quinta-feira, 24 de setembro de 2026

O carisma de uma porta de elevador [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Precisamos falar sobre foto de perfil no Whatsapp - principalmente se você utiliza seu Whats para trabalho também, como é o caso na empresa.

Em geral, as pessoas aqui mudam pouco sua foto de perfil. A minha, por exemplo, coloquei em um desses eventos internéticos de criança viada, em 2016; em 2024 troquei por uma em que estou montado, e depois de um chamado dos superiores, de que eu precisava uma foto mais séria e condizente com o serviço, coloquei minha cara, como se estivesse numa foto 3x4 para identidade: olhos abertos, expressão entre a meio morta e a assustada e o carisma de uma porta de elevador - Brotinho diz que estou bonito nela, e eu prefiro não imaginar se eu estivesse feio... Lino e Goleador devem trocar cada dois ou três anos, apenas para mostrar o que mudaram nesse tempo. Carnegie há anos colocou uma foto sua cheia de efeitos que nem dá para notar a ação do tempo nesse ínterim. Meirelles está com a foto da eleição passada, ainda - não é propaganda de nenhuma candidatura, mas tem seu simbolismo ainda atual. Macedo usa uma da sua mala de viagem, das férias de 2022. Inclusive já foi assunto da bancada, qual seria o significado dessa mala: desejo de partir? Saudades de viajar pelo mundão, quase sem rumo e quase sem programação (foi uma ironia, vide o texto Má Influência, de abril de 2023)? Aviso falso de que está de férias, para ver se assim recebe menos demanda? Ele atesta que é escolha estética - e preguiça. Gosto muito de um colega de outro setor, que tem a foto de uma santa em uma caixa dourada numa parede de pequenos azulejos vermelhos: parece que foi tirada em algum banheiro de parada de ônibus.

Quem alterou recentemente foi Mello. Na verdade foram duas trocas. Numa, colocou uma foto levemente adulterada por IA, que fez com que parecesse o George Clooney. Tenho a impressão de que rolou algum tipo de piadinha no Clube do Café, pois uma semana depois (hoje) ele resolveu trocar. E o fez sem avisar.

O dia corria bem. A dada altura, precisei mandar alguns arquivos para ele. Com o web Whatsapp aberto (sim, Meta e Alphabet sabem de tudo o que se passa aqui na empresa, se algum dia virem que ela vai bombar, chega uma proposta pouco antes), digito seu nome, arrasto os arquivos, mando e vou fazer o que mais tenho que fazer.

No meio do expediente, entro no web Whatsapp - uso um add-on no navegador para embaçar os nomes, então só vejo a foto e a última mensagem - e não reconheço uma das primeiras fotos que aparece, apenas identifico que a última mensagem é o arquivo que eu enviara para Mello. Pronto!, pensei (ainda que em termos um pouco menos publicáveis), mandei documentos sigilosos da empresa para o entregador do Mercado Livre! Nada, era apenas o colega em foto um pouco menos modificada, parecendo com qualquer outra pessoa que não ele - nem o George Clooney. Da minha baia, gritei para ele: 

Se não for botar uma foto que te identifique, se for pôr uma foto de uma pessoa genérica que você acha que se parece com você, ao menos avise!

Minha mulher achou que fiquei bem nela - justificou.

Sim, tão bem quanto eu na minha, que também contou com a aprovação do Brotinho.


24 de setembro de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definida

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Saldão de Bíblia e prateleira de vidro [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]


Muito lentamente, desde que Lula assumiu a presidência, o centro de São Paulo vem recuperando parte de seu comércio. Alguns trechos ainda estão desertos e mostram a profundidade da crise do governo anterior - e a inépcia do governo municipal. As ruas São Bento, entre a Direita e a Praça Ouvidor Pacheco e Silva (todo tapumado, utilizado como depósito para as reformas no centro, programadas para terminar nas eleições... do ano retrasado) e a José Bonifácio, por exemplo, seguem desertas de comércio. Na própria rua Direita, o comércio resistente parece sobreviver a dura custas - uma parte já fechou.

Numa dessas lojas vazias abriu uma das lojas mais aleatórias que vi até agora - opinião compartilhada por Macedo e Goreti. Sem nenhum letreiro externo, nenhuma reforma interna, simplesmente levantaram a porta, distribuíram uns baldes para recolher a água das goteiras e instalaram uma faixa com três linhas: “Loja de fábrica/Saldão de Bíblia e/Prateleira de vidro”.

Quando abriu, imaginei que seria um comércio breve - talvez o dono da sala que se meteu em negócios furados de diversos calibres, uma espécie de Ronaldinho Gaúcho das empresas - e aproveitou que estava sem ganhar o aluguel da sala para se desfazer daquilo que aceitou como pagamento de dívidas. Passaram um, dois, três meses - e a loja seguia lá, com seu saldão de Bíblia e prateleiras de vidro. Passou um ano, pouco mais, e ela seguia aberta. Da última vez que passamos por ela, havia diversificado seus produtos: calça jeans a preços de saque de caminhão tombado (um suco de frutas sai mais caro pela redondezas) e uma vasta coleção de quadros de leões - todos emoldurados em molduras bastante bregas.

Sempre fico a me perguntar o que é aquela loja, que surrealismo paulistano a explica. Desta vez explicitei a pergunta ao nobre colega Goreti que, de início, levantou a teoria de ser refugo das lojas da Conde de Sarzedas, famosa rua de vendas de artigos para igrejas evangélicas.

E as prateleiras de vidro?

Refugo de onde se expunham os sex toys na Love Nox.

Nunca tinha ouvido nessa Love Nox. Fui pesquisar na internet, talvez seja um bom lugar para levar o brotinho...

21 de setembro de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definida