sábado, 14 de março de 2026

Carnaval Medieval [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Quem me mandou essa dica para o final de semana foi o nobre colega Macedo. Como ele chegou a esse evento, preferi não perguntar, para manter a amizade, sem julgamentos negativos desnecessários. Pelo mesmo motivo, achei por bem não perguntar se ele iria, em companhia de Maceda e Macedinho. Tampouco irei perguntar como foi, segunda-feira.

Feito essa introdução, vamos a um momento de sociologia de boteco. Tema: carnaval. Basicamente, existem três tipos de relação com essa festa, por parte da classe proletária: amam, aprovam por conta do feriado, e se ressentem porque gostariam de ir mas algum motivo (religioso, distinção social, etc) os impede. E existe essa quarta categoria, que é a galera do mundo da lua, digo, Hogwarts - e que trataremos neste texto.

Trata-se de um pessoal que diz que gosta de história, mas odeia estudar e nega tudo o que pode contradizer sua visão idealizada de uma época em que a Europa vivia sua pureza - tal qual a extrema-direita hoje gostaria de voltar (este é um comentário aleatório, insight que me veio e eu não quis perder). Estou falando do povo que idolatra a época medieval europeia. 

Precariedade, escassez, medo permanente, ignorância, sujeira, conhecimento de mundo extremamente limitado, mulheres submissas: tudo isso são efeitos colaterais aceitáveis diante de todo o misticismo católico milenarista, crenças nórdicas diversas, combates por honra e guerras santas contra os infieis maometanos. Quem não gostaria de morar numa época dessas (nem vamos falar da falta de eletricidade e de internet)?

O que isso tem a ver com o carnaval? Pois aí vem a nova categoria de relação com o carnaval. O evento que Macedo me indicou é o carnaval medieval. O que seria bem interessante, se se tratasse mesmo de uma tentativa de reviver essa festa religiosa (rito de inversão, diriam os antropólogos), dessa época de forte hierarquia social. Mas, quê! O que a festa promete é um clichê idealizado, com toda uma atmosfera medieval (aham), música medieval (só não digo “quero ver!”, porque não quero, mas desconfio que não são cantigas trovadorescas e canto gregoriano. Se tiver concerto do Jordi Savall, até poderia ir), dança medieval (solta a roda e vira, solta a roda e vem...), combates medievais (se não rolar um braço cortado, ao menos, é fake), hidromel artesanal (só espero que não sigam as normas de higiene medievais) e, claro, venda de produtos numa “feira medieval” (escambo?).

Quem ler este texto pode até fazer uma sociologia de boteco com relação a carnaval medieval e dar quatro formas de se relacionar com ele: os que nem sabem da sua existência (meu caso, por felizes nove anos), os que gostam e vão, os que não se incomodam, e os que gastam energia para falar mal de um evento aleatório bobo. Deixo claro: não me enquadro nessa quarta categoria: por mim, para melhorar a ambientação medieval/nórdica/feudal, até torço para que no fim de semana se mantenha esse tempo frio e chuvoso, tão propício a lamaçais - como na idade média.



Capítulo II

Não choveu, pelo contrário, fez sol e um calor tropical. Brotinho achou esse “carnaval” legal, ainda que não se parecesse com um. Eu me recuso a comentar.



14 de março de 2026

PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Justo, justo, não é

Está em discussão no congresso o projeto de lei 4146/2020, que regulamenta a profissão de trabalhador essencial de limpeza urbana e estabelece um piso nacional para a categoria - dois salários mínimos mais adicional de insalubridade em grau máximo. 

Fiquei sabendo dessa lei por um funcionário da limpeza pública de São Paulo, que comentou comigo: “Viu que estão para aprovar uma lei que aumenta nosso salário? Vamos passar a ganhar R$ 4.500”. “Nada mais justo”, foi minha resposta, ao que a tréplica dele me desconcertou: “Justo, justo, não é, porque a gente não tem estudo”. 

Tratei de confrontá-lo: falei da importância do serviço dele e seus colegas e que todo mundo merecia um salário digno. Para além do desconcerto, sua resposta me trouxe ainda uma certa tristeza e perplexidade.

Primeiro por sua percepção de justiça. Ele vai além do interesse pessoal e pensa coletivamente, em termo de justiça e não apenas em “se dar melhor”. Contudo, na sua concepção - uma visão claramente ideológica (me desculpem o palavrão marxista), recebida principalmente do sistema hegemônico de comunicação -, o justo não é ganhar um salário que garanta uma vida digna, justo é ganhar conforme o merecimento.

E merecimento aqui é medido em anos de escolaridade, não em trabalho - muito menos em relevância social. Ele não apenas aceita, como assume como correta, como justa, nossa vergonhosa distribuição de renda. E faz isso em detrimento do seu próprio interesse. Não é alguém de classe média, numa posição confortável, se indignando contra dar um salário ok para profissionais da limpeza - tida por profissão subalterna, quase aviltante -, é um trabalhador recusando o reconhecimento de seu valor social - e, mais que isso, seu valor enquanto ser humano.

Outro elemento da sua resposta é sobre o salário: ele não é visto como um preço pelas horas trabalhadas, e sim como uma recompensa pelo seu esforço. E uma recompensa quase moral - no sentido de estar atrelado a uma série de esforços feitos durante a vida. Nessa sua concepção, o salário não está vinculado ao trabalho, mas ao preparo a ele, e esse preparo é medido em anos de estudo. O círculo vicioso é fácil de ser fechado: quem tem que entrar no mercado de trabalho mais cedo tem menos condições de seguir com seus estudos, logo terá, para o resto da vida, menos direito a um bom salário, pelo motivo de ter estudado menos, por conta de ter trabalhado desde cedo.

Este aspecto talvez ajude a entender muito do ressentimento atual de várias pessoas: terminaram o ensino médio e fizeram faculdade - às vezes trabalhando ao mesmo tempo -, para não verem seu esforço recompensado financeiramente. Cadê a justiça do sistema?

Por fim, sua resposta demonstra também uma auto-estima vulnerabilizada pela própria situação social em que se encontra. Por não ter feito ensino superior - talvez nem mesmo terminado o ensino médio -, ter um trabalho em um ramo com forte estigma (por mais que seja registrado), meu interlocutor não se vê como um cidadão de plenos direitos, não se vê merecedor de direitos - como se fossem questão de mérito. Sua tréplica é quase um pedido de desculpas por poder vir a ganhar mais que muitas outras pessoas que se prepararam mais, que teriam “se esforçado”.

Enquanto esquerda, nosso trabalho de educação política precisa estar no dia-a-dia, confrontar as pessoas em conversas do nosso quotidiano; não para levar a verdade, mas para desfazer esse tipo de construção, que faz com que a pessoa se sinta a responsável pela sua condição precária de vida.

“Justo, justo, não é”. Nesse ponto, meu interlocutor não deixa de ter certa razão: não há justiça em quarenta horas de trabalho, não importa o salário.


26 de fevereiro de 2026