quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Um Oxóssi guerreiro [Diálogos com a dança]

Tempos como os atuais exigem saídas do script. Atacada por todos os lados, a cultura que ousa se afirmar cultura, na medida em que se recusa enquanto publicidade oficial, precisou começar a trazer explícito o discurso político. Entretanto, não é todo artista, todo grupo que utiliza a política institucional como material criativo, para daí sair algo para ser posto em cena artisticamente. Assim, cabe ao menos, junto com os agradecimento aos patrocinadores, no fim da apresentação, o jargão "Fora Temer", nem que seja para marcar uma posição de defesa da democracia. Isso para grupos menores. Grupos maiores, consagrados internacionalmente e dependentes de financiamento público (uma vez que o privado se recusa a patrocinar o que não traz bons lucros), se não explicitam o discurso político, acabam por trazê-lo indiretamente, como é o caso do Grupo Corpo, um dos principais (se não o principal) grupo de dança contemporânea do Brasil, reconhecido internacionalmente, que desde 2015 passa o pires atrás de dinheiro, por ter parte do patrocínio da Petrobrás cortado (afinal, diziam que a petroleira estava à beira da falência, com reservas enormes de petróleo a baixo custo de extração).
Em São Paulo, em 2017, a ascensão de um político de extrema-direita, sem qualquer apreço pela convivência democrática e republicana, com um secretário de cultura com iguais valores (e que gosta de brincar de machão (protegido por meia dúzia de guarda-civis, sempre) chamando para o braço quem o critica), pôs poder público e artistas em guerra aberta. E a dança foi um dos grupos mais articulados nessa resistência contra o desmonte da cultura em São Paulo.
Uma das mais recentes cartadas democráticas da gestão Doria-Sturm foi a substituição da curadora de dança do CCSP, sob o argumento de "porque sim, porque eu quis". E o primeiro gesto da nova curadora, Lara Pinheiro, foi boicotar o artista Eduardo Fukushima da programação - já que o dinheiro pago para construir seu espetáculo já havia sido pago e ficaria feio mandar ele para casa sem apresentar o resultado do investimento público. Fukushima é uma das (muitas) vozes que se levantam contra Doria-Sturm-Lara, dando a cara a tapa, levando o tapa, e devolvendo o tapa à altura.
O espetáculo de Fukushima apresentado dias 1, 2 e 3 no CCSP, Da percepção à memória: Oxóssi com/para Denilto Gomes, possui uma série de discursos, nem todos identificáveis logo de cara. O primeiro deles, por escolha do artista e evidente, é o político. Invertendo a ordem habitual, antes de entrar o palco para dançar, Fukushima subiu à ribalta para falar sua situação, o boicote à sua obra na programação da Semanas de dança do CCSP - pode ter sido uma falha técnica, mas é surpreendente como há demasiadas e sempre pertinentes falhas técnicas quando políticos antidemocráticos tomam o poder -, e da situação calamitosa para a qual a cultura tem sido impelida pela prefeitura de São Paulo, em parceria com o governo do Estado e o governo federal. Preferiu pôr a política à frente de sua obra, um ato ousado numa época em que artistas costumam ter como grande preocupação estar sempre de bem - ousado e marcante, dado sua dificuldade óbvia com a fala. A seguir explicou os pontos de intersecção que via dele com Denilto Gomes - grande expoente da dança contemporânea brasileira nas décadas de 1980 e 90, morto em 94, em decorrência da Aids -, o interesse de ambos pelo inexplicável, pelo oculto. Só então veio a dança, já completamente contaminada pelas palavras - para o bem e para o mal.
Acompanhado de um tsuru em negativo - um tsuru preto -, Oxóssi-Fukushima vem armado de lanças para fazer da caça poesia; do movimento, pausa - e novamente movimento -; do agônico, agonístico. Seu discurso inicial, contudo, transforma o caçador em guerreiro e todo seu solo - que não soa tão solo - um embate, carregado de uma tensão nos gestos e nos tempos - como trazer para o presente um passado não assistido diretamente pelo artista, mas que ainda assim o marca? 
É uma dança contida, destoa dos solos a que assisti de Fukushima - talvez porque seja um solo apenas em aparência. A fala inicial de Fukushima contamina os gestos, sua expressão é séria - seja no combate com as lanças, seja na contemplação sob o leque. A homenagem dele a Denilto apresenta a arte como poesia e política, como confronto e beleza. Como Brasil e Japão, e não é nenhum dos dois - Denilto foi um dos primeiros a trazer o butoh para a dança contemporânea, Fukushima tem forte influência oriental (para além de sua ascendência), com estágio no outro ponto do globo.
Fukushima sai, o público aplaude, Fukushima retorna e continua a dança - é agradecimento, mas ainda é parte do espetáculo. Sua expressão agora é leve, seus gestos soam mais soltos e fluidos - mais a cara do que estou acostumado dele. Associo ao título da obra esses dois "atos": no primeiro, seu solo é, na verdade, um duo, de alguma outra dimensão, Denilto dança com ele; no segundo, um solo seu, sua homenagem particular para Denilto. Em todo o espetáculo, o trazer o invisível para a ribalta, o passado para o presente; a dança em suas muitas possibilidades, o corpo em suas dificuldades - como no discurso inicial - e em toda sua expressividade - inclusive, dançar com os ausentes.

06 de setembro de 2017.


segunda-feira, 21 de agosto de 2017

As desumanidades da fome [Diálogos com o teatro]

Ao fim de duas horas de espetáculo, foi com um certo incômodo que perguntei aos meus amigos se animavam em comer algo: eu tinha fome, havia comido no meio da tarde um pedaço de bolo de chocolate que fizera (diet, devido a minha disfunção metabólica) e nada mais. Fome. É essa minha experiência da fome: um intervalo mais longo entre duas refeições, na qual o organismo reclama que não está satisfeito e ameaça, caso não atendido, de reclamar em voz alta (pela boca do estômago?), me deixar de mau humor e não me deixar dormir. O que entendo por fome faz de 800 milhões de pessoas que passam fome um universo absolutamente desconhecido para mim - um marxista luckasiano talvez assinalasse que as noventa pessoas presentes no CCSP nessa noite chuvosa e fria de domingo são ontologicamente diferentes desses 800 milhões. Universos desconhecidos - que não faço questão nenhuma de conhecer in loco -, mas que nem por isso retiram dessas milhões de pessoas o essencial que temos em comum: a humanidade. Humanidade que talvez alguns milhares de pessoas não tenham: os que decidem sobre a fome, se haverá fome no mundo ou não. Fome sempre dos outros, nunca a deles e de seus próximos.
Fome.doc, espetáculo da Kiwi Companhia de Teatro, com roteiro e direção de Fernando Kinas, traz numa de suas primeiras falas essa verdade inconveniente (para usar um termo de um homem que teve poder suficiente para resolver a questão, ex-residente do Observatório Naval, ocupante de um dos três cargos mais importantes dos EUA): a fome é uma decisão. Uma decisão tomada à mesa. Não à mesa dos que têm fome - que geralmente sequer mesa têm -, mas na mesa de decisões, de homens que entre um banquete e outro decidem o futuro de milhares de seus semelhantes - ou ao menos assim imaginamos nós, os humanistas ingênuos: de que todos os humanos são, no fundo, semelhantes, uma grande família.
A fome nestes Tristes Trópicos é a prorrogação da escravidão, a metade não abolida pela abolição de 1888. E se José de Alencar usava das belas letras para justificar as atrocidades benfazejas da escravidão, hoje não faltam os que usem de seus títulos acadêmicos e suas concessões de rádio e tv para justificar a fome - como principal diferença, a ausência de qualquer estilo refinado para edulcorar nossa incivilização. Usa-se números para justificar a inevitabilidade da fome que marca o corpo e a pele de 800 milhões de pessoas - números, esses velhos conhecidos dos campos de extermínio nazista -, usa-se da moral para justificar as humilhações de bilhões de pessoas, que rastejam, comem gilete, vidro, merda, por um tanto insuficiente de comida: quem não trabalha, quem não contribui para a produção, para o crescimento da nação, não merece comer, não merece "vida boa", não merece "bolsa-vagabundagem". E nunca se levanta a questão: se o mundo produz alimentos mais que suficientes para todos, por que, ainda assim, há fome? Nessas horas, mesmo sabendo ser ontologicamente diferente de 800 milhões de pessoas, é desses outros milhões que cospem ódio aprendido na escola e na tv que não consigo reconhecer um semelhante meu.
E se os paladinos neomodernos (neoconservadores, neorreacionários, neomoralistas, neohipócritas, neoliberais, neofascistas, neonazistas) do ódio reduzem tudo a números, numa novalíngua cada vez mais pobre e precária - empobrecedora e precarizante de quem a segue tanto de quem reduzem a coisa -, a fome constrói seu próprio vocabulário, tentando disfarçar a falta do que comer nas palavras que esquadrinham o mundo em que sobrevivem, expressões que escorrem da boca junto com a baba verde dos homens famintos junto ao cais - em cena que se repete árida no interior do Brasil: Josué de Castro elenca as gírias da fome, o "é batata", o "descascar um abacaxi", entre outras, que a nós - bem comidos -, soam apenas pitorescas.
Fome.doc tenta nos tocar nessa experiência que não tivemos, não queremos ter e - espero - não queremos que ninguém tenha: a do corpo que se consome para se manter vivo, na esperança - instintiva, biológica - de em breve algo de fora adentre a boca e percorra a garganta e forneça a energia necessária para a manutenção das funções vitais e - quem sabe - a energia necessária para a abertura de possibilidade de uma vida digna, de uma vida humana. As citações de Primo Levi, com as referências aos campos de extermínio nazista, não são despropositadas. Seus prisioneiros são o kafkiano artista da fome à sua revelia - como o são os personagem de Vidas Secas: desnutridos, jejuantes compulsórios, escassos de palavras como de comida. Artistas da fome. Ao escrever sobre a peça, me lembro quando o atual prefeito de Curitiba (cidade vanguarda do neofascismo tupiniquim), Rafael Greca, então ministro do turismo do governo FHC, no alto de sua obesidade mórbida, morbidamente se alegrava com os famintos esquálidos do país - via neles Carlitos recitando poesia lírica com seus estômagos estufados de vermes, sustentados pela fome de seus corpos esquálidos. Em 2014, depois de doze anos de governos de esquerda, o Brasil saiu do Mapa da Fome da ONU - é pouco, não quer dizer que erradicou a fome no país, mas nem por isso deve deixar de ser comemorado. Para muitos, deve ser combatido. Três anos depois, um golpe de Estado perpetrado pelas elites de sempre - econômica, política, midiática, judiciária, burocrática, burra, desumana - ameaça pôr novamente o Brasil nesse mapa cruel, mórbido. Quem sabe daqui 20 anos, quando finda a emenda constitucional com teto para gastos sociais, boa parte do Brasil não possa ser vista como um grande Auschwitz homeopática? Ou quem sabe não retornaremos mais no tempo, aos colonizadores latinos das américas, e oferecemos carne humana para alimentar os cachorros? Parece ser desejo de parte do Brasil acelerar o passo para esse futuro grandioso. Argumentarão que vêem ali poesia, milhares de Chaplins, futuros Primos Levis, artistas da fome? Ou será que dirão que se trata do destino-manifesto de negros, índios e outros rejeitados por seu deus?
Fome.doc tem mais de duas horas de espetáculo, é feita de fragmentos - não fragmentos de cenas, mas de discursos, de textos (autores que citaram ou identifiquei: Carolina de Jesus, José de Alencar, Josué de Castro, Primo Levi, Graciliano Ramos, Glauber Rocha, Oscar Wilde, Eliane Brum, Kafka, Frantz Fannon) -, com um ou outro elemento para quebrar a sisudez que a transformaria numa palestra. Possui uma dinâmica que lembra teatro de rua: é possível entrar a qualquer momento da peça (que possui vários pontos de "imantação", para tentar me apropriar de Lygia Pape) e acompanhá-la a partir daí. E uma vez capturado, é difícil desviar a atenção: os atores conseguem sustentar o interesse do público por duas horas. Não cansa - mas incomoda, perturba. Ainda que não seja na minha mesa que a fome dos outros seja decidida, sequer seja defendida a morte de milhares, milhões de meus semelhantes. Perturba a ponto de perguntar sem graça a meus amigos se se animam em comer - em uma refeição simples comeremos o que pessoas comem em uma semana, em duas. Não se trata de culpa - o espetáculo faz questão de ressaltar que não é da boa vontade que se resolverá o problema -, é a ponta de niilismo que a peça não impede que bata.
Me recordo de meu pai. Lembro, quando criança, de não querer comer algo, ou deixar sobrar alguns grãos de arroz no prato. Levava bronca. Eu tentava argumentar, dizia que era comida pouca, barata, ao que ele respondia: "não importa quanto custa, na África tem pessoas catando arroz do chão pra comer e você vai desperdiçar comida?" Apesar de terem beirado a miséria, não me consta que ele ou minha mãe tenham passado fome - essa fome - na infância, mas o senso de humanidade de ambos me ensinou que as experiências que vivi e viverei diretamente não dão conta do mundo. Fome.doc acho que se incluiria nessa didática dos meus pais: mostra ao público aquilo que nunca vivenciaram (nem nunca vivenciarão), a partir daí tenta sensibilizá-los, apelando a sua humanidade - se ainda o tem (certamente não é o caso dos que pedem para SP acelerar, enquanto proíbem sopão aos que tem fome e acordam com água fria os que dormem no frio).
Um dos textos utilizados é de Eliane Brum, sobre a família de ribeirinhos de Otávio e Maria Chagas, desalojada para a construção de Belo Monte. Bonecos entristecidos fazem as vezes da família. Diz Brum, dizem Fernanda Azevedo e Renan Rovida, a sabedoria amarga de quem vive a chaga aberta da fome: "casa é onde não tem fome. Se tem fome, é só teto". Para 800 milhões de pessoas, a Terra não é casa, é só teto, um lugar de penúria e fome. A noite fria e chuvosa de São Paulo me faz lembrar: para muitos, nem teto.

21 de agosto de 2017

PS: a peça voltará a ficar em cartaz em breve, no Galpão do Folias