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sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Golden Boy por acidente [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Ainda em fase de reformulação pós passaralho feito de afogadilho, chegou um colega novo de outro setor. Já o conhecia de uma das muitas reuniões que já tive com supervisor-geral-responsável-por-fazer-os-contatos-intersetoriais-mais-ágeis (ou Manager de Fluxos Intersetoriais). É uma pessoa agradável, e faz questão de sê-lo. Perguntou para Macedo (sempre Macedo) qual era a etiqueta do setor: cumprimenta todo mundo, cada baia possui seu spalla, é cada um na sua? 

Macedo achou estranho e compartilhei de seu estranhamento: sem protocolo, cada um escolhe se quer cumprimentar ou não: eu, por exemplo, dou bom dia para Macedo quando chego, porque senta ao meu lado. No caminho, eventualmente aparecem uma ou duas mãos a quem retribuo o cumprimento e está feito. A Doutora Sabujinha (que trouxe lembrancinhas de sua viagem para todos, menos para mim, Carnegie e Goleador), só nos cumprimentamos quando precisamos trocar alguma informação - coisa que evitamos com afinco. Outros cumprimento de vez em quando - e a recíproca é verdadeira -, ainda que não me pareça que haja qualquer animosidade entre nós - nem amizade. 

Há dois colegas que fazem questão de passar de baia em baia para cumprimentar a todos - e costumam ser os últimos a chegar. Entendo sua estratégia sutil: só com isso lá se vão meia hora de expediente sem ninguém perceber e ainda deixa umas conversas sobre futebol e outros assuntos para continuar depois que terminar de cumprimentar todo mundo. Ou seja, é uma hora e meia a menos de mais-valia com esse expediente. O chefe faz o mesmo - e ele eu não entendo o porquê.

Ontem Massafera, o novo colega, veio ter comigo e Carnegie, num momento em que conversávamos qualquer aleatoriedade. Tentando se enturmar, entrou no grupo da Bella (que não é de Isabella), formado desde quando nosso setor foi desmembrado, e foi ao almoço coletivo da semana - agora esses almoços acontecem em algum restaurante aqui do centro, não mais cada um trazendo sua airfryer para usar no refeitório, como organizou certa feita Doutora Sabujinha (Pacheco para os íntimos). Contou na mesa que estava na nossa equipe e disse que os antigos colegas disseram que eu e Carnegie somos os “golden boys” da equipe. 

Acreditei na sinceridade do relato, mas desconfiei seriamente do que foi dito a nosso respeito - ou melhor, a meu respeito. Mais tarde contamos esse relato na bancada - e nosso estranhamento. Meirelles propôs que Macedo já está em outro patamar: ele é o padrão-ouro de funcionário do setor, não um mero golden boy - por isso o título para nós dois e não para ele. Não tivemos como discordar. Argumentei que a doutora Sabujinha merecia esse título mais do que eu - no caso, golden girl. Aí Meirelles novamente trouxe um ponto chave, que concordamos, até porque já presenciamos em outros empregos: somos dois homens brancos, logo, naturalmente, somos mais capazes. Alguém complementou: talvez ela já não esteja tão bem vista porque seu puxa-saquismo de resultado esteja por demais evidente. Certo. Ainda assim, golden boy serve para o Carnegie, não para mim.

Fui para casa com essa pulga atrás da orelha: de onde tiraram que eu seria o golden boy? Só se fosse da procrastinação - e numa disputa muito apertada com doutora Sabujinha. Contei para o Brotinho que, acostumada a observar o comportamento humano com toda sua perspicácia de professora, achou a confusão:

Você não diz que fica num canto quieto, do lado do Macedo, que pouco socializa também? Será que não confundiram vocês dois?

No dia seguinte, a explicação foi aceita pela bancada por unanimidade. E fica o aprendizado: se algum dia me promoverem, é melhor checar duas vezes - capaz de que a promoção seja para Macedo.


09 de outubro de 2026



PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.



domingo, 4 de outubro de 2026

Stories de uma eleição

Um amigo de priscas eras, que há mais de uma década não tenho o prazer de encontrar, mas que trocamos longas mensagens duas ou três vezes ao ano, comemora parte do resultado da eleição. Olho de novo, não quero acreditar, mas os próximos stories reiteram o primeiro. Não lembro de falarmos mais diretamente sobre política partidária - ainda que eu exponha sempre meu ponto de vista em meus textos e postagens em redes sociais, ele nunca se manifestou.

O Brasil não tem 50% de fascistas - me vem o corte do filósofo Marcos Nobre que circula nas redes. Eu, ao menos desde 2019, já sabia disso, fruto de conversas francas com pessoas “apolíticas” que votaram no Bolsonaro em 2018 - e da minha insistente crença de que as pessoas seriam boas (não todas, mas a maioria), apenas ignorantes. 
É o que quero imaginar do meu amigo: apenas um ignorante, apesar de toda oportunidade que teve. Não tem formação na área de humanidades e é manipulado por uma verdadeira indústria militar, que são os meios de comunicação e seu braço autônomo, as redes sociais. Ele não deve ser fascista, certamente não se vê fascista, não percebe que foi capturado por um discurso que atenta contra o que ele próprio diz defender, e deve se ofender se for (quando é) chamado assim.
Partindo desse ponto, vejo que parte de nossa falha se deu ainda em 2018, quando taxamos os eleitores de Bolsonaro de fascistas, sem maiores explicações. Não que seus 20 a 30% de seguidores fanáticos não sejam. Mas e o restante? Aprendemos no cinema (e também na escola), que o nazifascismo era cruel, desumano, feito de pessoas horríveis, que queriam o mal e por isso seguiam as ordens de um sanguinário. Meu amigo é uma boa pessoa, um bom pai, bom marido, não quer o mal de - quase - ninguém. E, nisso, até eu. Ele não pode ser fascista - ele dificilmente vai se enxergar como um. Diferentemente de um então amigo de escola, que em 2018 legitimava a violência extrema e a desumanização do adversário, tido como inimigo, ao comemorar o atentado a tiros contra o presidente Lula. 
Ademais, esse meu amigo não segue a ordem de ninguém: seu voto foi fruto de uma decisão racional a partir das informações que ele recebeu diariamente, por anos, da rede Globo, posteriormente das redes sociais.
Ele quer um país melhor, quer pelos filhos dele. Ele não sabe o que isso significa de concreto - incapaz de imaginar sozinho futuros que não sejam de consumo -, mas tem boas intenções. Ele quer mais segurança - ele não sabe o que é atribuição de quem. É pelo Brasil - ele não entende de relações internacionais, deve achar que a ocupação estadunidense viria com um porta-aviões na costa do Rio de Janeiro, não com uma delegação de Marco Rubio no governo de transição (por sinal, nunca deve nem ter ouvido falar, nem do Rubio nem de governo de transição). Ele é contra a corrupção - e vota em corruptos que se dizem perseguidos por estarem indo contra o “sistema” dentro do qual estão plenamente inseridos desde o berço.
Desde que a extrema-direita passou a ganhar força, em 2016, soubemos identificá-la, mas não soubemos nomeá-la de um modo taticamente adequado. Não sou dos acadêmicos puristas que querem restringir o fascismo a um momento do século XX: o que vivemos hoje é fascismo, devidamente repaginado para o século XXI, mas essencialmente o mesmo de Hitler, de Mussolini, dos camisas verdes, e antes deles, dos protofascismos de Leopoldo II, do genocídio indígena, da diáspora negra - é a essência do capitalismo se manifestando. Mas quantos são capazes de identificá-lo em seus meandros quotidianos, das pequenas violências naturalizadas que abrem espaço para grandes arroubos de ressentimento e violência aberta? 
Meu amigo se vê uma boa pessoa. Nas últimas mensagens, ele falava da sua preocupação com as contas, a troca de emprego, os receios com os filhos, as dificuldades no casamento. Não passa pela sua cabeça que ele seja um fascista, que dê suporte a fascistas; logo, ele pode ignorar tudo o mais que vem do nosso campo - até porque há anos abandonamos o trabalho de base e paramos de verdadeiramente escutar o outro (isso enquanto a extrema-direita nos ouve com perfeição através de seus algoritmos, pois são eles os controladores dos meios de produção do imaginário atual). E sigo ingenuamente acreditando que, em casos como o dele, é uma questão de ignorância, e que através do diálogo é possível tirá-lo da órbita da extrema-direita.

04 de outubro de 2026

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Desatenção flutuante [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]


 Parte da minha estratégia em evitar a fadiga do trabalho (na medida do possível, claro) consiste em fazer uso da “desatenção flutuante”, como quase diriam os psicanalistas: no meu canto, com meus fones de ouvido, evito escutar assuntos de trabalho, para não ter risco de parecer negligente, ao não dar uma informação que eu sei, nem para me estressar com assuntos que não mos foram designados (parênteses para celebração gramática-literária: combinação de pronomes oblíquos átonos!). Escuto somente quando vejo que é algo que realmente diz respeito a mim - quando escuto, porque não é incomum ver pessoas agitando os braços para mim, como esses bonecos de posto.

Macedo, por exemplo, faz o exato oposto e como prêmio está sempre sendo contemplado com uma reunião extra para participar. Já tentamos lhe explicar que aqui não é uma escola Voldemort e que ser prestativo assim serve para acumular mais trabalho, não para que ajudem quando ele precisar.

Enfim. Me chamam apenas para reuniões essenciais - e o novo chefe, na última, presencial, ainda confundiu nossos nomes, numa cena curiosa. Após os apontamentos de Macedo, ele olhou para mim - que estava ao lado do nobre colega - e perguntou:

E você, Macedo, o que tem para complementar?

Bem, acho que é isso - respondeu o interpelado.

A sala ficou um tempo em silêncio. Ele me olhava fixamente, e eu devolvia o olhar, fingindo que não era comigo.

E então, Macedo?

Macedo sou eu - respondeu o próprio.

Ah, desculpa.

Nisso o clima deu uma desanuviada, contamos causos de colegas outros que nos confundem, Mello se lembrou de um outro tópico que ele precisava discutir e eu consegui passar incólume.

Estava eu hoje no meu cantinho, tomando minha água, reclamando do calor e fazendo ativismo digital para Lula e Haddad e deputados e senadores de esquerda, quando chega mensagem de Meirelles no whatsapp, com o link para a reunião e a senha, e o aviso: 

Só falta você para começar, e o diretor geral já deu pinta que hoje está mordido.

Pqp, eu tinha esquecido completamente dessa reunião no meio da tarde! Desliguei o som e entrei aturdido na reunião. O diretor estava com o semblante fechado e falava de alguma dificuldade junto a um grande fornecedor, devido a atrasos na consecução do plano de ação.

Como eu disse, desatenção flutuante é o meu forte, e eu vi que estava mesmo bem na minha tática: não fazia a menor mínima ideia do que estavam tratando. Eu só precisava torcer para que o diretor não fizesse como o chefe, e pedisse minha opinião. Quanto mais ele falava, mais eu ficava nervoso: minha ignorância era tanta que eu não conseguiria sequer dar uma enrolada. Minha cara na câmera devia ser da incompetência e do pavor em pessoa. E como cantavam o Planet Hemp: os cães farejam medo. No meio da fala o diretor interrompe e se dirige a mim:

Sérgio S.?

Pronto, eu devia saber que esse dia uma hora iria chegar (ou seria melhor dizer que essa hora um dia iria chegar?). Com isso, eu definitivamente entraria para a lista do próximo passaralho - se é que esperariam até lá.

Pois não, diretor.

O que você está fazendo aqui?

É, pelo visto minha cara me denunciava muito mais do que eu imaginava. Tentei gaguejar uma resposta, mas fui interrompido:

Você não faz parte do compliance, por que está nesta reunião?

Me passaram o link, dizendo que eu estava atrasado, nem tive tempo de pensar.

Pois saia agora!

Nem terminei de dizer com licença e tratei de sair da reunião. Meirelles agora é quem deve estar preocupada...


30 de setembro de 2026


PD: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.



quinta-feira, 24 de setembro de 2026

O carisma de uma porta de elevador [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Precisamos falar sobre foto de perfil no Whatsapp - principalmente se você utiliza seu Whats para trabalho também, como é o caso na empresa.

Em geral, as pessoas aqui mudam pouco sua foto de perfil. A minha, por exemplo, coloquei em um desses eventos internéticos de criança viada, em 2016; em 2024 troquei por uma em que estou montado, e depois de um chamado dos superiores, de que eu precisava uma foto mais séria e condizente com o serviço, coloquei minha cara, como se estivesse numa foto 3x4 para identidade: olhos abertos, expressão entre a meio morta e a assustada e o carisma de uma porta de elevador - Brotinho diz que estou bonito nela, e eu prefiro não imaginar se eu estivesse feio... Lino e Goleador devem trocar cada dois ou três anos, apenas para mostrar o que mudaram nesse tempo. Carnegie há anos colocou uma foto sua cheia de efeitos que nem dá para notar a ação do tempo nesse ínterim. Meirelles está com a foto da eleição passada, ainda - não é propaganda de nenhuma candidatura, mas tem seu simbolismo ainda atual. Macedo usa uma da sua mala de viagem, das férias de 2022. Inclusive já foi assunto da bancada, qual seria o significado dessa mala: desejo de partir? Saudades de viajar pelo mundão, quase sem rumo e quase sem programação (foi uma ironia, vide o texto Má Influência, de abril de 2023)? Aviso falso de que está de férias, para ver se assim recebe menos demanda? Ele atesta que é escolha estética - e preguiça. Gosto muito de um colega de outro setor, que tem a foto de uma santa em uma caixa dourada numa parede de pequenos azulejos vermelhos: parece que foi tirada em algum banheiro de parada de ônibus.

Quem alterou recentemente foi Mello. Na verdade foram duas trocas. Numa, colocou uma foto levemente adulterada por IA, que fez com que parecesse o George Clooney. Tenho a impressão de que rolou algum tipo de piadinha no Clube do Café, pois uma semana depois (hoje) ele resolveu trocar. E o fez sem avisar.

O dia corria bem. A dada altura, precisei mandar alguns arquivos para ele. Com o web Whatsapp aberto (sim, Meta e Alphabet sabem de tudo o que se passa aqui na empresa, se algum dia virem que ela vai bombar, chega uma proposta pouco antes), digito seu nome, arrasto os arquivos, mando e vou fazer o que mais tenho que fazer.

No meio do expediente, entro no web Whatsapp - uso um add-on no navegador para embaçar os nomes, então só vejo a foto e a última mensagem - e não reconheço uma das primeiras fotos que aparece, apenas identifico que a última mensagem é o arquivo que eu enviara para Mello. Pronto!, pensei (ainda que em termos um pouco menos publicáveis), mandei documentos sigilosos da empresa para o entregador do Mercado Livre! Nada, era apenas o colega em foto um pouco menos modificada, parecendo com qualquer outra pessoa que não ele - nem o George Clooney. Da minha baia, gritei para ele: 

Se não for botar uma foto que te identifique, se for pôr uma foto de uma pessoa genérica que você acha que se parece com você, ao menos avise!

Minha mulher achou que fiquei bem nela - justificou.

Sim, tão bem quanto eu na minha, que também contou com a aprovação do Brotinho.


24 de setembro de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definida

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Saldão de Bíblia e prateleira de vidro [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]


Muito lentamente, desde que Lula assumiu a presidência, o centro de São Paulo vem recuperando parte de seu comércio. Alguns trechos ainda estão desertos e mostram a profundidade da crise do governo anterior - e a inépcia do governo municipal. As ruas São Bento, entre a Direita e a Praça Ouvidor Pacheco e Silva (todo tapumado, utilizado como depósito para as reformas no centro, programadas para terminar nas eleições... do ano retrasado) e a José Bonifácio, por exemplo, seguem desertas de comércio. Na própria rua Direita, o comércio resistente parece sobreviver a dura custas - uma parte já fechou.

Numa dessas lojas vazias abriu uma das lojas mais aleatórias que vi até agora - opinião compartilhada por Macedo e Goreti. Sem nenhum letreiro externo, nenhuma reforma interna, simplesmente levantaram a porta, distribuíram uns baldes para recolher a água das goteiras e instalaram uma faixa com três linhas: “Loja de fábrica/Saldão de Bíblia e/Prateleira de vidro”.

Quando abriu, imaginei que seria um comércio breve - talvez o dono da sala que se meteu em negócios furados de diversos calibres, uma espécie de Ronaldinho Gaúcho das empresas - e aproveitou que estava sem ganhar o aluguel da sala para se desfazer daquilo que aceitou como pagamento de dívidas. Passaram um, dois, três meses - e a loja seguia lá, com seu saldão de Bíblia e prateleiras de vidro. Passou um ano, pouco mais, e ela seguia aberta. Da última vez que passamos por ela, havia diversificado seus produtos: calça jeans a preços de saque de caminhão tombado (um suco de frutas sai mais caro pela redondezas) e uma vasta coleção de quadros de leões - todos emoldurados em molduras bastante bregas.

Sempre fico a me perguntar o que é aquela loja, que surrealismo paulistano a explica. Desta vez explicitei a pergunta ao nobre colega Goreti que, de início, levantou a teoria de ser refugo das lojas da Conde de Sarzedas, famosa rua de vendas de artigos para igrejas evangélicas.

E as prateleiras de vidro?

Refugo de onde se expunham os sex toys na Love Nox.

Nunca tinha ouvido nessa Love Nox. Fui pesquisar na internet, talvez seja um bom lugar para levar o brotinho...

21 de setembro de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definida

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Jogo de War no escritório [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]


Consequências ainda de toda a rerereformulação da empresa, nosso setor ficou mais enxuto, para ganhar agilidade e dinamicidade, aproveitando da “competência e resiliência” de quem sobrou: “aqui só estão os melhores”, avisou o supervisor-geral-responsável-por-fazer-os-contatos-intersetoriais-mais-ágeis dia desses, conhecido oficialmente como Manager de Fluxos Intersetoriais. Melhores no que, ele esqueceu de explicar. E tenho alguma forte suspeita de que não são os melhores em serviço, visto que eu e a doutora Sabujinha seguimos firmes e fortes na empresa - ela inclusive em treinamento externo pago pela empresa, pronta para galgar posições aqui. Puxa-saquismo de resultados! Assumo que subestimei sua capacidade - capacho para qualquer porta.

Enfim, setor enxuto significa mais trabalho por pessoa, sobrecarregando quem já vinha sobrecarregado - Macedo que o diga -, e dando trabalho a quem vinha com esmero evitando esse tipo de fadiga - no caso, eu.

Essa enxutagem fez com que se abrissem espaços vazios na sala - como já comentei alhures, a sala da antiga subchefe virou nossa sala de reunião. Não mais. Decidiram que ali seria um bom espaço para o supervisor-geral-responsável-por-fazer-os-contatos-intersetoriais-mais-ágeis e sua equipe de seis pessoas - dentre os quais um seboso colega leitor de Olavo de Carvalho (ele está sempre com um livro do autoproclamado filósofo anal), cujo comportamento é muito cordato e as falas, discreta e constantemente preconceituosas.

Quem não ficou muito feliz foi nosso atual chefe, que viu o aquário da chefia ser dividido em dois, para que metade fique com o manager - cada um com seu ar-condicionado, claro, enquanto o resto da sala possui, toda ela, outro ar (desregulado). Pois é, achava que ia reinar sozinho, mas vai ter que dividir. Ele pode ver pelo lado positivo: se conseguir dividir também as preocupações, quem sabe a velocidade com que seus cabelos estão embranquecendo desde que assumiu o posto diminua também?

Nós, reles mortais CLT, acompanhamos esse verdadeiro jogo de War - como bem definiu Macedo - com apreensão. Quer dizer, eu não, pois já garantiram que vou continuar no meu cantinho aqui, então eu só assisto, mesmo. Surgiram dois focos de tensionamento. 

O primeiro foi o Clube do Café e Goreti. Com mais gente na sala, sobrou menos espaço livre, menos espaço para o armário onde estão os apetrechos do Clube do Café e a panela de arroz de Goreti. É certo que o Clube do Café está mais para clube da bolacha água e sal ultimamente: os colegas que costumam fazer o café toda manhã foram transferidos e os que sobraram tem preguiça; a pipoca também, passado o ânimo inicial (ou será o fim do clima de copa do mundo), só tem acontecido de vez em quando. Mas Goreti segue firme e forte com sua panela de arroz. Por enquanto o móvel segue no lugar, com um armário colado a ele, atrapalhando parte do corredor e dificultando o uso da tomada o referido Clube.

O segundo é mais grave e alcança um número maior de colegas. Nessa de diminuir nossos espaços para caber mais gente - otimização espacial para pessoas resilientes, afinal, para que uma baia em que cabem dois monitores para quem só usa um? -, quem está na mira é um frigobar que apareceu em algum passado remoto, ninguém sabe de onde, e aqui segue - apesar da briga de longa data do RH para levar para sua sala e, mais recentemente, dos funcionários transferidos levarem para o setor onde foram alocados. Goreti diz que já tem a solução, mas quer antes saber se vai ter mais gente a defender o móvel do Clube do Café, antes de soltar sua solução maravilhosa - que, por ora, ele só contou para mim e para Macedo, sob jura de confidencialidade:

É só usar o frigobar como suporte para a impressora.

Está aí, Goreti soube incorporar o novo espírito da empresa e está sugerindo adaptá-lo até mesmo ao frigobar!


15 de setembro de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

O colega de banheiro [por Sérgio S. ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]


Em maio comentei aqui da reorganização e do passaralho que ocorreram na empresa. Cortaram vários cargos médios (que eu chamo de subchefe), depois alguns chefes, fizeram mudanças de lugares, e tudo parecia pronto para jazer na ordem que o capital exige. Sejamos sinceros: eu e meus colegas fomos semi-amadores na nossa avaliação. Tem muita coisa que se pode errar na percepção, na avaliação e nas conclusões - agora, achar que um passaralho vai se satisfazer sem passar a faca pelo chão de fábrica é quase como acreditar que privatização de serviço público vai trazer melhorias à população.
Mesmo que nunca tivesse trabalhado antes, era questão de observação e análise: cada setor fez uma reformulação, juntaram tudo e apresentaram como um trabalho coerente, sendo que em momento algum pareceu haver uma coordenação geral das reformulações, pensando na empresa como um todo e não em diretrizes gerais e cada setor em particular.
Resultado: não tardou um mês e começaram a reformular os setores reformulados - inclusive com contratações. Mais um mês e aí, sim, com mais uma série de fusões e desdobramentos de setores, mudanças de nomes e mudanças de salas, veio o novo passaralho - cortando, inclusive, vários daqueles funcionários que haviam sido contratados havia um mês.
Nessa novela, nosso setor teve várias transferências, algumas contratações, algumas demissões. Uma das salas que ocupávamos está vazia, a sala do antigo subchefe virou sala de reunião, e vários rostos desconhecidos apareceram (para compensar os rostos desconhecidos que desapareceram). Não me queixo totalmente: fui jogado para um canto, tenho agora apenas a janela às minhas costas - à qual deixo aberta, escancarada, o dia inteiro - e, mais importante: sem doutora Sabujinha nas proximidades. Pelo visto, notaram que havia algum clima belicoso entre mim e ela, e nos puseram em extremidades distantes. Pior para Carnegie, o Arauto do Apocalipse, que está agora sentado à direita da colega mais simpática do setor (quiçá da empresa, ainda que eu ache que não, preciso ser justo: tem gente muito podre aqui dentro).
O mais curioso dessa reformulação é que parece que quem pensou a nova distribuição geográfica dos funcionários fez curso de cálculo de microondas no refeitório - conforme o meme consagrado.
Dia desses encontrei Fernandes, o colega de cima (agora apenas um andar acima!) no corredor do nosso andar. Conversamos normalmente, e no final lembrei de perguntar o que ele fazia ali:
- Vim usar o banheiro, que os de cima estavam todos ocupados, com fila.
Achei que poderia ser algo pontual - um café da manhã coletivo com algo passado e que afetou todo o setor. Não era o caso.
Dia desses fui cumprimentado esfuziantemente por um colega no banheiro. Achei estranho: todos aqui conhecem minha fama - mesmo os novatos, parecem que já são alertados que eu sou uma pessoa de poucas conversas. Como sou educado, cumprimentei, mas sem a mesma alegria que ele. Na saída, perguntei ao Macedo, que me esperava para irmos almoçar, quem era aquele que havia saído antes de mim:
- É colega novo?
- Não. Ele tem anos de casa.
- Mas como nunca o vi antes?
- Foi transferido pro setor que ficou no andar abaixo, e estão com poucos banheiros para a quantidade de funcionários alocados.
Ou seja, a empresa lançou a inovação do colega de banheiro. E eu, que já não faço parte do clube do café, para não ter que socializar, agora preciso evitar até mesmo o mictório!





17 de agosto de 2026



PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Enquanto você estiver estudando

Pai, hoje você faria 72 anos. Foi a primeira coisa que lembrei ao acordar - e motivo de eu estar melancólico. Acho que a sequência de crônicas do Sérgio S. ajudou um pouco: lembrei de quando publicava o Trezenhum. Humor Sem Graça. à noite, madrugada muitas vezes, e na manhã seguinte, ao ligar o computador, lá estava um e-mail seu com comentário sobre as agruras da Universidade e, claro, a revisão do texto. Devia ser a primeira coisa que você fazia no dia. Às vezes havia alguns preciosismos gramaticais da sua parte, que eu não concordava, mas alterava por reconhecimento da sua ajuda. 

Na verdade, a ideia para hoje era escrever mais uma crônica do Sérgio S. e as disputas miúdas desta burocracia em que faço trabalho de estagiário com diploma de sociólogo. Sérgio S. é um spin-off de Trezenhum - e digo isso só para te provocar: com certeza você me mandaria uma mensagem me criticando por usar um termo em inglês, e eu concordaria contigo: prefiro dizer é uma derivação do Trezenhum. Curiosidade: já tem mais tempo que o original (só não sei se tem mais textos).

Lembrei também quando soltava meus textos mais sérios - esses precisavam de menos revisão, mas de vez em quando vinha. O que vinha mesmo era, na ligação seguinte - por telefone ou skype -, você começar: “Dani, aquilo que você falou no seu último artigo...” e começarmos nossa conversa sobre política, nem sempre confluente, mas sempre respeitosa - até porque éramos dois do campo da esquerda, cada um com seu extremismo particular. Por sinal, uma das principais pessoas para quem eu escrevia era você: mostrar que, ao mesmo tempo, eu seguia seus passos políticos e me diferenciava deles em detalhes. Ainda sinto falta dessas conversas. Como sinto falta de minhas férias serem voltar para Pato Branco, curtir a casa e a companhia sua, da mãe, e das cachorras. Colômbia, Lençóis Maranhenses, Salvador, Guatemala foram destinos legais, mas foram arremedos de férias.

Hoje tem jogo do Brasil. Foi com você que aprendi a não torcer pela seleção - mercenários era o que você acusava os jogadores, desde a copa de 1994, que eu me lembre. Patriotismo de fancaria, digo eu, hoje (e reitero o mesmo ranço seu para com Senna). Você era um nacionalista! Foi durante um jogo do Brasil contra a Argentina que você partiu. Hoje o jogo é contra o Haiti, país que rendeu uma das edições mais polêmicas do Trezenhum. Humor Sem Graça. O Brasil deve vencer fácil, eu devo aproveitar esse tempo para estudar. “Enquanto você estiver estudando, a gente te sustenta”, foi o que você me disse uma vez, no início do século, não sei bem se quando eu tinha entrado na psico ou na filosofia. E, de alguma forma, isso continua verdade até hoje.



19 de junho de 2026

terça-feira, 16 de junho de 2026

Férias steinbruchianas [por Sérgio S. ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Carnegie pistola é engraçado. E não precisa de muito para ele ficar assim: uma derrota do Palmeiras, uma vitória do Corinthians, falar o óbvio sobre futebol (ele tem posições bem heterodoxas sobre o esporte bretão em terra brasilis, em especial sobre Corinthians e Palmeiras, sendo que este seria o verdadeiro time popular), uma conversa simples com algum desafeto seu do trabalho, algum assunto político quente do momento. 
Minha forma mais habitual de deixá-lo pistola é dizer que ele é fã do Benjamin Steinbruch. Para avivar a memória da desocupada leitora, do desocupado leitor - ou mesmo trazer essa informação a quem não acompanha economia e política com muito afinco -, Steinbruch já defendeu que horário de almoço de trabalhador é um desperdício de tempo, que ele poderia comer um sanduíche com uma mão e seguir operando a máquina com a outra, levando 15 minutos para isso. Uma hora de almoço é praticamente um potlatch que esquerdista defende. Para quem não sabe, Potlatch é uma cerimônia tradicional de povos indígenas da América do Norte, de desperdício e/ou destruição de bens. O objetivo é ganhar prestígio, dividir riquezas e fortalecer alianças na comunidade. 
Enfim, eu falava de Carnegie, nosso arauto do apocalipse, que fica pistola sempre que eu digo que ele é steinbruchiano, porque ao invés de ir ao refeitório, ele prefere almoçar na sua baia, enquanto trabalha (só que não é um sanduíche e não são só quinze minutos, por enquanto). Ele diz que assim faz porque gosta de comer em horários em que o refeitório está muito cheio e, principalmente, porque tem algo urgente para terminar aquele dia, mas não é sempre assim - ainda que isso aconteça todo dia.
Eis que estamos eu, Meirelles, Macedo e Goreti conversando sobre assuntos aleatórios (impressionantemente, não é sobre a copa, nossa bancada é meio rebelde) antes de começar de verdade a trabalhar, quando chega o herói desta crônica. Olhamos para ele surpresos:
Você está de férias! - fala de pronto Meirelles, antes mesmo do bom dia.
Eu sei, mas... - tenta responder Carnegie.
Ótimo que você sabe, então, tchau. - responde correta e secamente Goreti.
É que eu tenho um assunto urgente e importante para resolver.
Se não for recolher suas coisas porque ganhou na loteria, não é importante, nem urgente.
Se ele ganhasse na loteria, nem precisaria vir buscar as coisas dele - me intrometo na discussão, dada a falha lógica no argumento do colega Goreti, que não posso deixar passar.
Tem razão - humildemente ele concorda -, então, vamos lá: se não veio recolher seus apetrechos porque conseguiu um emprego melhor, não é urgente nem importante.
Nada disso. Mas eu tinha que ter terminado um relatório semana passada e não deu tempo.
Isso é problema da chefia e quem ela designou para te substituir, no caso, o Sérgio S.
A lembrança desse pepino pra resolver me faz estremecer.
Prefiro eu mesmo fazer.
Vai ganhar uma estrelinha de bom funcionário.
Minha vontade é pôr panos quentes nessa história: deixa o colega vir trabalhar nas férias, se ele está entediado em casa. Mas me controlo, não posso dar bandeira tão grande assim da minha constante luta pelo ócio.
Carnegie nem responde: já está posicionado defronte ao computador, disposto a terminar o relatório o quanto antes, para começar a desfrutar - finalmente - suas férias. Meu maior receio é que depois do almoço steinbruchiano, suas férias steibruchianas, de quem segue trabalhando normalmente - com as duas mãos! - enquanto descansa, se tornem um exemplo para os superiores. Até lá, cruzo os braços e aproveito a proatividade alheia.

16 de junho de 2026

PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Você aí [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

A guerra da janela entre mim e a doutora Sabujinha continua. Sua estratégia de pôr o gaveteiro defronte a elas foi vetada pela CIPA - exatamente como atrapalharia no caso de um acidente, incêndio, não faço ideia. Impediria as pessoas de pularem? De qualquer modo, comemorei a decisão. A dinâmica tem parecido esquete de humor de segunda categoria: eu chego primeiro, abro as janelas; ela chega depois, fecha a folha dela; saio primeiro para o almoço, quando volto, a janela está toda fechada; abro-a; ela volta e fecha a folha dela, bufando. Todo dia a mesma história. Acho que só não fecha toda a janela depois que eu e Macedo saímos para nosso café da tarde porque ela fica muito pouco em seu lugar, e à tarde é o melhor horário para confraternizar.
Sofrer com a proximidade da doutora Sabujinha à minha baia não é nada original da minha parte. Descobri, ontem, que na verdade sua mudança de local não foi só porque ela quis, mas porque o clima entre ela e Bello começava a azedar - assim como azedou com todo mundo que se sentou próximo a ela. Com base nessa informação, reconheço que sua escolha do novo lugar tem uma lógica: se sentando ao lado de uma estagiária, esta não vai ter como reclamar da sênior: terá que suportar e, no máximo, pedir à chefia para trocar de lugar, depois de inventar alguma justificativa, por não poder dizer a verdade. Não fosse a janela, talvez pudesse trabalhar em paz, mas eis que tem eu e cá estamos em guerra.
Mas o assunto hoje nem era esse. Reunião de equipe, o novo chefe, aquele que doutora Sabujinha sabuja desde antes de assumir a chefia, decide que as demandas de Carnegie, que sai em férias semana que vem, não ficarão, como sói acontecer, entre Macedo e Goleador - que estão, é sabido de quem me acompanha aqui, sobrecarregados. Pois é, dá a impressão de que o chefe atual gosta de ser bajulado mas não cede tão fácil assim. Ademais, parece também que dá poucos ouvidos às fofocas de escritório, ao menos as que tratam da incompetência de certos funcionários. Para completar, tudo indica que acredita em dados objetivos e avaliou o que cada um da equipe realiza corriqueiramente. Conclusão do silogismo a partir das premissas acima expostas: fomos desmascarados em nossa disputa por quem menos trabalha. Resultado: divisão cinquenta-cinquenta entre mim e Pacheco das demandas de Carnegie, sem direito a escolha.
Até aqui, dias de luta, dias de fracasso. É parte do jogo, acontece. O grande momento, contudo, foi quando o chefe foi distribuir as tarefas: dividiu-as em dois blocos e então atribuiu cada um a um funcionário:
Sérgio S. fica com o bloco um e a... a... a... você aí, fica com o segundo bloco.
Sabujinha já se desmanchava diante do lapso do chefe, trazia uma expressão de choro, mas Carnegie, nosso arauto do apocalipse, não podia deixar de pontuar:
A Pacheco?
Isso! Pacheco fica com o bloco dois.
Em silêncio, nós, as vítimas de Pacheco, trocamos alguns olhares cúmplices, regozijando em júbilo respeitoso, ao ver o ego da colega sendo ferido assim involuntariamente. 


12 de junho de 2026

PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Integração [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Se o velho testamento tivesse sido escrito nos tempos atuais, no lugar de praga de gafanhotos, deus teria enviado como praga grupos de whatsapp. Que atire a primeira pedra quem não participa de uma dúzia deles: de trabalho, do condomínio, da família, da família sem o tio e o primo fascistas, dos colegas de faculdade, dos amigos de faculdade, dos ex-integrantes do Trezenhum. Humor Sem Graça. comentando as notícias do dia (sem qualquer humor), de moradores do bairro preocupados com a segurança, e por aí vai.

Uma das decisões das novas chefias, com vistas a melhorar a performance de todas as equipes e do setor como um todo, foi proibir assuntos alheios ao trabalho no grupo de whatsapp. Algum burburinho reclamando dessa decisão autoritária, mas todos acataram - até porque melhor não arriscar o emprego por conta de comunicação virtual sem importância. 

Eis que veio o aniversário de Bella (que não é de Isabela). Sempre sociável, ela marcou um almoço em comemoração, ao qual esteve presente pouco mais de metade do setor. Ela atribuiu o fiasco por não poder usar o grupo de whats para fazer o convite, ainda que tenha havido um mutirão junto com alguns colegas, organizado a partir do grupo de whats do Clube do Café, para que todos (ou praticamente todos) fossem convidados. Sim, ela acredita que eu, por exemplo, faltei por não saber, por falta de convite, e não por vontade autônoma e deliberada de evitar esse tipo de maçada.

Assim sendo, atendendo a pedidos e inspirado nos grupos “Mega da Virada” do setor, a chefia criou um grupo de whatsapp para aniversários - afinal a solução para melhorar a integração das pessoas é sempre criar um grupo novo. Chama-se “Grupo de Níver” e nele colocam os convites para essas comemorações, que se perdem em meio a dezenas de mensagens de feliz aniversário. Eu, não precisaria dizer, faço minha parte e não contribuo com essa poluição virtual.

Parece que as reclamações de falta de interação e integração dos setores se mantiveram, e a chefia decidiu criar um grupo geral. Chama-se “Assuntos gerais” mas poderia ser chamado de “Bom dia, boa tarde, boa noite”. Minto. Boa tarde são poucos - nessas horas estamos trabalhando -, mas os bons dias acontecem até aos finais de semana e algumas pessoas mandam boa noite quase todos os dias; de modo que dá para ter uma boa ideia dos hábitos de sono de alguns colegas. Um deles acorda todo dia às cinco - e paira uma forte suspeita aqui na bancada de que ele faz isso para treinar cedo. Goreti se indigna:

Que espécime de pessoa acorda às cinco da manhã pra treinar e faz jejum intermitente? 

Outro colega precisa regular melhor seu horário de dormir, pois não faz bem se deitar sempre próximo à uma para acordar às sete - isso talvez ajude a explicar o mau humor que geralmente ele irradia. Apesar que nosso emprego nesta fábrica de moer gente chamada capitalismo também deve ajudar nessa explicação. Mas creio que a principal causa para seu mau humor é que ele é um chato, mesmo.

Enfim, como deu para perceber, ninguém se animou em tratar de assuntos gerais no grupo com os chefes. Foi então que Bella resolveu criar um grupo sem os chefes. Chama-se “Integração”. E preciso admitir a perspicácia dos envolvidos nessa proliferação de grupos de whats do trabalho. Da chefia, por ver que isso era um campo minado, de Bella por perceber que os chefes eram um inibidor da integração do pessoal.

O grupo “Integração” desde o início esteve agitado. Alguns bons dias aparecem, convites para aniversários (para quem eventualmente perdeu em meio aos parabéns do grupo “Grupo de Níver”), até mesmo assuntos de trabalho - ninguém ainda resolveu fazer desabafo sobre, mas creio que esse dia está próximo. O foco, contudo, são assuntos aleatórios: onde comprar alguma coisa, indicações de produtos de beleza, recomendações de filmes (sempre com adjetivos como “sensacional” e “inesquecível” para blockbuster descartáveis) e assim ia, até chegar o assunto futebol. A derrota do São Paulo, na última rodada antes da copa, gerou uma discussão homérica, sempre em alto nível, com alguns argumentos batidos como “time grande não cai” e “51 é pinga” e alguns muito originais, como “o Corinthians está mal por causa do Lula, que afundou o time com o estádio pra Copa”, terminando em ofensas de vários calibres. Por falar em copa, Neymar ajudou a azedar um pouco mais o clima no grupo. Resultado: tem colegas que não estão mais se falando pessoalmente, mas seguem tretando no grupo - “Integração”, bom sempre lembrar o nome dele, cuja ironia não parece ter sido proposital.

Eu sigo em silêncio, acompanhando à distância, quando tenho paciência e estômago. E antevejo quando a copa acabar e chegar a hora de discussões eleitorais - Goreti, por exemplo, já avisou que pretende ser mais ativo. Enquanto isso, o grupo de trabalho dorme em berço esplêndido, sem que os chefes desconfiem de nada.


10 de junho de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.

terça-feira, 5 de maio de 2026

A violência que restaura o macho

Na volta do trabalho passo no mercado, comprar alguns víveres. Acondiciono-os numa bolsa de pano que herdei da minha mãe, penduro-a no ombro e sigo para casa. No meio do caminho, um motoboy está parado na calçada, em cima da moto, descansando, o capacete e a mochila quadrada ao lado. Mexe no celular quando me vê, e assim que me enxerga, fica me olhando fixamente. Acho o movimento estranho e fico a reparar de canto de olho, alerta. Ao me aproximar, começa a falar, sem tirar os olhos de mim: dependesse de mim, matava tudo esses veados. Homossexual tinha tudo que ser assassinado. Sigo meu trajeto, ele segue a falar absurdidades do mesmo teor. Não olho para trás, com medo de ele interpretar isso como um chamado para briga, mas apuro os ouvidos para qualquer barulho estranho, que sinalize um avançar pelas costas - não há outros transeuntes nesse momento. Atravesso a rua, trinta metros adiante, já não o escuto mais, e o incidente termina por aí. 

Bolsa de pano rosa com flores sobre calça cargo e sapato de segurança
Não é a primeira vez que recebo uma agressão verbal homofóbica. Da outra vez, há alguns anos, passei por um homem que logo a seguir disse que não gostava que lhe mostrassem os dentes e passou a me xingar - eu que nem tinha reparado que estava de boca meia aberta, atrasado que estava para meu compromisso na Pastoral dos Migrantes, e tinha reparado ainda menos na existência do homem, até receber a chuva de impropérios naquela manhã chuvosa.

Como da outra vez, fico a me questionar o que motivou o homem à agressão, que, menos mal, ficou apenas na verbal. Seja eu “veado” ou não, não dou bandeira, como se diz, menos ainda em dias de trabalho: estou trajando uma camiseta básica branca, calça jeans cargo e sapato de segurança (desnecessário para a função que hoje exerço, mas acho útil para São Paulo), sem maquiagem. Penso na bolsa rosa, de florzinhas, que carrego no ombro. Seria isso? 

Mais provável que tenha sido o desejo da pessoa que eruptiu sem a autorização da sua masculinidade heteronormativa, e precisou atacar quem o despertou. Para ele, fui eu quem agredi primeiro, não sei se com minha figura ou com minha bolsa rosa de flores, contradizendo uma pretensa masculinidade que em uma primeira visão eu aparento assumir - e que ele busca se identificar, ao que tudo indica, com muito esforço e sofrimento. E com reiterados reforços para manter essa identificação: nas redes sociais, perfis que glorificam performances de gênero engessadas (masculinas e femininas) não são marginais, atraem pessoas das mais diversas classes sociais e prometem o retorno de alguma estabilidade neste tempo de radicalização de “tudo o que é sólido se desmancha no ar”. Como corolário dessa masculinidade sem fissuras, a virilidade - um valor que a indústria cultural nunca deixou de propagar -, que não só não admite fraquejadas, como exige exibição permanente. 

O resultado é a repressão de qualquer desejo que possa decompor essa masculinidade, e a falta de repertório para lidar com ele, quando irrompe sem pedir autorização - daí a necessidade de agressão, seja verbal, seja física, seja eleitoral, como forma de provar para si que não é o que de fato deseja e restituir a auto-imagem de macho viril heterossexual que lhe dizem ser o normal, o certo.

Quero acreditar na educação formal como forma de, a longo prazo, resolver essa questão - porém isso é esperar demais da escola, e há muitos educadores que se alinham a esse tipo de pensamento, talvez apenas com um discurso mais edulcorado. É a educação feita na militância do dia a dia, no cara a cara, criando espaços de diálogo e reflexão, a alternativa que efetivamente temos para modificar esse estado de violência permanente contra minorias.

O episódio foi curto e sem consequências maiores, mas não deixou de me afetar. Porém, se isso acontece comigo, que estava na minha versão mais sóbria e discreta, imagino quantas vezes isso não acontece com quem se livrou de algumas das performances de gênero: é um pedágio absolutamente desnecessário para se andar pela cidade sendo quem se é.


São Paulo, 05 de maio de 2026


quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Metodista, o hub de informações da empresa, volta das férias [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Metodista voltou de férias - que não são merecidas, pois se trata de direito e não de merecimento. Metodista, que foi trazida apenas rapidamente a estas paisagens textuais, é um hub de informações da empresa. Informações oficiais, extra-oficiais, oficiosas, conjugais e extra-conjugais - e algumas fofocas, de vez em quando, pois ninguém é de ferro.

Pois chegou ela, e não perdi tempo: dei as três horas regulamentares para ela se inteirar, e chamei para um café no refeitório. Como parte do cenário, Goreti preparava seu almoço. Muitas novidades acontecidas nesses vinte dias e fazia-se mister alguma explicação: velhos colegas que saíram, novos colegas que chegaram (eu queria ver o inverso), mudança no leiaute da sala, uns pepinos pra cá, uns abacaxis pra lá, e vida que segue. Ao menos assim eu acreditava.

Pois fiquei sabendo que a funcionária que entrou - já como supervisora - é, na verdade, sobrinha do diretor geral (prima do Baço, de breve passagem, difícil recordação e nenhuma falta). Sua função é pôr ordem na casa, pois pela segunda vez consecutiva não batemos nossas metas - e eu, ingênuo, que acreditava que trabalhava num setor que não possuía metas. Já duas das baixas que tivemos foram trabalhar na concorrência, que ofereceu não só melhores salários como um pouco de alívio na tensão psicológica - afinal, o espectro de um passaralho volta a rondar o setor, que poderia ser incorporado por outro. 

Goreti se aproximou da conversa, prestava atenção, mas olhava com certo olhar aparvorado. Metodista continuava:

Se com passaralho ou sem, o certo é que nosso chefe e o diretor geral entraram em rota de colisão. Ainda não consegui saber como que o chefe não perdeu o emprego.

Nessa hora Goreti interveio:

Deixa eu ver se entendi: Metodista, você está explicando para o Sérgio S. o que aconteceu na empresa nesse período em que você esteve de férias?  Você não viajou, não?

Vinte dias na praia!

E se virando pra mim:

E você, onde esteve, que não sabe nada disso?

Goreti agora tem certeza: sou uma pessoa alienada.


19 de novembro de 2025


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Goreti: o homem dos infortúnios miúdos [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

 Goreti é o cara dos pequenos azares. Nunca tem um grande drama, uma questão dilacerante. É sempre white people problems e nimiedades. Quando parece que algo mais sério aconteceu, logo se mostra uma farsa - como foi o caso do berinjonha, descrito aqui há muito tempo [bit.ly/cG230102]. 

Mês passado lhe afligia suas férias: se ia para Lituânia, Tonga, Tunísia ou Belize. Convenhamos, alguém que tem entre suas opções de destino qualquer um desses países aleatórios é uma pessoa que busca algum tipo de problema - com a língua, que seja. Ou que conhece muito de geografia para saber da existência deles. Ou que paga duolingo e quer fazer uso desse dinheiro gasto.

Hoje chegou do almoço com o nariz sangrando. Ninguém teve dúvidas do que teria acontecido: um assalto, como tem sido muito comum em São Paulo, apesar de ter um polícia em cada esquina, ao qual ele deve ter tentado reagir e acabou apanhando.

O mistério foi longo: se trancou no banheiro e não saiu de lá até que estancasse o sangramento. Quando finalmente conseguiu, o cercamos, ansiosos por mais detalhes: teria sido o mesmo assaltante que passou correndo e levou a correntinha de um colega, tempos atrás? Quiseram levar o celular? O assaltante estava com arma de fogo? Ou só uma faca? Por que reagiu? A polícia conseguiu prender o bandido? Já tentou fazer arte marcial tailandesa, que seria útil nesse caso?

Goreti, como é do seu feitio, primeiro esperou todos falarem, ou melhor, todos se calarem - o que não foi simples, porque quanto mais demorava, mais a ansiedade crescia e mais se falava. Quando finalmente o silêncio se fez, ele contou em detalhes o que aconteceu, e não precisou de um minuto para tanto, mesmo esticando bastante para seu habitual:

Eu estava andando pela Boavista, nem tão distraído assim, pois digo que São Paulo não se pode dar vacilo. Páro para atravessar a rua. É quando sinto a pancada em meu nariz e o sangue jorrando de pronto. Ainda sem entender muito o que tinha acontecido, olhei para o chão e vi um galho de uns trinta centímetros. Foi isso: um galho caiu de uma árvore e conseguiu acertar bem em cheio o meu nariz.

Mas era trinta centímetro de comprimento ou de diâmetro - perguntou Bella (que não é de Isabela).

Macedo não se conteve:

Se fosse trinta centímetros de diâmetro não teríamos um sangramento no nariz, mas um nariz num sangramento.

Exato! - disse Goreti.

Eu complementei:

Convenhamos, não é algo tão difícil de acontecer: com três metros de napa, é o que você tem de mais exposto - visto de cima.

Exato! - Goreti não se abalou com a verdade sendo dita a queima roupa.

Tentei também ser otimista:

Ao menos foi um galho, não a árvore toda, como sói acontecer nesta cidade.

Exato! - exclamou novamente Goreti, como se não tivesse nada mais para falar.

A gente achou que você tinha sido assaltado e agredido - completou Goleador.

Ah, vá, sério?! Não tinha percebido isso - respondeu sem muita paciência o (anti) herói desta crônica.

Enfim, como sempre, Goreti e seus pequenos azares - sem emoção e totalmente quebra-clima. Ao menos ele trouxe o galho como prova do seu feito e para enfeite de sua baia.


20 de outubro de 2025.

Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas



segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Banquete de proatividade [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Puxa-saquismo de resultado. Começou a rolar um zumzum no setor de que doutora Sabujinha teria uma proposta de emprego melhor. Sempre disposta a fazer o que os chefes mandam, sem se incomodar com o que seja, nem de passar por cima dos colegas, além de ser uma doutora em sua área, sua possível saída levantou um sinal amarelo da chefia, sempre afeita a funcionários submissos e acríticos. A suspeita ganhou mais corpo com uma série de reuniões entre a chefia e ela. Por fim, ela segue na empresa - por enquanto. 

Fica, porém sem promoção. Diz a rádio peão que é por ter pouco tempo de casa - contudo os doutores sabujinhos que a antecederam conseguiram-na em igual tempo, ou seja, o problema de fato é ela ser mulher. Mas, para não sair de mãos abanando, ou melhor, para ficar de mãos abanando, no lugar da promoção ela ganhou uma reduflação: diminuíram as atividades e responsabilidades que ela tinha - que já eram parcas, por mais que se queixasse.

Claro, trabalhos não somem, alguém precisou ficar com a bucha. Ficou para Carnegie, que se recusou a aceitar, diante de tudo o que já tem para fazer. Sem ter como argumentar contra fatos, a chefe jogou para mim, que não tive como alegar nada e só me restou aceitar - frustrando meus planos enunciados em crônica anterior. Na disputa pelo mais vagal do setor, um a zero para a doutora Sabujinha. Fato curioso: como que esqueceram Macedo, que é quem sempre recebe as demandas sem dono, e as aceita, mesmo estando sobrecarregado?

Puxa-saquismo profissional. Tal qual o último doutor Sabujinho, doutora Sabujinha sabe que é importante fazer uma moral com os colegas - ao menos aqueles que ela ainda não enfiou uma faca nas costas.

Ela, que já era bem relacionada, desde que decidiu permanecer, passou a ser a pessoa mais simpática do setor - para grande amargor dos que já sentiram suas botas de alpinismo no lombo.

Aproveitou a deixa de um grupo para apostar na loto para, inspirada no nobre colega Goreti, organizar uma macarronada com galeto - e mostrar para a chefia proatividade e capacidade de liderar um grupo. Claro, nem todos foram convidados: aqueles que já a enfrentaram ficaram de fora - este escriba entre eles.

Dos que foram convidados, a maioria topou. A data: quinto dia útil do mês, dia em que os funcionários, alegres pelo salário que pingou na conta, saem para comer fora, como se não tivesse o mês todo pela frente.


Assim, foram para o refeitório munidos de três potes de macarrão - um de penne, um de fusilli e um de espaguete -, dois potes de molho - vermelho e branco - e quatro airfryers para o galeto. De modo que na hora de preparar o almoço coletivo eram seis micro-ondas (havia um sendo utilizado por um funcionário de outro setor) e quatro airfryers ligados simultaneamente no mesmo disjuntor. Claro, óbvio, o disjuntor caiu. Não sem antes queimar quatro dos oito micro-ondas e três airfryers.

As reações foram diversas. Alguns, que já caíram no papinho da colega, ficaram consternados por ela; os que tiveram seus eletrodomésticos queimados estão com raiva, e os demais, que não tinham nada a ver com a história, estão simplesmente revoltados - até porque a empresa já avisou que não irá comprar novos aparelhos tão cedo. Assim, as filas para esquentar a comida, que já eram grandes, aumentaram ainda mais, chegando a passar de meia hora!

E se o povo ficou emputecido com ela, por ferrar o horário de almoço, os chefes, que nunca almoçam no refeitório, devem ter achado o gesto genial. Para os colegas, ela estragou o almoço, para a chefia, serviu um banquete de proatividade.


01 de setembro de 2025

Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas

sexta-feira, 1 de agosto de 2025

Macedo e seus colegas de almoço nas minhas férias [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça]

Voltei das férias - que não chamo de merecidas porque férias não é merecimento, é direito, conquistado com sangue e suor, mendigado por patrões (como se lhes fosse um fardo ceder esse direito) e sempre insuficiente para o tanto que trabalhamos (menos para juízes). Pois bem, voltei de férias e, diferentemente de algumas das férias passadas, ninguém perguntou se eu estava doente e estivera de atestado nos últimos dois dias. Desta feita sequer notaram que eu me ausentara, salvo o pessoal da minha equipe - o que não significa que sentiram minha falta. E isso é uma boa notícia! Sinal que estou no caminho certo - a meta é passar tão despercebido que até o trabalho passe por mim, e me reste apenas o salário (com os devidos descontos tributários, pois não sou sonegador, me opondo frontalmente ao que dizia um certo ex-presidente que usa adornos no tornozelo).

Talvez quem tenha sentido um pouco minha falta foi Macedo, meu contumaz companheiro de almoço. Na minha ausência, ele variou os colegas com quem compartilhou esse momento - e a alta rotatividade mostra que não teve um que tocou seu coraçãozinho ou que suportou seu humor quase silencioso: tiradas mordazes em ASMR. Já comentei algures que ele é de falar pouco e bem baixo. Também já comentei algures que, pobre Macedo, aparentemente tão bom ouvinte por falar pouco e aparentemente ter uma paciência de Jó, ainda por cima é cercado por tagarelas por todos os lados de sua baia e um pouco além - sendo eu o menos parolema (habemus esperanto!) dessa lista, o que não quer dizer muita coisa.

Digo tudo isto porque foi Macedo quem me atualizou das novidades no tempo em que estive fora. Novidades que não traziam nada de novo. Salvo as do almoço, em que descobriu a face oculta de vários colegas.

Do Mello, fiquei sabendo que não oferece chocolate quando se vai almoçar com ele. Compreensível: se aceitou o convite, não precisa te convencer a escutá-lo. O chocolate é uma forma de atrair para seu lero-lero, não uma compensação por suportá-lo.

De Pacheco, a Doutora Sabujinha, nada de novo, segue a pessoa chata e aduladora de sempre (conclusão minha, a partir do que ele contou).

As novidades novidadeiras foram as da Goleador. 

A primeira foi toda uma mobilização no setor de quem estaria matando a suculenta que fica na entrada, mesmo depois do recado afixado junto a ela. Ninguém queria assumir o ato, até que a secretária bateu o martelo: era ela quem iria cuidar da planta, ninguém mais; ao que Goleador respondeu, aliviada:

Ai, que bom! Não aguentava ter mais essa responsabilidade para mim. Eu via a planta morrendo e estava tentando salvá-la. Era a única a regá-la!

Tentando salvar uma suculenta regando todos os dias... Proatividade nem sempre é algo tão positivo assim - e nem digo isso por ser uma pessoa propassiva.

Mas talvez o que mais me chamou a atenção foi quando Macedo contou que conheceu a versão silenciosa dela. Incrédulo, perguntei como aconteceu tal proeza, estaria ela deprimida, talvez por conta da planta?

Não, ela apenas não fala de boca cheia - e estávamos almoçando.


01 de agosto de 2025


Relembrando os velhos tempos de Trezenhum. Humor Sem Graça., este texto contou com contribuição do Ricardo (além, é claro, do Macedo; mas ele não é da época do TZN. HSG)


Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas

quinta-feira, 17 de julho de 2025

Salvador tem clima mais paulistano que São Paulo

 É praxe se queixar da ex-terra da garoa, hoje terra das tormentas, como tendo as quatro estações num único dia. Passei uma semana em Salvador e digo: SP é amadora em viradas climáticas.

Acostumado que a previsão do tempo só acerta prognósticos emitidos com uma hora de atraso, sequer conferi o que me esperava para a capital baiana. Fui com base na minha intuição, retirada das aulas de geografia, século passado, que me ensinaram que no clima tropical os verões são quentes e chuvosos, e os invernos, menos quentes e secos. Já havia comprovado isso in loco, ano passado, em São Luís, no Maranhão. 

Ou ao menos assim achava. Porque este ano pus em dúvida o que os professores Jader e Wilfred me ensinaram - ou teria eu dormido na aula? Não, nessa época eu ainda tinha peso na consciência de dormir em aula. Não é possível que Salvador seja desse clima tropical ensinado! Teria o Trópico de Capricórnio um pequeno desvio, de modo a incluir Salvador no clima subtropical? Serão as mudanças climáticas? Terá sido só coincidência, mesmo? São perguntas.

O que se passou é que foram sete dias de frio e chuva e vento. Claro, há que se relativizar o que é frio na Bahia. Nada como estava em São Paulo, mas os 21ºC eram pouco convidativos para sair de bermuda à noite.

Também foram sete dias de sol e calor ameno e vento, que pouco convidavam a uma praia - menos para Lia, que fez questão de entrar na água, mais por querer muito entrar no mar, do que por estar gostoso para isso naquela ventania que esfriava qualquer 26ºC.

Já antevejo que os defensores mais radicais de São Paulo vão argumentar que aqui ainda é pior: a regularidade soteropolitana, de todas as estações em todos os dias, ainda garante que todos os apetrechos carregados consigo serão de alguma utilidade, enquanto em Éssepê você carrega tudo isso sem ter a certeza de que vai mesmo precisar - essa certeza só surge quando você esquece o guarda-chuvas pois, é claro, vai chover na hora do fim de expediente.

Da minha parte, está posto: nesse ponto, não reclamo mais do clima de São Paulo.


17 de julho de 2025




quinta-feira, 26 de junho de 2025

Ladeira General Carneiro, 26 de junho de 2025

No alto da ladeira General Carneiro, um homem oferece suas chagas em troca de moedas. Em frente à base da polícia, Testemunhas de Jeová oferecem sua versão do fim do mundo. Sigo descendo, e o que se oferece são produtos populares de um lado e do outro, réplicas de roupas e tênis de marcas e uniformes de futebol com propaganda de bets. Na rua Doutor Bittencourt Rodrigues, uma fila começa a se formar. Seria para o sopão do meio-dia? Noto movimentação bastante incomum pouco depois da entrada de ônibus do Parque Dom Pedro. Diante dessa nova figura, o fundo se destaca. Reparo no viaduto Diário Popular: se tornou a casa para muitas pessoas - as barracas improvisadas com cobertores se enfileiram na área para pedestres. Talvez os expulsos da mal chamada cracolândia. No gramado da alça do viaduto, PM e GCM dão guarida ao rapa, que recolhe restos transformados em pertences. Um homem, ora com as mãos na cabeça, ora apontando para seu colchonete e cobertor, parece negociar com dois PMs que permitam continuar com seus bens. Pouco depois os recolhe e segue acelerado rumo à movimentação incomum, meia quadra adiante. São onze horas da manhã, o frio já se dispersou sob o sol. O rapa segue fazendo seu trabalho sob o olhar vigilantes da polícia da e da guarda. Muitas pessoas, diante do olhar indiferente da cidade, saem enroladas em seus cobertores cinzas, como que tentando ganhar a invisibilidade que a sociedade quer deles.


26 de junho de 2025



segunda-feira, 9 de junho de 2025

Usos alternativos da escada de emergência [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça]

 O clima não anda muito bom na empresa. Não que isso seja novidade - e nem é culpa especificamente da empresa (mas é também). “Não há trabalho ruim, o ruim é ter que trabalhar”, já dizia o Seu Madruga. Mas sempre dá para piorar. Dunker e Safatle apresentam o neoliberalismo, no nível micropolítico, como forma de gestão do sofrimento psíquico - a tal qualidade de vida que o modelo de gestão de pessoas 4.0 apregoa é coisa do passado, se é que algum dia existiu de verdade tal preocupação por parte das empresas (eu acho que sempre foi uma mentira). Atualmente, devem seguir uma versão corrompida dos dois fatores de Herzberg, as melhores, quando não é a lógica do chicote no lombo, mesmo.

Mas por que toda essa introdução? Hoje Goreti chegou com uma garrafinha nova. Um emoji feliz e os dizeres: “Uma garrafinha feliz, porque o resto aqui é só tristeza”. Ousado. Temero. Eu receio a hora que o chefe a veja. Talvez abra um sorriso sarcástico e pense “vamos apertar a coisa, para ele ver o que é tristeza de verdade”, e use seus conhecimentos de coach para assediá-lo. Ou seja mais direto e ofereça a porta da rua, caso ele esteja descontente - com certeza não vai demiti-lo, porque vai ser difícil achar alguém para substituí-lo. Mas pode ser que nada disso aconteça: ele não veja a garrafinha e vida que segue, em doses homeopáticas de assédio e ranço. Goreti já distribuiu exemplares do Manifesto Proletário, do Capirotinho, e até agora nada aconteceu - a não ser formas difusas de boicote, apesar que eu preferiria uma revolta, com coquetéis molotov, fascistas e militares pendurados de ponta cabeça e tudo o mais. Como isso não está no horizonte, nos resta as recusas silenciosas.

Está ruim para nós, mas está ainda pior para Shôri, colega do setor ao lado, apresentada a mim e a Macedo pelo Fernandez, Colega do Topo (que anda meio sumido). Fora os assédios no trabalho, ainda tem que dividir o fumódromo com a chefe - que faz questão de ir pouco depois de ela sair -, que aproveita o momento de relaxamento para cobrá-la mais por mais resultados (não foi engano o duplo mais). Cansada disso, Shôri passou a fumar escondida na escada de emergência - onde não há câmeras nem detectores de fumaça -, ao menos algumas vezes.

Pois estava ela, semana passada, terminando seu cigarro quando escutou um barulho estranho, alguns andares abaixo. Foi até a fonte de ruído e encontrou a funcionária de algum outro setor sentada, chorando.

Aconteceu alguma coisa? Está tudo bem?

Está tudo bem - foi a resposta em meio ao choro e soluços, e Shôri decidiu não insistir: se ela disse, está dito.

Voltou para o trabalho e refletiu: eis um bom uso para as escadas de emergência, sempre vazias (ou quase): melhor que chorar no banheiro, onde tem que segurar para não fazê-lo alto. Mal terminou seu raciocínio e resolveu aceitar a realidade, não a resposta: era óbvio que a moça não estava bem. Pegou um copo d’água, algumas folhas de papel toalha, uma barra de chocolates que guarda para emergências e foi ao encontro da mulher, que seguia chorando.

Olha, não sei o que aconteceu, mas te trouxe isto.

Foi aí que a mulher desandou a chorar de vez e contou do último episódio de assédio recebido. Nada de novo sob o sol, nem sob o teto da empresa; só uma gota a mais no co(r)po cheio.

Pois hoje estávamos conversando na escada de emergência quando escutamos uma voz:

Achei mesmo que fosse te encontrar por aqui! 

Pronto, a chefe encontrou Shôri, e vai tomar um sabão por estar fugindo do trabalho - além da advertência por estar fumando em local proibido. E eu vou de carona, mesmo sendo apenas fumante passivo. Nos viramos e demos com duas mãos segurando uma caixa de bombons.

Obrigada pelos chocolates.

Shôri mal teve tempo de agradecer, a mulher saiu, quase uma assombração, assim como chegou.

Pois é... um texto sem graça, mas achei gracioso o gesto de ambas.


09 de junho de 2025


Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas

quarta-feira, 21 de maio de 2025

Acho que recebi um elogio [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Acho que recebi um elogio, não sei bem.

Macedo está de férias, tem feito falta. Não apenas por saber tudo do trabalho, como por ser um bom ouvinte - ainda que involuntário. Na falta dele, os colegas tagarelas que o cercam vão atrás de novas vítimas, digo, novos interlocutores. 

Hoje fui cercado pelos indivíduos que sentam à frente e à esquerda de Macedo, Mello, o colega que oferece chocolate e depois cobra um preço por isso (escutá-lo se repetir e se repetir e se repetir várias e várias e várias vezes por dia) e Pacheco, respectivamente. Costumo estar sempre de fones de ouvido, justo para tentar evitar certos tipos de interpelação, digo, de interação, e hoje cometi a séria falha de, após responder a uma questão de trabalho, não subi-los imediatamente. Foi a deixa. Já que estavam falando de música, julgaram que nada melhor que chamar o colega sempre com fones para a conversa.

Papo vai, papo vem, eu não conseguia achar uma sobra de respiro para voltar ao trabalho - por mais que estivesse enfadonho. E lá iam eles falando sobre punk, pós-punk, new wave, skate rock, e eu só ouvindo. Se me perguntassem, capaz de eu dizer que gostava apenas de Chico, Vandré, Gil, Caetano, Arrigo, só para conseguir fugir da conversa - e quem disse que me perguntaram?

A certa altura, com uma meia hora de parlatório, entraram no assunto Iggy Pop - ambos muito fãs. O colega do chocolate-com-papo (que aceitei desta feita, porque o papo já tinha chegado, ao menos pude aproveitar o chocolate) contou que foi no show de 2009 e fora muito bom.

Eu bem queria ter ido, mas era menor de idade na época - respondeu Pacheco.


Foi quando ao menos consegui participar da conversa.

Fui em 2005 e foi muito louco! Ele pulou no meio da galera, depois chamou para subirem no palco, pegaram o microfone dele para cantar I wanna be your dog, e os seguranças totalmente perdidos.

Que idade você tinha para conseguir entrar no show em 2005? - perguntou, incrédula, Pacheco

Contei minha idade, e ela se mostrou estarrecida:

Julguei que tivesse a minha idade, entrando nos trinta.

Não, já passei dos quarenta.

Nossa, então você até que está conservado!

Fiquei tentando entender o porquê de ter me subtraído mais de dez anos. Seriam minhas roupas sem passar? Meu corte de cabelo diferentex? Não sei, e não tenho Macedo aqui para perguntar. Mas nas entrelinhas foi possível ler: se para quarenta eu estava “até conservado” (feito um picles?), para o trinta que ela (e quantos mais no setor?) achava que eu tinha, devo estar só o pó da rabiola. Não tiro a razão. 


21 de maio de 2025

 

Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas