segunda-feira, 23 de março de 2026

A peleja entre o Teatro de Contêiner e o capital

Acordo domingo com as cenas da destruição do Teatro de Contêiner, há dez anos na região da Luz, junto à (mal) chamada Cracolândia.

A justificativa oficial é destinar a área para moradia popular. O ponto é que não basta moradia, é preciso qualificação do entorno, tanto que a própria prefeitura, em seu site, diz “no terreno, está prevista a construção de unidades habitacionais, além de espaços de lazer e convivência integrados ao plano de recuperação da região central” (https://bit.ly/4lV1OJm). Nesse aspecto, um teatro que se apresenta também como área de convivência, e tem toda uma relação com o entorno, seria um equipamento dos mais valiosos. Por que não mantê-lo e utilizar outras áreas das cercanias para as moradias? Isso seria de interesse dos próprios moradores.

Há outros equipamentos culturais na região, mas nenhum com a mesma vocação que o Teatro de Contêiner para atender a uma população que vive em moradia popular, não apenas por conta dos valores praticados, como por toda uma série de barreiras invisíveis que são postas a quem não tem berço - ou ao menos uma boa renda para se passar por um dos iniciados (sei que a Osesp até lançou campanha de “vá como se sentir confortável”, mas há uma série de códigos velados que inibem, praticamente impedem, certo tipo de público). 

O ponto para entender é do que se trata o “plano de recuperação da região central”. Recuperar do que, de quem, para quê, para quem? Se o interesse fosse realmente o bem estar das pessoas (já residentes e futuros moradores), esse equipamento seria um elemento vital na recuperação da região. Entretanto, não é difícil desconfiar que a recuperação aqui é a recuperação do capital investido em compra de imóveis velhos, e o público almejado para ocupar as futuras residências da região seja o mesmo que frequenta a sala São Paulo. Sim, o público da Sala São Paulo também pode ocupar o Teatro de Contêiner (não sou o único a fazer esse trajeto), o problema deste é que ele não era seletivo o bastante, pelo contrário, atraía diversos tipos de público, inclusive os indesejados do capital e seus representantes governamentais.

O desejo de “revitalização” da região da Luz é antigo e foi tentado por vários governos - como não lembrar do Complexo Cultural Teatro de Dança (com projeto de Jacques Herzog e Pierre de Meuron), da época de José Serra? Depois de vinte anos, com uma direita que não teme em mostrar para quem trabalha, sem laivos de democracia ou apreço pela vida - que o digam as ações para “limpar” a dita cracolândia -, o projeto de utilização da Luz para valorização do capital vai ganhando corpo - sobre corpos humanos tidos por descartáveis.

Porém, mais que apenas valorização do capital, há um elemento a mais nessa direita - ou, como disse, o Teatro de Contêiner seria um ativo a mais para a região, e mesmo assim foi demolido. 

Para o capital e a extrema-direita que hoje é seu representante preferencial, toda manifestação cultural que não seja publicidade, que não seja elogio do poder, do status quo, deve ser perseguida, banida, proscrita. O Teatro de Contêiner é justamente o oposto desse elogio. Mais que um discurso, ele é uma prática de contestação, pela forma como se enraizou no território, sendo mais que uma sala de espetáculo, um espaço de convivência e de inserção na sociedade - como pelo coletivo Tem Sentimento, que atuava junto ao Teatro. 

A destruição do Teatro de Contêiner é uma declaração de guerra contra a cultura e contra toda a população que por anos viveu num território abandonado pelo poder público. A truculência com que essa destruição foi feita, desde o início, mostra que a moderação com que são pintados o governador Tarcísio de Freitas e o prefeito Ricardo Nunes é apenas uma fantasia - construída pela mídia para quem sabe fazer genuflexão aos cifrões -, e não hesita em passar o trator, ou melhor, a polícia, por cima de quem ousa fazer política.

O sentimento que toma meu domingo é de tristeza, como se tivesse perdido alguém querido. Relembro, com Lia, as ótimas peças a que assistimos ali - da Mungunzá, mas também de outras companhias, como o Coletivo Comum. E é a lembrança dos seus espetáculos - em especial do penúltimo, o sensacional Elã, feito já com toda a perseguição do estado no encalço - que me faz ter certeza de que se o objetivo da extrema-direita e do capital é matar o projeto que o Teatro de Contêiner representa, não foi desta vez que conseguiram: o trabalho ali desenvolvido foi movido antes de tudo por sonhos e amor à arte e à cidade, deixou raízes, e em breve voltará a frutificar. Viva o Teatro de Contêiner! Viva a Cia. Mungunzá!


23 de março de 2026


PS: pertinente o questionamento de Marcos Felipe, da Cia. Mungunzá: para além de toda a truculência e do agir escondido, em pleno domingo, por que o estado gastou dinheiro para levar a estrutura do Teatro de Contêiner até a avenida do Estado e não até o terreno que havia cedido pela municipalidade?

 

sábado, 14 de março de 2026

Carnaval Medieval [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Quem me mandou essa dica para o final de semana foi o nobre colega Macedo. Como ele chegou a esse evento, preferi não perguntar, para manter a amizade, sem julgamentos negativos desnecessários. Pelo mesmo motivo, achei por bem não perguntar se ele iria, em companhia de Maceda e Macedinho. Tampouco irei perguntar como foi, segunda-feira.

Feito essa introdução, vamos a um momento de sociologia de boteco. Tema: carnaval. Basicamente, existem três tipos de relação com essa festa, por parte da classe proletária: amam, aprovam por conta do feriado, e se ressentem porque gostariam de ir mas algum motivo (religioso, distinção social, etc) os impede. E existe essa quarta categoria, que é a galera do mundo da lua, digo, Hogwarts - e que trataremos neste texto.

Trata-se de um pessoal que diz que gosta de história, mas odeia estudar e nega tudo o que pode contradizer sua visão idealizada de uma época em que a Europa vivia sua pureza - tal qual a extrema-direita hoje gostaria de voltar (este é um comentário aleatório, insight que me veio e eu não quis perder). Estou falando do povo que idolatra a época medieval europeia. 

Precariedade, escassez, medo permanente, ignorância, sujeira, conhecimento de mundo extremamente limitado, mulheres submissas: tudo isso são efeitos colaterais aceitáveis diante de todo o misticismo católico milenarista, crenças nórdicas diversas, combates por honra e guerras santas contra os infieis maometanos. Quem não gostaria de morar numa época dessas (nem vamos falar da falta de eletricidade e de internet)?

O que isso tem a ver com o carnaval? Pois aí vem a nova categoria de relação com o carnaval. O evento que Macedo me indicou é o carnaval medieval. O que seria bem interessante, se se tratasse mesmo de uma tentativa de reviver essa festa religiosa (rito de inversão, diriam os antropólogos), dessa época de forte hierarquia social. Mas, quê! O que a festa promete é um clichê idealizado, com toda uma atmosfera medieval (aham), música medieval (só não digo “quero ver!”, porque não quero, mas desconfio que não são cantigas trovadorescas e canto gregoriano. Se tiver concerto do Jordi Savall, até poderia ir), dança medieval (solta a roda e vira, solta a roda e vem...), combates medievais (se não rolar um braço cortado, ao menos, é fake), hidromel artesanal (só espero que não sigam as normas de higiene medievais) e, claro, venda de produtos numa “feira medieval” (escambo?).

Quem ler este texto pode até fazer uma sociologia de boteco com relação a carnaval medieval e dar quatro formas de se relacionar com ele: os que nem sabem da sua existência (meu caso, por felizes nove anos), os que gostam e vão, os que não se incomodam, e os que gastam energia para falar mal de um evento aleatório bobo. Deixo claro: não me enquadro nessa quarta categoria: por mim, para melhorar a ambientação medieval/nórdica/feudal, até torço para que no fim de semana se mantenha esse tempo frio e chuvoso, tão propício a lamaçais - como na idade média.



Capítulo II

Não choveu, pelo contrário, fez sol e um calor tropical. Brotinho achou esse “carnaval” legal, ainda que não se parecesse com um. Eu me recuso a comentar.



14 de março de 2026

PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas