segunda-feira, 13 de abril de 2026

O fetiche do abismo

Lembro do meu tempo de faculdade de filosofia e ciências sociais, na Unicamp, havia um perfil de estudante-militante adepto do “quanto pior, melhor”. Do Procon ao Bolsa Família, passando pela expansão do ensino superior e as cotas, tudo que não fosse a revolução (com sua pureza de princípios e baseada na “leitura correta” de Marx) ou a pavimentação para ela (baseado em miséria e ódio, deduzia eu), era arrivismo, defesa do capital, e reforço do status quo. 

Saí da Unicamp há quinze anos, mas volta e meia revejo esse tipo de postura em alguns analistas políticos de esquerda. Um pouco mais refinados, é claro, mas a mesma lógica de ser incapaz de analisar a realidade em sua complexidade. Pior, não são meus ex-colegas da Unicamp, mas professores ligados a partidos de esquerda, de várias universidades públicas, que já o eram na época, só não tinham as redes sociais para divulgar em tempo real seu pensamento (não cito nomes porque meu objetivo não é fulanizar a questão).

Duas semanas atrás, um deles se desesperava com o crescimento de Flávio Bolsonaro e praticamente vaticinava: a eleição estava definida se não houvesse uma reação urgente urgentíssima de Lula. Ignorava os múltiplos fatores que explicam o crescimento de Flávio Bolsonaro neste momento e, principalmente, que o PT escolhia o adversário, esperando o fim do período de desincompatibilização para começar a pré-campanha - e melhor um Bolsonaro que Tarcísio.

A nova análise que tenho lido é que Lula ou ganha no primeiro turno ou perde a eleição, porque não teria ninguém para transferir os votos para ele. Sem dúvida, o segundo turno, se houver, será duríssimo - como foi em 2022. Essa leitura é, contudo, para além do catastrofismo de certa esquerda, simplista: como se votos em candidatos de direita fossem necessariamente para Flávio Bolsonaro. Convém lembrar que assim como há o anti-petismo, há também o anti-bolsonarismo, e que uma parte de eleitores dos candidatos menores da extrema-direita pode simplesmente se abster de votar num eventual segundo turno. Há também eleitores não ideológicos e que podem alterar seu voto - como aconteceu em 2006, em que Alckmin teve menos votos no segundo que no primeiro turno. Afora a questão de que será uma eleição concorrida, difícil e que não está ganha, mais sensato me parecem analistas chamando a atenção para Renan Santos, com chances de se “marçalizar” em 2026 e ganhar musculatura para 2030. 

Pode-se argumentar que esse catastrofismo serviria para abrir os olhos dos militantes e mobilizar as bases. É a lógica do quanto pior, melhor dos meus ex-colegas do tempo de faculdade: somente na miséria extrema o povo se levantaria para reivindicar seus direitos, que já chegaria na forma de revolução social. Primeira falha, de observação: não se vê população oprimida por carestias materiais elementares se levantar por um ideal abstrato. Segunda falha, de psicologia: diante do tudo está perdido, alguém vai se mexer para quê? Dar murro em ponta de faca só costuma ser um esporte para quem tem para onde correr depois que cansar. Terceira falha, de trabalho de base: ao jogar a pretensa cegueira da situação e a responsabilidade inteiramente no colo do presidente, esses analistas reforçam a ideia de política feita por cima e não a partir das bases, exatamente o contrário do que a esquerda mais radical (no sentido de raiz, não de sectária) defende. Por sinal, esse é o mesmo argumento utilizado para justificar a alegada desmobilização popular dos governos Lula 1 e 2: o governo não teria mobilizado a população, sendo que não é papel de governo de turno fomentar a oposição a si próprio - e há exemplos de movimentos sociais fortes que surgiram desse período, como o MTST, para ficar no mais evidente.

Felizmente esses analistas, apesar de seus currículos acadêmicos vistosos e sua boa escrita, têm pouca penetração na imprensa, mesmo a alternativa - que prefere análises críticas, mas calcada na realidade e que apontem possibilidades. Mas não me surpreenderia se um desses professores do catastrofismo de esquerda acabe sendo convidado para colaborar com a grande mídia, desesperada por apear Lula e o PT do executivo federal.

Sejamos críticos, mas façamos leituras complexas da realidade e saibamos achar brechas por onde construir alternativas. E aos arautos do apocalipse, que vêem o futuro já determinado, um pedido: parem de escrever e comecem a arrumar suas malas - a vida já está dura demais para levar pedrada gratuita do próprio campo.


13 de abril de 2026


sexta-feira, 10 de abril de 2026

Pequena Sociologia da Martelação Auditiva [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça]


Recentemente temos - eu e meu companheiro de almoço, o nobre colega Macedo - trombado pelas ruas do centro da cidade com um cantor munido de um microfone ligado a uma caixa de som de alta potência e baixa qualidade. Parece até que está a nos perseguir: o dia que estamos na República, lá está ele. Quando estamos no triângulo histórico, ele também está. A desocupada leitora, o desocupado leitor poderia dizer que somos nós a persegui-lo, já que somos nós quem estamos caminhando no horário de almoço, mas isso tiraria nosso protagonismo, de que o mundo gira ao nosso redor. Enfim.

Passamos por ele hoje: estava disputando a atenção com britadeiras e serras para concreto no Largo do Café - uma estratégia que merece uma discussão mais aprofundada no correr desta crônica. Eu, muito complacentemente, tentando dar uma colher de chá, comentei com o nobre colega Macedo que, apesar da caixa de som de má qualidade, ele não cantava tão mal assim. Foi quando ele soltou a voz no que é chamado de belting - e que Macedo chamou de agressão gratuita ao nervo auditivo - e mostrou que a caixa de som era o menor dos problemas: ele canta é muito mal, mesmo. 

Mas isso não é o pior. No repertório cantado pelo rapaz sempre bem vestido, apenas músicas de louvor. Não se trata de um cantor de rua (se for, está queimando o filme da categoria, porque pelo centro tem vários que cantam muito bem, fazem versões que mereciam estar no palco). Daí nossa dedução lógica: o pastor, as pessoas da sua igreja, querendo se mostrar acolhedoras e estimuladoras das potencialidades do rapaz - e adeptas da teologia do domínio -, devem ter dito que ele canta bem e poderia usar esse dom para espalhar a palavra. Pessoas que devem entender de música tanto quanto ele. Talvez, deveras, ele seja quem melhor cante na igreja - entretanto isso não corresponde a cantar bem, muito pelo contrário. 

E o pastor para proteger a ovelha? Nada! Pelo contrário: deve ter visto no infeliz mais um cordeiro a cerrar fileiras na guerra santa, um soldado do evangelismo para perturbar as pessoas com pregação de segunda categoria (nesse aspecto, prefiro os esmurradores de Bíblia, que ao menos tem personalidade [https://bit.ly/cG240910]). Aí fica ele pelo centro de São Paulo, incomodando as pessoas e passando vergonha, ignorado pelas pessoas sensatas, destratando as pessoas de ouvidos sensíveis, como este escriba. Cante na igreja, nos cultos de domingo, meu bom cristão inseguro (Goreti sempre diz: quem muito prega, pouco crê), e use o seu tempo livre para algo útil, valoroso - estudar a Bíblia, que seja; quem sabe não aprende algo sobre Cristo.

Agora sobre suas estratégias de divulgação da palavra que ele crê divina. De início, quis acreditar que a caixa de má qualidade fosse por questão financeira, mas logo ficou claro que é falta de ouvido, mesmo; é desprezo pela música e muita vontade de atingir o coração do maior número de pessoas, à força, na base da martelada auditiva. Nessa linha tem também o rapper cristão da bicicleta, que parece estar cantando os lances num leilão de gado nelore. Já cantar junto a britadeiras e serras de concreto mostra toda a sensibilidade artística do artista, seu senso de pertinência - e uma conversa entre pares.

Louvor estourando na caixa, britadeira arrebentando a calçada e serra de concreto serrando o concreto - passamos por essa harmoniosa sinfonia do inferno em silêncio que até parecia obsequioso, mas era só impossibilidade de seguir com a conversa. E pior que nem vai adiantar trocar de rota amanhã: muito provavelmente vamos trombar com ele de novo.




10 de abril de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas