quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Justo, justo, não é

Está em discussão no congresso o projeto de lei 4146/2020, que regulamenta a profissão de trabalhador essencial de limpeza urbana e estabelece um piso nacional para a categoria - dois salários mínimos mais adicional de insalubridade em grau máximo. 

Fiquei sabendo dessa lei por um funcionário da limpeza pública de São Paulo, que comentou comigo: “Viu que estão para aprovar uma lei que aumenta nosso salário? Vamos passar a ganhar R$ 4.500”. “Nada mais justo”, foi minha resposta, ao que a tréplica dele me desconcertou: “Justo, justo, não é, porque a gente não tem estudo”. 

Tratei de confrontá-lo: falei da importância do serviço dele e seus colegas e que todo mundo merecia um salário digno. Para além do desconcerto, sua resposta me trouxe ainda uma certa tristeza e perplexidade.

Primeiro por sua percepção de justiça. Ele vai além do interesse pessoal e pensa coletivamente, em termo de justiça e não apenas em “se dar melhor”. Contudo, na sua concepção - uma visão claramente ideológica (me desculpem o palavrão marxista), recebida principalmente do sistema hegemônico de comunicação -, o justo não é ganhar um salário que garanta uma vida digna, justo é ganhar conforme o merecimento.

E merecimento aqui é medido em anos de escolaridade, não em trabalho - muito menos em relevância social. Ele não apenas aceita, como assume como correta, como justa, nossa vergonhosa distribuição de renda. E faz isso em detrimento do seu próprio interesse. Não é alguém de classe média, numa posição confortável, se indignando contra dar um salário ok para profissionais da limpeza - tida por profissão subalterna, quase aviltante -, é um trabalhador recusando o reconhecimento de seu valor social - e, mais que isso, seu valor enquanto ser humano.

Outro elemento da sua resposta é sobre o salário: ele não é visto como um preço pelas horas trabalhadas, e sim como uma recompensa pelo seu esforço. E uma recompensa quase moral - no sentido de estar atrelado a uma série de esforços feitos durante a vida. Nessa sua concepção, o salário não está vinculado ao trabalho, mas ao preparo a ele, e esse preparo é medido em anos de estudo. O círculo vicioso é fácil de ser fechado: quem tem que entrar no mercado de trabalho mais cedo tem menos condições de seguir com seus estudos, logo terá, para o resto da vida, menos direito a um bom salário, pelo motivo de ter estudado menos, por conta de ter trabalhado desde cedo.

Este aspecto talvez ajude a entender muito do ressentimento atual de várias pessoas: terminaram o ensino médio e fizeram faculdade - às vezes trabalhando ao mesmo tempo -, para não verem seu esforço recompensado financeiramente. Cadê a justiça do sistema?

Por fim, sua resposta demonstra também uma auto-estima vulnerabilizada pela própria situação social em que se encontra. Por não ter feito ensino superior - talvez nem mesmo terminado o ensino médio -, ter um trabalho em um ramo com forte estigma (por mais que seja registrado), meu interlocutor não se vê como um cidadão de plenos direitos, não se vê merecedor de direitos - como se fossem questão de mérito. Sua tréplica é quase um pedido de desculpas por poder vir a ganhar mais que muitas outras pessoas que se prepararam mais, que teriam “se esforçado”.

Enquanto esquerda, nosso trabalho de educação política precisa estar no dia-a-dia, confrontar as pessoas em conversas do nosso quotidiano; não para levar a verdade, mas para desfazer esse tipo de construção, que faz com que a pessoa se sinta a responsável pela sua condição precária de vida.

“Justo, justo, não é”. Nesse ponto, meu interlocutor não deixa de ter certa razão: não há justiça em quarenta horas de trabalho, não importa o salário.


26 de fevereiro de 2026



sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

O ciclo de vida de um sabujo [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Vida de doutor ou doutora sabujinha não é tão simples assim, reconheço. O deslumbre inicial dos chefes uma hora começa a virar desconfiança, a cobrança por resultados passa a se intensificar, e todo aquele trabalho para fazer com que os números atendam ao que superior queria que fosse verdade vai se desfazendo diante da realidade, que insiste em contradizer os desejos do chefe e as adequações feitas pelo sabujo ou sabuja de turno.

Aqui na empresa teve o doutor Sabujinho que de golden boy, elogiado no meio do expediente em voz alta para todo o setor ouvir, logo se tornou criticado abertamente na reuniões diante da sua inépcia, até começar um processo de assédio, mesmo - quando ele conseguiu uma boa vaga em empresa concorrente, certamente usando das suas habilidades fagúndicas (para usar a personagem da Laerte).

Rivarola, o doutor Sabujinho anterior à atual, era mais vivo e quando viu que suas técnicas de persuasão estavam fazendo água e, mais ainda, quando os resultados que ele precisava entregar começaram a aparecer e se mostraram pífios - os melhores -, tratou de conseguir uma transferência interna - deixando para o nobre colega Desembargador ter que organizar um plano de contenção para dar conta da série de erros primários cometidos.

Agora, pelo visto, é a vez de Pacheco, a doutora Sabujinha, começar seu período de decadência. Hábil na arte de apresentar os dados que o chefe gostaria de receber - e não aqueles que a realidade insiste em entregar -, ela vinha gozando de uma posição bastante tranquila, de pouco trabalho, muita churumela de que vinha com bastante trabalho, e complacência da chefia imediata e superior. Isso até seus lindos relatórios chegarem nos executivos da empresa e estes cobrarem as provas do que vinha sendo reportado. Não havia. Pior, precisaram recuperar um relatório antigo de Carnegie - antes de ele ser escanteado pela doutora Sabujinha -, para evitar que outro B.O. nível Rivarola surgisse.

Outro sinal de que seus “bip-bopping days are over”, de que já era o tempo em que ela sambava na nossa cara, fazia e desfazia quase como se fosse a chefe, se deu na reunião de setor desta semana. A chefe repassou uma nova demanda para ela, que de pronto alegou estar com muito trabalho (o que eu atesto que é mentira, nosso setor é consideravelmente tranquilo). Como a chefe insistiu para que ela ficasse com essa demanda, não se fez de rogada:

Goreti já faz um trabalho que é quase igual a esse, pode deixar com ele.

Goreti não falou nada, apenas alternou o olhar entre ela e a chefe. Esta, que estava respondendo a algo no celular, tratou de terminar sua resposta antes de contestá-la:

Goreti já está trabalhando em outro projeto da área, este fica com você.

Confesso que me regozijei em júbilo, como se diz no clichê, com essa invertida - mais um sinal de que doutora Sabujinha logo procurará outros ares. Macedo discorda da minha avaliação, não crê que a decadência da colega seja tamanha, e eu tive de admitir que ele tem sua boa dose de razão:

Você viu o olhar do Goreti? Parecia um psicopata! Foi para deixar qualquer um com medo.

Foi mesmo. 



22 de janeiro de 2026