terça-feira, 16 de junho de 2026

Férias steinbruchianas [por Sérgio S. ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Carnegie pistola é engraçado. E não precisa de muito para ele ficar assim: uma derrota do Palmeiras, uma vitória do Corinthians, falar o óbvio sobre futebol (ele tem posições bem heterodoxas sobre o esporte bretão em terra brasilis, em especial sobre Corinthians e Palmeiras, sendo que este seria o verdadeiro time popular), uma conversa simples com algum desafeto seu do trabalho, algum assunto político quente do momento. 
Minha forma mais habitual de deixá-lo pistola é dizer que ele é fã do Benjamin Steinbruch. Para avivar a memória da desocupada leitora, do desocupado leitor - ou mesmo trazer essa informação a quem não acompanha economia e política com muito afinco -, Steinbruch já defendeu que horário de almoço de trabalhador é um desperdício de tempo, que ele poderia comer um sanduíche com uma mão e seguir operando a máquina com a outra, levando 15 minutos para isso. Uma hora de almoço é praticamente um potlatch que esquerdista defende. Para quem não sabe, Potlatch é uma cerimônia tradicional de povos indígenas da América do Norte, de desperdício e/ou destruição de bens. O objetivo é ganhar prestígio, dividir riquezas e fortalecer alianças na comunidade. 
Enfim, eu falava de Carnegie, nosso arauto do apocalipse, que fica pistola sempre que eu digo que ele é steinbruchiano, porque ao invés de ir ao refeitório, ele prefere almoçar na sua baia, enquanto trabalha (só que não é um sanduíche e não são só quinze minutos, por enquanto). Ele diz que assim faz porque gosta de comer em horários em que o refeitório está muito cheio e, principalmente, porque tem algo urgente para terminar aquele dia, mas não é sempre assim - ainda que isso aconteça todo dia.
Eis que estamos eu, Meirelles, Macedo e Goreti conversando sobre assuntos aleatórios (impressionantemente, não é sobre a copa, nossa bancada é meio rebelde) antes de começar de verdade a trabalhar, quando chega o herói desta crônica. Olhamos para ele surpresos:
Você está de férias! - fala de pronto Meirelles, antes mesmo do bom dia.
Eu sei, mas... - tenta responder Carnegie.
Ótimo que você sabe, então, tchau. - responde correta e secamente Goreti.
É que eu tenho um assunto urgente e importante para resolver.
Se não for recolher suas coisas porque ganhou na loteria, não é importante, nem urgente.
Se ele ganhasse na loteria, nem precisaria vir buscar as coisas dele - me intrometo na discussão, dada a falha lógica no argumento do colega Goreti, que não posso deixar passar.
Tem razão - humildemente ele concorda -, então, vamos lá: se não veio recolher seus apetrechos porque conseguiu um emprego melhor, não é urgente nem importante.
Nada disso. Mas eu tinha que ter terminado um relatório semana passada e não deu tempo.
Isso é problema da chefia e quem ela designou para te substituir, no caso, o Sérgio S.
A lembrança desse pepino pra resolver me faz estremecer.
Prefiro eu mesmo fazer.
Vai ganhar uma estrelinha de bom funcionário.
Minha vontade é pôr panos quentes nessa história: deixa o colega vir trabalhar nas férias, se ele está entediado em casa. Mas me controlo, não posso dar bandeira tão grande assim da minha constante luta pelo ócio.
Carnegie nem responde: já está posicionado defronte ao computador, disposto a terminar o relatório o quanto antes, para começar a desfrutar - finalmente - suas férias. Meu maior receio é que depois do almoço steinbruchiano, suas férias steibruchianas, de quem segue trabalhando normalmente - com as duas mãos! - enquanto descansa, se tornem um exemplo para os superiores. Até lá, cruzo os braços e aproveito a proatividade alheia.

16 de junho de 2026

PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Você aí [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

A guerra da janela entre mim e a doutora Sabujinha continua. Sua estratégia de pôr o gaveteiro defronte a elas foi vetada pela CIPA - exatamente como atrapalharia no caso de um acidente, incêndio, não faço ideia. Impediria as pessoas de pularem? De qualquer modo, comemorei a decisão. A dinâmica tem parecido esquete de humor de segunda categoria: eu chego primeiro, abro as janelas; ela chega depois, fecha a folha dela; saio primeiro para o almoço, quando volto, a janela está toda fechada; abro-a; ela volta e fecha a folha dela, bufando. Todo dia a mesma história. Acho que só não fecha toda a janela depois que eu e Macedo saímos para nosso café da tarde porque ela fica muito pouco em seu lugar, e à tarde é o melhor horário para confraternizar.
Sofrer com a proximidade da doutora Sabujinha à minha baia não é nada original da minha parte. Descobri, ontem, que na verdade sua mudança de local não foi só porque ela quis, mas porque o clima entre ela e Bello começava a azedar - assim como azedou com todo mundo que se sentou próximo a ela. Com base nessa informação, reconheço que sua escolha do novo lugar tem uma lógica: se sentando ao lado de uma estagiária, esta não vai ter como reclamar da sênior: terá que suportar e, no máximo, pedir à chefia para trocar de lugar, depois de inventar alguma justificativa, por não poder dizer a verdade. Não fosse a janela, talvez pudesse trabalhar em paz, mas eis que tem eu e cá estamos em guerra.
Mas o assunto hoje nem era esse. Reunião de equipe, o novo chefe, aquele que doutora Sabujinha sabuja desde antes de assumir a chefia, decide que as demandas de Carnegie, que sai em férias semana que vem, não ficarão, como sói acontecer, entre Macedo e Goleador - que estão, é sabido de quem me acompanha aqui, sobrecarregados. Pois é, dá a impressão de que o chefe atual gosta de ser bajulado mas não cede tão fácil assim. Ademais, parece também que dá poucos ouvidos às fofocas de escritório, ao menos as que tratam da incompetência de certos funcionários. Para completar, tudo indica que acredita em dados objetivos e avaliou o que cada um da equipe realiza corriqueiramente. Conclusão do silogismo a partir das premissas acima expostas: fomos desmascarados em nossa disputa por quem menos trabalha. Resultado: divisão cinquenta-cinquenta entre mim e Pacheco das demandas de Carnegie, sem direito a escolha.
Até aqui, dias de luta, dias de fracasso. É parte do jogo, acontece. O grande momento, contudo, foi quando o chefe foi distribuir as tarefas: dividiu-as em dois blocos e então atribuiu cada um a um funcionário:
Sérgio S. fica com o bloco um e a... a... a... você aí, fica com o segundo bloco.
Sabujinha já se desmanchava diante do lapso do chefe, trazia uma expressão de choro, mas Carnegie, nosso arauto do apocalipse, não podia deixar de pontuar:
A Pacheco?
Isso! Pacheco fica com o bloco dois.
Em silêncio, nós, as vítimas de Pacheco, trocamos alguns olhares cúmplices, regozijando em júbilo respeitoso, ao ver o ego da colega sendo ferido assim involuntariamente. 


12 de junho de 2026

PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.