quarta-feira, 20 de maio de 2026

Sexc, Sé e poliestireno expandido com meu sobrinho [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Fazia tempo que não deixavam eu passar um dia com meu sobrinho, em um programa só nosso. Não entendi bem essa resistência de meu irmão em deixá-lo comigo, uma vez que sempre busco formas de enriquecer os conhecimentos e o vocabulário do garoto, que cresce cada dia mais e que se já não completou doze anos, com certeza tem mais de seis - nunca dei muita importância para essa coisa de idade, acho que serve só para fazer a gente se sentir velho e ver o tempo que passou sem ter sido aproveitado. E acho isso desde meus quinze anos! Antes que me chamem de tiozão da meia-idade em crise de identidade e em revolta contra o tempo e a idade.

Ao deixá-lo em minha casa, meu irmão foi taxativo: nada de telas para o rapaz. Tranquilizei-o mostrando que havia comprado entradas para uma peça infantil no Sesc e que depois iríamos dar uma volta pelo centro - o que deixou meu irmão preocupado.

Qual é, não confia em mim? Alguma vez já perdi ele de vista?

Confesso que não senti muita confiança da parte dele, mas estava em cima da hora para o compromisso que tinham e não havia outra alternativa que não deixá-lo comigo.

Estávamos a caminho da unidade cujo espetáculo seria apresentado, e sentindo que a conversa não rendia muito, decidi usar o sotaque carioca para me referir ao local.

Você costuma ir ao Sexc? Perguntei.

Meu pai me leva de vez em quando.

E o que você mais gosta de fazer no Sexc?

Piscina foi a resposta dele. E nessa hora lembrei que essa realidade eu não possuo: não sendo comerciário, conheço o Sexc apenas da parte cultural.

E por que você está falando Sesc desse jeito estranho?

É mais goxtoso. Experimenta.

Assim fez - e gostou. Eu sabia! Diante de todas as restrições impostas à pobre criança pelos pais e pela escola Voldemort, qualquer leve sinal de desvio já traz um prazer. Notei bem isso quando assistimos a um desenho animado (para família) comendo salgadinho, refrigerante e chocolate: ele não sabia nem como se portar diante de tanta rebeldia.

Depois do Sexc, fomos passear pela Sé - ver a exposição no CCBB, que não era para criança, mas era uma das poucas coisas que os pais deixavam que eu fizesse com o garoto. Ele não se interessou muito, mas se comportou bem - como  sempre. No caminho, nos deparamos com bules e copos de café gigantes. Diante de um desses copos, ele questionou:

Tio, que porra é essa?

De onde ele aprendeu a dizer porra, eu não sei. Certamente, não foi comigo. Mas fiquei com medo de repetir a palavra para seus pais logo depois de nosso dia aprazível e eu ter que me explicar novamente ao meu irmão, sem ter como me defender de algo que não fiz. Enfim, expliquei que tinha acontecido a semana de festival do café do centro, por isso aquelas instalações: era uma forma de chamar a atenção para esse problema - o baixo consumo de café - e estimular o turismo local. Não expliquei como isso acontecia, porque eu mesmo não fazia ideia: quem toma café continuou tomando café, quem não toma café não mudou o hábito por causa de um festival sem sentido, e quem pensava em tomar um café diferente no festival desistiu diante dos preços praticados.

A explicação não foi convincente, até porque eu não havia pego o ponto de meu sobrinho:

Mas tio, isso é um copo descartável, de isopor. Eles estão estimulando produzir mais lixo?

Argumento irretocável, o do meu sobrinho. Não tinha como dizer que não era bem assim: era isso, mesmo! Estímulo à produção de lixo desnecessário! E pior: café em copo de isopor perde até parte da graça, quando comparado a uma xícara de verdade.

Sei que você não pode tomar café, por enquanto, mas guarde isso para você: beba sempre café em xícara. E faça questão de café bom!

Foi a lição de moral que consegui tirar desse momento com meu sobrinho. Para trazer um conhecimento a mais, expliquei que isopor era marca, o nome correto é poliestireno expandido. Demorou para ele conseguir decorar o nome, foi me perguntando várias vezes no correr do dia.

Quando seu pai chegou para buscá-lo, contou rapidamente do nosso dia e com a empolgação de um guarda-parque mirim explicou que a prefeitura estava estimulando o uso irresponsável de poliestireno expandido no café.

Ah, é? Veja só, que coisa! 

E a seguir olhou para mim, aquele olhar reprovador que ele sempre traz quando acha que fiz algo de errado - mesmo que seja a ampliação do vocabulário de meu sobrinho.

Servir café no copinho de isopor, expliquei. E tratei logo de esclarecer: não bebemos café nenhum, nem ele, nem eu.



PS: Ainda bem que ele não perguntou, porque eu entendi menos ainda o slogan da tal semana do café: “Entre. Sinta viva. O café.” O que é “sinta viva”? Entrar aonde? Na instalação? Enfim, questões profundas que, felizmente, meu sobrinho deixou passar.


20 de maio de 2026

PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas

sexta-feira, 15 de maio de 2026

A capa da Veja e a avenida para a antipolítica

Quando a mídia corporativa conseguiu assumir a narrativa do caso Master e passou a forçar um vínculo com o STF e com o governo Lula, Luis Nassif de pronto apontou que a Lava Jato 2 havia começado. 

O objetivo era emparedar o STF, instituição que havia sido de fundamental importância para a preservação da nossa democracia de baixa intensidade, e abrir uma guerra midiática contra Lula e o PT, no mesmo estilo feito pela Lava Jato 1 (e, antes, o dito Mensalão). A grande diferença, ao meu ver, era a falta de um personagem outsider - como um juiz-justiceiro - que encampasse a guerra do bem contra o mal, em especial, contra a corrupção - ainda que, é certo, tal personagem não tivesse conseguido se cacifar a tempo para as eleições de 2018.

Na ausência dessa figura, apelou-se a quem estava à mão, desde que fosse alguém disposto a implementar o ultraliberalismo nestes Tristes Trópicos. Havia ainda um “recall” do sobrenome Bolsonaro na luta contra o “sistema” e a vinculação do Partido dos Trabalhadores a esse sistema carcomido, de modo que Flávio Bolsonaro, tornado Flávio-sem-sobrenome (quase um Ulisses na ilha dos Ciclopes), encarnava os “ideais” desse grupo, herdava os votos do dito bolsonarismo raiz e, se não conseguiria se apresentar como um outsider, ao menos se apresentava como um anti-petista para pessoas “cansadas de tanta roubalheira”. O Supremo, acuado, e o TSE, comandado por um indicado de Bolsonaro, não prometiam muita resistência a possíveis excessos durante a campanha.


O áudio em que Flávio Bolsonaro aparece cobrando R$ 134 milhões de seu parça Daniel Vorcaro complicou a estratégia dessas elites. Se o Filho 01 é carta fora do baralho, ainda não é possível dizer: apesar de termos outros candidatos do espectro, ele vinha absoluto na raia da direita e extrema-direita, e chegava mesmo a aparecer numericamente à frente de Lula no segundo turno, ainda que dentro da margem de erro. 

Creio que dificilmente se recupera, porém seu piso de votos, algo entre 20% e 30% do eleitorado, dificulta o processo de defenestração: pode-se insistir na sua candidatura, acreditando na memória curta de parte da população, alheia às questões políticas, associado à guerra midiática contra o PT, que seguirá intensa até outubro. O nome mais forte que parece despontar para substituí-lo é o da ex-primeira-dama, Michele Bolsonaro - mas aí temos as disputas internas da família.

Independentemente de quem será o candidato, a Lava Jato 2 continua. A prova disso é a capa desta semana da revista Veja - desnecessário adjetivá-la.

Pesquisa Quaest sobre a percepção do escândalo do Master junto à população, divulgada dia 13 de maio, mostra que 46% das pessoas acreditam no envolvimento de toda a classe política - 11% atribui a culpa do escândalo ao PT e 9% a Bolsonaro. A capa de Veja, ao pôr as imagens de Lula, Flávio Bolsonaro e o ex-presidente Temer junto de Daniel Vorcaro reforça essa percepção, de que seriam todos “farinha do mesmo saco”. 

Ao reiterar o descrédito da política como um todo, a Lava Jato 2 abre uma avenida para um aventureiro, alguém que se diga antipolítico, de fora do sistema, prometendo moralizá-lo. Com anos de satanização de tudo o que é público, essa moralização acaba por passar necessariamente pelo discurso de diminuição do estado - ou seja, por um projeto liberal. Eis que, dentre os nomes que são levantados nas pesquisas de opinião pode surgir um azarão, o dark horse da vez: Renan Santos. Com a capilaridade e o conhecimento do MBL de como atuar nas redes sociais e na internet, ele pode despontar como esse candidato anti-sistema, anti-Lula e anti-Bolsonaro ao mesmo tempo. Por ora segue embolado com Caiado e Zema, mas se conseguir se fazer mais conhecido no curto prazo, pode atrair a simpatia das elites e da mídia corporativa que a vocaliza, e ter um salto de exposição, alcançando o grande público.

Ainda é cedo para apostar nele como viável - vale lembrar que a criação de Bolsonaro para 2018 foi um processo longo -, porém há um caminho aberto e ele certamente está tentando se viabilizar por essa via. De qualquer modo, o desserviço feito à nossa frágil democracia pela atuação da mídia corporativa - tão bem representada pela capa de Veja - está feito. Mas pode piorar.


 15 de maio de 2026