sexta-feira, 19 de junho de 2026

Ciro, o tirano da janela [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

A confluência de conflitos latentes (ou nem tanto) aqui na equipe tem gerado uma série de saias-justas que chegam a ser divertidas de acompanhar - e mesmo de ser protagonista. 

A guerra da janela persiste. Pacheco voltou com sua tática do gaveteiro. Eu ignorei, e abri minha folha, para ventilar um pouco a sala abafada. O dia não estava muito frio, mas reconheço que o vento estava gelado e insistente - quase incômodo, eu diria. Quase!

Não era o que sinalizavam Pacheco e Goleador, que começaram a forçar tosses, na esperança de que eu tomasse a iniciativa de desfazer o que fizera. Eu, com meus fones, fingia que não ouvia. 

Não tardou, Pacheco se levantou para seu social habitual, deixando Goleador no frio e na aporia: ou aceitava o vento, ou teria que fazer coro à Doutora Sabujinha pela janela fechada - dar razão à sua arqui-inimiga. Não me recordo se já comentei algures: as duas já nem se cumprimentam e quando conversam, é o extremamente necessário para o serviço - um pouco menos, na verdade (a chefia não sabe dessa parte). Não que isso seja uma novidade para Pacheco: também não somos dignos de seus cumprimentos Carnegie e eu - com Mello ela soube sair do seu lado antes de chegar a esse ponto. Por falar em ponto, mantenho aqui minha indignação já expressada: sua baia virou ponto de encontro de colegas aleatórios de outras equipes e do Mello, o que tem prejudicado assazmente meu rendimento antilaboral.

De volta ao conflito fenéstrico. Outros colegas estavam nas duas fileiras de baias ventiladas pela janela que ocupo, e ninguém mais tossia ou parecia incomodado - um deles, inclusive, se mantinha sem blusa de manga comprida. 

Pelo visto, por conta do jogo do Brasil, estava todo mundo adiantando trabalho, sem tempo para conversa de cerca-lourenço, e Sabujinha teve que logo voltar ao seu lugar, fingir que trabalhava e tossia. Tosse cá, tosse lá e vento frio frequente (e eu de fone e blusa). Nessa hora, Macedo, nosso homem da calma, perdeu a paciência e resolveu intervir: pediu, gentilmente e em ASMR, para que eu fechasse a janela, pois o vento estava frio e parecia que não era o único incomodado com isso. Aceitei o pedido do colega e assim o fiz. Depois, no café da tarde, me contou: Goleador foi agradecê-lo, cheia de mesuras, pela intervenção. 

Esse agradecimento fez surgir em mim uma pequena dúvida: será que, sem perceber, estou me tornando o novo vilão da equipe, Ciro, o tirano da janela? 



19 de junho de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.

Enquanto você estiver estudando

Pai, hoje você faria 72 anos. Foi a primeira coisa que lembrei ao acordar - e motivo de eu estar melancólico. Acho que a sequência de crônicas do Sérgio S. ajudou um pouco: lembrei de quando publicava o Trezenhum. Humor Sem Graça. à noite, madrugada muitas vezes, e na manhã seguinte, ao ligar o computador, lá estava um e-mail seu com comentário sobre as agruras da Universidade e, claro, a revisão do texto. Devia ser a primeira coisa que você fazia no dia. Às vezes havia alguns preciosismos gramaticais da sua parte, que eu não concordava, mas alterava por reconhecimento da sua ajuda. 

Na verdade, a ideia para hoje era escrever mais uma crônica do Sérgio S. e as disputas miúdas desta burocracia em que faço trabalho de estagiário com diploma de sociólogo. Sérgio S. é um spin-off de Trezenhum - e digo isso só para te provocar: com certeza você me mandaria uma mensagem me criticando por usar um termo em inglês, e eu concordaria contigo: prefiro dizer é uma derivação do Trezenhum. Curiosidade: já tem mais tempo que o original (só não sei se tem mais textos).

Lembrei também quando soltava meus textos mais sérios - esses precisavam de menos revisão, mas de vez em quando vinha. O que vinha mesmo era, na ligação seguinte - por telefone ou skype -, você começar: “Dani, aquilo que você falou no seu último artigo...” e começarmos nossa conversa sobre política, nem sempre confluente, mas sempre respeitosa - até porque éramos dois do campo da esquerda, cada um com seu extremismo particular. Por sinal, uma das principais pessoas para quem eu escrevia era você: mostrar que, ao mesmo tempo, eu seguia seus passos políticos e me diferenciava deles em detalhes. Ainda sinto falta dessas conversas. Como sinto falta de minhas férias serem voltar para Pato Branco, curtir a casa e a companhia sua, da mãe, e das cachorras. Colômbia, Lençóis Maranhenses, Salvador, Guatemala foram destinos legais, mas foram arremedos de férias.

Hoje tem jogo do Brasil. Foi com você que aprendi a não torcer pela seleção - mercenários era o que você acusava os jogadores, desde a copa de 1994, que eu me lembre. Patriotismo de fancaria, digo eu, hoje (e reitero o mesmo ranço seu para com Senna). Você era um nacionalista! Foi durante um jogo do Brasil contra a Argentina que você partiu. Hoje o jogo é contra o Haiti, país que rendeu uma das edições mais polêmicas do Trezenhum. Humor Sem Graça. O Brasil deve vencer fácil, eu devo aproveitar esse tempo para estudar. “Enquanto você estiver estudando, a gente te sustenta”, foi o que você me disse uma vez, no início do século, não sei bem se quando eu tinha entrado na psico ou na filosofia. E, de alguma forma, isso continua verdade até hoje.



19 de junho de 2026