terça-feira, 1 de setembro de 2026

O padre e o RH [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]


Nessa de reformulações, passaralho, contratações, remanejamentos e outras bossas acontecidas nos últimos tempos dentro da empresa, criaram um cargo novo, uma espécie de supervisor-geral-responsável-por-fazer-os-contatos-intersetoriais-mais-ágeis (o nome é mais curto, mas mais hermético também). Ou, como ele mesmo disse na sua apresentação: “cheguei para fazer acontecer”. Enfim, não sei onde ele se encontra no organograma da empresa, que poderes possui, porém, reconheço, a coisa parece que começou a fluir melhor nas trocas entre setores. Isso não quer dizer que tenha feito um grande trabalho: quando tudo está parado, qualquer passo de tartaruga é um avanço.

Eu ainda estava a caminho do serviço quando Macedo anuncia no grupo de whatsapp: 

O padre já chegou ao escritório.

Padre?! Não entendi a história e achei que era o único perdido, mas descobri que não. Depois de ele garantir que era um padre de verdade - e não um de eleições e festa junina -, Carnegie perguntou:

Ele vai para qual setor?

A pergunta era pertinente - eu temia perder meu cantinho na janela -, mas eu tinha uma dúvida ainda prévia:

Padre pode ter dois empregos?

Macedo acabou nem respondendo no grupo, já que, aos poucos, íamos chegando ao escritório - ele gosta de ser o primeiro, parece até crescido na tradição japonesa. De qualquer modo, ele também não tinha muito mais o que esclarecer: havia chegado junto com um dos chefes, que trazia o padre, todo paramentado.

No meio da manhã, o padre apareceu no setor. Com uma garrafinha de água mineral na mão (daquela marca que teve lote recolhido por estar com bactérias), espargindo a água pelo setor - mas com cuidado para não acertar ninguém. Um colega até comentou que era a primeira vez que via padre benzer com água mineral. 

Ele deve ter esquecido o aspersório e a caldeirinha na sacristia; mais importante é a intenção - respondeu, depois, Mello, um dos que ficaram a ciceronear o padre todo o tempo, revelando um passado de coroinha, ou ao menos de papa-hóstia (se é que esta parte é passado).

Depois de percorrer o prédio todo, benzendo e rezando um pai nosso com quem quisesse, o padre se despediu e foi embora: não, não era um novo contratado, apenas amigo do novo supervisor-geral-responsável-por-fazer-os-contatos-intersetoriais-mais-ágeis, que, talvez tendo em vista o estado que estamos todos, decidiu apelar aos santos, ver se conseguia fazer acontecer de algum modo, como havia prometido.

Detalhe importante, que ficamos sabendo depois do almoço, quando um alvoroço tomou conta da empresa: ele não passou no RH. Restou o grande questionamento: que coisa ruim está no RH que o padre achou por bem evitar o setor - ao menos sem os equipamentos oficiais de exorcismo? Goreti, sem nomear, foi preciso:

Nem o padre quis entrar lá, e nós temos que nos submeter...


01 de setembro de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

O colega de banheiro [por Sérgio S. ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]


Em maio comentei aqui da reorganização e do passaralho que ocorreram na empresa. Cortaram vários cargos médios (que eu chamo de subchefe), depois alguns chefes, fizeram mudanças de lugares, e tudo parecia pronto para jazer na ordem que o capital exige. Sejamos sinceros: eu e meus colegas fomos semi-amadores na nossa avaliação. Tem muita coisa que se pode errar na percepção, na avaliação e nas conclusões - agora, achar que um passaralho vai se satisfazer sem passar a faca pelo chão de fábrica é quase como acreditar que privatização de serviço público vai trazer melhorias à população.
Mesmo que nunca tivesse trabalhado antes, era questão de observação e análise: cada setor fez uma reformulação, juntaram tudo e apresentaram como um trabalho coerente, sendo que em momento algum pareceu haver uma coordenação geral das reformulações, pensando na empresa como um todo e não em diretrizes gerais e cada setor em particular.
Resultado: não tardou um mês e começaram a reformular os setores reformulados - inclusive com contratações. Mais um mês e aí, sim, com mais uma série de fusões e desdobramentos de setores, mudanças de nomes e mudanças de salas, veio o novo passaralho - cortando, inclusive, vários daqueles funcionários que haviam sido contratados havia um mês.
Nessa novela, nosso setor teve várias transferências, algumas contratações, algumas demissões. Uma das salas que ocupávamos está vazia, a sala do antigo subchefe virou sala de reunião, e vários rostos desconhecidos apareceram (para compensar os rostos desconhecidos que desapareceram). Não me queixo totalmente: fui jogado para um canto, tenho agora apenas a janela às minhas costas - à qual deixo aberta, escancarada, o dia inteiro - e, mais importante: sem doutora Sabujinha nas proximidades. Pelo visto, notaram que havia algum clima belicoso entre mim e ela, e nos puseram em extremidades distantes. Pior para Carnegie, o Arauto do Apocalipse, que está agora sentado à direita da colega mais simpática do setor (quiçá da empresa, ainda que eu ache que não, preciso ser justo: tem gente muito podre aqui dentro).
O mais curioso dessa reformulação é que parece que quem pensou a nova distribuição geográfica dos funcionários fez curso de cálculo de microondas no refeitório - conforme o meme consagrado.
Dia desses encontrei Fernandes, o colega de cima (agora apenas um andar acima!) no corredor do nosso andar. Conversamos normalmente, e no final lembrei de perguntar o que ele fazia ali:
- Vim usar o banheiro, que os de cima estavam todos ocupados, com fila.
Achei que poderia ser algo pontual - um café da manhã coletivo com algo passado e que afetou todo o setor. Não era o caso.
Dia desses fui cumprimentado esfuziantemente por um colega no banheiro. Achei estranho: todos aqui conhecem minha fama - mesmo os novatos, parecem que já são alertados que eu sou uma pessoa de poucas conversas. Como sou educado, cumprimentei, mas sem a mesma alegria que ele. Na saída, perguntei ao Macedo, que me esperava para irmos almoçar, quem era aquele que havia saído antes de mim:
- É colega novo?
- Não. Ele tem anos de casa.
- Mas como nunca o vi antes?
- Foi transferido pro setor que ficou no andar abaixo, e estão com poucos banheiros para a quantidade de funcionários alocados.
Ou seja, a empresa lançou a inovação do colega de banheiro. E eu, que já não faço parte do clube do café, para não ter que socializar, agora preciso evitar até mesmo o mictório!





17 de agosto de 2026



PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas