Fui com Lia assistir ao espetáculo Orkhḗstra Phántasma, de Felipe Hirsch, em cartaz no Sesc Vila Mariana. Saindo de uma quermesse para o teatro, avisei que era bom estarmos bem alimentados, pois eram três horas de espetáculo. Como eu, ela tem um certo receio de apresentações demasiado longas - talvez traumatizada pelo filme Beau tem medo (que eu gostei) -, e questionou: o que será que eles têm para dizer em três horas que não pode ser dita em uma hora e meia?
Lembrei desse questionamento ainda antes da peça completar uma hora, quando o ator Paschoal da Conceição elenca sinais de morte, uma casuística de pequenos sinais absurdos - da narina pela qual se expira à cor do sêmen ou do sangue menstrual, passando por ficar trinta segundos sem piscar - que, segundo ele, seriam sinais de morte para os próximos meses - a não ser que fizesse algum ritual para espantá-la.
A cena é engraçada pelos absurdos elencados - enquanto um casal se pega quentemente sob uma luz vermelha no centro do palco -, mas pareceu se alongar além do necessário: tanto os sinais de morte quanto o casal se pegando, começando a ficar cansativo, tedioso. “Sim, já entendi”, foi a primeira coisa que pensei - e lembrei do questionamento da Lia.
Foi quando entendi o que a peça estava trazendo para além do texto - e que será retomada na penúltima cena, pelo mesmo ator: “para que a pressa?” Para que sair logo dessa cena e partir para a próxima, se ainda há mais para se extrair dela? Extração essa que depende de um movimento ativo do espectador: entender o tédio, assumi-lo e pensar por si próprio o que tudo aquilo quer dizer.
Somos seres de linguagem, estamos imersos nela - como uma segunda pele, como Georgette Fadel fala em algum momento -, e nos sentimos como que nus se algo nos passa sem sentido. Daí a necessidade de o tempo todo preenchido de sentido, qualquer sentido, em que um sinal deve ter um significado para além dele. Byung-Chul Han traz esses questionamentos em suas obras sobre a sociedade atual, com o adendo de que estamos habituados a receber esses sentidos, não a produzi-los.
É aqui que entra a grande força de Orkhḗstra Phántasma: ela possui uma intencionalidade, não é um mero acúmulo de cenas aleatórias sem relação entre elas e algumas sem sentido em si, e nos força a pensar não para decifrar um enigma, mas para suportar a ausência de respostas prontas. Mais que isso, ela nos dá tempo para que tentemos por nós próprios entender o que se passa no palco: há espaços vazios, há repetições do (aparentemente) já compreendido, há tédio (não por acaso, desde a primeira hora, várias pessoas saem do espetáculo). Ou seja, há um confronto com nossa passividade, com nosso hábito de ter a explicação pronta, há um convite à reflexão que só o vazio proporciona.
A recordação que me veio nessa hora foi das viagens de férias para Florianópolis, quatorze horas de viagem, no Corcel II branco ou no Santana Quantum azul, já entediado de dormir, enjoado das mesmas músicas que tocavam no toca-fitas, olhando pela janela e elaborando alguma história mirabolante para passar o tempo: um espaço em que eu era invadido por meus próprios pensamentos e eles me levavam para locais inesperados. E essa volta às viagens de férias foi um local inesperado que a peça me levou nesse instante.
Não foi o único salto no tempo. Em determinado momento, o espetáculo faz menção ao “microfone aberto da Rádio Muda, de Campinas”. Ouvir aquilo me trouxe uma satisfação quase física: foi a rádio dos meus tempos de Unicamp, onde passei cinco anos comandando o programa sUbterrâneos do pOp. A Orkhḗstra, feita de fragmentos, começava a colar meus próprios pedaços.
Lia, nessa mesma cena dos sinais de morte, teve outra interpretação, mais ancorada no palco: de como, na preocupação com a morte e em dar sentido a tudo, vamos nos tornando meros voyeurs da vida, dos seus momentos mais interessantes, que acontecem quentes à nossa frente, estão ao nosso alcance, mas não intervimos - sobrecarregados que estamos na busca de tantos significados.
Orkhḗstra Phántasma é um espetáculo provocativo, que tira o público do seu lugar habitual e confortável. Uma peça que nos força a pensar, seja a partir de reflexões explícitas, como em cena de Georgette Fadel, apresentando duas concepções opostas de teatro: uma do teatro como catársis, para se esvaziar de sentimentos, a outra do teatro como para ativar esses sentimentos; seja em momentos sem sentido, como os quatro minutos para a luz se apagar, numa paródia do mindfulness tão em voga hoje em dia.
Se a questão fosse entregar tudo pronto e rapidamente, como nosso senso de urgência (desnecessária) atual nos impinge, a última cena o faz e de forma primorosa! Georgette Fadel em cinco minutos faz todo um ciclo da vida, de bebê aprendendo a caminhar até um idoso já com dificuldade de acompanhar a velocidade do tempo. Não tem como não se enxergar nesse ciclo, e vem o medo de imaginar em que momento dele estamos - e se estamos realmente aproveitando.
29 de junho de 2026

