terça-feira, 15 de setembro de 2026

Jogo de War no escritório [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]


Consequências ainda de toda a rerereformulação da empresa, nosso setor ficou mais enxuto, para ganhar agilidade e dinamicidade, aproveitando da “competência e resiliência” de quem sobrou: “aqui só estão os melhores”, avisou o supervisor-geral-responsável-por-fazer-os-contatos-intersetoriais-mais-ágeis dia desses, conhecido oficialmente como Manager de Fluxos Intersetoriais. Melhores no que, ele esqueceu de explicar. E tenho alguma forte suspeita de que não são os melhores em serviço, visto que eu e a doutora Sabujinha seguimos firmes e fortes na empresa - ela inclusive em treinamento externo pago pela empresa, pronta para galgar posições aqui. Puxa-saquismo de resultados! Assumo que subestimei sua capacidade - capacho para qualquer porta.

Enfim, setor enxuto significa mais trabalho por pessoa, sobrecarregando quem já vinha sobrecarregado - Macedo que o diga -, e dando trabalho a quem vinha com esmero evitando esse tipo de fadiga - no caso, eu.

Essa enxutagem fez com que se abrissem espaços vazios na sala - como já comentei alhures, a sala da antiga subchefe virou nossa sala de reunião. Não mais. Decidiram que ali seria um bom espaço para o supervisor-geral-responsável-por-fazer-os-contatos-intersetoriais-mais-ágeis e sua equipe de seis pessoas - dentre os quais um seboso colega leitor de Olavo de Carvalho (ele está sempre com um livro do autoproclamado filósofo anal), cujo comportamento é muito cordato e as falas, discreta e constantemente preconceituosas.

Quem não ficou muito feliz foi nosso atual chefe, que viu o aquário da chefia ser dividido em dois, para que metade fique com o manager - cada um com seu ar-condicionado, claro, enquanto o resto da sala possui, toda ela, outro ar (desregulado). Pois é, achava que ia reinar sozinho, mas vai ter que dividir. Ele pode ver pelo lado positivo: se conseguir dividir também as preocupações, quem sabe a velocidade com que seus cabelos estão embranquecendo desde que assumiu o posto diminua também?

Nós, reles mortais CLT, acompanhamos esse verdadeiro jogo de War - como bem definiu Macedo - com apreensão. Quer dizer, eu não, pois já garantiram que vou continuar no meu cantinho aqui, então eu só assisto, mesmo. Surgiram dois focos de tensionamento. 

O primeiro foi o Clube do Café e Goreti. Com mais gente na sala, sobrou menos espaço livre, menos espaço para o armário onde estão os apetrechos do Clube do Café e a panela de arroz de Goreti. É certo que o Clube do Café está mais para clube da bolacha água e sal ultimamente: os colegas que costumam fazer o café toda manhã foram transferidos e os que sobraram tem preguiça; a pipoca também, passado o ânimo inicial (ou será o fim do clima de copa do mundo), só tem acontecido de vez em quando. Mas Goreti segue firme e forte com sua panela de arroz. Por enquanto o móvel segue no lugar, com um armário colado a ele, atrapalhando parte do corredor e dificultando o uso da tomada o referido Clube.

O segundo é mais grave e alcança um número maior de colegas. Nessa de diminuir nossos espaços para caber mais gente - otimização espacial para pessoas resilientes, afinal, para que uma baia em que cabem dois monitores para quem só usa um? -, quem está na mira é um frigobar que apareceu em algum passado remoto, ninguém sabe de onde, e aqui segue - apesar da briga de longa data do RH para levar para sua sala e, mais recentemente, dos funcionários transferidos levarem para o setor onde foram alocados. Goreti diz que já tem a solução, mas quer antes saber se vai ter mais gente a defender o móvel do Clube do Café, antes de soltar sua solução maravilhosa - que, por ora, ele só contou para mim e para Macedo, sob jura de confidencialidade:

É só usar o frigobar como suporte para a impressora.

Está aí, Goreti soube incorporar o novo espírito da empresa e está sugerindo adaptá-lo até mesmo ao frigobar!


15 de setembro de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas

terça-feira, 1 de setembro de 2026

O padre e o RH [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]


Nessa de reformulações, passaralho, contratações, remanejamentos e outras bossas acontecidas nos últimos tempos dentro da empresa, criaram um cargo novo, uma espécie de supervisor-geral-responsável-por-fazer-os-contatos-intersetoriais-mais-ágeis (o nome é mais curto, mas mais hermético também). Ou, como ele mesmo disse na sua apresentação: “cheguei para fazer acontecer”. Enfim, não sei onde ele se encontra no organograma da empresa, que poderes possui, porém, reconheço, a coisa parece que começou a fluir melhor nas trocas entre setores. Isso não quer dizer que tenha feito um grande trabalho: quando tudo está parado, qualquer passo de tartaruga é um avanço.

Eu ainda estava a caminho do serviço quando Macedo anuncia no grupo de whatsapp: 

O padre já chegou ao escritório.

Padre?! Não entendi a história e achei que era o único perdido, mas descobri que não. Depois de ele garantir que era um padre de verdade - e não um de eleições e festa junina -, Carnegie perguntou:

Ele vai para qual setor?

A pergunta era pertinente - eu temia perder meu cantinho na janela -, mas eu tinha uma dúvida ainda prévia:

Padre pode ter dois empregos?

Macedo acabou nem respondendo no grupo, já que, aos poucos, íamos chegando ao escritório - ele gosta de ser o primeiro, parece até crescido na tradição japonesa. De qualquer modo, ele também não tinha muito mais o que esclarecer: havia chegado junto com um dos chefes, que trazia o padre, todo paramentado.

No meio da manhã, o padre apareceu no setor. Com uma garrafinha de água mineral na mão (daquela marca que teve lote recolhido por estar com bactérias), espargindo a água pelo setor - mas com cuidado para não acertar ninguém. Um colega até comentou que era a primeira vez que via padre benzer com água mineral. 

Ele deve ter esquecido o aspersório e a caldeirinha na sacristia; mais importante é a intenção - respondeu, depois, Mello, um dos que ficaram a ciceronear o padre todo o tempo, revelando um passado de coroinha, ou ao menos de papa-hóstia (se é que esta parte é passado).

Depois de percorrer o prédio todo, benzendo e rezando um pai nosso com quem quisesse, o padre se despediu e foi embora: não, não era um novo contratado, apenas amigo do novo supervisor-geral-responsável-por-fazer-os-contatos-intersetoriais-mais-ágeis, que, talvez tendo em vista o estado que estamos todos, decidiu apelar aos santos, ver se conseguia fazer acontecer de algum modo, como havia prometido.

Detalhe importante, que ficamos sabendo depois do almoço, quando um alvoroço tomou conta da empresa: ele não passou no RH. Restou o grande questionamento: que coisa ruim está no RH que o padre achou por bem evitar o setor - ao menos sem os equipamentos oficiais de exorcismo? Goreti, sem nomear, foi preciso:

Nem o padre quis entrar lá, e nós temos que nos submeter...


01 de setembro de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas