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segunda-feira, 1 de junho de 2026

Neymar, o pitagórico [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Então é Copa do Mundo, ou quase. Não tenho uma escalação ideal para palpitar, mas quero enfiar meu bedelho na polêmica convocação do Neymar. 
Para tal empreitada, tendo sempre em mente a neutralidade científica e uma avaliação desapaixonada (ao melhor estilo weberiano), deixarei de lado minhas opiniões pessoais sobre a referida pessoa. Isso talvez desagrade muitas das minhas desocupadas leitoras, dos meus desocupados leitores, mas me fio pela verdade e pela justiça, independente de quão impopulares e desagradáveis tudo isso pode ser. Ao veredicto. 
Sem concordar com quem apoia Neymar, preciso, contudo, discordar veementemente dos críticos do provável camisa 10 do escrete canarinho. Não tanto pelas avaliações desabonadoras de sua condição atlética, de sua forma física e da qualidade atual de seu futebol, mas pelo que falam - injustamente - da pessoa Neymar.
Muitos o acusam de imaturo, de estar em idade - 34 anos - que não permitiria mais ser chamado de Menino Ney, muito menos de agir como um adolescente playboy mimado, sem comprometimento com coisa alguma que não seus desejos de reizinho.
O que tem passado despercebido dessas pessoas é que Neymar, na verdade, tem um pé no pitagorismo. A partir do momento em que se entende isso, que se conhece alguns princípios pitagóricos, tudo faz sentido, e esse ídolo da machulência, de mau caráter mercenário pode passar a ser visto como adepto da filosofia criada por Pitágoras de Samos, ainda no século VI antes da era comum.
Quem me deu a letra foi o Brotinho, que está lendo Foucault. No curso da Hermenêutica do Sujeito, na aula de 20 de janeiro de 1982 (exatos dez anos e quinze dias antes do nascimento do craque, o que não deve ser por acaso), página 85, diz o filósofo “que para os pitagóricos a vida humana era dividida em quatro períodos, cada qual de vinte anos: durante os vinte primeiros anos, na tradição pitagórica, era-se criança; de vinte a quarenta, adolescente; de quarenta a sessenta, jovem; e, a partir dos sessenta, idoso”. Ou seja, o termo “Menino Ney” peca por certa imprecisão: Neymar oficialmente é um adolescente. Mas, convenhamos, quantos de nós não chamamos adolescentes de crianças - principalmente quando estão em bando barulhento, no metrô, na fila do mercado ou no cinema? Daí que me parece aceitável essa licença poética, de apenas um período para outro - diferentemente se ele já fosse jovem e seguisse sendo chamado de menino, seria até mesmo desrespeitoso para com ele.
Sobre a outra parte da polêmica de sua convocação, de ele a ter comemorado fazendo propaganda de bet, novamente o pitagorismo explica. Conforme resumo da IA: “sua doutrina central defendia que ‘tudo é número’, unindo o rigor da matemática e a busca pela harmonia cósmica à crença na imortalidade e transmigração (reencarnação) da alma”. Está aí, Neymarketing está apenas buscando a harmonia cósmica através do acréscimo de números à sua numerosa conta bancária, que lhe permitiria a imortalidade.
A mesma coisa vale para sua lesão: ele continua com duas panturrilhas, ou seja, numericamente segue perfeito e pode, portanto, participar da copa. Qualquer outra avaliação sobre sua convocação é uma perseguição injusta contra o Menino Ney, que tantas alegrias trouxe ao povo brasileiro com toda sua irreverência aprendida no pôquer com os parças.
Tudo isso porque fui almoçar com meu irmão e meu sobrinho este final de semana. Parece que o garoto anda ficando rebelde, apesar de ainda ser criança - e não somente segundo os pitagóricos. Tem insistido por um álbum de figurinha da copa; pelos comentários que tem feito, parece já ter assistido a jogos de futebol na tevê (no estádio com certeza não foi, por enquanto, é uma questão de tempo até o tio aqui levá-lo), o que contraria as diretrizes da Escola Voldemort, e, pior, tem usado um vocabulário que deixa seus pais em choque. 
No almoço, eu comentava, com todo o cuidado lexical, de minhas desavenças com a doutora Sabujinha. Ele comia como se não prestasse atenção, até uma hora soltar:
Essa sua colega é uma verdadeira fã de Neymar!
Sem muito entender o porquê Neymar entrou nessa conversa, tentei defender minha colega - eu e meu senso de justiça:
Não sei das preferências futebolísticas dela, mas acredito que não seja fã, não.
Não, tio, você não entendeu. Pouco importa que ela goste mesmo dele, mas ela é uma fã de Neymar com certeza: mimada, idiota e que não aceita críticas, igual o ídolo. Ela faz caretas bocós também?
Só então entendi que se tratava de um xingamento juvenil, ou melhor, infantil. E o pior: sim, doutora Sabujinha gosta de fazer caretas bocós quando conta certas histórias. Enquanto seus pais o repreendiam por usar as palavras “idiota” e “bocós”, eu pensava que ele leva jeito para análises, talvez dê um bom psicólogo ou sociólogo no futuro: doutora Sabujinha é uma verdadeira fã de Neymar!

01 de junho de 2026

PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Futebol: o louvor ao mau-caratismo

Lembro de quando tinha meus dez anos, ouvir conversa dos adúltolos, que repetiam o que a mídia apregoava, que artes e esportes eram formas eficientes de manter jovens longe das drogas. Adúltolos porque duvido que eles ali - início da década de 1990 numa cidadezinha de fim de mundo do Paraná - tivessem a mínima noção das complexidades da questão das drogas e defendiam abstinência como prática "correta", ignorando que drogas são várias - as legais, que matam no trânsito, no bar, em casa, e as do mal, que... que deixam as pessoas louconas, ou que matam por overdose, apenas, não por overdose como por abstinência -, assim como a forma de se relacionar com elas - do uso recreativo ao abuso -; e ignorando que o meio artístico é um local privilegiado de drogas - tanto o uso quanto o abuso, entre artistas, técnicos e produtores. Não compreendiam que o que de fato tira jovens das drogas nas artes é que a vida ganha novas possibilidades, outros significados, maior diversidade de prazeres - possibilidades que o mundo do trabalho não costuma oferecer -, deixando menos espaço para ser ocupado pelo abuso de drogas (ou de religiões embotadoras da vida e da alegria).
Nos esportes, menos explícito e louvado, as drogas - uso e abuso - não deixam de estar presentes, tanto entre profissionais, na exigência de alto rendimento subhumano (subhumano porque não acho que o homem-máquina seja sobrehumano, antes o contrário, sua degeneração, o abdicar de parte da humanidade em prol de números), quanto de amadores, na tentativa de imitar ídolos, alcançar padrões estéticos sugeridos pela mídia, quanto pela frustração em seguir humanos - sem recordes, com gorduras.
Acompanhando algumas partidas da copa do mundo (acompanhei quase todos os jogos da primeira rodada, um saco, jogos parecidos e modorrentos, muita tática e pouco jogo, ficam entre jogos de futebol do Mega-Drive 16 bits e uma uma quase versão para bola redonda de futebol americano), desconfio que, pior do que ouvia na infância, esportes não apenas não deixam jovens fora das drogas, como ajudam a forjar uma ideia gloriosa do mau-caratismo. Mau caráter que não se restringe ao seu expoente-mor, o perverso mimado que se supera dentro e fora das quatro linhas, o "menino Neymar" (conforme ouvi na narração radiofônica, visto que tenho um mínimo de amor próprio para não me rebaixar a ouvir Galvão Bueno, o locutor do fascio nacional, em sua sabedoria plena, universal, de grande pai do falo gigante).
Não lembro de quem li (acho que foi o Dráuzio Varela ou o Mino Carta), da primeira vez que foi a um estádio de futebol, década de 1950, assistir a uma partida de futebol, e saiu estarrecido com o cinismo em campo - jogadores simulando faltas para tentar enganar o juiz e levar a melhor. Imagino qual não seria o horror ao ver uma partida hoje. Pior: qual não seria o horror daquele menino ao ver o cai-cai, a simulação, o fingimento, o engodo louvados em alto e bom som para todo o território nacional como sinais de esperteza, comportamentos positivos, heróicos, ensinados às crianças desde a seus primeiros passos, conquanto que seja a favor de "nós" - qualquer semelhança com processos jurídicos e/ou políticos fraudulentos, mas louvador como divinos por alguns (que ostentavam a camisa canarinho, por sinal) porque a favor deles não parece ser mera coincidência. Agora se o resultado for contra o "nós", independente que seja parte do jogo ou malandragem, resta indignação e clamar por justiça - aquela recusada aos outros. O gol da Suíça foi roubado, dizem, e é grande a ira por conta disso num certo país tropical - mas ninguém fala em devolver o pentacampeonato, nem se envergonha de ter ganho aquela copa com um gol irregular na primeira partida (por mais que isso pouco alterasse o resultado final do grupo). Neymar, o pai dos espertos, se irrita quando é feito de bobo, passa a se achar cheio da razão - a mesma razão que o autorizava a enganar.
É preciso ressaltar, ainda que Neymar seja o rei da velhacaria ludopédica (ele xingando o jogador costa riquenho é de uma finura exemplar), isso não é privilégio brasileiro: é o que há de mais corriqueiro nesta copa - mais que gols, mais que futebol. Nesta e em outras: vale lembrar que o México foi eliminado pela Holanda, em 2014, numa simulação vergonhosa de Robben. De volta à Rússia, no jogo entre Senegal e Polônia, por mais que eu estivesse torcendo para os africanos, deu vergonha o fingimento de Niang, que não apenas parou a partida para ser atendido de uma lesão de mentirinha, como ainda teve a sorte de ao entrar sobrar-lhe a bola para marcar o segundo gol. Desnecessário me alongar nos exemplos, há aos borbotões em cada jogo desse que é considerado o maior espetáculo esportivo do planeta. Se o uso do árbitro de vídeo tem ajudado os espertos a não se darem bem, ainda falta a Fifa decidir que de fato que se dêem mal - o cartão por simulação está aí, e toda partida acabaria por falta de jogadores em campo, se fosse aplicado. Menos drástico, bastaria estabelecer que jogador que seja atendido cumpra cinco minutos de espera antes de voltar a campo - afinal, diante das caretas feitas, é bom se certificar que não houve mesmo nenhuma vértebra quebrada ou uma hemorragia interna. Até lá, já seria de grande ajuda se o esporte pudesse ser usado como exemplo de ética - ou de falta de, já que os atletas servem antes de contra exemplo. Duro que os porta-vozes que a mídia nos impõe são tão anti-éticos quanto Neymar e seu cupinchas.

PS: uma dúvida se me abate desde o início da copa: com os jogadores jogando há muitos anos na Europa e alhures, os treinos da seleção e a instruções são em qual idioma?

PS2: ainda que eu seja de longa data torcedor da escrete argentina, não dá para esquecer o "que vengan los macacos" de um jornal local em alguma final olímpica contra a Nígéria. Que vuelvan más temprano los hermanos (e que junto los acompañen Neymar e cia).

22 de junho de 2018


Conforme um amigo, Neymar, preocupado com a saúde do costariquenho, sugere ao adversário "tomar caju, suco da fruta".

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Marginais, bárbaros, selvagens nos estádios: e nós?

O assunto é o da moda, e minha abordagem aqui, eu sei, não é nada original; mesmo assim escrevo sobre o evento entre atleticanos e vascaínos, na última rodada do campeonato nacional ludopédico. As imagens de brigões apanhando covardemente (porque não conseguiram bater covardemente) apenas coroou a face tida como aberração do esporte mais popular do planeta no país do futebol. Vale lembrar, contudo, que o conflito entre torcedores não é novidade no esporte, como não foi novidade neste campeonato. 

Teimando em tratar como excepcional o que é corriqueiro, em negar que isso é parte do esporte e reflexo da sociedade (o enorme contingente de policiais destacado para o estádio e arredores em dia de jogo apenas corrobora a violência inerente e não ritual do futebol-show), a imprensa arrota, verdadeiramente horrorizada e inconscientemente satisfeita (afinal, é notícia, é capa do jornal, é motivo fácil pra colunas), uma série de pretensos desqualificativos desse Outro, reflexo maldito de nós mesmos. De bandidos e marginais a bárbaros e selvagens, o espectro de adjetivos é amplo, mas me restrinjo a um breve comentário sobre esses quatro, muito utilizados.

Sobre bandidos, convém sempre lembrar que doentes e criminosos são crias da própria sociedade onde vivem – atiradores de escolas nos EUA, suicidas em universidades brasileiras de ponta, agressores sem motivos e policiais sádicos ao redor do mundo. Marginais, como o próprio nome diz, é porque há um núcleo do qual alguns – em geral muitos – foram excluídos. Àqueles que acusam o Outro de marginal sobra sempre auto-incriminações implícitas: ou crêem que os tais marginais se põem à margem por opção? Entre viagens pra Disney, baladas caras e carro importado, escolheram tráfico de drogas ou a vida medíocre em escritórios temperada com brigas em estádios.

É a mesma função de auto-comiseração, porém num plano mais ontológico e menos social, o uso do ajetivo bárbaro: vem da tradição greco-romana, quando os homens ainda não eram todos iguais, tratar o diferente não como um Outro, mas como uma sub-raça inferior. Se o Outro nos devolve nosso reflexo e nos obriga a repensar nossa condição no mundo, o bárbaro apenas serve para provar nossa superioridade narcísica frente sua ignorância e rudeza.

Por fim, o adjetivo selvagem, que tanto me agride: um pouco menos de etnocentrismo e positivismo nos cairia bem. Os selvagens, se guerreavam o faziam com fins mais nobres do que a violência gratuita que foi filmada em Joinville: a violência podia ser real, mas era também ritual, o adversário era um Outro digno de respeito – a tal ponto que o ritual de antropofagia significava incorporar as suas qualidades. O que se vê hoje em dia – nos estádios e fora deles, que o diga a internet – é o adversário como inimigo, um ser ignóbil (pelo elevado motivo de não concordar conosco) que merece ser destruído e aniquilado. Não é alguém que respeitamos e invejamos suas qualidades, é alguém que pequeno e que nos perturba por nos apresentar nossa pequenez. A violência gratuita dos estádios não é ritual nem auto-reflexiva, mas é um reflexo de nossa sociedade, em que as pessoas são reduzidas a um insignificante e facilmente substituível parafuso no sistema que tem por obrigação gerar lucro e crescimento econômico. Não é selvageria, é hiper-civilização.

E então abundam propostas de como conter tal violência: aumento do efetivo, fim das torcidas, prisão de torcedores, torcida única, jogo em estádio vazio. A cada proposta eu ouço a afirmação da falência de uma sociedade, de uma cultura em que um jogador de futebol mediano ganha mais do que um escritor ou um intelectual de ponta. E tudo isso é normal, porque violento são os outros.

São Paulo, 10 de dezembro de 2013.