Parte da minha estratégia em evitar a fadiga do trabalho (na medida do possível, claro) consiste em fazer uso da “desatenção flutuante”, como quase diriam os psicanalistas: no meu canto, com meus fones de ouvido, evito escutar assuntos de trabalho, para não ter risco de parecer negligente, ao não dar uma informação que eu sei, nem para me estressar com assuntos que não mos foram designados (parênteses para celebração gramática-literária: combinação de pronomes oblíquos átonos!). Escuto somente quando vejo que é algo que realmente diz respeito a mim - quando escuto, porque não é incomum ver pessoas agitando os braços para mim, como esses bonecos de posto.
Macedo, por exemplo, faz o exato oposto e como prêmio está sempre sendo contemplado com uma reunião extra para participar. Já tentamos lhe explicar que aqui não é uma escola Voldemort e que ser prestativo assim serve para acumular mais trabalho, não para que ajudem quando ele precisar.
Enfim. Me chamam apenas para reuniões essenciais - e o novo chefe, na última, presencial, ainda confundiu nossos nomes, numa cena curiosa. Após os apontamentos de Macedo, ele olhou para mim - que estava ao lado do nobre colega - e perguntou:
E você, Macedo, o que tem para complementar?
Bem, acho que é isso - respondeu o interpelado.
A sala ficou um tempo em silêncio. Ele me olhava fixamente, e eu devolvia o olhar, fingindo que não era comigo.
E então, Macedo?
Macedo sou eu - respondeu o próprio.
Ah, desculpa.
Nisso o clima deu uma desanuviada, contamos causos de colegas outros que nos confundem, Mello se lembrou de um outro tópico que ele precisava discutir e eu consegui passar incólume.
Estava eu hoje no meu cantinho, tomando minha água, reclamando do calor e fazendo ativismo digital para Lula e Haddad e deputados e senadores de esquerda, quando chega mensagem de Meirelles no whatsapp, com o link para a reunião e a senha, e o aviso:
Só falta você para começar, e o diretor geral já deu pinta que hoje está mordido.
Pqp, eu tinha esquecido completamente dessa reunião no meio da tarde! Desliguei o som e entrei aturdido na reunião. O diretor estava com o semblante fechado e falava de alguma dificuldade junto a um grande fornecedor, devido a atrasos na consecução do plano de ação.
Como eu disse, desatenção flutuante é o meu forte, e eu vi que estava mesmo bem na minha tática: não fazia a menor mínima ideia do que estavam tratando. Eu só precisava torcer para que o diretor não fizesse como o chefe, e pedisse minha opinião. Quanto mais ele falava, mais eu ficava nervoso: minha ignorância era tanta que eu não conseguiria sequer dar uma enrolada. Minha cara na câmera devia ser da incompetência e do pavor em pessoa. E como cantavam o Planet Hemp: os cães farejam medo. No meio da fala o diretor interrompe e se dirige a mim:
Sérgio S.?
Pronto, eu devia saber que esse dia uma hora iria chegar (ou seria melhor dizer que essa hora um dia iria chegar?). Com isso, eu definitivamente entraria para a lista do próximo passaralho - se é que esperariam até lá.
Pois não, diretor.
O que você está fazendo aqui?
É, pelo visto minha cara me denunciava muito mais do que eu imaginava. Tentei gaguejar uma resposta, mas fui interrompido:
Você não faz parte do compliance, por que está nesta reunião?
Me passaram o link, dizendo que eu estava atrasado, nem tive tempo de pensar.
Pois saia agora!
Nem terminei de dizer com licença e tratei de sair da reunião. Meirelles agora é quem deve estar preocupada...
30 de setembro de 2026
PD: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.

