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quarta-feira, 17 de junho de 2026

A Ilíada do Clube do Café [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Marx, parafraseando Hegel, costumava dizer que a história se repete, a primeira como tragédia, a segunda como farsa. Pois esta semana estive diante de um rapto homérico aqui no serviço, mais especificamente no setor onde me encontro alocado como capital circulante. O primeiro rapto homérico, creio ser de conhecimento geral, é de Helena por Páris, desencadeador da Guerra de Tróia. A situação no trabalho talvez seja um pouco menos dramática, ou melhor, trágica, sem rapto de mulheres - até porque os tempos são outros e apesar de eu suspeitar que muitos colegas teçam comentários e tenham visões machistas, no ambiente eles (e elas) mantêm um mínimo de compostura.

Tudo corria relativamente bem naquela quarta-feira fria de sol, quando um colega do Clube do Café decidiu fazer uma pipoca para acompanhar o jogo de Portugal, digo, uma reunião on-line à qual estávamos submetidos. Abriu o armário onde ficam os apetrechos do clube e a panela de arroz de Goreti, buscou, buscou, buscou e... nada da pipoqueira. Discretamente ele comentou na sala:

Alguém viu a pipoqueira do Clube do Café? Não estou encontrando ela no nosso almoxarifado. - sim, eles chamam o armário de almoxarifado do Clube do Café, para irritação do dono da supracitada panela de arroz. A balbúrdia rapidamente se alastrou no ambiente, até porque o gol de Portugal saiu logo no início - e nada da pipoca para acompanhar o evento. Entre aqueles integrantes do Clube que não estavam na reunião, começou uma investigação para descobrir onde poderia estar o referido eletrodoméstico: quem foi o último a usar, quando foi a última vez que comeram pipoca. Sem pistas, a discussão chegou ao grupo de whats - conforme relatava minha fonte, que mantenho o sigilo por direito de ofício -, para indignação de ainda mais integrantes.

Fomos roubados! - bradava uma das vozes mais exasperadas.

Já perguntaram na segurança? - interveio outro, mais prático.

E lá foi Mello, como membro mais proeminente do referido Clube - e não estando em reunião -, ver com os seguranças se haveria possibilidade de analisar as imagens do circuito interno. A sala da segurança fica no mesmo andar do RH - e não foi necessário ir até ela. O cheiro de pipoca impregnava o andar - era intervalo de jogo, deviam estar fazendo a leva para o segundo tempo. O que se seguiu daí são versões contraditórias.

Diz uma versão que Mello chegou pisando duro na sala e ao se deparar com a inefável prova do crime exigiu imediata devolução do item raptado - o que não foi atendido. Saiu prometendo vingança.

A segunda versão diz que ele foi sorrateiramente até o RH, se certificou de que se tratava mesmo da pipoqueira que ele havia escolhido para o Clube, e perguntou quem tinha autorizado a pegar o apetrecho. Para sua surpresa, quem havia autorizado não era ninguém mais, ninguém menos, que um dos membros fundadores do Clube do Café: Conan (sim, temos um colega chamado Conan, inclusive com porte físico para estrelar o filme do bárbaro). Conan que na reorganização pós-passaralho foi transferido de setor, e por isso ninguém mais lembrava dele. Detalhe: ele não foi para o RH - ou seja, mistérios pairando no ar. Enfim, autorização dada, devolução de pipoqueira negada, depois de uma altercação que chamou a atenção da sala ao lado do RH, a da segurança. Mello saiu de lá prometendo vingança.


A discussão foi para o grupo de whats:

Quem foi que autorizou à revelia que a pipoqueira fosse emprestada? - questionou Mello, como quem não soubesse do que havia se passado.

Conan vestiu a carapuça e foi direto:

Entrei com minha quota na pipoqueira, tenho direito a usá-la de vez em quando.

Os meandros da discussão deixo de lado, para não cansar a desocupada leitora, o desocupado leitor, com filigranas jurídico-escolástica-econômicas. O resultado é que a pipoqueira ainda não voltou. E a ameaça de vingança de Mello segue pairando no ar.


17 de junho de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.

terça-feira, 16 de junho de 2026

Férias steinbruchianas [por Sérgio S. ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Carnegie pistola é engraçado. E não precisa de muito para ele ficar assim: uma derrota do Palmeiras, uma vitória do Corinthians, falar o óbvio sobre futebol (ele tem posições bem heterodoxas sobre o esporte bretão em terra brasilis, em especial sobre Corinthians e Palmeiras, sendo que este seria o verdadeiro time popular), uma conversa simples com algum desafeto seu do trabalho, algum assunto político quente do momento. 
Minha forma mais habitual de deixá-lo pistola é dizer que ele é fã do Benjamin Steinbruch. Para avivar a memória da desocupada leitora, do desocupado leitor - ou mesmo trazer essa informação a quem não acompanha economia e política com muito afinco -, Steinbruch já defendeu que horário de almoço de trabalhador é um desperdício de tempo, que ele poderia comer um sanduíche com uma mão e seguir operando a máquina com a outra, levando 15 minutos para isso. Uma hora de almoço é praticamente um potlatch que esquerdista defende. Para quem não sabe, Potlatch é uma cerimônia tradicional de povos indígenas da América do Norte, de desperdício e/ou destruição de bens. O objetivo é ganhar prestígio, dividir riquezas e fortalecer alianças na comunidade. 
Enfim, eu falava de Carnegie, nosso arauto do apocalipse, que fica pistola sempre que eu digo que ele é steinbruchiano, porque ao invés de ir ao refeitório, ele prefere almoçar na sua baia, enquanto trabalha (só que não é um sanduíche e não são só quinze minutos, por enquanto). Ele diz que assim faz porque gosta de comer em horários em que o refeitório está muito cheio e, principalmente, porque tem algo urgente para terminar aquele dia, mas não é sempre assim - ainda que isso aconteça todo dia.
Eis que estamos eu, Meirelles, Macedo e Goreti conversando sobre assuntos aleatórios (impressionantemente, não é sobre a copa, nossa bancada é meio rebelde) antes de começar de verdade a trabalhar, quando chega o herói desta crônica. Olhamos para ele surpresos:
Você está de férias! - fala de pronto Meirelles, antes mesmo do bom dia.
Eu sei, mas... - tenta responder Carnegie.
Ótimo que você sabe, então, tchau. - responde correta e secamente Goreti.
É que eu tenho um assunto urgente e importante para resolver.
Se não for recolher suas coisas porque ganhou na loteria, não é importante, nem urgente.
Se ele ganhasse na loteria, nem precisaria vir buscar as coisas dele - me intrometo na discussão, dada a falha lógica no argumento do colega Goreti, que não posso deixar passar.
Tem razão - humildemente ele concorda -, então, vamos lá: se não veio recolher seus apetrechos porque conseguiu um emprego melhor, não é urgente nem importante.
Nada disso. Mas eu tinha que ter terminado um relatório semana passada e não deu tempo.
Isso é problema da chefia e quem ela designou para te substituir, no caso, o Sérgio S.
A lembrança desse pepino pra resolver me faz estremecer.
Prefiro eu mesmo fazer.
Vai ganhar uma estrelinha de bom funcionário.
Minha vontade é pôr panos quentes nessa história: deixa o colega vir trabalhar nas férias, se ele está entediado em casa. Mas me controlo, não posso dar bandeira tão grande assim da minha constante luta pelo ócio.
Carnegie nem responde: já está posicionado defronte ao computador, disposto a terminar o relatório o quanto antes, para começar a desfrutar - finalmente - suas férias. Meu maior receio é que depois do almoço steinbruchiano, suas férias steibruchianas, de quem segue trabalhando normalmente - com as duas mãos! - enquanto descansa, se tornem um exemplo para os superiores. Até lá, cruzo os braços e aproveito a proatividade alheia.

16 de junho de 2026

PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Você aí [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

A guerra da janela entre mim e a doutora Sabujinha continua. Sua estratégia de pôr o gaveteiro defronte a elas foi vetada pela CIPA - exatamente como atrapalharia no caso de um acidente, incêndio, não faço ideia. Impediria as pessoas de pularem? De qualquer modo, comemorei a decisão. A dinâmica tem parecido esquete de humor de segunda categoria: eu chego primeiro, abro as janelas; ela chega depois, fecha a folha dela; saio primeiro para o almoço, quando volto, a janela está toda fechada; abro-a; ela volta e fecha a folha dela, bufando. Todo dia a mesma história. Acho que só não fecha toda a janela depois que eu e Macedo saímos para nosso café da tarde porque ela fica muito pouco em seu lugar, e à tarde é o melhor horário para confraternizar.
Sofrer com a proximidade da doutora Sabujinha à minha baia não é nada original da minha parte. Descobri, ontem, que na verdade sua mudança de local não foi só porque ela quis, mas porque o clima entre ela e Bello começava a azedar - assim como azedou com todo mundo que se sentou próximo a ela. Com base nessa informação, reconheço que sua escolha do novo lugar tem uma lógica: se sentando ao lado de uma estagiária, esta não vai ter como reclamar da sênior: terá que suportar e, no máximo, pedir à chefia para trocar de lugar, depois de inventar alguma justificativa, por não poder dizer a verdade. Não fosse a janela, talvez pudesse trabalhar em paz, mas eis que tem eu e cá estamos em guerra.
Mas o assunto hoje nem era esse. Reunião de equipe, o novo chefe, aquele que doutora Sabujinha sabuja desde antes de assumir a chefia, decide que as demandas de Carnegie, que sai em férias semana que vem, não ficarão, como sói acontecer, entre Macedo e Goleador - que estão, é sabido de quem me acompanha aqui, sobrecarregados. Pois é, dá a impressão de que o chefe atual gosta de ser bajulado mas não cede tão fácil assim. Ademais, parece também que dá poucos ouvidos às fofocas de escritório, ao menos as que tratam da incompetência de certos funcionários. Para completar, tudo indica que acredita em dados objetivos e avaliou o que cada um da equipe realiza corriqueiramente. Conclusão do silogismo a partir das premissas acima expostas: fomos desmascarados em nossa disputa por quem menos trabalha. Resultado: divisão cinquenta-cinquenta entre mim e Pacheco das demandas de Carnegie, sem direito a escolha.
Até aqui, dias de luta, dias de fracasso. É parte do jogo, acontece. O grande momento, contudo, foi quando o chefe foi distribuir as tarefas: dividiu-as em dois blocos e então atribuiu cada um a um funcionário:
Sérgio S. fica com o bloco um e a... a... a... você aí, fica com o segundo bloco.
Sabujinha já se desmanchava diante do lapso do chefe, trazia uma expressão de choro, mas Carnegie, nosso arauto do apocalipse, não podia deixar de pontuar:
A Pacheco?
Isso! Pacheco fica com o bloco dois.
Em silêncio, nós, as vítimas de Pacheco, trocamos alguns olhares cúmplices, regozijando em júbilo respeitoso, ao ver o ego da colega sendo ferido assim involuntariamente. 


12 de junho de 2026

PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Integração [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Se o velho testamento tivesse sido escrito nos tempos atuais, no lugar de praga de gafanhotos, deus teria enviado como praga grupos de whatsapp. Que atire a primeira pedra quem não participa de uma dúzia deles: de trabalho, do condomínio, da família, da família sem o tio e o primo fascistas, dos colegas de faculdade, dos amigos de faculdade, dos ex-integrantes do Trezenhum. Humor Sem Graça. comentando as notícias do dia (sem qualquer humor), de moradores do bairro preocupados com a segurança, e por aí vai.

Uma das decisões das novas chefias, com vistas a melhorar a performance de todas as equipes e do setor como um todo, foi proibir assuntos alheios ao trabalho no grupo de whatsapp. Algum burburinho reclamando dessa decisão autoritária, mas todos acataram - até porque melhor não arriscar o emprego por conta de comunicação virtual sem importância. 

Eis que veio o aniversário de Bella (que não é de Isabela). Sempre sociável, ela marcou um almoço em comemoração, ao qual esteve presente pouco mais de metade do setor. Ela atribuiu o fiasco por não poder usar o grupo de whats para fazer o convite, ainda que tenha havido um mutirão junto com alguns colegas, organizado a partir do grupo de whats do Clube do Café, para que todos (ou praticamente todos) fossem convidados. Sim, ela acredita que eu, por exemplo, faltei por não saber, por falta de convite, e não por vontade autônoma e deliberada de evitar esse tipo de maçada.

Assim sendo, atendendo a pedidos e inspirado nos grupos “Mega da Virada” do setor, a chefia criou um grupo de whatsapp para aniversários - afinal a solução para melhorar a integração das pessoas é sempre criar um grupo novo. Chama-se “Grupo de Níver” e nele colocam os convites para essas comemorações, que se perdem em meio a dezenas de mensagens de feliz aniversário. Eu, não precisaria dizer, faço minha parte e não contribuo com essa poluição virtual.

Parece que as reclamações de falta de interação e integração dos setores se mantiveram, e a chefia decidiu criar um grupo geral. Chama-se “Assuntos gerais” mas poderia ser chamado de “Bom dia, boa tarde, boa noite”. Minto. Boa tarde são poucos - nessas horas estamos trabalhando -, mas os bons dias acontecem até aos finais de semana e algumas pessoas mandam boa noite quase todos os dias; de modo que dá para ter uma boa ideia dos hábitos de sono de alguns colegas. Um deles acorda todo dia às cinco - e paira uma forte suspeita aqui na bancada de que ele faz isso para treinar cedo. Goreti se indigna:

Que espécime de pessoa acorda às cinco da manhã pra treinar e faz jejum intermitente? 

Outro colega precisa regular melhor seu horário de dormir, pois não faz bem se deitar sempre próximo à uma para acordar às sete - isso talvez ajude a explicar o mau humor que geralmente ele irradia. Apesar que nosso emprego nesta fábrica de moer gente chamada capitalismo também deve ajudar nessa explicação. Mas creio que a principal causa para seu mau humor é que ele é um chato, mesmo.

Enfim, como deu para perceber, ninguém se animou em tratar de assuntos gerais no grupo com os chefes. Foi então que Bella resolveu criar um grupo sem os chefes. Chama-se “Integração”. E preciso admitir a perspicácia dos envolvidos nessa proliferação de grupos de whats do trabalho. Da chefia, por ver que isso era um campo minado, de Bella por perceber que os chefes eram um inibidor da integração do pessoal.

O grupo “Integração” desde o início esteve agitado. Alguns bons dias aparecem, convites para aniversários (para quem eventualmente perdeu em meio aos parabéns do grupo “Grupo de Níver”), até mesmo assuntos de trabalho - ninguém ainda resolveu fazer desabafo sobre, mas creio que esse dia está próximo. O foco, contudo, são assuntos aleatórios: onde comprar alguma coisa, indicações de produtos de beleza, recomendações de filmes (sempre com adjetivos como “sensacional” e “inesquecível” para blockbuster descartáveis) e assim ia, até chegar o assunto futebol. A derrota do São Paulo, na última rodada antes da copa, gerou uma discussão homérica, sempre em alto nível, com alguns argumentos batidos como “time grande não cai” e “51 é pinga” e alguns muito originais, como “o Corinthians está mal por causa do Lula, que afundou o time com o estádio pra Copa”, terminando em ofensas de vários calibres. Por falar em copa, Neymar ajudou a azedar um pouco mais o clima no grupo. Resultado: tem colegas que não estão mais se falando pessoalmente, mas seguem tretando no grupo - “Integração”, bom sempre lembrar o nome dele, cuja ironia não parece ter sido proposital.

Eu sigo em silêncio, acompanhando à distância, quando tenho paciência e estômago. E antevejo quando a copa acabar e chegar a hora de discussões eleitorais - Goreti, por exemplo, já avisou que pretende ser mais ativo. Enquanto isso, o grupo de trabalho dorme em berço esplêndido, sem que os chefes desconfiem de nada.


10 de junho de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.

terça-feira, 9 de junho de 2026

A Copa inútil [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Ao contrário do que a desocupada leitora, o desocupado leitor, poderia imaginar a partir do título, o móbile desta crônica não é a disputa entre mim e a Pacheco, vulgo doutora Sabujinha, sobre quem é o mais inútil do setor. É sobre a copa do mundo, mesmo.
Nossa bancada é um pouco dividida quando o assunto é futebol: uma parte mal sabe da existência do esporte, a outra é fanática e trata do assunto com uma seriedade digna dos grandes assuntos da atualidade, como a guerra contra o Irã ou a separação da Virgínia com o Vini Jr.
Foi com surpresa que presenciei Goreti falando da copa, ele sempre tão alheio a esses (e a outros) assuntos. Fala da copa não com ânimo ou interesse, mas com raiva:
É a copa mais inútil de todos os tempos! Primeira fase não tem um mísero joguinho durante o expediente! Me diga, copa assim para quê? 
Eu, claro, concordo não concordando inteiramente com o nobre colega e trago à baila a de 2002, sem jogos durante o expediente e ainda com foguetório atrapalhando o sono.
Ao menos naquela fomos campeões! - Ele retruca.
E isso muda algo? - respondo, ao mesmo tempo que lembro de minhas concepções da época, que foram enterradas com a copa do Japão e da Coreia.
Houve um tempo em que acreditei que o futebol influenciava na percepção de bem estar da população e, consequentemente, influenciava nas eleições presidenciais de outubro. Eu era jovem e a copa de 2002 foi uma prova de que minha sociologia de boteco se sustentava tanto quanto a do Luciano Huck - com a diferença que ele, com seus milhões, tem direito a plateia e repercussão das atrocidades que diz. E se eu me exponho aqui é só para mostrar, uma vez mais, meu compromisso com a verdade, doa a quem doer.
Minha resposta mexeu com os brios de parte dos colegas, indignados com meu desdém pelo penta, que passaram a defender tanto o evento quanto o escrete canarinho - por mais que as esperanças não sejam muito esperançosas.
De qualquer forma, não tenho como não concordar com Goreti: se avançarmos, ainda conseguimos dois ou três jogos para diminuir o expediente - muito pouco para toda a expectativa criada:
Tirando a copa de 2002, esta é a mais inútil desde que estou vivo e consciente da passagem do tempo - e, principalmente, enredado nas teias do capitalismo por intermédio da revenda de meu tempo de vida sob a forma de mão de obra assalariada. Digo isso da perspectiva de quem não se emociona com esse evento, hoje transformado em uma data puramente comercial, tal qual o natal. 
Minha bonita fala não foi compartilhada pelos aficionados da ludopedia bretã, em especial os seguidores do adolescente Ney (conforme os pitagóricos, já explicado em crônica anterior), que poderão ver seu ídolo e modelo de homem esquentando o banco de reservas, fazendo joinha para a câmera, chutando levemente a bola antes do jogo e, quem sabe, até mesmo ver o craque em ação, deitando e rolando pelos gramados da América do Norte. A discussão se instaura para além da bancada. É nessa hora que Goreti decide cutucar o vespeiro com vara curta:
Que o Brasil caia logo da primeira fase! Neymar é o ápice de toda uma geração do que só foi em potência - disse ele aristotelicamente. Neymar, Keirrison, Ganso, Foquinha, Pato: essa geração merece esse vexame para mostrar que futebol se faz no gramado, treinando e jogando sério. 
O fuzuê completo foi armado. Não era dia de jogo, mas o expediente foi praticamente suspenso na discussão que se seguiu.

09 de junho de 2026



PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Neymar, o pitagórico [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Então é Copa do Mundo, ou quase. Não tenho uma escalação ideal para palpitar, mas quero enfiar meu bedelho na polêmica convocação do Neymar. 
Para tal empreitada, tendo sempre em mente a neutralidade científica e uma avaliação desapaixonada (ao melhor estilo weberiano), deixarei de lado minhas opiniões pessoais sobre a referida pessoa. Isso talvez desagrade muitas das minhas desocupadas leitoras, dos meus desocupados leitores, mas me fio pela verdade e pela justiça, independente de quão impopulares e desagradáveis tudo isso pode ser. Ao veredicto. 
Sem concordar com quem apoia Neymar, preciso, contudo, discordar veementemente dos críticos do provável camisa 10 do escrete canarinho. Não tanto pelas avaliações desabonadoras de sua condição atlética, de sua forma física e da qualidade atual de seu futebol, mas pelo que falam - injustamente - da pessoa Neymar.
Muitos o acusam de imaturo, de estar em idade - 34 anos - que não permitiria mais ser chamado de Menino Ney, muito menos de agir como um adolescente playboy mimado, sem comprometimento com coisa alguma que não seus desejos de reizinho.
O que tem passado despercebido dessas pessoas é que Neymar, na verdade, tem um pé no pitagorismo. A partir do momento em que se entende isso, que se conhece alguns princípios pitagóricos, tudo faz sentido, e esse ídolo da machulência, de mau caráter mercenário pode passar a ser visto como adepto da filosofia criada por Pitágoras de Samos, ainda no século VI antes da era comum.
Quem me deu a letra foi o Brotinho, que está lendo Foucault. No curso da Hermenêutica do Sujeito, na aula de 20 de janeiro de 1982 (exatos dez anos e quinze dias antes do nascimento do craque, o que não deve ser por acaso), página 85, diz o filósofo “que para os pitagóricos a vida humana era dividida em quatro períodos, cada qual de vinte anos: durante os vinte primeiros anos, na tradição pitagórica, era-se criança; de vinte a quarenta, adolescente; de quarenta a sessenta, jovem; e, a partir dos sessenta, idoso”. Ou seja, o termo “Menino Ney” peca por certa imprecisão: Neymar oficialmente é um adolescente. Mas, convenhamos, quantos de nós não chamamos adolescentes de crianças - principalmente quando estão em bando barulhento, no metrô, na fila do mercado ou no cinema? Daí que me parece aceitável essa licença poética, de apenas um período para outro - diferentemente se ele já fosse jovem e seguisse sendo chamado de menino, seria até mesmo desrespeitoso para com ele.
Sobre a outra parte da polêmica de sua convocação, de ele a ter comemorado fazendo propaganda de bet, novamente o pitagorismo explica. Conforme resumo da IA: “sua doutrina central defendia que ‘tudo é número’, unindo o rigor da matemática e a busca pela harmonia cósmica à crença na imortalidade e transmigração (reencarnação) da alma”. Está aí, Neymarketing está apenas buscando a harmonia cósmica através do acréscimo de números à sua numerosa conta bancária, que lhe permitiria a imortalidade.
A mesma coisa vale para sua lesão: ele continua com duas panturrilhas, ou seja, numericamente segue perfeito e pode, portanto, participar da copa. Qualquer outra avaliação sobre sua convocação é uma perseguição injusta contra o Menino Ney, que tantas alegrias trouxe ao povo brasileiro com toda sua irreverência aprendida no pôquer com os parças.
Tudo isso porque fui almoçar com meu irmão e meu sobrinho este final de semana. Parece que o garoto anda ficando rebelde, apesar de ainda ser criança - e não somente segundo os pitagóricos. Tem insistido por um álbum de figurinha da copa; pelos comentários que tem feito, parece já ter assistido a jogos de futebol na tevê (no estádio com certeza não foi, por enquanto, é uma questão de tempo até o tio aqui levá-lo), o que contraria as diretrizes da Escola Voldemort, e, pior, tem usado um vocabulário que deixa seus pais em choque. 
No almoço, eu comentava, com todo o cuidado lexical, de minhas desavenças com a doutora Sabujinha. Ele comia como se não prestasse atenção, até uma hora soltar:
Essa sua colega é uma verdadeira fã de Neymar!
Sem muito entender o porquê Neymar entrou nessa conversa, tentei defender minha colega - eu e meu senso de justiça:
Não sei das preferências futebolísticas dela, mas acredito que não seja fã, não.
Não, tio, você não entendeu. Pouco importa que ela goste mesmo dele, mas ela é uma fã de Neymar com certeza: mimada, idiota e que não aceita críticas, igual o ídolo. Ela faz caretas bocós também?
Só então entendi que se tratava de um xingamento juvenil, ou melhor, infantil. E o pior: sim, doutora Sabujinha gosta de fazer caretas bocós quando conta certas histórias. Enquanto seus pais o repreendiam por usar as palavras “idiota” e “bocós”, eu pensava que ele leva jeito para análises, talvez dê um bom psicólogo ou sociólogo no futuro: doutora Sabujinha é uma verdadeira fã de Neymar!

01 de junho de 2026

PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Guerra de trincheiras [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Tenho sido injusto com Pacheco, a doutora Sabujinha, preciso reconhecer isso, humildemente. Bastou pouco mais de uma semana com ela sentada ao meu lado, ou melhor, às minhas costas, para ver que sabujinha é apenas um dos adjetivos que lhe cabe. Sabujinha-Mimada é mais apropriado, mas ainda assim não capta de maneira completa toda a holística que envolve esse ser tão... tão... tão cativante, vamos dizer assim. 

A disputa pela janela continua. Ela a quer fechada, pois o vento desarruma seu cabelo. Como estratégia, colocou seu gaveteiro defronte a ela (é uma janela de duas folhas). Chegamos a um meio termo: o gaveteiro fica só na folha próxima a ela, a outra, eu deixo aberta. E aí começa a briga do vento, porque ela diz que a minha parte joga o vento para ela, com consequente desarrumar de seu penteado tão bem preparado durante a manhã - mas ela não abre a folha dela. Hoje achou nova estratégia para tentar deixar a janela fechada: reclamar do sol. Baixou a persiana, sob a alegação que o astro-rei batia nela e atrapalhava a visão do monitor. Sua antecessora passou um ano ali e nunca viu problema, mas o alecrim dourado... enfim.

Enquanto isso, do outro lado da bancada, Mello, sem a companhia da Sabujinha (eles são próximos), passou a implicar com a mania de longa data da Goleador, de trocar os nomes dos colegas por querer - eu mesmo sou Ciro para ela. Não estou a fim de me indispor com ninguém por cousa pouca, mas se Mello tanto se irrita, poderia chamá-la de Silviano, do romance O Amanuense Belmiro; mas não sei se tem esse repertório todo - isso vale tanto para Mello, de conhecer o romance, quanto para Goleador, de ser uma intelectual com inclinações filosóficas e literárias (até onde sei, o único mala com essas aspirações aqui no setor sou eu, e o faço sorrateiramente).

Voltando às minhas questões com a doutora Sabujinha-Mimada, ela notou que estava passeando demais e resolveu ficar um pouco mais na sua baia. Resultado: os colegas começaram a vir até ela para longos colóquios sobre assuntos assaz desinteressantes - conversas de elevador com pompas de erudição (afinal, estão diante de uma doutora!). Além da maçada do evento, isso prejudica todo meu trabalho de fingir que trabalho: o risco de bisbilhotarem, ainda que de modo menos invasivo que de Pacheco, é alto, e isso pode comprometer toda minha estratégia, já levantada aqui em outros textos.

Em resumo: com o passaralho dos cabeças e a reformulação pela qual passamos, aquela tensão por receio de demissão diminuiu, mas o clima geral no setor não está lá muito bom. Entre o bafo da sala e os cabelos esvoaçantes da doutora Sabujinha, vejo minha produtividade de procrastinador profissional prejudicada pela erudição de almanaque que farfalha às minhas costas. 


São Paulo, 29 de maio de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Xadrez da procrastinação [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

O novo chefe assumiu querendo mostrar serviço. Uma das suas metas é diminuir o tempo ocioso. E uma das primeiras ações foi mudar o firewall do setor, bloqueando uma série de sites e aplicativos, não apenas no computador da empresa, como nos celulares, caso acessem a internet a partir do wi-fi. Nada de twitter, reddit, youtube, spotify. Instagram, em compensação, segue liberado - até alguém dedurar para a chefia, mas até agora ninguém teve essa brilhante ideia. Fica o questionamento existencial: no que o spotify atrapalha mais que o Instagram na eficiência do trabalho? 

É nessa lógica de melhorar a eficiência como um todo que mudaram a doutora Sabujinha de lugar. Pacheco (a doutora Sabujinha), que já tinha se aproximado do novo chefe quando notara suas movimentações internas, convenceu-a de que onde estava antes, em local de grande fluxo, acabava estimulando que pessoas parassem para conversar com ela, atrapalhando seu aproveitamento no serviço. Na real, ela queria era sair de perto de Carnegie, nosso arauto do apocalipse. Agora é ela quem circula. Na verdade, sempre circulou, mas agora é mais ainda - lembrem-se que ela é uma pessoa muito sociável, quando lhe convém. Não acho de todo ruim, pois quanto menos ficar no meu cangote, menos me irrito - mas só de lembrar que ela logo vai voltar, já estraga meu dia: já começamos a brigar por causa da janela: ela quer fechada, eu prefiro aberta, para o ar circular. E fica aqui outra reflexão existencial: por que cargas d’água quem não gosta de levar um ventinho faz questão de sentar junto à janela, mantendo aquele bafo no ambiente todo? Antes que perguntem, o espaço tem ar-condicionado, mas ele gela basicamente quem está na sua linha de tiro, deixando o resto da sala sem alteração.

Contudo, fico aqui a pensar se a doutora Sabujinha fez bem, ou deu um tiro no pé. Seguimos, eu e ela, disputando quem é o mais vagal de todo o setor. Eu, por ora, ganho com louvor. Não que eu trabalhe pouco, mas faço questão de entregar somente o que me pedem, me meto somente no que sou chamado, e demonstro ampla ignorância em tudo o que não tenho pleno conhecimento. Ela, por seu turno, reclama o tempo todo de estar sobrecarregada, chegando a atrasar tarefas simples (e não comprometedoras, pois ela sabe o que pode atrasar) para fingir que tem muitas demandas. Temos tido bons resultados, evidenciados nas férias dos colegas: dificilmente nos passam qualquer tarefa - eu por pretensa incompetência, ela por pretenso excesso de afazeres. Não que eu não fique com certo peso na consciência, pois quem recebe a bucha são Macedo e Goleador, justo os dois que mais trabalham na equipe - e chego mesmo a me oferecer para ajudá-los nessas demandas de férias, sempre em off, claro.

Como disse, Pacheco pode ter feito um movimento errado no seu xadrez da procrastinação (para usar um termo chique): ao ficar zanzando para lá e para cá, conversando sobre qualquer assunto que não seja relacionado ao trabalho, acaba chamando a atenção e pode levantar a suspeita de que suas demandas não são tão altas assim. Meu medo: se/quando posta contra parede, me denuncie como mais vagal que ela, e me faça trabalhar mais.

Depois de Goleador e Carnegie, parece que é minha vez de começar a me indispor com a colega - mas o problema é sempre os outros, pois ela, tão amiga de (quase) todo mundo, não pode ser uma pessoa ruim.


28 de maio de 2026

PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas 

quarta-feira, 27 de maio de 2026

O passaralho chegou! [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Chegou o tão anunciado passaralho! Isso faz uns dias, mas só agora consigo entender o que está acontecendo - mais ou menos - e trazer aqui para a desocupada leitora, o desocupado leitor que me acompanha. Justifico a demora: Macedo esteve de férias no meio desse imbróglio todo, e ele é minha fonte oficial, já que preciso manter minha pose de antissocial. Não que eu tenha algo contra meus colegas (salvo alguns), mas prefiro seguir sem ter nada contra, e para isso, nada melhor que evitar contato.

Doutora Sabujinha de olho no que Sérgio S. está fazendo no trabalho, enquanto este está mal humorado
O passaralho veio, mas foi muito diferente do que imaginávamos. Começaram pelo escalão do meio, os subchefes (que têm, ou melhor, tinham títulos mais pomposos, mas gosto de marcar que eram subchefes). A surpresa foi geral, pois eram duas das pessoas mais proativas, que vestiam a camisa da empresa e dispostas a sacrificar finais de semana para resolver pepinos que o chefe deixava passar por incompetência. 

Passada essa perplexidade inicial, veio o medo: limparam o meio-escalão, era hora dos buchas de canhão. Um mês e nada. No início do segundo mês, novo organograma dos setores, excluiu um, incorporou em outro, criou mais um. Agora vem a tesourada, imaginamos. E veio... no chefe. Sempre bem relacionado, não foi suficiente para superar sua improdutividade. 

Fora isso, uma série de rearranjos, mas ninguém demitido. Nada de cortes no quadro geral, para “melhorar a eficiência”, como os cabeças de planilha adoram fazer.

Na rádio-peão choveram teorias conspiratórias sobre o que teria acontecido. A mais aceita é que as demissões dos dois subchefes, que eram os braços direitos do chefe, eram para dar chance para este mostrar sua capacidade. Deram um mês de prazo. E ele atestou o que seus subordinados já sabiam.

Também vieram as fofocas quentes. O funcionário contratado não havia muito, com todos os louvores do RH, teria sido quem puxou o tapete dos braços direitos - e ganhou como prêmio a chefia do setor criado a partir da fusão de outros dois, no qual fomos alocados. 

Da minha parte, eu não gostava do chefe antigo, então não lamentei. Ainda não tive tempo para desgostar do atual, mas sei que é questão de ter um pouco de paciência. Ao menos ele é mais simpático com os subordinados - até agora.

Consequência da reformulação: dança geral das cadeiras, várias mudanças de baias. Praticamente só a do nosso setor permaneceu intacta. A baia que fica às minhas costas, não. E quem foi sentar logo atrás de mim? A doutora Sabujinha! Com todo seu carisma e sempre animada para conversas de cerca-lourenço, em se queixar da vida e ver o que os outros estão fazendo - prejudicando minha veia literária (se os textos começarem a rarear, já sabem). A nova queixa dela é que onde ela senta (onde ela quis sentar!), perto da janela, é frio. Ela poderia mudar? Poderia. Vai? Já avisou que não. Pior: ela confidenciou a Macedo que gostaria, mesmo, era de ficar no meu lugar. Sabendo do seu sabujismo, isso é uma clara ameaça.

A maioria dos colegas respira aliviado, acreditando que o passaralho passou. Eu, sigo na tensão e já passei o recado via o nobre colega: se forem me tirar do meu lugar, vai ter gritaria!


27 de maio de 2026

PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas 

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Fat Free [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça]

Há quatro meses Mello pediu permissão para usar um pequeno armário que estava largado em um canto - cuja única utilidade era guardar a panela de arroz de Goreti -, convenceu um punhado de colegas a fazerem uma vaquinha para comprar os insumos necessários - inclusive o capital fixo investido no projeto - e lançou o Clube do Café. 

A ideia não é de todo ruim, dada a qualidade do café servido na empresa e os preços cobrados em cafés simples aqui pelo centro. Também não é de todo boa, pois inibe a saída no meio da tarde (às vezes no meio da manhã também) para tomar um café que presta - o que nos permite ganhar vinte a quarenta minutos diários, como bem ensina o Manifesto Proletário, do Capirotinho.

Uma das coisas que mais me chamou a atenção e que traz a bioassinatura de Mello, famoso por ser alguém que gosta de caminhos tortuosos para processos simples, é que, ao invés de comprarem uma cafeteira, dessas que você põe a água num compartimento, o café em outro e o líquido preto pinga num jarro que permanece aquecido, compraram uma chaleira elétrica para esquentar a água, um coador para passar o café, uma leiteira para passá-lo e a garrafa térmica para guardá-lo. Um trabalho extra que não raro resulta em um extra de trabalho, para limpar quando o pinga borra no armário. Ainda assim, funciona.

Para angariar mais sócios, passaram a promover, uma vez a cada quinze dias, o dia do café gurmê, quando um grupo de pessoas se reúne em volta do armário para discutir as notas que aquele café traz. A estratégia foi bem sucedida. Tão bem que até Macedo aderiu ao clube, traindo parcialmente o clube da bancada antissocial. Sendo honesto com o nobre colega, mesmo fazendo parte do Clube do Café, segue a me acompanhando no café da tarde fora - num esbanjamento que meu salário não me permite. 

Assim, a comunidade cafeteira foi se formando: começaram a aparecer bolachas para acompanhar o café, e doces diferentes para acompanhar as bolachas - essa parte, até onde entendi, sem financiamento coletivo, na base da camaradagem, mesmo.

Justiça seja feita a Goreti e sua panela de arroz: foi a influência primeira desse tipo de excentricidade, que Mello soube tornar definitivamente numa experiência coletiva.

Hoje eu e Macedo voltamos do café da tarde e nos deparamos com um grupo de cinco marmanjos e uma marmanja em volta da mesa do Clube do Café, em calorosa conversa. 

Não ficou para beber o café gurmê hoje? - perguntei a Macedo.

Hoje não é dia de degustação - respondeu meu nobre colega.

Logo a algazarra diminuiu, até se fazer silêncio e apenas os poc poc poc ressoarem pela sala, junto ao cheiro característico que acompanha tal barulho. Quando os barulhos pararam, comemoram: tinham comprado uma pipoqueira elétrica, a ar quente! 

Fat free! - fez questão de ressaltar Mello, que explicou que a ideia veio semana passada, quando um cheiro de pipoca de microonda - dessas que fedem a manteiga rançosa, tipo de cinema - escapou do refeitório mais rápido que cheiro de peixe e invadiu nossa sala. E prometeu: semana que vem começa a trazer a manteiga para quem quiser misturar ao milho.

Goreti, que também não participa do Clube do Café, não falou nada. Mas imagino que, amargo do jeito que é, ao ver seu gesto de rebeldia anarquista-individualista se tornar um elemento de integração do pessoal e melhoria do desempenho, não ficou muito feliz.


21 de maio de 2026

PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas 

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Sexc, Sé e poliestireno expandido com meu sobrinho [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Fazia tempo que não deixavam eu passar um dia com meu sobrinho, em um programa só nosso. Não entendi bem essa resistência de meu irmão em deixá-lo comigo, uma vez que sempre busco formas de enriquecer os conhecimentos e o vocabulário do garoto, que cresce cada dia mais e que se já não completou doze anos, com certeza tem mais de seis - nunca dei muita importância para essa coisa de idade, acho que serve só para fazer a gente se sentir velho e ver o tempo que passou sem ter sido aproveitado. E acho isso desde meus quinze anos! Antes que me chamem de tiozão da meia-idade em crise de identidade e em revolta contra o tempo e a idade.

Ao deixá-lo em minha casa, meu irmão foi taxativo: nada de telas para o rapaz. Tranquilizei-o mostrando que havia comprado entradas para uma peça infantil no Sesc e que depois iríamos dar uma volta pelo centro - o que deixou meu irmão preocupado.

Qual é, não confia em mim? Alguma vez já perdi ele de vista?

Confesso que não senti muita confiança da parte dele, mas estava em cima da hora para o compromisso que tinham e não havia outra alternativa que não deixá-lo comigo.

Estávamos a caminho da unidade cujo espetáculo seria apresentado, e sentindo que a conversa não rendia muito, decidi usar o sotaque carioca para me referir ao local.

Você costuma ir ao Sexc? Perguntei.

Meu pai me leva de vez em quando.

E o que você mais gosta de fazer no Sexc?

Piscina foi a resposta dele. E nessa hora lembrei que essa realidade eu não possuo: não sendo comerciário, conheço o Sexc apenas da parte cultural.

E por que você está falando Sesc desse jeito estranho?

É mais goxtoso. Experimenta.

Assim fez - e gostou. Eu sabia! Diante de todas as restrições impostas à pobre criança pelos pais e pela escola Voldemort, qualquer leve sinal de desvio já traz um prazer. Notei bem isso quando assistimos a um desenho animado (para família) comendo salgadinho, refrigerante e chocolate: ele não sabia nem como se portar diante de tanta rebeldia.

Depois do Sexc, fomos passear pela Sé - ver a exposição no CCBB, que não era para criança, mas era uma das poucas coisas que os pais deixavam que eu fizesse com o garoto. Ele não se interessou muito, mas se comportou bem - como  sempre. No caminho, nos deparamos com bules e copos de café gigantes. Diante de um desses copos, ele questionou:

Tio, que porra é essa?

De onde ele aprendeu a dizer porra, eu não sei. Certamente, não foi comigo. Mas fiquei com medo de repetir a palavra para seus pais logo depois de nosso dia aprazível e eu ter que me explicar novamente ao meu irmão, sem ter como me defender de algo que não fiz. Enfim, expliquei que tinha acontecido a semana de festival do café do centro, por isso aquelas instalações: era uma forma de chamar a atenção para esse problema - o baixo consumo de café - e estimular o turismo local. Não expliquei como isso acontecia, porque eu mesmo não fazia ideia: quem toma café continuou tomando café, quem não toma café não mudou o hábito por causa de um festival sem sentido, e quem pensava em tomar um café diferente no festival desistiu diante dos preços praticados.

A explicação não foi convincente, até porque eu não havia pego o ponto de meu sobrinho:

Mas tio, isso é um copo descartável, de isopor. Eles estão estimulando produzir mais lixo?

Argumento irretocável, o do meu sobrinho. Não tinha como dizer que não era bem assim: era isso, mesmo! Estímulo à produção de lixo desnecessário! E pior: café em copo de isopor perde até parte da graça, quando comparado a uma xícara de verdade.

Sei que você não pode tomar café, por enquanto, mas guarde isso para você: beba sempre café em xícara. E faça questão de café bom!

Foi a lição de moral que consegui tirar desse momento com meu sobrinho. Para trazer um conhecimento a mais, expliquei que isopor era marca, o nome correto é poliestireno expandido. Demorou para ele conseguir decorar o nome, foi me perguntando várias vezes no correr do dia.

Quando seu pai chegou para buscá-lo, contou rapidamente do nosso dia e com a empolgação de um guarda-parque mirim explicou que a prefeitura estava estimulando o uso irresponsável de poliestireno expandido no café.

Ah, é? Veja só, que coisa! 

E a seguir olhou para mim, aquele olhar reprovador que ele sempre traz quando acha que fiz algo de errado - mesmo que seja a ampliação do vocabulário de meu sobrinho.

Servir café no copinho de isopor, expliquei. E tratei logo de esclarecer: não bebemos café nenhum, nem ele, nem eu.



PS: Ainda bem que ele não perguntou, porque eu entendi menos ainda o slogan da tal semana do café: “Entre. Sinta viva. O café.” O que é “sinta viva”? Entrar aonde? Na instalação? Enfim, questões profundas que, felizmente, meu sobrinho deixou passar.


20 de maio de 2026

PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas