Recentemente temos - eu e meu companheiro de almoço, o nobre colega Macedo - trombado pelas ruas do centro da cidade com um cantor munido de um microfone ligado a uma caixa de som de alta potência e baixa qualidade. Parece até que está a nos perseguir: o dia que estamos na República, lá está ele. Quando estamos no triângulo histórico, ele também está. A desocupada leitora, o desocupado leitor poderia dizer que somos nós a persegui-lo, já que somos nós quem estamos caminhando no horário de almoço, mas isso tiraria nosso protagonismo, de que o mundo gira ao nosso redor. Enfim.
Passamos por ele hoje: estava disputando a atenção com britadeiras e serras para concreto no Largo do Café - uma estratégia que merece uma discussão mais aprofundada no correr desta crônica. Eu, muito complacentemente, tentando dar uma colher de chá, comentei com o nobre colega Macedo que, apesar da caixa de som de má qualidade, ele não cantava tão mal assim. Foi quando ele soltou a voz no que é chamado de belting - e que Macedo chamou de agressão gratuita ao nervo auditivo - e mostrou que a caixa de som era o menor dos problemas: ele canta é muito mal, mesmo.
Mas isso não é o pior. No repertório cantado pelo rapaz sempre bem vestido, apenas músicas de louvor. Não se trata de um cantor de rua (se for, está queimando o filme da categoria, porque pelo centro tem vários que cantam muito bem, fazem versões que mereciam estar no palco). Daí nossa dedução lógica: o pastor, as pessoas da sua igreja, querendo se mostrar acolhedoras e estimuladoras das potencialidades do rapaz - e adeptas da teologia do domínio -, devem ter dito que ele canta bem e poderia usar esse dom para espalhar a palavra. Pessoas que devem entender de música tanto quanto ele. Talvez, deveras, ele seja quem melhor cante na igreja - entretanto isso não corresponde a cantar bem, muito pelo contrário.
E o pastor para proteger a ovelha? Nada! Pelo contrário: deve ter visto no infeliz mais um cordeiro a cerrar fileiras na guerra santa, um soldado do evangelismo para perturbar as pessoas com pregação de segunda categoria (nesse aspecto, prefiro os esmurradores de Bíblia, que ao menos tem personalidade [https://bit.ly/cG240910]). Aí fica ele pelo centro de São Paulo, incomodando as pessoas e passando vergonha, ignorado pelas pessoas sensatas, destratando as pessoas de ouvidos sensíveis, como este escriba. Cante na igreja, nos cultos de domingo, meu bom cristão inseguro (Goreti sempre diz: quem muito prega, pouco crê), e use o seu tempo livre para algo útil, valoroso - estudar a Bíblia, que seja; quem sabe não aprende algo sobre Cristo.
Agora sobre suas estratégias de divulgação da palavra que ele crê divina. De início, quis acreditar que a caixa de má qualidade fosse por questão financeira, mas logo ficou claro que é falta de ouvido, mesmo; é desprezo pela música e muita vontade de atingir o coração do maior número de pessoas, à força, na base da martelada auditiva. Nessa linha tem também o rapper cristão da bicicleta, que parece estar cantando os lances num leilão de gado nelore. Já cantar junto a britadeiras e serras de concreto mostra toda a sensibilidade artística do artista, seu senso de pertinência - e uma conversa entre pares.
Louvor estourando na caixa, britadeira arrebentando a calçada e serra de concreto serrando o concreto - passamos por essa harmoniosa sinfonia do inferno em silêncio que até parecia obsequioso, mas era só impossibilidade de seguir com a conversa. E pior que nem vai adiantar trocar de rota amanhã: muito provavelmente vamos trombar com ele de novo.
10 de abril de 2026
PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas

