quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

O gado que aplaude o chicote

Durante a ditadura civil-militar adotou-se a cenoura ideológica do "Brasil, país do futuro". Para o grosso da população, o Brasil vivia do futuro (e não para o futuro): o interregno ditatorial logo daria lugar a uma democracia das pessoas de bem, o bolo cresceria para logo ser dividido (Delfim Netto afirma nunca ter dito isso, o que parece ser verdade: ao que tudo indica, nunca passou pela sua cabeça a necessidade de dividir o bolo com a rafuagem, vide suas defesas das ações do governo golpista atual), em breve o Brasil se tornaria uma potência mundial; um amanhã radiante, para compensar o hoje funesto e mórbido ou, como (não) cantava Raul Seixas em "Como vovó já dizia" (censurada): "Quem não tem presente se conforma com o futuro.
Com a produção da memória (e do esquecimento) nas mãos do status quo (do espetáculo, diria Debord), foi preciso apenas uma geração para que a ditadura civil-militar não fosse mais que uma historieta distante, sem maiores implicações na vida, e o campo estivesse pronto para a semeadura de uma nova ditadura (desta feita, ao que tudo indica, encabeçada por juízes e procuradores, não mais por militares), a avançar brandamente como um zepelim sob o céu azul (seria Lula nossa Geni?).
Novamente tolhidos do presente, nos conformamos com o futuro. Contudo, ao contrário de 1970, a solidariedade social foi dinamitada por um individualismo cego e suicida, e o futuro que se sonha a partir dos escombros que habitamos é um futuro individual - a coletividade pode servir de alicerce para a "vitória" do indivíduo, não pode crescer junto (como atestam o ódio ao PT e aos programas sociais de minoração da miséria e aos de capacitação precária da mão-de-obra). 
Durante o almoço, ao meu lado, dois advogados conversam, ambos na faixa dos trinta anos. O rapaz conta do seu crescimento e do seu mais novo contrato. Não diz explicitamente, mas fica evidente que se considera um predestinado dos grandes fornecedores. Conta primeiro que conseguiu abrir seu escritório graças a uma indenização ganha contra o Carrefour, por ter incluído seu nome no CPC/Serasa após ter quitado sua dívida. Admito que não sou entendedor dessas questões, se a decisão de mandar o inadimplente (ou suposto) para a lista suja é automatizado ou depende uma pessoa, porém me chamou a atenção que seu nome ficou sujo por duas pendências: uma de cinqüenta e outra de trinta centavos. Graças a essa cobrança de oitenta centavos, o Carrefour teve que pagar três mil reais (na época, que não sei quando foi). Parece um erro grotesco de programação, ao mesmo tempo soa bastante plausível como ação deliberada de um funcionário insatisfeito com a empresa.
A mais recente proeza do rapaz é um contrato recém assinado, para ser advogado das Casas Bahia. "Na verdade - ele se corrige -, não foi a Casas Bahia quem me contratou; sou terceirizado". Tenho a clara impressão de que falou com orgulho que era um trabalhador precário - talvez fosse orgulho por estar trabalhando para uma grande rede. Ele prossegue e conta, admirado, do escritório que o contratou: "mudaram pra Alameda Santos. Ficaram com uma estrutura super enxuta. São os dois sócios, mais dois advogados e uma estagiária", mas tem cento e cinqüenta advogados trabalhando para eles. "Estão certos: não tem que ficar administrando pessoal, gastando com férias, décimo terceiro, essas coisas". Sua interlocutora concorda entusiasmada, cita um caso de um escritório que está seguindo "a nova tendência do mercado".
Reparo nos dois. O homem é negro, a mulher, branca. Não tem a menor pinta de que estudaram na USP, ou mesmo na PUC. Provavelmente conseguiram seus anéis de bacharéis graças ao Prouni do Lula. São peões sonhando ser patrões. E em nome do que acreditam que um dia virão a ser, batem palmas à própria exploração, comemoram a perda dos seus direitos, planejam fazer o mesmo e um pouco mais quando estiverem do outro lado do balcão, quando de gado se tornarem quem dá o preço no leilão. Se se tornarem. 
Se... 
A cenoura ideológica atual diz que é só você querer, que amanhã assim será, basta um pouco de esforço e abnegação. Propositalmente não diz que esse paraíso terrestre tem vagas limitadas e fila preferencial - e certamente os dois deslumbrados ao meu lado, um deles que acha que tirou a sorte por ter conseguido três mil reais de indenização, estão longe de entrar nessa fila, se não tiverem sorte ou um jeitinho heterodoxo de resolver a vida. Negar a própria realidade em favor do que ingenuamente acreditam que um dia se tornarão: negar que são oprimidos, embalados no sonho de logo se tornarem opressores. Paulo Freire, desenterrado pela extrema-direita (e terraplanistas em geral) como educador-ideólogo a serviço do PT, esquecido de fato pela esquerda, se mostra atual, como nunca deixou de ser. 
Nosso trabalho de base se mostrou falho - e não só por comodismo com o PT no poder federal e adequação ao seu discurso despolitizante. Parte da esquerda - a com maior capital simbólico e cultural - nunca quis sujar os pés, sair de suas cômodas salas de aula da academia e tentar dialogar com a massa da população - dialogar e não civilizar, ensinar, conduzir: entrar em contato e ouvir medos e aspirações daqueles que tratamos por objeto (de estudo, mas não por isso menos objeto). Nosso diálogo é entre pares, em revistas que contam pontos que rendem uns trocados a mais, não com o diferente, com quem não teve a oportunidade de estudar em universidade de ponta. Daí que a universidade pública pode ser atacada de toda forma e poucos se indignam. Ou que a nova direita tenha encontrado solo fértil para impôr sua forma de encarar o mundo - fake news, ódio e gregarismo proto-fascista. Daí o discurso consolidado que condena os vagabundos (pobres) e louva o "vagabundo ostentação". Por isso não surpreende o gado que louva o chicote, e que a reforma trabalhista tenha sido aprovada sem maiores resistências. 
Sou otimista, e creio que há possibilidades de reverter esse quadro, até mesmo no curto prazo: apesar de todos seus títulos, os doutores golpistas são grosseiros e petulantes o suficiente para deixar pronta uma contra-narrativa que escancara a realidade sem a cenoura ideológica (diante de Moro, Mendes e caterva, até os linha-dura de 64 seriam "da Sorbone"). A questão é a esquerda e as forças progressistas saberem se aproveitar do momento para desvelar as mentiras, sem querer pôr uma verdade no lugar - deixar a cada um e cada uma descobrir sua verdade por suas próprias pernas. Sair da internet e das universidade e ir para a rua é parte fundamental nesse processo.

13 de dezembro de 2017

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Retrato de momento para 2018 (se houver eleições)

Capas da Veja, da Isto É, da Isto É Dinheiro, entrevista na TV Bandeirantes: a direita do atraso dá mostras de agir coordenadamente com vistas a 2018, tanto no plano partidário quanto midiático - ainda chamado de jornalístico, quando na verdade é mera agencia de publicidade oficiosa de interesses razoavelmente bem definidos e pouco falados.
Em tese é um tanto cedo tentar traçar um cenário para 2018, ainda mais quando nem se sabe haverá eleições e em que condições elas acontecerão - se terão relevância maior ou menor para o país -, contudo, mesmo assim, parece importante mapear estratégias - da esquerda e da direita.
Começo pelo campo mais bem organizado, a direita.
Há mostras de medo da possibilidade de Lula vir a concorrer, sem ser impedido pela justiça. Certamente esse medo vem não pela questão da justeza da justiça, que isso ninguém mais tem dúvidas, mas por possível cálculo político desta, e notar que barrar Lula seria jogar o país em um estado de confronto social que exigira a presença do exército - o que implicaria em pôr o judiciário em segundo plano, fazendo com que a casta perdesse muito do poder político que hoje possui. A questão que permeia o judiciário, ao que tudo indica, é se é melhor um presidente do qual não gosta mas está acuado e tentando reagir, ou um "presidente" mais afim aos seus propósitos que, pelo argumento das baionetas, vai enquadrar o judiciário.
Enquanto o judiciário não se decide, resta tentar desqualificar Lula - mais um pouco. Isto É ataca mais genericamente, anuncia que "começa a cedo a campanha da mentira" (certamente quem lê essa revista não vai notar que a campanha da mentira está a galope desde 2014, pelo menos), pondo no seu site Lula, Ciro, Bolsonaro e Marina (ela ainda está viva?). Bola levantada para, na mesma semana, Veja ("A política que assusta") e de Isto É Dinheiro ("Eles assustam o mercado") chutarem. Ambas tentam criar uma polarização não mais entre PT e PSDB, como de 1994 até 2014, mas entre Bolsonaro e Lula, com um sendo o antípoda exato do outro - dois extremistas, um de direita, outro de esquerda. Vamos assim descobrindo que a função atribuída pelos donos do poder a Bolsonaro é a de boi de piranha - função cumprida por Russomano nas últimas duas eleições de São Paulo. A questão é se vão conseguir pôr o monstro de volta na caixa, uma vez Bolsonaro não é um apresentador televisivo com discurso genérico, e as ideias que defende começam a ecoar na sociedade e nos grandes partidos - Doria Júnior que o diga.
Bolsonaro tenta se gabaritar como político sério, o que é muito difícil de conseguir. É político de discurso de extrema-direita belicista, sem qualquer proposta legislativa ou sucesso de vida para mostrar e sem qualquer estofo para discutir questões nacionais. Ganha destaque em certos estratos sociais mais altos, por se pintar como anti-político, por "dizer o que pensa" (como se pensasse), porém, já disse alhures, sua verve belicista não me parece encaixar no ethos da maioria tupiniquim, seu patriotismo se encerra na caça ao inimigo interno, e sua tentativa de formar uma equipe econômica o leva para se tornar uma espécie de Doria Júnior Troglodita e fracassado, um PSDB Jr. Talvez a grande validade da sua candidatura seja cacifar-se para barganhas futuras.
Por falar no João Trabalhador que usa o cargo de prefeito (prefake) para se promover, este claramente recua da estratégia adotada desde a eleição do ano passado. Portas fechadas no DEM e sem ânimo para arriscar no Novo, se adequa ao novo figurino PSDB-Mídia. Ademais, deve ter sido avisado pelo seu pessoal de marketing que sua administração (que ele chama de gestão) catastrófica à frente de São Paulo vai desqualificando-o para qualquer novo vôo político, e que na disputa pelo coração anti-petista como o mais bronco, machão e valentão da boca para fora, o almofadinha que joga flores no chão não é páreo para o ex-militar que faz flexão de pescoço [https://youtu.be/4RSs-6XeIrI]. Para anunciar sua nova fantasia, duas horas de publicidade travestida de entrevista na TV Bandeirantes, onde ele reafirma o mito de PSDB de centro, põe a si como alguém cordato e de centro, e se vangloria de sua humildade em aceitar ser vice de Alckmin.
Nessa briga de raposas, a velha raposa Alckmin parece estar mostrando ao seu pupilo que a coisa é menos simplória do que o "self-made man com dinheiro do papai e do erário público" e seus marqueteiros imaginavam. O bom moço da Opus Dei e da pena de morte extra-judicial autorizada para seus subordinados ("quem não reagiu está vivo"), começa a tentar se situar mais à esquerda do seu partido, como a provar seu centro, de equidade diante dos extremos (Lula e Bolsonaro), e participou recentemente de evento de corrente de esquerda do PSDB (?). Não dá para acreditar que seja algo além de estratégia de marketing, porém o gesto não deixa de ser importante para o momento atual de florescência neofascista. Se esse caminho de moderação fortalece Bolsonaro por um lado, por outro o isola ainda mais e ajuda a romper com a radicalização plantada pela mídia até agora. Em afinidade com essa mídia, a construção do bom moço firme de centro pode garanti-lo como nome da direita, sem espaço para aventureiros (pretendo escrever mais sobre esse movimento de Alckmin em outra análise).
Outro que ameaça despontar, parece estar apenas aguardando o melhor momento, é Luciano Huck, pelo DEM. Esse melhor momento deve ser o mais próximo possível das eleições: quanto menos se expuser enquanto candidato, menos chance de ser "desconstruído". Ventila seu nome vez ou outra, mas não sai em campanha. Ao mesmo tempo que é sua inspiração, Doria Júnior pode ser o seu calcanhar de Aquiles: se se forçar uma similitude entre os dois apresentadores, os resultados do João Trabalhador à frente da prefeitura podem desmerecer o novo não-político na disputa. Por seu lado, diferentemente do discurso de gestor, self-made man de sucesso, tecnocrata, Huck pode vir com discurso mais família: o bom pai de família, carinhoso e atencioso (sic) com a mulher e os filhos, ao mesmo tempo alguém que conhece os problemas do povo mais simples, nos seus anos e anos de quadros com assistencialismo hipócrita em seus programas, ou seja, alguém que sabe ser carinhoso e compreensivo, que gosta de ajudar a todos, e, quando preciso, sabe ser duro e firme para evitar que o filho se perca em seu caminho.
Marina Silva perdeu completamente o tempo político. Queimou pontes com eleitorado progressista ao apoiar Aécio "Um que a gente mata antes da delação" Neves em 2014 e ao se ausentar das grandes questões ambientais desde então. Na verdade, ao se ausentar de praticamente toda questão desde então - e quando apareceu foi discretamente, para ficar em cima do muro, queimando também as pontes com a direita. Agradava a um eleitorado reacionário que gostava de posar de prafrentex porque compartilhava denúncias de desmatamento na floresta amazônica (ao mesmo tempo que aplaudia e apoiava o agronegócio), porém é pouco para uma candidata à presidência. Talvez ainda imagine que possa ser alçada à condição de grande líder do centro, na falta de nome melhor, mas há muitos nomes para a vaga, e uma mulher negra do norte nunca será a opção preferencial das elites brasileiras.
Não me parece que Henrique Meirelles, Rodrigo Maia ou algum nome do PMDB sejam atores relevantes na ribalta - o são, sem dúvida, nos bastidores, e não será surpreendente se embarcarem em um candidatura de direita e, diante de uma vitória evidente de Lula, trocarem de lado no meio do processo eleitoral.
No espectro da direita, da reação, a estratégia está mais ou menos traçada, até para o caso mais terrificante (Lula poder disputar a eleição; na ausência desse, imaginam que vencerão fácil, pelas urnas ou pelos coturnos), no campo progressista e/ou de esquerda, os cenários e estratégias estão ainda sendo rascunhados, aparentemente com desorganização e velhas falhas, com o narcisismo das pequenas diferenças aflorando com vigor.
Lula, Ciro, Manuela D'Ávila (PCdoB), e Psol (por ora com Boulos) são os nomes ventilados neste campo. As discussões internas ao espectro já começaram: traição, favorecimento das direitas, necessidade de candidatura única - conversa muito similar à eleição de São Paulo, quando Erundina decidiu disputar a prefeitura. Vale lembrar que nesse caso, não fosse Erundina e seria bem provável que a vitória de Doria Júnior no primeiro turno seria ainda mais acachapante. Falta à esquerda entender que primeiro turno é momento de todos apresentarem suas ideias. O grande ponto é evitar o que Erundina fez ao menos em um debate de 2016: bater na própria esquerda. Candidatos próprios, com propostas independentes, mas o compromisso de cerrar fileiras contra a direita e os golpistas, denunciando os retrocessos sociais aprovados por Temer, PMDB, PSDB e demais, evitando ao máximo críticas dentro do espectro - por mais que sejam críticas pertinentes e em grande medida necessárias -, deveria ser esse o compromisso dos candidatos deste campo.
Muitos dizem que essa fragmentação das esquerdas, em especial com a possibilidade de candidatura própria do PCdoB como decadência do PT, perda de seu poderio. Não é o que demonstram pesquisas. Apesar de todo o ataque, Lula segue com um terço do eleitorado, e o PT ainda é o partido mais admirado. É de acreditar, contudo, que muitas pessoas fiquem em silêncio diante de toda essa campanha de massacre midiático, mas votem no partido que trouxe grande melhoria na sua qualidade de vida - um voto racional. À pecha de corrupto, haveria a alegação de que todos são, mas o PT faz; ou mesmo o descrédito de todas essas denúncias - uma mentira repetida um milhão de vezes se torna uma verdade, dizia Goebbels, mas é preciso saber mentir com propriedade, ou o efeito pode ser o oposto. Ainda sobre a tal decadência, vale lembrar que o PT nunca foi unanimidade - nem mesmo no próprio partido, havia correntes contrárias aos rumos do partido -, e apesar de talvez ter perdido a hegemonia no campo da esquerda, o PT segue como principal força.
PT como principal força, e Lula como principal candidato. Além do risco da condenação em segunda instância, o judiciário já deu mostras de querer podá-lo por outros caminhos se for necessário - como a acusação no TSE de campanha antecipada, por conta da sua caravana. Se não o condenarem, a campanha mal feita para torná-lo a encarnação do mal irá levá-lo à presidência - salvo algum outro golpe muito baixo, o que não deve ser descartado. O PT diz não trabalhar com plano b, porém é evidente que Haddad figura como alternativa natural - e, contrariamente a Dilma, um quadro politicamente capacitado. Faz caravana com Lula e dá entrevistas - se não for para presidente, é nome forte para o governo de São Paulo, sem nenhum grande nome até agora, visto que Doria Júnior seria um dos nomes, mas resta saber se vai conseguir reverter a deterioração de sua imagem.
Ciro Gomes (PDT) costuma ser posto no campo progressista. Tenho várias reticências quanto a isso, mas diante do quadro atual do Brasil, sim, ele é do campo progressista. Ciro é um candidato que perdeu seu momento. Se conseguir deslanchar, não precisará de nenhuma nova frase infeliz: as que possui já são suficientes para fazer com que naufrague, como em 2002, quando sua frase infeliz sobre o papel de sua esposa nas eleições custou-lhe não apenas a liderança nas pesquisas como a participação no segundo turno. Para 2018, já soltou a frase infeliz sobre o momento testosterona e Marina - convenientemente descontextualizada e manipulada à esquerda e à direita -, e novas devem vir, se deixarem ele falar. Teve sua segunda chance em 2006: se se anunciasse como um voto crítico à esquerda ao governo Lula, poderia ter se gabaritado para 2010. Manteve-se leal ao líder, e agora tenta se descolar de um modo até raivoso. Pelo momento atual, novembro de 2017, não entra em 2018 para vencer. Na verdade, fora do PT ainda não apareceu nome algum cuja vitória na eleição (se houver) seja factível.
A exemplo de todas as outras eleições, o Psol deve lançar candidatura própria. Desde sua criação é  bastante claro a quem quiser ver com alguma imparcialidade que o Psol é uma dissidência intelectual-acadêmica do PT, um PT sem base social. Promete começar a mudar essa escrita - finalmente - em 2018, ao aventar o nome de Guilherme Boulos, do MTST, como candidato. Com remotas chances por enquanto, sua presença seria um grande ganho para o debate, dado seu histórico de militância e sua sólida formação intelectual, ao trazer um líder de um movimento popular em plena efervescência para o centro do debate eleitoral.
O PCdoB, surpreendendo a muitos, pretende lançar a deputada gaúcha Manuela D'Ávila. Outro nome que deve enriquecer o debate - desde que saiba quem atacar, e não tente disputar eleitorado na base de desqualificação de quem está mais próximo. Gilberto Marigoni, do Psol, louvou a pré-candidatura, chamou de "desprendimento grandioso" a troca de uma eleição certa para a câmara dos deputados por uma candidatura com remotíssimas chances - diz o professor acadêmico que essa troca é importante para discutir projetos de país. Ouso discordar de Maringoni. Por mais que a política brasileira seja altamente personalista, é de se questionar se precisamos aceitar esse padrão. Convém lembrar que a eleição de Collor ao senado, em 2006, pode ser creditada na conta do Psol e de Heloísa Helena, mesmo que indiretamente; e se se trata de discutir projetos de país, é de se imaginar que o PCdoB possua um projeto para além de quem seja o candidato. 
Esse desdém para com o legislativo (e, consequentemente, com as eleições para deputado e senador) mostra o quanto a esquerda ainda patina em estratégia para 2018 (caso haja eleições). Vencer a majoritária e acabar refém de um novo Eduardo Cunha e de uma câmara reacionária como a atual será uma vitória de Pirro - a história recente do país deveria ter nos ensinado, porém ignoramos. Enquanto a direita trabalha também candidatos para o legislativo, com MBL, ou o tal do "Fundo Cívico" de Huck, Diniz e Guanaes, a esquerda abdica de nomes capazes de trazer votos - e coerentes com as bandeiras progressistas: alguém do naipe de um André Sanchez (que recentemente propôs a cobrança de mensalidade no ensino público), é um desserviço que se presta ao país (neste caso, o PT, mas Psol, PCdoB, PDT não deixam nada a desejar nesse quesito) -, em nome de campanhas propositivas e com poucas chances de vitória. Diante de todos os retrocessos sociais vividos desde o golpe, a esquerda não pode se dar ao luxo beletrista de promover o debate em detrimento de vitórias efetivas - até porque o debate pode ser conduzida por outra pessoa, sendo o próprio Maringoni um exemplo de ilustre desconhecido que disputou eleição majoritária.
Como disse, trata-se de um panorama do que se projeta a partir de um momento bem específico: novembro de 2017, e uma nova estratégia da direita e da mídia para o PSDB. Até a eleição, cabe antes garantir que ela acontecerá, e acontecerá sem um golpe judiciário - ou seja, que fique apenas suscetível a um golpe midiático branco, a exemplo de 1989, 1998, e do que se tentou em 2002, 2006, 2010, 2014. E além de pensar em disputa institucional, é preciso encontrar modos de ampliar a mobilização popular, na tentativa de evitar maiores retrocessos e engajar as pessoas nas eleições, ou mesmo na sua defesa. Se parte da esquerda permanecer deitada em berço esplêndido esperando a eleição chegar, quando se der conta, mesmo que ganhar a presidência, não vai ter muito mais a fazer que administrar o caos e os cacos de um resto de país.

09 de novembro de 2017

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Festa de criança (versão sete anos do Vinícius)

"Tia, ele que é o pai do Vini?"
Na esperança do menino de conhecer, finalmente, o pai do amigo, me vi alçado a um posto que não me cabe.
"Não, ele é meu namorado", foi a resposta recebida - não chamamos de namoro nosso relacionamento, mas para resolver logo a questão, melhor simplificar.
Era a festa de sete anos do Vinícius. Sete amigos presentes - cinco piás e duas gurias (como eu dizia quando era criança), todos, exceção de um, dois anos mais velho, na mesma faixa etária. Festa de criança me traz à mente a crônica homônima de Luis Fernando Veríssimo, com a angelical baixinha terrorista, o moleque morto de fome, e o aniversariante coberto de brigadeiro, fruto da derrota numa guerra de docinhos. Para a festa do Vini nem era preciso terroristas mirins ou guerra de docinhos: a casa da avó, com mil badulaques pelas paredes e sobre os móveis era naturalmente um convite ao caos, ainda mais quando primeiro presente recebido era de atirar. Eu já antevia as notas para os alvos: um para a estátua grande, cinco para as bonecas russas, dez para para as miniaturas de bumba-meu-boi e talvez dez também para boneca japonesa com cara de que quebraria antes mesmo de chegar ao chão. Para minha surpresa, à ordem de "aqui não é para mexer" ninguém contestou ou se fez de desentendido.
De qualquer modo, não foi de brigadeiro, mas não faltou guerra. 
A primeira menina que chegou não queria ficar sem a mãe, só cedeu quando a segunda garota chegou. Foi esta quem chamou para a guerra: tão logo as mães foram embora ela sacou um batom roxo e anunciou seu plano de beijar os meninos. Estes, diante do perigo iminente, armaram barricadas e organizaram um contra-ataque sistemático e permanente, que fez as duas não só desistirem dos ataques beijoqueiros como bodearem com a festa (por falar em beijoqueiro, lembrei do personagem que aparecia na tevê sempre que invadia campos de futebol, quando eu era criança). Apesar da bandeira branca do lado feminino, a guerra só acabou com a intervenção materna, forçando o armistício. Com o fim dos combates, a festa mais ou menos se estabilizou: meninas no quarto, aborrecidas, dois meninos jogando bola no corredor, os outros três revezando em atividades diversas, e o aniversariante cada vez mais irritado com a bagunça.
Sem ambiente para ler, achei que poderia zapear a tevê, enquanto as crianças gritavam pela casa (desde que pulasse os canais de desenho). Ilusão. Mesmo com o som baixo, em menos de cinco minutos já havia quatro crianças ao meu redor.
"Não adianta pedir que não vou pôr em desenho", aviso de cara, durão.
"Tudo bem, tio, mas deixa no jogo do Corinthians", pede o garoto de cabelo espetado (no meu tempo seria "cabelo punk", hoje é "cabelo Neymar"). Ao ouvir Corinthians, uma das garotas se junta ao grupo. Outro menino reclama que é jogo de futsal, e futsal é chato, não é futebol de verdade. A menina responde que o que importa é o Corinthians, que ela vai com o Corinthians onde o Corinthians estiver, acompanhado de declaração de amor pelo Coringão pelo cabelo punk. Tem início uma discussão sobre futsal, futebol e Corinthians. Alguém pergunta para qual time torço, respondo e vem nova pergunta: "Que time é o Paraná?". Mantenho a calma diante de tamanha ignorância, afinal são crianças, e não fizeram a infame pergunta se Paraná é Atlético Paranaense. "Está na segunda divisão, mas este ano sobe. É um time com as cores do Homem-Aranha", respondo, pouco antes do gol do Corinthians. A discussão volta aos velhos temas: futsal, futebol e Corinthians - o Paranazinho foi esquecido. As imagens de briga de torcida, logo após pedido da mãe do Vini para desligar a tevê, são a gota d'água para eu dar cabo à babá narcótica eletrônica e devolver as crianças à energia - e o aniversariante ao mau humor. Enquanto se dispersavam, um dos meninos pergunta se sou o pai do Vini, e repito a resposta ouvida antes: "Não, sou o namorado da mãe dele".
A exemplo da crônica do Luis Fernando Veríssimo, a mãe do aniversariante não tarda a começar a dar sinais de cansaço, e resolve antecipar em quase uma hora os parabéns, vencida pelos insistentes pedidos de docinhos. Nos parabéns, ela se junta ao filho no mau humor, que não consegue apagar as velinhas, que não conseguem sequer ficar acesas, por obra do amiguinho de fôlego infinito estrategicamente estabelecido diante do bolo, do outro lado da mesa. Findo o parabéns, mesmo sem assoprar as velas, estão liberados os docinhos. Aqui começo a entender a falta de vontade de uma guerra de brigadeiros por parte das crianças: mal começam a comer, elas passam a pedir se podem guardar alguns para levar para a mãe - pelo visto acharam a mesa bastante frugal, a ponto de temerem sequer comerem o que querem, o que dizer atirar uns nos outros. A única criança a querer bolo (de chocolate) é o cabelo punk, mas ele avisa que não gosta de chocolate, e portanto se restringe ao creme do recheio.
Por falar em cabelo punk, sim, há uma pontinha de inveja deste escriba: quando criança, com um corte-neymar-então-chamado-punk, por mais que besuntasse meus cabelos de laquê, eles não ficavam nem meia hora em pé, logo retornando ao seu locus naturalis (como diriam os filósofos medievos); o garoto passou quatro horas na festa e foi embora com eles tão ríspidos e verticais quanto chegaram.
E foi o cabelo punk quem por último me perguntou se eu era o pai do Vini. Comecei a notar que o "pai do Vini" é algo como uma lenda urbana entre seus amigos, uma espécie de "o Mesmo" dos elevadores, cujo aviso está estampado em todas as portas, mas ninguém nunca viu; talvez a "Loira do Banheiro" que a certa hora ouvi eles parolando sobre.
"Não, sou o namorado da mãe dele".
Ele, diferentemente das demais crianças, não se satisfez com a resposta:
"Tá. E do Vini, você é o que?"
Uma boa pergunta... Lembrei da crônica do Antônio Prata sobre sua filha, quando ela tinha um ano, em que dizia que para ela o pai era uma espécie de ajudante VIP da mãe, muito abaixo da Peppa Pig, por exemplo, na sua escala de valor. Pensando por esse lado, sou uma espécie de pai, que fica com o Vini quando sua mãe tem compromissos e ninguém para ficar com ele; duas vezes por semana sou o responsável por tirá-lo da cama às seis da manhã e incitá-lo a comer, trocar de roupa e escovar os dentes, ao invés de ficar rodando no chão cantando (sim, Vinícius tem a pachorra de cantar às seis da madrugada!, e sei lá porque, ele adora brincar de enceradeira); sem contar que fui eu a acompanhar sua mãe nas visitas às escolas e discutir sobre qual seria a melhor opção - o pai deve desconfiar que ele frequenta a escola, uma vez até reclamou da mãe gastar dinheiro (dela) com isso. Enfim, achei que entrar nesse nível de discussão não ornava com o ambiente da festa, além de antever o risco de me meter num cipoal com mil outras perguntas, cada vez mais comprometedoras - sem falar que Vini tem sete anos, e não um, e eu sou efetivamente um assistente da sua mãe, e não seu pai.
"Sou agregado dele".
Não sei se entendeu, mas se deu por satisfeito.
Liguei novamente a tevê, para ver Fórmula 1. Desta feita, as crianças não se sentiram atraídas pela programação, para tristeza da mãe do Vini, que já se via nas cordas, com dificuldades de manter a ordem mínima para o bom andamento da festa - eu mesmo tive que intervir com dureza quando passaram a brincar de lutinha (lutinha era no meu tempo, hoje é MMA) com golpes de verdade e separar dois meninos que já começavam a se estranhar de verdade também.
Tempos modernos, crianças modernas, soluções modernas. Antes de ser nocauteada, a mãe prefere me tirar da frente do televisor e convida as crianças para assistir a uma animação. Fim das brincadeiras, das brigas, da comilança - só o cabelo punk se ressente, tenta (em vão) incomodar o filme, segue comendo e pedindo suco, parece quase uma alma penada numa casa abandonada.
Estão todos em silêncio, concentrados, quando começam a chegar os amigos da mãe - que não são os pais das crianças. Como na crônica de Veríssimo, uma nova festa parece estar começando. Os pais das crianças surgem em uma verdadeira blitzkrieg, e em menos de dez minutos a partir do horário anunciado como fim da festa, a única criança na casa é o aniversariante. Vini poderá - agora em paz - brincar com seus presentes, enquanto os adultos se aglomeram na sala para assistir a desenhos.

30 de outubro de 2017

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Conversa sobre corrupção no ponto de ônibus

No ponto de ônibus, lembro um dos motivos que fazem com que eu tanto goste de metrô: cada três minutos vem um trem. Ao meu lado, um homem puxa conversa com uma garota. O assunto: corrupção. É meio-dia, o sol está escaldante, o termômetro aponta 34ºC, não sei que horas o ônibus irá passar (estou há quase meia hora, esperarei mais dez minutos), estou de roupa escura e tenho uma entrevista para doutorado ao cabo do trajeto, de modo que não me resta outra coisa que ficar ao seu lado e ouvir a conversa. Para meu alívio ela não descamba pro discurso de ódio, fica no senso comum das pessoas de boa vontade - as que talvez foram para a Paulista bancar o pato na frente da Fiesp, genuinamente achando que se rebelavam contra a corrupção, e não contra a constituição. Não houve, nesses dez minutos de platitude, ataques à encarnação do demônio, Lula e o PT, tampouco aos golpistas que tomaram o Planalto, nem mesmo elogio aos "slavadores" da pátria de Curitiba. Apenas boa vontade e ignorância - que pode dar origem a uma soberba auto-indulgente que conservadores sabem usar muito bem.
A garota concordava e complementava, quem dava o tom era o homem. Começou a conversa falando que o grande problema do Brasil é a corrupção. Para quem se informa pela grande imprensa, e há mais de uma década ouve falar de corrupção dia sim, outro também, normal achar que esse é o maior problema destes Tristes Trópicos - afinal, o que importam hospital e escolas em estados calamitosos, polícia assassina, desindustrialização, empregos precarizados que mal garantem a subsistência, isso para não falar no trabalho escravo legitimado pelo ilegítimo ou no possível regresso do país ao mapa da fome diante dessa mal que tudo justifica, a corrupção?
Com a concordância do maior problema do Brasil, resta o diagnóstico vira-lata: não podemos só culpar os políticos, que são corruptos - todos -, e precisamos assumir que é o povo brasileiro que é corrupto, é dado a trambiques e que, por conta disso, não tem direito de reclamar dos políticos. "Sertíssimo"! Somos um povo corrupto (talvez por sermos feitos majoritariamente de uma mistura de negros e mestiços com portugueses?), então por que perturbar o sono de Temer e sua quadrilha? Esse discurso é a mão que espera a luva do não-político - ao que tudo indica, para 2018 será a vez de Luciano Huck*.
Se somos todos corruptos, como mudar? Meus colegas de espera sabem: com nosso exemplo. Sim, negando a corrupção não apenas em palavras, mas agindo eticamente, para que as crianças aprendam com nossos exemplos edificantes. O exemplo edificante dado pelo homem seria escárnio, não fosse, ao que tudo indica, sincero. Ilustrou sua, digo, nossa missão ao falar de quem vê uma moeda de cinquenta centavos que cai do bolso de alguém. "Aí a pessoa vai lá e, ao invés de devolver, pega pra ela. Isso é corrupção. Depois não adianta reclamar dos políticos". O que falar da completa falta de medidas do homem? Uma moeda de cinquenta centavos ou uma carteira com cinquenta reais, isso pode fazer a pessoa uma "corrupta", mas não vai mudar muito a vida de um homem branco de classe média - daí não ser difícil escolher em manter a orgulhosa pureza ética. Queria ver o homem diante de 51 milhões de reais em dinheiro vivo, para pegar e usar como quisesse. Ouso pensar que sua moral fraquejaria. Ele sabe, contudo, que nunca terá a oportunidade de ter sequer um milhão sendo oferecido a ele em troca de algum ilícito - fica fácil, portanto, cobrar dos políticos a mesma retidão que ele tem diante de uma moeda de cinquenta centavos de outrem que brilha convidativa aos seus olhos. A segunda falta de medida vem de uma encarnação política que o homem faz do discurso econômico de Miriam Leitão e congêneres, jornalistas de conhecimento econômico nulo e qualidades de caráter idem (se você não puder pagar). Nessa perspectiva, moralidade é uma só, em casa, no trabalho, na política, na família, na cama. E a moral que vale é a que o homem, a mulher de classe média conhece: a mais estreita moral pequeno-burguesa individualista (meritocrática, normopata, machista, homofóbica, etc, etc, etc). De tanto ouvir dos comentaristas na televisão que o país é como uma casa (infelizmente a minha não imprime dinheiro nem cobra impostos, mas isso é detalhe), por que não achar fazer política é como cuidar dos filhos? Ou de uma empresa (pequena e familiar)? O Brasil não precisava de um gerente em 2006? Não escolheu a gerentona do PAC em 2010? São Paulo não elegeu o self-made man com o dinheiro do papai, o empresário de sucesso que faz politicagem mas é gestor? E não ressente a falta do velho pai dos pobres, sempre tentando matar ou reavivar seu legado? Talvez seja a hora, então, de entrar em campo o discurso do bom pai, que vai pôr, finalmente, ordem na casa e dar a cada um aquilo que merece (e não o que dizem abstratas leis que não valem nada e que por isso não compensa seguir)? Bala ao desordeiros, prisão aos favelados, contratos aos amigos, e uma estrelinha de reconhecimento pelos bons serviços à nação para a dupla ignara que conversava ao meu lado. Um bom pai, que sabe guiar sua família, é amoroso mas sabe ser duro e firme quando precisa, para não permitir que seus filhos se desviem do bom caminho (da heteronomia). Quem sabe se esse bom pai, homem de família não seja casado com uma loira?
Como disse, no tempo de conversa, não houve sinais mais claros do fascismo que borbulha no país, não houve discurso de ódio, não houve "tem que matar", não houve um inimigo encarnador de todo o mal. Havia duas pessoas inconscientes de como funciona a política e o Estado, inconsciente de seu papel na sociedade, de suas crenças e de seus preconceitos, que tentava pensar dentro dos limites estreitos que a "sociedade do espetáculo" autoriza que se pense - um pensamento que muitas vezes nega a si mesmo, mas que aqui simplesmente não saía do lugar, por não ter lugar para aonde ir. Um acúmulo de ignorâncias, que a escola não tentou desfazer, que a universidade não se incomodou em combater, e que os donos do poder, com o trabalho agressivo realizado pela mídia e igrejas, semeam em seu rebanho, mesmo nos não fanáticos. Ou a esquerda passa a trabalhar efetivamente para desarmar essa mentalidade apta a aceitar uma ditadura de extrema-direita salvadora, ou logo não nos restará mais alternativas.

20 de outubro de 2017

* Por sinal, comentava em 2016 sobre a possibilidade Huck como candidato à presidência [http://bit.ly/cG160510]. O sucesso de Doria Jr. em 2016, ao que tudo indica, acabou por ser seu fracasso; mas o roteiro deve ter sido aprendido, tanto para as eleições como para depois. Huck pode surgir com grande força em 2018 (se houver eleições).

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Precisamos falar (criticamente) sobre o Sesc

Em agosto fez estardalhaço a inauguração de uma nova unidade do Sesc de São Paulo, no centro da capital paulistana. Assinatura de Paulo Mendes Rocha no projeto, em meio a uma área que a mídia vende como "desvalorizada" (antessala da "degrada"), com viés de alta - graças à linha amarela do metrô, entre outras razões -, a inauguração acabou acontecendo em um momento propício para reafirmar o Sesc São Paulo como um oásis em meio à crise da área da cultura - de um lado, o poder público tirando todo investimento do setor, do outro, a iniciativa privada interessada apenas em espetáculos com boas taxas de retorno financeiro, como musicais ou os contemplados com a lei Rouanet, e livres de qualquer polêmica com grupos fundamentalistas-cristãos e reacionários-neofascistas. Ganha o Sesc, ganha São Paulo, ganha a cultura - é o que leio na minha bolha virtual, na qual estão muitos artistas, técnicos de artes do palco, pessoas de esquerda da classe média, média-alta, egressas da universidade pública (muitos dos quais funcionários do Sesc). Não discordo, mas ouso dizer que essa é só metade da história - para meus colegas de classe social, que gostam de ser críticos pela metade, até o ponto que não toque seus pequenos privilégios, é o suficiente.
Aproveito passado o momento de loas acríticas para lembrar que nem tudo são flores no Sesc e na sua relação com a cultura.
Não que o Sesc São Paulo não tenha inúmeros pontos positivos. Programação cultural interessante a preços acessíveis, cantina a preços razoáveis; para técnicos de fora da casa, um dos raros locais em que se paga a tabela cheia do sindicato (um dos motivos de eu ter acelerado tirar meu DRT da minha nati-fracassada carreira de iluminador cênico foi estar apto a poder pegar um trabalho no Sesc, caso surgisse); para artistas, paga o cachê combinado e na data - se cair nas graças dos programadores, vai ficar circulando com o espetáculo e ter garantido o dinheiro para o aluguel, sonho de todo artista em início ou meio de carreira, poder não se preocupar se vai ter dinheiro até o fim do mês. Se se pensar individualmente, o Sesc é quase só vantagens. Se formos olhar a cultura - produção e circulação de bens culturais, em especial espetáculos de todos os estilos - como sistema, o Sesc floresce graças à disfuncionalidade do nosso sistema de cultura, e mais se fortalece quanto mais esse sistema é disfuncional - contribuindo para piorar a situação. Culpa do Sesc? Não. Mas daí também não podemos achar que ele seja completamente inocente nessa história.
Começo com um relato pessoal de menor relevância: admito, diferentemente de muitos de meus colegas de faculdade e de classe social, nunca fui tomado de paixão pelo Sesc - pelo contrário, algo nunca me desceu bem nas unidades que frequentei e frequento. Não pela programação cultural e pelos preços, definitivamente, mas por muito tempo não soube precisar o que era. A notícia de que mulheres haviam sido proibidas de amamentar em público em uma unidade deu a primeira deixa de qual minha principal bronca com o Sesc (Sesc avant-garde do nosso estado atual?). A ela se seguiram duas cenas que presenciei: numa, um negro era barrado na entrada; na segunda, um homem com um visual de motoqueiro - ambos entraram após apresentarem suas credenciais. Foi então que entendi: o Sesc tem todo o clima de lugar classe média de novela da Globo (e eu, démodé, estou mais pro cinema novo de Glauber Rocha). Limpo, asséptico, os funcionários uniformizados e servis, uma boa ação vez ou outra - como abrir um dia para uma turma de escola pública - e a quase ausência de negros entre os clientes do lugar. Na verdade, há alguns negros, os que se deram "bem na vida" (segundo a lógica da meritocracia canalha brasileira), o que não há - fora da área de serviçais - são pessoas pobres, diversidade social - e mesmo cultural. Aí ouço de meus colegas de classe elogiarem o Sesc por ele ser "popular", porque os ingressos são baratos - e assim a elite brasileira descolada vai forjando sua noção de povo, na qual não está incluída 60% ou 70% da população nacional. Em tempo: frequento basicamente os Sescs da região central, já me criticaram por esta minha posição, argumentam que nos Sescs da periferia da capital há, sim, negros, pobres e parcelas da população ausente das unidades que freqüento. Não que isso seja muito positivo: é antes um reforço da segregação, um reafirmar que cada um deve ocupar seu lugar (natural?), não se deve misturar: os marginalizados devem permanecer nas franjas, o centro para os "vencedores" - foi a lógica, diga-se de passagem, da cultura na gestão Haddad-Bonduki: segregação e limpeza social dos equipamentos centrais, como o CCSP, na Vergueiro (para quem não é de São Paulo: fica no início da Av. Paulista).
Leio uma entrevista de Paulo Mendes Rocha sobre o novo Sesc. Ele sabe que em alguma medida aquilo é uma farsa, tanto que a entrevista gira em torno de ocupar o centro, pois ele não é perigoso - o próprio arquiteto tem seu escritório há décadas na região da Boca do Lixo, em meio a inferninhos, travestis, prostitutas e michês. Na entrevista ele afirma que o comerciário freqüenta o centro, pois muitos ali trabalham e se divertem - ao menos até ano passado, quintas e sextas feiras à noite era uma região riquíssima de tipos diversos ocupando as ruas e os bares da região, de feirinhas do rolo a baladas na calçada, passando por engravatados tomando chope e funcionários rasos escutando shows de pagode. Seu convite, portanto, não é para os comerciários ocuparem o que seria em tese um prédio a eles destinado - não é para o atendente, o caixa de mercado, que está em trânsito entre seu trabalho, na zona oeste ou zona sul, rumo à zona leste, fazer uma pausa e aproveitar o Sesc no centro -, e sim para a classe média, média-alta, estudantes e egressos da USP e da PUC, criarem coragem de sair dos limpinhos e assépticos bairros da Vila Madalena, Pinheiros e Pompéia e descobrirem que o centro pode oferecer mais do mesmo, sem sobressaltos - afinal, agora há um Sesc! 
Longe de mim defender que se "deve dar ao povo o que ele pede", uma vez que é negado ao mal-chamado povo acesso a diversas formas de arte, limitando seu conhecimento ao que é tido por mais raso e precário (ainda que nem sempre essa valoração social corresponda à realidade da arte em questão). O ponto é o quanto os Sescs centrais não demonstram interesse em dialogar com o público do seu entorno que não seja o de classe média universitária branca. Pego como exemplo o Sesc Pinheiro, na zona Oeste da cidade. A unidade fica a uma quadra do Largo da Batata, atualmente em acelerado processo de gentrificação, mas ainda famoso ponto de forró, ritmo vinculado ao popular (no sentido pejorativo do termo): não há nada na programação do Sesc que proponha aproximação com esse público - poderia, por exemplo, utilizar o forró como isca para unidade, de modo a, com o tempo, apresentar outras linguagens, por que não? Porque, ao que tudo indica, não é do interesse do Sesc ter gente diferenciada sob seu teto - diversidade, só a bem comportada, que aceita ficar sempre sob controle. Até onde me consta, não se trata de lapso: é política deliberada e explícita, conforme comentou uma ex-funcionária da área de música da unidade. Em compensação, música pop de agrado de classe média universitária branca - o outro público das redondezas -, tem toda semana (muitas dessas bandas eu gosto, mas reconheço: são divertimento fajuto, artisticamente nulas). Sobre o novo Sesc, não sei quanto à programação, mas seu apreço pelo diálogo com a população do entorno me soou evidente no número exagerado de seguranças que circulam por ele (ao menos nas três vezes que estive no local). Me lembrou a Unicamp, que com sua segurança ostensiva não resolvia o problema de criminalidade, mas dava um jeito na presença de pobres).
Aqui entro num segundo ponto da relação do Sesc com a cultura. Se se aproveita da sua condição para afirmar certas manifestações artísticas como válidas - valorosas -, em detrimento de outras, excluindo parte da população das suas unidades, para artistas, mesmo dentro dessas linguagens consagradas, o Sesc tem efeito bastante perverso - e mesmo deletério.
O Sesc se firmou como um centro cultural com boa curadoria e bons preços. No senso comum (a classe média, média-alta branca, universitária, descolada e preguiçosa de maiores aprofundamentos), se está em cartaz no Sesc é porque passou por um rigoroso crivo antes e é bom - dá para ir sem medo.
Primeira questão: quais critérios servem de parâmetro para a seleção do que é aceito em seus palcos, do que é recusado? Inovação de linguagem? Experimentalismo? Potencial para provocar debates adormecidos mas necessários? Ou efeitos especiais? Currículo do artista ou grupo? Não ofender a moral e os bons costumes de uma classe média meio progressista? Gosto pessoal do programador ou do gerente da unidade? Ainda que haja brechas, é perceptível que a banda na qual o Sesc seleciona seus espetáculos é bastante estreita. Aos artistas, se apresentar no Sesc é oportunidade de ganhar seus necessários meios de subsistência através de sua arte e se ver como um bom artista, se admirar narcisisticamente no espelho efêmero que é seu guia mensal de programação. O problema: ter se apresentado no Sesc não é ponto no currículo fora do Sesc, pelo contrário: é dificultar sua carreira no circuito extra-Sesc.
Primeiro, na medida que o próprio circuito extra-Sesc é de difícil manutenção: como o Sesc tem ingressos subsidiados, é quase impossível espaços independentes, autônomos, serem economicamente viáveis sem alguma forma de auxílio - estatal ou privado -, e os artistas e grupos poderem fazer temporadas dependendo da receita da bilheteria: dificilmente conseguem pagar as contas.
Segundo ponto: a mentalidade que acaba regendo o público enfeitiçado pelo canto das sesc-sereias é que se não está no Sesc não deve ser bom, não vale a pena arriscar - até porque se for bom, logo entra em cartaz em algum Sesc, com ingressos a metade do preço (ou menos) do que se cobra em teatros que sobrevivem por conta própria. Daí os artistas (não falo dos famosos, globais ou consagrados), para poder viver de arte, terem que se sujeitar ao Sesc ou aos editais governamentais: o Sesc forma público para si, não para artes. Problema um: se o artista já esteve no circuito Sesc, é comum ver pessoas preferirem esperar até ele voltar - lembro de vários amigos terem recusados convites para assistir a shows no finado Studio SP com esse argumento. Problema dois: o quanto o artista precisa reprimir da sua arte para poder ser aceito no circuito Sesc? Problema três: o quanto o artista se acomoda em mais do mesmo, pois melhor garantir o pão com o de sempre a arriscar a fome com qualquer coisa nova? Dois anos atrás fui assistir a um espetáculo de um grupo de teatro de rua que conhecia de Campinas, fazia dez anos. Sabia que eles tinham caído nas graças do Sesc e há anos circulavam no circuito. O espetáculo a que assisti era o mesmo espetáculo que eu vira. Entrei na página do grupo, o repertório é o mesmo de uma década atrás, salvo um, que não sei se é realmente novo ou apenas desconhecido meu.
Pode-se argumentar que, ainda que seja parte menor da sua programação, o Sesc dá abertura a estréias, ou seja, não compra apenas produtos prontos, testados e consagrados. Sobre tais estréias, sei de dois modelos de seleção (salvo as peças do Antunes Filho no Sesc Consolação). Um, o mais comum, o artista ou grupo monta um espetáculo e faz uma apresentação para alguém da programação. Se o programador gostar, o espetáculo está dentro; se não for do agrado, provavelmente o trabalho será jogado fora, ou dormirá em alguma gaveta até conseguir um edital. Para não correr o risco de ter o trabalho jogado fora sem nada receber pelo esforço, é de se imaginar que os artistas se limitem àquilo que soa mais palatável aos programadores do Sesc. E mesmo assim, para poder montar a fundo perdido um espetáculo, ou é preciso um bom capital inicial para queimar sem garantia de retorno, ou então ser um grupo pequeno - um solo ou duo de dança, um espetáculo modesto de teatro, de texto mais curto, sem muita cenografia ou figurino.
O outro modelo, recente, consiste em financiar às cegas algum grupo ou diretor consagrado. Participei, curiosamente, de dois desses processos. O primeiro foi com o Teatro da Vertigem. Foi dado o prazo de quatro meses de trabalho a um grupo habituado a processos criativos de um ano, um ano e meio. Diante da loucura estressante que foi esse processo, não deixou de ser impressionante que o produto final não tenha ficado uma porcaria; mas sem dúvida ficou muito aquém do que o Teatro da Vertigem já fez. Minha segunda experiência foi em um processo de três meses, agora na dança, na residência artística do Eduardo Fukushima. Fukushima foi mais modesto no seu objetivo, e com isso se chocou com os interesses do Sesc - o que tivemos, ao fim, foi uma abertura de processo, e não um espetáculo, com cobrança de ingresso e tudo o mais, como desejava a programadora da unidade. Este ano assisti a outro espetáculo cujo processo de montagem foi financiado pelo Sesc sem ter a obra pronta, Diásporas, com direção de Marcelo Lazzaratto. Simplesmente um dos piores espetáculos teatrais a que já assisti - salvo a ótima sonoplastia e o design gráfico do programa, nada salva, e olha que já vi muita peça de teatro horrível. Contudo, desta feita, ao contrário do ocorrido com o Vertigem, o Sesc deu um ano para sua preparação - não dá para alegar falha do Sesc, portanto, de não dar condições mínimas para o desenvolvimento de um bom trabalho. E só pelo fato de ter 45 atores no palco, além de som ao vivo, é de se imaginar que o montante gasto não foi pequeno. E toda esse dinheiro e esse tempo para ter como resultado um péssimo produto. Entretanto, esse é o risco de fomentar a arte (e não apenas pagar pela sua circulação): não se sabe qual a qualidade do produto final. Pode sair um ótima peça, ganhadora de Prêmio Shell e APCA, pode sair algo bom, e pode sair algo muito ruim. Neste caso, isso acaba por comprometer a imagem do Sesc de "se está no Sesc é bom". Por quanto tempo o Sesc estará disposto a chamuscar essa imagem talhada por tantos anos apenas para cumprir com a função de fomentadora de criação artística?
Já ouvi como réplica a minhas críticas, por parte de alguns amigos técnicos e artistas, de que o Sesc é uma instituição privada, e portanto teria autonomia, não caberia as críticas que faço. Se a instituição é privada, o dinheiro, não - no caso do Sesc, seu orçamento é fruto de um imposto de 1,5% sobre a folha de pagamento. E se o dinheiro é público, a transparência das contas é de empresa privada fechada. Então discutir sobre o Sesc é discutir sobre o destino de um dinheiro público. Ademais, o modelo Sesc é visto tão sem críticas, que frequentemente aventa-se o nome de seu presidente, Danilo Miranda, para o Ministério da Cultura (quando existia de fato), ou o tratam como um ministro paralelo - o que seria ótimo, se nosso sistema de cultura estivesse razoavelmente harmônico, ou se pelo menos o Sesc seguisse diretrizes públicas para sua programação, e se as contas do dinheiro público que o alimenta fossem públicas.
Reitero: não se trata de descartar o modelo Sesc, mas de pensá-lo criticamente dentro de uma estrutura maior de produção, circulação e consumo de cultura - o que implica em rediscutir o que é cultura, quais os papéis da arte numa sociedade como a brasileira (e passo ao largo das discussões iniciadas pelos movimentos neofascistas). Falar sobre o Sesc é falar sobre o papel do Estado na promoção da cultura e das artes, e do quanto nossas instituições democráticas são falhas - vide o exemplo de São Paulo, em que a ascensão de políticos nada comprometidos com a democracia e a participação popular, para ser bem eufemístico com Doria Júnior, Sturm e Cosac, põe abaixo anos de trabalho da classe artística na estruturação de formas de fomento à arte. Apesar do golpe, o Sesc ainda consegue se manter sua função no sistema cultural, sem muita influência dos neoditadores de turno e suas milícias - talvez justo por nunca ousar ir muito longe. Sem descartar os muitos méritos, é urgente discutir o papel do Sesc na cultura, tão logo restabeleçamos um Estado democrático e de direito no Brasil e afastarmos o risco imposto a toda sociedade pelos reacionários religiosos e neofascistas.

10 de outubro de 2017



segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Estudo de ficção, elementos de ideologia [Diálogos com a dança]

De início é um som, um som e um corpo de costas - blusa preta, capuz sobre a cabeça. Um corpo sem rosto. Um corpo sem rosto e que se mexe. Se mexe e parece não poder parar. Gestos acelerados, hesitantes muitas vezes, se vão ou não - para onde? O som não dura muito - Estudo de ficção, de Beatriz Sano, correrá boa parte em silêncio, e os sons que transpassam o espetáculo, ainda que ornem com a coreografia, em geral tem algo de descolado da intérprete. Descompasso. Bia se vira, os gestos ganham rosto, mas seguem ansiosos, corridos - um imperativo subjaz: mova! Objetos brotam durante o espetáculo: partos rápidos - Bia não pode parar. Há uma história por narrar - parece. Porém, a necessidade de dizer impede uma elaboração do que se quer contar - gesticula-se, simplesmente, na expectativa de que o Outro compreenda e dê um contorno que junte aquela fala numa narrativa. Ou talvez não haja realmente uma história para contar, e todo movimento se dá pelo imperativo de falar, sempre, sem parar, sem pensar, sem nada a dizer. Mova!
Há três momentos bem marcados de pausa ou de gestos mais lentos: numa contagem para coisa alguma, pouco antes de convulsionar e diante do som de carros passando. Esta, a primeira pausa, me faz lembrar de Ernst Jünger, que na década de 1930 anunciava que com o automóvel até deficientes físicos poderiam lutar na guerra: um corpo sadio capaz de se movimentar não era mais condição para ser soldado e morrer pela pátria. Democracia! Inclusão! Guerra! Diante do automóvel, Bia pára: a desnecessidade do movimento diante do bólido que nos leva - ao destino (final)? Em tempos de Acelera SP e aumento de mortes no trânsito da cidade (nosso trânsito, nossa segunda guerra civil), estamos à espera do carro bêbado que nos colherá no cruzamento de um semáforo quebrado ou no ponto de ônibus. "Stop/a vida parou/ou foi o automóvel?". Paremos, se a ordem (e o progresso?) nos permitirem.
Que a segunda pausa seja para em seguida convulsionar não é menos significativo: há um imperativo em nossa sociedade de estar sempre em movimento - mesmo que parados diante do computador, em nossas bolhas fakebookianas. E essa necessidade de se mover me traz um segundo filósofo, o francês Paul Virilio que, na senda de Jünger, apresenta o mundo contemporâneo calcado no imperativo do não parar, do movimento permanente - movimento entendido em sentido amplo, não necessariamente no deslocamento no espaço -, tanto no plano macro - das nações e suas frotas a singrar os mares, do capital a sangrar economias e vidas -, como no micro - dos indivíduos, obrigados a trabalhar, consumir, fotografar, filmar e falar quando não há nada a mostrar ou a ser dito, apenas para terem a impressão de existir; e existir submersos em imagens e marcas que nos exigem contínuo esforço e movimento para adquiri-las na esperança ilusória de um dia sermos (algo ou alguém?).
A referência ao Fakebook nessa lógica do imperativo do movimento permanente me veio por uma feliz coincidência: uma das paredes da sala era espelhada, e do ponto onde eu estava sentado, Bia às vezes se duplicava e se triplicava naquela parede. Se no palco a dançarina tinha presença, ocupava-o com plenitude, seu duplo (ou triplo) na parede era solitário, melancólico: o espectro de sua presença refletida era uma imagem pequena, perdida numa imensidão escura - gestos soltos num vazio. Vazio como o que se sucedeu à contagem - um dois três - feita com entusiamo, duas vezes: nada.
Houve um quarto momento que poderia ser encarado como pausa: quando Bia pára para rir. Ou não pára, porque o riso soa se encaixar na mesma obrigação de movimento. Na primeira vez, ainda há a impressão de um riso natural a uma situação forçada. Na segunda, sentada na ribalta, o riso é descaradamente forçado, compulsivo, estereotipado - o único gesto descaradamente estereotipado do espetáculo. Traços grosseiros na face do riso que não cessa - a referência que me vem é Oscar Wilde e Dorian Gray (o original, não o prefake de SP). A referência é também eu e todos meus amigos no Fakebook, em nossas caras felizes ou poses "estilosas" para foto - que traços grosseiros de nossas vidas não estamos escondendo por trás de nossos sorrisos forçados, obrigados a estarmos sempre em movimento, sempre aparecendo, sempre em evidência, enquanto nossa existência se perde em poses e gestos (e gostos) vazios de significados, alheios (alienados, para usar palavrão marxista), para um Outro que nada se importa conosco, fazendo a máquina girar - e nos moer, ao cabo -, a economia funcionar, disfuncional?
Estudos de ficção talvez fosse para ser um espetáculo leve - não sei, não perguntei qual o objetivo da artista, se é que ela tinha um objetivo específico, uma moral da história. A mim, ao fim, soou uma pequena fábula de horror pós-moderno - a ser encarada na realidade tão logo eu saísse da sala de espetáculo.

25 de setembro de 2017

PS: não lembro se cheguei a escrever, ou pensei e não escrevi, mas não é a primeira vez que Virilio me surge forte ao assistir a uma dança; ao menos em um espetáculo de Eduardo Fukushima, habitual parceiro de Beatriz Sano, ainda que por outro caminho, também me veio essa idéia do imperativo do movimento na sociedade tardo-capitalista.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Um Oxóssi guerreiro [Diálogos com a dança]

Tempos como os atuais exigem saídas do script. Atacada por todos os lados, a cultura que ousa se afirmar cultura, na medida em que se recusa enquanto publicidade oficial, precisou começar a trazer explícito o discurso político. Entretanto, não é todo artista, todo grupo que utiliza a política institucional como material criativo, para daí sair algo para ser posto em cena artisticamente. Assim, cabe ao menos, junto com os agradecimento aos patrocinadores, no fim da apresentação, o jargão "Fora Temer", nem que seja para marcar uma posição de defesa da democracia. Isso para grupos menores. Grupos maiores, consagrados internacionalmente e dependentes de financiamento público (uma vez que o privado se recusa a patrocinar o que não traz bons lucros), se não explicitam o discurso político, acabam por trazê-lo indiretamente, como é o caso do Grupo Corpo, um dos principais (se não o principal) grupo de dança contemporânea do Brasil, reconhecido internacionalmente, que desde 2015 passa o pires atrás de dinheiro, por ter parte do patrocínio da Petrobrás cortado (afinal, diziam que a petroleira estava à beira da falência, com reservas enormes de petróleo a baixo custo de extração).
Em São Paulo, em 2017, a ascensão de um político de extrema-direita, sem qualquer apreço pela convivência democrática e republicana, com um secretário de cultura com iguais valores (e que gosta de brincar de machão (protegido por meia dúzia de guarda-civis, sempre) chamando para o braço quem o critica), pôs poder público e artistas em guerra aberta. E a dança foi um dos grupos mais articulados nessa resistência contra o desmonte da cultura em São Paulo.
Uma das mais recentes cartadas democráticas da gestão Doria-Sturm foi a substituição da curadora de dança do CCSP, sob o argumento de "porque sim, porque eu quis". E o primeiro gesto da nova curadora, Lara Pinheiro, foi boicotar o artista Eduardo Fukushima da programação - já que o dinheiro pago para construir seu espetáculo já havia sido pago e ficaria feio mandar ele para casa sem apresentar o resultado do investimento público. Fukushima é uma das (muitas) vozes que se levantam contra Doria-Sturm-Lara, dando a cara a tapa, levando o tapa, e devolvendo o tapa à altura.
O espetáculo de Fukushima apresentado dias 1, 2 e 3 no CCSP, Da percepção à memória: Oxóssi com/para Denilto Gomes, possui uma série de discursos, nem todos identificáveis logo de cara. O primeiro deles, por escolha do artista e evidente, é o político. Invertendo a ordem habitual, antes de entrar o palco para dançar, Fukushima subiu à ribalta para falar sua situação, o boicote à sua obra na programação da Semanas de dança do CCSP - pode ter sido uma falha técnica, mas é surpreendente como há demasiadas e sempre pertinentes falhas técnicas quando políticos antidemocráticos tomam o poder -, e da situação calamitosa para a qual a cultura tem sido impelida pela prefeitura de São Paulo, em parceria com o governo do Estado e o governo federal. Preferiu pôr a política à frente de sua obra, um ato ousado numa época em que artistas costumam ter como grande preocupação estar sempre de bem - ousado e marcante, dado sua dificuldade óbvia com a fala. A seguir explicou os pontos de intersecção que via dele com Denilto Gomes - grande expoente da dança contemporânea brasileira nas décadas de 1980 e 90, morto em 94, em decorrência da Aids -, o interesse de ambos pelo inexplicável, pelo oculto. Só então veio a dança, já completamente contaminada pelas palavras - para o bem e para o mal.
Acompanhado de um tsuru em negativo - um tsuru preto -, Oxóssi-Fukushima vem armado de lanças para fazer da caça poesia; do movimento, pausa - e novamente movimento -; do agônico, agonístico. Seu discurso inicial, contudo, transforma o caçador em guerreiro e todo seu solo - que não soa tão solo - um embate, carregado de uma tensão nos gestos e nos tempos - como trazer para o presente um passado não assistido diretamente pelo artista, mas que ainda assim o marca? 
É uma dança contida, destoa dos solos a que assisti de Fukushima - talvez porque seja um solo apenas em aparência. A fala inicial de Fukushima contamina os gestos, sua expressão é séria - seja no combate com as lanças, seja na contemplação sob o leque. A homenagem dele a Denilto apresenta a arte como poesia e política, como confronto e beleza. Como Brasil e Japão, e não é nenhum dos dois - Denilto foi um dos primeiros a trazer o butoh para a dança contemporânea, Fukushima tem forte influência oriental (para além de sua ascendência), com estágio no outro ponto do globo.
Fukushima sai, o público aplaude, Fukushima retorna e continua a dança - é agradecimento, mas ainda é parte do espetáculo. Sua expressão agora é leve, seus gestos soam mais soltos e fluidos - mais a cara do que estou acostumado dele. Associo ao título da obra esses dois "atos": no primeiro, seu solo é, na verdade, um duo, de alguma outra dimensão, Denilto dança com ele; no segundo, um solo seu, sua homenagem particular para Denilto. Em todo o espetáculo, o trazer o invisível para a ribalta, o passado para o presente; a dança em suas muitas possibilidades, o corpo em suas dificuldades - como no discurso inicial - e em toda sua expressividade - inclusive, dançar com os ausentes.

06 de setembro de 2017.


segunda-feira, 21 de agosto de 2017

As desumanidades da fome [Diálogos com o teatro]

Ao fim de duas horas de espetáculo, foi com um certo incômodo que perguntei aos meus amigos se animavam em comer algo: eu tinha fome, havia comido no meio da tarde um pedaço de bolo de chocolate que fizera (diet, devido a minha disfunção metabólica) e nada mais. Fome. É essa minha experiência da fome: um intervalo mais longo entre duas refeições, na qual o organismo reclama que não está satisfeito e ameaça, caso não atendido, de reclamar em voz alta (pela boca do estômago?), me deixar de mau humor e não me deixar dormir. O que entendo por fome faz de 800 milhões de pessoas que passam fome um universo absolutamente desconhecido para mim - um marxista luckasiano talvez assinalasse que as noventa pessoas presentes no CCSP nessa noite chuvosa e fria de domingo são ontologicamente diferentes desses 800 milhões. Universos desconhecidos - que não faço questão nenhuma de conhecer in loco -, mas que nem por isso retiram dessas milhões de pessoas o essencial que temos em comum: a humanidade. Humanidade que talvez alguns milhares de pessoas não tenham: os que decidem sobre a fome, se haverá fome no mundo ou não. Fome sempre dos outros, nunca a deles e de seus próximos.
Fome.doc, espetáculo da Kiwi Companhia de Teatro, com roteiro e direção de Fernando Kinas, traz numa de suas primeiras falas essa verdade inconveniente (para usar um termo de um homem que teve poder suficiente para resolver a questão, ex-residente do Observatório Naval, ocupante de um dos três cargos mais importantes dos EUA): a fome é uma decisão. Uma decisão tomada à mesa. Não à mesa dos que têm fome - que geralmente sequer mesa têm -, mas na mesa de decisões, de homens que entre um banquete e outro decidem o futuro de milhares de seus semelhantes - ou ao menos assim imaginamos nós, os humanistas ingênuos: de que todos os humanos são, no fundo, semelhantes, uma grande família.
A fome nestes Tristes Trópicos é a prorrogação da escravidão, a metade não abolida pela abolição de 1888. E se José de Alencar usava das belas letras para justificar as atrocidades benfazejas da escravidão, hoje não faltam os que usem de seus títulos acadêmicos e suas concessões de rádio e tv para justificar a fome - como principal diferença, a ausência de qualquer estilo refinado para edulcorar nossa incivilização. Usa-se números para justificar a inevitabilidade da fome que marca o corpo e a pele de 800 milhões de pessoas - números, esses velhos conhecidos dos campos de extermínio nazista -, usa-se da moral para justificar as humilhações de bilhões de pessoas, que rastejam, comem gilete, vidro, merda, por um tanto insuficiente de comida: quem não trabalha, quem não contribui para a produção, para o crescimento da nação, não merece comer, não merece "vida boa", não merece "bolsa-vagabundagem". E nunca se levanta a questão: se o mundo produz alimentos mais que suficientes para todos, por que, ainda assim, há fome? Nessas horas, mesmo sabendo ser ontologicamente diferente de 800 milhões de pessoas, é desses outros milhões que cospem ódio aprendido na escola e na tv que não consigo reconhecer um semelhante meu.
E se os paladinos neomodernos (neoconservadores, neorreacionários, neomoralistas, neohipócritas, neoliberais, neofascistas, neonazistas) do ódio reduzem tudo a números, numa novalíngua cada vez mais pobre e precária - empobrecedora e precarizante de quem a segue tanto de quem reduzem a coisa -, a fome constrói seu próprio vocabulário, tentando disfarçar a falta do que comer nas palavras que esquadrinham o mundo em que sobrevivem, expressões que escorrem da boca junto com a baba verde dos homens famintos junto ao cais - em cena que se repete árida no interior do Brasil: Josué de Castro elenca as gírias da fome, o "é batata", o "descascar um abacaxi", entre outras, que a nós - bem comidos -, soam apenas pitorescas.
Fome.doc tenta nos tocar nessa experiência que não tivemos, não queremos ter e - espero - não queremos que ninguém tenha: a do corpo que se consome para se manter vivo, na esperança - instintiva, biológica - de em breve algo de fora adentre a boca e percorra a garganta e forneça a energia necessária para a manutenção das funções vitais e - quem sabe - a energia necessária para a abertura de possibilidade de uma vida digna, de uma vida humana. As citações de Primo Levi, com as referências aos campos de extermínio nazista, não são despropositadas. Seus prisioneiros são o kafkiano artista da fome à sua revelia - como o são os personagem de Vidas Secas: desnutridos, jejuantes compulsórios, escassos de palavras como de comida. Artistas da fome. Ao escrever sobre a peça, me lembro quando o atual prefeito de Curitiba (cidade vanguarda do neofascismo tupiniquim), Rafael Greca, então ministro do turismo do governo FHC, no alto de sua obesidade mórbida, morbidamente se alegrava com os famintos esquálidos do país - via neles Carlitos recitando poesia lírica com seus estômagos estufados de vermes, sustentados pela fome de seus corpos esquálidos. Em 2014, depois de doze anos de governos de esquerda, o Brasil saiu do Mapa da Fome da ONU - é pouco, não quer dizer que erradicou a fome no país, mas nem por isso deve deixar de ser comemorado. Para muitos, deve ser combatido. Três anos depois, um golpe de Estado perpetrado pelas elites de sempre - econômica, política, midiática, judiciária, burocrática, burra, desumana - ameaça pôr novamente o Brasil nesse mapa cruel, mórbido. Quem sabe daqui 20 anos, quando finda a emenda constitucional com teto para gastos sociais, boa parte do Brasil não possa ser vista como um grande Auschwitz homeopática? Ou quem sabe não retornaremos mais no tempo, aos colonizadores latinos das américas, e oferecemos carne humana para alimentar os cachorros? Parece ser desejo de parte do Brasil acelerar o passo para esse futuro grandioso. Argumentarão que vêem ali poesia, milhares de Chaplins, futuros Primos Levis, artistas da fome? Ou será que dirão que se trata do destino-manifesto de negros, índios e outros rejeitados por seu deus?
Fome.doc tem mais de duas horas de espetáculo, é feita de fragmentos - não fragmentos de cenas, mas de discursos, de textos (autores que citaram ou identifiquei: Carolina de Jesus, José de Alencar, Josué de Castro, Primo Levi, Graciliano Ramos, Glauber Rocha, Oscar Wilde, Eliane Brum, Kafka, Frantz Fannon) -, com um ou outro elemento para quebrar a sisudez que a transformaria numa palestra. Possui uma dinâmica que lembra teatro de rua: é possível entrar a qualquer momento da peça (que possui vários pontos de "imantação", para tentar me apropriar de Lygia Pape) e acompanhá-la a partir daí. E uma vez capturado, é difícil desviar a atenção: os atores conseguem sustentar o interesse do público por duas horas. Não cansa - mas incomoda, perturba. Ainda que não seja na minha mesa que a fome dos outros seja decidida, sequer seja defendida a morte de milhares, milhões de meus semelhantes. Perturba a ponto de perguntar sem graça a meus amigos se se animam em comer - em uma refeição simples comeremos o que pessoas comem em uma semana, em duas. Não se trata de culpa - o espetáculo faz questão de ressaltar que não é da boa vontade que se resolverá o problema -, é a ponta de niilismo que a peça não impede que bata.
Me recordo de meu pai. Lembro, quando criança, de não querer comer algo, ou deixar sobrar alguns grãos de arroz no prato. Levava bronca. Eu tentava argumentar, dizia que era comida pouca, barata, ao que ele respondia: "não importa quanto custa, na África tem pessoas catando arroz do chão pra comer e você vai desperdiçar comida?" Apesar de terem beirado a miséria, não me consta que ele ou minha mãe tenham passado fome - essa fome - na infância, mas o senso de humanidade de ambos me ensinou que as experiências que vivi e viverei diretamente não dão conta do mundo. Fome.doc acho que se incluiria nessa didática dos meus pais: mostra ao público aquilo que nunca vivenciaram (nem nunca vivenciarão), a partir daí tenta sensibilizá-los, apelando a sua humanidade - se ainda o tem (certamente não é o caso dos que pedem para SP acelerar, enquanto proíbem sopão aos que tem fome e acordam com água fria os que dormem no frio).
Um dos textos utilizados é de Eliane Brum, sobre a família de ribeirinhos de Otávio e Maria Chagas, desalojada para a construção de Belo Monte. Bonecos entristecidos fazem as vezes da família. Diz Brum, dizem Fernanda Azevedo e Renan Rovida, a sabedoria amarga de quem vive a chaga aberta da fome: "casa é onde não tem fome. Se tem fome, é só teto". Para 800 milhões de pessoas, a Terra não é casa, é só teto, um lugar de penúria e fome. A noite fria e chuvosa de São Paulo me faz lembrar: para muitos, nem teto.

21 de agosto de 2017

PS: a peça voltará a ficar em cartaz em breve, no Galpão do Folias


quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Youtubers: a ponta de lança da resistência progressista?

Faz um tempo desativei o rastreamento do Google, de modo a ser bisbilhotado apenas sem meu consentimento; como resultado, o Youtube tem apresentado sugestões de vídeos muito aleatórios para meus gostos já razoavelmente aleatórios (as propagandas seguem certeiras nas buscas que fiz). Hoje entrei para ver o novo vídeo do Porta dos Fundos. Serviu para dirimir minha suspeita de auto-censura por parte do grupo - a nova dona da marca, Viacom, poderia, talvez, estar pedindo para moderarem nas críticas religiosas, para não perder esse importante mercado consumidor que são os evangélicos (e católicos) conservadores-reacionários. Parece que o grupo não está se censurando, e sim aprofundado a crítica no ponto exato: o uso do nome de deus, e não o próprio.
Findo a esquete em que um deputado tenta convencer seus interrogadores da justiça que apenas praticava corrupção, e não qualquer ato sexual com outro homem - pois era pastor e não podia ficar mal com seu rebanho, caso fosse visto como gay -, me distraio e o Youtube engata um vídeo na sequência. Dois youtubers que nunca vi na frente respondem a um terceiro - ilustre desconhecido meu, como todos os youtubers, pelo visto. Por procrastinação crônica, fico a assistir.
A discussão que eles traziam era sobre o grande debate atual do Brasil, na falta de questões mais urgentes: se Hitler e o nazismo seriam de esquerda - ou mesmo comunistas. Uma questão quase pueril diante de quem defende que a Terra é plana. Só não inocente porque não estamos falando de algo enterrado no passado - a possibilidade de um segundo turno em 2018 (se tivermos eleições) entre Bolsonaro e Doria Jr que o diga.
A dupla que fez a tréplica prima pelo rigor e pelo respeito à inteligência daqueles que os assistem - mas numa linguagem que caminha para a do líder do MBL, K.K. (K?) (ao menos nos dois vídeos que vi desse pequeno apedeuta levado às páginas da Folha de São Paulo para falar sobre Power Rangers e atestar a qualidade e índole do "maior jornal do Brasil"), apenas um pouco menos cínica e dona da verdade - talvez seja minha ignorância da linguagem usada pelos youtubers do mundo. O boçal a quem respondiam tem a fala pausada dos velhos sábios donos da sacro-santa verdade - um O. C. ou L. F. P. metaleiro. Como os mestres, abusa de má-fé e usa de mil referências bibliográficas e citações descontextualizadas para justificar seu preconceito para um público desejoso de uma mentira envernizada (ou nem tanto) que encubra sua ignorância e justifique seu ódio (uma forma de fuga de suas vidas existencialmente miseráveis?).
Após os vinte minutos de vídeo, o Youtube me manda para uma outra tréplica contra o mesmo nazi-metaleiro. A questão agora é religiosa. E o youtuber da vez tem uma estética despreocupada, para aparentar que o vídeo foi gravado de sopetão, sem maior preparo, com ele exprimindo sua opinião como se não tivesse elaborado o discurso - ao menos ele realmente exprime uma opinião e não um veridicto divino.
Por conta própria, resolvo encarar o youtuber raiz desses vídeos que acabei por assistir - fui logo no primeiro sugerido, em que ele fala de religião. Diz que não é Jesus nem pretende sê-lo - mas age como se fosse o irmão mais novo dele, com a sensível diferença de ser um vida boa e que optou por fugir dos pregos e das cruzes e encruzilhadas da vida (linha reta é sempre mais rápido. Acelera!). Retira uma meia dúzia de passagens bíblicas para justificar homofobia e defender que Jesus pregava o ódio e a intolerância - ah, a Bíblia, esse livro maravilhoso que serve a qualquer propósito e ninguém se anima a seguir à risca faz um par de anos, pouco mais de dois mil. O nazi-metaleiro não tem trinta anos, mas fala como se tivesse a sabedora de um velho mandarim da China antiga. Seu público, pelo que dá para deduzir, deve ser como muitos dos meus tios e primos (em tempo: não posso escolher meus parentes, no máximo, como fiz, romper com eles): carente de um grande pai (dono de um grande falo) que diga o que é certo e o que é errado, se ajoelha para o primeiro que assumir o papel farsesco e repete o que ele fala como se pensasse. E aos homens-gado e mulheres-gado o ódio é sempre mais fácil de internalizar e entender - talvez por dinâmica interna.
Ao fim de uma hora de vídeos, os últimos vinte minutos do mais puro dejeto intelectual, a recusa soberba e orgulhosa do pensar - louvada como "coragem de falar o que pensa" nos comentários -, me pus a perguntar porque tenho perdido tanto meu tempo com porcarias (minha relação com a internet até merecia uma crônica).
De uma porcaria a outra, vou ao Fakebook, minha bolha política virtual. Lá, um professor universitário (da área de humanas e de esquerda) avisa que não há erro maior que responder à acusação de que o nazismo era de esquerda: isso seria dar verniz de assunto sério a um descalabro sem tamanho. A torre de marfim tupiniquim não me desaponta! E entendo que ter perdido meu tempo com os youtubers não foi em vão.
A ignorância de mundo do professor doutor e pós-doutor me fez entender a importância dos youtubers: são jovens dispostos a dar a cara e discutir no mesmo terreno (um dos) que a extrema-direita avança com sua ignorância planejada. Poucos são os professores universitários que se arriscam a "se rebaixar" e encarar a mídia de massa - ou mesmo um público amplo sem "formação superior" nem endinheirado -, levar alguma luz (e no atual contexto não é descabido esse tom salvacionista) a uma massa que tem como ídolos Neymar, Rodrigo Hilbert e Ana Hickman; que tem como formadores de opinião Bonner, Galvão Bueno, Datena e Luciano Huck. Esses poucos que se arriscam, tem dificuldade em achar uma linguagem que impacte muito além dos que tendem a concordar com suas posições - Karnal talvez fosse o grande nome desses iluministas-midiáticos, mas foi ele próprio seduzido pelo cio da cadela do nazismo (como ele mesmo dizia). Safatle, que vejo como sucessor da Chauí na empreitada midiática, é um dos poucos que se expõem, mas os dois filósofos recusaram maior jogo de cintura e preferiram afirmar desde cara uma posição - o que tem seus pontos positivos e negativos. Mesmo pela rede, a maioria dos professores universitários que sigo prefere discussões herméticas, nos seus melhores momentos, quando não destilam puro ressentimento contra o PT ou se auto-iludem de que ensinar teoria marxista para os filhos da elite é fazer a revolução - Luis Felipe Miguel, professor da UnB e uma das mais lúcidas vozes da atualidade, é uma exceção obrigatória de ser acompanhada! Os professores não-universitários, esses, quando podem falar em sala de aula sem risco de perderem o emprego ou serem intimidados pelos vigilantes do "Escola Sem Partido", devem ficar contentes - e a academia retira deles qualquer legitimidade para pleitear voz como especialistas na sociedade.
Ao fim destas duas horas de procrastinação depressiva pela internet, em grosseiras linhas gerais, ouso dizer que, enquanto a extrema-direita se organiza e ataca por várias frentes e em várias linguagens, se aproveitando de seu poderio econômico, sua hegemonia na grande imprensa e de um sistema educacional falido de alto a baixo, da pré-escola à pós-graduação - USP ou Unicamp serem as melhores universidades da América Latina beira a insignificância social, uma vez que o que é produzido ali dentro parece não extrapolar seus muros (ainda que o professor da Faculdade de Medicina da Unicamp, Paulo Palma, me faça temer que, sim, o pensamento acadêmico tem contaminado o país, e é por isso que discutimos se Hitler é de esquerda, e logo estaremos acompanhando uma discussão sobre se as balas utilizadas pela PM para execução de negros e periféricos deve ser paga pelas famílias que perderam seus entes queridos) -, a esquerda oscila entre brigas ressentidas entre partidos (quando não em movimentos oportunistas de políticos de expressão, como Luciana Genro), movimentos sociais que tentam acordar e se reestruturar depois da letargia otimista dos anos Lula (MTST é o grande ponto fora da curva), sindicatos transformados em impotentes grupos de lobby, e acadêmicos que dão mais valor às discussões herméticas sobre a epistemologia marxiana do que às condições objetivas da sociedade atual - a alienação da universidade pública frente a realidade que está inserida é tamanha que não percebe nem quando está sendo atacada: mesmo com o anúncio de seu desmonte, ainda antes de Temer assumir, e depois com a emenda constitucional que congelou os gastos com saúde, educação e segurança por 20 anos, nada, absolutamente nada fez, que não xingar um pouco no twitter. Nesse contexto, parece que a ponta de lança de alguma possibilidade de reação e mudança vem da juventude, com os secundaristas na ação direta, e com os youtubers, na frente de comunicação, formação e contra-informação. A despeito das boas intenções, é muito pouco para fazer frente.

17 de agosto de 2017

PS1: Não falei da direita não extrema; essa, infelizmente, desapareceu do Brasil, com a adesão do PSDB ao nazi-fascismo tupiniquim desde Serra 2010, engolido de vez por Bolsonaro e Doria Jr, fina flor do hitlerismo tropical do século XXI (e para registrar: este comentário pode me custar o emprego).
PS2: visualizações dos vídeos citados (até 12h do dia 18): Coisa de Nerd: 345 mil; Izzy Nobre: 456 mil; nazi-metaleiro: 464 mil. A título de comparação. Os últimos 3 vídeos do PSOL tem, respectivamente, 22, 442 e 2,3 mil visualizações; os do PT, quando muito, chegam a uma centena.


segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Entendeu ou quer que eu desenhe?

"Entendeu ou quer que eu desenhe?" Não sei de quando vem essa frase, sem que é do século passado, ao menos, porque ouvia quando era adolescente. Não se usava muito, não que eu me lembre - ao menos no rincão do Brasil onde eu morava. Hoje tenho lido ela com certa freqüência em minha bolha virtual - minha linha do tempo do Fakebook -, ocupada majoritariamente por pessoas de esquerda e/ou progressistas (por favor, menos idealismo ingênuo ao querer identificar a esquerda com mentalidade progressista). 
Seu uso mais recorrente tem sido ao falar dos desdobramentos do golpe judiciário-policial-midiático de 2016. A cada nova demonstração de que a Lava Jato não era contra a corrupção, que Temer era o desastre em pessoa, ou qualquer coisa do gênero, vejo alguém comentar a notícia com um singelo "será que agora os seguidores do pato amarelo entenderam, ou será preciso que desenhe?" Já li em comentário de jornalistas de esquerda, de professores, de sociólogos. A frase é dita de boa fé - vamos dizer assim - e evidencia um enorme (e justificado) ressentimento com colegas de classe, incapazes de enxergar um palmo à frente. Entretanto, evidencia também uma falta de auto-reflexão, que grita na entrelinha.
Evidencia primeiro um preconceito acadêmico: por que um desenho seria mais fácil de compreender que um texto? Ora, porque um texto é um texto, exige estudo, anos de estudo, exige articulação da linguagem escrita, exige decifração de um código. E um desenho, um Poty, um Picasso, um Pollock? 
O que evidencia por segundo, portanto, é ignorância acadêmica (e social): achar que um desenho não possui um código, uma decifração, uma articulação de linguagens. Como se uma representação fosse um dado imediato da consciência. Um pouco de conhecimento de artes (e não só selfie numa exposição) ajudaria a notar tamanha ignorância. Conversar com pessoas analfabetas ou pouco letradas também.
A questão é que como o objeto de escárnio está obrigatoriamente fora da academia (quer dizer, está dentro, limpando banheiros, mas isso é irrelevante), não há porque (nem quem) defendê-lo. Afinal, um analfabeto, por não ser capaz de decifrar um texto, vai ser capaz de ler qualquer coisa? Um desenho - bem simplório, talvez esquemático - ajudaria ele a pelo menos não ficar na ignorância total. Mais um pouco e voltaremos a discutir o voto dos analfabetos. Enquanto isso, esquecem que quem bate panela e segue o pato são pessoas com "nível superior", mestres, doutores, pós-doutores.
Não estou aqui defendendo que instrução seja supérflua. Há tempos digo: instrução formal é a salvação dos medíocres. Muito provavelmente se eu fosse analfabeto, ou pouco letrado, não teria um quinto da leitura de mundo que tenho hoje - no meu caso específico, as letrinhas me abriram as portas da percepção. Porém, tive alunas de alfabetização, em especial dona Maria, uma senhora com então 76 anos (hoje, se estiver viva, tem 90), que tinha uma visão crítica de mundo impressionante, amplo vocabulário, e vinha de longa data sua leitura de mundo: brigou pelo seu divórcio no sertão do Brasil, na década de 1970, mal passada uma década do Estatuto da Mulher Casada, tão logo a Lei do Divórcio fora aprovada. Ou então o Amarildo, um porteiro com quem tinha amizade, em Ribeirão, era analfabeto e tinha criado um código próprio: não perdia um recado que pediam a ele para dar. Mas eram dois analfabetos, dois incapazes de entender o mundo, então façamos um desenho.
"Entendeu ou quer que eu desenhe?" Não sei, pode ser preconceito meu também, mas um quadro de Vermeer ou da Paula Rego me parecem bem mais complexos e cheios de significados que a obra completa do Paulo Coelho. Ou um desenho de um grafo do Lacan, em que se pergunta porque ele não tratou só de escrever, porque dá muito trabalho tentar entender? Mas no ressentimento, nossos preconceitos afloram, e no subtexto dos meus amigos virtuais de esquerda e/ou progressistas um raciocínio que vai ao encontro do professor de medicina da Unicamp, Paulo Palma, que para justificar como as cotas são perniciosas à ciência explica para os apedeutas como este escriba que para cursar dança não se exige QI - afinal, o que é o corpo, esse amontoado de carne, diante de um texto ou de um estetoscópio? 
Não quero com esta crônica pintar a completa falta de perspectivas. Creio que há uma significativa diferença entre os amigos da minha linha do tempo que perguntam se quer que desenhe ou o professor da Unicamp e os seguidores do pato: enquanto estes se orgulham do seu preconceito e ignorância, se algum daqueles chegar a ler esta crônica, certamente vai se sentir incomodado e rever suas expressões.

07 de agosto de 2017

Entendeu, ou quer que eu escreva?

domingo, 23 de julho de 2017

Sobre homens, violências e um deus que justifica tudo [Diálogos com o Teatro]

Como o nome da peça sugere, Antideus, de Carlos Canhameiro, não é uma peça que tende a agradar pessoas religiosas - pelo contrário, a afronta é clara e direta, desde a segunda cena. Pessoas que acreditam em deus, contudo, talvez não se incomodem tanto. Diferentemente do que indica o título, Antideus fala nem tanto de deus, mas do nome dele, do que se faz evocando um nome em que cabe qualquer ideia - mas que tem sido preferencialmente usado para justificar agressões, assassinatos, destruições a todo aquele que não acredite na mesma forma desse deus tão polimorfo. “Sim enquanto fenômeno, não enquanto númeno” é a resposta mais típica quando me perguntam se acredito em deus e eu, já desconfiado do que deseja meu interlocutor, quero cortar logo o assunto sem causar maior balbúrdia. Se não tiver razoável conhecimento em filosofia não vai sequer entender a última palavra, terei que salientar: “eu disse númeno e não número”, e me recusarei a explicar - esse chamado à ignorância costuma desarmar crentes cheios de certeza.
O exemplo esnobe acima não é despropositado: Antideus é uma peça de muito texto, denso e pesado, um libelo contra as religiões. Poderia ser, por conta disso, uma peça chata e enfadonha, um encadeamento de discursos de um proselitismo rasteiro, a versão ateia do púlpito de algum templo cristão adornado com exógenos elementos pagãos, justificados porque “clássicos” - ainda que tenha sido esse classismo o que matou o messias de tal religião. Impressiona que não o seja - ainda que acabe cansando ao cabo de uma hora e meia: sua densidade pediria um texto mais enxuto. Há contraposições bem postas aos ateus, assim como argumentos fortes contra a religião e aqueles que tentam salvá-la de tudo o que causa sob a justificativa de que seria obra de extremistas, não dos seguidores normais da religião - a cena mais poética e pesada (na minha opinião) é a da criança que vê uma estrela cadente em pleno dia, a alegria ingênua de quem não reconhece a bomba que a dilacerará a seguir, destino comum à da criança refugiada, violada pelo mar posto como barreira aos "extremistas islâmicos", cuja morte os bons cristãos europeus (não estou falando do Papa) lamentam como a do boi que os servem à mesa. 
Ainda que a proposta de Canhameiro seja muito diferente - a começar que não é teatro dramático -, não há como não comparar com In Nomine Dei, do Saramago. Contudo, mais nuançada, Antideus mais que pregar a convertidos, mostra que gostaria, sim, de conversar com os crentes - conversa tensa, porém que aceita ouvir o outro lado.
Da parte técnica: cenografia simples e iluminação muito bem desenhada não roubam a cena e ainda ajudam a quebrar o peso de tanto texto; colabora também a trilha sonora feita ao vivo, e também discreta e bem posta (eu temi que a peça certas horas descambasse para uma espécie de musical).
Por falar em cenografia, do início ao fim, um muro vai sendo erguido na frente do palco, abrindo uma série de possíveis interpretações - de metalinguísticas acerca do teatro até sobre a temática da peça. Um convite a mais para dúvidas ao fim dos noventa minutos. A mim, o que mais me chamou a atenção é que o muro não está ali dividindo opiniões, ateus e crentes, cristão e muçulmanos, e sim fechando todos no mesmo espaço: soa como um aviso de que, ao fim, estamos todos fechados no mesmo espaço - a Terra, o país, a cidade, o bairro, o local de trabalho ou estudo -, independente da crença, e é melhor aprendermos a conviver com o diferente, com o outro, pois o muro que a princípio parece nos separar e garantir nossa integridade, nos confina e não nos deixa alternativas muitas que não matar ou... compreender e tolerar.

23 de julho de 2017
PS1: Soa um pouco contraditório eu afirmar que crentes não se incomodariam tanto, na medida que sou eu também ateu. Pesa a meu favor, o fato de eu ser voluntário da igreja católica, apesar de todas as minhas críticas (sim, há usos da religião e do nome de deus para fins de amor genuíno com o outro, quase como se diz na Bíblia)

PS2: Sobre a iluminação, área que se não consegui me inserir, mas tenho formação e registro, faço questão de salientar: creio ser a primeira peça do ano em que proposta, desenho, afinação e operação foram boas: visibilidade boa, sem buracos negros; escuro nos momentos que pedia menos luz, claros nos momentos que pedia claridade, sombras que faziam sentido. Parabéns a Daniel Gonzalez (desenho) e Cauê Gouveia (operação). Eu já começava a achar que, dada minha pouca experiência prática, estava querendo luzes ideais, impossíveis de serem postas em prática, descobri que eram luzes mal feitas, mesmo.

PS3: Ainda falta a terceira peça contemplada pelo III Edital de dramaturgia em pequenos formatos do CCSP - no qual fiquei como primeiro suplente. Pelas duas que vi - excelentes -, creio que minha peça Linha de produção é melhor do que eu já achava, para ter conseguido o quarto lugar.