Na volta do trabalho passo no mercado, comprar alguns víveres. Acondiciono-os numa bolsa de pano que herdei da minha mãe, penduro-a no ombro e sigo para casa. No meio do caminho, um motoboy está parado na calçada, em cima da moto, descansando, o capacete e a mochila quadrada ao lado. Mexe no celular quando me vê, e assim que me enxerga, fica me olhando fixamente. Acho o movimento estranho e fico a reparar de canto de olho, alerta. Ao me aproximar, começa a falar, sem tirar os olhos de mim: dependesse de mim, matava tudo esses veados. Homossexual tinha tudo que ser assassinado. Sigo meu trajeto, ele segue a falar absurdidades do mesmo teor. Não olho para trás, com medo de ele interpretar isso como um chamado para briga, mas apuro os ouvidos para qualquer barulho estranho, que sinalize um avançar pelas costas - não há outros transeuntes nesse momento. Atravesso a rua, trinta metros adiante, já não o escuto mais, e o incidente termina por aí.
Como da outra vez, fico a me questionar o que motivou o homem à agressão, que, menos mal, ficou apenas na verbal. Seja eu “veado” ou não, não dou bandeira, como se diz, menos ainda em dias de trabalho: estou trajando uma camiseta básica branca, calça jeans cargo e sapato de segurança (desnecessário para a função que hoje exerço, mas acho útil para São Paulo), sem maquiagem. Penso na bolsa rosa, de florzinhas, que carrego no ombro. Seria isso?
Mais provável que tenha sido o desejo da pessoa que eruptiu sem a autorização da sua masculinidade heteronormativa, e precisou atacar quem o despertou. Para ele, fui eu quem agredi primeiro, não sei se com minha figura ou com minha bolsa rosa de flores, contradizendo uma pretensa masculinidade que em uma primeira visão eu aparento assumir - e que ele busca se identificar, ao que tudo indica, com muito esforço e sofrimento. E com reiterados reforços para manter essa identificação: nas redes sociais, perfis que glorificam performances de gênero engessadas (masculinas e femininas) não são marginais, atraem pessoas das mais diversas classes sociais e prometem o retorno de alguma estabilidade neste tempo de radicalização de “tudo o que é sólido se desmancha no ar”. Como corolário dessa masculinidade sem fissuras, a virilidade - um valor que a indústria cultural nunca deixou de propagar -, que não só não admite fraquejadas, como exige exibição permanente.
O resultado é a repressão de qualquer desejo que possa decompor essa masculinidade, e a falta de repertório para lidar com ele, quando irrompe sem pedir autorização - daí a necessidade de agressão, seja verbal, seja física, seja eleitoral, como forma de provar para si que não é o que de fato deseja e restituir a auto-imagem de macho viril heterossexual que lhe dizem ser o normal, o certo.
Quero acreditar na educação formal como forma de, a longo prazo, resolver essa questão - porém isso é esperar demais da escola, e há muitos educadores que se alinham a esse tipo de pensamento, talvez apenas com um discurso mais edulcorado. É a educação feita na militância do dia a dia, no cara a cara, criando espaços de diálogo e reflexão, a alternativa que efetivamente temos para modificar esse estado de violência permanente contra minorias.
O episódio foi curto e sem consequências maiores, mas não deixou de me afetar. Porém, se isso acontece comigo, que estava na minha versão mais sóbria e discreta, imagino quantas vezes isso não acontece com quem se livrou de algumas das performances de gênero: é um pedágio absolutamente desnecessário para se andar pela cidade sendo quem se é.
São Paulo, 05 de maio de 2026

