sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Golden Boy por acidente [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Ainda em fase de reformulação pós passaralho feito de afogadilho, chegou um colega novo de outro setor. Já o conhecia de uma das muitas reuniões que já tive com supervisor-geral-responsável-por-fazer-os-contatos-intersetoriais-mais-ágeis (ou Manager de Fluxos Intersetoriais). É uma pessoa agradável, e faz questão de sê-lo. Perguntou para Macedo (sempre Macedo) qual era a etiqueta do setor: cumprimenta todo mundo, cada baia possui seu spalla, é cada um na sua? 

Macedo achou estranho e compartilhei de seu estranhamento: sem protocolo, cada um escolhe se quer cumprimentar ou não: eu, por exemplo, dou bom dia para Macedo quando chego, porque senta ao meu lado. No caminho, eventualmente aparecem uma ou duas mãos a quem retribuo o cumprimento e está feito. A Doutora Sabujinha (que trouxe lembrancinhas de sua viagem para todos, menos para mim, Carnegie e Goleador), só nos cumprimentamos quando precisamos trocar alguma informação - coisa que evitamos com afinco. Outros cumprimento de vez em quando - e a recíproca é verdadeira -, ainda que não me pareça que haja qualquer animosidade entre nós - nem amizade. 

Há dois colegas que fazem questão de passar de baia em baia para cumprimentar a todos - e costumam ser os últimos a chegar. Entendo sua estratégia sutil: só com isso lá se vão meia hora de expediente sem ninguém perceber e ainda deixa umas conversas sobre futebol e outros assuntos para continuar depois que terminar de cumprimentar todo mundo. Ou seja, é uma hora e meia a menos de mais-valia com esse expediente. O chefe faz o mesmo - e ele eu não entendo o porquê.

Ontem Massafera, o novo colega, veio ter comigo e Carnegie, num momento em que conversávamos qualquer aleatoriedade. Tentando se enturmar, entrou no grupo da Bella (que não é de Isabella), formado desde quando nosso setor foi desmembrado, e foi ao almoço coletivo da semana - agora esses almoços acontecem em algum restaurante aqui do centro, não mais cada um trazendo sua airfryer para usar no refeitório, como organizou certa feita Doutora Sabujinha (Pacheco para os íntimos). Contou na mesa que estava na nossa equipe e disse que os antigos colegas disseram que eu e Carnegie somos os “golden boys” da equipe. 

Acreditei na sinceridade do relato, mas desconfiei seriamente do que foi dito a nosso respeito - ou melhor, a meu respeito. Mais tarde contamos esse relato na bancada - e nosso estranhamento. Meirelles propôs que Macedo já está em outro patamar: ele é o padrão-ouro de funcionário do setor, não um mero golden boy - por isso o título para nós dois e não para ele. Não tivemos como discordar. Argumentei que a doutora Sabujinha merecia esse título mais do que eu - no caso, golden girl. Aí Meirelles novamente trouxe um ponto chave, que concordamos, até porque já presenciamos em outros empregos: somos dois homens brancos, logo, naturalmente, somos mais capazes. Alguém complementou: talvez ela já não esteja tão bem vista porque seu puxa-saquismo de resultado esteja por demais evidente. Certo. Ainda assim, golden boy serve para o Carnegie, não para mim.

Fui para casa com essa pulga atrás da orelha: de onde tiraram que eu seria o golden boy? Só se fosse da procrastinação - e numa disputa muito apertada com doutora Sabujinha. Contei para o Brotinho que, acostumada a observar o comportamento humano com toda sua perspicácia de professora, achou a confusão:

Você não diz que fica num canto quieto, do lado do Macedo, que pouco socializa também? Será que não confundiram vocês dois?

No dia seguinte, a explicação foi aceita pela bancada por unanimidade. E fica o aprendizado: se algum dia me promoverem, é melhor chegar duas vezes - capaz de que a promoção fosse para Macedo.


09 de outubro de 2026



PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.



domingo, 4 de outubro de 2026

Stories de uma eleição

Um amigo de priscas eras, que há mais de uma década não tenho o prazer de encontrar, mas que trocamos longas mensagens duas ou três vezes ao ano, comemora parte do resultado da eleição. Olho de novo, não quero acreditar, mas os próximos stories reiteram o primeiro. Não lembro de falarmos mais diretamente sobre política partidária - ainda que eu exponha sempre meu ponto de vista em meus textos e postagens em redes sociais, ele nunca se manifestou.

O Brasil não tem 50% de fascistas - me vem o corte do filósofo Marcos Nobre que circula nas redes. Eu, ao menos desde 2019, já sabia disso, fruto de conversas francas com pessoas “apolíticas” que votaram no Bolsonaro em 2018 - e da minha insistente crença de que as pessoas seriam boas (não todas, mas a maioria), apenas ignorantes. 
É o que quero imaginar do meu amigo: apenas um ignorante, apesar de toda oportunidade que teve. Não tem formação na área de humanidades e é manipulado por uma verdadeira indústria militar, que são os meios de comunicação e seu braço autônomo, as redes sociais. Ele não deve ser fascista, certamente não se vê fascista, não percebe que foi capturado por um discurso que atenta contra o que ele próprio diz defender, e deve se ofender se for (quando é) chamado assim.
Partindo desse ponto, vejo que parte de nossa falha se deu ainda em 2018, quando taxamos os eleitores de Bolsonaro de fascistas, sem maiores explicações. Não que seus 20 a 30% de seguidores fanáticos não sejam. Mas e o restante? Aprendemos no cinema (e também na escola), que o nazifascismo era cruel, desumano, feito de pessoas horríveis, que queriam o mal e por isso seguiam as ordens de um sanguinário. Meu amigo é uma boa pessoa, um bom pai, bom marido, não quer o mal de - quase - ninguém. E, nisso, até eu. Ele não pode ser fascista - ele dificilmente vai se enxergar como um. Diferentemente de um então amigo de escola, que em 2018 legitimava a violência extrema e a desumanização do adversário, tido como inimigo, ao comemorar o atentado a tiros contra o presidente Lula. 
Ademais, esse meu amigo não segue a ordem de ninguém: seu voto foi fruto de uma decisão racional a partir das informações que ele recebeu diariamente, por anos, da rede Globo, posteriormente das redes sociais.
Ele quer um país melhor, quer pelos filhos dele. Ele não sabe o que isso significa de concreto - incapaz de imaginar sozinho futuros que não sejam de consumo -, mas tem boas intenções. Ele quer mais segurança - ele não sabe o que é atribuição de quem. É pelo Brasil - ele não entende de relações internacionais, deve achar que a ocupação estadunidense viria com um porta-aviões na costa do Rio de Janeiro, não com uma delegação de Marco Rubio no governo de transição (por sinal, nunca deve nem ter ouvido falar, nem do Rubio nem de governo de transição). Ele é contra a corrupção - e vota em corruptos que se dizem perseguidos por estarem indo contra o “sistema” dentro do qual estão plenamente inseridos desde o berço.
Desde que a extrema-direita passou a ganhar força, em 2016, soubemos identificá-la, mas não soubemos nomeá-la de um modo taticamente adequado. Não sou dos acadêmicos puristas que querem restringir o fascismo a um momento do século XX: o que vivemos hoje é fascismo, devidamente repaginado para o século XXI, mas essencialmente o mesmo de Hitler, de Mussolini, dos camisas verdes, e antes deles, dos protofascismos de Leopoldo II, do genocídio indígena, da diáspora negra - é a essência do capitalismo se manifestando. Mas quantos são capazes de identificá-lo em seus meandros quotidianos, das pequenas violências naturalizadas que abrem espaço para grandes arroubos de ressentimento e violência aberta? 
Meu amigo se vê uma boa pessoa. Nas últimas mensagens, ele falava da sua preocupação com as contas, a troca de emprego, os receios com os filhos, as dificuldades no casamento. Não passa pela sua cabeça que ele seja um fascista, que dê suporte a fascistas; logo, ele pode ignorar tudo o mais que vem do nosso campo - até porque há anos abandonamos o trabalho de base e paramos de verdadeiramente escutar o outro (isso enquanto a extrema-direita nos ouve com perfeição através de seus algoritmos, pois são eles os controladores dos meios de produção do imaginário atual). E sigo ingenuamente acreditando que, em casos como o dele, é uma questão de ignorância, e que através do diálogo é possível tirá-lo da órbita da extrema-direita.

04 de outubro de 2026