sexta-feira, 10 de abril de 2026

Pequena Sociologia da Martelação Auditiva [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça]


Recentemente temos - eu e meu companheiro de almoço, o nobre colega Macedo - trombado pelas ruas do centro da cidade com um cantor munido de um microfone ligado a uma caixa de som de alta potência e baixa qualidade. Parece até que está a nos perseguir: o dia que estamos na República, lá está ele. Quando estamos no triângulo histórico, ele também está. A desocupada leitora, o desocupado leitor poderia dizer que somos nós a persegui-lo, já que somos nós quem estamos caminhando no horário de almoço, mas isso tiraria nosso protagonismo, de que o mundo gira ao nosso redor. Enfim.

Passamos por ele hoje: estava disputando a atenção com britadeiras e serras para concreto no Largo do Café - uma estratégia que merece uma discussão mais aprofundada no correr desta crônica. Eu, muito complacentemente, tentando dar uma colher de chá, comentei com o nobre colega Macedo que, apesar da caixa de som de má qualidade, ele não cantava tão mal assim. Foi quando ele soltou a voz no que é chamado de belting - e que Macedo chamou de agressão gratuita ao nervo auditivo - e mostrou que a caixa de som era o menor dos problemas: ele canta é muito mal, mesmo. 

Mas isso não é o pior. No repertório cantado pelo rapaz sempre bem vestido, apenas músicas de louvor. Não se trata de um cantor de rua (se for, está queimando o filme da categoria, porque pelo centro tem vários que cantam muito bem, fazem versões que mereciam estar no palco). Daí nossa dedução lógica: o pastor, as pessoas da sua igreja, querendo se mostrar acolhedoras e estimuladoras das potencialidades do rapaz - e adeptas da teologia do domínio -, devem ter dito que ele canta bem e poderia usar esse dom para espalhar a palavra. Pessoas que devem entender de música tanto quanto ele. Talvez, deveras, ele seja quem melhor cante na igreja - entretanto isso não corresponde a cantar bem, muito pelo contrário. 

E o pastor para proteger a ovelha? Nada! Pelo contrário: deve ter visto no infeliz mais um cordeiro a cerrar fileiras na guerra santa, um soldado do evangelismo para perturbar as pessoas com pregação de segunda categoria (nesse aspecto, prefiro os esmurradores de Bíblia, que ao menos tem personalidade [https://bit.ly/cG240910]). Aí fica ele pelo centro de São Paulo, incomodando as pessoas e passando vergonha, ignorado pelas pessoas sensatas, destratando as pessoas de ouvidos sensíveis, como este escriba. Cante na igreja, nos cultos de domingo, meu bom cristão inseguro (Goreti sempre diz: quem muito prega, pouco crê), e use o seu tempo livre para algo útil, valoroso - estudar a Bíblia, que seja; quem sabe não aprende algo sobre Cristo.

Agora sobre suas estratégias de divulgação da palavra que ele crê divina. De início, quis acreditar que a caixa de má qualidade fosse por questão financeira, mas logo ficou claro que é falta de ouvido, mesmo; é desprezo pela música e muita vontade de atingir o coração do maior número de pessoas, à força, na base da martelada auditiva. Nessa linha tem também o rapper cristão da bicicleta, que parece estar cantando os lances num leilão de gado nelore. Já cantar junto a britadeiras e serras de concreto mostra toda a sensibilidade artística do artista, seu senso de pertinência - e uma conversa entre pares.

Louvor estourando na caixa, britadeira arrebentando a calçada e serra de concreto serrando o concreto - passamos por essa harmoniosa sinfonia do inferno em silêncio que até parecia obsequioso, mas era só impossibilidade de seguir com a conversa. E pior que nem vai adiantar trocar de rota amanhã: muito provavelmente vamos trombar com ele de novo.




10 de abril de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas


segunda-feira, 23 de março de 2026

A peleja entre o Teatro de Contêiner e o capital

Acordo domingo com as cenas da destruição do Teatro de Contêiner, há dez anos na região da Luz, junto à (mal) chamada Cracolândia.

A justificativa oficial é destinar a área para moradia popular. O ponto é que não basta moradia, é preciso qualificação do entorno, tanto que a própria prefeitura, em seu site, diz “no terreno, está prevista a construção de unidades habitacionais, além de espaços de lazer e convivência integrados ao plano de recuperação da região central” (https://bit.ly/4lV1OJm). Nesse aspecto, um teatro que se apresenta também como área de convivência, e tem toda uma relação com o entorno, seria um equipamento dos mais valiosos. Por que não mantê-lo e utilizar outras áreas das cercanias para as moradias? Isso seria de interesse dos próprios moradores.

Há outros equipamentos culturais na região, mas nenhum com a mesma vocação que o Teatro de Contêiner para atender a uma população que vive em moradia popular, não apenas por conta dos valores praticados, como por toda uma série de barreiras invisíveis que são postas a quem não tem berço - ou ao menos uma boa renda para se passar por um dos iniciados (sei que a Osesp até lançou campanha de “vá como se sentir confortável”, mas há uma série de códigos velados que inibem, praticamente impedem, certo tipo de público). 

O ponto para entender é do que se trata o “plano de recuperação da região central”. Recuperar do que, de quem, para quê, para quem? Se o interesse fosse realmente o bem estar das pessoas (já residentes e futuros moradores), esse equipamento seria um elemento vital na recuperação da região. Entretanto, não é difícil desconfiar que a recuperação aqui é a recuperação do capital investido em compra de imóveis velhos, e o público almejado para ocupar as futuras residências da região seja o mesmo que frequenta a sala São Paulo. Sim, o público da Sala São Paulo também pode ocupar o Teatro de Contêiner (não sou o único a fazer esse trajeto), o problema deste é que ele não era seletivo o bastante, pelo contrário, atraía diversos tipos de público, inclusive os indesejados do capital e seus representantes governamentais.

O desejo de “revitalização” da região da Luz é antigo e foi tentado por vários governos - como não lembrar do Complexo Cultural Teatro de Dança (com projeto de Jacques Herzog e Pierre de Meuron), da época de José Serra? Depois de vinte anos, com uma direita que não teme em mostrar para quem trabalha, sem laivos de democracia ou apreço pela vida - que o digam as ações para “limpar” a dita cracolândia -, o projeto de utilização da Luz para valorização do capital vai ganhando corpo - sobre corpos humanos tidos por descartáveis.

Porém, mais que apenas valorização do capital, há um elemento a mais nessa direita - ou, como disse, o Teatro de Contêiner seria um ativo a mais para a região, e mesmo assim foi demolido. 

Para o capital e a extrema-direita que hoje é seu representante preferencial, toda manifestação cultural que não seja publicidade, que não seja elogio do poder, do status quo, deve ser perseguida, banida, proscrita. O Teatro de Contêiner é justamente o oposto desse elogio. Mais que um discurso, ele é uma prática de contestação, pela forma como se enraizou no território, sendo mais que uma sala de espetáculo, um espaço de convivência e de inserção na sociedade - como pelo coletivo Tem Sentimento, que atuava junto ao Teatro. 

A destruição do Teatro de Contêiner é uma declaração de guerra contra a cultura e contra toda a população que por anos viveu num território abandonado pelo poder público. A truculência com que essa destruição foi feita, desde o início, mostra que a moderação com que são pintados o governador Tarcísio de Freitas e o prefeito Ricardo Nunes é apenas uma fantasia - construída pela mídia para quem sabe fazer genuflexão aos cifrões -, e não hesita em passar o trator, ou melhor, a polícia, por cima de quem ousa fazer política.

O sentimento que toma meu domingo é de tristeza, como se tivesse perdido alguém querido. Relembro, com Lia, as ótimas peças a que assistimos ali - da Mungunzá, mas também de outras companhias, como o Coletivo Comum. E é a lembrança dos seus espetáculos - em especial do penúltimo, o sensacional Elã, feito já com toda a perseguição do estado no encalço - que me faz ter certeza de que se o objetivo da extrema-direita e do capital é matar o projeto que o Teatro de Contêiner representa, não foi desta vez que conseguiram: o trabalho ali desenvolvido foi movido antes de tudo por sonhos e amor à arte e à cidade, deixou raízes, e em breve voltará a frutificar. Viva o Teatro de Contêiner! Viva a Cia. Mungunzá!


23 de março de 2026


PS: pertinente o questionamento de Marcos Felipe, da Cia. Mungunzá: para além de toda a truculência e do agir escondido, em pleno domingo, por que o estado gastou dinheiro para levar a estrutura do Teatro de Contêiner até a avenida do Estado e não até o terreno que havia cedido pela municipalidade?