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terça-feira, 5 de maio de 2026

A violência que restaura o macho

Na volta do trabalho passo no mercado, comprar alguns víveres. Acondiciono-os numa bolsa de pano que herdei da minha mãe, penduro-a no ombro e sigo para casa. No meio do caminho, um motoboy está parado na calçada, em cima da moto, descansando, o capacete e a mochila quadrada ao lado. Mexe no celular quando me vê, e assim que me enxerga, fica me olhando fixamente. Acho o movimento estranho e fico a reparar de canto de olho, alerta. Ao me aproximar, começa a falar, sem tirar os olhos de mim: dependesse de mim, matava tudo esses veados. Homossexual tinha tudo que ser assassinado. Sigo meu trajeto, ele segue a falar absurdidades do mesmo teor. Não olho para trás, com medo de ele interpretar isso como um chamado para briga, mas apuro os ouvidos para qualquer barulho estranho, que sinalize um avançar pelas costas - não há outros transeuntes nesse momento. Atravesso a rua, trinta metros adiante, já não o escuto mais, e o incidente termina por aí. 

Bolsa de pano rosa com flores sobre calça cargo e sapato de segurança
Não é a primeira vez que recebo uma agressão verbal homofóbica. Da outra vez, há alguns anos, passei por um homem que logo a seguir disse que não gostava que lhe mostrassem os dentes e passou a me xingar - eu que nem tinha reparado que estava de boca meia aberta, atrasado que estava para meu compromisso na Pastoral dos Migrantes, e tinha reparado ainda menos na existência do homem, até receber a chuva de impropérios naquela manhã chuvosa.

Como da outra vez, fico a me questionar o que motivou o homem à agressão, que, menos mal, ficou apenas na verbal. Seja eu “veado” ou não, não dou bandeira, como se diz, menos ainda em dias de trabalho: estou trajando uma camiseta básica branca, calça jeans cargo e sapato de segurança (desnecessário para a função que hoje exerço, mas acho útil para São Paulo), sem maquiagem. Penso na bolsa rosa, de florzinhas, que carrego no ombro. Seria isso? 

Mais provável que tenha sido o desejo da pessoa que eruptiu sem a autorização da sua masculinidade heteronormativa, e precisou atacar quem o despertou. Para ele, fui eu quem agredi primeiro, não sei se com minha figura ou com minha bolsa rosa de flores, contradizendo uma pretensa masculinidade que em uma primeira visão eu aparento assumir - e que ele busca se identificar, ao que tudo indica, com muito esforço e sofrimento. E com reiterados reforços para manter essa identificação: nas redes sociais, perfis que glorificam performances de gênero engessadas (masculinas e femininas) não são marginais, atraem pessoas das mais diversas classes sociais e prometem o retorno de alguma estabilidade neste tempo de radicalização de “tudo o que é sólido se desmancha no ar”. Como corolário dessa masculinidade sem fissuras, a virilidade - um valor que a indústria cultural nunca deixou de propagar -, que não só não admite fraquejadas, como exige exibição permanente. 

O resultado é a repressão de qualquer desejo que possa decompor essa masculinidade, e a falta de repertório para lidar com ele, quando irrompe sem pedir autorização - daí a necessidade de agressão, seja verbal, seja física, seja eleitoral, como forma de provar para si que não é o que de fato deseja e restituir a auto-imagem de macho viril heterossexual que lhe dizem ser o normal, o certo.

Quero acreditar na educação formal como forma de, a longo prazo, resolver essa questão - porém isso é esperar demais da escola, e há muitos educadores que se alinham a esse tipo de pensamento, talvez apenas com um discurso mais edulcorado. É a educação feita na militância do dia a dia, no cara a cara, criando espaços de diálogo e reflexão, a alternativa que efetivamente temos para modificar esse estado de violência permanente contra minorias.

O episódio foi curto e sem consequências maiores, mas não deixou de me afetar. Porém, se isso acontece comigo, que estava na minha versão mais sóbria e discreta, imagino quantas vezes isso não acontece com quem se livrou de algumas das performances de gênero: é um pedágio absolutamente desnecessário para se andar pela cidade sendo quem se é.


São Paulo, 05 de maio de 2026


segunda-feira, 13 de abril de 2026

O fetiche do abismo

Lembro do meu tempo de faculdade de filosofia e ciências sociais, na Unicamp, havia um perfil de estudante-militante adepto do “quanto pior, melhor”. Do Procon ao Bolsa Família, passando pela expansão do ensino superior e as cotas, tudo que não fosse a revolução (com sua pureza de princípios e baseada na “leitura correta” de Marx) ou a pavimentação para ela (baseado em miséria e ódio, deduzia eu), era arrivismo, defesa do capital, e reforço do status quo. 

Saí da Unicamp há quinze anos, mas volta e meia revejo esse tipo de postura em alguns analistas políticos de esquerda. Um pouco mais refinados, é claro, mas a mesma lógica de ser incapaz de analisar a realidade em sua complexidade. Pior, não são meus ex-colegas da Unicamp, mas professores ligados a partidos de esquerda, de várias universidades públicas, que já o eram na época, só não tinham as redes sociais para divulgar em tempo real seu pensamento (não cito nomes porque meu objetivo não é fulanizar a questão).

Duas semanas atrás, um deles se desesperava com o crescimento de Flávio Bolsonaro e praticamente vaticinava: a eleição estava definida se não houvesse uma reação urgente urgentíssima de Lula. Ignorava os múltiplos fatores que explicam o crescimento de Flávio Bolsonaro neste momento e, principalmente, que o PT escolhia o adversário, esperando o fim do período de desincompatibilização para começar a pré-campanha - e melhor um Bolsonaro que Tarcísio.

A nova análise que tenho lido é que Lula ou ganha no primeiro turno ou perde a eleição, porque não teria ninguém para transferir os votos para ele. Sem dúvida, o segundo turno, se houver, será duríssimo - como foi em 2022. Essa leitura é, contudo, para além do catastrofismo de certa esquerda, simplista: como se votos em candidatos de direita fossem necessariamente para Flávio Bolsonaro. Convém lembrar que assim como há o anti-petismo, há também o anti-bolsonarismo, e que uma parte de eleitores dos candidatos menores da extrema-direita pode simplesmente se abster de votar num eventual segundo turno. Há também eleitores não ideológicos e que podem alterar seu voto - como aconteceu em 2006, em que Alckmin teve menos votos no segundo que no primeiro turno. Afora a questão de que será uma eleição concorrida, difícil e que não está ganha, mais sensato me parecem analistas chamando a atenção para Renan Santos, com chances de se “marçalizar” em 2026 e ganhar musculatura para 2030. 

Ilustração sobre o contraste entre catastrofismo acadêmico e análise política de base
Pode-se argumentar que esse catastrofismo serviria para abrir os olhos dos militantes e mobilizar as bases. É a lógica do quanto pior, melhor dos meus ex-colegas do tempo de faculdade: somente na miséria extrema o povo se levantaria para reivindicar seus direitos, que já chegaria na forma de revolução social. Primeira falha, de observação: não se vê população oprimida por carestias materiais elementares se levantar por um ideal abstrato. Segunda falha, de psicologia: diante do tudo está perdido, alguém vai se mexer para quê? Dar murro em ponta de faca só costuma ser um esporte para quem tem para onde correr depois que cansar. Terceira falha, de trabalho de base: ao jogar a pretensa cegueira da situação e a responsabilidade inteiramente no colo do presidente, esses analistas reforçam a ideia de política feita por cima e não a partir das bases, exatamente o contrário do que a esquerda mais radical (no sentido de raiz, não de sectária) defende. Por sinal, esse é o mesmo argumento utilizado para justificar a alegada desmobilização popular dos governos Lula 1 e 2: o governo não teria mobilizado a população, sendo que não é papel de governo de turno fomentar a oposição a si próprio - e há exemplos de movimentos sociais fortes que surgiram desse período, como o MTST, para ficar no mais evidente.

Felizmente esses analistas, apesar de seus currículos acadêmicos vistosos e sua boa escrita, têm pouca penetração na imprensa, mesmo a alternativa - que prefere análises críticas, mas calcada na realidade e que apontem possibilidades. Mas não me surpreenderia se um desses professores do catastrofismo de esquerda acabe sendo convidado para colaborar com a grande mídia, desesperada por apear Lula e o PT do executivo federal.

Sejamos críticos, mas façamos leituras complexas da realidade e saibamos achar brechas por onde construir alternativas. E aos arautos do apocalipse, que vêem o futuro já determinado, um pedido: parem de escrever e comecem a arrumar suas malas - a vida já está dura demais para levar pedrada gratuita do próprio campo.


13 de abril de 2026


terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Bruno Covas e seu filho no Maracanã: a mensagem da imagem

"À mulher de César não basta ser honesta, é preciso parecer honesta". A importância da aparência na cultura ocidental vem de longa data - do imperador romano Julio Cesar, ao menos -, mas sob a sociedade do espetáculo essa velha máxima foi superada pela de que "à mulher de César não é preciso ser honesta, basta parecer honesta". Em muitos casos, nem parecer, apenas aparecer como honesto no momento oportuno - Temer, Doria Jr, Bolsonaro que o digam, despontaram como se porto de Santos, rachadinhas e Embratur nunca tivessem existido.

Não entrei na comunhão nacional gerada pelo início da vacinação nestes Tristes Trópicos, em 17 de janeiro: sabendo dos entraves gerais e das inoperâncias nacionais, não vislumbro ser vacinado antes de dezembro e ainda temo receber uma vacina que já pouco protege, por conta das mutações do vírus (ainda que isso, por enquanto, não tenha sido posto no horizonte pelos cientistas, até onde me consta). Minha mãe, prioritária, quem sabe consiga ser vacinada meio logo e possa vir me visitar ainda este ano, depois de mais de um ano nos vendo apenas por videochamada. 

Entendo o sopro de alento que o início da vacinação trouxe a muitos, mas não deixou de me causar assombro como esse sopro veio desprovido de qualquer construção crítica mais bem fundamentada. “Doria Jr fez um golaço”, comentavam, como se aparecer ao lado da primeira pessoa vacinada redimisse o governador de todos seus atos contra a saúde pública, a pesquisa científica, a universidade pública - isso já em plena pandemia, já quando ele se dizia defensor da ciência - e a produção de remédios - e não falo aqui de troca, quando prefeito, de isenções fiscais por "doação" remédios quase vencidos cuja boa parte seria incinerado a um custo elevado, mas do sucateamento da Furp e do Instituto Butantã. Vale lembrar que este só não virou peça histórica graças à combinação pandemia e negacionismo da ciência por Bolsonaro, no qual Doria Jr viu oportunidade de se apresentar como a extrema-direita racional (Adorno e Horkheimer mostram como o nazismo era racional) e “razoável” (se privatizar e tirar direitos de trabalhadores, as elites brasileiras acham qualquer coisa razoável). Todo seu histórico de destruição virou fumaça diante da vacina: Doria Jr, “o político da ciência e da sensatez”. Só não se tornou também “o homem da tolerância política” porque Dilma Rousseff fez algum alarde ao avisar que não aceitava seu convite para furar a fila - e com esse ato, Dilma reforça a frase do primeiro parágrafo, ao lembrar que ela e Lula, dois dos políticos mais probos da história do país, são taxados como os maiores corruptos, simplesmente porque não conseguiram vencer a máquina midiática e aparecer como honestos: quem controla a produção de imagens e narrativas detém incomparável poder, incompatível com a democracia, mesmo a espetacular.

Assim como Doria Jr, Bruno Covas não precisa temer a mídia. Como seu padrinho político, o prefeito parece esquecer que a mulher de César no século XXI não precisa ser honesta, basta parecer honesta; contudo, à diferença dele, não possui qualquer jogo de cintura, quem dirá a lábia canastrona de vendedor de enciclopédia no interior e a desfaçatez do gigolô que se diz arrependido e promete fidelidade.

Junto com Doria Jr, Covas repetiu o mantra do "fique em casa". Como Doria Jr, assim que pode, saiu passear: mas ao invés de ir pra Miami (onde poderia achar qualquer álibi inconsistente: que foi em jatinho particular com a esposa para ficarem enfurnados e isolados na sua casa florida, sei lá, pra não ter o risco de alguma garota constrangê-los cobrando uma conta antiga), o prefeito foi assistir ao jogo da final da Libertadores no Maracanã, com mais alguns convidados VIPs - ele, que estava em tratamento contra o câncer até quinze dias antes, ou seja grupo de extrema vulnerabilidade, que mais deveria se resguardar.

A final da Libertadores ter público em plena pandemia já é uma afronta, um reescancarar daquilo que as “modernas arenas” que substituíram os estádios já escancaram há anos: futebol é cada vez mais um espetáculo para poucos usufruírem ao vivo - só para os VIPs. Neste caso, só para os VIPs dos VIPs. Para um político que tem tentando trabalhar uma imagem pública de progressista desde que assumiu a Disney, digo, a prefeitura de São Paulo, um deslize desses é grave - até porque não foi só uma notícia de jornal, mas uma foto que rodou a internet, e na sociedade imagética, uma imagem pode ser avassaladora (Roseana Sarney sabe bem). A explicação para seu ato, dado em seu Instagram, só piora a situação. A questão pode ser abordada pelo aspecto político e sociológico.

Politicamente é um movimento que causa estranhamento. Bruno Covas trabalhava com afinco sua imagem de um “velho PSDB”, um PSDB de direita democrática e progressista, retomando projetos êxitosos da gestão Haddad; esse passeio com o filho, junto com as ações que tem tomado desde que ganhou a reeleição, vão na contramão de todo esse trabalho. Ao que tudo indica, a eleição serviu para que Covas e o partido notassem que ele é um quadro eleitoralmente frágil, quase inviável: se largar a prefeitura para disputar o estado, perde votos dos paulistanos sem conseguir compensar no interior (como foi o caso de Serra e Doria Jr). Daí a impressão de ter entregue a prefeitura toda para o grupo de Doria Jr (representado pelo vice Ricardo Nunes?) desde já, talvez com o plano de tentar imitar seu padrinho e ver se consegue superar as próprias fraquezas; assim, todos os movimentos de respeito aos direitos humanos - que, por mais que tímidos, marcaram uma diferença significativa frente a gestão desumana de Doria Jr - terem sido jogados fora: do cercamento de praças (o caso noticiado é da praça no bairro nobre, mas na 25 de Março, por exemplo, a Ragueb Chohfi já foi cercada há tempos) às pedras antimendigos, passando pela intensificação no confisco dos pertences dos moradores de rua (só esperando pelas operações da GCM na (mal) dita cracolândia). Se for esse o caso, entende-se o mandar às favas a construção da sua imagem pública e ir curtir a final da Libertadores com o filho.

Aqui entra o ponto sociológico de minha análise: ao ser pego no Maracanã, a resposta de Covas explicita sua adequação à sociabilidade perversa brasileira, recentemente assumida como virtude por políticos como Bolsonaro, Moro ou Doria Jr: o privilégio do verdadeiro líder de estar acima do bem e do mal - e das leis. Ser aspirante a um mini-Luís-XIV-versão-século-XXI seria a demonstração cabal do seu valor, como era outrora o despotismo do senhor de engenho perante suas posses - terras, mulheres, escravos, estado. O problema de Covas é que ainda que formado nessa sociabilidade, ele não é um perverso: ele não consegue jogar flores no chão, falar "e daí, não sou coveiro", grasnar qualquer atrocidade; por isso seu passo atrás, seu tentar se justificar com sua excepcionalidade: mereceria estar no Maracanã em meio a uma pandemia, 230 mil mortos, crise na saúde, na economia, no estado, porque "é um direito" seu "usufruir de um pequeno prazer da vida" depois de passar pelo tratamento de um câncer - contrariamente ao que sempre diz aos seus comandados. Só ele quer desfrutar de um pequeno prazer da vida? Só ele ficou doente durante a pandemia? Filhos com saudades de seus pais idosos que moram longe, se tem responsabilidade (e um emprego), não tem esse direito. Pais e mães cujos filhos estão entre os que tiveram a vida levada pelo coronavírus - só no estado de São Paulo os mortos já lotam o Itaquerão e começam a encher um segundo estádio -, não podem mais ter esse pequeno prazer. Mas hipócrita é quem segue as recomendações que o governador do estado e o prefeito da cidade repetem.

Pelo posto que ocupa, Bruno Covas deveria ser o primeiro a dar o exemplo. E ele dá: se o exemplo é positivo ou negativo, é outra história. Prefeitos acusados de furar fila da vacina podem, inclusive, usar essa questão com o álibi: estão dando o exemplo da importância da vacina, já que o chefe do executivo nacional faz campanha contrária (isso não vale para parentes, mulheres e amigos do prefeito que furam a fila, aí o exemplo volta a ser de apropriação privada do público). Ao dizer que seu caso é especial e merece ser excluído das restrições que todos deveriam estar submetidos, simplesmente “porquessim”, qualquer um pode alegar o mesmo - como já é feito, mas agora há uma legitimidade a mais: o prefeito da maior cidade do país, que repete diariamente “fique em casa” e “cuide-se” também assume que qualquer motivo serve para não ficar em casa nem se cuidar devidamente. "Pequenos prazeres" justificariam a negligência com o vírus - nem precisa ser "grandes prazeres".

Uma atitude dessas de um político, de um homem público, é um deslegitimar a política e recusar a coletividade em nome de um hedonismo mesquinho. É um passo a mais no nosso caminhar para o abismo da convivência social, onde tem voz uma ideologia darwinista-social-ultra-individualista que apregoa a sociedade como feita de mônadas e recusa a óbvia interdependência de todos na construção do bem comum (do mal comum também); é um reforço ao que temos de pior da nossa sociabilidade forjada na escravatura e no estupro, um individualismo tacanho e incapaz de enxergar o próprio bem no dia de amanhã. Bruno Covas tem a consciência tranquila.

09 de fevereiro de 2021