Nessa de reformulações, passaralho, contratações, remanejamentos e outras bossas acontecidas nos últimos tempos dentro da empresa, criaram um cargo novo, uma espécie de supervisor-geral-responsável-por-fazer-os-contatos-intersetoriais-mais-ágeis (o nome é mais curto, mas mais hermético também). Ou, como ele mesmo disse na sua apresentação: “cheguei para fazer acontecer”. Enfim, não sei onde ele se encontra no organograma da empresa, que poderes possui, porém, reconheço, a coisa parece que começou a fluir melhor nas trocas entre setores. Isso não quer dizer que tenha feito um grande trabalho: quando tudo está parado, qualquer passo de tartaruga é um avanço.
Eu ainda estava a caminho do serviço quando Macedo anuncia no grupo de whatsapp:
O padre já chegou ao escritório.
Padre?! Não entendi a história e achei que era o único perdido, mas descobri que não. Depois de ele garantir que era um padre de verdade - e não um de eleições e festa junina -, Carnegie perguntou:
Ele vai para qual setor?
A pergunta era pertinente - eu temia perder meu cantinho na janela -, mas eu tinha uma dúvida ainda prévia:
Padre pode ter dois empregos?
Macedo acabou nem respondendo no grupo, já que, aos poucos, íamos chegando ao escritório - ele gosta de ser o primeiro, parece até crescido na tradição japonesa. De qualquer modo, ele também não tinha muito mais o que esclarecer: havia chegado junto com um dos chefes, que trazia o padre, todo paramentado.
No meio da manhã, o padre apareceu no setor. Com uma garrafinha de água mineral na mão (daquela marca que teve lote recolhido por estar com bactérias), espargindo a água pelo setor - mas com cuidado para não acertar ninguém. Um colega até comentou que era a primeira vez que via padre benzer com água mineral.
Ele deve ter esquecido o aspersório e a caldeirinha na sacristia; mais importante é a intenção - respondeu, depois, Mello, um dos que ficaram a ciceronear o padre todo o tempo, revelando um passado de coroinha, ou ao menos de papa-hóstia (se é que esta parte é passado).
Depois de percorrer o prédio todo, benzendo e rezando um pai nosso com quem quisesse, o padre se despediu e foi embora: não, não era um novo contratado, apenas amigo do novo supervisor-geral-responsável-por-fazer-os-contatos-intersetoriais-mais-ágeis, que, talvez tendo em vista o estado que estamos todos, decidiu apelar aos santos, ver se conseguia fazer acontecer de algum modo, como havia prometido.
Detalhe importante, que ficamos sabendo depois do almoço, quando um alvoroço tomou conta da empresa: ele não passou no RH. Restou o grande questionamento: que coisa ruim está no RH que o padre achou por bem evitar o setor - ao menos sem os equipamentos oficiais de exorcismo? Goreti, sem nomear, foi preciso:
Nem o padre quis entrar lá, e nós temos que nos submeter...
01 de setembro de 2026
PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas

