quarta-feira, 24 de junho de 2026

O zagueiro raçudo da São Bento [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Se alguém que lê estas mal traçadas linhas também acompanha grupos de fotos antigas de São Paulo no Facebook ou Instagram, sabe que para toda foto da década de 1970 para trás vai ter uma enxurrada de comentários cretinos.

 Uma foto de uma criança ou um jovem espremido num terno desconfortável numa tarde de calor de 1920: olha como se vestiam bem aquela época! Uma foto da República com o trânsito totalmente insano e pessoas tomando banho de chuva das rodas de um ônibus enquanto tentam não ser atropeladas, em 1970: destruíram a beleza do centro, hoje só tem cracudo, nóia e puta! Uma foto da praça Roosevelt ou do Largo do Paissandu dos anos 1950, servindo de estacionamento, sem calçada para pedestres: como era bom viver aquela época! Se ler todos os comentários, capaz de ter alguém - até mais de um alguém - falando que naquela época podia andar com celular na rua sem medo de ser roubado. 

Em resumo, o que esses comentários sempre dizem é que antigamente a cidade era linda, e estragaram ela - sem nunca conseguir achar o culpado por tal estrago (talvez não seja nunca: às vezes sobra para a população mais pobre, para a população de rua ou migrantes), até porque seria assumir que sempre votou em quem fez as piores escolhas: Minhocão, terceira pista da marginal, destruição da Lei Cidade Limpa...

Mas eis que nosso atual prefeito, com vistas a agradar a esses nostálgicos do que não vivenciaram, está trazendo a beleza e a maravilha do centro de antigamente. 

Já há um tempo que na região da Sé e do Anhangabaú basta ligar o pisca alerta e você está autorizado a circular de carro, pressionando os pedestres para saírem da frente. Ainda não começaram os bonitos atropelamentos de antigamente, mas com o aumento da circulação de bicicletas elétricas, esperamos ansiosos por isso.

A nova inovação está na rua São Bento: um lindo lamaçal, que é irrigado mesmo em dias de sol, fazendo com que o cidadão paulistano e o turista que está turistando por ali tenham uma experiência imersiva do que era São Paulo cem anos atrás, sem essa infraestrutura (ainda que incompleta) que torna São Paulo tão feia aos olhos das viúvas e viúvos da ditadura.

“Ah, mas é temporário, só até terminarem as obras no centro”, irá argumentar algum defensor do indefensável prefeito. Correto. O detalhe que toda essa revira estava prevista para terminar antes das eleições... de 2024. Pelo ritmo que vai, teremos sorte se a troca das calçadas for concluída para o próximo pleito municipal (quem sabe se o escolhido do prefeito estiver mal nas pesquisas eles prefiram acelerar ao invés de aditar as obras?).

Deixemos por cá os prolegômenos desta crônica e vamos à cena que a inspira - que cabe num twitter.

Eis que chega Goreti do almoço, enlameado dos pés à cabeça, literalmente, como um zagueiro raçudo dos tempos áureos do futebol, quando se tratava de um esporte e não de uma jogatina: tinha escorregado com gosto na rua São Bento, numa cena de humilhação pública - que, infelizmente, perdi. De volta ao escritório, foi conversar com o chefe, se não poderia encerrar o expediente mais cedo, dado seu estado lastimável que se encontrava.

Claro que não - a resposta da chefia foi lacônica e precisa, também como um zagueiro raçudo dos tempos áureos do futebol.

Inconformado, mas sem ter o que fazer, Goreti voltou à sua baia, se sentou na sua cadeira e voltou a trabalhar. Ao levantar para ir embora, Meirelles, que é mãe e já lidou com situações similares, deu a dica:

Amanhã traga uma toalha para se sentar, ou vai sujar sua roupa de novo, que esse barro vai demorar para sair.


24 de junho de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Futebol, fé e outras bets [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Disse em crônica passada que esta era uma copa inútil. Reconheço minha parcialidade em tal julgamento: trata-se de uma copa inútil para quem trabalha CLT (ou precarizado, como PJ) das oito às cinco. Para quem trabalha à noite, não deixa de ser um alívio. E mesmo para pais e mães de criança pequena, como é o caso de Maceda, que pode assistir ao jogo contra o Haiti, pois Macedinho já tinha sido posto para dormir (Macedo gosta tanto de futebol quanto de novela bíblica).

Quem também soube fazer do limão uma limonada foi minha vizinha de cima - a que tempos atrás (outubro de 2024, para ser mais preciso) precisou da ajuda da síndica para conseguir descapetizar alguém, pois o bicho ruim não ia embora só com o barulho infernal que ela e seus convidados faziam.

Brasil e Haiti, nove e meia da noite. Clima de festa pela cidade durante todo o dia: se a estreia foi uma decepção para Marrocos (e para alguns brasileiros que não acompanham futebol de verdade, ou saberiam que se o hexa vier, vem de zebra), o segundo jogo era favas cantadas - a não ser que acontecesse uma enorme zebra (segundo a transmissão do jogo, mesmo assim, o odd estava bom para apostar, ou melhor, investir com segurança no Brasil, praticamente um tesouro direto das bets). 

Nem são nove horas redondas e começam a chegar os convidados da vizinha de cima. E acaba minha paz. Não vou reclamar, afinal, é copa do mundo, muita gente está ansiosa pela primeira vitória da última seleção com Neymar (esperamos). Os convidados vão chegando até a hora do jogo. A partir dessa hora não ouço mais seu interfone tocar nem o tradicional barulho no hall de entrada do apartamento - parece que eles fazem um sapateado para entrar, deve ser algum código interno deles, tipo crianças de doze anos costumam ter, ou ao menos eu tinha (não que eu esteja implicando, só constatando). 

O juiz apita. Não tarda, uma oração. Amém. Mais outra oração. Aí eu começo a implicar. Haja reza para a seleção canarinho! Sei que o time não inspira muita confiança, mas não precisava rezar tanto pra ver se deus ajuda. Até porque se tem algo que não me parece condizer com a Bíblia, Jesus, deus e toda a religião cristã, é achar que entes divinos interfeririam num esporte competitivo, escolhendo um lado em detrimento de outro - e isso sem bases morais, que seriam as mais aptas para julgamentos religiosos. Traição, por exemplo, não é pecado? Ou então avareza: que dizer de jogador que comemora convocação fazendo propaganda pra bet? Por sinal, não tem uma bet evangélica, não? Se não existe, os pastores estão perdendo dinheiro!

Enfim, rezar e orar era pouco, com vinte minutos de jogo começaram também os cantos de louvor. Ponho o som da tevê lá em cima, nem tanto para escutar o insuportável narrador da tevê falando de bets enquanto cita o nome de um ou outro jogador que está com a bola, mas para abafar a vizinha de cima, mesmo. 

Veio o gol do Brasil. Explosão de alegria e alívio no bairro. A vizinha de cima com seus convidados, impassíveis: seguem cantando e rezando, como se não estivesse acontecendo jogo nenhum.

Irritado com o barulho, deixo a tevê no mudo e coloco Sepultura no talo. Por que Sepultura, deve estar perguntando a desocupada leitora, o desocupado leitor. Ora, para dar uma brasilidade pesada à minha tentativa de infernizar a vizinha e seu culto em casa. Péssima escolha. Foi cutucar o próprio diabo com vara curta. Começaram a falar a língua dos anjos e a pular feito uma manada de elefantes - sentimento que eu já conhecia de outros carnavais, digo, celebrações religiosas. Não, não era delay da minha televisão: foram quase dez minutos até o Brasil fazer o segundo gol que justificasse aquela pulação toda - e eles seguiram pulando esses dez minutos todos e mais um pouco. Até pensei em reclamar para a síndica, mas imaginei que ela não acataria minha reclamação, uma vez que provavelmente também ela estaria pulando e gritando com o jogo, por mais que já tivesse passado das vinte e duas horas.

Fui para um bar perto de casa, acompanhar o jogo em meio ao povo - irritado em ter sido expulso de casa por toda aquela fé sem limites (sonoros).


22 de junho de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.