quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Bate panela, ô, ô [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Depois das reformulações, cortes e que tais, sobrou um bom espaço aqui na nossa sala. Parte foi para o Manager de Fluxos Intersetoriais - que tomou parte da sala do chefe - e seu staff, outra permaneceu ociosa. Decidiram, então, trazer de volta o sofá da sala do antigo chefe, com mais duas poltronas tiradas de não sei onde, e criou-se um ambiente de vivência - por onde obrigatoriamente se passa para ir para a sala de trabalho. Dá um ar de empresa moderna, preocupada com o funcionário (até a página dois); algo meio Google, só que sem videogame ou coisas legais.

Principalmente no final do horário do almoço, várias pessoas - a maioria homens do Clube do Café - se sentam ali e ficam papeando assuntos aleatórios - geralmente ou Floriano está palestrando sobre qualquer tema desinteressante com sua verve mais maçante que o próprio trabalho, ou então estão falando de futebol, o que não é menos desinteressante. Política, pouco se fala ali ou na empresa em geral, fora dos pequenos grupos. Mesmo na eleição, o assunto não tomou as conversas - apesar de eu estar na militância digital quase minhas oito horas diárias. Não esta semana. 

O clima na empresa está bem dividido: quem é da democracia está trabalhando normalmente - posso mesmo dizer que calmamente, apesar das pressões de prazos e coisas do tipo -, mais que isso, com um sorriso no rosto; já os partidários do candidato das máfias (e como gosto de ser justo, incluo nossa mídia corporativa como parte delas) estão num clima de velório que tenho tido dificuldade em conter minha expressão de alegria quando os vejo - e olha que, diferentemente de Macedo, não sofro de incontinência facial, como diz o Brotinho. Hoje falavam de como a fuga do cagão era necessária para organizar a resistência e sei lá mais o que: passei sem paciência para ouvir, mas fiquei pensando que o café deles deve ter ficado bem aguado de tantas lágrimas que caíam.

Problema por causa das eleições eu quase cheguei a ter em minha casa, mesmo. Foi no dia de bater panela. Duas horas antes, passei em revista minhas panelas e escolhi uma frigideira, por conta do cabo maior e da sua ressonância. Testei colher de metal e de madeira e fiquei com esta última não só pelo som, como por acreditar (acertadamente) que ela não danificaria tanto a panela - da colher sobrou só o cabo, que guardei para mostrar para Brotinho, que me deu uma bronca dizendo que eu não podia mais usá-la, como se eu não soubesse. Horário combinado, estava eu a postos e comecei a bater. Menos de um minuto e aquele pein pein pein da minha panela doía lá dentro do ouvido. Lembrei dos fones que uso no trabalho, com abafador de ruído. Deu certo! Escutava a batida, mas sem ser tão estridente. Me veio uma ideia melhor: e se eu pusesse uma música pra entreter enquanto batia panela? Preciso assumir, sem falsa modéstia: a ideia foi ótima! Coloquei uma playlist com roques hispanohablantes e dá-lhe tentar seguir o ritmo. Também preciso assumir, sem mentir: sou ruim demais pra ritmo! Putaqueopariu! Mas como só eu sabia o que eu estava escutando, o ritmo que eu tentava seguir, está valendo. E me diverti horrores: bate panela, ô, ô, bate panela, a, a. Molotov, El Mató a un Policía Motorizado, El Cuarteto de Nos, La Renga. Perdi a noção do tempo. 

Quando decidi mudar, colocar um Rage Against the Machine, vi uma discussão no grupo do prédio, reclamando do vizinho que seguia batendo panela - eram dez e meia da noite, pouco mais. Havia também uma mensagem privada da síndica, fazia mais de dez minutos, perguntando se acaso não era eu o batedor ensandecido - e que ela já havia interfonado, eu não atendera, mas parecia que o som saía do meu apartamento.

Perto do exorcismo da vizinha de cima, retratado aqui em outra crônica, uma panela é quase nada - mas ainda assim incomoda. Pedi desculpas, portanto. Felizmente, pude dizer no domingo, isso não vai se repetir - ao menos nos próximos quatro anos.


28 de outubro de 2026



PS: Deixo aqui o destaque para duas vizinhas das cercanias, que no debate da Globo atuaram como checagem dos fatos para vizinhança, e a cada vez que Flávio Bolsonaro falava uma mentira - cada vez que abria a boca, portanto - gritavam: É mentira! É mentira! É mentira!


PS 2: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas

terça-feira, 27 de outubro de 2026

Três semanas que decidiram a eleição, quatro anos para sustentar a mobilização


Encerrado o processo, podemos agora fazer uma análise mais detalhada das eleições. Se o segundo turno foi histórico e heróico, o primeiro foi um desastre: a extrema-direita se tornou força dominante no congresso e nos estados. 

Foram 15 governadores eleitos (PL, PP, Podemos e Republicanos), contra seis dos partidos do dito centrão (MDB e PSD), quatro de esquerda (PT) e dois do que seria a direita tradicional, o PSDB (sendo que em Alagoas o partido estava coligado com PL e PP). 

No congresso, só o PL ficou com quase um quarto da câmara (23,5%), 121 deputados, três a menos que a soma das esquerdas (124). No senado, as esquerdas terão 15 senadores, pouco mais da metade do que o PL possuirá, 28 - no total, a extrema-direita terá 49 assentos. Vale notar também o crescimento da extrema-direita gourmet, o Novo, com 3 senadores e 10 deputados. Mesmo sem o executivo, a extrema-direita tem condições para pautar as duas casas e trabalhar num sistema de boicote permanente ao presidente. Mais que isso, para alterar a constituição, como já haviam anunciado ao cabo do primeiro turno, faltam apenas 49 votos na câmara para chegar aos 308 - no senado eles já possuem quórum suficiente -, e negociações nos estados podem ajudar a conseguir esses deputados. É importante lembrar que mudança constitucional não passa por sanção presidencial. Serão quatro anos de pressão intensa sobre o governo e ameaça constante à democracia.

A corrida eleitoral

No primeiro turno, foi uma eleição fria: pouca, muito pouca discussão sobre os candidatos, não só por conta da campanha curta, como pela jogada do bolsonarismo, via STF e mídia, de pautar o debate em torno das relações de Vorcaro com Alexandre de Moraes, o que tirou o foco das eleições e dos candidatos e ainda jogou no colo do governo um problema que ele não tinha nada a ver - numa associação tosca mas eficiente de que se Moraes é “contra” o bolsonarismo ele é necessariamente “aliado” de Lula.

Sobre a campanha curta, sei que é assim há dez anos, mas esse é um ponto importante de ser levado em consideração, pois diminui o tempo de exposição dos candidatos e de debate entre eles, e favorece quem já tem visibilidade e sabe usar das novas tecnologias para criar ondas. Isso vale à direita, mas também à esquerda, como mostraram as candidaturas de Jones Manoel e Elias Jabbour, por exemplo.

Sobre a eleição fria, nada mais que consequência de quatro anos em que seguimos com trabalho de base praticamente inexistente. Nossa atitude é compreensível: não apenas por conta de um esvaziamento da política, resultado dos rearranjos institucionais neoliberais, como por um esgotamento dos anos de governo Bolsonaro pai: a vitória de Lula foi a oportunidade de podermos tocar nossa vida sem um desgaste por dia provocado pelo governo. Ademais, já tínhamos um candidato forte para 2026: o presidente em exercício. O problema: nós largamos mão de acompanhar política, eles, não. Seguiram mobilizados, principalmente na internet e nas redes sociais, com amplo apoio e divulgação da mídia corporativa - que, no meu caso, ajudou a manter o cansaço durante o governo Lula, visto que todo dia era uma pauta negativa diferente. 

A mídia corporativa, por seu turno, não decepcionou: pelos quatro anos se comportou como o partido de oposição, papel que assumiu desde quando Lula assumiu, em 2002, e PFL e PSDB não se mostraram à altura de uma oposição política - e isso é profundamente diferente de ser vigilante com os atos do governo, não se trata de fazer jornalismo chapa branca, mas criar todo um clima de desesperança e pessimismo não é jornalismo. Na campanha, se não divulgou fake news, omitiu notícias em doses industriais sobre Flávio e seus desvios de conduta, em especial com o Banco Master - depois, soubemos, parece que eram todos do mesmo círculo de “amigos”. 

Por um tempo, acreditei que esse apoio - velado de início, mais visível depois da proibição das bets - de Globo, Folha e outros fosse uma estratégia para forçar o segundo turno e barganhar com Lula uma agenda que atendesse aos seus interesses e daqueles que esses veículos representam sem dizer o nome. Porque com o currículo de Flávio, essa era uma eleição para Lula ganhar no primeiro turno, se a mídia corporativa tivesse feito o básico do jornalismo. Não fez. Porém, Flávio não é Jair, e a convivência dessa mídia com esse fascismo menos tosco (mas ainda tosco) se mostrou muito harmônica, orgânica - com direito a almoço antes de sabatina fake.

O segundo turno e depois

O segundo turno, desnecessário detalhar muito, foi esse movimento colossal de massas, nas ruas e nas redes, e que aconteceu de modo espontâneo e bastante orgânico. O Exército de Lula, comandado por Janones, foi importantíssimo para qualificar nossas ações nas redes e dar um sentido a elas. Esse é um fator fundamental em uma democracia de massas, apesar do quanto isso dói no ego de muita gente de esquerda, em especial a acadêmica, de ter que seguir ordens simples e ser “só” mais um, ao invés de ser o estopim da revolução com um textão acadêmico, ou então de colocar vários poréns para explicar que seguiria, mas que não concordava com tudo e blábláblá. Cito como exemplo algumas (poucas) pessoas da minha bolha querendo problematizar o muso do moletom cinza da manifestação de 11 de outubro na Paulista, como se isso tivesse importância diante da urgência de barrar o fascismo. Diferentemente do primeiro turno, quando teve influenciador de esquerda fazendo campanha para Derrite e Prado, ao atacar Tebet por não ser de esquerda, e sendo muito republicado: um belíssimo exemplo de tiro no pé (ou em órgãos vitais, pensando no histórico de um dos eleitos) dessa esquerda radical formada nas universidades e que parece ter esquecido do mundo real em que foi criada. 

Junto com a importância das redes, a centralidade das ruas: foram nessas mobilizações que a campanha de Lula mostrou sua real força e criou a onda que o levou à vitória inconteste, mesmo com a tentativa de golpe por parte de empresas de transporte e prefeitos bolsonaristas (inclusive, a necessidade de fraudar o processo eleitoral reforça o discurso de segurança das urnas).

E ouso dizer: foi nossa sorte que Flávio Bolsonaro tenha terminado o primeiro turno à frente. Não só porque eles trataram de subir a rampa do Planalto e sentar na cadeira presidencial, já montavam o ministério e distribuíam cargos, anunciavam seu real programa de governo, ainda que apenas em linhas gerais, mas, principalmente, porque nos despertou um senso de urgência que não teria se o resultado fosse 47% para Lula e 45% para Flávio: penso que a campanha esquentaria um pouco, mas a organização nas redes e as mobilizações nas ruas só começariam depois das primeiras pesquisas, dando a virada de Flávio - nisso, perderíamos ao menos uma semana, e talvez a chance de vencer.

O ponto agora é se conseguiremos manter essas mobilizações - nas redes e nas ruas -, ainda que em ritmo menor (que ninguém aguenta o ritmo que foram essas três semanas). Convém lembrar que em 2018 tivemos um grande movimento de vira voto, principalmente de rua, e que desapareceu tão logo fecharam as urnas e decretaram a vitória de Bolsonaro - Haddad não teve estatura para entender o momento e conduzir a resistência ao fascismo, preferindo retomar sua vida normal, como se ele não tivesse liderado 47 milhões de votos e vivêssemos num período de normalidade democrática.

Lula, no seu discurso após a vitória, sinalizou que entendeu o novo momento e disse que vai governar com o povo: mobilização e pressão popular vão se tornar um elemento fundamental deste período, a única forma de conseguir aprovar pautas de interesse da população e da soberania nacional com o congresso que foi eleito - as habituais negociações do presidencialismo de coalização já se mostravam esgotadas no Lula 3 e devem se tornar praticamente inviáveis agora. É também a oportunidade para criar novas lideranças para encabeçar a sucessão do presidente: ainda é cedo para citar nomes, mas talvez o PT precise abrir mão da cabeça de chapa - afinal, nosso objetivo primeiro será o mesmo desta eleição: manter o estado de direito e vencer a extrema-direita e o fascismo. 


27 de outubro de 2026