quarta-feira, 17 de junho de 2026

A Ilíada do Clube do Café [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Marx, parafraseando Hegel, costumava dizer que a história se repete, a primeira como tragédia, a segunda como farsa. Pois esta semana estive diante de um rapto homérico aqui no serviço, mais especificamente no setor onde me encontro alocado como capital circulante. O primeiro rapto homérico, creio ser de conhecimento geral, é de Helena por Páris, desencadeador da Guerra de Tróia. A situação no trabalho talvez seja um pouco menos dramática, ou melhor, trágica, sem rapto de mulheres - até porque os tempos são outros e apesar de eu suspeitar que muitos colegas teçam comentários e tenham visões machistas, no ambiente eles (e elas) mantêm um mínimo de compostura.

Tudo corria relativamente bem naquela quarta-feira fria de sol, quando um colega do Clube do Café decidiu fazer uma pipoca para acompanhar o jogo de Portugal, digo, uma reunião on-line à qual estávamos submetidos. Abriu o armário onde ficam os apetrechos do clube e a panela de arroz de Goreti, buscou, buscou, buscou e... nada da pipoqueira. Discretamente ele comentou na sala:

Alguém viu a pipoqueira do Clube do Café? Não estou encontrando ela no nosso almoxarifado. - sim, eles chamam o armário de almoxarifado do Clube do Café, para irritação do dono da supracitada panela de arroz. A balbúrdia rapidamente se alastrou no ambiente, até porque o gol de Portugal saiu logo no início - e nada da pipoca para acompanhar o evento. Entre aqueles integrantes do Clube que não estavam na reunião, começou uma investigação para descobrir onde poderia estar o referido eletrodoméstico: quem foi o último a usar, quando foi a última vez que comeram pipoca. Sem pistas, a discussão chegou ao grupo de whats - conforme relatava minha fonte, que mantenho o sigilo por direito de ofício -, para indignação de ainda mais integrantes.

Fomos roubados! - bradava uma das vozes mais exasperadas.

Já perguntaram na segurança? - interveio outro, mais prático.

E lá foi Mello, como membro mais proeminente do referido Clube - e não estando em reunião -, ver com os seguranças se haveria possibilidade de analisar as imagens do circuito interno. A sala da segurança fica no mesmo andar do RH - e não foi necessário ir até ela. O cheiro de pipoca impregnava o andar - era intervalo de jogo, deviam estar fazendo a leva para o segundo tempo. O que se seguiu daí são versões contraditórias.

Diz uma versão que Mello chegou pisando duro na sala e ao se deparar com a inefável prova do crime exigiu imediata devolução do item raptado - o que não foi atendido. Saiu prometendo vingança.

A segunda versão diz que ele foi sorrateiramente até o RH, se certificou de que se tratava mesmo da pipoqueira que ele havia escolhido para o Clube, e perguntou quem tinha autorizado a pegar o apetrecho. Para sua surpresa, quem havia autorizado não era ninguém mais, ninguém menos, que um dos membros fundadores do Clube do Café: Conan (sim, temos um colega chamado Conan, inclusive com porte físico para estrelar o filme do bárbaro). Conan que na reorganização pós-passaralho foi transferido de setor, e por isso ninguém mais lembrava dele. Detalhe: ele não foi para o RH - ou seja, mistérios pairando no ar. Enfim, autorização dada, devolução de pipoqueira negada, depois de uma altercação que chamou a atenção da sala ao lado do RH, a da segurança. Mello saiu de lá prometendo vingança.


A discussão foi para o grupo de whats:

Quem foi que autorizou à revelia que a pipoqueira fosse emprestada? - questionou Mello, como quem não soubesse do que havia se passado.

Conan vestiu a carapuça e foi direto:

Entrei com minha quota na pipoqueira, tenho direito a usá-la de vez em quando.

Os meandros da discussão deixo de lado, para não cansar a desocupada leitora, o desocupado leitor, com filigranas jurídico-escolástica-econômicas. O resultado é que a pipoqueira ainda não voltou. E a ameaça de vingança de Mello segue pairando no ar.


17 de junho de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.

terça-feira, 16 de junho de 2026

Férias steinbruchianas [por Sérgio S. ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Carnegie pistola é engraçado. E não precisa de muito para ele ficar assim: uma derrota do Palmeiras, uma vitória do Corinthians, falar o óbvio sobre futebol (ele tem posições bem heterodoxas sobre o esporte bretão em terra brasilis, em especial sobre Corinthians e Palmeiras, sendo que este seria o verdadeiro time popular), uma conversa simples com algum desafeto seu do trabalho, algum assunto político quente do momento. 
Minha forma mais habitual de deixá-lo pistola é dizer que ele é fã do Benjamin Steinbruch. Para avivar a memória da desocupada leitora, do desocupado leitor - ou mesmo trazer essa informação a quem não acompanha economia e política com muito afinco -, Steinbruch já defendeu que horário de almoço de trabalhador é um desperdício de tempo, que ele poderia comer um sanduíche com uma mão e seguir operando a máquina com a outra, levando 15 minutos para isso. Uma hora de almoço é praticamente um potlatch que esquerdista defende. Para quem não sabe, Potlatch é uma cerimônia tradicional de povos indígenas da América do Norte, de desperdício e/ou destruição de bens. O objetivo é ganhar prestígio, dividir riquezas e fortalecer alianças na comunidade. 
Enfim, eu falava de Carnegie, nosso arauto do apocalipse, que fica pistola sempre que eu digo que ele é steinbruchiano, porque ao invés de ir ao refeitório, ele prefere almoçar na sua baia, enquanto trabalha (só que não é um sanduíche e não são só quinze minutos, por enquanto). Ele diz que assim faz porque gosta de comer em horários em que o refeitório está muito cheio e, principalmente, porque tem algo urgente para terminar aquele dia, mas não é sempre assim - ainda que isso aconteça todo dia.
Eis que estamos eu, Meirelles, Macedo e Goreti conversando sobre assuntos aleatórios (impressionantemente, não é sobre a copa, nossa bancada é meio rebelde) antes de começar de verdade a trabalhar, quando chega o herói desta crônica. Olhamos para ele surpresos:
Você está de férias! - fala de pronto Meirelles, antes mesmo do bom dia.
Eu sei, mas... - tenta responder Carnegie.
Ótimo que você sabe, então, tchau. - responde correta e secamente Goreti.
É que eu tenho um assunto urgente e importante para resolver.
Se não for recolher suas coisas porque ganhou na loteria, não é importante, nem urgente.
Se ele ganhasse na loteria, nem precisaria vir buscar as coisas dele - me intrometo na discussão, dada a falha lógica no argumento do colega Goreti, que não posso deixar passar.
Tem razão - humildemente ele concorda -, então, vamos lá: se não veio recolher seus apetrechos porque conseguiu um emprego melhor, não é urgente nem importante.
Nada disso. Mas eu tinha que ter terminado um relatório semana passada e não deu tempo.
Isso é problema da chefia e quem ela designou para te substituir, no caso, o Sérgio S.
A lembrança desse pepino pra resolver me faz estremecer.
Prefiro eu mesmo fazer.
Vai ganhar uma estrelinha de bom funcionário.
Minha vontade é pôr panos quentes nessa história: deixa o colega vir trabalhar nas férias, se ele está entediado em casa. Mas me controlo, não posso dar bandeira tão grande assim da minha constante luta pelo ócio.
Carnegie nem responde: já está posicionado defronte ao computador, disposto a terminar o relatório o quanto antes, para começar a desfrutar - finalmente - suas férias. Meu maior receio é que depois do almoço steinbruchiano, suas férias steibruchianas, de quem segue trabalhando normalmente - com as duas mãos! - enquanto descansa, se tornem um exemplo para os superiores. Até lá, cruzo os braços e aproveito a proatividade alheia.

16 de junho de 2026

PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.