quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Jogral sem ensaio [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Uma das estratégias marotas posta em prática pelo supervisor-geral-responsável-por-fazer-os-contatos-intersetoriais-mais-ágeis foi marcar reuniões próximas ao horário de almoço, às onze da manhã. De início, parece que a coisa estava dando certo: colegas prolixos vinham diminuindo suas intervenções, uma vez que a fome apertava e todos ali só queriam que aquilo terminasse logo para podermos almoçar. Mais que isso: com a reunião terminando quinze para o meio-dia, por exemplo, ganhamos um extra de folga, pois nesse pequeno intervalo já não dá para fazer mais nada.

Contudo, passado o sucesso inicial, o expediente dá sinais de desgaste. Carnegie, nosso fã de Steinbruch (ele não gosta de comer no refeitório e prefere fazê-lo na sua baia, enquanto trabalha), teve reunião que estava tão ansioso para que terminasse que não deixava o colega concluir uma frase, tentando antecipar o que ele ia falar - parecia até um dos monges do livro Pequenos Deuses, do Terry Pratchett, com a sutil diferença que este sabia o que seu interlocutor iria dizer, enquanto Carnegie tem um aproveitamento muito baixo. Vos trago aqui um breve trecho em que Toddy - colega que, efetivamente, gosta de falar com muitas pausas dramáticas quando em reunião -, apresentava seu estudo sobre uma questão pertinente ao nosso setor. A hora, onze e quarenta e cinco:

Diante do que eu expus, o que me parece mais razoável suge...

Propor.

Isso, propor, o que me parece mais razoável propor seja algo que mude nosso mindset enquanto setor, algo, como dizer...

Uma reunião de alinhamento?

Não. Uma...

Estratégia mais focada?

Não é bem isso...

Um plano de ação detalhado?

Não!

Carnegie, deixa ele falar! - isso foi dito quase em coro, o coro dos ansiosos pelo almoço.

Só estou tentando ajudar, ele está nervoso - o que não deixava de ser verdade àquela altura: o único ponto é que ele estava nervoso com toda aquela interrupção

O que me parece mais razoável seja propor uma metodologia...

Sim, uma metodologia!


E nesse jogral sem ensaio seguimos. Não sei se preciso dizer, essa reunião foi até meio-dia e dez, e o nobre colega mereceu reprimenda em off da bancada, depois.

Quem parece que não entendeu essa estratégia foi Goleador: até diminuiu sua prolixidade (e é visível seu esforço nesse sentido), mas em compensação passou a marcar reuniões no horário de almoço. 

É uma reunião rapidinha - ela argumenta.

Foi nesse contexto que Basso, nosso Mr. K. da meritocracia, pode entrar em ação e mostrar sua influência junto ao Manager de Fluxos Intersetoriais. Estávamos nos queixando de uma reunião marcada para meio-dia pela Goleador, e ele nos ouviu.

Deixa que eu vou conversar com o Manager e vamos resolver isso - garantiu.

Nos olhamos com descrença, e fomos para nossa reunião. Era um alinhamento com o colega novo, o Massafera, para que todos ficássemos a par das suas atribuições. Nem faz sentido listar suas atividades todas, mas qual não foi minha surpresa ao ver que Pacheco, a doutora Sabujinha, conseguiu despachar metade das suas demandas para ele! Ela já não faz quase nada e agora fará menos ainda! Macedo, em compensação, segue sobrecarregado - premiação por ser um funcionário competente e interessado.

Pouco antes do fim do expediente, mensagem do Manager no grupo de whats, reiterando que deveríamos manter nosso horário de almoço, salvo situações muito excepcionais. Basso tinha realmente conversado com ele. Comentei com Macedo:

Parece que a disputa pelo mais vagal do recinto vai ganhando uma líder absoluta, nem eu nem Basso somos páreos para Pacheco.


21 de outubro de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas

terça-feira, 20 de outubro de 2026

Mr. K. da Meritocracia [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Estou tranquilo no meu canto, fingindo que trabalho, quando chega um novo funcionário, acompanhado pela secretária do supervisor-geral-responsável-por-fazer-os-contatos-intersetoriais-mais-ágeis. Olho para ele e penso: conheço de algum lugar. A cachola 486 DX4-100 (os antigos vão reconhecer) começa a vasculhar os arquivos, mas não consegue identificar ninguém. Lembra um vendedor de enciclopédia que bateu na casa de meus pais, quarenta anos atrás - mas ele deve ter trinta anos, se muito. Aguardo sua apresentação à equipe, porém ela não vem. Mas que eu conheço ele de algum lugar, conheço! 

Pouco antes do almoço, enquanto decidíamos aonde iríamos almoçar, Macedo me pergunta o que achei do retorno do colega. Retorno? Então ele já teria trabalhado no nosso setor?

Como assim, você não lembra do sobrinho do diretor geral?

Eu realmente tinha apagado da memória essa figura: é Basso - Cabaço para os que falam dele pelas costas -, nosso Mr. K. da meritocracia.

Ele não tinha galgado uns cargos aqui na empresa, não? - Questionei, ingênuo.

Foi Carnegie, o Arauto do Apocalipse, quem puxou a capivara do sujeito nos meandros da empresa, desde sua chegada, no início do ano passado: do setor de vendas ao criativo, passando pelo administrativo, relações públicas e jurídico, sempre em algum cargo de subchefia. Sem dúvida, o rapaz é invejável pelas suas múltiplas habilidades - praticamente só faltou ele passar pela portaria, faxina e cargos de direção para gabaritar todos os setores.

Mas ele está trabalhando arduamente nesse sentido. Diferentemente do que imaginávamos, ele não está voltando ao setor, e sim sendo promovido a assessor especial do Manager de Fluxos Intersetoriais - que, como explicado em crônica anterior, ocupa parte da nossa sala.

Foi-lhe concedido um lugar de destaque, tais quais seus méritos: deslocaram um pouco a mesa da secretária do Manager, e puseram sua mesa na frente: qualquer pessoa que entra na sala vai se deparar primeiramente com ele. 

No pouco que ouvi ele conversar, se gabava de que teria acesso direto ao Manager, e sempre seria consultado para questões importantes, mas até agora o que pudemos ver é, na melhor das hipóteses, um recepcionista da secretária: a pessoa teria que falar com ele, que passaria para a secretária, que avisaria o supervisor. 

Uso o futuro do pretérito porque parece que a coisa não está funcionando muito do jeito que ele imaginava: é comum que a pessoa passe por ele com um cumprimento rápido e se dirija direto à secretária - quando não direito ao supervisor, como é o caso de Goleador, que parece estar levando a sério essa coisa de contatos mais ágeis, e já ganha a antipatia da secretária.

Carnegie andou dando uma olhada na tela do colega, para saber o que ele faz durante seu expediente: até tem coisa de trabalho, mas em geral ele está vendo cotação de cripto (eu sabia!) e fazendo militância virtual para a extrema-direita (não dá para ficar sustentando vagabundo com Bolsa Família, né?). 

Pois é, parece que eu e Doutora Sabujinha temos um concorrente de peso agora para saber quem é o mais vagal do nosso recinto.


20 de outubro de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas