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sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Golden Boy por acidente [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Ainda em fase de reformulação pós passaralho feito de afogadilho, chegou um colega novo de outro setor. Já o conhecia de uma das muitas reuniões que já tive com supervisor-geral-responsável-por-fazer-os-contatos-intersetoriais-mais-ágeis (ou Manager de Fluxos Intersetoriais). É uma pessoa agradável, e faz questão de sê-lo. Perguntou para Macedo (sempre Macedo) qual era a etiqueta do setor: cumprimenta todo mundo, cada baia possui seu spalla, é cada um na sua? 

Macedo achou estranho e compartilhei de seu estranhamento: sem protocolo, cada um escolhe se quer cumprimentar ou não: eu, por exemplo, dou bom dia para Macedo quando chego, porque senta ao meu lado. No caminho, eventualmente aparecem uma ou duas mãos a quem retribuo o cumprimento e está feito. A Doutora Sabujinha (que trouxe lembrancinhas de sua viagem para todos, menos para mim, Carnegie e Goleador), só nos cumprimentamos quando precisamos trocar alguma informação - coisa que evitamos com afinco. Outros cumprimento de vez em quando - e a recíproca é verdadeira -, ainda que não me pareça que haja qualquer animosidade entre nós - nem amizade. 

Há dois colegas que fazem questão de passar de baia em baia para cumprimentar a todos - e costumam ser os últimos a chegar. Entendo sua estratégia sutil: só com isso lá se vão meia hora de expediente sem ninguém perceber e ainda deixa umas conversas sobre futebol e outros assuntos para continuar depois que terminar de cumprimentar todo mundo. Ou seja, é uma hora e meia a menos de mais-valia com esse expediente. O chefe faz o mesmo - e ele eu não entendo o porquê.

Ontem Massafera, o novo colega, veio ter comigo e Carnegie, num momento em que conversávamos qualquer aleatoriedade. Tentando se enturmar, entrou no grupo da Bella (que não é de Isabella), formado desde quando nosso setor foi desmembrado, e foi ao almoço coletivo da semana - agora esses almoços acontecem em algum restaurante aqui do centro, não mais cada um trazendo sua airfryer para usar no refeitório, como organizou certa feita Doutora Sabujinha (Pacheco para os íntimos). Contou na mesa que estava na nossa equipe e disse que os antigos colegas disseram que eu e Carnegie somos os “golden boys” da equipe. 

Acreditei na sinceridade do relato, mas desconfiei seriamente do que foi dito a nosso respeito - ou melhor, a meu respeito. Mais tarde contamos esse relato na bancada - e nosso estranhamento. Meirelles propôs que Macedo já está em outro patamar: ele é o padrão-ouro de funcionário do setor, não um mero golden boy - por isso o título para nós dois e não para ele. Não tivemos como discordar. Argumentei que a doutora Sabujinha merecia esse título mais do que eu - no caso, golden girl. Aí Meirelles novamente trouxe um ponto chave, que concordamos, até porque já presenciamos em outros empregos: somos dois homens brancos, logo, naturalmente, somos mais capazes. Alguém complementou: talvez ela já não esteja tão bem vista porque seu puxa-saquismo de resultado esteja por demais evidente. Certo. Ainda assim, golden boy serve para o Carnegie, não para mim.

Fui para casa com essa pulga atrás da orelha: de onde tiraram que eu seria o golden boy? Só se fosse da procrastinação - e numa disputa muito apertada com doutora Sabujinha. Contei para o Brotinho que, acostumada a observar o comportamento humano com toda sua perspicácia de professora, achou a confusão:

Você não diz que fica num canto quieto, do lado do Macedo, que pouco socializa também? Será que não confundiram vocês dois?

No dia seguinte, a explicação foi aceita pela bancada por unanimidade. E fica o aprendizado: se algum dia me promoverem, é melhor checar duas vezes - capaz de que a promoção seja para Macedo.


09 de outubro de 2026



PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.



quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Desatenção flutuante [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]


 Parte da minha estratégia em evitar a fadiga do trabalho (na medida do possível, claro) consiste em fazer uso da “desatenção flutuante”, como quase diriam os psicanalistas: no meu canto, com meus fones de ouvido, evito escutar assuntos de trabalho, para não ter risco de parecer negligente, ao não dar uma informação que eu sei, nem para me estressar com assuntos que não mos foram designados (parênteses para celebração gramática-literária: combinação de pronomes oblíquos átonos!). Escuto somente quando vejo que é algo que realmente diz respeito a mim - quando escuto, porque não é incomum ver pessoas agitando os braços para mim, como esses bonecos de posto.

Macedo, por exemplo, faz o exato oposto e como prêmio está sempre sendo contemplado com uma reunião extra para participar. Já tentamos lhe explicar que aqui não é uma escola Voldemort e que ser prestativo assim serve para acumular mais trabalho, não para que ajudem quando ele precisar.

Enfim. Me chamam apenas para reuniões essenciais - e o novo chefe, na última, presencial, ainda confundiu nossos nomes, numa cena curiosa. Após os apontamentos de Macedo, ele olhou para mim - que estava ao lado do nobre colega - e perguntou:

E você, Macedo, o que tem para complementar?

Bem, acho que é isso - respondeu o interpelado.

A sala ficou um tempo em silêncio. Ele me olhava fixamente, e eu devolvia o olhar, fingindo que não era comigo.

E então, Macedo?

Macedo sou eu - respondeu o próprio.

Ah, desculpa.

Nisso o clima deu uma desanuviada, contamos causos de colegas outros que nos confundem, Mello se lembrou de um outro tópico que ele precisava discutir e eu consegui passar incólume.

Estava eu hoje no meu cantinho, tomando minha água, reclamando do calor e fazendo ativismo digital para Lula e Haddad e deputados e senadores de esquerda, quando chega mensagem de Meirelles no whatsapp, com o link para a reunião e a senha, e o aviso: 

Só falta você para começar, e o diretor geral já deu pinta que hoje está mordido.

Pqp, eu tinha esquecido completamente dessa reunião no meio da tarde! Desliguei o som e entrei aturdido na reunião. O diretor estava com o semblante fechado e falava de alguma dificuldade junto a um grande fornecedor, devido a atrasos na consecução do plano de ação.

Como eu disse, desatenção flutuante é o meu forte, e eu vi que estava mesmo bem na minha tática: não fazia a menor mínima ideia do que estavam tratando. Eu só precisava torcer para que o diretor não fizesse como o chefe, e pedisse minha opinião. Quanto mais ele falava, mais eu ficava nervoso: minha ignorância era tanta que eu não conseguiria sequer dar uma enrolada. Minha cara na câmera devia ser da incompetência e do pavor em pessoa. E como cantavam o Planet Hemp: os cães farejam medo. No meio da fala o diretor interrompe e se dirige a mim:

Sérgio S.?

Pronto, eu devia saber que esse dia uma hora iria chegar (ou seria melhor dizer que essa hora um dia iria chegar?). Com isso, eu definitivamente entraria para a lista do próximo passaralho - se é que esperariam até lá.

Pois não, diretor.

O que você está fazendo aqui?

É, pelo visto minha cara me denunciava muito mais do que eu imaginava. Tentei gaguejar uma resposta, mas fui interrompido:

Você não faz parte do compliance, por que está nesta reunião?

Me passaram o link, dizendo que eu estava atrasado, nem tive tempo de pensar.

Pois saia agora!

Nem terminei de dizer com licença e tratei de sair da reunião. Meirelles agora é quem deve estar preocupada...


30 de setembro de 2026


PD: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.



quinta-feira, 24 de setembro de 2026

O carisma de uma porta de elevador [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Precisamos falar sobre foto de perfil no Whatsapp - principalmente se você utiliza seu Whats para trabalho também, como é o caso na empresa.

Em geral, as pessoas aqui mudam pouco sua foto de perfil. A minha, por exemplo, coloquei em um desses eventos internéticos de criança viada, em 2016; em 2024 troquei por uma em que estou montado, e depois de um chamado dos superiores, de que eu precisava uma foto mais séria e condizente com o serviço, coloquei minha cara, como se estivesse numa foto 3x4 para identidade: olhos abertos, expressão entre a meio morta e a assustada e o carisma de uma porta de elevador - Brotinho diz que estou bonito nela, e eu prefiro não imaginar se eu estivesse feio... Lino e Goleador devem trocar cada dois ou três anos, apenas para mostrar o que mudaram nesse tempo. Carnegie há anos colocou uma foto sua cheia de efeitos que nem dá para notar a ação do tempo nesse ínterim. Meirelles está com a foto da eleição passada, ainda - não é propaganda de nenhuma candidatura, mas tem seu simbolismo ainda atual. Macedo usa uma da sua mala de viagem, das férias de 2022. Inclusive já foi assunto da bancada, qual seria o significado dessa mala: desejo de partir? Saudades de viajar pelo mundão, quase sem rumo e quase sem programação (foi uma ironia, vide o texto Má Influência, de abril de 2023)? Aviso falso de que está de férias, para ver se assim recebe menos demanda? Ele atesta que é escolha estética - e preguiça. Gosto muito de um colega de outro setor, que tem a foto de uma santa em uma caixa dourada numa parede de pequenos azulejos vermelhos: parece que foi tirada em algum banheiro de parada de ônibus.

Quem alterou recentemente foi Mello. Na verdade foram duas trocas. Numa, colocou uma foto levemente adulterada por IA, que fez com que parecesse o George Clooney. Tenho a impressão de que rolou algum tipo de piadinha no Clube do Café, pois uma semana depois (hoje) ele resolveu trocar. E o fez sem avisar.

O dia corria bem. A dada altura, precisei mandar alguns arquivos para ele. Com o web Whatsapp aberto (sim, Meta e Alphabet sabem de tudo o que se passa aqui na empresa, se algum dia virem que ela vai bombar, chega uma proposta pouco antes), digito seu nome, arrasto os arquivos, mando e vou fazer o que mais tenho que fazer.

No meio do expediente, entro no web Whatsapp - uso um add-on no navegador para embaçar os nomes, então só vejo a foto e a última mensagem - e não reconheço uma das primeiras fotos que aparece, apenas identifico que a última mensagem é o arquivo que eu enviara para Mello. Pronto!, pensei (ainda que em termos um pouco menos publicáveis), mandei documentos sigilosos da empresa para o entregador do Mercado Livre! Nada, era apenas o colega em foto um pouco menos modificada, parecendo com qualquer outra pessoa que não ele - nem o George Clooney. Da minha baia, gritei para ele: 

Se não for botar uma foto que te identifique, se for pôr uma foto de uma pessoa genérica que você acha que se parece com você, ao menos avise!

Minha mulher achou que fiquei bem nela - justificou.

Sim, tão bem quanto eu na minha, que também contou com a aprovação do Brotinho.


24 de setembro de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definida

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Saldão de Bíblia e prateleira de vidro [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]


Muito lentamente, desde que Lula assumiu a presidência, o centro de São Paulo vem recuperando parte de seu comércio. Alguns trechos ainda estão desertos e mostram a profundidade da crise do governo anterior - e a inépcia do governo municipal. As ruas São Bento, entre a Direita e a Praça Ouvidor Pacheco e Silva (todo tapumado, utilizado como depósito para as reformas no centro, programadas para terminar nas eleições... do ano retrasado) e a José Bonifácio, por exemplo, seguem desertas de comércio. Na própria rua Direita, o comércio resistente parece sobreviver a dura custas - uma parte já fechou.

Numa dessas lojas vazias abriu uma das lojas mais aleatórias que vi até agora - opinião compartilhada por Macedo e Goreti. Sem nenhum letreiro externo, nenhuma reforma interna, simplesmente levantaram a porta, distribuíram uns baldes para recolher a água das goteiras e instalaram uma faixa com três linhas: “Loja de fábrica/Saldão de Bíblia e/Prateleira de vidro”.

Quando abriu, imaginei que seria um comércio breve - talvez o dono da sala que se meteu em negócios furados de diversos calibres, uma espécie de Ronaldinho Gaúcho das empresas - e aproveitou que estava sem ganhar o aluguel da sala para se desfazer daquilo que aceitou como pagamento de dívidas. Passaram um, dois, três meses - e a loja seguia lá, com seu saldão de Bíblia e prateleiras de vidro. Passou um ano, pouco mais, e ela seguia aberta. Da última vez que passamos por ela, havia diversificado seus produtos: calça jeans a preços de saque de caminhão tombado (um suco de frutas sai mais caro pela redondezas) e uma vasta coleção de quadros de leões - todos emoldurados em molduras bastante bregas.

Sempre fico a me perguntar o que é aquela loja, que surrealismo paulistano a explica. Desta vez explicitei a pergunta ao nobre colega Goreti que, de início, levantou a teoria de ser refugo das lojas da Conde de Sarzedas, famosa rua de vendas de artigos para igrejas evangélicas.

E as prateleiras de vidro?

Refugo de onde se expunham os sex toys na Love Nox.

Nunca tinha ouvido nessa Love Nox. Fui pesquisar na internet, talvez seja um bom lugar para levar o brotinho...

21 de setembro de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definida

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Jogo de War no escritório [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]


Consequências ainda de toda a rerereformulação da empresa, nosso setor ficou mais enxuto, para ganhar agilidade e dinamicidade, aproveitando da “competência e resiliência” de quem sobrou: “aqui só estão os melhores”, avisou o supervisor-geral-responsável-por-fazer-os-contatos-intersetoriais-mais-ágeis dia desses, conhecido oficialmente como Manager de Fluxos Intersetoriais. Melhores no que, ele esqueceu de explicar. E tenho alguma forte suspeita de que não são os melhores em serviço, visto que eu e a doutora Sabujinha seguimos firmes e fortes na empresa - ela inclusive em treinamento externo pago pela empresa, pronta para galgar posições aqui. Puxa-saquismo de resultados! Assumo que subestimei sua capacidade - capacho para qualquer porta.

Enfim, setor enxuto significa mais trabalho por pessoa, sobrecarregando quem já vinha sobrecarregado - Macedo que o diga -, e dando trabalho a quem vinha com esmero evitando esse tipo de fadiga - no caso, eu.

Essa enxutagem fez com que se abrissem espaços vazios na sala - como já comentei alhures, a sala da antiga subchefe virou nossa sala de reunião. Não mais. Decidiram que ali seria um bom espaço para o supervisor-geral-responsável-por-fazer-os-contatos-intersetoriais-mais-ágeis e sua equipe de seis pessoas - dentre os quais um seboso colega leitor de Olavo de Carvalho (ele está sempre com um livro do autoproclamado filósofo anal), cujo comportamento é muito cordato e as falas, discreta e constantemente preconceituosas.

Quem não ficou muito feliz foi nosso atual chefe, que viu o aquário da chefia ser dividido em dois, para que metade fique com o manager - cada um com seu ar-condicionado, claro, enquanto o resto da sala possui, toda ela, outro ar (desregulado). Pois é, achava que ia reinar sozinho, mas vai ter que dividir. Ele pode ver pelo lado positivo: se conseguir dividir também as preocupações, quem sabe a velocidade com que seus cabelos estão embranquecendo desde que assumiu o posto diminua também?

Nós, reles mortais CLT, acompanhamos esse verdadeiro jogo de War - como bem definiu Macedo - com apreensão. Quer dizer, eu não, pois já garantiram que vou continuar no meu cantinho aqui, então eu só assisto, mesmo. Surgiram dois focos de tensionamento. 

O primeiro foi o Clube do Café e Goreti. Com mais gente na sala, sobrou menos espaço livre, menos espaço para o armário onde estão os apetrechos do Clube do Café e a panela de arroz de Goreti. É certo que o Clube do Café está mais para clube da bolacha água e sal ultimamente: os colegas que costumam fazer o café toda manhã foram transferidos e os que sobraram tem preguiça; a pipoca também, passado o ânimo inicial (ou será o fim do clima de copa do mundo), só tem acontecido de vez em quando. Mas Goreti segue firme e forte com sua panela de arroz. Por enquanto o móvel segue no lugar, com um armário colado a ele, atrapalhando parte do corredor e dificultando o uso da tomada o referido Clube.

O segundo é mais grave e alcança um número maior de colegas. Nessa de diminuir nossos espaços para caber mais gente - otimização espacial para pessoas resilientes, afinal, para que uma baia em que cabem dois monitores para quem só usa um? -, quem está na mira é um frigobar que apareceu em algum passado remoto, ninguém sabe de onde, e aqui segue - apesar da briga de longa data do RH para levar para sua sala e, mais recentemente, dos funcionários transferidos levarem para o setor onde foram alocados. Goreti diz que já tem a solução, mas quer antes saber se vai ter mais gente a defender o móvel do Clube do Café, antes de soltar sua solução maravilhosa - que, por ora, ele só contou para mim e para Macedo, sob jura de confidencialidade:

É só usar o frigobar como suporte para a impressora.

Está aí, Goreti soube incorporar o novo espírito da empresa e está sugerindo adaptá-lo até mesmo ao frigobar!


15 de setembro de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

O colega de banheiro [por Sérgio S. ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]


Em maio comentei aqui da reorganização e do passaralho que ocorreram na empresa. Cortaram vários cargos médios (que eu chamo de subchefe), depois alguns chefes, fizeram mudanças de lugares, e tudo parecia pronto para jazer na ordem que o capital exige. Sejamos sinceros: eu e meus colegas fomos semi-amadores na nossa avaliação. Tem muita coisa que se pode errar na percepção, na avaliação e nas conclusões - agora, achar que um passaralho vai se satisfazer sem passar a faca pelo chão de fábrica é quase como acreditar que privatização de serviço público vai trazer melhorias à população.
Mesmo que nunca tivesse trabalhado antes, era questão de observação e análise: cada setor fez uma reformulação, juntaram tudo e apresentaram como um trabalho coerente, sendo que em momento algum pareceu haver uma coordenação geral das reformulações, pensando na empresa como um todo e não em diretrizes gerais e cada setor em particular.
Resultado: não tardou um mês e começaram a reformular os setores reformulados - inclusive com contratações. Mais um mês e aí, sim, com mais uma série de fusões e desdobramentos de setores, mudanças de nomes e mudanças de salas, veio o novo passaralho - cortando, inclusive, vários daqueles funcionários que haviam sido contratados havia um mês.
Nessa novela, nosso setor teve várias transferências, algumas contratações, algumas demissões. Uma das salas que ocupávamos está vazia, a sala do antigo subchefe virou sala de reunião, e vários rostos desconhecidos apareceram (para compensar os rostos desconhecidos que desapareceram). Não me queixo totalmente: fui jogado para um canto, tenho agora apenas a janela às minhas costas - à qual deixo aberta, escancarada, o dia inteiro - e, mais importante: sem doutora Sabujinha nas proximidades. Pelo visto, notaram que havia algum clima belicoso entre mim e ela, e nos puseram em extremidades distantes. Pior para Carnegie, o Arauto do Apocalipse, que está agora sentado à direita da colega mais simpática do setor (quiçá da empresa, ainda que eu ache que não, preciso ser justo: tem gente muito podre aqui dentro).
O mais curioso dessa reformulação é que parece que quem pensou a nova distribuição geográfica dos funcionários fez curso de cálculo de microondas no refeitório - conforme o meme consagrado.
Dia desses encontrei Fernandes, o colega de cima (agora apenas um andar acima!) no corredor do nosso andar. Conversamos normalmente, e no final lembrei de perguntar o que ele fazia ali:
- Vim usar o banheiro, que os de cima estavam todos ocupados, com fila.
Achei que poderia ser algo pontual - um café da manhã coletivo com algo passado e que afetou todo o setor. Não era o caso.
Dia desses fui cumprimentado esfuziantemente por um colega no banheiro. Achei estranho: todos aqui conhecem minha fama - mesmo os novatos, parecem que já são alertados que eu sou uma pessoa de poucas conversas. Como sou educado, cumprimentei, mas sem a mesma alegria que ele. Na saída, perguntei ao Macedo, que me esperava para irmos almoçar, quem era aquele que havia saído antes de mim:
- É colega novo?
- Não. Ele tem anos de casa.
- Mas como nunca o vi antes?
- Foi transferido pro setor que ficou no andar abaixo, e estão com poucos banheiros para a quantidade de funcionários alocados.
Ou seja, a empresa lançou a inovação do colega de banheiro. E eu, que já não faço parte do clube do café, para não ter que socializar, agora preciso evitar até mesmo o mictório!





17 de agosto de 2026



PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Paulo Freire no café [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Período de Copa do Mundo é quase tão tumultuado quanto o que antecede as férias. Na última quarta-feira o jogo do Brasil, por exemplo, nem era em horário comercial e causou o maior congestionamento de São Paulo dos últimos seis anos, com quase 1.700 quilômetros - mais parecia galera saindo para passar o natal na praia. Sem falar que isso é a distância para Cuiabá.

Aqui no escritório, correria também, para dar conta das demandas do dia antes de encerrar o expediente. Houve alguma mudança? Não! Saímos às 17h, como todos os dias, mas parece que tudo ficou corrido, atropelado - e acumulou muita coisa para os dias seguintes. Com a classificação do Brasil e o jogo útil de segunda, demandas foram antecipadas e o chicote comeu solto no resto da semana. 

Consequências: quarta não fomos tomar o habitual café da tarde. Na quinta, chegamos num horário fora do habitual. Antes de perguntar se iríamos querer o de sempre, a atendente nos admoestou:

Estão atrasados!

E a seguir perguntou por que havíamos faltado no dia anterior.

Demos risada, nos justificamos de brincadeira e fizemos nosso pedido e falamos do jogo.

Sexta-feira, novamente não fomos no horário habitual. Novamente fomos recriminados:

Virou esbórnia agora? Vocês saem a hora que querem para o café?

Eu e Macedo nos entreolhamos. Agora, além da chefe a nos fiscalizar os horários, tínhamos também a atendente do café a cumprir tal tarefa. E ela parecia séria. Na volta para o trabalho Macedo comentou, um tanto temeroso:

É, melhor não vacilarmos mais nos horários do café, nunca se sabe do que é capaz uma atendente irritada com você.

Achei por bem concordar. Lembrei das conversas que já tive com Brotinho, e citei Paulo Freire: quando a educação não é libertadora, o sonho de todo oprimido é se tornar um opressor. Se uma hora surgir oportunidade para algum tipo de fiscal interno, já temos alguém para indicar!



26 de junho de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

O zagueiro raçudo da São Bento [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Se alguém que lê estas mal traçadas linhas também acompanha grupos de fotos antigas de São Paulo no Facebook ou Instagram, sabe que para toda foto da década de 1970 para trás vai ter uma enxurrada de comentários cretinos.

 Uma foto de uma criança ou um jovem espremido num terno desconfortável numa tarde de calor de 1920: olha como se vestiam bem aquela época! Uma foto da República com o trânsito totalmente insano e pessoas tomando banho de chuva das rodas de um ônibus enquanto tentam não ser atropeladas, em 1970: destruíram a beleza do centro, hoje só tem cracudo, nóia e puta! Uma foto da praça Roosevelt ou do Largo do Paissandu dos anos 1950, servindo de estacionamento, sem calçada para pedestres: como era bom viver aquela época! Se ler todos os comentários, capaz de ter alguém - até mais de um alguém - falando que naquela época podia andar com celular na rua sem medo de ser roubado. 

Em resumo, o que esses comentários sempre dizem é que antigamente a cidade era linda, e estragaram ela - sem nunca conseguir achar o culpado por tal estrago (talvez não seja nunca: às vezes sobra para a população mais pobre, para a população de rua ou migrantes), até porque seria assumir que sempre votou em quem fez as piores escolhas: Minhocão, terceira pista da marginal, destruição da Lei Cidade Limpa...

Mas eis que nosso atual prefeito, com vistas a agradar a esses nostálgicos do que não vivenciaram, está trazendo a beleza e a maravilha do centro de antigamente. 

Já há um tempo que na região da Sé e do Anhangabaú basta ligar o pisca alerta e você está autorizado a circular de carro, pressionando os pedestres para saírem da frente. Ainda não começaram os bonitos atropelamentos de antigamente, mas com o aumento da circulação de bicicletas elétricas, esperamos ansiosos por isso.

A nova inovação está na rua São Bento: um lindo lamaçal, que é irrigado mesmo em dias de sol, fazendo com que o cidadão paulistano e o turista que está turistando por ali tenham uma experiência imersiva do que era São Paulo cem anos atrás, sem essa infraestrutura (ainda que incompleta) que torna São Paulo tão feia aos olhos das viúvas e viúvos da ditadura.

“Ah, mas é temporário, só até terminarem as obras no centro”, irá argumentar algum defensor do indefensável prefeito. Correto. O detalhe que toda essa revira estava prevista para terminar antes das eleições... de 2024. Pelo ritmo que vai, teremos sorte se a troca das calçadas for concluída para o próximo pleito municipal (quem sabe se o escolhido do prefeito estiver mal nas pesquisas eles prefiram acelerar ao invés de aditar as obras?).

Deixemos por cá os prolegômenos desta crônica e vamos à cena que a inspira - que cabe num twitter.

Eis que chega Goreti do almoço, enlameado dos pés à cabeça, literalmente, como um zagueiro raçudo dos tempos áureos do futebol, quando se tratava de um esporte e não de uma jogatina: tinha escorregado com gosto na rua São Bento, numa cena de humilhação pública - que, infelizmente, perdi. De volta ao escritório, foi conversar com o chefe, se não poderia encerrar o expediente mais cedo, dado seu estado lastimável que se encontrava.

Claro que não - a resposta da chefia foi lacônica e precisa, também como um zagueiro raçudo dos tempos áureos do futebol.

Inconformado, mas sem ter o que fazer, Goreti voltou à sua baia, se sentou na sua cadeira e voltou a trabalhar. Ao levantar para ir embora, Meirelles, que é mãe e já lidou com situações similares, deu a dica:

Amanhã traga uma toalha para se sentar, ou vai sujar sua roupa de novo, que esse barro vai demorar para sair.


24 de junho de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Ciro, o tirano da janela [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

A confluência de conflitos latentes (ou nem tanto) aqui na equipe tem gerado uma série de saias-justas que chegam a ser divertidas de acompanhar - e mesmo de ser protagonista. 

A guerra da janela persiste. Pacheco voltou com sua tática do gaveteiro. Eu ignorei, e abri minha folha, para ventilar um pouco a sala abafada. O dia não estava muito frio, mas reconheço que o vento estava gelado e insistente - quase incômodo, eu diria. Quase!

Não era o que sinalizavam Pacheco e Goleador, que começaram a forçar tosses, na esperança de que eu tomasse a iniciativa de desfazer o que fizera. Eu, com meus fones, fingia que não ouvia. 

Não tardou, Pacheco se levantou para seu social habitual, deixando Goleador no frio e na aporia: ou aceitava o vento, ou teria que fazer coro à Doutora Sabujinha pela janela fechada - dar razão à sua arqui-inimiga. Não me recordo se já comentei algures: as duas já nem se cumprimentam e quando conversam, é o extremamente necessário para o serviço - um pouco menos, na verdade (a chefia não sabe dessa parte). Não que isso seja uma novidade para Pacheco: também não somos dignos de seus cumprimentos Carnegie e eu - com Mello ela soube sair do seu lado antes de chegar a esse ponto. Por falar em ponto, mantenho aqui minha indignação já expressada: sua baia virou ponto de encontro de colegas aleatórios de outras equipes e do Mello, o que tem prejudicado assazmente meu rendimento antilaboral.

De volta ao conflito fenéstrico. Outros colegas estavam nas duas fileiras de baias ventiladas pela janela que ocupo, e ninguém mais tossia ou parecia incomodado - um deles, inclusive, se mantinha sem blusa de manga comprida. 

Pelo visto, por conta do jogo do Brasil, estava todo mundo adiantando trabalho, sem tempo para conversa de cerca-lourenço, e Sabujinha teve que logo voltar ao seu lugar, fingir que trabalhava e tossia. Tosse cá, tosse lá e vento frio frequente (e eu de fone e blusa). Nessa hora, Macedo, nosso homem da calma, perdeu a paciência e resolveu intervir: pediu, gentilmente e em ASMR, para que eu fechasse a janela, pois o vento estava frio e parecia que não era o único incomodado com isso. Aceitei o pedido do colega e assim o fiz. Depois, no café da tarde, me contou: Goleador foi agradecê-lo, cheia de mesuras, pela intervenção. 

Esse agradecimento fez surgir em mim uma pequena dúvida: será que, sem perceber, estou me tornando o novo vilão da equipe, Ciro, o tirano da janela? 



19 de junho de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

A Ilíada do Clube do Café [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Marx, parafraseando Hegel, costumava dizer que a história se repete, a primeira como tragédia, a segunda como farsa. Pois esta semana estive diante de um rapto homérico aqui no serviço, mais especificamente no setor onde me encontro alocado como capital circulante. O primeiro rapto homérico, creio ser de conhecimento geral, é de Helena por Páris, desencadeador da Guerra de Tróia. A situação no trabalho talvez seja um pouco menos dramática, ou melhor, trágica, sem rapto de mulheres - até porque os tempos são outros e apesar de eu suspeitar que muitos colegas teçam comentários e tenham visões machistas, no ambiente eles (e elas) mantêm um mínimo de compostura.

Tudo corria relativamente bem naquela quarta-feira fria de sol, quando um colega do Clube do Café decidiu fazer uma pipoca para acompanhar o jogo de Portugal, digo, uma reunião on-line à qual estávamos submetidos. Abriu o armário onde ficam os apetrechos do clube e a panela de arroz de Goreti, buscou, buscou, buscou e... nada da pipoqueira. Discretamente ele comentou na sala:

Alguém viu a pipoqueira do Clube do Café? Não estou encontrando ela no nosso almoxarifado. - sim, eles chamam o armário de almoxarifado do Clube do Café, para irritação do dono da supracitada panela de arroz. A balbúrdia rapidamente se alastrou no ambiente, até porque o gol de Portugal saiu logo no início - e nada da pipoca para acompanhar o evento. Entre aqueles integrantes do Clube que não estavam na reunião, começou uma investigação para descobrir onde poderia estar o referido eletrodoméstico: quem foi o último a usar, quando foi a última vez que comeram pipoca. Sem pistas, a discussão chegou ao grupo de whats - conforme relatava minha fonte, que mantenho o sigilo por direito de ofício -, para indignação de ainda mais integrantes.

Fomos roubados! - bradava uma das vozes mais exasperadas.

Já perguntaram na segurança? - interveio outro, mais prático.

E lá foi Mello, como membro mais proeminente do referido Clube - e não estando em reunião -, ver com os seguranças se haveria possibilidade de analisar as imagens do circuito interno. A sala da segurança fica no mesmo andar do RH - e não foi necessário ir até ela. O cheiro de pipoca impregnava o andar - era intervalo de jogo, deviam estar fazendo a leva para o segundo tempo. O que se seguiu daí são versões contraditórias.

Diz uma versão que Mello chegou pisando duro na sala e ao se deparar com a inefável prova do crime exigiu imediata devolução do item raptado - o que não foi atendido. Saiu prometendo vingança.

A segunda versão diz que ele foi sorrateiramente até o RH, se certificou de que se tratava mesmo da pipoqueira que ele havia escolhido para o Clube, e perguntou quem tinha autorizado a pegar o apetrecho. Para sua surpresa, quem havia autorizado não era ninguém mais, ninguém menos, que um dos membros fundadores do Clube do Café: Conan (sim, temos um colega chamado Conan, inclusive com porte físico para estrelar o filme do bárbaro). Conan que na reorganização pós-passaralho foi transferido de setor, e por isso ninguém mais lembrava dele. Detalhe: ele não foi para o RH - ou seja, mistérios pairando no ar. Enfim, autorização dada, devolução de pipoqueira negada, depois de uma altercação que chamou a atenção da sala ao lado do RH, a da segurança. Mello saiu de lá prometendo vingança.


A discussão foi para o grupo de whats:

Quem foi que autorizou à revelia que a pipoqueira fosse emprestada? - questionou Mello, como quem não soubesse do que havia se passado.

Conan vestiu a carapuça e foi direto:

Entrei com minha quota na pipoqueira, tenho direito a usá-la de vez em quando.

Os meandros da discussão deixo de lado, para não cansar a desocupada leitora, o desocupado leitor, com filigranas jurídico-escolástica-econômicas. O resultado é que a pipoqueira ainda não voltou. E a ameaça de vingança de Mello segue pairando no ar.


17 de junho de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.

terça-feira, 16 de junho de 2026

Férias steinbruchianas [por Sérgio S. ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Carnegie pistola é engraçado. E não precisa de muito para ele ficar assim: uma derrota do Palmeiras, uma vitória do Corinthians, falar o óbvio sobre futebol (ele tem posições bem heterodoxas sobre o esporte bretão em terra brasilis, em especial sobre Corinthians e Palmeiras, sendo que este seria o verdadeiro time popular), uma conversa simples com algum desafeto seu do trabalho, algum assunto político quente do momento. 
Minha forma mais habitual de deixá-lo pistola é dizer que ele é fã do Benjamin Steinbruch. Para avivar a memória da desocupada leitora, do desocupado leitor - ou mesmo trazer essa informação a quem não acompanha economia e política com muito afinco -, Steinbruch já defendeu que horário de almoço de trabalhador é um desperdício de tempo, que ele poderia comer um sanduíche com uma mão e seguir operando a máquina com a outra, levando 15 minutos para isso. Uma hora de almoço é praticamente um potlatch que esquerdista defende. Para quem não sabe, Potlatch é uma cerimônia tradicional de povos indígenas da América do Norte, de desperdício e/ou destruição de bens. O objetivo é ganhar prestígio, dividir riquezas e fortalecer alianças na comunidade. 
Enfim, eu falava de Carnegie, nosso arauto do apocalipse, que fica pistola sempre que eu digo que ele é steinbruchiano, porque ao invés de ir ao refeitório, ele prefere almoçar na sua baia, enquanto trabalha (só que não é um sanduíche e não são só quinze minutos, por enquanto). Ele diz que assim faz porque gosta de comer em horários em que o refeitório está muito cheio e, principalmente, porque tem algo urgente para terminar aquele dia, mas não é sempre assim - ainda que isso aconteça todo dia.
Eis que estamos eu, Meirelles, Macedo e Goreti conversando sobre assuntos aleatórios (impressionantemente, não é sobre a copa, nossa bancada é meio rebelde) antes de começar de verdade a trabalhar, quando chega o herói desta crônica. Olhamos para ele surpresos:
Você está de férias! - fala de pronto Meirelles, antes mesmo do bom dia.
Eu sei, mas... - tenta responder Carnegie.
Ótimo que você sabe, então, tchau. - responde correta e secamente Goreti.
É que eu tenho um assunto urgente e importante para resolver.
Se não for recolher suas coisas porque ganhou na loteria, não é importante, nem urgente.
Se ele ganhasse na loteria, nem precisaria vir buscar as coisas dele - me intrometo na discussão, dada a falha lógica no argumento do colega Goreti, que não posso deixar passar.
Tem razão - humildemente ele concorda -, então, vamos lá: se não veio recolher seus apetrechos porque conseguiu um emprego melhor, não é urgente nem importante.
Nada disso. Mas eu tinha que ter terminado um relatório semana passada e não deu tempo.
Isso é problema da chefia e quem ela designou para te substituir, no caso, o Sérgio S.
A lembrança desse pepino pra resolver me faz estremecer.
Prefiro eu mesmo fazer.
Vai ganhar uma estrelinha de bom funcionário.
Minha vontade é pôr panos quentes nessa história: deixa o colega vir trabalhar nas férias, se ele está entediado em casa. Mas me controlo, não posso dar bandeira tão grande assim da minha constante luta pelo ócio.
Carnegie nem responde: já está posicionado defronte ao computador, disposto a terminar o relatório o quanto antes, para começar a desfrutar - finalmente - suas férias. Meu maior receio é que depois do almoço steinbruchiano, suas férias steibruchianas, de quem segue trabalhando normalmente - com as duas mãos! - enquanto descansa, se tornem um exemplo para os superiores. Até lá, cruzo os braços e aproveito a proatividade alheia.

16 de junho de 2026

PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Você aí [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

A guerra da janela entre mim e a doutora Sabujinha continua. Sua estratégia de pôr o gaveteiro defronte a elas foi vetada pela CIPA - exatamente como atrapalharia no caso de um acidente, incêndio, não faço ideia. Impediria as pessoas de pularem? De qualquer modo, comemorei a decisão. A dinâmica tem parecido esquete de humor de segunda categoria: eu chego primeiro, abro as janelas; ela chega depois, fecha a folha dela; saio primeiro para o almoço, quando volto, a janela está toda fechada; abro-a; ela volta e fecha a folha dela, bufando. Todo dia a mesma história. Acho que só não fecha toda a janela depois que eu e Macedo saímos para nosso café da tarde porque ela fica muito pouco em seu lugar, e à tarde é o melhor horário para confraternizar.
Sofrer com a proximidade da doutora Sabujinha à minha baia não é nada original da minha parte. Descobri, ontem, que na verdade sua mudança de local não foi só porque ela quis, mas porque o clima entre ela e Bello começava a azedar - assim como azedou com todo mundo que se sentou próximo a ela. Com base nessa informação, reconheço que sua escolha do novo lugar tem uma lógica: se sentando ao lado de uma estagiária, esta não vai ter como reclamar da sênior: terá que suportar e, no máximo, pedir à chefia para trocar de lugar, depois de inventar alguma justificativa, por não poder dizer a verdade. Não fosse a janela, talvez pudesse trabalhar em paz, mas eis que tem eu e cá estamos em guerra.
Mas o assunto hoje nem era esse. Reunião de equipe, o novo chefe, aquele que doutora Sabujinha sabuja desde antes de assumir a chefia, decide que as demandas de Carnegie, que sai em férias semana que vem, não ficarão, como sói acontecer, entre Macedo e Goleador - que estão, é sabido de quem me acompanha aqui, sobrecarregados. Pois é, dá a impressão de que o chefe atual gosta de ser bajulado mas não cede tão fácil assim. Ademais, parece também que dá poucos ouvidos às fofocas de escritório, ao menos as que tratam da incompetência de certos funcionários. Para completar, tudo indica que acredita em dados objetivos e avaliou o que cada um da equipe realiza corriqueiramente. Conclusão do silogismo a partir das premissas acima expostas: fomos desmascarados em nossa disputa por quem menos trabalha. Resultado: divisão cinquenta-cinquenta entre mim e Pacheco das demandas de Carnegie, sem direito a escolha.
Até aqui, dias de luta, dias de fracasso. É parte do jogo, acontece. O grande momento, contudo, foi quando o chefe foi distribuir as tarefas: dividiu-as em dois blocos e então atribuiu cada um a um funcionário:
Sérgio S. fica com o bloco um e a... a... a... você aí, fica com o segundo bloco.
Sabujinha já se desmanchava diante do lapso do chefe, trazia uma expressão de choro, mas Carnegie, nosso arauto do apocalipse, não podia deixar de pontuar:
A Pacheco?
Isso! Pacheco fica com o bloco dois.
Em silêncio, nós, as vítimas de Pacheco, trocamos alguns olhares cúmplices, regozijando em júbilo respeitoso, ao ver o ego da colega sendo ferido assim involuntariamente. 


12 de junho de 2026

PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Integração [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Se o velho testamento tivesse sido escrito nos tempos atuais, no lugar de praga de gafanhotos, deus teria enviado como praga grupos de whatsapp. Que atire a primeira pedra quem não participa de uma dúzia deles: de trabalho, do condomínio, da família, da família sem o tio e o primo fascistas, dos colegas de faculdade, dos amigos de faculdade, dos ex-integrantes do Trezenhum. Humor Sem Graça. comentando as notícias do dia (sem qualquer humor), de moradores do bairro preocupados com a segurança, e por aí vai.

Uma das decisões das novas chefias, com vistas a melhorar a performance de todas as equipes e do setor como um todo, foi proibir assuntos alheios ao trabalho no grupo de whatsapp. Algum burburinho reclamando dessa decisão autoritária, mas todos acataram - até porque melhor não arriscar o emprego por conta de comunicação virtual sem importância. 

Eis que veio o aniversário de Bella (que não é de Isabela). Sempre sociável, ela marcou um almoço em comemoração, ao qual esteve presente pouco mais de metade do setor. Ela atribuiu o fiasco por não poder usar o grupo de whats para fazer o convite, ainda que tenha havido um mutirão junto com alguns colegas, organizado a partir do grupo de whats do Clube do Café, para que todos (ou praticamente todos) fossem convidados. Sim, ela acredita que eu, por exemplo, faltei por não saber, por falta de convite, e não por vontade autônoma e deliberada de evitar esse tipo de maçada.

Assim sendo, atendendo a pedidos e inspirado nos grupos “Mega da Virada” do setor, a chefia criou um grupo de whatsapp para aniversários - afinal a solução para melhorar a integração das pessoas é sempre criar um grupo novo. Chama-se “Grupo de Níver” e nele colocam os convites para essas comemorações, que se perdem em meio a dezenas de mensagens de feliz aniversário. Eu, não precisaria dizer, faço minha parte e não contribuo com essa poluição virtual.

Parece que as reclamações de falta de interação e integração dos setores se mantiveram, e a chefia decidiu criar um grupo geral. Chama-se “Assuntos gerais” mas poderia ser chamado de “Bom dia, boa tarde, boa noite”. Minto. Boa tarde são poucos - nessas horas estamos trabalhando -, mas os bons dias acontecem até aos finais de semana e algumas pessoas mandam boa noite quase todos os dias; de modo que dá para ter uma boa ideia dos hábitos de sono de alguns colegas. Um deles acorda todo dia às cinco - e paira uma forte suspeita aqui na bancada de que ele faz isso para treinar cedo. Goreti se indigna:

Que espécime de pessoa acorda às cinco da manhã pra treinar e faz jejum intermitente? 

Outro colega precisa regular melhor seu horário de dormir, pois não faz bem se deitar sempre próximo à uma para acordar às sete - isso talvez ajude a explicar o mau humor que geralmente ele irradia. Apesar que nosso emprego nesta fábrica de moer gente chamada capitalismo também deve ajudar nessa explicação. Mas creio que a principal causa para seu mau humor é que ele é um chato, mesmo.

Enfim, como deu para perceber, ninguém se animou em tratar de assuntos gerais no grupo com os chefes. Foi então que Bella resolveu criar um grupo sem os chefes. Chama-se “Integração”. E preciso admitir a perspicácia dos envolvidos nessa proliferação de grupos de whats do trabalho. Da chefia, por ver que isso era um campo minado, de Bella por perceber que os chefes eram um inibidor da integração do pessoal.

O grupo “Integração” desde o início esteve agitado. Alguns bons dias aparecem, convites para aniversários (para quem eventualmente perdeu em meio aos parabéns do grupo “Grupo de Níver”), até mesmo assuntos de trabalho - ninguém ainda resolveu fazer desabafo sobre, mas creio que esse dia está próximo. O foco, contudo, são assuntos aleatórios: onde comprar alguma coisa, indicações de produtos de beleza, recomendações de filmes (sempre com adjetivos como “sensacional” e “inesquecível” para blockbuster descartáveis) e assim ia, até chegar o assunto futebol. A derrota do São Paulo, na última rodada antes da copa, gerou uma discussão homérica, sempre em alto nível, com alguns argumentos batidos como “time grande não cai” e “51 é pinga” e alguns muito originais, como “o Corinthians está mal por causa do Lula, que afundou o time com o estádio pra Copa”, terminando em ofensas de vários calibres. Por falar em copa, Neymar ajudou a azedar um pouco mais o clima no grupo. Resultado: tem colegas que não estão mais se falando pessoalmente, mas seguem tretando no grupo - “Integração”, bom sempre lembrar o nome dele, cuja ironia não parece ter sido proposital.

Eu sigo em silêncio, acompanhando à distância, quando tenho paciência e estômago. E antevejo quando a copa acabar e chegar a hora de discussões eleitorais - Goreti, por exemplo, já avisou que pretende ser mais ativo. Enquanto isso, o grupo de trabalho dorme em berço esplêndido, sem que os chefes desconfiem de nada.


10 de junho de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.

terça-feira, 9 de junho de 2026

A Copa inútil [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Ao contrário do que a desocupada leitora, o desocupado leitor, poderia imaginar a partir do título, o móbile desta crônica não é a disputa entre mim e a Pacheco, vulgo doutora Sabujinha, sobre quem é o mais inútil do setor. É sobre a copa do mundo, mesmo.
Nossa bancada é um pouco dividida quando o assunto é futebol: uma parte mal sabe da existência do esporte, a outra é fanática e trata do assunto com uma seriedade digna dos grandes assuntos da atualidade, como a guerra contra o Irã ou a separação da Virgínia com o Vini Jr.
Foi com surpresa que presenciei Goreti falando da copa, ele sempre tão alheio a esses (e a outros) assuntos. Fala da copa não com ânimo ou interesse, mas com raiva:
É a copa mais inútil de todos os tempos! Primeira fase não tem um mísero joguinho durante o expediente! Me diga, copa assim para quê? 
Eu, claro, concordo não concordando inteiramente com o nobre colega e trago à baila a de 2002, sem jogos durante o expediente e ainda com foguetório atrapalhando o sono.
Ao menos naquela fomos campeões! - Ele retruca.
E isso muda algo? - respondo, ao mesmo tempo que lembro de minhas concepções da época, que foram enterradas com a copa do Japão e da Coreia.
Houve um tempo em que acreditei que o futebol influenciava na percepção de bem estar da população e, consequentemente, influenciava nas eleições presidenciais de outubro. Eu era jovem e a copa de 2002 foi uma prova de que minha sociologia de boteco se sustentava tanto quanto a do Luciano Huck - com a diferença que ele, com seus milhões, tem direito a plateia e repercussão das atrocidades que diz. E se eu me exponho aqui é só para mostrar, uma vez mais, meu compromisso com a verdade, doa a quem doer.
Minha resposta mexeu com os brios de parte dos colegas, indignados com meu desdém pelo penta, que passaram a defender tanto o evento quanto o escrete canarinho - por mais que as esperanças não sejam muito esperançosas.
De qualquer forma, não tenho como não concordar com Goreti: se avançarmos, ainda conseguimos dois ou três jogos para diminuir o expediente - muito pouco para toda a expectativa criada:
Tirando a copa de 2002, esta é a mais inútil desde que estou vivo e consciente da passagem do tempo - e, principalmente, enredado nas teias do capitalismo por intermédio da revenda de meu tempo de vida sob a forma de mão de obra assalariada. Digo isso da perspectiva de quem não se emociona com esse evento, hoje transformado em uma data puramente comercial, tal qual o natal. 
Minha bonita fala não foi compartilhada pelos aficionados da ludopedia bretã, em especial os seguidores do adolescente Ney (conforme os pitagóricos, já explicado em crônica anterior), que poderão ver seu ídolo e modelo de homem esquentando o banco de reservas, fazendo joinha para a câmera, chutando levemente a bola antes do jogo e, quem sabe, até mesmo ver o craque em ação, deitando e rolando pelos gramados da América do Norte. A discussão se instaura para além da bancada. É nessa hora que Goreti decide cutucar o vespeiro com vara curta:
Que o Brasil caia logo da primeira fase! Neymar é o ápice de toda uma geração do que só foi em potência - disse ele aristotelicamente. Neymar, Keirrison, Ganso, Foquinha, Pato: essa geração merece esse vexame para mostrar que futebol se faz no gramado, treinando e jogando sério. 
O fuzuê completo foi armado. Não era dia de jogo, mas o expediente foi praticamente suspenso na discussão que se seguiu.

09 de junho de 2026



PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Guerra de trincheiras [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Tenho sido injusto com Pacheco, a doutora Sabujinha, preciso reconhecer isso, humildemente. Bastou pouco mais de uma semana com ela sentada ao meu lado, ou melhor, às minhas costas, para ver que sabujinha é apenas um dos adjetivos que lhe cabe. Sabujinha-Mimada é mais apropriado, mas ainda assim não capta de maneira completa toda a holística que envolve esse ser tão... tão... tão cativante, vamos dizer assim. 

A disputa pela janela continua. Ela a quer fechada, pois o vento desarruma seu cabelo. Como estratégia, colocou seu gaveteiro defronte a ela (é uma janela de duas folhas). Chegamos a um meio termo: o gaveteiro fica só na folha próxima a ela, a outra, eu deixo aberta. E aí começa a briga do vento, porque ela diz que a minha parte joga o vento para ela, com consequente desarrumar de seu penteado tão bem preparado durante a manhã - mas ela não abre a folha dela. Hoje achou nova estratégia para tentar deixar a janela fechada: reclamar do sol. Baixou a persiana, sob a alegação que o astro-rei batia nela e atrapalhava a visão do monitor. Sua antecessora passou um ano ali e nunca viu problema, mas o alecrim dourado... enfim.

Enquanto isso, do outro lado da bancada, Mello, sem a companhia da Sabujinha (eles são próximos), passou a implicar com a mania de longa data da Goleador, de trocar os nomes dos colegas por querer - eu mesmo sou Ciro para ela. Não estou a fim de me indispor com ninguém por cousa pouca, mas se Mello tanto se irrita, poderia chamá-la de Silviano, do romance O Amanuense Belmiro; mas não sei se tem esse repertório todo - isso vale tanto para Mello, de conhecer o romance, quanto para Goleador, de ser uma intelectual com inclinações filosóficas e literárias (até onde sei, o único mala com essas aspirações aqui no setor sou eu, e o faço sorrateiramente).

Voltando às minhas questões com a doutora Sabujinha-Mimada, ela notou que estava passeando demais e resolveu ficar um pouco mais na sua baia. Resultado: os colegas começaram a vir até ela para longos colóquios sobre assuntos assaz desinteressantes - conversas de elevador com pompas de erudição (afinal, estão diante de uma doutora!). Além da maçada do evento, isso prejudica todo meu trabalho de fingir que trabalho: o risco de bisbilhotarem, ainda que de modo menos invasivo que de Pacheco, é alto, e isso pode comprometer toda minha estratégia, já levantada aqui em outros textos.

Em resumo: com o passaralho dos cabeças e a reformulação pela qual passamos, aquela tensão por receio de demissão diminuiu, mas o clima geral no setor não está lá muito bom. Entre o bafo da sala e os cabelos esvoaçantes da doutora Sabujinha, vejo minha produtividade de procrastinador profissional prejudicada pela erudição de almanaque que farfalha às minhas costas. 


São Paulo, 29 de maio de 2026


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quinta-feira, 28 de maio de 2026

Xadrez da procrastinação [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

O novo chefe assumiu querendo mostrar serviço. Uma das suas metas é diminuir o tempo ocioso. E uma das primeiras ações foi mudar o firewall do setor, bloqueando uma série de sites e aplicativos, não apenas no computador da empresa, como nos celulares, caso acessem a internet a partir do wi-fi. Nada de twitter, reddit, youtube, spotify. Instagram, em compensação, segue liberado - até alguém dedurar para a chefia, mas até agora ninguém teve essa brilhante ideia. Fica o questionamento existencial: no que o spotify atrapalha mais que o Instagram na eficiência do trabalho? 

É nessa lógica de melhorar a eficiência como um todo que mudaram a doutora Sabujinha de lugar. Pacheco (a doutora Sabujinha), que já tinha se aproximado do novo chefe quando notara suas movimentações internas, convenceu-a de que onde estava antes, em local de grande fluxo, acabava estimulando que pessoas parassem para conversar com ela, atrapalhando seu aproveitamento no serviço. Na real, ela queria era sair de perto de Carnegie, nosso arauto do apocalipse. Agora é ela quem circula. Na verdade, sempre circulou, mas agora é mais ainda - lembrem-se que ela é uma pessoa muito sociável, quando lhe convém. Não acho de todo ruim, pois quanto menos ficar no meu cangote, menos me irrito - mas só de lembrar que ela logo vai voltar, já estraga meu dia: já começamos a brigar por causa da janela: ela quer fechada, eu prefiro aberta, para o ar circular. E fica aqui outra reflexão existencial: por que cargas d’água quem não gosta de levar um ventinho faz questão de sentar junto à janela, mantendo aquele bafo no ambiente todo? Antes que perguntem, o espaço tem ar-condicionado, mas ele gela basicamente quem está na sua linha de tiro, deixando o resto da sala sem alteração.

Contudo, fico aqui a pensar se a doutora Sabujinha fez bem, ou deu um tiro no pé. Seguimos, eu e ela, disputando quem é o mais vagal de todo o setor. Eu, por ora, ganho com louvor. Não que eu trabalhe pouco, mas faço questão de entregar somente o que me pedem, me meto somente no que sou chamado, e demonstro ampla ignorância em tudo o que não tenho pleno conhecimento. Ela, por seu turno, reclama o tempo todo de estar sobrecarregada, chegando a atrasar tarefas simples (e não comprometedoras, pois ela sabe o que pode atrasar) para fingir que tem muitas demandas. Temos tido bons resultados, evidenciados nas férias dos colegas: dificilmente nos passam qualquer tarefa - eu por pretensa incompetência, ela por pretenso excesso de afazeres. Não que eu não fique com certo peso na consciência, pois quem recebe a bucha são Macedo e Goleador, justo os dois que mais trabalham na equipe - e chego mesmo a me oferecer para ajudá-los nessas demandas de férias, sempre em off, claro.

Como disse, Pacheco pode ter feito um movimento errado no seu xadrez da procrastinação (para usar um termo chique): ao ficar zanzando para lá e para cá, conversando sobre qualquer assunto que não seja relacionado ao trabalho, acaba chamando a atenção e pode levantar a suspeita de que suas demandas não são tão altas assim. Meu medo: se/quando posta contra parede, me denuncie como mais vagal que ela, e me faça trabalhar mais.

Depois de Goleador e Carnegie, parece que é minha vez de começar a me indispor com a colega - mas o problema é sempre os outros, pois ela, tão amiga de (quase) todo mundo, não pode ser uma pessoa ruim.


28 de maio de 2026

PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas 

quarta-feira, 27 de maio de 2026

O passaralho chegou! [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Chegou o tão anunciado passaralho! Isso faz uns dias, mas só agora consigo entender o que está acontecendo - mais ou menos - e trazer aqui para a desocupada leitora, o desocupado leitor que me acompanha. Justifico a demora: Macedo esteve de férias no meio desse imbróglio todo, e ele é minha fonte oficial, já que preciso manter minha pose de antissocial. Não que eu tenha algo contra meus colegas (salvo alguns), mas prefiro seguir sem ter nada contra, e para isso, nada melhor que evitar contato.

Doutora Sabujinha de olho no que Sérgio S. está fazendo no trabalho, enquanto este está mal humorado
O passaralho veio, mas foi muito diferente do que imaginávamos. Começaram pelo escalão do meio, os subchefes (que têm, ou melhor, tinham títulos mais pomposos, mas gosto de marcar que eram subchefes). A surpresa foi geral, pois eram duas das pessoas mais proativas, que vestiam a camisa da empresa e dispostas a sacrificar finais de semana para resolver pepinos que o chefe deixava passar por incompetência. 

Passada essa perplexidade inicial, veio o medo: limparam o meio-escalão, era hora dos buchas de canhão. Um mês e nada. No início do segundo mês, novo organograma dos setores, excluiu um, incorporou em outro, criou mais um. Agora vem a tesourada, imaginamos. E veio... no chefe. Sempre bem relacionado, não foi suficiente para superar sua improdutividade. 

Fora isso, uma série de rearranjos, mas ninguém demitido. Nada de cortes no quadro geral, para “melhorar a eficiência”, como os cabeças de planilha adoram fazer.

Na rádio-peão choveram teorias conspiratórias sobre o que teria acontecido. A mais aceita é que as demissões dos dois subchefes, que eram os braços direitos do chefe, eram para dar chance para este mostrar sua capacidade. Deram um mês de prazo. E ele atestou o que seus subordinados já sabiam.

Também vieram as fofocas quentes. O funcionário contratado não havia muito, com todos os louvores do RH, teria sido quem puxou o tapete dos braços direitos - e ganhou como prêmio a chefia do setor criado a partir da fusão de outros dois, no qual fomos alocados. 

Da minha parte, eu não gostava do chefe antigo, então não lamentei. Ainda não tive tempo para desgostar do atual, mas sei que é questão de ter um pouco de paciência. Ao menos ele é mais simpático com os subordinados - até agora.

Consequência da reformulação: dança geral das cadeiras, várias mudanças de baias. Praticamente só a do nosso setor permaneceu intacta. A baia que fica às minhas costas, não. E quem foi sentar logo atrás de mim? A doutora Sabujinha! Com todo seu carisma e sempre animada para conversas de cerca-lourenço, em se queixar da vida e ver o que os outros estão fazendo - prejudicando minha veia literária (se os textos começarem a rarear, já sabem). A nova queixa dela é que onde ela senta (onde ela quis sentar!), perto da janela, é frio. Ela poderia mudar? Poderia. Vai? Já avisou que não. Pior: ela confidenciou a Macedo que gostaria, mesmo, era de ficar no meu lugar. Sabendo do seu sabujismo, isso é uma clara ameaça.

A maioria dos colegas respira aliviado, acreditando que o passaralho passou. Eu, sigo na tensão e já passei o recado via o nobre colega: se forem me tirar do meu lugar, vai ter gritaria!


27 de maio de 2026

PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas 

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Fat Free [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça]

Há quatro meses Mello pediu permissão para usar um pequeno armário que estava largado em um canto - cuja única utilidade era guardar a panela de arroz de Goreti -, convenceu um punhado de colegas a fazerem uma vaquinha para comprar os insumos necessários - inclusive o capital fixo investido no projeto - e lançou o Clube do Café. 

A ideia não é de todo ruim, dada a qualidade do café servido na empresa e os preços cobrados em cafés simples aqui pelo centro. Também não é de todo boa, pois inibe a saída no meio da tarde (às vezes no meio da manhã também) para tomar um café que presta - o que nos permite ganhar vinte a quarenta minutos diários, como bem ensina o Manifesto Proletário, do Capirotinho.

Uma das coisas que mais me chamou a atenção e que traz a bioassinatura de Mello, famoso por ser alguém que gosta de caminhos tortuosos para processos simples, é que, ao invés de comprarem uma cafeteira, dessas que você põe a água num compartimento, o café em outro e o líquido preto pinga num jarro que permanece aquecido, compraram uma chaleira elétrica para esquentar a água, um coador para passar o café, uma leiteira para passá-lo e a garrafa térmica para guardá-lo. Um trabalho extra que não raro resulta em um extra de trabalho, para limpar quando o pinga borra no armário. Ainda assim, funciona.

Para angariar mais sócios, passaram a promover, uma vez a cada quinze dias, o dia do café gurmê, quando um grupo de pessoas se reúne em volta do armário para discutir as notas que aquele café traz. A estratégia foi bem sucedida. Tão bem que até Macedo aderiu ao clube, traindo parcialmente o clube da bancada antissocial. Sendo honesto com o nobre colega, mesmo fazendo parte do Clube do Café, segue a me acompanhando no café da tarde fora - num esbanjamento que meu salário não me permite. 

Assim, a comunidade cafeteira foi se formando: começaram a aparecer bolachas para acompanhar o café, e doces diferentes para acompanhar as bolachas - essa parte, até onde entendi, sem financiamento coletivo, na base da camaradagem, mesmo.

Justiça seja feita a Goreti e sua panela de arroz: foi a influência primeira desse tipo de excentricidade, que Mello soube tornar definitivamente numa experiência coletiva.

Hoje eu e Macedo voltamos do café da tarde e nos deparamos com um grupo de cinco marmanjos e uma marmanja em volta da mesa do Clube do Café, em calorosa conversa. 

Não ficou para beber o café gurmê hoje? - perguntei a Macedo.

Hoje não é dia de degustação - respondeu meu nobre colega.

Logo a algazarra diminuiu, até se fazer silêncio e apenas os poc poc poc ressoarem pela sala, junto ao cheiro característico que acompanha tal barulho. Quando os barulhos pararam, comemoram: tinham comprado uma pipoqueira elétrica, a ar quente! 

Fat free! - fez questão de ressaltar Mello, que explicou que a ideia veio semana passada, quando um cheiro de pipoca de microonda - dessas que fedem a manteiga rançosa, tipo de cinema - escapou do refeitório mais rápido que cheiro de peixe e invadiu nossa sala. E prometeu: semana que vem começa a trazer a manteiga para quem quiser misturar ao milho.

Goreti, que também não participa do Clube do Café, não falou nada. Mas imagino que, amargo do jeito que é, ao ver seu gesto de rebeldia anarquista-individualista se tornar um elemento de integração do pessoal e melhoria do desempenho, não ficou muito feliz.


21 de maio de 2026

PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas 

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Sexc, Sé e poliestireno expandido com meu sobrinho [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Fazia tempo que não deixavam eu passar um dia com meu sobrinho, em um programa só nosso. Não entendi bem essa resistência de meu irmão em deixá-lo comigo, uma vez que sempre busco formas de enriquecer os conhecimentos e o vocabulário do garoto, que cresce cada dia mais e que se já não completou doze anos, com certeza tem mais de seis - nunca dei muita importância para essa coisa de idade, acho que serve só para fazer a gente se sentir velho e ver o tempo que passou sem ter sido aproveitado. E acho isso desde meus quinze anos! Antes que me chamem de tiozão da meia-idade em crise de identidade e em revolta contra o tempo e a idade.

Ao deixá-lo em minha casa, meu irmão foi taxativo: nada de telas para o rapaz. Tranquilizei-o mostrando que havia comprado entradas para uma peça infantil no Sesc e que depois iríamos dar uma volta pelo centro - o que deixou meu irmão preocupado.

Qual é, não confia em mim? Alguma vez já perdi ele de vista?

Confesso que não senti muita confiança da parte dele, mas estava em cima da hora para o compromisso que tinham e não havia outra alternativa que não deixá-lo comigo.

Estávamos a caminho da unidade cujo espetáculo seria apresentado, e sentindo que a conversa não rendia muito, decidi usar o sotaque carioca para me referir ao local.

Você costuma ir ao Sexc? Perguntei.

Meu pai me leva de vez em quando.

E o que você mais gosta de fazer no Sexc?

Piscina foi a resposta dele. E nessa hora lembrei que essa realidade eu não possuo: não sendo comerciário, conheço o Sexc apenas da parte cultural.

E por que você está falando Sesc desse jeito estranho?

É mais goxtoso. Experimenta.

Assim fez - e gostou. Eu sabia! Diante de todas as restrições impostas à pobre criança pelos pais e pela escola Voldemort, qualquer leve sinal de desvio já traz um prazer. Notei bem isso quando assistimos a um desenho animado (para família) comendo salgadinho, refrigerante e chocolate: ele não sabia nem como se portar diante de tanta rebeldia.

Depois do Sexc, fomos passear pela Sé - ver a exposição no CCBB, que não era para criança, mas era uma das poucas coisas que os pais deixavam que eu fizesse com o garoto. Ele não se interessou muito, mas se comportou bem - como  sempre. No caminho, nos deparamos com bules e copos de café gigantes. Diante de um desses copos, ele questionou:

Tio, que porra é essa?

De onde ele aprendeu a dizer porra, eu não sei. Certamente, não foi comigo. Mas fiquei com medo de repetir a palavra para seus pais logo depois de nosso dia aprazível e eu ter que me explicar novamente ao meu irmão, sem ter como me defender de algo que não fiz. Enfim, expliquei que tinha acontecido a semana de festival do café do centro, por isso aquelas instalações: era uma forma de chamar a atenção para esse problema - o baixo consumo de café - e estimular o turismo local. Não expliquei como isso acontecia, porque eu mesmo não fazia ideia: quem toma café continuou tomando café, quem não toma café não mudou o hábito por causa de um festival sem sentido, e quem pensava em tomar um café diferente no festival desistiu diante dos preços praticados.

A explicação não foi convincente, até porque eu não havia pego o ponto de meu sobrinho:

Mas tio, isso é um copo descartável, de isopor. Eles estão estimulando produzir mais lixo?

Argumento irretocável, o do meu sobrinho. Não tinha como dizer que não era bem assim: era isso, mesmo! Estímulo à produção de lixo desnecessário! E pior: café em copo de isopor perde até parte da graça, quando comparado a uma xícara de verdade.

Sei que você não pode tomar café, por enquanto, mas guarde isso para você: beba sempre café em xícara. E faça questão de café bom!

Foi a lição de moral que consegui tirar desse momento com meu sobrinho. Para trazer um conhecimento a mais, expliquei que isopor era marca, o nome correto é poliestireno expandido. Demorou para ele conseguir decorar o nome, foi me perguntando várias vezes no correr do dia.

Quando seu pai chegou para buscá-lo, contou rapidamente do nosso dia e com a empolgação de um guarda-parque mirim explicou que a prefeitura estava estimulando o uso irresponsável de poliestireno expandido no café.

Ah, é? Veja só, que coisa! 

E a seguir olhou para mim, aquele olhar reprovador que ele sempre traz quando acha que fiz algo de errado - mesmo que seja a ampliação do vocabulário de meu sobrinho.

Servir café no copinho de isopor, expliquei. E tratei logo de esclarecer: não bebemos café nenhum, nem ele, nem eu.



PS: Ainda bem que ele não perguntou, porque eu entendi menos ainda o slogan da tal semana do café: “Entre. Sinta viva. O café.” O que é “sinta viva”? Entrar aonde? Na instalação? Enfim, questões profundas que, felizmente, meu sobrinho deixou passar.


20 de maio de 2026

PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Pequena Sociologia da Martelação Auditiva [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça]


Recentemente temos - eu e meu companheiro de almoço, o nobre colega Macedo - trombado pelas ruas do centro da cidade com um cantor munido de um microfone ligado a uma caixa de som de alta potência e baixa qualidade. Parece até que está a nos perseguir: o dia que estamos na República, lá está ele. Quando estamos no triângulo histórico, ele também está. A desocupada leitora, o desocupado leitor poderia dizer que somos nós a persegui-lo, já que somos nós quem estamos caminhando no horário de almoço, mas isso tiraria nosso protagonismo, de que o mundo gira ao nosso redor. Enfim.

Passamos por ele hoje: estava disputando a atenção com britadeiras e serras para concreto no Largo do Café - uma estratégia que merece uma discussão mais aprofundada no correr desta crônica. Eu, muito complacentemente, tentando dar uma colher de chá, comentei com o nobre colega Macedo que, apesar da caixa de som de má qualidade, ele não cantava tão mal assim. Foi quando ele soltou a voz no que é chamado de belting - e que Macedo chamou de agressão gratuita ao nervo auditivo - e mostrou que a caixa de som era o menor dos problemas: ele canta é muito mal, mesmo. 

Mas isso não é o pior. No repertório cantado pelo rapaz sempre bem vestido, apenas músicas de louvor. Não se trata de um cantor de rua (se for, está queimando o filme da categoria, porque pelo centro tem vários que cantam muito bem, fazem versões que mereciam estar no palco). Daí nossa dedução lógica: o pastor, as pessoas da sua igreja, querendo se mostrar acolhedoras e estimuladoras das potencialidades do rapaz - e adeptas da teologia do domínio -, devem ter dito que ele canta bem e poderia usar esse dom para espalhar a palavra. Pessoas que devem entender de música tanto quanto ele. Talvez, deveras, ele seja quem melhor cante na igreja - entretanto isso não corresponde a cantar bem, muito pelo contrário. 

E o pastor para proteger a ovelha? Nada! Pelo contrário: deve ter visto no infeliz mais um cordeiro a cerrar fileiras na guerra santa, um soldado do evangelismo para perturbar as pessoas com pregação de segunda categoria (nesse aspecto, prefiro os esmurradores de Bíblia, que ao menos tem personalidade [https://bit.ly/cG240910]). Aí fica ele pelo centro de São Paulo, incomodando as pessoas e passando vergonha, ignorado pelas pessoas sensatas, destratando as pessoas de ouvidos sensíveis, como este escriba. Cante na igreja, nos cultos de domingo, meu bom cristão inseguro (Goreti sempre diz: quem muito prega, pouco crê), e use o seu tempo livre para algo útil, valoroso - estudar a Bíblia, que seja; quem sabe não aprende algo sobre Cristo.

Agora sobre suas estratégias de divulgação da palavra que ele crê divina. De início, quis acreditar que a caixa de má qualidade fosse por questão financeira, mas logo ficou claro que é falta de ouvido, mesmo; é desprezo pela música e muita vontade de atingir o coração do maior número de pessoas, à força, na base da martelada auditiva. Nessa linha tem também o rapper cristão da bicicleta, que parece estar cantando os lances num leilão de gado nelore. Já cantar junto a britadeiras e serras de concreto mostra toda a sensibilidade artística do artista, seu senso de pertinência - e uma conversa entre pares.

Louvor estourando na caixa, britadeira arrebentando a calçada e serra de concreto serrando o concreto - passamos por essa harmoniosa sinfonia do inferno em silêncio que até parecia obsequioso, mas era só impossibilidade de seguir com a conversa. E pior que nem vai adiantar trocar de rota amanhã: muito provavelmente vamos trombar com ele de novo.




10 de abril de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas