terça-feira, 20 de outubro de 2026

Mr. K. da Meritocracia [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Estou tranquilo no meu canto, fingindo que trabalho, quando chega um novo funcionário, acompanhado pela secretária do supervisor-geral-responsável-por-fazer-os-contatos-intersetoriais-mais-ágeis. Olho para ele e penso: conheço de algum lugar. A cachola 486 DX4-100 (os antigos vão reconhecer) começa a vasculhar os arquivos, mas não consegue identificar ninguém. Lembra um vendedor de enciclopédia que bateu na casa de meus pais, quarenta anos atrás - mas ele deve ter trinta anos, se muito. Aguardo sua apresentação à equipe, porém ela não vem. Mas que eu conheço ele de algum lugar, conheço! 

Pouco antes do almoço, enquanto decidíamos aonde iríamos almoçar, Macedo me pergunta o que achei do retorno do colega. Retorno? Então ele já teria trabalhado no nosso setor?

Como assim, você não lembra do sobrinho do diretor geral?

Eu realmente tinha apagado da memória essa figura: é Basso - Cabaço para os que falam dele pelas costas -, nosso Mr. K. da meritocracia.

Ele não tinha galgado uns cargos aqui na empresa, não? - Questionei, ingênuo.

Foi Carnegie, o Arauto do Apocalipse, quem puxou a capivara do sujeito nos meandros da empresa, desde sua chegada, no início do ano passado: do setor de vendas ao criativo, passando pelo administrativo, relações públicas e jurídico, sempre em algum cargo de subchefia. Sem dúvida, o rapaz é invejável pelas suas múltiplas habilidades - praticamente só faltou ele passar pela portaria, faxina e cargos de direção para gabaritar todos os setores.

Mas ele está trabalhando arduamente nesse sentido. Diferentemente do que imaginávamos, ele não está voltando ao setor, e sim sendo promovido a assessor especial do Manager de Fluxos Intersetoriais - que, como explicado em crônica anterior, ocupa parte da nossa sala.

Foi-lhe concedido um lugar de destaque, tais quais seus méritos: deslocaram um pouco a mesa da secretária do Manager, e puseram sua mesa na frente: qualquer pessoa que entra na sala vai se deparar primeiramente com ele. 

No pouco que ouvi ele conversar, se gabava de que teria acesso direto ao Manager, e sempre seria consultado para questões importantes, mas até agora o que pudemos ver é, na melhor das hipóteses, um recepcionista da secretária: a pessoa teria que falar com ele, que passaria para a secretária, que avisaria o supervisor. 

Uso o futuro do pretérito porque parece que a coisa não está funcionando muito do jeito que ele imaginava: é comum que a pessoa passe por ele com um cumprimento rápido e se dirija direto à secretária - quando não direito ao supervisor, como é o caso de Goleador, que parece estar levando a sério essa coisa de contatos mais ágeis, e já ganha a antipatia da secretária.

Carnegie andou dando uma olhada na tela do colega, para saber o que ele faz durante seu expediente: até tem coisa de trabalho, mas em geral ele está vendo cotação de cripto (eu sabia!) e fazendo militância virtual para a extrema-direita (não dá para ficar sustentando vagabundo com Bolsa Família, né?). 

Pois é, parece que eu e Doutora Sabujinha temos um concorrente de peso agora para saber quem é o mais vagal do nosso recinto.


20 de outubro de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas 


sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Golden Boy por acidente [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Ainda em fase de reformulação pós passaralho feito de afogadilho, chegou um colega novo de outro setor. Já o conhecia de uma das muitas reuniões que já tive com supervisor-geral-responsável-por-fazer-os-contatos-intersetoriais-mais-ágeis (ou Manager de Fluxos Intersetoriais). É uma pessoa agradável, e faz questão de sê-lo. Perguntou para Macedo (sempre Macedo) qual era a etiqueta do setor: cumprimenta todo mundo, cada baia possui seu spalla, é cada um na sua? 

Macedo achou estranho e compartilhei de seu estranhamento: sem protocolo, cada um escolhe se quer cumprimentar ou não: eu, por exemplo, dou bom dia para Macedo quando chego, porque senta ao meu lado. No caminho, eventualmente aparecem uma ou duas mãos a quem retribuo o cumprimento e está feito. A Doutora Sabujinha (que trouxe lembrancinhas de sua viagem para todos, menos para mim, Carnegie e Goleador), só nos cumprimentamos quando precisamos trocar alguma informação - coisa que evitamos com afinco. Outros cumprimento de vez em quando - e a recíproca é verdadeira -, ainda que não me pareça que haja qualquer animosidade entre nós - nem amizade. 

Há dois colegas que fazem questão de passar de baia em baia para cumprimentar a todos - e costumam ser os últimos a chegar. Entendo sua estratégia sutil: só com isso lá se vão meia hora de expediente sem ninguém perceber e ainda deixa umas conversas sobre futebol e outros assuntos para continuar depois que terminar de cumprimentar todo mundo. Ou seja, é uma hora e meia a menos de mais-valia com esse expediente. O chefe faz o mesmo - e ele eu não entendo o porquê.

Ontem Massafera, o novo colega, veio ter comigo e Carnegie, num momento em que conversávamos qualquer aleatoriedade. Tentando se enturmar, entrou no grupo da Bella (que não é de Isabella), formado desde quando nosso setor foi desmembrado, e foi ao almoço coletivo da semana - agora esses almoços acontecem em algum restaurante aqui do centro, não mais cada um trazendo sua airfryer para usar no refeitório, como organizou certa feita Doutora Sabujinha (Pacheco para os íntimos). Contou na mesa que estava na nossa equipe e disse que os antigos colegas disseram que eu e Carnegie somos os “golden boys” da equipe. 

Acreditei na sinceridade do relato, mas desconfiei seriamente do que foi dito a nosso respeito - ou melhor, a meu respeito. Mais tarde contamos esse relato na bancada - e nosso estranhamento. Meirelles propôs que Macedo já está em outro patamar: ele é o padrão-ouro de funcionário do setor, não um mero golden boy - por isso o título para nós dois e não para ele. Não tivemos como discordar. Argumentei que a doutora Sabujinha merecia esse título mais do que eu - no caso, golden girl. Aí Meirelles novamente trouxe um ponto chave, que concordamos, até porque já presenciamos em outros empregos: somos dois homens brancos, logo, naturalmente, somos mais capazes. Alguém complementou: talvez ela já não esteja tão bem vista porque seu puxa-saquismo de resultado esteja por demais evidente. Certo. Ainda assim, golden boy serve para o Carnegie, não para mim.

Fui para casa com essa pulga atrás da orelha: de onde tiraram que eu seria o golden boy? Só se fosse da procrastinação - e numa disputa muito apertada com doutora Sabujinha. Contei para o Brotinho que, acostumada a observar o comportamento humano com toda sua perspicácia de professora, achou a confusão:

Você não diz que fica num canto quieto, do lado do Macedo, que pouco socializa também? Será que não confundiram vocês dois?

No dia seguinte, a explicação foi aceita pela bancada por unanimidade. E fica o aprendizado: se algum dia me promoverem, é melhor checar duas vezes - capaz de que a promoção seja para Macedo.


09 de outubro de 2026



PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.