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sexta-feira, 15 de maio de 2026

A capa da Veja e a avenida para a antipolítica

Quando a mídia corporativa conseguiu assumir a narrativa do caso Master e passou a forçar um vínculo com o STF e com o governo Lula, Luis Nassif de pronto apontou que a Lava Jato 2 havia começado. 

O objetivo era emparedar o STF, instituição que havia sido de fundamental importância para a preservação da nossa democracia de baixa intensidade, e abrir uma guerra midiática contra Lula e o PT, no mesmo estilo feito pela Lava Jato 1 (e, antes, o dito Mensalão). A grande diferença, ao meu ver, era a falta de um personagem outsider - como um juiz-justiceiro - que encampasse a guerra do bem contra o mal, em especial, contra a corrupção - ainda que, é certo, tal personagem não tivesse conseguido se cacifar a tempo para as eleições de 2018.

Na ausência dessa figura, apelou-se a quem estava à mão, desde que fosse alguém disposto a implementar o ultraliberalismo nestes Tristes Trópicos. Havia ainda um “recall” do sobrenome Bolsonaro na luta contra o “sistema” e a vinculação do Partido dos Trabalhadores a esse sistema carcomido, de modo que Flávio Bolsonaro, tornado Flávio-sem-sobrenome (quase um Ulisses na ilha dos Ciclopes), encarnava os “ideais” desse grupo, herdava os votos do dito bolsonarismo raiz e, se não conseguiria se apresentar como um outsider, ao menos se apresentava como um anti-petista para pessoas “cansadas de tanta roubalheira”. O Supremo, acuado, e o TSE, comandado por um indicado de Bolsonaro, não prometiam muita resistência a possíveis excessos durante a campanha.


O áudio em que Flávio Bolsonaro aparece cobrando R$ 134 milhões de seu parça Daniel Vorcaro complicou a estratégia dessas elites. Se o Filho 01 é carta fora do baralho, ainda não é possível dizer: apesar de termos outros candidatos do espectro, ele vinha absoluto na raia da direita e extrema-direita, e chegava mesmo a aparecer numericamente à frente de Lula no segundo turno, ainda que dentro da margem de erro. 

Creio que dificilmente se recupera, porém seu piso de votos, algo entre 20% e 30% do eleitorado, dificulta o processo de defenestração: pode-se insistir na sua candidatura, acreditando na memória curta de parte da população, alheia às questões políticas, associado à guerra midiática contra o PT, que seguirá intensa até outubro. O nome mais forte que parece despontar para substituí-lo é o da ex-primeira-dama, Michele Bolsonaro - mas aí temos as disputas internas da família.

Independentemente de quem será o candidato, a Lava Jato 2 continua. A prova disso é a capa desta semana da revista Veja - desnecessário adjetivá-la.

Pesquisa Quaest sobre a percepção do escândalo do Master junto à população, divulgada dia 13 de maio, mostra que 46% das pessoas acreditam no envolvimento de toda a classe política - 11% atribui a culpa do escândalo ao PT e 9% a Bolsonaro. A capa de Veja, ao pôr as imagens de Lula, Flávio Bolsonaro e o ex-presidente Temer junto de Daniel Vorcaro reforça essa percepção, de que seriam todos “farinha do mesmo saco”. 

Ao reiterar o descrédito da política como um todo, a Lava Jato 2 abre uma avenida para um aventureiro, alguém que se diga antipolítico, de fora do sistema, prometendo moralizá-lo. Com anos de satanização de tudo o que é público, essa moralização acaba por passar necessariamente pelo discurso de diminuição do estado - ou seja, por um projeto liberal. Eis que, dentre os nomes que são levantados nas pesquisas de opinião pode surgir um azarão, o dark horse da vez: Renan Santos. Com a capilaridade e o conhecimento do MBL de como atuar nas redes sociais e na internet, ele pode despontar como esse candidato anti-sistema, anti-Lula e anti-Bolsonaro ao mesmo tempo. Por ora segue embolado com Caiado e Zema, mas se conseguir se fazer mais conhecido no curto prazo, pode atrair a simpatia das elites e da mídia corporativa que a vocaliza, e ter um salto de exposição, alcançando o grande público.

Ainda é cedo para apostar nele como viável - vale lembrar que a criação de Bolsonaro para 2018 foi um processo longo -, porém há um caminho aberto e ele certamente está tentando se viabilizar por essa via. De qualquer modo, o desserviço feito à nossa frágil democracia pela atuação da mídia corporativa - tão bem representada pela capa de Veja - está feito. Mas pode piorar.


 15 de maio de 2026

segunda-feira, 13 de abril de 2026

O fetiche do abismo

Lembro do meu tempo de faculdade de filosofia e ciências sociais, na Unicamp, havia um perfil de estudante-militante adepto do “quanto pior, melhor”. Do Procon ao Bolsa Família, passando pela expansão do ensino superior e as cotas, tudo que não fosse a revolução (com sua pureza de princípios e baseada na “leitura correta” de Marx) ou a pavimentação para ela (baseado em miséria e ódio, deduzia eu), era arrivismo, defesa do capital, e reforço do status quo. 

Saí da Unicamp há quinze anos, mas volta e meia revejo esse tipo de postura em alguns analistas políticos de esquerda. Um pouco mais refinados, é claro, mas a mesma lógica de ser incapaz de analisar a realidade em sua complexidade. Pior, não são meus ex-colegas da Unicamp, mas professores ligados a partidos de esquerda, de várias universidades públicas, que já o eram na época, só não tinham as redes sociais para divulgar em tempo real seu pensamento (não cito nomes porque meu objetivo não é fulanizar a questão).

Duas semanas atrás, um deles se desesperava com o crescimento de Flávio Bolsonaro e praticamente vaticinava: a eleição estava definida se não houvesse uma reação urgente urgentíssima de Lula. Ignorava os múltiplos fatores que explicam o crescimento de Flávio Bolsonaro neste momento e, principalmente, que o PT escolhia o adversário, esperando o fim do período de desincompatibilização para começar a pré-campanha - e melhor um Bolsonaro que Tarcísio.

A nova análise que tenho lido é que Lula ou ganha no primeiro turno ou perde a eleição, porque não teria ninguém para transferir os votos para ele. Sem dúvida, o segundo turno, se houver, será duríssimo - como foi em 2022. Essa leitura é, contudo, para além do catastrofismo de certa esquerda, simplista: como se votos em candidatos de direita fossem necessariamente para Flávio Bolsonaro. Convém lembrar que assim como há o anti-petismo, há também o anti-bolsonarismo, e que uma parte de eleitores dos candidatos menores da extrema-direita pode simplesmente se abster de votar num eventual segundo turno. Há também eleitores não ideológicos e que podem alterar seu voto - como aconteceu em 2006, em que Alckmin teve menos votos no segundo que no primeiro turno. Afora a questão de que será uma eleição concorrida, difícil e que não está ganha, mais sensato me parecem analistas chamando a atenção para Renan Santos, com chances de se “marçalizar” em 2026 e ganhar musculatura para 2030. 

Ilustração sobre o contraste entre catastrofismo acadêmico e análise política de base
Pode-se argumentar que esse catastrofismo serviria para abrir os olhos dos militantes e mobilizar as bases. É a lógica do quanto pior, melhor dos meus ex-colegas do tempo de faculdade: somente na miséria extrema o povo se levantaria para reivindicar seus direitos, que já chegaria na forma de revolução social. Primeira falha, de observação: não se vê população oprimida por carestias materiais elementares se levantar por um ideal abstrato. Segunda falha, de psicologia: diante do tudo está perdido, alguém vai se mexer para quê? Dar murro em ponta de faca só costuma ser um esporte para quem tem para onde correr depois que cansar. Terceira falha, de trabalho de base: ao jogar a pretensa cegueira da situação e a responsabilidade inteiramente no colo do presidente, esses analistas reforçam a ideia de política feita por cima e não a partir das bases, exatamente o contrário do que a esquerda mais radical (no sentido de raiz, não de sectária) defende. Por sinal, esse é o mesmo argumento utilizado para justificar a alegada desmobilização popular dos governos Lula 1 e 2: o governo não teria mobilizado a população, sendo que não é papel de governo de turno fomentar a oposição a si próprio - e há exemplos de movimentos sociais fortes que surgiram desse período, como o MTST, para ficar no mais evidente.

Felizmente esses analistas, apesar de seus currículos acadêmicos vistosos e sua boa escrita, têm pouca penetração na imprensa, mesmo a alternativa - que prefere análises críticas, mas calcada na realidade e que apontem possibilidades. Mas não me surpreenderia se um desses professores do catastrofismo de esquerda acabe sendo convidado para colaborar com a grande mídia, desesperada por apear Lula e o PT do executivo federal.

Sejamos críticos, mas façamos leituras complexas da realidade e saibamos achar brechas por onde construir alternativas. E aos arautos do apocalipse, que vêem o futuro já determinado, um pedido: parem de escrever e comecem a arrumar suas malas - a vida já está dura demais para levar pedrada gratuita do próprio campo.


13 de abril de 2026


sexta-feira, 15 de março de 2024

Mais que frente ampla, as esquerdas precisam mostrar o que elas defendem e propõem

Em 2022, quando Lula foi declarado vencedor do pleito eleitoral, minha bolha comemorou: “o amor venceu o ódio”. Do outro lado, pelo que li em alguns jornalistas que acompanhavam grupos bolsonaristas, o discurso foi o inverso, praticamente um “o ódio venceu o amor”. Para quem não sai da bolha ou tem dificuldade em escutar o outro, pode parecer absurdo relacionar alguém que profere discursos de ódio ao amor.

Ocorre que amor - como tantos outros conceitos abstratos e gerais - é um significante vazio, comporta qualquer significado: é manipulável e usado para manipular. Além disso, amor é tido como um valor positivo em absoluto pela nossa sociedade - e sabemos que não é, vide o tanto de pessoas que matam “por amor”, e não deixam de ser sinceros ao alegar tal motivação.

Para os seduzidos pelo discurso neofascista - o homem e a mulher “comum” -, se o candidato que se apresenta declarando amor pela família, pela pátria, por deus, pela liberdade, pelos valores, pela ordem, pela harmonia, perdeu, logo só pode ter vencido seu antípoda, o candidato contra a família, contra o amor, a liberdade, em suma, o candidato do ódio.

Reconheço: ao escrever este texto, precisei pensar muito para conseguir identificar o que preencheria esse significante vazio dito amor nas esquerdas - ele se faz numa mistura mal azeitada de identitarismo e recusa do discurso do ódio com pitadas de superioridade moral -, enquanto o amor da extrema-direita é fácil de ser catalogado, é simples, simplório, feito de palavras-chave e pitadas de superioridade moral (faça o exercício você). De qualquer modo, é difícil esses discursos de amor angariarem apoio fora dos convertidos, o que implica a extrema dependência de um líder carismático, isso à esquerda e à direita - que, apesar da dependência de Bolsonaro, ainda tem um discurso mais bem estruturado, muito mais. 

As esquerdas, para além de platitudes e discursos vazios, tem oferecido e proposto pouco, polemizado em cima de novas questões que estão longe de afetar a maior parte da população (como essa quixotesca cruzada contra a gramática ou a sem fim sopa de letrinhas, enquanto seguimos como o país que mais assassina pessoas “heterodoxas sexuais e de gênero” no mundo) e fornecido paliativos e mais do mesmo quando no poder; incapaz de mobilizar e ocupar as ruas e as redes, bate cabeça e se torna conservadora, para evitar perdas maiores.


Na reportagem de capa da edição 1301 da revista Carta Capital (13 de março de 2024) há aspas para o professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e Economia do Trabalho (Cesit) da Unicamp, José Dari Krein, falar sobre o STF: “o Supremo, nos últimos tempos, teve uma função importante de preservar a democracia, mas do ponto de vista dos direitos sociais tem uma visão eminentemente liberal-conservadora que joga contra o trabalho decente e a perspectiva de proteção e inclusão dos trabalhadores”.

Ora, democracia é outro desses significantes vazios. Não por acaso, bolsonaristas e a extrema-direita dizem defender a democracia, mesmo pedindo intervenção militar; os militares dizem  ter salvado a democracia no país com o golpe de 1964 e a ditadura que se seguiu. Cuba, China Coreia do Norte se afirmam democracias populares; enquanto Estados Unidos, Coreia do Sul, Itália se afirmam democracias liberais - e não me parece que os países estejam mentindo ao se afirmarem democráticos. O ponto é: o que define uma democracia? Ou melhor, o que define o tipo de democracia que cada um se afirma? E pergunto: qual a democracia que as esquerdas propõem para o Brasil?

Eleições regulares são parte da democracia liberal, isso basta? Escolher a cada dois anos representantes que não representam a maioria da população e mandatários que não mandam dado o desequilibrado sistema de pesos e contrapesos que marcam nossas instituições (e estou longe de defender uma hipertrofia do executivo, o problema é todo o desenho representativo e burocrático nosso)? O Estado de Direito seria outro pilar da democracia liberal: todos sob o jugo das leis. Que leis são essas? Quem as faz? Leis que dão isenção de impostos a igrejas e cobram imposto de renda de quem ganha mais de dois salários mínimos; leis que induzem políticas públicas que favorecem endinheirados de toda sorte e dão migalhas (quando dão) ao grande público. Quem estará disposto a defender esse tipo de arranjo? Por que iríamos para as ruas em defesa de sermos explorados, só que sem tanto afinco? A charge da época de Bolsonaro, da árvore defendendo a motosserra pode ser substituída por uma em que a árvore defende o machado, simplesmente porque a devastação ocorre mais lenta - mas ocorre. Estamos adoecendo pelo trabalho, não vendo sentido na nossa existência coordenada pelo fluxograma de trabalho e consumo, e o que temos como proposta das esquerdas? Que utopia vislumbramos? (Comprei mas ainda não recebi o novo livro do Safatle, do que vi na minha bolha, ele parece fazer questionamentos nessa linha).

Quando o STF solapa direitos sociais, que democracia é essa que ele preservou? Por que estamos tão emocionados com o STF na defesa da regularidade das eleições (o que não significa não vê-lo como aliado de ocasião)? Convém ressaltar que para boa parte da população o fim da ditadura significou apenas a possibilidade de voto, nada além: seguem vivendo sob um estado de exceção, em que podem ser presos e mortos pelas forças do Estado sem qualquer julgamento, sem nem mesmo qualquer suspeita (os assassinatos perpetrados pela polícia em maio de 2006, por exemplo, contra mulheres grávidas, inclusive). Ou seja, uma democracia incompleta até no seu mais básico - que dizer se decidirmos democratizar ainda mais a sociedade. Se o STF tem agido contra direitos trabalhistas e sociais, ele não está defendendo a democracia, ele apenas agiu em favor de eleições, evitou o colapso total do sistema democrático, mas a democracia está longe de ser efetiva nestes Tristes Trópicos, e o Supremo, pela fala de Krein, é um dos responsáveis.



Boulos fala em “frente ampla” para estas eleições, outro termo que precisa ser preenchido - bem preenchido - para fazer sentido, para mobilizar. Seja a de 2022, com Lula, seja a frente ampla agora pela prefeitura de São Paulo, elas são frentes amplas a favor do que? É sabido contra o que elas são organizadas, mas a favor do que? Da democracia, esse termo vago e desacreditado (pela própria dinâmica da democracia em nossa sociedade periférica e pornograficamente desigual)? A favor de melhores condições de vida, de uma cidade melhor? Do amor? Da família? Tudo isso tem do outro lado - ou pode ter, se eles quiserem.

Precisamos dar substância para nossas propostas e reivindicações, mesmo que vagas, mas que tenham mais peso que palavras vazias, que possam significar algo para quem não é branco (ou embranquecido na sua forma de se pôr no mundo) e de classe média. Precisamos complexificar o debate político, não subestimar a inteligência da população. Recordo que na escola básica aprendi que nordestinos não sabiam votar, estavam presos ao coronelismo - afirmação sulista/sudestina feita com base em preconceito e três eleições, que ignorava a mesma dinâmica nos centros endinheirados. Nem preciso lembrar dos últimos pleitos presidenciais como votou a maioria do Nordeste. E quando falo em debate político não me refiro apenas a épocas de eleições. Se seguirmos com medo das ruas, incompetente para as redes, com problematizações escolásticas, discursos pautados por uma moderação que quebra qualquer tesão e definições vagas para significantes vazios e aderidos ao binarismo simplório da extrema-direita, a derrota será certa. O ponto onde estamos não é destino, mas estamos perdendo.


15 de março de 2024

quarta-feira, 2 de novembro de 2022

Estamos em guerra!

Uma guerra não começa quando é atirada a primeira bomba, ela começa quando, diante de um objetivo de poder, são traçadas as primeiras estratégias e preparadas as primeiras armas.


No Brasil da necropolítica permanente e recentemente potencializada e escancarada, os avisos vem de longo tempo - os sinais são nebulosos mas visíveis desde 2013. Porém, parte da esquerda só passou a desconfiar que a política foi substituída pela guerra nestas eleições, quando o sol ficou oculto atrás do enxame de aviões bombardeiros, e o solo se desfez sob nossos pés, diante do impacto das bombas. Dresden é aqui, Hiroshima é aqui, Nagasaki é aqui (Auschwitz é aqui há 500 anos ininterruptos, para as pessoas eleitas). Até então, essa parte seguia achando que as demonstrações da guerra nas periferias e as cicatrizes por ela deixadas em corpos pretos eram casos isolados, que os tiros na caravana de Lula em 2018 eram pontos fora da curva, e que o futuro nos redimiria milagrosamente, simplesmente porque estaríamos do lado certo da história. 

Ainda assim, não adiantaram as bombas, as mortes, o estado de esgarçamento social e emocional: uma outra parte da esquerda ainda acha que estamos fazendo política, e não guerra, segue achando que tem a verdade e que a história é alguma deusa do Olimpo - que Olimpo ainda influencia algo no mundo. Que tenhamos a verdade, que estejamos do lado certo, isso pouco vale numa guerra. Eis o imobilismo de quem não é capaz de suportar a realidade: esse legado moral só tem valor quando historiadores do futuro se debruçarem sobre nossos tempos, e a depender do lado vencedor - até hoje os europeus estão do lado de certo da história por todas as atrocidades e todo o genocídio cometido fora de seu território. Para agora, cabe é sobreviver, é seguir na história, podendo fazê-la e efetivamente atuando nela conscientemente. 

E para atuar é necessário poder - e não apenas a verdade. Até porque, se a verdade nunca foi condição necessária para vencer guerras, na atual, baseada no irrealismo-especular-espetacular da existência social e quotidiana, a verdade está sendo esvaziada de qualquer lastro imediato, se transformando em um signo vazio. E é por isso que parte da esquerda tem dificuldade em visualizar a guerra que vivemos, com toda a sua consequência, sua mortificação da natureza, dos corpos, dos ânimos, das esperanças. 


Sobreviver até amanhã é o objetivo da maioria das pessoas. E matar, numa autoimplosão que arraste consigo o que conseguir, quando nem esse amanhã puder mais ser vislumbrado. Esqueçam os planos de férias, de casa ou carro novos e outras quinquilharias: isso são ilusões para tirar as pessoas do presente, para não enxergarem que sua vida só está garantida até amanhã, se não se mortificarem hoje e sempre - e sempre é muito tempo. Por isso planejar as férias e as compras são importantes opiáceos - para quem ainda os possui. O neofascismo trabalha com esse encurtamento do horizonte histórico como forma de arregimentar seus fanáticos, seu exército, suas milícias - sim, o fim da história oficialmente é um lema neoliberal, mas o liberalismo nada mais é que um desvio, o fascismo tentando se portar à mesa da velha aristocracia medieval. 


Uma guerra não termina após a batalha principal. Waterloo, Stalingrado apenas inverteram o jogo, a guerra continuou. Quantos da esquerda sabem que estamos em guerra? Não é porque hoje não houve bombas caindo do céu que amanhã elas não cairão novamente. Se abandonarmos a luta e acreditarmos apenas na institucionalidade, como nos primeiros mandatos de Lula, seremos destruídos em menos de quatro anos - ou seguiremos dependentes da dupla Lula-Janones, num personalismo que não nos abre perspectivas.  

Lula venceu o pleito mais fraudado desde 1946. Ainda precisará assumir. Precisará assumir e ter condições de governabilidade. Precisará ter um país que não esteja todo destruído pela máquina de guerra encrustada no parlamento. Precisará enfrentar a guerra de classes travada pelo judiciário em conluio com a mídia. Precisará desarticular milícias formadas por agentes do estado e fanáticos religiosos.

As redes sociais seguirão um campo de batalha, de construção do irrealismo-especular-espetacular, que norteia afetos e ações de milhões de pessoas que nunca tiveram uma existência plena em suas vidas (nem tanto plena de direitos formais, e sim de contato consigo e com seus desejos).

As ruas seguirão palco de disputas, de protestos, de desvarios e de pautas justas - que podem trazer o cavalo de troia do fascismo, como o Passe Livre, em junho 2013 -; palco de violências e mortes, e acusações contra a esquerda. (O trancamento das rodovias que vemos neste pós eleição é um ensaio tosco: o ataque virá com Lula na presidência, a partir de um pauta legítima, talvez puxado por um movimento popular legítimo).


O Brasil é o destaque do momento na guerra mundial que o neofascismo pôs em curso. Por ser um país grande e importante e, ao mesmo tempo, de instituições fracas e vendidas, não desistirão fácil, e não hesitarão em investir nessa guerra, com o objetivo de instituir uma teocracia fundamentalista cristã ultraliberal (semi-escravocata), com a qual embolsarão lucros exorbitantes e exportarão sua noção de liberdade para a periferia do mundo - um arranjo que permitiria aos EUA terceirizarem parte de seu trabalho sujo no globo. Vale ressaltar que nunca tivemos uma ocupação estrangeira desde a separação de Portugal porque o exército brasileiro é essa legião estrangeira ocupando nosso território. A quinta coluna está posta no interior do Estado e paga com dinheiro dos nossos impostos.


Vencemos uma batalha, uma importante batalha, não a guerra. O risco de um contra-ataque rápido e de derrota seguem à espreita. Os neofascistas estão prontos para tomarem o Brasil de assalto (com apoio de boa parte de nossas elites e da burguesia internacional), se acharmos que podemos baixar a guarda. Pelos canais institucionais, Lula, PT e atores políticos relevantes caminham por um campo minado e precisam desarticulá-lo, sem ceder a anistias que deixam feridas abertas. Da nossa parte, mais que ocupar, é imprescindível manter o trabalho de base permanente, não apenas na internet (e de forma organziada e efetiva), como também nas ruas e praças. Estamos em guerra.


02 de novembro de 2022

domingo, 30 de outubro de 2022

Lula, Um Índio

Da minha casa, quando a festa na vizinhança se acalma, ouço ecos vindos da avenida Paulista. Tenho vontade de ir para a rua comemorar também, gritar o grito de alívio dessa batalha ganha, mas o cansaço fala mais alto. Cansaço, não: exaustão. 
Diferentemente das pessoas com quem cruzei durante a tarde, ao almoçar na Ocupação 9 de Julho e depois subir a Augusta e atravessar a Paulista hiper policiada, eu estava esperançoso, mas não confiante, e não consegui relaxar até o resultado final da apuração - mesmo agora, uma da manhã, sigo alerta: não haverá tentativa de golpe? 
Esse peso todo que senti aliviar às oito horas da noite, não era de hoje, nem do último mês. Mais que alívio, o que sinto nesta noite de 30 de outubro é um esgotamento que penetra feito frio os ossos. Estamos prestes a encerrar mais um tempo onde lutar por seu direito é um defeito que mata. 
São oito anos de golpe contra a democracia e a economia brasileira, iniciados no conluio grande mídia e judiciário, sob a batuta do Departamento de Estado dos EUA; são seis anos do início da militarização do Estado e implementação do ultra liberalismo, que joga milhões de pessoas na fome, enquanto militares se empanturram de picanha e viagra; são quatro anos do início da necropolítica explícita, aprofundada pela pandemia de Covid, em que todo brasileiro se tornou um muçulmano da vida nua; quatro anos de ampliação da destruição e da pilhagem de tudo o que fosse possível - deixarão para Lula administrar não exatamente um país, antes, escombros. 
São oito anos de derrotas em sequência, nas votações nas urnas e no parlamento (excluo daqui os nordestinos, que têm mais consciência política e tiveram um respiro em seus estados), que só foram estancadas agora, com a dramática vitória de Lula. Tivemos a vitória de Dilma, em 2014, é certo, porém uma vitória de Pirro, uma vez que se acreditou que vencida a batalha estava encerrada a guerra. Depois de oito anos de golpes permanentes contra o Brasil e sua população, depois de uma campanha eleitoral tensa, com abuso de todo tipo de crimes por parte do presidente, a vitória de Lula foi um alívio e se desenha como possibilidade de redenção nacional - e internacional, no combate ao neofascismo. 
Seu discurso de vitória foi grandioso, não por ter falado algo extraordinário em uma retórica sublime, mas por ter dito o óbvio para qualquer ser humano que não perdeu a humanidade e a empatia. Me emociono - justo por ser o óbvio, justo por ser o que perdemos no debate público desde 2013, justo por ver o quanto nosso tecido social foi esgarçado pela estratégia da extrema-direita. “É hora de baixar as armas que jamais deveriam ter sido empunhadas. As armas matam e nós escolhemos a vida". 
Um índio descerá de uma estrela colorida e brilhante. Estou cansado, preocupado, feliz. Amanhã vai ser outro dia, mas não é uma vitória eleitoral (a margem estreita é mentirosa dos verdadeiros anseios da maioria da população) que fará o óbvio retomar seu estatuto de óbvio - a mobilização e o trabalho de base serão mais necessários que nunca para, quem sabe, daqui oito anos, possamos estar discutindo os problemas do Brasil durante a campanha presidencial. Ouço fogos vindos da Paulista. Estou esgotado, e amanhã seguiremos nossa luta, impávidos como Muhammad Ali, apaixonadamente como Peri, o axé do afoxé Filhos de Gandhi, conscientes como um nordestino - porque a máquina da extrema-direita segue atuando na hora do almoço.


30 de outubro de 2022

 

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Lula e o PT precisam de uma leitura crítica e pessimista das nossas elites

Em sua participação no GGN 20h de terça-feira, 01 de fevereiro [https://youtu.be/iKCk-RphfUY], Pedro Serrano comenta sobre sua preocupação com a integridade física do presidente Lula - que já sofreu um atentado a tiro no Paraná (na região do Dallagnol, por sinal), em 2018, nunca investigado. Pego esse gancho para comentar a entrevista dada pelo ex-presidente a parte da imprensa progressista, em 19 de janeiro. O assunto não é o do momento, mas ainda é relevante. 

A entrevista foi ótima, com Lula marcando muito forte a necessidade de construção democrática via participação democrática - há um personalismo, mas que se apresenta como catalizador e não como quem vai resolver. Houve quem analisasse melhor a coletiva; aqui, quero pontuar dois momentos que me chamaram negativamente a atenção. Ambas, creio eu, são frutos da mesma falha de análise das elites brasileiras por parte do PT. 

O primeiro momento diz respeito à segurança de Lula. Aproximadamente aos 32 minutos, Luis Nassif, do GGN, pergunta sobre o risco de algo acontecer a Lula e Alckmin assumir. Após Lula esbanjar seu otimismo, dizendo que Alckmin é leal e ele pretende viver até os 120 anos, Nassif põe a coisa em termos mais concretos: milícias, escritório  do crime, ou seja: um atentado contra o presidente. Lula responde que não trabalha "com essa preocupação, mesmo sabendo que ela possa existir", pois o Brasil "não tem essa cultura" do assassinato do oponente, antes a da mentira.

Primeira falha: vamos aceitar que o Brasil não tenha "essa cultura", acontece que estamos vivendo a ascensão do neofascismo, se espalhando pela sociedade sem controle, com gangues, máfias e milícias, com ex-militares, religiosos e fanáticos de toda sorte. Se não tinha essa cultura, pode vir a ter agora - e os tiros no seu ônibus, em 2018 são uma pequena amostra.

Segunda falha: esse pressuposto de o Brasil não ter essa cultura de violência política. Lula com isso repete uma fantasia criada por parte das nossas elites, a do povo cordial. Talvez boa parte da população brasileira possa ser cordial, mas nossas elites não o são, nunca foram, e seus capatazes atuam exatamente como elas gostariam que atuassem: com violência, com assassinato, com extermínio, com tortura, sob a lógica do medo permanente. Dos capitães do mato a Felinto Muller, do delegado Fleury aos Bolsonaro e seus amigos de negócios, dos assassinatos de indígenas pelo agronegócio e pela mineração ao assassinato do congolês Moïse por cobrar a jornada que lhe era devida, dos 111 mortos da chacina do Carandiru ao mortos diários pela polícia em autos de resistência. A história do Brasil é uma história de violência contra população e resistências várias por parte dela - resistências ignoradas e desdenhadas por boa parte da nossa elite intelectual (inclusive de esquerda), que só sabe enxergar a partir dos modelos importados da Europa e EUA: a capoeira, o carnaval, os terreiros, as CEBs, e tantas outras são vistas como algo menor - resistências de segunda linha -; acusam a população de ser passiva (enquanto ela própria só arrota teorias sem nunca enfrentar as ruas), sendo que em um baile funk a PM mata 9 e tem o aplauso do governador!

O segundo momento complicado foi com cerca de uma hora e dois minutos, na resposta dada a Paulo Donizete, da Rede Brasil Atual, sobre a questão da industrialização e desenvolvimento sustentável. No fim de sua resposta, Lula diz que nossas elites "não se dão conta que não há democracia sólida se a sociedade não estiver bem estruturada do ponto de vista organizacional".

Pergunta que fica: nossas elites não se dão conta ou não tem interesse? Democracia para boa parte da nossa elite é totalmente dispensável, ou não teriam dado todo apoio à ditadura militar (ditabranda, dizem alguns); não teriam apoiado (mesmo que veladamente) e eleição de um candidato que defende a ditadura e cujo vicia anunciava um autogolpe. Para uma parte diminuta das nossas elites, a democracia vale como adorno para se apresentar em salões no exterior: pega mal vir de um país com um ditador (ainda mais um ditador amigo), não é a coisa mais agradável dizer que em seu país não tem eleições. Democracia de fato, nunca houve interesse da maior parte das elites brasileiras (inclusive das elites intelectuais, que se julgam muito acima do povo) e de boa parte de uma classe média que atua como sabujos dessas elites, esperando colher alguma migalha para poder se distinguir de seus pares de classe.

Segundo ponto: nossas elites econômicas são uma elite de rapina, praticam um capitalismo de butim no Brasil, são herdeiras diretas da mentalidade colonial - mesmo que tenham ascendido recentemente.

Parece que falta ao Lula e à inteligência do PT uma leitura crítica e pessimista das elites brasileiras. Quando falo em leitura pessimista não é ser fatalista, achar que é assim mesmo, e não vai mudar. É trabalhar a partir disso, de modo a enquadrar essas elites num projeto de nação de longo prazo, sem chance de usar políticas do governo para deslanchar seus negócios para, em seguida, abrir o capital na Bolsa de Nova Iorque, mudar a sede para os EUA, e a residência para Miami; ou então vender para o primeiro estrangeiro que fizer uma oferta razoável - como nos casos do projeto dos "campeões nacionais" que o PT tentou implementar apostando apenas na boa fé de nosso empresariado, como se capitalistas como Roberto Simonsen fossem a regra e não a exceção.

Lula está certo em defender a reconstrução do Brasil em bases democráticas, com participação de todos os setores da população - ainda que isso vá ocorrer dentro das limitações de uma democracia representativa liberal burguesa, por ora uma democracia de baixa intensidade, sem raízes na sociedade e sem lastro em boa parte da população. Contudo, tão importante quanto trazer o pobre para o orçamento e para as discussões e construções das políticas públicas, está em criar contrapartidas rígidas e de longo prazo para os capitalistas nacionais - as nossas elites. Negociadas até certa altura, mas em outra, restringindo, em favor de todo o país, as liberalidades que os donos do dinheiro sempre tiveram no Brasil. Haverá a ameaça de fuga de capitais, de que vão abandonar o Brasil. Sejamos realistas: como provam até hoje, farão isso assim que tiverem oportunidade, não importa quão pouco impostos paguem aqui, quão poucos direitos sociais tem seus empregados: o Brasil, para a maioria da nossa elite, é só um fazendão para fazer dinheiro que será desfrutado no dito mundo civilizado.


02 de fevereiro de 2022

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

As esquerdas precisam disputar o discurso evangélico (assim como os evangélicos disputam o discurso político)

Creio que é de Rubem Braga ou Carlos Drummond de Andrade, não consigo me lembrar (nem encontrar), uma crônica em que critica o boxe ser considerado um esporte: não vê sentido em dois seres humanos se socando, tirando sangue da cara do outro, até que um deles caia e não consiga levantar no prazo estabelecido. Certamente o cronista não se autorizou ver sem pré-conceitos os passos de dança de Muhammad Ali, seu balé contemporâneo enquanto lutava. Concordo, de qualquer modo, que há qualquer coisa de perverso em duas pessoas (geralmente de origem bem humilde) se deformando para o regozijo de espectadores impotentes, ávidos por esquecer do seu quotidiano, e lucro de alguns poucos oportunistas. Me questiono o que cronista-que-não-lembro-quem-era não diria das lutas de MMA, verdadeiras rinhas de rua transformadas em espetáculo (e que sequer pode se anunciar como esporte, uma vez que não se atém a princípios de ranqueamento), em que não basta derrubar o oponente, é preciso pular em cima dele quando nessa situação de desvantagem e esmurrá-lo até que o juiz ache que foi o suficiente - pois se seguir detonando o adversário, pode levar a consequências físicas que estragariam o show.

Esse preâmbulo todo foi para dizer que as esquerdas ainda entram no ringue político (no sentido amplo) achando que estão em uma luta de boxe, com suas regras bem definidas - inclusive para o nocaute -, quando estamos, de fato, num ringue de MMA. Estamos na lona, esperando a contagem para respirar um pouco e levantar para enfrentar novamente o adversário, quando de repente vemos o adversário caindo com o cotovelo em nossas costelas.

A aprovação de André Mendonça, o terrivelmente evangélico, para o STF, foi um desses golpes que tomamos já caídos. O desânimo era geral em minha bolha - e eu não me encontrava em outro diapasão: 27 anos com essa pessoa que nem precisa votar em favor dos interesses dos seus, basta sentar em cima de processos que não são do agrado de sua fé, enquanto reforça os discursos mais reacionários, e está feito o estrago - um Kássio com K piorado.

Porém, passado o golpe inicial, vida que segue, e eu retomo minha mania de buscar pontos positivos em situações em que não há efetivamente pontos positivos - na verdade busco brechas por onde eventuais saídas podem ser construídas.

Assim como em 2019 vi que o "dia do fogo" aconteceria independente de quem estivesse na presidência - e a ascensão rápida do fascismo fez com que ele não ganhasse musculatura social suficiente para ser uma força irreversível (diferentemente da sua penetração nos meios institucionais, em especial forças militares, Ministério Público e judiciário), a nomeação de André Mendonca talvez seja surpreendente por ter vindo antes do esperado - não foi surpresa alguma ter vindo. 

O projeto de poder das principais lideranças evangélicas do país é sabida há tempos, financiada de fora (segundo Noam Chomsky em Quem manda no mundo?) e posta em prática com estratégia (há vinte anos começou a ter uma entrada forte de evangélicas no curso de pedagogia da Unicamp, por exemplo, e creio que não tenha sido um ponto fora da curva entre os cursos de pedagogia; se meu palpite é correto, esse avanço de evangélicos nas primeiras letras não é sem querer nem sem consequências). A nomeação do terrivelmente evangélico não foi uma mudança de direção, não foi um ponto fora da curva, não foi nada além do que se desenhava há tempos - e tampouco foi um ponto de não retorno na transformação do Brasil na versão cristão-tropical do Afeganistão-talibã ou no primo pobre cristão da Arábia Saudita sunita.

A escolha de um jurista pífio - mas fiel ao projeto de quem o indicou - e terrivelmente evangélico é, claro, um ataque ao projeto de laicidade do estado. Contudo, diferentemente do que muitos comentaram, nosso estado nunca foi laico - a começar pelo STF, que vergonhosamente ostenta uma cruz católica em sua parede, compondo o cenário com a bandeira nacional no outro lado do presidente do tribunal.

A nomeação de André Mendonça pode nos servir de alerta do ponto onde estamos, e de qual estratégia seguir se está deverasmente em nosso horizonte, mesmo que distante, um estado laico que nunca foi mais que um projeto minoritário na sociedade brasileira - por confluência de nossa elite oportunista com uma população que historicamente tem na religiosidade um forte componente cultural, de pertencimento, e de dominação e resistência ao mesmo tempo.

O discurso evangélico hoje é forte, massivo e se alastra. Tem como principal divulgador as concessões públicas de radiodifusão e os grandes conglomerados religiosos adeptos da teologia da prosperidade - uma deificação do dinheiro e da meritocracia liberal utilizando passagens selecionadas (e muitas vezes deturpadas) da Bíblia cristã. Começa no templo de salomão transmitido em canal aberto e segue até a porta de casa de periferia transformada em templo de nome aleatório. Diante das incertezas e dos golpes do mundo, oferecem acolhida religiosa e apoio terreno. E é um discurso muito bem amarrado, não somente porque apresenta resultados práticos na vida do crente remodelada pela ética capitalista ensinada pela igreja, como pela construção dessa apresentação bíblica, que faz com que a crítica aos pregadores, se não for bem construída, se torne automaticamente um crítica a deus.

O discurso evangélico está muito além da religião e já há anos toma a vida política nacional - Garotinho, em 2002, foi um primeiro ensaio nacional, mas foi Serra, em 2010, quem abriu definitivamente essa caixa de Pandora, e ao mesmo tempo que ajudava a acabar com o PSDB enquanto opção democrática, deu o empurrão necessário para que pastores-comerciantes-da-fé ganhassem autonomia do governo petista e pudessem entrar na disputa pelo controle do executivo federal como parceiros preferenciais.

Já disse antes das últimas eleições: precisamos entender o momento e mesmo que defendamos o estado laico, é hora de disputar a narrativa religiosa - inclusive no campo político e eleitoral. Não só a narrativa: tendo trabalhado cinco anos em uma pastoral social da igreja católica (apesar de ateu), percebi como mesmo a esquerda ligada à igreja não dá conta de fazer a acolhida religiosa (que é muito diferente de vincular o auxílio terreno prestado a qualquer conversão à fé católica). É hora de cada vez mais abrir espaço para lideranças religiosas (evangélicas ou não) nos meios progressistas - partidos, mídias, academia, movimentos sociais - e, principalmente, é hora de largar o preconceito e o desdém com esse cristianismo de massa (em geral fortemente classista da esquerda que se pretende ilustrada, ao mesmo tempo em que muitos aderem a terraplanismos como signos). Lula, discretamente, marca bem essa posição da fé na vida dele: não era preciso falar, mas ele sabe da relevância que isso tem para a maioria da população - para o bem ou para o mal.

Eu gostaria muito de viver num país realmente laico, em que religião fosse crença de foro íntimo e não ideologia política, pré-requisito para vaga emprego, condição para ministro do STF (e nas quais igrejas pagassem impostos e prestassem contas do dinheiro que recebem, sem brechas para lavagem de dinheiro do crime organizado). Não é o país no qual vivemos e esse futuro estará cada vez mais distante se continuarmos a negar a centralidade dos discursos evangélicos na sociedade brasileira hoje.


03 de dezembro de 2021


Também publicado em https://jornalggn.com.br/opiniao/as-esquerdas-precisam-disputar-o-discurso-evangelico-por-daniel-gorte-dalmoro/

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Esperando pelo ônibus ideal

Em meu texto “Comunistas’, atestado de pureza e os empecilhos para uma união pela democracia” [www.bit.ly/cG200528], comentava das cobranças e exigências absurdas que parte das esquerdas faz para aceitar entrar em uma frente ampla pela democracia - ou antifascista, que seria um pouco menos ampla. Dois exemplos desde então reforçam minha análise.
Mais visível, a fala recente de Lula, de ir com calma antes de aderir a projetos de defesa de democracia, não sem antes conhecer a fundo os interesses dos organizadores - nesse ponto, parece sensato à primeira vista, mas só à primeira vista. Fosse só isso, já seria complicado. Porém o ex-presidente também trata de olhar para o passado de quem assina, e a adesão de golpistas ao manifesto Juntos, por exemplo, é motivo para ressalvas. Neste ponto, o líder do PT parece começar a aderir à política dos pequenos narcisismos e do ressentimento - essa que afundou FHC num homem público desprezível e drena Ciro Gomes para destino semelhante -, e tem sua visão do contexto e da própria força obnubilados. Isso se mostra claro (com o perdão do trocadilho), quando Lula diz que leitura atenta, passando lupa nos filigranas é importante “para a gente não pegar o primeiro ônibus que está passando. É preciso que a gente analise todos esses manifestos e que conversemos com os organizadores para saber o que eles querem.” Postura corretíssima em maio, quem sabe até em junho de 2019. Para 2020, o ônibus que está passando não é o primeiro, nem o segundo, nem o terceiro. Se é o primeiro que Lula vê, que se esperte, pois pode ser o último - ou o próximo a passar pode fazer desse uma maravilha, comparativamente. Pior: se não embarcar nesse ônibus, antes do próximo é capaz de no sentido contrário vir uma jamanta desgovernada, subir na calçada e atropelar todo mundo que está candidamente esperando no ponto o ônibus mais adequado.
Em boa medida por conta do PT e as esquerdas se centrarem muito fortemente na justa bandeira do Lula Livre, parece que esqueceram que precisavam também estar atentos para as demais pautas, reconstruindo o movimento de base, apoiados em propostas futuras a partir do presente (e não lembranças dos bons tempos), e costurando apoios amplos da sociedade. A “lulodependência” de boa parte da esquerda - e que não me parece ser culpa do próprio, que dá mostras de que queria ir para o segundo plano desde que acabaram as eleições de 2012 - impediu que se construísse uma frente antifascista, necessária desde longa data, desde que se atacava pessoas por usarem roupa vermelha, ou ao menos desde 2019, afinal, desde o dia 1º o fascismo está sentado no poder e se afirmando orgulhosamente - não era necessário esperar o caos para articular mais intensamente uma resistência. Se as esquerdas tivessem conseguido agir nesse sentido, essa frente antifascista poderia hoje estar na cabeça desse movimento mais amplo e mais urgente de defesa da democracia formal representativa liberal burguesa. 
Faço questão de ressaltar que tipo de democracia estamos defendendo - democracia que atende aos interesses do capital e ainda assim de estabelecida de maneira frágil, insuficiente, extremamente precária -, para que não esqueçamos que a defesa da democracia não está pondo em causa nenhuma proposta positiva de mudança, tão somente uma defesa negativa, uma reação a mudanças para muito pior que se desenham no horizonte. Que as coisas continuem como estavam até pouco tempo atrás para que seja possível, aí, sim, discutir mudanças profundas na sociedade.
O manifesto Juntos é de uma generalidade constrangedora, de estilo contemporizador - que Lula soube instrumentalizar no seu governo para implementar pequenas melhorias na qualidade de vida dos mais necessitados - capaz de agradar até mesmo fascistas, feito para fácil adesão de quem for que se encaixe em seus jargões amplos (inclusive evita o termo “direitos humanos” - talvez para não ser chamado de esquerdista?), sem nomear abertamente o presidente da república e seu séquito, ou seja, sem marcar claramente posição - em suma, é precário, mas ainda assim, é o que há. Será que não poderíamos ter um manifesto em defesa da democracia muito melhor, destemido, combativo, ainda que sem incluir pautas mais específicas, como saúde, educação e segurança públicas de qualidade? Aspiração plausível, mas não para hoje: ao invés de se preocupar com isso, boa parte das esquerdas estava em disputa por cobranças de autocríticas alheiras, esperando um líder messiânico que se provou ser só humano, com todas as limitações inerentes ao humano, por mais que seja de inteligência e perspicácia acima da média; e chorando as derrotas junto com seus pares nas suas confortáveis casas de classe média ou bares descolados.
O segundo exemplo de como as esquerdas estão perdendo absurdamente a “guerra de narrativas” em todas (ou quase todas) as suas frentes foi a profusão de bandeiras antifascistas que emergiram nas redes sociais, e as críticas (em parte pertinentes) ao seu uso por parte de quem não sabe o que é antifascismo, sua história ligada às esquerdas, ou comunga nos ideais da direita, quando não nos ideais fascistas - a fábrica de memes que domina o país não deixou de colocar “Witzel Antifascista”, “Doria Antifascista” e até “Partido Novo Mais ou Menos Antifascista” (porque pra tudo há um limite). Como disse, reconheço parcialmente a pertinência da crítica a esse uso indiscriminado da bandeira antifa, no caso em que se trata da instrumentalização oportunista por parte da direita de uma luta historicamente das esquerdas. Parte da crítica, contudo, é bastante impertinente e mostra a petulância de certas esquerdas e sua exigência de atestado de pureza e pleno conhecimento da história da esquerda mundial para quem deseja se juntar às suas lutas: se as pessoas estão usando a bandeira antifascista, eis a melhor hora para chamar essas pessoas para conversar, explicar o que essa bandeira significa, o que ser de esquerda significa, o que é o comunismo - em linhas muito gerais, para não acabar em briga de irmãos entre as diversas seitas, que passam a achar tudo o mais irrelevante diante da imperiosa necessidade de atacar o detalhe dissonante daquele que está ao seu lado. Porém, ao invés de chamar para conversar e acrescentar, prefere chamar os neófitos de burros ignorantes - um primor da inteligência estratégica que as esquerdas destes Tristes Trópicos parecem imbatíveis.
Há um além: a adesão de parte da direita que não tem problema em se aliar com os fascistas ao grito antifascista da moda mostra que haveria uma possibilidade de retomar parte da narrativa por parte das esquerdas, apresentando-se como um campo de luta pela defesa dos direitos humanos (esse que o manifesto do Juntos não fala), dos trabalhadores, dos excluídos das benesses do sistema, das culturas diversas e plurais, um campo acolhedor. 
Mas a combinação de “acolhedor” com “esquerda” parece, pelo que se lê em vários revolucionários de classe média da internet (aí incluído muitos professores universitários), mera construção teórica ou fato passado (pretendo me deter mais nessa questão em outro texto). O ressentimento é o modo predominante de fazer política também de parte das esquerdas. Um erro estratégico sem tamanho: a direita, em especial a extrema-direita, leva ampla vantagem na mobilização do ressentimento e na captura dos tocados por esse afeto. Por sorte, há uma esquerda menos vinculada à universidade e à classe média que sabe o que é mobilização, trabalho de base, empatia, acolhida - falta-lhe o que Bourdieu chamou de capital social e cultural para ter mais visibilidade, além, é óbvio, capital econômico. É nela que podemos vislumbrar esperança que não seja projeção narcísica de desejos pequenos burgueses de protagonismo inconteste.

03 de junho de 2020

domingo, 5 de abril de 2020

Entre orações, afagos e intervenções: as movimentações das forças políticas.

Ainda que a pandemia de coronavírus force a ações urgentes dos governantes de turno, necessárias para o aqui e o agora, atropelando convicções e conveniências partidárias, os políticos não deixam de agir também visando ganhos futuros - por mais nebuloso que seja o pós-pandemia.

O coronavírus trouxe uma oportunidade impressionante para quem está no poder, ainda mais nestas plagas: é capaz de fazer até o mais medíocre parecer bem preparado: se a crise financeira de 2008 se espalhou pelo mundo de maneira muito rápida, dado o estado da arte das comunicações e do dinheiro virtual, a pandemia ainda respeita minimamente os tempos da natureza - por mais que potencializado pelo estado da arte dos meios de transporte -, e até chegar na América Latina precisou de um tempo relativamente longo, em que dava para se preparar o mínimo, e uma vez aqui, tendo já experiências de sucesso e fracasso na China e na Europa, não era preciso inventar muita coisa - como foi em 2008 -, apenas acompanhar e adaptar o que deu certo. Mendetta, tido hoje como grande homem, na verdade é alguém que fez, se muito, o básico. Na Argentina, Alberto Fernández tampouco tem inventado qualquer coisa de excepcional, mas por seguir o recomendado, tem tudo para se tornar uma grande força política dos próximos anos, basta não cometer nenhum grande erro no pós-pandemia.

Nestes Tristes Trópicos, fala-se muito do governo federal - com boas razões -, mas convém ressaltar que os governadores tampouco se prepararam a contento, preferindo confiar que o coronavírus não se espalharia da forma como o fez. Quando veio, aí, sim, salvo patéticas exceções, não hesitaram em agir conforme os protocolos internacionais mais indicados. Há um movimento que deve ser observado depois, de como o pacto federativo será posto após isto passar, visto a organização de governadores e outros atores políticos e estatais à revelia do poder executivo nacional - desde sempre hipertrofiado, mas atualmente subutilizado.

Bolsonaro, como vários analistas já levantaram, parece arriscar (alto) em duas alternativas: a primeira, na senda do terraplanismo olavista e dos empreendedores de sucesso (e dos crimes fiscais e outros, bem ao gosto das sugestões do mito), ao insistir no discurso de manter a economia funcionando, é de que a quarentena imposta pelos governadores dará resultado, a pandemia não será tão grave como pode ser, e ele teria o discurso de que tinha razão ao querer que as pessoas não parassem. A segunda, em conluio com Guedes, parte de forças de segurança e do crime organizado, das igrejas evangélicas reacionárias e das protomilícias fascistas, é a de levar o país ao caos e permitir um estado de sítio, uma ditadura - que permitiria fazer "um trabalho que a ditadura militar não fez, matando uns 30 mil". Há quem diga que ele ainda não foi apeado do poder justo por receio de levante dessa massa fascista que o apoia. Contudo, mantê-lo como chefe de Estado, mesmo sem o poder utilizar a caneta presidencial, não o imobiliza como agente performativo: suas palavras tem poder de mobilização, inclusive por conta do cargo que está investido. Esse arranjo garante que pessoas sérias tenham um controle um pouco melhor da pandemia, mas não resolve o problema político - para 2022, por exemplo.

A chamada de jejum e oração do governo, para este domingo, dia 05, bastante ridicularizado pela porção mais ilustrada da população, não é um ato inócuo, pelo contrário: em momento de desespero, em um país onde as pessoas precisam crer em forças invisíveis - que o diga não apenas o crescimento evangélico que segue pastores charlatões, mas os terraplanismos quânticos, astrológicos, constelacionais familiares, wikkas, yogers e outros que animam parte das pessoas comuns afinadas com a esquerda progressista -, ele passa a imagem de alguém humilde perante os desígnios insondáveis de deus, reforça o elo com líderes religiosos reacionários, e dá a estes uma oportunidade de maior controle sobre o rebanho: quando a fome bater à porta com mais vigor, quando a doença se abater sobre as periferias, mesmo que haja leito para todos, estará ao lado o líder religioso para lembrar que trata-se de um recado de deus - e tal líder, claro, fará o trabalho de decifrá-lo aos desesperados incautos.

O outro fato marcante da semana foi o afago de Doria Jr a Lula. O gesto é um passo além do político neofascista tucano para repaginar sua imagem política e se gabaritar ainda mais como nome de consenso (e de combate) para 2022 - se houver eleições em 2022.

Como comentei em outro texto, da peleja entre Bolsonaro e governadores, Doria Jr soube se cacifar como o grande nome do confronto: tem feito o básico, sabido divulgar isso (com ajuda da grande mídia, claro) e ainda peitou sem medo o presidente [bit.ly/cG200327]. A bandeira branca acenada para Lula o mostra como alguém que saberia superar divergências no momento de urgência, disposto a conversar e compor com todos. Para o futuro, está pronto o discurso caso PT ou a esquerda se recuse a um pacto nos termos que ele impuser: a esquerda é intolerante. Com isto não quero dizer que o gesto não seja importante, até para baixar um pouco a polarização insuflada por ele e seus colegas de extrema direita - políticos e também jornalistas, inclusive os que posam de moderados e isentos -, como reabilitar o debate político em termos racionais como legítimo.

Para além da eleição de 2022, o outro motivo para o gesto do governador paulista talvez esteja na possibilidade de não haver eleição - e então ser necessário compor uma frente democrática. A intervenção no governo feita pelos militares, com o deslocamento de Bolsonaro para "Rainha louca da Inglaterra", aliado a um arrepio legalista do judiciário, podem animar parcelas das elites a apoiar um golpe latino americano clássico, isto é, um golpe militar, o que interromperia seus anseios políticos. Certamente, se esse cenário não avançar e voltarmos ao que era antes - um grande acordo nacional, com Supremo, com tudo -, o político não levantará a voz para defender o PT da cassação de seu registro, por exemplo.

Por seu turno, Ciro Gomes parece um dançarino de valsa: dois pra lá, dois pra cá. Quando parece que pode se reabilitar como voz do campo progressista, como no episódio da retroescavadeira antifascista protagonizado pelo seu irmão, que lhe dava até um álibi para o retiro em Paris no segundo turno de 2018, volta a deixar o ressentimento pessoal se sobrepôr a qualquer interesse maior: seu comentário sobre Lula na entrevista à revista Carta Capital mostra que ele pode ser alguém bem preparado, mas sua mediocridade pessoal se sobrepõe ao homem público. Já Lula tem se mantido discreto, o problema é a Luladependência do PT e das esquerdas, que não ocupam o palco livre - para agradecimento de Doria Jr.



05 de abril de 2020

quarta-feira, 19 de junho de 2019

#VazaJato: por onde vem, para onde pode ir?

O escândalo da #VazaJato, envolvendo judiciário, MP, mídia - enfim, setores das elites nacional e internacional -, traz aspectos inéditos para a correlação de forças nestes tempos ditos "da informação". Informar há muito não é apenas informar, é parte de estratégia de guerra, de desestabilização, tomada e perpetuação no poder. Houve tempo em que essa estratégia podia ser manipulada com o ocultamento da informação - como quando no golpe civil-militar de 1964 -, uma vez que a mídia corporativa e o estado detinham quase que integralmente a capacidade de comunicação de massa, fazendo com que as forças populares ficassem em desvantagem na contestação da verdade oficial e na construção de uma contranarrativa, por conta de seu tempo de difusão da reação mais lento. Não raro isso era trabalho para uma geração. Em tempos de internet, a força desse oligopólio diminui, sem necessariamente acabar - e sem necessariamente isso implicar em democratização. Ainda assim, a internet não tem mais permitido um controle do que é divulgado e do que é escondido, forçando outras estratégias de manipulação diante da exibição (ainda que apenas em potência) de tudo a todos. A extrema direita soube se aproveitar dos novos meios de comunicação e capturar suas possibilidades - com a complacência dos liberais esclarecidos do Vale do Silício, que não perdem dinheiro em nome de convicções políticas -, ao se aproveitar da avalanche de informações vindas de todos os lados para jogar com fake news e propôr a leitura da realidade em termos estritamente de convicções, sem provas - como dito pela própria Lava Jato, afim ao espírito do tempo, e não do espírito das leis -, sem se fiar em dados concretos da realidade - a tal da "pós verdade".
Glenn Greenwald e o The Intercept Brasil se mostram permeados pelo espírito de nosso tempo - a guerra híbrida, destacada por Piero Leiner, da UFSCar -, e sabem que jornalismo hoje não é apenas o mostrar, mas também como fazê-lo - ou então acaba como o Panama Papers, que foram divulgados, mas morreu rápido (até porque a grande mídia detinha o controle da narrativa e uma coisa é investigar, outra é se comprometer). O tempo da reportagem do The Intercept também foi extremamente oportuno: a reportagem despontou quando há uma onda virando contra o governo - não precisou ser ele a inaugurá-la. Tal onda é bem sintetizada nas três manifestações de rua no país ocorridas no mês de maio, duas contra e uma a favor do governo.
Se recordarmos as manifestações contra a Dilma, a direita sempre fazia a primeira manifestação - insuflada e inflamada por Globo e Moro/Lava Jato -, e a esquerda organizava uma em reação. Era uma disputa pela demonstração de força, em que a direita era evidentemente mais forte, e a esquerda tentava mostrar que não estava morta. Chama primeiro quem está mais forte: uma demonstração em resposta ao adversário (inimigo, no caso fascista) é mais fácil de mobilizar. Assim como se em 2015, 2016 a esquerda chamasse primeiro a manifestação, certamente seria muito menor e convidaria a uma reação que evidenciaria a força da direita, o mesmo ocorre agora, com sinais trocados: a esquerda chama manifestação, e diante do seu sucesso, os neofascistas chamam a sua, para mostrar que tem força, ainda que não tanto quanto (dia 26 não conseguiu sequer superar a do dia 30 de maio, e foi muito inferior à do dia 15). Além do descontentamento das ruas, uma vez que a promessa de paraíso imediato na Terra não se fez, o governo acumula dificuldade em lidar com o legislativo e desagrada aliados de primeira ordem. A revelação do The Intercept é uma pequena bomba nesse desarranjo. Vai forçar uma nova forma de tentar reordenar as forças de direita, porém não se sabe como isso se dará e quanto tempo resistirá.
Greenwald avisou que por enquanto foi apenas o começo, e o chumbo grosso ainda está por vir. Ele tem o controle da narrativa, conhecimento do espírito do tempo, paciência, e a direita batendo cabeça como quem entra numa roda de mosh/poga acidentalmente, temendo (ou talvez sabendo) o que o jornalista tem em mãos.
Os trechos soltos no domingo (09/06) são graves e serviriam para reforçar certas convicções, uma vez que apenas ressaltariam o que era evidente. Ao imitar o método de Moro e da Lava Jato, a VazaJato põe os críticos da República fascista de Curitiba em vantagem: não apenas temos convicção como temos provas. Porém, ao invés de negarem a veracidade dos diálogos, forçando um lance que a comprovasse, Moro disse que não havia nada de errado nos diálogos, enquanto Dallagnol esperneou sobre a pretensa ilegalidade do jornalista (do jornalismo?). O que seria um primeiro passo se tornou logo vários. Impressionante o grau de desespero e despreparo lavajatista (lembra a República de Salò de Mussolini, em 1943-45), porque não se tratou de um lance totalmente inesperado, visto que há duas semanas foi plantada a notícia de que o celular de Moro teria sido hackeado. Dois problemas dessa defesa preventiva: ao que tudo indica, as conversas vieram do Telegram do Dallagnol; segundo que Moro não conseguiu manter o discurso: ou hackearam o celular há duas semanas ou as conversas são antigas e por isso ele não as tem mais. Lógica porém é algo que não vale na pós-verdade.
As tentativas de reação estão na base de tentativa e erro. Negar a relevância e mudar o foco para o roubo das conversas e sua divulgação "ilegal" foi a tática primeira. Criar fake news para serem espalhadas como sendo parte dos diálogos entre Moro e Dallagnol, para depois deslegitimar tudo como invenção foi a segunda tentativa - em vão, porque a origem do material é bem específico e, portanto, na dúvida, basta ir até o Intercept ver o que é falso, o que não é. Forçou novamente a história do hacker, tentando estimular um sentimento de medo e de vulnerabilidade, como a sugerir que qualquer um pode ser alvo de hacker, e melhor então fechar com Moro. A estratégia parecia não estar dando certo, a ponto de Moro ter dito que parte foi inventada para prejudicá-lo, depois tentar nova estratégia, de bancar o que disse e relevar, dizendo que foi um “deslize”, até voltar, novamente para a história do "hacker criminoso" e do "não lembro, não gosto, logo foi inventado". A única estratégia mantida, e que tem tido algum respaldo, ao menos nas hostes neofascistas, é a de que isso tudo é uma reação dos corruptos por ele combater a corrupção.
E foi essa que o The Intercept começou a minar na quarta (12/06), com o "teaser" de Demori a Reinaldo Azevedo, se aproveitando do espírito do tempo, afim a teorias conspiratórias. O trecho do #InFuxWeTrust não insinua nada, mas deixa as portas escancaradas para as teorias conspiratórias soltas para virem com força. Não por acaso, na mesma noite eu já recebia textos “juntando os pontos” com o “com supremo com tudo”, de Jucá; e a morte de Teori Zavascki. Estratégia usada à exaustão pela Rede Globo durante o impeachment, e que pode fazer com que muitos apoiadores convictos da Lava Jato tenham um “insight próprio genial” de que algo de errado havia em Curitiba, e nisso baixar a guarda para o que mais virá.
Outro ponto interessante é como acusados e acuados estão tentando se organizar. Mesmo antes de ser anunciada, a Globo sabia que seria alvo próximo, e logo cerrou fileiras em defesa de Moro. Contudo, o governo Bolsonaro não cansou de dizer que “a Globo mente” e isso, além de dificultar a concatenação de ideias dos seus seguidores - incapazes de ir além do binário “bem x mal” -, também força a Globo a defender um governo que tem tirado suas verbas e favorecido a rival, se conseguir salvar Moro, atacará outros flancos do governo - caso salve Moro e caso Bolsonaro não aceite um acordo. Se Moro naufragar, Globo estará em grande risco e deve defender qualquer solução drástica que garanta seu poder - a ver como andam seus contatos externos. Parte da grande mídia, um pouco menos unha e carne com Moro e Lava Jato, talvez sem "batom na cueca" (para usar a mesma expressão dos doutores do Ministério Público), já tratou de pedir a cabeça do ministro - que se sair agora tem uma remota chance de se tornar o mártir da luta contra a corrupção para a porção fascista mais extremista, ainda que a cada revelação do The Intercept ele se complique mais e não há sinais que sua queda estancará as revelações.
O exército bolsonarista apoia Moro - na verdade repudia o PT e Lula, e na lógica binária destes tempos qualquer vitória de Lula é encarada como derrota total de Moro -, e está disposto a bancar o ministro e o capitão, como indica o general Heleno. Porém, a demissão do general Santos Cruz pode sinalizar algo mais que uma desavença com os filhos do presidente e Olavo de Carvalho. Mourão está ao lado, só observando e fazendo pose de democrata, provavelmente se articulando dentro das forças armadas. O exército teme sair queimado do governo Bolsonaro - já tinha esse risco sem escândalo, com o MoroGate fica ainda mais na berlinda - e perder a reputação que ganhou ficando quieto por trinta anos - ademais, a depender do tamanho dos equívocos que o exército se meter, pode fazer voltar à tona a verdade sobre os porões da ditadura que ele tenta esconder e negar que existe, apesar dos elogios do presidente.
Gilmar Mendes é figura ambígua nesse imbróglio. Convertido em garantista - ele que já defendeu a cassação do registro do PT -, talvez por ter percebido que o monstro que ele ajudou a criar fugiu do controle e agora lhe morde os calcanhares, aparentemente peita o exército e a mídia ao dizer que as conversas vazadas anulariam a sentença de Lula. Pode ser também mais lenha numa saída “heterodoxa”, de um fechamento do regime, de modo a evitar a soltura de Lula ao mesmo tempo que acaba com a Lava Jato e garante o grande acordo das elites de rapina do país, com supremo, com tudo.
O PSDB se afunda cada vez mais. Doria Jr segue aparecendo ao lado de Bolsonaro, e FHC, que foi um dos primeiros lumiares do partido a defender Moro diante da VazaJato, ganhou de presente de aniversário a comprovação da amizade e admiração de Moro-não-podemos-melindrar e Dallagnol-dar-a-impressão-de-imparcialidade. Quem pode herdar o discurso neofascista-neoliberal é João Amoêdo, o empreendedor que nunca empreendeu de fato (versão 2.0 do João trabalhador?), suas credenciais de nunca ter roubado dinheiro público (sic), uma verdadeira virgem com 20 anos de bordel, e sua defesa de pautas ultra conservadoras nos costumes e estado social zero.
Ao que tudo indica, se os primórdios da Lava Jato prometiam uma ruptura política, ferindo eleitoralmente de morte as esquerdas, em especial o PT - as eleições de 2016 seriam o primeiro sinal -, o erro na dosagem já havia enfraquecido a operação e reanimado o PT, a ponto de exigir um golpe menos branco e mais aberto em 2018, para evitar a vitória seja de Lula, seja de Haddad. A VazaJato, por seu turno, sinaliza a possibilidade de outra ruptura, porém do outro lado do espectro político, ou então uma ruptura aberta com a ordem democrática e o sepultamento definitivo do estado de direito - não por acaso, Greenwald passou a dividir o material recebido com outros jornalistas, de modo a forçar um escancarar da censura geral, sem possibilidade de individualizá-la a um "veículo estrangeiro", caso Moro e os neofascistas endureçam a perseguição ao veículo.

Parte da força narrativa da VazaJato é jogar na mesma moeda moralista da Lava Jato, uma vez que escancara a corrupção do judiciário (e logo mais teremos da mídia também). Infelizmente segue um discurso despolitizador. Ao The Intercept Brasil não cabe cobrar esse passo além - ao que tudo indica, eles escolheram seus alvos (a farsa da Lava Jato), tem suas metas (além da República de Curitiba e da Globo, não me surpreenderia em breve artilharia para cima do TRF4), e tem suas armas, que são limitadas -, cabe, sim, aos partidos políticos e seus quadros, movimentos sociais e demais forças progressistas: é urgente, a partir dessa narrativa, politizar o debate - quebrando, em especial, com essa ideia herdada do cristianismo de pureza nas ações sociais - e não se restringir a essa camada frágil do moralismo, facilmente capturável pela extrema direita. A esquerda não pode nem ir apenas a reboque nem errar na avaliação do que se passa e das alternativas que se insinuam. Vivemos tempos difíceis, porém a VazaJato abre possibilidades de mudanças significativas, se bem aproveitada - ou pode se tornar uma nova "jornadas de junho de 2013".

12-19 de junho de 2019

domingo, 16 de junho de 2019

Lula, o socrático

Ao assistir à entrevista do Lula ao Juca Kfouri e José Trajano, da TVT, dois aspectos ganharam nova dimensão para mim - questões secundárias, talvez, mas que ajudam a pensar o todo, a entender o principal.
Em certa altura, creio que trazendo uma pergunta de Frei Betto, o ex-presidente é questionado se se arrepende das indicações ao STF, e diz que não. Minha primeira reação foi fazer coro a parte da esquerda que o condena por não fazer uma autocrítica (a direita também faz esse tipo de condenação, mas é puro cinismo, porque ela o condena por tudo e por nada): "como assim não se arrepender de Dias Toffoli, 'Carmen Lúcifer' (como diz Igor Leone), Joaquim Barbosa, primeiro justiceiro televisivo de toga anti-PT?!" Ao invés de me achar com toda razão, tentei entender as razões que Lula poderia ter para dizer isso, além da evidente: se arrepender não resolve absolutamente nada, não desnomeia ninguém, e estamos falando de assuntos sublunares e não supralunares. Achei duas razões: a primeira, que sua liberdade está nas mãos do STF, e seus ministros, como espécimes exemplares do judiciário brasileiro, julgam não conforme a Constituição e as leis, e sim de acordo com desígnios secretos e subjetivos - a cor da roupa de baixo, se dormiu bem, o que o colega de academia vai pensar do seu voto, o que a tevê diz, o que ele ou ela enxergou na Bílbia na última epifania enquanto fugia do pecado do desejo da carne que o/a assomava -, logo, melhor não se indispor. A segunda é que, parafraseando Ciro Gomes, "o Lula tá preso, babaca", uma prisão arbitrária e indubitavelmente injusta, ainda assim, uma prisão, uma solitária. Destarte, o que lhe cabe é se afirmar de maneira positiva, até para mostrar a pequenez de quem o acusou e condenou, e não buscar suas falhas, porque isso não vai nem mobilizar quem cobra autocrítica nem demover quem tem convicção de sua culpa. Não que Lula não precise reavaliar pontos de seu governo, mas na prisão esse gesto soaria como uma capitulação aos seus algozes: assumir em tal situação que errou seria dar ensejo para fazê-lo assumir outras coisas mais, como o triplex, o sítio, a conta na Suíça, o atentado de 11 de Setembro. Por ora, a tarefa de crítica dos governos Lula e Dilma deveria ser feito pelo PT; porém o partido fica entre fazer coro uníssono ao Lula e tentar fazer o tempo girar pra trás e fechar acordos questionáveis como se o pacto de 1988 ainda vigorasse de fato.
O segundo ponto que me chamou a atenção está difuso pela entrevista, e mostra porque a elite e a classe média sem espelho tanto o odeia - e porque admira e idolatra Moro e Bolsonaro.
Lula não esconde sua origem, não se envergonha dela, não se acha inferior por isso. Mais, fora da lógica binária em alta no país (e no mundo) atualmente (e que não é privilégio da direita, parte da esquerda acadêmica é primária nesse aspecto há décadas), não se sentir inferior não implica em se sentir superior. O exemplo do não se levantar para o Bush é emblemático: não o fez por se achar superior, mas um igual. Além disso, Lula é uma pessoa ciente de e bem resolvida com suas limitações.
Costumo dizer, baseado em Sócrates, que há duas formas de se relacionar com a própria ignorância: ou você se orgulha dela e a utiliza como móbil da busca pela ampliação dos conhecimentos, ou você deliberadamente ignora o que não sabe, se imobiliza onde está seguro e se orgulha (ainda que pelo não-dito) da sua ignorância. Bolsonaro e seus seguidores, admito, abrem uma terceira alternativa: a pessoa que se sabe ignorante, se orgulha dessa ignorância e se orgulha ainda mais de insistir em ser ignorante - o ideal talvez fosse desaprender até chegar ao grau zero do entendimento e do conhecimento, mas é aquela metáfora do fruto proibido: uma vez mordido, não dá para voltar à completa ignorância.
Moro tem a soberba dos parvos deslumbrados com o elogio da própria mãe (o verdadeiro "idiota útil" que outro idiota útil viu nos manifestantes de 15 de maio), é o ignorante que quer destruir tudo (e todos) que aponta suas faltas, suas falhas, que contradiga a perfeição enunciada pela mãe. E dá sinais o tempo todo de quão mal formado é. Exemplo básico é o fato de não possuir sequer conhecimento da língua - sua e de seus chefes: é o "testo" de seu doutorado, o "conje" da sabatinada no congresso, os erros crassos de concordância toda vez que aparece falando mais que uma frase, seu patético inglês macarrônico. Tudo isso sempre escondido em sua face quase sempre séria, sisuda, quase sempre enfezada, de raros sorrisos comedidos e que não convidam a sorrir junto, sequer a querer saber o que teria despertado tal sentimento. Para quem se acha muito culto e erudito, é pecado mortal demonstrar tanta ignorância.
Lula, por seu turno, sabe de suas limitações e diante daquilo que não tem relevância, faz piada de si próprio: diz logo que só chama de Glenn porque pra pronunciar Greenwald iria dar nó na língua; mesmo na prisão Lula gargalha, transforma sua raiva em tiradas hilárias, como dizer que Dallagnol treinou bolinha de gude no carpete e a empinar pipa no ventilador (e mal sabe ele: sozinho, ainda por cima). É alguém que sabe que protocolos devem ser seguidos - e uma boa apresentação é parte do protocolo de um presidente -, mas também sabe o quanto eles tem de ridículo para serem levados excessivamente a sério, e que podem ser tensionados - sem ser ele o ridículo (como usar chinelo com terno). Lula é vivido, é alguém com leitura de mundo e contexto, é inteligente e fala em alto som de suas ignorâncias e de como tem tentado superar as lacunas importantes (saber sociologia, economia, história é importante, falar Greenwald ou advogado corretamente, não).
Tanto Lula quanto Moro/Dallagnol/Bolsonaro podem ser tidos como sínteses de elementos do país. Os neofascistas tem tanta admiração das classes média e alta (principalmente) porque elas vêem neles um reflexo de si próprias enaltecidas pela Globo: se reconhecem nas suas "qualidades" e se sentem elogiadas por William Bonner, Merval Pereira, Miriam Leitão e que tais. Já Lula é mais que uma síntese de uma democracia encarcerada para pilhagem do país e seu futuro, Lula é síntese do futuro que o país precisa: um país que reconhece e assume seu passado e que sabe que não pode ficar onde está - onde sempre esteve - e precisa se transformar, para desenvolver suas potencialidades.

16 de junho de 2019

sábado, 27 de abril de 2019

Uma ópera que dialoga com o Brasil de 2019 [Diálogos com a ópera]

A escolha pode ter sido fortuita, não sei; se foi o caso, houve algo no inconsciente que certamente norteou a montagem da ópera La Clemenza di Tito, de Mozart, no Theatro São Pedro. 
Último remanescente dos teatros com nome de santo da capital (São Paulo, São José), ainda não foi consumido rapidamente pelo fogo, mas seguidamente está sob fogo estatal, que o queima lentamente (vide sua orquestra, pequena e jovem), sob permanente risco de corte drástico de verbas - quem sabe para transformá-lo em outra loja de cama-mesa-banho (como antigo espaço artístico no Brás), ou numa igreja evangélica, mesmo? -, fogo intensificado sob os atuais governos neofascistas e anti-intelectuais, anticultura (que não seja propaganda louvatória do poder e do líder).
La Clemenza di Tito a princípio é apenas uma ópera a falar de tempos remotos, composta para a coroação do rei Leopoldo II, da Boêmia. A montagem feita pelo Theatro São Pedro (direção musical do maestro Felix Krieger, e concepção, encenação e iluminação de Caetano Vilela), ao aproximar a Roma antiga do século XXI, busca certa sintonia dos elementos, mas também explora dissonâncias, coisas fora do lugar (ou do tempo), abrindo - principalmente no primeiro ato - uma possibilidade leitura política acerca do contexto brasileiro atual.
O cenário feito com andaimes sinaliza um império ainda em construção; há elementos de alguma imponência, brilhos e dourados, porém há algo roto, marcado do início até o fim no grande bloco de granito rachado que fica no centro do palco - sem que seja necessariamente decadência, ruína.
O grande ruído é o figurino. Na verdade foi tentando entender o porquê daquelas escolhas aparentemente infelizes que comecei a fazer a leitura política da ópera. Se o coro estava à romana, os soldados marcavam diversidade étnica, e também uma certa simplicidade no figurino, deixando de lado o realismo. Nos personagens principais, contudo, o ruído é evidente, incomoda, faz pensar. Vitellia com sua roupa vermelha e sua vasta cabeleira branca  parece rainha de cabaré. Sesto e Anio, gordinhos, barbudos, cabeludos, tererê no cabelo, algo meio hipponga, meio saído de Piratas do Caribe, meio saído da casa da mãe não faz muito. Tito com sua roupa cheia de dourado fajuto - se tem pose imperial, a roupa o desmerece.
Tito, quatro letras, como Lula. Um líder carismático, carinhoso, que evita grandes conflitos, preferindo sempre contemporizar e perdoar, deixar quieto (seja aceitando a recusa de Servillia ser esposa de Tito, seja como quando Veja publicou a fake news (então só notícia falsa) de que Lula teria contas na Suíça). Um líder talvez demais deslumbrando com um poder que mais reluzia do que deveras era - e a dificuldade em aprovar grandes mudanças estruturais, talvez mais que falta de vontade de Lula fosse falta de possibilidade, mesmo (como ficou evidente na facilidade com que se desfez, por exemplo, a vinculação de parte das receitas do pré-sal à educação). Pelo visto, nós que nos deslumbramos com o poder, Lula parecia ter mais noção de que o que reluzia ali era ouro de tolo.
Vitellia pode ser interpretada como a burguesia, sempre ávida pelo poder, ainda que não esteja apta para assumi-lo diretamente (por saber da sua incompetência; na ópera, por ser mulher). No fim, acaba por decidir por uma alternativa mais drástica e mais breve para tentar alcançar seu objetivo e acaba dando um tiro no próprio pé: Tito, ao aceitar a recusa de Servillia em casar com ele, escolhe Vitellia como segunda opção; mas nisso ela já havia ordenado Sesto matar Tito, o que significava que acabaria sem o trono.
Sesto é o estereótipo do povo que bate panela da laje de sua casa de bairro classe média. Maltrapilho que tenta imitar os brilhos do imperador, aceita matar Tito, a quem idolatra, para atender ao desejo de seu amor, Vitellia. Interpretado pela mezzo-soprano Luisa Francesconi, a voz muitas vezes mais fina que das mulheres dá um ar de impúbere ao rapaz - apesar das barbas -, e reforça a carência de autonomia. Ao fim do primeiro ato, se tudo indica que Vitellia perderá a chance de ser imperatriz, Sesto deverá ser condenado à morte.
O segundo ato encaminha a trama para um final feliz. Aqui a trama perde seus maiores contatos com o contexto brasileiro - ficando no plano do que poderia ser. É quando o cenário ganha mais ares de século XXI, com um tapume de metal pixado ao fundo - reforçando certo descompasso entre os elementos da montagem. Se na ópera a trama de Vitellia e Sesto acaba mal, mas Tito evita que qualquer um tenha final trágico, a vida real nos presenteia com um drama menos edulcorados: às mazelas do presente que boa parte da população suporta sequer há a justificativa de ser em nome de uma melhora no futuro - são apenas mazelas, como um ataque de gafanhotos, ainda que produzidas pelos donos do poder. A burguesia que fez festa com sua sagacidade desde 2014, se não está tão mal quanto povo, não tem o que comemorar. E Lula/Tito não aparenta ser mais o mesmo paz e amor de pouco tempo atrás - porém tampouco tem posição de poder na estrutura burocrática do estado para começar alguma mudança significativa desde de dentro. Sobra ao povo, Annios e Sestos, se mobilizar, buscar alguma brecha que permite respirar no presente e voltar a sonhar com algum futuro. Vivemos mais que uma crise econômica, e a ópera regida desde Brasília (ou seria Washington?), se se seguir nesse andamento, não terá final feliz para quem está no palco - e na plateia.

27 de abril de 2019

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Ciro Gomes, o político sem virtù

Ciro Gomes (atualmente PDT) tem dois grandes defeitos enquanto político: pode até acertar na leitura do contexto, mas é ruim de estratégia e, para quando dá sorte, é destemperado demais - não possui virtù, para usar o termo de Maquiavel (contrariamente a Lula, alguém de grande virtù). Já que falei do pensador político florentino, é capaz notar uma certa inteligência maquiavélica no político cearense: ele tentou, ao longo da sua vida pública, equilibrar três princípios gerais: inserção internacional, indústria nacional e melhoria das condições sociais (posta de cima para baixo), oscilando entre cada um deles conforme o espírito do tempo - um coronel esclarecido bem inserido nos princípios democráticos formais. Acusá-lo de mudar de lado conforme lhe parece mais vantajoso traz implícito uma exigência de pureza e coerência impossível de encontrar no mundo real, muito menos na política - o que faz deduzir que tais acusadores fechem os olhos para seu próprio campo ou partido. 
Acrescento um novo princípio político, emergido em 2018: o ressentimento. Plenamente compreensível sua raiva com o PT, que tirou-lhe o apoio do PSB - um lance eleitoral perfeito, só que péssimo para o momento do país [bit.ly/cG180808] -, diminuindo as chances de poder ser o candidato progressista mais bem votado - o golpe baixo das fake news via Whatsapp, por parte dos fascistas, indica que sua vitória seria tão ou mais difícil que a de Haddad, já que seria taxado de comparsa do PT, e se não fosse mamadeira de piroca alguma outra aberração inventaria, e não contaria com uma base orgânica como ainda possui o PT. Ao que tudo indica, com esse seu novo princípio ele cava sua cova e pode seguir Marta ex-Suplicy, Marina Silva e Cristóvão Buarque, e ir curtir a aposentadoria da política (ou, pior, imitar Gabeira, mas Ciro não aparenta estar demente).
Ciro Gomes parece acreditar que sua grande chance foi em 2018: não foi. Chance real ele teve em 2002, quando torpedeou sua própria campanha, ao soltar uma frase infeliz sobre seu casamento, oportunamente explorada pela mídia tucana - um segundo turno entre ele e Lula, certamente seria o candidato oficial do status quo. Porém, a grande chance teria sido em 2014: Dilma vinha cambaleante, 2013 ecoava genéricos pedidos mudanças, a campanha goebbelsiana do antipetismo ainda não criara raízes, o PSDB vinha sem toda a força possível, graças a Serra, que impediu Aécio de se tornar nacionalmente conhecido em 2010; Marina entrava pela centro-direita, com discurso de generalidades abstratas e disputando (de leve) o legado antipetista. Sem a crise ter pego o país, era o momento para um candidato de centro-esquerda despontar anunciando mudanças no que ia mal, sem negar todo o legado positivo dos doze anos de PT federal. Era o discurso que ele ensaiava havia tempos e teria ainda mais força se viesse de um recall de 2010. Não sei por conta de quais conchavos, Ciro se absteve de participar das eleições presidenciais mais favoráveis a si - um grande erro de estratégia, de timing.
Em 2018, com o antipetismo ganhando o papel de sintoma da fascistização da sociedade (ao estilo da aversão ao Front Populaire da França pré-Vichy, "prefiro uma dúzia de Hitlers a um Léon Brum omnipotente"), Ciro se viu hesitante em qual estratégia aderir, se a um pós-petismo ou um antipetismo de esquerda (até porque Boulos havia abandonado essa retórica típica (e adolescentóide) do PSOL). Passou a campanha em passo ébrio, e no segundo turno chafurdou na própria pequenez ao recusar engrossar as fileiras antifascistas - que implicava necessariamente em apoio a Haddad.
Os novos movimentos de Ciro apontam que ele acredita numa certa manutenção da democracia formal, ainda que tutelada, o que significa eleições em 2022; e que ele vislumbrou uma avenida aberta e desocupada na centro-direita. É a mesma avenida que os estrategistas do General Mourão enxergaram, e para a qual ele caminha, com discurso de defesa da democracia, de liberalização dos costumes, de cordialidade no trato com o adversário. O mesmo Mourão que três meses atrás falava em autogolpe, que índio era preguiçoso, que Ustra é um herói e que compunha chapa com Bolsonaro, que defendia metralhar a petralhada - não que seu novo discurso não seja válido (e louvável) diante da conjuntura atual (como era positiva a aproximação de Alckmin com a esquerda do partido, antes de descambar no antiesquerdismo tosco, durante a campanha): é um modelador de comportamento e influencia os "cidadões" do país, porém convém atentar aos discursos que ele não tem feito, sobre questões de ordem econômica, laboral, de desenvolvimento nacional, etc.
Tal vácuo surgiu da migração do PSDB para a extrema-direita, ao abandonar seus princípios liberais com Serra, em 2010, democráticos com Aécio, em 2014, e o pouco que restava de liberal e democrático com Doria Jr, em 2016 [bit.ly/cG160201], que passou a assumir explicitamente o antipetismo como bandeira quase exclusiva - um político sem escrúpulos, que navega conforme os ventos, mas que me parece desprovido também de virtù: depende exclusivamente da fortuna.
O ponto é por onde construir o discurso dessa nova direita. O antipetismo, além de não ser uma plataforma política, apenas eleitoral, já tem sua raia congestionada - e deve refluir, na medida em que o antipetismo mostrar todo seu fracasso na condução do país e a culpa à herança petista passar o prazo de validade. Amoêdo mostrou toda sua incompetência, ao chegar com o Novo fazendo coro ao velho - deve ainda crescer, no vácuo do discurso modernex-cosmopolita-entreguista que o PSDB abriu mão, mas para ganhar possível protagonismo, terá que se reinventar. Mourão é quem vai ganhando esse terreno, deixando retoricamente de lado menções a petismo, antipetismo ou pós-petismo.
Seria a chance - talvez última e precária - de Ciro, se conseguisse construir uma imagem de pós-petismo de centro-direita - visto que a esquerda está enfraquecida, por conta da campanha da mídia corporativa ao longo dessa década e meia. Disputaria, por ora, com General Mourão - e o fato de ser um civil seria ponto positivo entre os defensores do "bom senso". Fechar com Rodrigo Maia (DEM) e participar da mesa do Congresso parece estar inserido nessa leitura - legítima, se se negar o caráter fascista do presidente (o que também é mitigado pelo fato de suas milícias não terem vingado). Participar de debate da UNE seria uma forma de manter pontes com a esquerda desiludida com o PT - com ou sem motivos. Bater boca com militante, legitimando (e, implicitamente, comemorando) a prisão arbitrária de Lula e aderindo, assim, ao antipetismo mais raivoso, é passar a disputar votos com Bolsonaro e o PSDB Doriana - e aí, Ciro perde, como perde também parte da esquerda desiludida com o PT mas ciente do que está sendo feito com Lula (acho mais sincero falar que Lula é prisioneiro de guerra, assim como outras prisões kafkianas atuais: Milagro Sala, Jorge Mateluna, e mesmo Weng Mei, Michael Krovig, Carlos Ghosn - a questão se a guerra é contra o inimigo interno ou externo).
É ver se Ciro Gomes consegue se retratar e seguir na sua construção de político sério de centro-direita, democrático, com interlocução com a esquerda. Eu não apostaria, a tendência é que ele definhe, traído pela própria língua, e se enfurne na política cearense ou se aposente.

08 de fevereiro de 2019