “trote violento”, o que é uma redundância: o termo trote já traz consigo o conceito violento. Coisa que pouca gente aceita, uma vez que se acredita que a violência só comece quando surgem hematomas. Da minha parte, encaro como violência tudo aquilo que atenta contra a liberdade e a dignidade do homem. De modo que as experiências positivas de boas-vindas prefiro chamá-las de recepção aos ingressantes.

Pois bem, junto com os trotes, começaram, claro, notícias de alguns extremos. Ainda não tivemos nenhum assassinato de “bicho” por parte de estudantes de medicina da USP, nem espancamento de pedinte por alunos de direito do Mackenzie – ao menos nenhum sabido. As universidades fingem que se mobilizam: a Unicamp, por exemplo, encena uma campanha “diga não ao trote”, como se um adolescente de vinte anos, acuado ao ser cercado de veteranos que pulam e gritam ao seu redor, tivesse a real possibilidade de dizer não. Após passar a essa primeira (de muitas) iniciação, pode se juntar aos seus alegres pares, sujos de tinta dos pés à cabeça, o que lhes dá um ar de idiotice na sua (merecida) alegria.

Daqui a pouco, passado o carnaval, surgirão em maior volume jovens sujos nas esquinas “fazendo pedágio”, no fundo, escarnecendo de parte da população brasileira que tira daí o seu sustento (mas já não houve ministro do turismo que via na pobreza produção de Carlitos em massa?). O dinheiro que levantarão será gasto todo em drogas, mas isso não é problema, problema é dar dinheiro pra mendigo comprar bebida. Depois vem os trotes nas repúblicas, ápice da coação e da violência – eu mesmo, na vez que acabei caindo na mentira que encoberta essas “festas”, fui ameaçado e por quase duas horas me impediram de sair da casa.

As universidades se eximem dizendo que o que acontece fora dela muros não são de sua responsabilidade, por mais que tenha sido planejado, tenha tido o início da sua execução dentro dela, e seja feito em seu nome. Mas talvez tenham razão: as universidades o tempo todo dão as costas àquilo que acontece fora dos seus muros, por que se preocupariam com uma coisinha qualquer, como trotes? Afinal, as universidades têm como função habilitar cientistas, técnicos, e não formar cidadãos, não é?

Campinas, 12 de fevereiro de 2010.


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sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Tempo para leituras

Gosto de ler e leio bastante. Sei que leio mais livros do que a média nacional , o que não é nenhuma honra. Mas comecei a desconfiar que lia bem mais do que o normal quando meus amigos – eles também leitores bem acima da média – se mostraram surpresos com o tanto de livros que anualmente dou cabo. “Como consegue tempo para ler tanto”, perguntam, “Não sei, vou lendo, apenas, e dá nisso”.

De “férias” na casa dos meus pais, na quarta-feira, pouco depois das dez da noite, estou com um romance embaixo do braço, pronto para meus quarenta minutos diários de leitura antes de dormir. Antes de começar a ler, resolvo dar uma olhada no jogo que passava na tevê. Num dos canais, Cascavel e Atlético. Gostaria de vitória do Cascavel, mas resolvo ser realista e não perder tempo a toa. No outro canal, Monte Azul e Palmeiras. Depois do penalti duvidoso que resultou no gol do Palmeiras, decido ir ler, finalmente. Só dou uma passada nos outros três canais disponíveis. Nada de útil (como se assistir jogo do Palmeiras ou do Atlético fosse algo útil, ou mesmo agradável, enfim). Nessa passada pelos programas inúteis, me prendo no “Um contra cem”, nova versão do show do milhão. O programa é chato, perguntas bestas, pessoas agindo feito chipanzés na platéia, suspense de quinta categoria a cada resposta. Para não me aborrecer, volta e meia passo pelos jogos, para ver se mudou o placar, se algum jogo está mais interessante. Nada. No “Um contra cem”, um professor põe 400 mil que já tinha ganho em disputa e perde. “E daí”, me pergunto, apenas para reforçar a mim mesmo minha perda de tempo. Findo o programa, mudo de canal, para acompanhar o fim do jogo do Cascavel. Empate. Ainda faltam uns minutos do jogo do Monte Azul. Derrota. É quase meia noite. Depois de uma hora e meia sem ter feito nada – de útil ou de divertido ou de agradável ou de enriquecedor – desligo a tevê e vou dormir sem ler.

Em Campinas não tenho tevê: entendi porque consigo ler esse tanto que espanta meus televisionados (ainda que leitores) amigos.


Pato Branco, 29 de janeiro de 2010


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sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Vida de vestibulando para-quedista

Este ano inventei de prestar vestibular e ainda passei da primeira fase. Já que aconteceu, resolvi tentar passar da segunda fase também. Mas já não tenho mais tempo para ser um bom vestibulando: antes de começar a estudar, precisei terminar os trabalhos da pós. O que me restou foi pouco mais de uma semana para tentar relembrar física, química, matemática, biologia e ler os livros de literatura de leitura obrigatória que ainda não havia lido, ou lera quando prestei vestibular pela primeira vez, ainda no século passado. Pela parte da literatura passei tranqüilo, prazerosamente, salvo Iracema, mais chato do que qualquer outra coisa. As matérias, estudei pelas provas passadas, com a ajuda do meu irmão. 40 minutos de exatas e minha cabeça dói: nove anos de ciências humanas, e vejo que um lado do cérebro atrofiou. Sem contar o choque em descobrir que o mundo não é solucionável por regra de três!

Ademais, há a prova de aptidão para arquitetura. Tentei achar provas passadas na internet: em vão. Me disseram para estudar perspectiva. Estudei-o. Um dia antes, saio comprar os materiais exigidos. Cola branca, régua, grafite. Certo, sei do que se trata. Lápis de cor, opto por uma caixa de 12 cores, já que não imaginava que era de sério essa exigência, e por ser daltônico não adianta exagerar no número de cores. Compasso, lembro que a última vez que usei um foi no primeiro colegial, para arrancar um cisto sebáceo do meu braço. Algo pouco recomendado, sei, como sabia na época – mas aquela bolotinha me incomodava. Régua T não tinha. Menos mal, economizo isso sem peso na consciência. Transferidores de 30 e 45 graus. Olhei para aquilo, já usara. Ou pelo menos já tivera. Para que servem mesmo? Como se usa? Ao contrário da régua T, fico sem graça de perguntar ao atendente. Compro, com a esperança de não precisar usá-los.

Sem comentários sobre as provas. 2010 preciso fazer minha dissertação, não sei se era uma boa começar curso novo. Se acaso eu passar, vou comemorar muito! Ainda que tenha notado, no pré-trote na saída da prova de aptidão, que depois de nove anos de graduação estou um tanto saturado dessa vida.


Campinas, 15 de janeiro de 2010.

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quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Na vida (quase) como no cinema

Nunca li nenhum livro nem assisti a nenhuma peça do Bortolotto – o dramaturgo baleado em fins de dezembro na praça Roosevelt, em São Paulo –, ainda que pretenda fazê-lo em breve. A primeira vez que ouvi falar dele foi no dia 7 de novembro: uma amiga, a Mariana, comentando algumas tentativas literárias minhas que lhe mandara – sempre mundo-cão – falara do agora famoso autor. Dizia ela que seus textos a empapuçavam: “Na primeira vez, eu acho legal, mas parece que depois vêm variações sobre o mesmo tema, fica um cara com uma arma apontada pra cabeça, tomando cerveja na sala ouvindo jazz, falando de quando comeu a vizinha, e como todos os amigos que eram beatniks agora são empresários. Um culto à boçalidade e à inércia, sabe?”. Não sei dizer da sua obra, mas a sua reação, o seu “atira, filho da puta”, quase o “atire no dramaturgo” que serve de título ao seu blog, ajudaram a reforçar a idéia passada pela Mariana.

Culto à inércia porque, até onde consegui pesquisar, Bortolotto nunca se mexeu para tentar alterar a realidade social, como o faz Ferréz. Não cobro aqui engajamento dele, mas se esteve quieto até então, não seria com uma arma apontada que mudaria essa inércia.

Já a boçalidade está não só no ato – que tenta justificar por estar bêbado – mas por achar que não fez de todo mal: “Eu só sei que se tivessem mais alguns amigos malucos como o Carcarah naquele bar, a gente tinha enfiado o revólver no rabo daquele filho da puta. Eles acham que nós somos um bando de viadinhos sensíveis e indefesos”, diz ele em seu blog. Para além do estúpido do que foi dito, não é difícil de entender a reação dos assaltantes: para realizar esse tipo de assalto, muito provavelmente são do tipo de pessoas que só têm voz, só conseguem impor respeito pelo medo que a arma impõe. Imagine o que não deve ser para alguém que nunca foi nada, ser negado – de uma maneira acintosa – até quando tem a possibilidade de ser. Soa estranho a alguém que cresceu na periferia e escreve sobre o mundo-cão não saber coisas desse tipo. Ou será que ele quis provar que a vida imita a arte?

PS: sugestão de ótimo filme mundo-cão: “O homem do ano”, de José Henrique Fonseca.

Campinas, 14 de janeiro de 2010


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