terça-feira, 28 de julho de 2015

Menos Odílio, mais Francisco, por favor [ou, praça da Sé, 28 de julho de 2015, 16h]

Enquanto o Papa Francisco anima progressistas dos mais variados matizes - incluídos os ateus - com o direcionamento que tenta dar à igreja católica, mais próxima ao povo e sensível às questões sociais, a igreja católica do Brasil - ou ao menos a de São Paulo - caminha na direção diametralmente oposta. Ainda fico a me questionar se os rumos ditados por dom Odílio Scherer são mera questão de vingança de um ressentido, afinal, ele foi preterido por um argentino (e, diria Nietzsche, nada mais cristão que ressentimento e vingança), ou se ele possui uma convicção verdadeira (fé?) no fascismo e nos ideais da Casa Grande.
Começo com um exemplo requentado. Não sei o quanto saiu do círculo dos filhos da PUC (como este que aqui escreve) ou do restrito círculo universitário, a polêmica em torno do veto à Cátedra Michel Foucault, na PUC de São Paulo, feita pelo arcebispo de São Paulo, Dom Odilio Scherer. Com o veto, a universidade - na qual estão dois dos principais especialistas do Brasil nesse seminal filósofo do século XX, Márcio Alves da Fonseca e Salma Tannus Muchail - pode ter que devolver os áudios com as palestras do francês, recebidas do Collège de France. O argumento: as idéias de Foucault não estão em consonância com os princípios católicos. Argumento bastante razoável, pensando na igreja da Idade Média. Inclusive, Foucault merecia ter ido para a santa fogueira por pelos menos dois bons motivos: pensar e ser homossexual. Como Foucault mortuus est, ainda se pode jogar seus livros na fogueira - ou ao menos seus heréticos áudios.
Admito, isso de início me deixou perplexo: teria a igreja católica brasileira complexo de ser sempre do contra? Quando no Vaticano estavam reacionários, a PUC-SP abrigava comunistas e ateus; agora que na basílica de São Pedro está um progressista que prega, dentre outras coisas, o diálogo com as outras religiões, a PUC-SP tenta excluir tudo o que soe minimamente desviante dos "princípios católicos" - o pensamento de Foucault ou os professores Peter Pál Pelbart, Jonnefer Barbosa e Yolanda Gloria Gamboa Muñoz [http://j.mp/1D6KSI4]. E onde fica a infabilidade papal para Odílio Scherer? Valeu de Pacelli a Ratzinger, mas não vale para Bergoglio?
Tive nova mostra da cara da igreja católica de dom Odílio na tarde deste 28 de julho.
Eu caminhava pela Sé quando avistei dois policiais militares levando um homem pelo braço. A cena me chamou a atenção pela estranheza da atitude dos militares: agiam com firmeza, mas não com a truculência que, via de regra, dispensam à (chamada) escória social. Pensei que talvez o homem tivesse sido apartado de uma briga com outros moradores de rua que estavam ali perto, mas o homem estava muito calmo para alguém que brigava, e o resto da escória social também - definitivamente, não houvera briga. Ele tentava argumentar com os militares, que apenas ordenavam que caminhasse um pouco mais. Não poderia ser algo relacionado ao metrô, pois para isso há a segurança da empresa. Passando mal? Se era intenção ajudá-lo (mas por que a polícia militar ajudaria um pobre, que não produz nem paga imposto?), por que o levavam com aquela firmeza e tantos passos?
Ao passar ao lado da catedral da Sé, minha dúvida é, ao menos parcialmente, sanada. Comenta o segurança da igreja com um grupo de pessoas, como se estivesse no púlpito, diante da cena que ainda se desenrola ao longe: "olha, olha o que eles vão fazer: levam até lá e soltam. Fazer só isso não adianta nada, logo ele volta...". Provavelmente o homem estava pedindo dinheiro ou havia entrado na casa de Cristo (que heresia!). Fiquei a me indagar o que o segurança da catedral da Sé queria que os policiais fizessem: prendessem-no por ser negro e pobre (e quer motivo maior que esses dois?)? Dessem uma "geral" das antigas, pra ver se ele aprende a não importunar os cidadãos de bem? Ou simplesmente "apagassem" o cidadão, que nada tem a contribuir com a sociedade (afinal, é sabido há longo tempo que o Brasil é esse país de segunda categoria por causa dos negros e nordestinos, incompententes para a vida civilizada, como atestam as recentes investigações sobre a corrupção)?
Bem, essa cena que presenciei talvez prove que, contrariamente ao que disse acima, dom Odílio Scherer siga os passos do papa Francisco: atento à questão social, não hesita em chamar a polícia militar para tratar dela, como sempre aconteceu nestes tristes trópicos; e quanto à proximidade do povo, apenas uma questão de definir povo: se for patriarcal, conservador, branco, heterossexual e com uma conta digna de entrar no ramo VIP dos bancos, a igreja católica e o reino dos céus está de braços abertos ao povo. Por fim, tolerância de pensamento é algo que Dom Odílio Scherer também deve visar: os que ele considera povo têm total liberdade de se expressarem, mesmo que isso possa parecer contraditório aos "princípios católicos" - como ser favorável à pena de morte e à violência contra minorias por serem minorias, por exemplo.
Talvez o papa Francisco seja um ponto fora da curva da história católica - e ainda não conseguiram enviá-lo para se retratar diretamente com deus. Mas nele eu tenho esperança - quase ouso dizer fé. Para o Brasil: menos Odílio, mais Francisco, por favor.


28 de julho de 2015.


Não basta emporcalharem a praça, querem ainda entrar na igreja?

sábado, 18 de julho de 2015

Gatos mágicos somem com toalha!

Logo ao acordar notei que faltava a toalha de chão que eu havia deixado secando na porta da máquina de lavar (parênteses: minha casa é "estilo londrino", conforme uma amiga que morou em Londres, isto é, a lavanderia fica no banheiro. Fecha parênteses). Não fui tomado por nenhum espanto com esse sumiço, sabia que era coisa da dupla com quem divido apartamento. Procurei no banheiro, não achei. Estranhei que tivessem arrastado para fora dele sem deixar qualquer marca, uma vez que a toalha estava bem molhada. No quarto, embaixo da cama, nada. Na sala, nada. Na cozinha também não, já que ela fica fechada. Encafifei onde os dois teriam enfiado a toalha - e como?! Busquei mais uma, duas vezes, nada. Sai para meus afazeres, perplexo da toalhar ter desaparecido assim: seriam meus gatos mágicos? Descartei que pudessem tê-la comido: era muito grande, mesmo que cada um ficasse com metade. Mais plausível que tivesse conseguido enfiar no canto onde somem bolas, canetas e outras coisas que dou pra eles - ou eles pegam sem eu dar -, apesar de toalhas não rolarem, ainda mais molhadas. Voltei para casa, me pus a buscar a dita toalha - agora, com mais calma, eu daria conta que estava na minha fuça, mas me passara despercebido. A contar que eu sabia onde estava minha fuça, a toalha não estava junto a ela. Nem embaixo dos móveis, nem em cima deles. Nem embaixo da colcha - vai que na pressa para arrumar a cama, não tivesse notado que eles tinham subido ela para meu leito. Gatos mágicos? Comecei a ficar preocupado: eventualmente tenho o sono bem pesado - já perdi concurso por ter desligado quatro despertadores sem acordar de fato -, e sonhei algumas vezes que eles haviam tentado (e conseguido) escapar pela porta - num dos sonhos Guile se atirava do corredor, quatorze andares abaixo. Seria eu sonâmbulo, e parte do que eu achava que eram sonhos se tratavam, na verdade, de fatos mal-percebidos pela minha consciência semi-desperta no meio do deambular dormente? Teria eu levantando à noite, aberto a porta, posto a toalha no lixo e voltado a dormir? Temi não só pelos gatos, como por mim mesmo! Outra busca pela casa, nada. À noite eu conversava com minha mãe pelo telefone, falava justo dessa preocupação que ia me tomando, de que eu fosse sonâmbulo nível hard, abrisse a porta de casa pela madrugada, perseguisse gatos fugitivos e jogasse toalhas no lixo. Ou seriam meus gatos realmente especiais? Foi quando abri a janela da sala para eles irem um pouco "fora" (os cinco centímetros entre a janela e a rede de segurança): a toalha estava no trilho da janela (e assim que se chama?): então lembrei! Eu havia posto ela ali durante a madrugada, quando começou a chover forte e com vento, para evitar que entrasse água no apartamento. A sensação de alívio, admito, foi enorme! Resumo da história: nem gatos mágicos ou comedores de toalhas, nem sonambulismo hard, apenas um lapso causado pelo sono e uma crônica sem graça.


18 de julho de 2015.

E o medo que eles tivessem levado uma toalha molhada pra cima dos meus livros?