Depois das reformulações, cortes e que tais, sobrou um bom espaço aqui na nossa sala. Parte foi para o Manager de Fluxos Intersetoriais - que tomou parte da sala do chefe - e seu staff, outra permaneceu ociosa. Decidiram, então, trazer de volta o sofá da sala do antigo chefe, com mais duas poltronas tiradas de não sei onde, e criou-se um ambiente de vivência - por onde obrigatoriamente se passa para ir para a sala de trabalho. Dá um ar de empresa moderna, preocupada com o funcionário (até a página dois); algo meio Google, só que sem videogame ou coisas legais.
Principalmente no final do horário do almoço, várias pessoas - a maioria homens do Clube do Café - se sentam ali e ficam papeando assuntos aleatórios - geralmente ou Floriano está palestrando sobre qualquer tema desinteressante com sua verve mais maçante que o próprio trabalho, ou então estão falando de futebol, o que não é menos desinteressante. Política, pouco se fala ali ou na empresa em geral, fora dos pequenos grupos. Mesmo na eleição, o assunto não tomou as conversas - apesar de eu estar na militância digital quase minhas oito horas diárias. Não esta semana.
O clima na empresa está bem dividido: quem é da democracia está trabalhando normalmente - posso mesmo dizer que calmamente, apesar das pressões de prazos e coisas do tipo -, mais que isso, com um sorriso no rosto; já os partidários do candidato das máfias (e como gosto de ser justo, incluo nossa mídia corporativa como parte delas) estão num clima de velório que tenho tido dificuldade em conter minha expressão de alegria quando os vejo - e olha que, diferentemente de Macedo, não sofro de incontinência facial, como diz o Brotinho. Hoje falavam de como a fuga do cagão era necessária para organizar a resistência e sei lá mais o que: passei sem paciência para ouvir, mas fiquei pensando que o café deles deve ter ficado bem aguado de tantas lágrimas que caíam.
Problema por causa das eleições eu quase cheguei a ter em minha casa, mesmo. Foi no dia de bater panela. Duas horas antes, passei em revista minhas panelas e escolhi uma frigideira, por conta do cabo maior e da sua ressonância. Testei colher de metal e de madeira e fiquei com esta última não só pelo som, como por acreditar (acertadamente) que ela não danificaria tanto a panela - da colher sobrou só o cabo, que guardei para mostrar para Brotinho, que me deu uma bronca dizendo que eu não podia mais usá-la, como se eu não soubesse. Horário combinado, estava eu a postos e comecei a bater. Menos de um minuto e aquele pein pein pein da minha panela doía lá dentro do ouvido. Lembrei dos fones que uso no trabalho, com abafador de ruído. Deu certo! Escutava a batida, mas sem ser tão estridente. Me veio uma ideia melhor: e se eu pusesse uma música pra entreter enquanto batia panela? Preciso assumir, sem falsa modéstia: a ideia foi ótima! Coloquei uma playlist com roques hispanohablantes e dá-lhe tentar seguir o ritmo. Também preciso assumir, sem mentir: sou ruim demais pra ritmo! Putaqueopariu! Mas como só eu sabia o que eu estava escutando, o ritmo que eu tentava seguir, está valendo. E me diverti horrores: bate panela, ô, ô, bate panela, a, a. Molotov, El Mató a un Policía Motorizado, El Cuarteto de Nos, La Renga. Perdi a noção do tempo.
Quando decidi mudar, colocar um Rage Against the Machine, vi uma discussão no grupo do prédio, reclamando do vizinho que seguia batendo panela - eram dez e meia da noite, pouco mais. Havia também uma mensagem privada da síndica, fazia mais de dez minutos, perguntando se acaso não era eu o batedor ensandecido - e que ela já havia interfonado, eu não atendera, mas parecia que o som saía do meu apartamento.
Perto do exorcismo da vizinha de cima, retratado aqui em outra crônica, uma panela é quase nada - mas ainda assim incomoda. Pedi desculpas, portanto. Felizmente, pude dizer no domingo, isso não vai se repetir - ao menos nos próximos quatro anos.
28 de outubro de 2026
PS: Deixo aqui o destaque para duas vizinhas das cercanias, que no debate da Globo atuaram como checagem dos fatos para vizinhança, e a cada vez que Flávio Bolsonaro falava uma mentira - cada vez que abria a boca, portanto - gritavam: É mentira! É mentira! É mentira!
PS 2: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas

