Ao deixá-lo em minha casa, meu irmão foi taxativo: nada de telas para o rapaz. Tranquilizei-o mostrando que havia comprado entradas para uma peça infantil no Sesc e que depois iríamos dar uma volta pelo centro - o que deixou meu irmão preocupado.
Qual é, não confia em mim? Alguma vez já perdi ele de vista?
Confesso que não senti muita confiança da parte dele, mas estava em cima da hora para o compromisso que tinham e não havia outra alternativa que não deixá-lo comigo.
Estávamos a caminho da unidade cujo espetáculo seria apresentado, e sentindo que a conversa não rendia muito, decidi usar o sotaque carioca para me referir ao local.
Você costuma ir ao Sexc? Perguntei.
Meu pai me leva de vez em quando.
E o que você mais gosta de fazer no Sexc?
Piscina foi a resposta dele. E nessa hora lembrei que essa realidade eu não possuo: não sendo comerciário, conheço o Sexc apenas da parte cultural.
E por que você está falando Sesc desse jeito estranho?
É mais goxtoso. Experimenta.
Assim fez - e gostou. Eu sabia! Diante de todas as restrições impostas à pobre criança pelos pais e pela escola Voldemort, qualquer leve sinal de desvio já traz um prazer. Notei bem isso quando assistimos a um desenho animado (para família) comendo salgadinho, refrigerante e chocolate: ele não sabia nem como se portar diante de tanta rebeldia.
Depois do Sexc, fomos passear pela Sé - ver a exposição no CCBB, que não era para criança, mas era uma das poucas coisas que os pais deixavam que eu fizesse com o garoto. Ele não se interessou muito, mas se comportou bem - como sempre. No caminho, nos deparamos com bules e copos de café gigantes. Diante de um desses copos, ele questionou:
Tio, que porra é essa?
De onde ele aprendeu a dizer porra, eu não sei. Certamente, não foi comigo. Mas fiquei com medo de repetir a palavra para seus pais logo depois de nosso dia aprazível e eu ter que me explicar novamente ao meu irmão, sem ter como me defender de algo que não fiz. Enfim, expliquei que tinha acontecido a semana de festival do café do centro, por isso aquelas instalações: era uma forma de chamar a atenção para esse problema - o baixo consumo de café - e estimular o turismo local. Não expliquei como isso acontecia, porque eu mesmo não fazia ideia: quem toma café continuou tomando café, quem não toma café não mudou o hábito por causa de um festival sem sentido, e quem pensava em tomar um café diferente no festival desistiu diante dos preços praticados.
A explicação não foi convincente, até porque eu não havia pego o ponto de meu sobrinho:
Mas tio, isso é um copo descartável, de isopor. Eles estão estimulando produzir mais lixo?
Argumento irretocável, o do meu sobrinho. Não tinha como dizer que não era bem assim: era isso, mesmo! Estímulo à produção de lixo desnecessário! E pior: café em copo de isopor perde até parte da graça, quando comparado a uma xícara de verdade.
Sei que você não pode tomar café, por enquanto, mas guarde isso para você: beba sempre café em xícara. E faça questão de café bom!
Foi a lição de moral que consegui tirar desse momento com meu sobrinho. Para trazer um conhecimento a mais, expliquei que isopor era marca, o nome correto é poliestireno expandido. Demorou para ele conseguir decorar o nome, foi me perguntando várias vezes no correr do dia.
Quando seu pai chegou para buscá-lo, contou rapidamente do nosso dia e com a empolgação de um guarda-parque mirim explicou que a prefeitura estava estimulando o uso irresponsável de poliestireno expandido no café.
Ah, é? Veja só, que coisa!
E a seguir olhou para mim, aquele olhar reprovador que ele sempre traz quando acha que fiz algo de errado - mesmo que seja a ampliação do vocabulário de meu sobrinho.
Servir café no copinho de isopor, expliquei. E tratei logo de esclarecer: não bebemos café nenhum, nem ele, nem eu.
PS: Ainda bem que ele não perguntou, porque eu entendi menos ainda o slogan da tal semana do café: “Entre. Sinta viva. O café.” O que é “sinta viva”? Entrar aonde? Na instalação? Enfim, questões profundas que, felizmente, meu sobrinho deixou passar.

