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sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Tikal, a altura do tempo [Viagem à Guatemala]

 Três vezes por semana costumo ir à pé para o trabalho - são quarenta minutos de caminhada. Todos os dias subo os sete andares até onde trabalhava (uma semana antes das férias fomos transferidos para o vigésimo quarto andar). Isso para dizer que não estou tão fora de forma e que o passeio a Tikal é mesmo exigente, como subir as escadas até o templo IV, de setenta e cinco metros (os vinte e quatro andares que pretendo começar a subir todos os dias), depois de já ter subido outros três templos e o observatório astronômico, de alturas consideráveis, sem falar nos templos mais baixos, mas com degraus grandes, que forçam ainda mais as pernas. Ademais, ao fim, meu relógio marcava  doze mil passos, o que dá entre oito e nove quilômetros.

Tikal é a maior ruína maia da Guatemala, com milhares de construções - muitas delas ainda por escavar.

À chegada, apenas o vislumbre dos fundos do templo do Jaguar já impressiona. Impressiona é pouco, não acho palavras para descrever a sensação de quando vejo o paredão de pedras com sua cúpula por entre árvores, enquanto o guia Carlos ainda dá explicações gerais sobre a organização da cidade. Eu preciso de silêncio para processar - e há um tipo de silêncio ali que não é feito de ausência de sons. E mesmo agora é difícil pôr em texto (minha capacidade como escritor é limitada, ainda mais por não ser poeta). Se eu fosse minimamente místico, eu poderia me referir à energia do local - porque, sim, há algo que impacta para além do racional: um local grandioso demais, com histórias demais, com detalhes demais, com mistérios demais para eu dar conta de entender minimamente a importância com minha vida estreita de classe média remediada.

Fundada ainda antes da era comum, vivendo seu apogeu no período clássico da cultura maia (200 a 900 dC), e abandonada logo em seguida, Tikal chegou a ter trinta mil habitantes internos, numa população total de duzentas e cinquenta mil pessoas. Conforme Carlos, a cada cinquenta e dois anos (quando o calendário solar e o lunar-religioso se encontram) se suplantava o tempo e o templo anterior, por um mais largo e mais alto. É de se imaginar quantas gerações não construíram seus templos sobre outros ali, e qual tamanho não teria se a cidade tivesse persistido.

Nas décadas de 1950 e 60 foi escavada por missões científicas estadunidenses da universidade de Pensilvânia que, claro, saquearam o que encontraram, de objetos quotidianos e rituais a frontões de templos. Restaram os templos - porque não deu para levar. Mas um deles, o de face sul na praça central, me conta Carlos, desmoronou por conta dos túneis das escavações científicas. O Ocidente agindo como Ocidente - Lia diria: branco fazendo branquice. 

Desse desmoronamento é possível ver outras camadas de construções, com suas máscaras grandiloquentes: os novos templos eram construídos sobre os antigos, sem destruí-los, apenas adicionando novas camadas. 

Ainda na praça central, subi no templo das Máscaras, com cerca de quarenta metros de altura. Tratava-se de um local que era exclusivo para sacerdotes e do seu alto dá para sentir o poder dessa posição: abaixo pessoas diminutas, à frente, fazendo vez ao seu tamanho, o templo do Jaguar. E no horizonte, a floresta e o peso de milhares de anos de história.












05 de dezembro de 2025

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Entre ruínas [Viagem à Guatemala]

Reconheço uma grande atração por ruínas. Não sei explicar bem o porquê. Acho que é poder presenciar esse gládio entre o ser humano e o tempo, entre o esquecimento e a obra humana. Pois hoje descobri que ruínas também podem ser uma pugna entre a natureza e a nossa ambição de imortalidade.

A primeira parada do dia foi em Iximché, ruínas de uma cidade maia do pós-clássico, fundada em 1470 e abandonada menos de cem anos depois, após ser conquistada pelos espanhóis - foi a primeira capital da Guatemala, por breve tempo.

A cidade é cercada por escarpa em três de seus lados, e era no baixio dessa montanha que viviam as pessoas “normais”, em casas simples das quais não resta nada. Me chama a atenção o poder da ideologia nesse caso: essas pessoas atendiam aos interesses do rei, dos sacerdotes e da nobreza, sem ganhar objetivamente nada em troca - diferentemente da Europa, onde se oferecia proteção física por servir ao senhor feudal, por exemplo.

De parte das construções, restam apenas as plataformas sobre as quais se erguiam templos, casas e palácios. Outra parte foi tomada pela natureza. Ainda assim, o ser humano insiste, e no final do sítio arqueológico, no último templo da última praça, presencio dois rituais maias em honra aos antepassados - o que já era previsível, visto o cheiro de fumaça que impregnava todo o sítio (havia um terceiro, que me pareceu para turista, visto que eera apenas uma indígena cercada de gente branca) .

A segunda parada foi em La Antigua, por muito tempo a capital da Capitania da Guatemala, e patrimônio histórico da humanidade pela Unesco. A cidade está engessada - segundo William, não se pode construir ou derrubar nada -, mas isso não significa que seja uma cidade morta, numa vida artificial para turistas (como foi minha sensação com a cidade velha de Cartagena de Índias, na Colômbia [http://bit.ly/cG230301]): pessoas moram ali, há uma vida que se desenrola para além do turismo.

Das trinta e seis igrejas que haviam na cidade, restam dezesseis - todas restauradas ou em processo de restauração. Contudo, se as ruínas de Iximché foram tomadas pela natureza depois do abandono, aqui a natureza primeiro transformou parte da cidade em ruínas, por conta dos terremotos, até ela ser abandonada por ordem real - em um processo que levou dez anos - , para voltar a ser ocupada anos depois: “se querem ver as obras que haviam nestas paredes, visitem as igrejas da capital”, no diz William.

Creio que as três construções de destaque da cidade são a igreja de La Merced, uma igreja do barroco antiguenho, de proporções estranhas, uma vez que é baixa e bastante larga; o Arco de Santa Catarina, uma ponte por onde religiosas podiam cruzar a rua sem serem vistas, e com isso sem descumprir seu voto de reclusão, e a catedral de San José.

Desta última, o nártex (o hall de entrada da igreja) foi reconstruído e transformado na nave igreja. É modesta, ainda mais diante do tamanho de suas ruínas, com quase cem metros de comprimento. Nela, me salta aos olhos um Cristo negro. Seria sua cor original?! Nos trabalhos de restauro, descobriu-se que era branco e foi enegrecendo com o tempo. Porém, por conta da fé viva que em torno dele, decidiram mantê-lo tal qual está hoje: uma vez por ano fiéis de várias localidades - inclusive Oaxaca, no México - vêm até aqui por conta dele: “o Deus que quis ser moreno como nós”. 

Na parte de ruínas da catedral, como em outras ruínas daqui que visitei, muitas colunas e paredes reconstruídas - segundo William, ainda é restauro se for menos de 50% do edifício reconstruído. Certamente deve haver questões estruturais que justificam muitas dessas intervenções, outras, como em paredes laterais, me parecem um desejo de retomar a antiga forma, de disfarçar a obra da natureza e do tempo - e acabam por mostrar nossa pequenez diante de nossos sonhos de grandiosidade.


02 de dezembro de 2025










segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Miyazaki na Mesoamérica [Viagem à Guatemala]

O segundo dia amanhece claro e tomo meu café da manhã diante da imponência dos 1.500 metros dos vulcões Tolimán e Atitlán. O roteiro é tomar uma lancha e visitar duas localidades que beiram o lago Atitlán.

A primeira cidade foi San Juan La Laguna. Visitamos uma cafeteria que produz o próprio café, uma loja de chocolate que produz o próprio chocolate - mas não o próprio cacau, que ali não é região cacaueira -, e uma cooperativa de tecelãs que eventualmente produz os próprios fios de algodão - e o tingem artesanalmente, a partir de plantas.

Em Santiago Atitlán (e sempre que ouço esse santo me lembro do curioso caso que é Tiago e Jacob terem a mesma origem), visitamos uma igreja de 1547, com o teto destruído por algum dos terremotos que atingiram a região (substituído por telhas galvanizadas) e cujo átrio defronte, amplo e desocupado, me remeteu às paisagens de De Chirico (e quem me conhece sabe o quanto sou fã desse pintor), porém com o horizonte terminando não no infinito, mas no vulcão Tolimán.

As ruas de Santiago são ruas perfumadas por diversos cheiros - tortillas sendo assadas, temperos, frutas, churrasco -, e as mulheres, como em Chichicastenango, via de regra, estão com trajes típicos - e, novamente, não me parece que seja para performar para o turismo, pois não me parece que milho, sapoti ou produtos de limpeza tenham muito apelo junto aos turistas. 

A outra parada que fizemos na cidade fomos de tuc tuc - uma espécie de moto táxi de três rodas - a uma favela, onde adentramos por uma viela até chegar a uma casa particular. Nessa casa estava a imagem do Gran Abuelo, Rilaj Mam, um santo popular, de origem maia, protetor local, que a cada ano ganha uma máscara nova e fica na casa de um dos membros da confraria. É um dos poucos aspectos em que notei homens tomando a dianteira na manutenção da tradição - e isso dentro de uma aura de grande mistério e círculo fechado. Em geral, o que percebo é que na insistência de aspectos culturais maias no quotidiano são as mulheres que surgem como as principais guardiãs.

Na volta, na lancha, a tarde já caindo, e a mesma neblina solar vai tomando conta do lago. Me sinto numa animação de Miyazaki adaptada para a mesoamérica: os vulcões Tolimán, Atitlán e San Pedro no lugar do monte Fuji, santos populares ocultos em máscaras misteriosas no lugar de grous e mulheres com Huipil e Faja, no lugar de quimono. E uma mesma poesia realisticamente irreal no ar.


01 de dezembro de 2025

domingo, 30 de novembro de 2025

Neblina feita de sol [Viagem à Guatemala]

Hoje, sim, começa minha viagem! O itinerário do pacote, digo. Ontem foi apenas chegada, uma sucessão de pequenos infortúnios (que ganharam outra dimensão por conta do cansaço e da expectativa) e uma visita ao interessante Museo Nacional de Arqueología y Etnografía - e o que ali vi acho que vai se tornar mais interessante conforme o avançar da viagem.

William, o guia, chega ao hotel com a pontualidade do carteiro de De volta para o futuro (não lembro se o 2 ou o 3). No carro, meus companheiros de viagem: um geólogo chileno e dois casais espanhóis. Aparentemente, somente eu, William e Wilson, o motorista, ainda trabalhamos - mas eu estou de férias.

No trajeto, William mostra grandes dotes para manter uma conversação: pulando de assunto aleatório em assunto aleatório, de origem do café à produção industrial brasileira, sem deixar de saber sobre a guerra civil guatemalteca e detalhes aprofudados sobre os maias, e passar pela problematização do termo “povos originários”.

Noto que fala com propriedade ou com dose de cuidado, não parecem dados simplesmente decorados ou erudição oca. Descubro, depois que é historiador, já participou de escavações arqueológicas e sabe um básico de hieróglifos maias. Além de ser guia turístico. Mas ele conta que queria mesmo era ser engenheiro agrônomo.

A primeira parada é em Chichicastenango, em El Quiché, cidade média, conforme William. Quarenta mil habitantes, sendo uns cinco mil na cidade. Isso, 40 mil. Meia Pato Branco. Um cidade média para os padrões guatemaltecos, portanto. Sigamos. A grande atração que fomos ver, a feira de domingo (e quintas) é um tanto cheia e caótica: numa quadra de esportes ocorre a feira de frutas e legumes, ao redor, em corredores estreitos, se organiza uma feira de itens diversos - para turistas e para locais -, quase uma Liberdade de domingo - o que muito me angustia.

Uma primeira coisa que chama a atenção e o guia reforça: as mulheres usam vestes parecidas (mas não iguais!), o mesmo traje típico, de origens maia, vermelho escuro - e, não, não é performance para turista tirar foto. Noto que uma ou outra usa traje azul. William explica: são de outra localidade, por isso a mudança de cores.

A feira ocorre entre duas construções religiosas do século XVI: uma a leste, com portas para oeste, portanto, a igreja de Santo Tomás; a outra, a oeste, com porta para o leste, a capela do Calvário, que tem missa apenas uma vez ao ano, dia primeiro de novembro. Ambas estão, separadas por pouco mais de cem metros e foram construídas sobre templos maias - por isso a precisão dos pontos cardeais.

Fora delas, muita, mas muita fumaça. Por obra do sincretismo religioso local, queima-se muita coisa em oferenda aos antepassados, e a fumaça é a forma de conduzir tais elementos ao mundo superior: velas, incensos, rum, cacao... a queima é feita do lado de fora porque a igreja tenta limitar até onde pode ir esse sincretismo, ao menos dentro de suas portas. Tenta, porque a fumaça adentra o templo de qualquer modo, fazendo dos afrescos nas paredes quase borras negras. Achei curioso que no centro das naves há elevações para se queimar velas - uma tentativa de “domesticar” os hábitos maias, substituindo toda a riqueza de oferendas e cheiros pela pasmaceira das velas? Na capela do Calvário, uma mulher reza sobre a imagem de Cristo como se fosse o próprio velório acontecendo. No convento anexo à igreja de Santo Tomás, uma placa indica que ali, no início do século XVIII, foi encontrado e traduzido o Popol Vuh, livro da cosmologia maia.

Nossa segunda parada em um taller de maíz. Uma casa simples, típica, paredes de adobe, pintadas, chão de terra batida e, o que me chamou a atenção, colunas com capitéis simples. Vimos como se mói o milho manualmente, conforme técnica ancestral, para depois preparar as tortillas, alimento típico, com uso equivalente ao pão.

Ali também fomos apresentados aos quatro tipos de milho cultivados e seus significados na cultura maia: o branco, que simboliza o ar, a pureza, os acestrais; o amarelo, que simboliza a luz, a vida; o preto, que simboliza a noite, a fertilidade; e o vermelho, que simboliza o sangue e o fogo. Por conta dessa represetanção, o milho vermelho é consumido apenas em situações rituais, sendo mais dedicado, por isso, à alimentação animal. Achei curioso, esses usos extremos do mesmo alimento: do mais elevado, o uso ritual, ao mais baixo, o uso animal, como se fosse um ciclo que se fechasse, com o ser humano no meio. 

Seguimos viagem até o lago Atitlán. Um lago vulcânico, com certa de 130 km² e 340 metros de profundidade, a 1.500 metros de altitude. Surgido de uma enorme erupção vulcânica, há 100 milhões de anos, ele hoje é circundado por alguns vulcões - há tempos inativos.

Chegamos perto do fim da tarde, uma estranha neblina cobria o lago, uma neblina que parecia feita de sol.

A visita ao lago ficaria para o dia seguinte.


30 de novembro de 2025

sábado, 29 de novembro de 2025

Merda! [Viagem à Guatemala]

Merda! No teatro de fala assim para desejar que o que é para dar errado, dê antes de entrar no palco. Merda! Eu devia ter dito isso antes de sair de casa para minha viagem de férias, não depois. 

Saí mais cedo com pegar o trem para o aeroporto de Guarulhos, justo para, na eventualidade de qualquer merda acontecer, ter tempo de resolvê-la. E assim foi. Já estava na Luz quando me dei conta de que havia esquecido a doleira. Um detalhe menor, sem dúvida, se eu não estivesse esquecido dentro os dólares que comprara para a viagem. Merda!

Volto para casa, pego a doleira (com os dólares) e vou para o aeroporto de aplicativo, mesmo. Isso dói para um mão de vaca, mas é a vida, às vezes custa um pouco mais. Ao menos minha dose de azar de viagem eu dava por resolvida. 

Ingênuo...

Na escala no Panamá, sou obrigado a despachar minha mala de mão. Faço a contragosto, mas não vai ser isso que vai estragar meu humor (depois de uma semana de extrema ansiedade por conta dessa viagem, o que pus na conta do autismo). Estou na fila para entrar no avião, vejo passar as malas e identifico a minha. Quebrada. Agora, sim: merda!

Durante o vôo ensaio um barraco em castelhano para quando chegar. Me demoram na imigração, e quando alcanço a esteira, minha mala está solitária ao lado dela. E quebrada. Ao menos vejo que foi só o casco externo, todo o resto está nos conformes. Viagem que segue, agora certo de que os deuses do teatro e da viagem já tinham me dado minha dose de merda - duas coisas menores, por sorte, que só vão me custar financeiramente.

A saída do aeroporto me chama a atenção. Na área de desembarque muitas (muitas!) pessoas esperando com balões e flores seus familiares. Muitas, mesmo! Por um instante cheguei a pensar que algum famoso iria desembacar, tal era o clima do local. O responsável da agência de viagens por me buscar, mais prático, tinha apenas uma placa com meu nome.

O hotel é próximo, mas o caminho é caótico. Ele explica que houve um aumento de 400% da frota da cidade desde a pandemia. Comenta também que cerca de 3 milhões de guatemaltecos vivem nos EUA (na internet, buscando depois achei o número de 1,5 milhões), a maioria indocumentado. Imagino que essa migração talvez explique todo o clima de festa na chegada, o que é confirmado: são os documentados voltando para as festas.

No hotel, lembro que não sou de luxo, não: prefiro as coisas mais simples. O corredor chique com cara de filme de terror, as muitas facilidades que vou ter vergonha de aproveitar e as coisas simples que não sei operar - tudo isso me intimida. Apesar de muito tentar, não consigo ligar o chuveiro - tomo banho de banheira, mesmo. Não que eu não goste de ficar na água, duro é se lavar assim.

Mas foi na saída do banho que descobri que os deuses da viagem estavam de mal comigo: não bastasse o pacote de dados internacional que comprei não estar funcionando, uma hora na tomada e a bateria do meu celular havia carregado 8%. Junto a isso, um aviso: carregamento lento, provavelmente causado por cabo danificado.

Bem, eu estava na Guatemala para passear, não para tirar fotos.




29 de agosto de 2025

quinta-feira, 17 de julho de 2025

Salvador tem clima mais paulistano que São Paulo

 É praxe se queixar da ex-terra da garoa, hoje terra das tormentas, como tendo as quatro estações num único dia. Passei uma semana em Salvador e digo: SP é amadora em viradas climáticas.

Acostumado que a previsão do tempo só acerta prognósticos emitidos com uma hora de atraso, sequer conferi o que me esperava para a capital baiana. Fui com base na minha intuição, retirada das aulas de geografia, século passado, que me ensinaram que no clima tropical os verões são quentes e chuvosos, e os invernos, menos quentes e secos. Já havia comprovado isso in loco, ano passado, em São Luís, no Maranhão. 

Ou ao menos assim achava. Porque este ano pus em dúvida o que os professores Jader e Wilfred me ensinaram - ou teria eu dormido na aula? Não, nessa época eu ainda tinha peso na consciência de dormir em aula. Não é possível que Salvador seja desse clima tropical ensinado! Teria o Trópico de Capricórnio um pequeno desvio, de modo a incluir Salvador no clima subtropical? Serão as mudanças climáticas? Terá sido só coincidência, mesmo? São perguntas.

O que se passou é que foram sete dias de frio e chuva e vento. Claro, há que se relativizar o que é frio na Bahia. Nada como estava em São Paulo, mas os 21ºC eram pouco convidativos para sair de bermuda à noite.

Também foram sete dias de sol e calor ameno e vento, que pouco convidavam a uma praia - menos para Lia, que fez questão de entrar na água, mais por querer muito entrar no mar, do que por estar gostoso para isso naquela ventania que esfriava qualquer 26ºC.

Já antevejo que os defensores mais radicais de São Paulo vão argumentar que aqui ainda é pior: a regularidade soteropolitana, de todas as estações em todos os dias, ainda garante que todos os apetrechos carregados consigo serão de alguma utilidade, enquanto em Éssepê você carrega tudo isso sem ter a certeza de que vai mesmo precisar - essa certeza só surge quando você esquece o guarda-chuvas pois, é claro, vai chover na hora do fim de expediente.

Da minha parte, está posto: nesse ponto, não reclamo mais do clima de São Paulo.


17 de julho de 2025




terça-feira, 16 de julho de 2024

Alcântara, suas ruínas e suas persistências

 


No Maranhão é um sol para cada um: assim me alertava Lia antes da viagem - ela que morou em São Luís na infância. Achei exagero dela - até chegar a Alcântara. Desembarcamos meio-dia, ainda um pouco grogues do dramin (para não enjoar na lancha), e nos deparamos com um mormaço e um sol que me fez, finalmente, entender a expressão do início desta crônica.

Nos arrastamos a Ladeira do Jacaré acima, suando feito chafariz, em ruas de pedras irregulares, que se estendiam pelas calçadas e, em alguns pontos, até as paredes das casas, como se rua e casa fosse uma coisa só - e talvez aqui ainda sejam.

Pela cidade, em especial na rua Grande, pessoas sentadas em cadeiras na rua, vendo o pequeno movimento - no caso, basicamente de turistas que fazem o bate e volta de São Luís. Quer dizer, era isso ou então uma enorme fila do Banco do Brasil. O comércio fechado - inclusive os restaurantes. Na pousada em que ficamos, perguntamos se serviam almoço, e junto com a resposta afirmativa veio a pergunta: o que querem comer?, como se fossem óbvias as opções. As aproximações para vender passeios guiados ou o passeio para ver a revoada das guarás foram feitas na rua, não raro em motos - na Colômbia tive abordagem parecida oferecendo drogas, e em São Paulo nesse tipo de situação é comum oferecerem integridade física em uma troca compulsória pelo celular. Alcântara tem seus pontos turísticos, mas falta um pouco de tato com o turista - e isto não é uma crítica, apenas uma constatação.

As ruínas são o grande ponto turístico para quem passa rapidamente pela cidade - há também museus e não sei se alguma das comunidades quilombolas possui estrutura para receber turistas. Havíamos lido que as ruínas eram obras inconclusas, e ficamos eu e Lia discutindo poeticamente o que seria isso: ruínas do que não foi, restos do futuro do pretérito. Na verdade, há dois palacetes nessa condição - que disputavam quem hospedaria o imperador na sua visita à cidade (na época que o Brasil era um império, só para ressaltar), visita essa nunca acontecida -; os demais palacetes, a igreja na praça principal, o convento, isso tudo são obras do tempo reafirmando sua superioridade sobre a obra humana. O pelourinho - um dos poucos que restaram no Brasil - está defronte o prédio atual da prefeitura, antiga câmara municipal e presídio de um lado, e defronte a ruína da igreja do outro, e só resistiu porque foi arrancado com o fim da escravidão e jogado em algum canto, sendo reencontrado décadas depois e posto no lugar original: aqui, o tempo ironiza sua capacidade de permanência, a despeito do desejo humano de esquecimento.

Já a revoadas das guarás, motivo que nos motivou a dormir em Alcântara, o calor nos venceu e preferimos nos enfurnar na pousada o resto da tarde, até para ter um primeiro descanso em uma semana de viagem.

À noite - quando o calor arrefece - é que a cidade ganha mais vida. Ou então tivemos sorte. Saímos para tomar a fresca - como meus pais faziam em Pato Branco - e defronte a igreja do Carmo, um grupo de dança portuguesa - Flor de Portugal - se apresentava para um considerável público, levando em conta que a área urbana deve ter cerca de dois mil habitantes. Ironia: dança portuguesa, dançada por negros, para negros, na cidade com o maior número de comunidades quilombolas do Brasil - e que seguem na luta, diga-se de passagem e não sem propósito. Depois da apresentação, crianças brincavam pelas ruínas e um pouco mais afastados os namorinhos de adolescência tinha vez nos becos mal iluminados.


Na manhã seguinte, a cidade estava mais movimentada, mas nas lojas nos avisaram: do meio-dia às três estariam fechadas. O grupo que vimos defronte o Banco do Brasil no dia anterior estava agora com suas cadeiras do outro lado da rua, aproveitando a sombra - a tarde trocariam novamente de lado, sempre em busca da sombra e do movimento na rua. Visitamos os quatro museus da cidade, e fomos em busca de um lugar para comer - tarefa difícil, pois os locais que oferecem almoço é preciso reservar com antecedência, para dar tempo de comprar os ingredientes. Por sorte, encontramos um simpático restaurante que funciona como estamos acostumados - de entrar e pedir na hora -, e pudemos, de quebra, provar o licor de jenipapo típico da cidade, distribuído na Festa do Divino (quarenta dias depois da páscoa).

Apesar de pequena e de termos percorrido quase todas as ruas da cidade, saímos de Alcântara com a sensação de que ela ainda escondia muitas coisas entre ruínas e memórias - talvez seja isso o que desponte na Festa do Divino.





16 de julho de 2024


domingo, 5 de março de 2023

A Quinta de San Pedro Alejandrino

Fazer uma viagem com "planejamento em tempo real" tem seus problemas, seus percalços, pontos interessantes que se deixa de visitar, trajetos não muito espertos, gastos desnecessários, mas também abre oportunidade para ir a programas que não se imaginava, não estavam nos planos, e não raro acabam ficando entre os mais interessantes. 

Em 2006, quando fiz um mochilão pela Patagônia com meu irmão, também com planejamento em tempo real - ainda que com noção do que queríamos ver e aonde ir -, não conseguimos ir até Ushuaia (passagem só para dali uma semana), nem subir a Ruta 40 e visitar a Cueva de las manos (muito caro), mas em compensação fomos até El Chaltén, que se hoje é um programa consagrado, então era bem alternativo, sequer constava no guia que havíamos comprado (que sugeria bizarramente Trelew e Puerto Deseado, em compensação), e cuja estrada que levava até a cidade sequer era asfaltada - e uma das coisas que me agradou foi poder fazer as trilhas sem guia, no ritmo que queríamos, inclusive saindo um tanto do caminho, pra ir assistir ao sol se pôr por trás dos Andes enquanto tomávamos mate.

Nesta minha viagem à Colômbia, acabei vindo até "la zona costera". Em Santa Marta, haviam me dito das praias, em especial de Tayrona. Soube apenas quando passei por uma das praias da reserva, que só se chega de barco e possui apenas um hotel simples como atração, que era possível se hospedar ali. Um passeio que muito me interessava era o da chamada Cidade Perdida, mas exige um tempo que não tinha (além dos valores). 

No primeiro dia fiz o passeio mais básico, até a praia de San Juan, em que ganhei belas queimaduras de sol pelo corpo - e que me fez admitir que praia não é mesmo a minha praia (talvez as muito vazias, como a que falei acima), que eu gosto é de morro e trilha, ou então cidade. 

No segundo dia, até por não ter condições de ficar lagarteando ao sol, pedi indicação à dona do hotel onde estou hospedado, que me recomendou La Quinta San Pedro Alejandrino, a uma hora de ônibus dali, longe do centro de Santa Marta, da praia, perto da "rodoviária" e de dois shoppings centers. Não sei por quê, se preguiça ou pressa de sair, não pesquisei o que havia em tal quinta. Apenas fui, e cada vez mais arrependido conforme a viagem no ônibus urbano (que os colombianos chamam de "buceta", para delírio da quinta série B) se demorava e se afastava do que parecia ser mais turístico. Ao chegar, uma entrada simples e do outro lado da rua um shopping. Um parque de vegetação ressequida? Ou teria ela me indicado o shopping?! 

Descubro que preciso pagar a entrada. Recuso um guia, com medo de que me cobrem (mas tenho a impressão de que não é o caso) e também de ter que seguir um roteiro muito definido. As placas indicam o suficiente: é um antiga fazenda de cana, iniciada em 1608, que produzia rum. Estão lá a "Bagacera", o "Trapiche", a "Destilería" e o "Sótano" (cuidado com mais esse falso cognato, sótano é porão, cova) para a produção do rum, assim como a casa da fazenda, "la casa Quinta" - pelo visto, o local de morada dos escravos, e talvez mesmo dos serviçais, não foi preservada, tão ao gosto das nossas elites, de apagar o trabalhador da história. 

Certo, interessante a fazenda, ainda que se perceba que a conservação não é dos edifícios do século XVI, tais quais eram - até porque como foi utilizada por mais de duzentos anos, é de se imaginar melhorias e não sua preservação para comemorações futuras de um estado nacional que sequer existia. Na verdade, descubro depois, estaria bastante próxima do que era em 1830. 

É meio dia, o calor é intenso, abafado, a respiração fica pesada, estou com sede; as construções são interessantes e o trajeto no sol entre elas (devidamente vestido) faz minhas queimaduras do dia anterior arderem. Ainda que La hojarasca, do García Márquez* se passe num ambiente urbano (se minha memória não me trai, li o livro em fins de 2004), me impressiono capacidade de ele descrever esse calor que ali me pesa - e não é a primeira vez, há um calor muito específico que ele retrata no livro, que não me parece ser apenas Colombiano (talvez eu esteja lembrando de quando fui à Venezuela, o que nega minha afirmação anterior, já que seria a Gran Colombia).

Noto adiante construções brancas, em estilo clássico grego - saberei logo mais que uma é o memorial da pátria, de 1930, a outra, o Museu de Arte Contemporânea, já do fim do século XX. O contraste das construções da antiga fazenda com aquele branco tão clássico e monumental, e com uma estátua no meio do caminho, também ela branca, ainda por cima, num dia quente, muito quente, e pesado, com uma vegetação que parece de clima mais seco (fora algumas árvores maiores), quase sem nenhuma pessoa circulando, me faz ver um De Chirico na cena - faltou apenas o sol estar se pondo, talvez um trem no horizonte. Todo o ambiente é de um surrealismo melancólico, uma espécie de abandono que não é mal conservação, é algo mais profundo, de um vazio de quando falta o essencial - e isso já faz eu achar que valeu o passeio.

Na casa da Quinta, algumas salas dedicadas à independência do país e aos eventos de 1930. Até aí, interessante, mas nada demais. O cômodo seguinte que visito é o banheiro, com móveis luxuosos. O próximo, o quarto, e acima da cama, uma placa indica que ali foi dado o último suspiro do libertador da pátria, em 17 de dezembro de 1830. É nessa hora que entendo a importância do lugar e, mais que isso, é nessa hora que entendo que estou no meio do cenário de El general en su laberinto, também do Gabo! A partir de então tudo adquire muito mais mágica, me vejo encontrando trajetos esquecidos nos labirintos de minhas leituras e lembranças.

Primeiro que me surpreendo de ser ali o fim da vida de Bolívar. Na leitura, eu imaginava ele percorrendo a amazônia colombiana para chegar ao Pacífico (puro desconhecimento histórico e geográfico). Segundo, me arrependo de não ter relido o livro para a viagem (até aí, como eu ia saber, se Santa Marta só apareceu como possibilidade de destino quatro dias antes de eu chegar?).

E como em Cartagena de las Índias, me ponho a imaginar as cenas relatadas pelo livro - mas desta feita é um livro bem específico, e não um García Márquez genérico imaginado por mim. E tal qual na capital de Bolívar, me surpreendo como tudo parece tão óbvio de ser escrito, que Gabo não teria tido mais que o trabalho de pôr em palavras aquilo que via, sentia e imaginava. Sim, me repito com relação a meu texto sobre Cartagena. E me repito também ao dizer que a Quinta de San Pedro Alejandrino é que se tornou óbvia por causa do escritor, e não o contrário.

É no final da visita que vejo uma placa avisando das árvores centenárias defronte a casa, volto para observá-las. Elas já estavam ali quando Simón Bolívar chegou à fazenda, em 6 de dezembro de 1830. Nelas teria ele armado sua rede. Isso me faz desconfiar como Gabo conseguiu relatar com tanta qualidade o general em seu labirinto, em seus últimos dias de vida: talvez tenha sido uma delas a lhe cochichar a história.



05 de março de 2023


* Como já comentei na crônica anterior: não sabia que García Márquez era da região.

 

quarta-feira, 1 de março de 2023

Eu chego a achar Gabo natural

O que define uma cidade? Uma cidade se faz de quem nela vive, ou apenas as construções garantem a ela esse título - como as cidades fantasmas? Saramago, em algum ponto de seu Manual de caligrafia e pintura, comenta que Florença há muito não pertence aos florentinos. A vez que fui à cidade, quase vinte anos atrás, ainda antes de ler esse livro, fiquei no centro histórico, e me deslumbrei com ele. Mas um momento, quando a ex com quem viajava foi no cinema, ver Senhor dos Anéis, e pude circular sozinho, algum incômodo me perpassou - talvez fosse isso (cheguei a comentar com ela, que recusou). Essa mesma sensação me tomou ao passear pelo centro velho de Cartagena de las Índias, no departamento colombiano de Bolívar.

Em uma viagem feita com "planejamento em tempo real", como bem definiu meu irmão, chego a Cartagena de ônibus, que pára distante do centro histórico, em uma região mais empobrecida, com prédios sendo construído aos montes nos arredores da rodoviária, brotando do solo árido como se fossem pragas. Como Cali e Barranquilla, o trânsito de Cartagena é algo como o que se vê em vídeos da Índia ou da Indonésia, ou como presenciei na Itália. Absolutamente caótico. Buzinas tráfego intenso carros costurando motos que surgem de todos os lados calor xingamentos poucos motoqueiros com capacetes, menos ainda seus acompanhantes, buzinas bicicletas disputando espaço micro-ônibus se atravessando pedestres calor cachorros congestionamento buzinas. O ônibus de Barranquilla aporta no fim da tarde, e o pôr do sol me resta acompanhar do táxi, enquanto me aproximo do centro velho e da área mais nobre da cidade - Bocagrande, onde me indicaram de me hospedar.

Como vou ficar pouquíssimo tempo na cidade, decido ir até o centro velho à noite, sem saber se haverá algo a ser visto ou não (sim, isso demonstra bem meu grau de desconhecimento do destino, da viagem e da Colômbia como um todo). No hotel, avisam que o caminho é sem risco, só evitar a beira-mar. Pelo visto, as cidades da Colômbia bastam por si, e ninguém aqui chamou Cartagena de qualquer versão colombiana de uma cidade mundial - tipo no Brasil tivemos a Califórnia brasileira, a Dallas brasileira, e agora temos a Dubai brasileira, que eu acho bem mais coerente chamar de Balneário de Prora brasileiro. Bocagrande, área nobre, possui nove edifícios (dos 31 que há em toda a Colômbia) com mais de 150 metros de altura.


É pouco antes das sete quando chego ao portão da cidade velha. Do outro lado da rua caos, trânsito, ônibus, filas de pessoas ansiosas para chegar em casa. Na praça, antes de entrar o espaço amuralhado, pessoas vestidas de branco cantam músicas de louvor numa roda de oração. Isso ajuda a azedar meu humor, já ruim pela viagem mal planejada (perdi três horas em trânsito para economizar R$ 100). Ao atravessar o portão, preciso admitir que um arrepio que percorre a espinha. A primeira impressão fascina e seduz.

Ponho a me perguntar quanto da cidade é original, quanto é reconstruída - como o Pátio do Colégio, em São Paulo. É muito mergulhar num tempo, com algumas atualizações: os letreiros e vitrines nos comércios - e Cartagena não é uma cidade pequena e engessada no meio de Minas Gerais. Chega a me parecer fácil e óbvio para Gabriel García Márquez escrever seus romances depois de passar um tempo por aqui. Suspeito de ter visto o coronel perdido em seus labirintos, assim como eu me extraviava por suas ruas. Claro, esta cidade é assim tão literária e encantadoramente óbvia graças à pena de Gabo, e não o contrário*.

É noite, não dá para ver muita coisa, os museus estão fechados e sei que no dia seguinte terei pouco tempo para desfrutar da cidade. Depois do jantar, páro em uma praça para pensar em tudo o que estou vendo e escrever esta crônica. Agora vem a parte amarga do texto...

É difícil imaginar que alguém realmente more aqui. Aqui tem hotéis, tem casas de câmbio, tem bancos, tem restaurantes, tem lojas de souvenirs, tem mercados, farmácias, tem lojas de grife, tem restaurantes de grifes, tem baladas de grife, tem pub, rooftop, pizza, sushi, hamburguer, tem hordas de turistas que zanzam em grupos, meio sem rumo e sem se preocupar muito com a vida, como as pessoas que andam pela região da Luz em São Paulo e são estigmatizadas, ou como os cegos do Ensaio sobre a Cegueira, de Saramago. Parece que sinto algo de Toledo ou de Segóvia, na Espanha, e não é na arquitetura - é no clima como um todo. No dia seguinte, sob a luz do sol, encontrarei também comércio mais popular, dedicados aos trabalhadores que servem os turistas. Ainda assim, mantive minha pergunta: este centro histórico, com grande parte dos prédios construídos há duzentos anos ou mais, pode ser chamado de cidade?

Com todas as vitrines a iluminar os transeuntes de passagem por ali não mais que três ou quatro dias, com toda a modernidade presente, e vários elementos passadistas se apresentando como kitsch - o passeio de charrete, as vendedoras de frutas devidamente fantasiada -, Cartagena não parece uma cidade-museu como Tiradentes (e talvez também seja Florença). Ela me traz à memória outro livro do Saramago: A Caverna. Mais que um shopping, o centro velho parece um parque temático do século XVIII, em que você se sente dentro da cidade da época, ao mesmo tempo que sabe que há algo de muito falso que marca suas ruas. 

A cidade é um convite a deixar a imaginação voar, tentar imaginar como não seria uma noite ou uma manhã aqui, em 1750, as pessoas nas varandas dos sobrados, barcos chegando no porto com notícias de além mares, os pescadores oferecendo o que recém haviam trazido do mar - e, sim, os padres e a inquisição de olho nas próximas vítimas. Ainda assim, como exercício de imaginação, Cartagena é um tesão - e mesmo instiga a querer ler e saber mais sobre sua história.



Entretanto, a única coisa viva que de fato reside e faz uso deste pedaço da cidade é o dinheiro, é a mercadoria. O centro velho, no fundo, é morto. A alma deste lugar é a dos não-lugares de todo o mundo: assepsia para desfrute de turistas do primeiro mundo, dos cidadãos globais que não são barrados em aeroportos. Tudo aqui parece sobreviver pelo e para o capital: nas vitrines e suas mercadorias, nas prostitutas que começaram a se enfileira na praça quando eu já estava para voltar, como antigamente deviam fazer com os escravos que chegavam da África; nas ofertas de passeios, nas de cocaína, nas marcas globais, nas marcas de luxo, nos logos e ícones do capitalismo.

O centro velho de Cartagena de las Índias é bonito, é instigante, mas também é triste, talvez seja mesmo trágico, diante da predominância do capital sobre a vida das pessoas e da própria cidade.


01-18 de março de 2023


* PS: foi só já no Brasil que fui me informar de que região era Gabo. Eu achava que ele era da costa do Pacífico, próximo à região amazônica (talvez por ser minha referência de quente e úmido), e não da costa do Atlântico! Mais especificamente do departamento de Magdalena, minha parada seguinte.

 

domingo, 26 de fevereiro de 2023

A descida e a decadência


Foi no meio de uma trilha na Cordilheira Ocidental que imaginei que a idade havia chegado, finalmente. Eu, entrado nos "enta", ainda me achava o "xovem", tão apto quanto aos vinte para subir um morro, afinal, por mais que não pratique um esporte, levo uma vida ativa, caminho cerca de dez quilômetros por dia e corro outros três uma a duas vezes por semana.

No dia anterior, Felipe me propôs essa atividade - que muito me interessa -, e que ele não me acompanharia, por conta de ter tido uma hérnia inflamada não fazia muito - eis a idade chegando ao meu amigo conhecido há 21 anos. Me deu as características da trilha, dentre elas, que era nível 2 e não iria até o Pico de Loro, e terminava num "charco", espécie de piscinas naturais no pedregoso rio Pance. Duplamente decepcionado, aceitei porque era o que tinha. Imaginava quase um passeio para a terceira idade, sem dificuldade.

Dia seguinte, oito da manhã, junto a um grupo de 25 pessoas de uma academia de Cali, cinco aleatórios e mais o guia, nos metemos pelo "sendero de nivel dos". Não que alguém mais velho não dê conta de subi-lo, mas certamente precisa de um bom condicionamento físico para fazê-lo - duas pessoas, provavelmente mais jovem que eu, desistiram na metade. E muitas das que alcançaram o topo da caminhada precisaram parar no caminho para tomar fôlego, a ponto de eu ser o nono a chegar, mesmo sendo, aparentemente, um dos mais velhos - me senti o Zanardi na época de ouro da Indy, fazendo corrida de recuperação. Ainda que suado e com a respiração alterada, terminei os dois quilômetros e cinco mil passos inteirão, disposto a subir mais dois quilômetros tranquilamente (havia mais para subir, mas não era parte da rota).


Foi na descida que comecei a sentir: as coxas começaram a tremer, o joelho a doer. Comecei a descida como último da fila, e terminei como último (até porque não dá para acelerar, por conta do risco de queda e fazer um "strike" em quem vem na frente), xingando que quem puxava não fez uma mísera pausa. 

Meus joelhos doendo cada vez mais e eu pensando que era hora de aceitar a realidade: a idade chegava e o corpo avisava inclemente: não sou mais um jovem, e talvez seja mais conveniente buscar um grupo de jogos de tabuleiro e dominó ao invés me aventurar em escaladas nível dois (e lembrava que em 2019 minha mãe, com quase 70, havia aguentado tranquilamente uma trilha nível 3 em Florianópolis). Descida segue e as dores aumentam, não só de intensidade quanto começo a sentir meu quadril. 

Tento pensar em outra coisa, que não minha decadência física, me esforço pra lembrar a conjugação de alguns verbos em espanhol que tenho dificuldade, mas ao invés disso meu cérebro decide retomar as conjugações do latim, que fiz com Felipe. Ego sum, il, el est, sumus, sunt. Como é mesmo a segunda pessoa? Dizem que quando estamos diante da morte, passa um filme em nossa mente. Será que a minha resolveu fazer uma prova de latim? Se eu reprovar, não vai ser possível continuar o filme, logo não vai ser dar para eu morrer (ainda que minha experiência de morte, no ônibus indo visitar meus pais, tenha sido tão somente o vazio - mas no fim, descobri logo que eu não estava morto [https://bit.ly/cG150214]). Reconheço que isso me tranquilizou, ainda que minha fraqueza física fosse uma notícia triste - não estou na hora da morte, mas ela se aproxima a galope. Quem sabe se eu, como meus colegas de grupo, começasse academia, algo mais sistemático e com acompanhamento profissional? Hora de assumir que sou, no máximo, um jovem senhor, já sentindo o peso dos anos - e da gravidade.

Mas eis que terminamos a descida e ao chegar, estão todos, jovens e não tão jovens, desesperados por um lugar para se sentar, se queixando "de temblor en las piernas" e, em especial, de dor "en las rodillas".

Moral da história: o dito brasileiro "pra baixo todo santo ajuda" é uma mentira cretina de quem nunca precisou descer um morro mais alto! E eu sigo me achando um esbelto xovem de quarenta anos, insistindo em ignorar a idade.

26 de fevereiro de 2023