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quinta-feira, 28 de maio de 2026

Xadrez da procrastinação [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

O novo chefe assumiu querendo mostrar serviço. Uma das suas metas é diminuir o tempo ocioso. E uma das primeiras ações foi mudar o firewall do setor, bloqueando uma série de sites e aplicativos, não apenas no computador da empresa, como nos celulares, caso acessem a internet a partir do wi-fi. Nada de twitter, reddit, youtube, spotify. Instagram, em compensação, segue liberado - até alguém dedurar para a chefia, mas até agora ninguém teve essa brilhante ideia. Fica o questionamento existencial: no que o spotify atrapalha mais que o Instagram na eficiência do trabalho? 

É nessa lógica de melhorar a eficiência como um todo que mudaram a doutora Sabujinha de lugar. Pacheco (a doutora Sabujinha), que já tinha se aproximado do novo chefe quando notara suas movimentações internas, convenceu-a de que onde estava antes, em local de grande fluxo, acabava estimulando que pessoas parassem para conversar com ela, atrapalhando seu aproveitamento no serviço. Na real, ela queria era sair de perto de Carnegie, nosso arauto do apocalipse. Agora é ela quem circula. Na verdade, sempre circulou, mas agora é mais ainda - lembrem-se que ela é uma pessoa muito sociável, quando lhe convém. Não acho de todo ruim, pois quanto menos ficar no meu cangote, menos me irrito - mas só de lembrar que ela logo vai voltar, já estraga meu dia: já começamos a brigar por causa da janela: ela quer fechada, eu prefiro aberta, para o ar circular. E fica aqui outra reflexão existencial: por que cargas d’água quem não gosta de levar um ventinho faz questão de sentar junto à janela, mantendo aquele bafo no ambiente todo? Antes que perguntem, o espaço tem ar-condicionado, mas ele gela basicamente quem está na sua linha de tiro, deixando o resto da sala sem alteração.

Contudo, fico aqui a pensar se a doutora Sabujinha fez bem, ou deu um tiro no pé. Seguimos, eu e ela, disputando quem é o mais vagal de todo o setor. Eu, por ora, ganho com louvor. Não que eu trabalhe pouco, mas faço questão de entregar somente o que me pedem, me meto somente no que sou chamado, e demonstro ampla ignorância em tudo o que não tenho pleno conhecimento. Ela, por seu turno, reclama o tempo todo de estar sobrecarregada, chegando a atrasar tarefas simples (e não comprometedoras, pois ela sabe o que pode atrasar) para fingir que tem muitas demandas. Temos tido bons resultados, evidenciados nas férias dos colegas: dificilmente nos passam qualquer tarefa - eu por pretensa incompetência, ela por pretenso excesso de afazeres. Não que eu não fique com certo peso na consciência, pois quem recebe a bucha são Macedo e Goleador, justo os dois que mais trabalham na equipe - e chego mesmo a me oferecer para ajudá-los nessas demandas de férias, sempre em off, claro.

Como disse, Pacheco pode ter feito um movimento errado no seu xadrez da procrastinação (para usar um termo chique): ao ficar zanzando para lá e para cá, conversando sobre qualquer assunto que não seja relacionado ao trabalho, acaba chamando a atenção e pode levantar a suspeita de que suas demandas não são tão altas assim. Meu medo: se/quando posta contra parede, me denuncie como mais vagal que ela, e me faça trabalhar mais.

Depois de Goleador e Carnegie, parece que é minha vez de começar a me indispor com a colega - mas o problema é sempre os outros, pois ela, tão amiga de (quase) todo mundo, não pode ser uma pessoa ruim.


28 de maio de 2026

PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas 

quarta-feira, 27 de maio de 2026

O passaralho chegou! [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Chegou o tão anunciado passaralho! Isso faz uns dias, mas só agora consigo entender o que está acontecendo - mais ou menos - e trazer aqui para a desocupada leitora, o desocupado leitor que me acompanha. Justifico a demora: Macedo esteve de férias no meio desse imbróglio todo, e ele é minha fonte oficial, já que preciso manter minha pose de antissocial. Não que eu tenha algo contra meus colegas (salvo alguns), mas prefiro seguir sem ter nada contra, e para isso, nada melhor que evitar contato.

Doutora Sabujinha de olho no que Sérgio S. está fazendo no trabalho, enquanto este está mal humorado
O passaralho veio, mas foi muito diferente do que imaginávamos. Começaram pelo escalão do meio, os subchefes (que têm, ou melhor, tinham títulos mais pomposos, mas gosto de marcar que eram subchefes). A surpresa foi geral, pois eram duas das pessoas mais proativas, que vestiam a camisa da empresa e dispostas a sacrificar finais de semana para resolver pepinos que o chefe deixava passar por incompetência. 

Passada essa perplexidade inicial, veio o medo: limparam o meio-escalão, era hora dos buchas de canhão. Um mês e nada. No início do segundo mês, novo organograma dos setores, excluiu um, incorporou em outro, criou mais um. Agora vem a tesourada, imaginamos. E veio... no chefe. Sempre bem relacionado, não foi suficiente para superar sua improdutividade. 

Fora isso, uma série de rearranjos, mas ninguém demitido. Nada de cortes no quadro geral, para “melhorar a eficiência”, como os cabeças de planilha adoram fazer.

Na rádio-peão choveram teorias conspiratórias sobre o que teria acontecido. A mais aceita é que as demissões dos dois subchefes, que eram os braços direitos do chefe, eram para dar chance para este mostrar sua capacidade. Deram um mês de prazo. E ele atestou o que seus subordinados já sabiam.

Também vieram as fofocas quentes. O funcionário contratado não havia muito, com todos os louvores do RH, teria sido quem puxou o tapete dos braços direitos - e ganhou como prêmio a chefia do setor criado a partir da fusão de outros dois, no qual fomos alocados. 

Da minha parte, eu não gostava do chefe antigo, então não lamentei. Ainda não tive tempo para desgostar do atual, mas sei que é questão de ter um pouco de paciência. Ao menos ele é mais simpático com os subordinados - até agora.

Consequência da reformulação: dança geral das cadeiras, várias mudanças de baias. Praticamente só a do nosso setor permaneceu intacta. A baia que fica às minhas costas, não. E quem foi sentar logo atrás de mim? A doutora Sabujinha! Com todo seu carisma e sempre animada para conversas de cerca-lourenço, em se queixar da vida e ver o que os outros estão fazendo - prejudicando minha veia literária (se os textos começarem a rarear, já sabem). A nova queixa dela é que onde ela senta (onde ela quis sentar!), perto da janela, é frio. Ela poderia mudar? Poderia. Vai? Já avisou que não. Pior: ela confidenciou a Macedo que gostaria, mesmo, era de ficar no meu lugar. Sabendo do seu sabujismo, isso é uma clara ameaça.

A maioria dos colegas respira aliviado, acreditando que o passaralho passou. Eu, sigo na tensão e já passei o recado via o nobre colega: se forem me tirar do meu lugar, vai ter gritaria!


27 de maio de 2026

PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas 

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Fat Free [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça]

Há quatro meses Mello pediu permissão para usar um pequeno armário que estava largado em um canto - cuja única utilidade era guardar a panela de arroz de Goreti -, convenceu um punhado de colegas a fazerem uma vaquinha para comprar os insumos necessários - inclusive o capital fixo investido no projeto - e lançou o Clube do Café. 

A ideia não é de todo ruim, dada a qualidade do café servido na empresa e os preços cobrados em cafés simples aqui pelo centro. Também não é de todo boa, pois inibe a saída no meio da tarde (às vezes no meio da manhã também) para tomar um café que presta - o que nos permite ganhar vinte a quarenta minutos diários, como bem ensina o Manifesto Proletário, do Capirotinho.

Uma das coisas que mais me chamou a atenção e que traz a bioassinatura de Mello, famoso por ser alguém que gosta de caminhos tortuosos para processos simples, é que, ao invés de comprarem uma cafeteira, dessas que você põe a água num compartimento, o café em outro e o líquido preto pinga num jarro que permanece aquecido, compraram uma chaleira elétrica para esquentar a água, um coador para passar o café, uma leiteira para passá-lo e a garrafa térmica para guardá-lo. Um trabalho extra que não raro resulta em um extra de trabalho, para limpar quando o pinga borra no armário. Ainda assim, funciona.

Para angariar mais sócios, passaram a promover, uma vez a cada quinze dias, o dia do café gurmê, quando um grupo de pessoas se reúne em volta do armário para discutir as notas que aquele café traz. A estratégia foi bem sucedida. Tão bem que até Macedo aderiu ao clube, traindo parcialmente o clube da bancada antissocial. Sendo honesto com o nobre colega, mesmo fazendo parte do Clube do Café, segue a me acompanhando no café da tarde fora - num esbanjamento que meu salário não me permite. 

Assim, a comunidade cafeteira foi se formando: começaram a aparecer bolachas para acompanhar o café, e doces diferentes para acompanhar as bolachas - essa parte, até onde entendi, sem financiamento coletivo, na base da camaradagem, mesmo.

Justiça seja feita a Goreti e sua panela de arroz: foi a influência primeira desse tipo de excentricidade, que Mello soube tornar definitivamente numa experiência coletiva.

Hoje eu e Macedo voltamos do café da tarde e nos deparamos com um grupo de cinco marmanjos e uma marmanja em volta da mesa do Clube do Café, em calorosa conversa. 

Não ficou para beber o café gurmê hoje? - perguntei a Macedo.

Hoje não é dia de degustação - respondeu meu nobre colega.

Logo a algazarra diminuiu, até se fazer silêncio e apenas os poc poc poc ressoarem pela sala, junto ao cheiro característico que acompanha tal barulho. Quando os barulhos pararam, comemoram: tinham comprado uma pipoqueira elétrica, a ar quente! 

Fat free! - fez questão de ressaltar Mello, que explicou que a ideia veio semana passada, quando um cheiro de pipoca de microonda - dessas que fedem a manteiga rançosa, tipo de cinema - escapou do refeitório mais rápido que cheiro de peixe e invadiu nossa sala. E prometeu: semana que vem começa a trazer a manteiga para quem quiser misturar ao milho.

Goreti, que também não participa do Clube do Café, não falou nada. Mas imagino que, amargo do jeito que é, ao ver seu gesto de rebeldia anarquista-individualista se tornar um elemento de integração do pessoal e melhoria do desempenho, não ficou muito feliz.


21 de maio de 2026

PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas 

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Sexc, Sé e poliestireno expandido com meu sobrinho [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Fazia tempo que não deixavam eu passar um dia com meu sobrinho, em um programa só nosso. Não entendi bem essa resistência de meu irmão em deixá-lo comigo, uma vez que sempre busco formas de enriquecer os conhecimentos e o vocabulário do garoto, que cresce cada dia mais e que se já não completou doze anos, com certeza tem mais de seis - nunca dei muita importância para essa coisa de idade, acho que serve só para fazer a gente se sentir velho e ver o tempo que passou sem ter sido aproveitado. E acho isso desde meus quinze anos! Antes que me chamem de tiozão da meia-idade em crise de identidade e em revolta contra o tempo e a idade.

Ao deixá-lo em minha casa, meu irmão foi taxativo: nada de telas para o rapaz. Tranquilizei-o mostrando que havia comprado entradas para uma peça infantil no Sesc e que depois iríamos dar uma volta pelo centro - o que deixou meu irmão preocupado.

Qual é, não confia em mim? Alguma vez já perdi ele de vista?

Confesso que não senti muita confiança da parte dele, mas estava em cima da hora para o compromisso que tinham e não havia outra alternativa que não deixá-lo comigo.

Estávamos a caminho da unidade cujo espetáculo seria apresentado, e sentindo que a conversa não rendia muito, decidi usar o sotaque carioca para me referir ao local.

Você costuma ir ao Sexc? Perguntei.

Meu pai me leva de vez em quando.

E o que você mais gosta de fazer no Sexc?

Piscina foi a resposta dele. E nessa hora lembrei que essa realidade eu não possuo: não sendo comerciário, conheço o Sexc apenas da parte cultural.

E por que você está falando Sesc desse jeito estranho?

É mais goxtoso. Experimenta.

Assim fez - e gostou. Eu sabia! Diante de todas as restrições impostas à pobre criança pelos pais e pela escola Voldemort, qualquer leve sinal de desvio já traz um prazer. Notei bem isso quando assistimos a um desenho animado (para família) comendo salgadinho, refrigerante e chocolate: ele não sabia nem como se portar diante de tanta rebeldia.

Depois do Sexc, fomos passear pela Sé - ver a exposição no CCBB, que não era para criança, mas era uma das poucas coisas que os pais deixavam que eu fizesse com o garoto. Ele não se interessou muito, mas se comportou bem - como  sempre. No caminho, nos deparamos com bules e copos de café gigantes. Diante de um desses copos, ele questionou:

Tio, que porra é essa?

De onde ele aprendeu a dizer porra, eu não sei. Certamente, não foi comigo. Mas fiquei com medo de repetir a palavra para seus pais logo depois de nosso dia aprazível e eu ter que me explicar novamente ao meu irmão, sem ter como me defender de algo que não fiz. Enfim, expliquei que tinha acontecido a semana de festival do café do centro, por isso aquelas instalações: era uma forma de chamar a atenção para esse problema - o baixo consumo de café - e estimular o turismo local. Não expliquei como isso acontecia, porque eu mesmo não fazia ideia: quem toma café continuou tomando café, quem não toma café não mudou o hábito por causa de um festival sem sentido, e quem pensava em tomar um café diferente no festival desistiu diante dos preços praticados.

A explicação não foi convincente, até porque eu não havia pego o ponto de meu sobrinho:

Mas tio, isso é um copo descartável, de isopor. Eles estão estimulando produzir mais lixo?

Argumento irretocável, o do meu sobrinho. Não tinha como dizer que não era bem assim: era isso, mesmo! Estímulo à produção de lixo desnecessário! E pior: café em copo de isopor perde até parte da graça, quando comparado a uma xícara de verdade.

Sei que você não pode tomar café, por enquanto, mas guarde isso para você: beba sempre café em xícara. E faça questão de café bom!

Foi a lição de moral que consegui tirar desse momento com meu sobrinho. Para trazer um conhecimento a mais, expliquei que isopor era marca, o nome correto é poliestireno expandido. Demorou para ele conseguir decorar o nome, foi me perguntando várias vezes no correr do dia.

Quando seu pai chegou para buscá-lo, contou rapidamente do nosso dia e com a empolgação de um guarda-parque mirim explicou que a prefeitura estava estimulando o uso irresponsável de poliestireno expandido no café.

Ah, é? Veja só, que coisa! 

E a seguir olhou para mim, aquele olhar reprovador que ele sempre traz quando acha que fiz algo de errado - mesmo que seja a ampliação do vocabulário de meu sobrinho.

Servir café no copinho de isopor, expliquei. E tratei logo de esclarecer: não bebemos café nenhum, nem ele, nem eu.



PS: Ainda bem que ele não perguntou, porque eu entendi menos ainda o slogan da tal semana do café: “Entre. Sinta viva. O café.” O que é “sinta viva”? Entrar aonde? Na instalação? Enfim, questões profundas que, felizmente, meu sobrinho deixou passar.


20 de maio de 2026

PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Pequena Sociologia da Martelação Auditiva [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça]


Recentemente temos - eu e meu companheiro de almoço, o nobre colega Macedo - trombado pelas ruas do centro da cidade com um cantor munido de um microfone ligado a uma caixa de som de alta potência e baixa qualidade. Parece até que está a nos perseguir: o dia que estamos na República, lá está ele. Quando estamos no triângulo histórico, ele também está. A desocupada leitora, o desocupado leitor poderia dizer que somos nós a persegui-lo, já que somos nós quem estamos caminhando no horário de almoço, mas isso tiraria nosso protagonismo, de que o mundo gira ao nosso redor. Enfim.

Passamos por ele hoje: estava disputando a atenção com britadeiras e serras para concreto no Largo do Café - uma estratégia que merece uma discussão mais aprofundada no correr desta crônica. Eu, muito complacentemente, tentando dar uma colher de chá, comentei com o nobre colega Macedo que, apesar da caixa de som de má qualidade, ele não cantava tão mal assim. Foi quando ele soltou a voz no que é chamado de belting - e que Macedo chamou de agressão gratuita ao nervo auditivo - e mostrou que a caixa de som era o menor dos problemas: ele canta é muito mal, mesmo. 

Mas isso não é o pior. No repertório cantado pelo rapaz sempre bem vestido, apenas músicas de louvor. Não se trata de um cantor de rua (se for, está queimando o filme da categoria, porque pelo centro tem vários que cantam muito bem, fazem versões que mereciam estar no palco). Daí nossa dedução lógica: o pastor, as pessoas da sua igreja, querendo se mostrar acolhedoras e estimuladoras das potencialidades do rapaz - e adeptas da teologia do domínio -, devem ter dito que ele canta bem e poderia usar esse dom para espalhar a palavra. Pessoas que devem entender de música tanto quanto ele. Talvez, deveras, ele seja quem melhor cante na igreja - entretanto isso não corresponde a cantar bem, muito pelo contrário. 

E o pastor para proteger a ovelha? Nada! Pelo contrário: deve ter visto no infeliz mais um cordeiro a cerrar fileiras na guerra santa, um soldado do evangelismo para perturbar as pessoas com pregação de segunda categoria (nesse aspecto, prefiro os esmurradores de Bíblia, que ao menos tem personalidade [https://bit.ly/cG240910]). Aí fica ele pelo centro de São Paulo, incomodando as pessoas e passando vergonha, ignorado pelas pessoas sensatas, destratando as pessoas de ouvidos sensíveis, como este escriba. Cante na igreja, nos cultos de domingo, meu bom cristão inseguro (Goreti sempre diz: quem muito prega, pouco crê), e use o seu tempo livre para algo útil, valoroso - estudar a Bíblia, que seja; quem sabe não aprende algo sobre Cristo.

Agora sobre suas estratégias de divulgação da palavra que ele crê divina. De início, quis acreditar que a caixa de má qualidade fosse por questão financeira, mas logo ficou claro que é falta de ouvido, mesmo; é desprezo pela música e muita vontade de atingir o coração do maior número de pessoas, à força, na base da martelada auditiva. Nessa linha tem também o rapper cristão da bicicleta, que parece estar cantando os lances num leilão de gado nelore. Já cantar junto a britadeiras e serras de concreto mostra toda a sensibilidade artística do artista, seu senso de pertinência - e uma conversa entre pares.

Louvor estourando na caixa, britadeira arrebentando a calçada e serra de concreto serrando o concreto - passamos por essa harmoniosa sinfonia do inferno em silêncio que até parecia obsequioso, mas era só impossibilidade de seguir com a conversa. E pior que nem vai adiantar trocar de rota amanhã: muito provavelmente vamos trombar com ele de novo.




10 de abril de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas


sábado, 14 de março de 2026

Carnaval Medieval [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Quem me mandou essa dica para o final de semana foi o nobre colega Macedo. Como ele chegou a esse evento, preferi não perguntar, para manter a amizade, sem julgamentos negativos desnecessários. Pelo mesmo motivo, achei por bem não perguntar se ele iria, em companhia de Maceda e Macedinho. Tampouco irei perguntar como foi, segunda-feira.

Feito essa introdução, vamos a um momento de sociologia de boteco. Tema: carnaval. Basicamente, existem três tipos de relação com essa festa, por parte da classe proletária: amam, aprovam por conta do feriado, e se ressentem porque gostariam de ir mas algum motivo (religioso, distinção social, etc) os impede. E existe essa quarta categoria, que é a galera do mundo da lua, digo, Hogwarts - e que trataremos neste texto.

Trata-se de um pessoal que diz que gosta de história, mas odeia estudar e nega tudo o que pode contradizer sua visão idealizada de uma época em que a Europa vivia sua pureza - tal qual a extrema-direita hoje gostaria de voltar (este é um comentário aleatório, insight que me veio e eu não quis perder). Estou falando do povo que idolatra a época medieval europeia. 

Precariedade, escassez, medo permanente, ignorância, sujeira, conhecimento de mundo extremamente limitado, mulheres submissas: tudo isso são efeitos colaterais aceitáveis diante de todo o misticismo católico milenarista, crenças nórdicas diversas, combates por honra e guerras santas contra os infieis maometanos. Quem não gostaria de morar numa época dessas (nem vamos falar da falta de eletricidade e de internet)?

O que isso tem a ver com o carnaval? Pois aí vem a nova categoria de relação com o carnaval. O evento que Macedo me indicou é o carnaval medieval. O que seria bem interessante, se se tratasse mesmo de uma tentativa de reviver essa festa religiosa (rito de inversão, diriam os antropólogos), dessa época de forte hierarquia social. Mas, quê! O que a festa promete é um clichê idealizado, com toda uma atmosfera medieval (aham), música medieval (só não digo “quero ver!”, porque não quero, mas desconfio que não são cantigas trovadorescas e canto gregoriano. Se tiver concerto do Jordi Savall, até poderia ir), dança medieval (solta a roda e vira, solta a roda e vem...), combates medievais (se não rolar um braço cortado, ao menos, é fake), hidromel artesanal (só espero que não sigam as normas de higiene medievais) e, claro, venda de produtos numa “feira medieval” (escambo?).

Quem ler este texto pode até fazer uma sociologia de boteco com relação a carnaval medieval e dar quatro formas de se relacionar com ele: os que nem sabem da sua existência (meu caso, por felizes nove anos), os que gostam e vão, os que não se incomodam, e os que gastam energia para falar mal de um evento aleatório bobo. Deixo claro: não me enquadro nessa quarta categoria: por mim, para melhorar a ambientação medieval/nórdica/feudal, até torço para que no fim de semana se mantenha esse tempo frio e chuvoso, tão propício a lamaçais - como na idade média.



Capítulo II

Não choveu, pelo contrário, fez sol e um calor tropical. Brotinho achou esse “carnaval” legal, ainda que não se parecesse com um. Eu me recuso a comentar.



14 de março de 2026

PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

O ciclo de vida de um sabujo [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Vida de doutor ou doutora sabujinha não é tão simples assim, reconheço. O deslumbre inicial dos chefes uma hora começa a virar desconfiança, a cobrança por resultados passa a se intensificar, e todo aquele trabalho para fazer com que os números atendam ao que superior queria que fosse verdade vai se desfazendo diante da realidade, que insiste em contradizer os desejos do chefe e as adequações feitas pelo sabujo ou sabuja de turno.

Aqui na empresa teve o doutor Sabujinho que de golden boy, elogiado no meio do expediente em voz alta para todo o setor ouvir, logo se tornou criticado abertamente na reuniões diante da sua inépcia, até começar um processo de assédio, mesmo - quando ele conseguiu uma boa vaga em empresa concorrente, certamente usando das suas habilidades fagúndicas (para usar a personagem da Laerte).

Rivarola, o doutor Sabujinho anterior à atual, era mais vivo e quando viu que suas técnicas de persuasão estavam fazendo água e, mais ainda, quando os resultados que ele precisava entregar começaram a aparecer e se mostraram pífios - os melhores -, tratou de conseguir uma transferência interna - deixando para o nobre colega Desembargador ter que organizar um plano de contenção para dar conta da série de erros primários cometidos.

Agora, pelo visto, é a vez de Pacheco, a doutora Sabujinha, começar seu período de decadência. Hábil na arte de apresentar os dados que o chefe gostaria de receber - e não aqueles que a realidade insiste em entregar -, ela vinha gozando de uma posição bastante tranquila, de pouco trabalho, muita churumela de que vinha com bastante trabalho, e complacência da chefia imediata e superior. Isso até seus lindos relatórios chegarem nos executivos da empresa e estes cobrarem as provas do que vinha sendo reportado. Não havia. Pior, precisaram recuperar um relatório antigo de Carnegie - antes de ele ser escanteado pela doutora Sabujinha -, para evitar que outro B.O. nível Rivarola surgisse.

Outro sinal de que seus “bip-bopping days are over”, de que já era o tempo em que ela sambava na nossa cara, fazia e desfazia quase como se fosse a chefe, se deu na reunião de setor desta semana. A chefe repassou uma nova demanda para ela, que de pronto alegou estar com muito trabalho (o que eu atesto que é mentira, nosso setor é consideravelmente tranquilo). Como a chefe insistiu para que ela ficasse com essa demanda, não se fez de rogada:

Goreti já faz um trabalho que é quase igual a esse, pode deixar com ele.

Goreti não falou nada, apenas alternou o olhar entre ela e a chefe. Esta, que estava respondendo a algo no celular, tratou de terminar sua resposta antes de contestá-la:

Goreti já está trabalhando em outro projeto da área, este fica com você.

Confesso que me regozijei em júbilo, como se diz no clichê, com essa invertida - mais um sinal de que doutora Sabujinha logo procurará outros ares. Macedo discorda da minha avaliação, não crê que a decadência da colega seja tamanha, e eu tive de admitir que ele tem sua boa dose de razão:

Você viu o olhar do Goreti? Parecia um psicopata! Foi para deixar qualquer um com medo.

Foi mesmo. 



22 de janeiro de 2026

PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas


quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Metodista, o hub de informações da empresa, volta das férias [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Metodista voltou de férias - que não são merecidas, pois se trata de direito e não de merecimento. Metodista, que foi trazida apenas rapidamente a estas paisagens textuais, é um hub de informações da empresa. Informações oficiais, extra-oficiais, oficiosas, conjugais e extra-conjugais - e algumas fofocas, de vez em quando, pois ninguém é de ferro.

Pois chegou ela, e não perdi tempo: dei as três horas regulamentares para ela se inteirar, e chamei para um café no refeitório. Como parte do cenário, Goreti preparava seu almoço. Muitas novidades acontecidas nesses vinte dias e fazia-se mister alguma explicação: velhos colegas que saíram, novos colegas que chegaram (eu queria ver o inverso), mudança no leiaute da sala, uns pepinos pra cá, uns abacaxis pra lá, e vida que segue. Ao menos assim eu acreditava.

Pois fiquei sabendo que a funcionária que entrou - já como supervisora - é, na verdade, sobrinha do diretor geral (prima do Baço, de breve passagem, difícil recordação e nenhuma falta). Sua função é pôr ordem na casa, pois pela segunda vez consecutiva não batemos nossas metas - e eu, ingênuo, que acreditava que trabalhava num setor que não possuía metas. Já duas das baixas que tivemos foram trabalhar na concorrência, que ofereceu não só melhores salários como um pouco de alívio na tensão psicológica - afinal, o espectro de um passaralho volta a rondar o setor, que poderia ser incorporado por outro. 

Goreti se aproximou da conversa, prestava atenção, mas olhava com certo olhar aparvorado. Metodista continuava:

Se com passaralho ou sem, o certo é que nosso chefe e o diretor geral entraram em rota de colisão. Ainda não consegui saber como que o chefe não perdeu o emprego.

Nessa hora Goreti interveio:

Deixa eu ver se entendi: Metodista, você está explicando para o Sérgio S. o que aconteceu na empresa nesse período em que você esteve de férias?  Você não viajou, não?

Vinte dias na praia!

E se virando pra mim:

E você, onde esteve, que não sabe nada disso?

Goreti agora tem certeza: sou uma pessoa alienada.


19 de novembro de 2025


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

O dia em que Goreti aprendeu a enrolar [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Goreti tem fama de ser um tanto seco e direto na sua comunicação dentro da empresa, em especial por e-mail - mas não só. Eu o admiro por isso: ao invés de enrolar, ir direto ao ponto me parece uma virtude. Economiza tempo dele e dos colegas. Porém, desafia as etiquetas consagradas no país, em que é preciso dar bons dias, boas tardes, boas noites, perguntar como vai e desejar os melhores votos e estimas. Foi um avanço ele fazer o cumprimento inicial nos e-mails. Contudo, querem mais. Exigem mais.

Em uma reunião de equipe, foi pedido - novamente - que ele não deixasse de se atentar ao essencial, como sempre faz, mas que discorresse um pouco mais nas suas respostas, pois estava passando a impressão de que lera apressadamente o que lhe fora pedido. 

No fundo, um pedido para que eu fique enchendo linguiça - comentou ele, depois, inconformado.

Mas Goreti é uma pessoa que sabe que não se pode afrontar muito a chefia, em certo ponto, o melhor é obedecer, ou é capaz de perder o emprego. Goreti é também uma pessoa do seu tempo.

Semana passada foi-nos repassado um relatório da doutora Sabujinha, ao qual deveríamos dar um retorno. Goreti me mostrou a resposta dele: "boa tarde, achei o relatório bom. vai direto ao ponto e não se perde em firulas. parabéns". Avisei ele que a chefia não iria gostar, e ele respondeu que sabia. 


Ao cabo, recebemos todos a seguinte devolutiva do nobre colega:

“O relatório que você escreveu é verdadeiramente louvável. Ele se destaca por sua clareza e objetividade, qualidades que nem sempre são fáceis de encontrar em documentos de análise. A sua capacidade de ir direto ao ponto, sem se perder em "firulas" ou informações irrelevantes, demonstra um domínio do assunto e um respeito pelo tempo do leitor. É uma habilidade rara, mas extremamente valiosa, especialmente no ambiente de negócios de hoje, onde a velocidade e a precisão são essenciais.

Muitos relatórios falham porque tentam impressionar com um jargão complicado ou uma quantidade excessiva de dados. Eles se assemelham a um labirinto, onde a mensagem principal fica escondida em meio a uma selva de detalhes desnecessários. O seu relatório, por outro lado, é como um mapa claro e conciso. Ele guia o leitor de forma eficiente, permitindo que a mensagem seja absorvida rapidamente e sem esforço. É como um tiro certeiro, que atinge o alvo com precisão e força.

Essa abordagem direta é um reflexo de uma mente organizada e focada. Ela indica que você não apenas compreende os fatos, mas também a hierarquia de sua importância. Você sabe o que é crucial e o que pode ser deixado de lado. Essa capacidade de discernimento é o que transforma um bom relatório em um excelente. É a diferença entre um documento que é lido e um que é de fato compreendido e utilizado.

Além disso, a concisão não significa que o relatório seja superficial. Pelo contrário, ela sugere que cada palavra foi cuidadosamente escolhida, que cada frase tem um propósito. Não há gordura, apenas músculo. Isso torna o documento mais potente e memorável. É um alívio ler algo tão direto, sem a necessidade de procurar a mensagem principal em meio a um oceano de texto.

Em um mundo onde somos bombardeados por informações o tempo todo, a capacidade de comunicar de forma direta e eficaz é uma superpotência. Você possui essa superpotência. O seu relatório não é apenas bom; ele é um exemplo de como a comunicação eficaz deve ser. Meus sinceros parabéns por um trabalho tão bem executado. Você não apenas entregou um relatório, mas também uma lição de clareza e eficiência.”

A chefia adorou. Doutora Sabujinha parecia incrédula - além de regozijar-se em júbilo. Nós, os mais chegados, ficamos em choque: como o rei do laconismo tinha conseguido se transformar em tão verborrágico lero-lerento em tão pouco tempo? Seis parágrafos para não dizer praticamente nada! Seria uma habilidade escondida que ele agora decidira revelar? Fui questioná-lo como tinha feito render tanto aquele comentário, ao que ele respondeu sem meias palavras: pedi pra inteligência artificial reescrevê-la em 500 palavras. 

Ainda não tinha usado IA para meus textos. Sinceramente, senti que minhas crônicas tendem a se tornar supérfluas - como as novas respostas de Goreti.


22 de setembro de 2025


OBS: feito com ajuda da IA.

Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas


segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Banquete de proatividade [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Puxa-saquismo de resultado. Começou a rolar um zumzum no setor de que doutora Sabujinha teria uma proposta de emprego melhor. Sempre disposta a fazer o que os chefes mandam, sem se incomodar com o que seja, nem de passar por cima dos colegas, além de ser uma doutora em sua área, sua possível saída levantou um sinal amarelo da chefia, sempre afeita a funcionários submissos e acríticos. A suspeita ganhou mais corpo com uma série de reuniões entre a chefia e ela. Por fim, ela segue na empresa - por enquanto. 

Fica, porém sem promoção. Diz a rádio peão que é por ter pouco tempo de casa - contudo os doutores sabujinhos que a antecederam conseguiram-na em igual tempo, ou seja, o problema de fato é ela ser mulher. Mas, para não sair de mãos abanando, ou melhor, para ficar de mãos abanando, no lugar da promoção ela ganhou uma reduflação: diminuíram as atividades e responsabilidades que ela tinha - que já eram parcas, por mais que se queixasse.

Claro, trabalhos não somem, alguém precisou ficar com a bucha. Ficou para Carnegie, que se recusou a aceitar, diante de tudo o que já tem para fazer. Sem ter como argumentar contra fatos, a chefe jogou para mim, que não tive como alegar nada e só me restou aceitar - frustrando meus planos enunciados em crônica anterior. Na disputa pelo mais vagal do setor, um a zero para a doutora Sabujinha. Fato curioso: como que esqueceram Macedo, que é quem sempre recebe as demandas sem dono, e as aceita, mesmo estando sobrecarregado?

Puxa-saquismo profissional. Tal qual o último doutor Sabujinho, doutora Sabujinha sabe que é importante fazer uma moral com os colegas - ao menos aqueles que ela ainda não enfiou uma faca nas costas.

Ela, que já era bem relacionada, desde que decidiu permanecer, passou a ser a pessoa mais simpática do setor - para grande amargor dos que já sentiram suas botas de alpinismo no lombo.

Aproveitou a deixa de um grupo para apostar na loto para, inspirada no nobre colega Goreti, organizar uma macarronada com galeto - e mostrar para a chefia proatividade e capacidade de liderar um grupo. Claro, nem todos foram convidados: aqueles que já a enfrentaram ficaram de fora - este escriba entre eles.

Dos que foram convidados, a maioria topou. A data: quinto dia útil do mês, dia em que os funcionários, alegres pelo salário que pingou na conta, saem para comer fora, como se não tivesse o mês todo pela frente.


Assim, foram para o refeitório munidos de três potes de macarrão - um de penne, um de fusilli e um de espaguete -, dois potes de molho - vermelho e branco - e quatro airfryers para o galeto. De modo que na hora de preparar o almoço coletivo eram seis micro-ondas (havia um sendo utilizado por um funcionário de outro setor) e quatro airfryers ligados simultaneamente no mesmo disjuntor. Claro, óbvio, o disjuntor caiu. Não sem antes queimar quatro dos oito micro-ondas e três airfryers.

As reações foram diversas. Alguns, que já caíram no papinho da colega, ficaram consternados por ela; os que tiveram seus eletrodomésticos queimados estão com raiva, e os demais, que não tinham nada a ver com a história, estão simplesmente revoltados - até porque a empresa já avisou que não irá comprar novos aparelhos tão cedo. Assim, as filas para esquentar a comida, que já eram grandes, aumentaram ainda mais, chegando a passar de meia hora!

E se o povo ficou emputecido com ela, por ferrar o horário de almoço, os chefes, que nunca almoçam no refeitório, devem ter achado o gesto genial. Para os colegas, ela estragou o almoço, para a chefia, serviu um banquete de proatividade.


01 de setembro de 2025

Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

Homenagem (atrasada) ao dia dos pais [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]


A homenagem aos pais chegou atrasada aqui na empresa. Bem que Macedo havia comentado de seu estranhamento diante da ausência de qualquer mensagem do RH sobre a data. Pelo visto, esqueceu mesmo. Para disfarçar, a chefe do RH apareceu em pessoa esta segunda-feira, depois do almoço, munida de um tocador de violão e duas funcionárias que carregavam bandejas com bombons e um bilhetinhos para os homens - e que traziam-nas com tanta solenidade e cuidado que mais pareciam duas vestais com instrumentos para uma cirurgia espiritual.

A homenagem poderia terminar por aí: um aluno de canto e violão se esforçando para não errar os acordes nem desafinar muito e um bombom com um recadinho clichê. Porém o que essa homenagem trouxe à baila foi o velho receio do passaralho. Vamos por partes.

Sim, o RH esqueceu de mandar um e-mail com um “Feliz dia dos pais” antes dos dias dos pais. Para compensar, fez o que fez. Pensamos que o chefe poderia ficar incomodado com esse gasto extra, mas quando soubemos que o cantor era outro sobrinho seu, entendemos que o esquecimento foi uma ótima ideia da chefe do RH (e os leitores do TZN. HSG. vão se lembrar que o mesmo expediente era utilizado pela chefe do Bandejão)

Antes de tocar, o moço - mais articulado que Basso, de curta passagem pelo setor - fez um breve discurso motivacional, concluído com “lembrem-se das coisas que fazem sentido, que fazem você se sentir vivo!”. Aplausos da equipe. Olhei para Goreti, ele tinha lágrimas nos olhos - eu imaginava o por quê. Depois, confirmou:

Passo oito horas por dia, quarenta e oito semanas por ano, preso neste trabalho de merda, sem sentido algum, achando Sísifo um sortudo porque ainda pode ver o horizonte quando a pedra rola morro abaixo! Isso pelo lucro do patrão! E ele me pede para lembrar das coisas que fazem sentido?!

Menos melodramático, não pude deixar de complementar o nobre colega:
A dor do chicote estalando no lombo também faz nos lembrarmos que estamos vivos.

Macedo complementou algo em ASMR que não consegui escutar e deixei passar, porque também estava preocupado com o passaralho.

Voltemos à homenagem.

Depois do discurso, a música. Fosse acordeón no lugar do violão e poderíamos nos sentir numa live do ex-presidente que trata os filhos por números, como se fossem presidiários (não que não devessem ser). Outro ponto positivo: não tocou Pais e Filhos, como temeu Macedo, e sim Anunciação, do Alceu Valença. Que sentido faz essa música com o dia dos pais? Fica a interrogação. Pensei depois: poderia ter tocado Pai, do Fábio Júnior. Seria dolorido ouvi-lo tentando imitar o galã (existe ex pra galã, ou uma vez galã, sempre galã?), mas ao menos faria sentido. Quer dizer, faria sentido com o dia dos pais, porque sentido pareceu fazer muito com o recado que vinha junto ao bombom:
“Ser pai é ter um cargo de responsabilidade que você ama e nunca será demitido”.

Seria uma indireta àqueles que não estão satisfeitos com o trabalho? Com quem a chefia acha que não se mostra à altura das suas responsabilidades? De que vai rolar, finalmente, o passaralho que nos ronda desde o fim do ano passado? 

Perturbados, escutávamos um desafinado “tu vens, tu vens, eu já escuto os teus sinais”, enquanto imaginávamos o que não trariam tais sinais.


11 de agosto de 2025


PS: Em outro departamento, a música variou, foi Pra dizer adeus, do Titãs. Mais um sinal...

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sexta-feira, 1 de agosto de 2025

Macedo e seus colegas de almoço nas minhas férias [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça]

Voltei das férias - que não chamo de merecidas porque férias não é merecimento, é direito, conquistado com sangue e suor, mendigado por patrões (como se lhes fosse um fardo ceder esse direito) e sempre insuficiente para o tanto que trabalhamos (menos para juízes). Pois bem, voltei de férias e, diferentemente de algumas das férias passadas, ninguém perguntou se eu estava doente e estivera de atestado nos últimos dois dias. Desta feita sequer notaram que eu me ausentara, salvo o pessoal da minha equipe - o que não significa que sentiram minha falta. E isso é uma boa notícia! Sinal que estou no caminho certo - a meta é passar tão despercebido que até o trabalho passe por mim, e me reste apenas o salário (com os devidos descontos tributários, pois não sou sonegador, me opondo frontalmente ao que dizia um certo ex-presidente que usa adornos no tornozelo).

Talvez quem tenha sentido um pouco minha falta foi Macedo, meu contumaz companheiro de almoço. Na minha ausência, ele variou os colegas com quem compartilhou esse momento - e a alta rotatividade mostra que não teve um que tocou seu coraçãozinho ou que suportou seu humor quase silencioso: tiradas mordazes em ASMR. Já comentei algures que ele é de falar pouco e bem baixo. Também já comentei algures que, pobre Macedo, aparentemente tão bom ouvinte por falar pouco e aparentemente ter uma paciência de Jó, ainda por cima é cercado por tagarelas por todos os lados de sua baia e um pouco além - sendo eu o menos parolema (habemus esperanto!) dessa lista, o que não quer dizer muita coisa.

Digo tudo isto porque foi Macedo quem me atualizou das novidades no tempo em que estive fora. Novidades que não traziam nada de novo. Salvo as do almoço, em que descobriu a face oculta de vários colegas.

Do Mello, fiquei sabendo que não oferece chocolate quando se vai almoçar com ele. Compreensível: se aceitou o convite, não precisa te convencer a escutá-lo. O chocolate é uma forma de atrair para seu lero-lero, não uma compensação por suportá-lo.

De Pacheco, a Doutora Sabujinha, nada de novo, segue a pessoa chata e aduladora de sempre (conclusão minha, a partir do que ele contou).

As novidades novidadeiras foram as da Goleador. 

A primeira foi toda uma mobilização no setor de quem estaria matando a suculenta que fica na entrada, mesmo depois do recado afixado junto a ela. Ninguém queria assumir o ato, até que a secretária bateu o martelo: era ela quem iria cuidar da planta, ninguém mais; ao que Goleador respondeu, aliviada:

Ai, que bom! Não aguentava ter mais essa responsabilidade para mim. Eu via a planta morrendo e estava tentando salvá-la. Era a única a regá-la!

Tentando salvar uma suculenta regando todos os dias... Proatividade nem sempre é algo tão positivo assim - e nem digo isso por ser uma pessoa propassiva.

Mas talvez o que mais me chamou a atenção foi quando Macedo contou que conheceu a versão silenciosa dela. Incrédulo, perguntei como aconteceu tal proeza, estaria ela deprimida, talvez por conta da planta?

Não, ela apenas não fala de boca cheia - e estávamos almoçando.


01 de agosto de 2025


Relembrando os velhos tempos de Trezenhum. Humor Sem Graça., este texto contou com contribuição do Ricardo (além, é claro, do Macedo; mas ele não é da época do TZN. HSG)


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segunda-feira, 9 de junho de 2025

Usos alternativos da escada de emergência [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça]

 O clima não anda muito bom na empresa. Não que isso seja novidade - e nem é culpa especificamente da empresa (mas é também). “Não há trabalho ruim, o ruim é ter que trabalhar”, já dizia o Seu Madruga. Mas sempre dá para piorar. Dunker e Safatle apresentam o neoliberalismo, no nível micropolítico, como forma de gestão do sofrimento psíquico - a tal qualidade de vida que o modelo de gestão de pessoas 4.0 apregoa é coisa do passado, se é que algum dia existiu de verdade tal preocupação por parte das empresas (eu acho que sempre foi uma mentira). Atualmente, devem seguir uma versão corrompida dos dois fatores de Herzberg, as melhores, quando não é a lógica do chicote no lombo, mesmo.

Mas por que toda essa introdução? Hoje Goreti chegou com uma garrafinha nova. Um emoji feliz e os dizeres: “Uma garrafinha feliz, porque o resto aqui é só tristeza”. Ousado. Temero. Eu receio a hora que o chefe a veja. Talvez abra um sorriso sarcástico e pense “vamos apertar a coisa, para ele ver o que é tristeza de verdade”, e use seus conhecimentos de coach para assediá-lo. Ou seja mais direto e ofereça a porta da rua, caso ele esteja descontente - com certeza não vai demiti-lo, porque vai ser difícil achar alguém para substituí-lo. Mas pode ser que nada disso aconteça: ele não veja a garrafinha e vida que segue, em doses homeopáticas de assédio e ranço. Goreti já distribuiu exemplares do Manifesto Proletário, do Capirotinho, e até agora nada aconteceu - a não ser formas difusas de boicote, apesar que eu preferiria uma revolta, com coquetéis molotov, fascistas e militares pendurados de ponta cabeça e tudo o mais. Como isso não está no horizonte, nos resta as recusas silenciosas.

Está ruim para nós, mas está ainda pior para Shôri, colega do setor ao lado, apresentada a mim e a Macedo pelo Fernandez, Colega do Topo (que anda meio sumido). Fora os assédios no trabalho, ainda tem que dividir o fumódromo com a chefe - que faz questão de ir pouco depois de ela sair -, que aproveita o momento de relaxamento para cobrá-la mais por mais resultados (não foi engano o duplo mais). Cansada disso, Shôri passou a fumar escondida na escada de emergência - onde não há câmeras nem detectores de fumaça -, ao menos algumas vezes.

Pois estava ela, semana passada, terminando seu cigarro quando escutou um barulho estranho, alguns andares abaixo. Foi até a fonte de ruído e encontrou a funcionária de algum outro setor sentada, chorando.

Aconteceu alguma coisa? Está tudo bem?

Está tudo bem - foi a resposta em meio ao choro e soluços, e Shôri decidiu não insistir: se ela disse, está dito.

Voltou para o trabalho e refletiu: eis um bom uso para as escadas de emergência, sempre vazias (ou quase): melhor que chorar no banheiro, onde tem que segurar para não fazê-lo alto. Mal terminou seu raciocínio e resolveu aceitar a realidade, não a resposta: era óbvio que a moça não estava bem. Pegou um copo d’água, algumas folhas de papel toalha, uma barra de chocolates que guarda para emergências e foi ao encontro da mulher, que seguia chorando.

Olha, não sei o que aconteceu, mas te trouxe isto.

Foi aí que a mulher desandou a chorar de vez e contou do último episódio de assédio recebido. Nada de novo sob o sol, nem sob o teto da empresa; só uma gota a mais no co(r)po cheio.

Pois hoje estávamos conversando na escada de emergência quando escutamos uma voz:

Achei mesmo que fosse te encontrar por aqui! 

Pronto, a chefe encontrou Shôri, e vai tomar um sabão por estar fugindo do trabalho - além da advertência por estar fumando em local proibido. E eu vou de carona, mesmo sendo apenas fumante passivo. Nos viramos e demos com duas mãos segurando uma caixa de bombons.

Obrigada pelos chocolates.

Shôri mal teve tempo de agradecer, a mulher saiu, quase uma assombração, assim como chegou.

Pois é... um texto sem graça, mas achei gracioso o gesto de ambas.


09 de junho de 2025


Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas

quarta-feira, 21 de maio de 2025

Acho que recebi um elogio [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Acho que recebi um elogio, não sei bem.

Macedo está de férias, tem feito falta. Não apenas por saber tudo do trabalho, como por ser um bom ouvinte - ainda que involuntário. Na falta dele, os colegas tagarelas que o cercam vão atrás de novas vítimas, digo, novos interlocutores. 

Hoje fui cercado pelos indivíduos que sentam à frente e à esquerda de Macedo, Mello, o colega que oferece chocolate e depois cobra um preço por isso (escutá-lo se repetir e se repetir e se repetir várias e várias e várias vezes por dia) e Pacheco, respectivamente. Costumo estar sempre de fones de ouvido, justo para tentar evitar certos tipos de interpelação, digo, de interação, e hoje cometi a séria falha de, após responder a uma questão de trabalho, não subi-los imediatamente. Foi a deixa. Já que estavam falando de música, julgaram que nada melhor que chamar o colega sempre com fones para a conversa.

Papo vai, papo vem, eu não conseguia achar uma sobra de respiro para voltar ao trabalho - por mais que estivesse enfadonho. E lá iam eles falando sobre punk, pós-punk, new wave, skate rock, e eu só ouvindo. Se me perguntassem, capaz de eu dizer que gostava apenas de Chico, Vandré, Gil, Caetano, Arrigo, só para conseguir fugir da conversa - e quem disse que me perguntaram?

A certa altura, com uma meia hora de parlatório, entraram no assunto Iggy Pop - ambos muito fãs. O colega do chocolate-com-papo (que aceitei desta feita, porque o papo já tinha chegado, ao menos pude aproveitar o chocolate) contou que foi no show de 2009 e fora muito bom.

Eu bem queria ter ido, mas era menor de idade na época - respondeu Pacheco.


Foi quando ao menos consegui participar da conversa.

Fui em 2005 e foi muito louco! Ele pulou no meio da galera, depois chamou para subirem no palco, pegaram o microfone dele para cantar I wanna be your dog, e os seguranças totalmente perdidos.

Que idade você tinha para conseguir entrar no show em 2005? - perguntou, incrédula, Pacheco

Contei minha idade, e ela se mostrou estarrecida:

Julguei que tivesse a minha idade, entrando nos trinta.

Não, já passei dos quarenta.

Nossa, então você até que está conservado!

Fiquei tentando entender o porquê de ter me subtraído mais de dez anos. Seriam minhas roupas sem passar? Meu corte de cabelo diferentex? Não sei, e não tenho Macedo aqui para perguntar. Mas nas entrelinhas foi possível ler: se para quarenta eu estava “até conservado” (feito um picles?), para o trinta que ela (e quantos mais no setor?) achava que eu tinha, devo estar só o pó da rabiola. Não tiro a razão. 


21 de maio de 2025

 

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terça-feira, 13 de maio de 2025

Macedo está há três dias de férias [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Nota-se a importância de alguém pela falta que faz quando está ausente. Lembro de quando tirei trinta dias seguidos de férias. Quando voltei, na segunda-feira, a colega Bella me viu, fez cara de estranhamento e perguntou:

Você não veio quinta e sexta da semana passada, veio?

Pois é, trinta dias ausente para acharem que eu tinha pego um atestado curto.

Apesar que, pensando bem, também dá para notar a ausência de alguém pelo alívio que traz. Pelo visto, não é meu caso; e não vou citar exemplos, mas quem me lê assiduamente (sim, tenho desocupadas e desocupados leitoras e leitores) sabe a quem me refiro, ao menos algumas dessas pessoas.

Quem está de férias agora é Macedo. É apenas o terceiro dia, mas parece fazer trinta. Estamos todos aqui perdidos, batendo cabeça e sentindo falta do nobre colega. Noto que ele é uma espécie de professor de jardim da infância, com as crianças sempre carentes de atenção, umas pedindo informações, outras pedindo ajuda, outras querendo conversar, e ele se desdobrando para atender a todos, o que faz com uma impressionante paciência de professora do ensino infantil. Detalhe: além de ajudar colegas inoperantes (como este escriba), ele convive com tagarelas à esquerda, à direita, na frente e atrás (sendo que nenhum desses sou eu). Tudo isso e ainda dá conta de fazer sua parte do trabalho com esmero.

Por respeito às férias de meus colegas, evito mandar qualquer tipo de mensagem, até para que a pessoa não se lembre que sou também um colega de trabalho e, portanto, ele tem emprego e que uma hora as férias acabam - sempre cedo, muito mais cedo do que deveria. E costumo esperar a recíproca. Pois tem quem não se aguente - e nem falo de Robervals com sua culpa cristã, por roubar os bombons que eu nem sabia que tinha ganhado. Pouco antes das onze, Macedo me manda uma mensagem indignado (do jeito que ele consegue se indignar), pois Gambitto, o golden boy do setor e aspirante a novo Doutor Sabujinho, havia perguntado se ele iria participar da reunião (on line) da tarde. “Completa falta de noção”, foi minha resposta. Pouco antes da uma, ele me manda nova mensagem, ainda mais indignado: agora era a chefe perguntando se ele iria participar da reunião. Sem saber o que dizer, me restringi a dizer “Completa falta de noção, nível superior hierárquico. Você está de férias!”.

Como ele havia dado abertura, achei que poderia mandar algo também, e no meio da tarde enviei uma postagem engraçada do instagram, que tinha a ver com ele (enviei pelo whats, pois sei que não abre o chat do insta). Seria só hoje, depois voltaria a meus princípios de classe e não o lembraria de que eu existo. A resposta dele foi desoladora:

Depois vejo, agora estou em reunião.


13 de maio de 2025


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terça-feira, 8 de abril de 2025

Macedo, o rapaz multi-tarefas [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

 Disse em meu texto passado que Macedo merecia (mais) um texto. Como comentei, ele entende tudo do trabalho. Se Pacheco, a nova funcionária, teve como trote ter que aguentar a conversa de Floriano, o nobre colega Macedo tem seu trote permanente, que é ser tutor em todos os assuntos de quem chega ao setor (e desta vez são dois), o que não deixa de prejudicar um pouco seu trabalho - mas confiamos que ele, no fim, dará conta de resolver tudo a contento, como sempre o fez. Não que sejamos acomodados, é apenas saber que ele tem competência suficiente para tutorar a nova colega, ajudar os antigos e ainda cumprir suas demandas - tudo dentro de oito horas. Poderíamos ajudá-lo? Poderíamos. Porém, como o próprio tempo verbal aponta, atuamos no futuro no pretérito, esperando que esse futuro chegue, mas ele nunca vem. Se algum dia ele não souber de algo, serei o primeiro a ajudá-lo, se eu souber como fazer (apesar que, se ele não souber, nós do setor que certamente não saberemos).

Se entende tudo do trabalho, fora dele Macedo reconhece sua ignorância, apesar de sua vasta cultura geral em assuntos muito aleatórios. E se Goreti, que também se diz um ignorante (e eu complemento: nos dois aspectos do termo), faz faculdade atrás de faculdade, geralmente desistindo no último ano, quando é preciso fazer estágio (como sênior, não tenho mais idade para isso, ele justifica), Macedo foca nas artes manuais. Maceda, por seu turno, se dedica à organização [bit.ly/cG230405] e a artes manuais mais artísticas.


Podemos dizer que ambos são versões proletárias do Rodrigo Hilbert, a Pequena e o Pequeno Hilbert. Até dá para parafrasear o Pequeno Wilber, dos Sobrinhos do Ataíde: estava o Pequeno Hilbert lépido e saltitante andando pela cidade com sua lancheira divertida do Patolino quando de repente se deparou com um pedaço de madeira abandonado na rua... [https://bit.ly/cGYTpeqwilber]

Voltemos à seriedade. Há tempos que nem ele nem Maceda compram carteiras e bolsas: quando enjoam da antiga, ele elabora e costura um novo modelo. Roupas? Ao menos as mais simples saem da própria casa. Em um ano, Macedinho até agora só teve fraldas, meias e calçados comprados. Precisa instalar um móvel? Chame um montador, porque nosso Pequeno Hilbert prefere construir o seu. Caneta? Ganhei uma feita de pena, em que só faltou ele produzir a tinta. 

Contudo, foi no casamento que essa dupla mostrou de vez suas habilidades. Enquanto a Pequena Hilberta fez toda a decoração do casório para 150 pessoas, com convites pintados em aquarela, sousplats bordados com fios de bambu em folhas de bananeira (ela diz que costela de Adão seria melhor, mas o nome da planta a desestimulou) e todo um jogo de luzes para quando discotecasse, o Pequeno Hilbert se dedicou a fazer as alianças, apenas. Tenho certeza de que só não fizeram também o jantar porque não tinham tempo hábil para tanto trabalhando oito horas. E porque as maçarocas que Macedo cozinha talvez causassem estranhamento entre os convidados (o pão de amêndoa de Maceda bem que cairia bem). Ao menos teve o maravilhoso licor de jabuticaba que Macedão e Macedona fazem.

Eram outros tempos, diz Macedo, com Macedinho as coisas mudaram de figura. Hoje o máximo que ele diz fazer são pequenas coisas, como o porta crachá todo incrementado com que apareceu semana passada, com direito a um led para caso seja necessária uma lanterna.


08 de abril de 2025


Este é um texto ficcional, teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas

segunda-feira, 24 de março de 2025

O vizinho invisível [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]


 Não que eu seja fofoqueiro, longe de mim! Não sou de inventar nada, nem exagerar histórias, muito menos falar dos outros pelas costas. Na verdade, sou apenas uma pessoa observadora e atenta, especialmente no que diz respeito às ações alheias.

Como comentei alhures, ao lado do meu prédio levantaram uma torre de trinta andares - dessa arquitetura em voga por SP, que parece essas gaiolas de expôr galinhas em loja agropecuária do interior -, de modo que da minha cozinha dá para ver a sacada de algumas das kitnets - agora rebatizada de studios. São três apartamentos que tenho visibilidade de uma nesga do interior, além da varanda. Pela alta rotatividade que teve nos dois primeiros anos, suspeitava serem para locação de curta temporada, mas que os últimos inquilinos me fizeram ficar em dúvida.

O de baixo está vazio desde sempre. O do meio já teve três ou quatro moradores nesse curto tempo. Atualmente, há mais de um ano, acho que mora um jovem, ainda que tem dias que imagino ser uma república, outros acho que é um casal. Sei que não houve mudança porque são os mesmos móveis e estilo: jovens na sacada, em conversas animadas e barulhentas; som potente, com baixos marcantes e um gosto musical ok (nada de sertanejo e bolsomusic). O que chama a atenção é a discussão mensal de um homem com uma mulher. Se é sempre a mesma ou uma diferente por mês, não sei. O que sei é que o rapaz grita, berra, dá chilique, enquanto a moça tenta manter uma conversa racional. Não tem como não ouvir. A mulher, espero que não seja a mesma, ou ela precisa de ajuda profissional. Se for uma diferente a cada mês, parece que o jovem tem um modo repetitivo (e nem tanto peculiar na nossa sociedade machista) de se livrar delas e precisa de ajuda profissional também. 

Contudo, é o apartamento de cima que me chama a atenção. Após um tempo vazio, três inquilinos passaram pelo lugar, o mais longevo deles pouco mais de meio ano. O atual está há mais ou menos o mesmo tempo.

De início, apareceram coisas de limpeza na nesga do interior que me permite observar. Vez ou outra a luz aparecia acesa, às vezes a noite toda, o que me fez desconfiar que ainda não havia se mudado. A situação permaneceu assim por muito tempo, sem nenhuma mudança. De repente, uma planta! Ah, agora vão se mudar, pensei. Mas em menos de uma semana a planta sumiu. Um (bom) tempo depois, os apetrechos de limpeza sumiram também, a luz começou a ficar acesa mais dias, inclusive aparecendo ligada e desligada na mesma noite. Agora se mudaram, pensei novamente. E nada de ver uma alma viva no referido apartamento - segue tão silencioso quanto o apartamento dois andares abaixo. Há um mês uma mudança radical: apareceu um varal de chão na sacada, com um pano de chão pendurado. E assim segue até hoje. Porém, também notei que algumas vezes a porta estava fechada, em outras, aberta. Sinal de vida humana pisando ali!

Ontem à noite, diante da luz do banheiro acesa e do vapor no vitrô sempre fechado, resolvi deixar a timidez de lado e ficar encarando a maldita sacada, ver se aparecia alguma pessoa. Lembrei que quando adolescente dizíamos que se olhássemos insistentemente para a nuca do garçom ele se incomodava e vinha nos atender. Sempre deu certo, desde que tivéssemos certa paciência e erguêssemos o braço quando ele se virasse, às vezes duas ou três vezes. Fim da divagação pertinente. Como disse, a luz do banheiro estava acesa, logo, a pessoa seria obrigada a passar pelo trecho que consigo ver. Fiquei ali, de gaiato, um bom tempo, disposto a aguentar o tempo que fosse. Pois foi então. Algo me chamou a atenção. Era Calvin, meu gato-jamanta, se esfregando na minha perna e miando atrás de carinho. Olhei para ele, disse silenciosamente não, e voltei a olhar para o studio de cima. A luz do banheiro já estava desligada. 

Fosse uma casa antiga, e este poderia ser um texto de terror. Mesmo se fosse um prédio velho poderia dar essa interpretação: em algum apartamento de A vida: modo de usar, do Perec, há o fantasma de alguém que ali residiu e morreu, e que volta para assombrar os vizinhos com atos disparatados, algum parente do Fantasma de Canterville. Mas sendo novo, nem deu tempo para as assombrações acharem o endereço, já que, pelo que vi no Instagram, assombrações e quetais não podem usar o maps; pensei que poderia ser o Dalton Trevisan tentando vida nova como anônimo em SP, depois de ter plantado a notícia de sua morte, mas não faz nenhum sentido para o Vampiro de Curitiba sair de Curitiba, ainda mais com a idade que tinha; quem sabe algum terrorista húngaro, como no porão de Rubem Braga; algum foragido da polícia federal ou, mais emocionante, um espião vindo do futuro para me espiar, ver qual lógica paraconsistente eu segui a ponto de me tornar o que hei de me tornar em breve (e que nem eu sei, antes que me perguntem)? 

Decidi parar de divagar e pôr os pés no chão, encarando a coisa do jeito mais rasteiro e razoável possível. Primeiro premissa: o apartamento é novo, todo tecnológico; segunda premissa: ninguém mora no apartamento; terceira premissa: vez ou outra aparece não sei se o inquilino (seria um quarto para encontros íntimos, como em A insustentável leveza do ser?) ou alguém para fazer faxina (por isso a porta aberta às vezes); conclusão lógica: nada de fantasmas e conto de terror, certamente é apenas uma Alexa se sentindo abandonada,  tentando chamar a atenção.


24 de março de 2025

Este é um texto ficcional, teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas