Estou tranquilo no meu canto, fingindo que trabalho, quando chega um novo funcionário, acompanhado pela secretária do supervisor-geral-responsável-por-fazer-os-contatos-intersetoriais-mais-ágeis. Olho para ele e penso: conheço de algum lugar. A cachola 486 DX4-100 (os antigos vão reconhecer) começa a vasculhar os arquivos, mas não consegue identificar ninguém. Lembra um vendedor de enciclopédia que bateu na casa de meus pais, quarenta anos atrás - mas ele deve ter trinta anos, se muito. Aguardo sua apresentação à equipe, porém ela não vem. Mas que eu conheço ele de algum lugar, conheço!
Pouco antes do almoço, enquanto decidíamos aonde iríamos almoçar, Macedo me pergunta o que achei do retorno do colega. Retorno? Então ele já teria trabalhado no nosso setor?
Como assim, você não lembra do sobrinho do diretor geral?
Eu realmente tinha apagado da memória essa figura: é Basso - Cabaço para os que falam dele pelas costas -, nosso Mr. K. da meritocracia.
Ele não tinha galgado uns cargos aqui na empresa, não? - Questionei, ingênuo.
Foi Carnegie, o Arauto do Apocalipse, quem puxou a capivara do sujeito nos meandros da empresa, desde sua chegada, no início do ano passado: do setor de vendas ao criativo, passando pelo administrativo, relações públicas e jurídico, sempre em algum cargo de subchefia. Sem dúvida, o rapaz é invejável pelas suas múltiplas habilidades - praticamente só faltou ele passar pela portaria, faxina e cargos de direção para gabaritar todos os setores.
Mas ele está trabalhando arduamente nesse sentido. Diferentemente do que imaginávamos, ele não está voltando ao setor, e sim sendo promovido a assessor especial do Manager de Fluxos Intersetoriais - que, como explicado em crônica anterior, ocupa parte da nossa sala.
Foi-lhe concedido um lugar de destaque, tais quais seus méritos: deslocaram um pouco a mesa da secretária do Manager, e puseram sua mesa na frente: qualquer pessoa que entra na sala vai se deparar primeiramente com ele.
No pouco que ouvi ele conversar, se gabava de que teria acesso direto ao Manager, e sempre seria consultado para questões importantes, mas até agora o que pudemos ver é, na melhor das hipóteses, um recepcionista da secretária: a pessoa teria que falar com ele, que passaria para a secretária, que avisaria o supervisor.
Uso o futuro do pretérito porque parece que a coisa não está funcionando muito do jeito que ele imaginava: é comum que a pessoa passe por ele com um cumprimento rápido e se dirija direto à secretária - quando não direito ao supervisor, como é o caso de Goleador, que parece estar levando a sério essa coisa de contatos mais ágeis, e já ganha a antipatia da secretária.
Carnegie andou dando uma olhada na tela do colega, para saber o que ele faz durante seu expediente: até tem coisa de trabalho, mas em geral ele está vendo cotação de cripto (eu sabia!) e fazendo militância virtual para a extrema-direita (não dá para ficar sustentando vagabundo com Bolsa Família, né?).
Pois é, parece que eu e Doutora Sabujinha temos um concorrente de peso agora para saber quem é o mais vagal do nosso recinto.
20 de outubro de 2026
PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas

