quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Youtubers: a ponta de lança da resistência progressista?

Faz um tempo desativei o rastreamento do Google, de modo a ser bisbilhotado apenas sem meu consentimento; como resultado, o Youtube tem apresentado sugestões de vídeos muito aleatórios para meus gostos já razoavelmente aleatórios (as propagandas seguem certeiras nas buscas que fiz). Hoje entrei para ver o novo vídeo do Porta dos Fundos. Serviu para dirimir minha suspeita de auto-censura por parte do grupo - a nova dona da marca, Viacom, poderia, talvez, estar pedindo para moderarem nas críticas religiosas, para não perder esse importante mercado consumidor que são os evangélicos (e católicos) conservadores-reacionários. Parece que o grupo não está se censurando, e sim aprofundado a crítica no ponto exato: o uso do nome de deus, e não o próprio.
Findo a esquete em que um deputado tenta convencer seus interrogadores da justiça que apenas praticava corrupção, e não qualquer ato sexual com outro homem - pois era pastor e não podia ficar mal com seu rebanho, caso fosse visto como gay -, me distraio e o Youtube engata um vídeo na sequência. Dois youtubers que nunca vi na frente respondem a um terceiro - ilustre desconhecido meu, como todos os youtubers, pelo visto. Por procrastinação crônica, fico a assistir.
A discussão que eles traziam era sobre o grande debate atual do Brasil, na falta de questões mais urgentes: se Hitler e o nazismo seriam de esquerda - ou mesmo comunistas. Uma questão quase pueril diante de quem defende que a Terra é plana. Só não inocente porque não estamos falando de algo enterrado no passado - a possibilidade de um segundo turno em 2018 (se tivermos eleições) entre Bolsonaro e Doria Jr que o diga.
A dupla que fez a tréplica prima pelo rigor e pelo respeito à inteligência daqueles que os assistem - mas numa linguagem que caminha para a do líder do MBL, K.K. (K?) (ao menos nos dois vídeos que vi desse pequeno apedeuta levado às páginas da Folha de São Paulo para falar sobre Power Rangers e atestar a qualidade e índole do "maior jornal do Brasil"), apenas um pouco menos cínica e dona da verdade - talvez seja minha ignorância da linguagem usada pelos youtubers do mundo. O boçal a quem respondiam tem a fala pausada dos velhos sábios donos da sacro-santa verdade - um O. C. ou L. F. P. metaleiro. Como os mestres, abusa de má-fé e usa de mil referências bibliográficas e citações descontextualizadas para justificar seu preconceito para um público desejoso de uma mentira envernizada (ou nem tanto) que encubra sua ignorância e justifique seu ódio (uma forma de fuga de suas vidas existencialmente miseráveis?).
Após os vinte minutos de vídeo, o Youtube me manda para uma outra tréplica contra o mesmo nazi-metaleiro. A questão agora é religiosa. E o youtuber da vez tem uma estética despreocupada, para aparentar que o vídeo foi gravado de sopetão, sem maior preparo, com ele exprimindo sua opinião como se não tivesse elaborado o discurso - ao menos ele realmente exprime uma opinião e não um veridicto divino.
Por conta própria, resolvo encarar o youtuber raiz desses vídeos que acabei por assistir - fui logo no primeiro sugerido, em que ele fala de religião. Diz que não é Jesus nem pretende sê-lo - mas age como se fosse o irmão mais novo dele, com a sensível diferença de ser um vida boa e que optou por fugir dos pregos e das cruzes e encruzilhadas da vida (linha reta é sempre mais rápido. Acelera!). Retira uma meia dúzia de passagens bíblicas para justificar homofobia e defender que Jesus pregava o ódio e a intolerância - ah, a Bíblia, esse livro maravilhoso que serve a qualquer propósito e ninguém se anima a seguir à risca faz um par de anos, pouco mais de dois mil. O nazi-metaleiro não tem trinta anos, mas fala como se tivesse a sabedora de um velho mandarim da China antiga. Seu público, pelo que dá para deduzir, deve ser como muitos dos meus tios e primos (em tempo: não posso escolher meus parentes, no máximo, como fiz, romper com eles): carente de um grande pai (dono de um grande falo) que diga o que é certo e o que é errado, se ajoelha para o primeiro que assumir o papel farsesco e repete o que ele fala como se pensasse. E aos homens-gado e mulheres-gado o ódio é sempre mais fácil de internalizar e entender - talvez por dinâmica interna.
Ao fim de uma hora de vídeos, os últimos vinte minutos do mais puro dejeto intelectual, a recusa soberba e orgulhosa do pensar - louvada como "coragem de falar o que pensa" nos comentários -, me pus a perguntar porque tenho perdido tanto meu tempo com porcarias (minha relação com a internet até merecia uma crônica).
De uma porcaria a outra, vou ao Fakebook, minha bolha política virtual. Lá, um professor universitário (da área de humanas e de esquerda) avisa que não há erro maior que responder à acusação de que o nazismo era de esquerda: isso seria dar verniz de assunto sério a um descalabro sem tamanho. A torre de marfim tupiniquim não me desaponta! E entendo que ter perdido meu tempo com os youtubers não foi em vão.
A ignorância de mundo do professor doutor e pós-doutor me fez entender a importância dos youtubers: são jovens dispostos a dar a cara e discutir no mesmo terreno (um dos) que a extrema-direita avança com sua ignorância planejada. Poucos são os professores universitários que se arriscam a "se rebaixar" e encarar a mídia de massa - ou mesmo um público amplo sem "formação superior" nem endinheirado -, levar alguma luz (e no atual contexto não é descabido esse tom salvacionista) a uma massa que tem como ídolos Neymar, Rodrigo Hilbert e Ana Hickman; que tem como formadores de opinião Bonner, Galvão Bueno, Datena e Luciano Huck. Esses poucos que se arriscam, tem dificuldade em achar uma linguagem que impacte muito além dos que tendem a concordar com suas posições - Karnal talvez fosse o grande nome desses iluministas-midiáticos, mas foi ele próprio seduzido pelo cio da cadela do nazismo (como ele mesmo dizia). Safatle, que vejo como sucessor da Chauí na empreitada midiática, é um dos poucos que se expõem, mas os dois filósofos recusaram maior jogo de cintura e preferiram afirmar desde cara uma posição - o que tem seus pontos positivos e negativos. Mesmo pela rede, a maioria dos professores universitários que sigo prefere discussões herméticas, nos seus melhores momentos, quando não destilam puro ressentimento contra o PT ou se auto-iludem de que ensinar teoria marxista para os filhos da elite é fazer a revolução - Luis Felipe Miguel, professor da UnB e uma das mais lúcidas vozes da atualidade, é uma exceção obrigatória de ser acompanhada! Os professores não-universitários, esses, quando podem falar em sala de aula sem risco de perderem o emprego ou serem intimidados pelos vigilantes do "Escola Sem Partido", devem ficar contentes - e a academia retira deles qualquer legitimidade para pleitear voz como especialistas na sociedade.
Ao fim destas duas horas de procrastinação depressiva pela internet, em grosseiras linhas gerais, ouso dizer que, enquanto a extrema-direita se organiza e ataca por várias frentes e em várias linguagens, se aproveitando de seu poderio econômico, sua hegemonia na grande imprensa e de um sistema educacional falido de alto a baixo, da pré-escola à pós-graduação - USP ou Unicamp serem as melhores universidades da América Latina beira a insignificância social, uma vez que o que é produzido ali dentro parece não extrapolar seus muros (ainda que o professor da Faculdade de Medicina da Unicamp, Paulo Palma, me faça temer que, sim, o pensamento acadêmico tem contaminado o país, e é por isso que discutimos se Hitler é de esquerda, e logo estaremos acompanhando uma discussão sobre se as balas utilizadas pela PM para execução de negros e periféricos deve ser paga pelas famílias que perderam seus entes queridos) -, a esquerda oscila entre brigas ressentidas entre partidos (quando não em movimentos oportunistas de políticos de expressão, como Luciana Genro), movimentos sociais que tentam acordar e se reestruturar depois da letargia otimista dos anos Lula (MTST é o grande ponto fora da curva), sindicatos transformados em impotentes grupos de lobby, e acadêmicos que dão mais valor às discussões herméticas sobre a epistemologia marxiana do que às condições objetivas da sociedade atual - a alienação da universidade pública frente a realidade que está inserida é tamanha que não percebe nem quando está sendo atacada: mesmo com o anúncio de seu desmonte, ainda antes de Temer assumir, e depois com a emenda constitucional que congelou os gastos com saúde, educação e segurança por 20 anos, nada, absolutamente nada fez, que não xingar um pouco no twitter. Nesse contexto, parece que a ponta de lança de alguma possibilidade de reação e mudança vem da juventude, com os secundaristas na ação direta, e com os youtubers, na frente de comunicação, formação e contra-informação. A despeito das boas intenções, é muito pouco para fazer frente.

17 de agosto de 2017

PS1: Não falei da direita não extrema; essa, infelizmente, desapareceu do Brasil, com a adesão do PSDB ao nazi-fascismo tupiniquim desde Serra 2010, engolido de vez por Bolsonaro e Doria Jr, fina flor do hitlerismo tropical do século XXI (e para registrar: este comentário pode me custar o emprego).
PS2: visualizações dos vídeos citados (até 12h do dia 18): Coisa de Nerd: 345 mil; Izzy Nobre: 456 mil; nazi-metaleiro: 464 mil. A título de comparação. Os últimos 3 vídeos do PSOL tem, respectivamente, 22, 442 e 2,3 mil visualizações; os do PT, quando muito, chegam a uma centena.


segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Entendeu ou quer que eu desenhe?

"Entendeu ou quer que eu desenhe?" Não sei de quando vem essa frase, sem que é do século passado, ao menos, porque ouvia quando era adolescente. Não se usava muito, não que eu me lembre - ao menos no rincão do Brasil onde eu morava. Hoje tenho lido ela com certa freqüência em minha bolha virtual - minha linha do tempo do Fakebook -, ocupada majoritariamente por pessoas de esquerda e/ou progressistas (por favor, menos idealismo ingênuo ao querer identificar a esquerda com mentalidade progressista). 
Seu uso mais recorrente tem sido ao falar dos desdobramentos do golpe judiciário-policial-midiático de 2016. A cada nova demonstração de que a Lava Jato não era contra a corrupção, que Temer era o desastre em pessoa, ou qualquer coisa do gênero, vejo alguém comentar a notícia com um singelo "será que agora os seguidores do pato amarelo entenderam, ou será preciso que desenhe?" Já li em comentário de jornalistas de esquerda, de professores, de sociólogos. A frase é dita de boa fé - vamos dizer assim - e evidencia um enorme (e justificado) ressentimento com colegas de classe, incapazes de enxergar um palmo à frente. Entretanto, evidencia também uma falta de auto-reflexão, que grita na entrelinha.
Evidencia primeiro um preconceito acadêmico: por que um desenho seria mais fácil de compreender que um texto? Ora, porque um texto é um texto, exige estudo, anos de estudo, exige articulação da linguagem escrita, exige decifração de um código. E um desenho, um Poty, um Picasso, um Pollock? 
O que evidencia por segundo, portanto, é ignorância acadêmica (e social): achar que um desenho não possui um código, uma decifração, uma articulação de linguagens. Como se uma representação fosse um dado imediato da consciência. Um pouco de conhecimento de artes (e não só selfie numa exposição) ajudaria a notar tamanha ignorância. Conversar com pessoas analfabetas ou pouco letradas também.
A questão é que como o objeto de escárnio está obrigatoriamente fora da academia (quer dizer, está dentro, limpando banheiros, mas isso é irrelevante), não há porque (nem quem) defendê-lo. Afinal, um analfabeto, por não ser capaz de decifrar um texto, vai ser capaz de ler qualquer coisa? Um desenho - bem simplório, talvez esquemático - ajudaria ele a pelo menos não ficar na ignorância total. Mais um pouco e voltaremos a discutir o voto dos analfabetos. Enquanto isso, esquecem que quem bate panela e segue o pato são pessoas com "nível superior", mestres, doutores, pós-doutores.
Não estou aqui defendendo que instrução seja supérflua. Há tempos digo: instrução formal é a salvação dos medíocres. Muito provavelmente se eu fosse analfabeto, ou pouco letrado, não teria um quinto da leitura de mundo que tenho hoje - no meu caso específico, as letrinhas me abriram as portas da percepção. Porém, tive alunas de alfabetização, em especial dona Maria, uma senhora com então 76 anos (hoje, se estiver viva, tem 90), que tinha uma visão crítica de mundo impressionante, amplo vocabulário, e vinha de longa data sua leitura de mundo: brigou pelo seu divórcio no sertão do Brasil, na década de 1970, mal passada uma década do Estatuto da Mulher Casada, tão logo a Lei do Divórcio fora aprovada. Ou então o Amarildo, um porteiro com quem tinha amizade, em Ribeirão, era analfabeto e tinha criado um código próprio: não perdia um recado que pediam a ele para dar. Mas eram dois analfabetos, dois incapazes de entender o mundo, então façamos um desenho.
"Entendeu ou quer que eu desenhe?" Não sei, pode ser preconceito meu também, mas um quadro de Vermeer ou da Paula Rego me parecem bem mais complexos e cheios de significados que a obra completa do Paulo Coelho. Ou um desenho de um grafo do Lacan, em que se pergunta porque ele não tratou só de escrever, porque dá muito trabalho tentar entender? Mas no ressentimento, nossos preconceitos afloram, e no subtexto dos meus amigos virtuais de esquerda e/ou progressistas um raciocínio que vai ao encontro do professor de medicina da Unicamp, Paulo Palma, que para justificar como as cotas são perniciosas à ciência explica para os apedeutas como este escriba que para cursar dança não se exige QI - afinal, o que é o corpo, esse amontoado de carne, diante de um texto ou de um estetoscópio? 
Não quero com esta crônica pintar a completa falta de perspectivas. Creio que há uma significativa diferença entre os amigos da minha linha do tempo que perguntam se quer que desenhe ou o professor da Unicamp e os seguidores do pato: enquanto estes se orgulham do seu preconceito e ignorância, se algum daqueles chegar a ler esta crônica, certamente vai se sentir incomodado e rever suas expressões.

07 de agosto de 2017

Entendeu, ou quer que eu escreva?

domingo, 23 de julho de 2017

Sobre homens, violências e um deus que justifica tudo [Diálogos com o Teatro]

Como o nome da peça sugere, Antideus, de Carlos Canhameiro, não é uma peça que tende a agradar pessoas religiosas - pelo contrário, a afronta é clara e direta, desde a segunda cena. Pessoas que acreditam em deus, contudo, talvez não se incomodem tanto. Diferentemente do que indica o título, Antideus fala nem tanto de deus, mas do nome dele, do que se faz evocando um nome em que cabe qualquer ideia - mas que tem sido preferencialmente usado para justificar agressões, assassinatos, destruições a todo aquele que não acredite na mesma forma desse deus tão polimorfo. “Sim enquanto fenômeno, não enquanto númeno” é a resposta mais típica quando me perguntam se acredito em deus e eu, já desconfiado do que deseja meu interlocutor, quero cortar logo o assunto sem causar maior balbúrdia. Se não tiver razoável conhecimento em filosofia não vai sequer entender a última palavra, terei que salientar: “eu disse númeno e não número”, e me recusarei a explicar - esse chamado à ignorância costuma desarmar crentes cheios de certeza.
O exemplo esnobe acima não é despropositado: Antideus é uma peça de muito texto, denso e pesado, um libelo contra as religiões. Poderia ser, por conta disso, uma peça chata e enfadonha, um encadeamento de discursos de um proselitismo rasteiro, a versão ateia do púlpito de algum templo cristão adornado com exógenos elementos pagãos, justificados porque “clássicos” - ainda que tenha sido esse classismo o que matou o messias de tal religião. Impressiona que não o seja - ainda que acabe cansando ao cabo de uma hora e meia: sua densidade pediria um texto mais enxuto. Há contraposições bem postas aos ateus, assim como argumentos fortes contra a religião e aqueles que tentam salvá-la de tudo o que causa sob a justificativa de que seria obra de extremistas, não dos seguidores normais da religião - a cena mais poética e pesada (na minha opinião) é a da criança que vê uma estrela cadente em pleno dia, a alegria ingênua de quem não reconhece a bomba que a dilacerará a seguir, destino comum à da criança refugiada, violada pelo mar posto como barreira aos "extremistas islâmicos", cuja morte os bons cristãos europeus (não estou falando do Papa) lamentam como a do boi que os servem à mesa. 
Ainda que a proposta de Canhameiro seja muito diferente - a começar que não é teatro dramático -, não há como não comparar com In Nomine Dei, do Saramago. Contudo, mais nuançada, Antideus mais que pregar a convertidos, mostra que gostaria, sim, de conversar com os crentes - conversa tensa, porém que aceita ouvir o outro lado.
Da parte técnica: cenografia simples e iluminação muito bem desenhada não roubam a cena e ainda ajudam a quebrar o peso de tanto texto; colabora também a trilha sonora feita ao vivo, e também discreta e bem posta (eu temi que a peça certas horas descambasse para uma espécie de musical).
Por falar em cenografia, do início ao fim, um muro vai sendo erguido na frente do palco, abrindo uma série de possíveis interpretações - de metalinguísticas acerca do teatro até sobre a temática da peça. Um convite a mais para dúvidas ao fim dos noventa minutos. A mim, o que mais me chamou a atenção é que o muro não está ali dividindo opiniões, ateus e crentes, cristão e muçulmanos, e sim fechando todos no mesmo espaço: soa como um aviso de que, ao fim, estamos todos fechados no mesmo espaço - a Terra, o país, a cidade, o bairro, o local de trabalho ou estudo -, independente da crença, e é melhor aprendermos a conviver com o diferente, com o outro, pois o muro que a princípio parece nos separar e garantir nossa integridade, nos confina e não nos deixa alternativas muitas que não matar ou... compreender e tolerar.

23 de julho de 2017
PS1: Soa um pouco contraditório eu afirmar que crentes não se incomodariam tanto, na medida que sou eu também ateu. Pesa a meu favor, o fato de eu ser voluntário da igreja católica, apesar de todas as minhas críticas (sim, há usos da religião e do nome de deus para fins de amor genuíno com o outro, quase como se diz na Bíblia)

PS2: Sobre a iluminação, área que se não consegui me inserir, mas tenho formação e registro, faço questão de salientar: creio ser a primeira peça do ano em que proposta, desenho, afinação e operação foram boas: visibilidade boa, sem buracos negros; escuro nos momentos que pedia menos luz, claros nos momentos que pedia claridade, sombras que faziam sentido. Parabéns a Daniel Gonzalez (desenho) e Cauê Gouveia (operação). Eu já começava a achar que, dada minha pouca experiência prática, estava querendo luzes ideais, impossíveis de serem postas em prática, descobri que eram luzes mal feitas, mesmo.

PS3: Ainda falta a terceira peça contemplada pelo III Edital de dramaturgia em pequenos formatos do CCSP - no qual fiquei como primeiro suplente. Pelas duas que vi - excelentes -, creio que minha peça Linha de produção é melhor do que eu já achava, para ter conseguido o quarto lugar.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Farinha com açúcar: Palestina tropical [Diálogos com o teatro] [Diálogos com a literatura] [Diálogos com a música]

Recentemente reli Contos da Palestina, do escritor palestino Ghassan Kanafani (morto em um atentado em 1972). Como na primeira leitura, dez anos antes, me veio a imagem de que os contos de Kanafani são como passar uma lâmina afiada por toda a extensão do braço - várias vezes. Não é a lâmina que crava fundo, força o grito e abre o braço em dois, inviabilizando-o. É ferida feita na profundidade suficiente para que doa, sangre, marque, mas não interrompa o quotidiano - pior, renovar essa ferida e essa dor é o próprio quotidiano. Como diz uma das personagens de "Os desertores e outros":
"Outra vez, ela me mostrou suas mãos. As feridas eram bem visíveis, como rios secos. Delas emanava algo de extraordinário, alguma coisa parecida com a certeza, a segurança da resistência que é parte integrante do próprio corpo.
- Não se preocupe - eu disse -, essas feridas não são graves.
- Isto? Não vai demorar a desaparecer. Elas vão ser cobertas pelo pó, pela ferrugem das coisas que eu limpo, pela sujeira dos assoalhos que esfrego, a cinza dos cinzeiros que esvazio, por tudo aquilo que suja a água que eu uso todo dia... Estas feridas, meu primo, vão ser apagadas pelo cansaço, pelo suor. Elas vão desaparecer nas rugas de minha pele e ninguém mais vai poder vê-las. Mas eu, meu primo, eu sempre vou saber que elas vão continuar aqui".
Kanafani contava de uma guerra em que havia um exército só - "guerra", eufemismo para massacre, uma vez que no campo de batalha estavam de um lado militares, do outro, civis, com baixas quase que exclusivamente destes. Os exércitos de resistência pouco têm de exército e muito de resistência. "Crime de guerra" seria uma qualificação mais apropriada - para não falar em crime contra a humanidade -, se a Kanafani e seu povo fosse dado o direito à voz. Não era, não é. O pouco que conseguiram, foi com sangue e mobilização. Resta também o grito pelas artes - mais difícil de ser calado pelas armas. Grito que Kanafani grita com sutileza e poesia, em que não se foca no horror da guerra e suas escatologias, como em Lobo Antunes ou Kourouma, e sim na dor de resistir quando não se tem o direito a ser. "O gato", na minha opinião, é o conto mais escatológico, um conto em que a vítima (física) sequer é um humano. Kanafani mais que da guerra fala dos marginalizados, dos condenados da terra, como bem sintetizou Frantz Fanon.
Esta semana me veio que talvez eu sinta Kanafani como lâmina que fere o braço porque não sou palestino. Pensei isso porque fui tomado de igual sensação ao assistir ao espetáculo "Farinha com açúcar: ou sobre a sustância de meninos e homens", de Jé Oliveira e Coletivo Negro, inspirado nos Racionais MC's e em histórias de vida de homens negros da periferia. 
Não sou palestino, tampouco sou negro, sequer de periferia. Se minha avó me oferecia farinha com açúcar de lanche, era por ser uma opção a mais, além de pão, bolachas e outros quitutes, não por ser a única opção (talvez por questão regional, era farinha de milho e não de mandioca). Não sou negro e nunca me perguntaram aonde eu ia ao entrar num shopping center, a única vez que fui barrado de entrar num Sesc foi porque era segunda e ele estava fechado; nunca tive uma arma contra minha cabeça apontada por segurança à paisana de um colégio particular, enquanto esperava ônibus na avenida 23 de maio, e a vez que fui interpelado pela polícia, numa blitz da Polícia Rodoviária Federal ao ônibus em que eu estava, respondi seco e firme às perguntas cretinas do policial, que por fim baixou a cabeça, quase a pedir desculpas, seguiu ajudar seus colegas a revistar dois jovens negros e a humilhar, diante dos demais passageiros, um homem humilde e negro (os únicos negros daquela viagem que vinha do interior do Paraná [http://bit.ly/cG100506]). Não sou negro, não convivo com mortes matadas dos próximos, no máximo com repentinos acidentes automobilísticos, impensáveis enfartos e esperados suicídios; na doença, quando a morte chega, encontra um enfermo a quem se tentou de tudo - corredor de hospital é lugar aonde se vai para arejar do peso do quarto, talvez chorar escondido do doente. Morrer todos vamos, mas a forma com que a morte chega tem cor, gênero, classe social. Meus mortos foram todos velados (nenhum teve tiro no rosto à queima roupa) e enterrados sob lápides com seus nomes (é certo que não vivi a democratização dessas práticas à classe média, na ditadura militar, e uma grande interrogação paira sobre o que nos espera para o futuro breve).
Etnogenocídio. Farinha com açúcar fala sem eufemismo o que a tal guerra (contra o crime? contra os traficantes? contra as drogas? contra os drogados? contra os pobres? contra os trabalhadores? contra os periféricos? contra os marginalizados? contra os negros?) anunciada e louvada nas redes de televisão de fato é. Como no contexto descrito por Kanafani, são militares contra civis - não há guerra em tal assimetria, há massacre, baixas quase exclusivamente de um lado. Os tais "soldados do tráfico" não justificam a barbárie - até porque jovens sem esperança com uma arma na mão sem qualquer treinamento estão longe de compôr um exército militarizado.
Cento e onze tiros para cinco homens pretos em um carro. Cento e onze, o mesmo número de mortos pelo Estado que se responsabilizara em zelar pela sua integridade e reintegrá-los - integrar pessoas que desde o início estão em desvantagem, que nas prisões são tratadas pior que animais, em uma sociedade que as recusa enquanto cidadãos com plenos direitos. Se nosso sistema prisional fosse modelo, seria igual fracasso: nossas prisões só refletem sem camuflagens nossa sociedade medieva e longe de qualquer sopro de civilização. Em "Vida é desafio", os Racionais MC's cantam: "Desde cedo a mãe da gente fala assim:/'Filho, por você ser preto, você tem que ser duas vezes melhor.'/Aí, passado alguns anos eu pensei:/Como fazer duas vezes melhor se você tá pelo menos cem vezes atrasado pela escravidão, pela história, pelo preconceito, pelos traumas, pelas psicoses... por tudo que aconteceu? Duas vezes melhor como?". É esta a base da disputa meritocrática brasileira - talvez seja coincidência que os vencedores sejam 99% das vezes brancos (uma foto dos desembargadores do Tribunal de Justiça de São Paulo assusta pela meia dúzia de mulheres e ofusca por não ter um negro ou moreno, acho que na Finlândia deve ter, em números absolutos, mais negros em cargos equivalentes [http://bit.ly/2vfl3pL]).
No Le Monde Diplomatique Brasil 119, Alain Gresh fala da nakba palestina ("A Palestina, sempre recomeçando", p. 27). Comenta do sentimento de pertencimento dos palestinos, sua ligação com sua cidade, sua vila, sua terra natal - mesmo que tenham nascido já longe e a cidade sequer exista mais: a resistência do povo de Kanafani é reforçada pela provisoriedade de onde foram obrigados a parar. Para eles há um lugar (territorial) aonde se quer chegar, onde um palestinos tem direito de ser, exercer sua identidade com plenos direitos. Farinha com açúcar traz dessa ligação com a terra dos antigos, essas raízes, contudo, não tem a mesma força dos palestinos: enquanto estes foram abertamente expulsos por um exército ostensivo e opressor, os brasileiros que imigraram de algum sertão seco ou violento, fugidos da miséria e da fome, o fizeram por "livre iniciativa" - e ainda que a memória prefira se ater às boas lembranças, muitas dessas marcas são fortes o suficiente para que a volta não seja uma opção desejada.
A terra onde estão é o que lhes resta como destino - construir ali, na periferia de uma grande cidade, seu ser e seu estar. Porém, como fazê-lo, diante de todo estigma com que serão marcados por nossas ilustradas elites brancas e seus porta-vozes na televisão? Alguns se iludem em mudar para não-lugares de consumo onde, endinheirados, imaginam que ganhariam direito à cidadania branca. Ilusão: o dinheiro "não pode arrancar de dentro dele[s] a favela", suas peles seguirão negras, os acessos, se não bloqueados, seguirão dificultados. 
É na condição de negros e periféricos que deve surgir esse ser e estar - afirmativamente contra todo o estigma que tentam impingi-los, do judiciário à mídia, passando pelas igrejas e escolas, até chegar ao Estado, omisso e ausente em tudo menos na violência. Como fala a peça, as mortes de tantos negros, vidas tidas por descartáveis, não devem ser vingadas, muito menos esquecidas (se é que há como esquecê-las de fato, como as feridas da personagem de Kanafani): a dor dessas perdas - bruscas, brutas, injustas - seguirá, e dela deve vir a resistência para se construir um novo estar no mundo, um mundo que autorize esse estar sem estigmas e preconceitos - e há urgência nessa construção, precisa ser aqui e agora. Como a música dos Racionais, como os contos de Kanafani, Farinha com açúcar é um grito feito arte em uma sociedade que recusa humanidade - ao menos cidadania - a negros, periféricos e tantas minorias marginalizadas. Necessário ouvir esse grito, e dele apurar os ouvidos para tantos outros do gênero, mais crus, porém não menos pungente.

21 de julho de 2017


terça-feira, 13 de junho de 2017

Lava Jato em dois tempos: há listras e estrelas - e há as nossas elites ineptas.

Fernando Horta sugere que sigamos devagar com o andor em apontar o dedo para o Tio Sam na orquestração do golpe e do colapso político (e econômico) brasileiro [http://bit.ly/2rWS8EJ]. Ainda que não ache que os Estados Unidos sejam os grande protagonistas do que vivemos atualmente, não consigo não vê-los em papel de destaque; e se nos faltam provas da participação estadunidense - afinal, ainda não foram disponibilizados os documentos dos EUA sobre este passado tão recente -, há uma série de elementos que reforçam a hipótese de influência externa.
Influência não quer dizer determinismo: sem nossas elites interessadas na defesa de seus privilégios e ávidas em reafirmar seu poderio frente os trabalhadores e os descamisados, não haveria golpe algum, participasse os EUA ou não. Como Horta comenta, os EUA não são exatamente um primor de eficiência quando buscam garantir seus interesses pelo globo - e cita o exemplo da Baía dos Porcos e do Afeganistão. Contudo, os EUA ainda são eficientes em desestabilizar o mundo, como no caso do próprio Afeganistão ou nos diversos conflitos que eclodiram após a chamada primavera árabe. Horta também fala de empresas e interesses capazes de ações internacionais por cima do governo - a questão é o quanto é possível fazer uma distinção drástica entre os interesses desses atores e do governo estadunidense, sempre em parcerias muito próximas, por mais que não possam ser tratados como uma coisa só.
Dado o papel principal às nossas elites, questiono a extensão da participação dos EUA. A Lava Jato possui claramente duas fases, dois momentos bem distintos. No primeiro deles (2014-2015), ações precisas, com provas e não convicções, acertam em cheio os pontos estruturantes do relativo protagonismo que o Brasil vinha ganhando com os governos petistas: empreiteiras, segurança nacional, com o submarino atômico, e, principalmente, petróleo. Dos grampos telefônicos da NSA à presidenta Dilma, além de uma série de outros grampos que é de se imaginar que correram solto no país, passando pelo treinamento de Moro e outros nos EUA, tudo leva a crer que se sabia onde estavam os pontos que poderiam ser "descobertos" e provados rapidamente. A novidade no uso das prisões preventivas como forma de tortura evitou questionamentos mais enfáticos à legalidade do método das "delações premiadas", assim como acusações de seletividade política eram caladas na medida em que o recorte era preciso em determinadas ilegalidades - sem, até então, a predominância do discurso messiânico-religioso de salvar o país da corrupção (atéia e comunista?) do pato Dallagnol. Pode-se definir essa fase como uma "operação asséptica", uma blietzkrieg econômica-geopolítica. E precisava ser rápida, porque seu fôlego era curto e logo seria tripudiada em seus métodos. Os resultados favoráveis aos EUA não demoraram para aparecer, não só com o enfraquecimento da Petrobrás, assim como na abertura do pré-sal às petroleiras internacionais, ainda no governo Dilma [http://bit.ly/2sk5sn9].
Ainda mais quando comparado ao segundo momento da Lava Jato, fica a forte impressão de que Moro e a república de Curitiba foram inicialmente atores de uma peça escrita alhures, e cumpriram bem seu papel. No segundo momento, os atores resolveram assumir a condição de autores e descambamos para o estado de exceção ao melhor estilo do III Reich. Prisões arbitrárias infinitas (ou até uma delação premiada falando em PT e Lula), delações sem provas, violação explícita da constituição, power points toscos, convicções como condição de prova de crime. A esbórnia tomou conta de Curitiba e da nação a partir de 2015. É quando, ao que tudo indica, nossa elite tomou as rédeas da situação. A perseguição política de Moro e pato Dallagnol ao PT e a Lula passaram a ser evidentes, e a falta de qualquer decoro do judiciário foi além de Coronel Mendes e seu pupilo D.T. e se tornou carne de vaca - não me refiro aqui à Operação Carne Fraca ou à delação da JBS. Em São Paulo, a PM foi usada como milícia tucana [http://bit.ly/2rrQ3gs], um oficial do exército agiu à revelia da Comandante em Chefe, espionando movimentos sociais por mais de um ano até forjar um ridículo flagrante contra adolescentes [http://bit.ly/2sYkwF5], e em Brasília, bem, em Brasília todos os piores estereótipos sobre políticos subiram o Planalto com Temer e sua camarilha, para melhor destruir a Constituição, os direitos sociais e qualquer possibilidade de vida minimamente digna a milhões de brasileiros.
Ainda que tenha participado de golpes similares anteriormente, em Honduras e no Paraguai - vale lembrar o nome da embaixatriz Liliana Ayalde -, não me parece que esse segundo momento fosse do interesse dos EUA, não só por permitir a eventual ascensão de um político progressista (Lula, no caso) ou destemperado (ninguém aqui, por enquanto), como por não ser nada positivo aos seus interesses geopolíticos ter a grande potência regional à deriva, sem poder contribuir para garantir a estabilidade na região.
Em resumo: sem nossas elites, não teria Lava Jato, não teria golpe, não teria o colapso político e caos econômico que vivenciamos. Concordo com Horta que buscar um inimigo interno é fugir das próprias responsabilidades e, mais, é deixar passar o principal - a conclusão de sua análise é precisa. Porém, até pelo primarismo de nossas elites, é difícil não acreditar na colaboração efetiva dos EUA - se governo, CIA, Departamento de Estado, think tanks, empresas, universidades ou o que for, não importa - como fator fundamental do sucesso inicial da Lava Jato - mentores e capitães da operação de desmonte do parco protagonismo brasileiro - e do caos que nos impusemos a seguir.

13 de junho de 2017

terça-feira, 6 de junho de 2017

Cena banal - 06 de junho

Três da tarde. Em um dos calçadões do centro de São Paulo, sob um céu plúmbeo escondido pela marquise de uma loja fechada pela crise, enrolado em um cobertor cinza, dorme uma pessoa. Perto dela está parado um homem, moreno, negro - tenho dificuldade com nossa sutil paleta de cores humanas, útil para disfarçar nosso preconceito racial. Ao desviar a vista deles e olhar para meu caminho, me assusto ao me deparar com três militares vindo em minha direção. Rapidamente noto meu engano. Ao notar os três PMs se aproximando, o homem se vira e põe as mãos na parede - o outro seguirá dormindo até o momento que acompanho a cena. Não sei o que se passa dentro dele, mas a cena é um conformismo pavloviano: o cão que sempre apanhava depois do sino, passado um tempo começa a chorar só de ouvir o sino; passado outro tempo, não chora mais nem quando apanha. Um dos PMs já tirou a arma do coldre, carrega-a na mão. A subserviência daquela pessoa de nada serve: os policiais militares são rudes (afinal, olha a cor, olha a roupa, olha os modos): as mãos são cabeça, não na parede. Fica evidente que não há ali respeito à lei: o homem não teme um processo, a prisão, a pena por algum crime; o que teme é a arma na mão daquele que se diz garantidor da lei e da ordem: ele sabe, por ser preto pobre periférico, que se não baixar a cabeça e se mostrar temeroso e servil pode apanhar (como o aluno na escola pública de Alagoas [http://bit.ly/2rIEJhU]), ser preso por desacato (quem sabe por tráfico, se for muito arrogante [http://bit.ly/2sPcEEP]), ou morrer num auto de resistência, mesmo que nunca tenha encostado em uma arma de fogo e em um baseado. A exemplo de tantas abordagens dos militares a pessoas negras, humildes e periféricas que tenho presenciado ultimamente, provavelmente nada encontrarão com aquela pessoa, que será dispensada depois de toda a humilhação, mas a abordagem contará pontos no índice de produtividade dos PMs, no seu duro combate ao crime. Pouco adiante, vejo outra cena corriqueira: um homem corre atrás de outro gritando "pega ladrão". Não pegaram: a PM estava ocupada combatendo os pobres.

06 de junho de 2017


domingo, 4 de junho de 2017

Entre a platitude e o preconceito: sobre Diásporas, da Companhia Elevador de Teatro Panorâmico

Fazer uma obra sobre algo que não se vivencia nem vivenciou pessoalmente é complicado, mas não impossível - há quem argumente a questão do "local da fala", legítimo, mas se a arte se restringisse ao que foi experienciado em primeira pessoa, já teria há muito sido substituída por completo pelo divã. Esse escrever sobre o estranho - e sobre o outro -, entretanto, exige certos esforços - e mesmo sensibilidades - para não resultar em um fruto descartável. Tomar conhecimento pela produção "racional" do assunto, como teses acadêmicas, artigos e reportagens diversas, é um bom começo. Pesquisar outras formas de discurso sobre o tema, como o literário, fílmico, das artes visuais, instalações, etc, é outro bom instrumento. Ajuda também entrar, de alguma forma, em contato direto com o outro que sofre ou sofreu aquilo sobre o que se pretende debruçar. Mas esse entrar em contato exige certa porosidade do artista e um olhar mais atento a sutilezas, que vai do radicalizar o estranhamento ao tentar se irmanar dessa experiência - se for para buscar o outro para que esse aprove o discurso que o artista já tem elaborado de antemão, melhor buscar logo uma tese acadêmica, poupa o tempo de todos. Certamente há mais formas de ganhar repertório, mas não nos alonguemos neste preâmbulo.
Cássio Pires parece ter feito ficado com preguiça de levar a sério essa fase de estudos e preparação (tempo ele teve, foi um ano de montagem) ao escrever o texto para Diásporas, da Companhia Elevador de Teatro Panorâmico, dirigida por Marcelo Lazzaratto - que parece não ter conseguido perceber que a pretensa universidade do gestual ocidental é bem específica da cultural do ocidente judaico-cristão moderno, e não diz respeito a todos os povos, todas as culturas, todos os tempos.
Diásporas conta a história de três povos fictícios: um do mar, um do deserto e um das montanhas, obrigados a migrar em épocas diferentes por culpa de imperialismos clichês - EUA, Inglaterra e França -, e que terminam por se encontrar numa mina de carvão abstrata. É dividia em dois atos, mas possui três partes, que Lazzaratto chamou de movimentos. No primeiro movimento, sem fala, esboça-se o que seriam os costumes de cada um dos povos em seus ambientes - danças, festas, brincadeiras, rituais. Claramente introdutória, deixa a expectativa de que a partir dali se construirá cada uma das histórias - porque em si é uma parte fraca, pobre. Expectativa frustrada. No segundo movimento, agora com fala, temos pinceladas de conflitos internos e das causas da migração de cada povo. É quando a peça começa a desandar. O preconceito dos autores é evidente e posto toscamente: na construção precária e lacunar das frases - beirando o "mim Tarzan, você Jane" - e na estereotipia exagerada dos movimentos, notamos que não são apenas povos "primitivos", e sim que beiram o animalesco - tirando o povo das montanhas, ao que tudo indica morador de algum sertão da Europa (a se entender pelo interesse francês em abrir lá um hotel em 1899), que são capazes, aí sim, de construir frases na sua plenitude, tem até crendices primitivas e tem-se muito claro que são pessoas e não meio humanos, meio cabras
Sem maiores esperanças para o segundo ato (e terceiro movimento), esperei para ver se Pires e Lazzaratto conseguiriam salvar a peça - e como. Tentam aliviar o preconceito no discurso dos fuzileiros navais, discutindo entre si a palestra de um professor acadêmico sobre os povos primitivos. Além de ser uma tempestade de clichês rasos e senso comum, não salva o preconceito do primeiro ato: nele vimos não a visão dos colonizadores, mas a apresentação dos povos na sua animalidade. O que vem a seguir segue essa toada: preconceitos na caracterização dos povos migrantes, discursos rasos dos civilizados, seja no papel da religião ou do exotismo, e um final que tenta problematizar o "oprimido-opressor" do imigrante-outro para acabar no clichê mais clichê.
(Parênteses técnico: para ajudar a piorar a peça, mal iluminada do início ao fim, com cabeças no escuro e um metro de palco de cada lado na penumbra - e ainda assim utilizada pelos atores. Não sei se foi só problema de afinação, ou foi de desenho também, tímido em usar todo o equipamento que o Sesc possui. Como pontos positivos: a trilha sonora, feita ao vivo - realmente muito boa! -, e a produção gráfica do programa. Por sinal, parece ser uma característica recente do Sesc: diante da sua (ao que tudo indica) enorme bonança financeira, ao invés de investir em outro espetáculo, talvez mais modesto (mas de boa qualidade), dissipa-se na produção de primeira qualidade do programa, algo que será jogado fora logo a seguir, muitas vezes sem ser lido - um verdadeiro potlatch de verbas para a cultura. Fim do parênteses.)
São quase três horas de uma montagem enfadonha que transita entre o senso comum e a platitude - isso nos seus melhores momentos. Ao que tudo indica, o dramaturgo estava ciente disso, a ponto de avisar no programa que "talvez (...) esta não seja uma peça sobre o 'outro' (...). Se Diásporas é alguma coisa, talvez seja isso: uma ficção sobre nós que, quando não somos de fato migrantes em algum nível, ao menos guardamos em nós as marcas ancestrais da experiência da migração". Clichê e vazio como a peça: não somos palestinos, haitianos, curdos, sírios, senegaleses, bolivianos - sequer nordestinos ou nortistas fugidos da seca ou da (quase) total falta de perspectivas -, e o fato de todos termos umbigos não nos habilita para acharmos que temos qualquer universalidade na nossa experiência de migração (da Vila Madalena para Lapa para Santa Cecília para outro bairro da moda?). Achar que há marcas ancestrais em toda pessoa é de um romantismo adolescente de quem nunca teve um encontro verdadeiro com um migrante ou imigrante (e falo isso por já ter compartilhado de visão semelhante, até ter deitado por terra qualquer ingenuidade do tipo com meus anos de colaboração com o Serviço Pastoral dos Migrantes (ainda correndo) e um namoro com uma imigrante taiwanesa). Ler de Cássio que "creio que não há nada de particularmente novo a se dizer sobre a experiência migratória" me ofende: é de uma pretensão infantil de quem não acompanha sequer as notícias diárias mais espalhafatosas sobre o assunto, de quem não tem qualquer interesse pelo drama particular de cada migrante e imigrante, e parece crer, com base em tudo o que não sabe, que será capaz de criar qualquer coisa que valha só com o pouco que traz na cachola.
Tanto pelo que apresentou no palco como pelo que disse programa, mais conveniente que Diásporas se chamasse Reflexos narcísicos de uma alma acomodada, O outro - eu mesmo (para ironizar Kertész), Eu, eu mesmo e Irene, ou algo assim, e não tentasse enganar o público que, levado pelo título e pela sinopse, imaginava algo sobre migrações, alteridade, o outro...


04 de junho de 2017

PS: Acho chato falar mal do trabalho alheio, afinal, é evidente que não foi algo feito de qualquer jeito. Entretanto, fazer arte é estar sujeito a erros e a críticas.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

O fascismo se enfia pelas frestas

Costumo dizer que o fascismo se enfia pelas frestas, como um gás inodoro que toma o ambiente sem que percebamos. Sutilmente altera a forma como percebemos o mundo, o outro, a nós mesmos; naturaliza a barbárie e nos anestesia para o horror. Se casos mais visíveis ainda nos chocam - como as ações de Doria Jr à frente da prefeitura de São Paulo, a cobertura da grande imprensa das notícias políticas do país, as falas de ódio de Bolsonaros, Gentilis e Malafaias da vida; ou as ações de milicianos pagos pelo PSDB e DEM -, é pela rudeza dos seus atores: quando o fascismo ocupa os espaços sem dizer seu nome, no máximo causa um sopro de indignação - como o caso do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, autorizar publicamente julgamento e extermínio extra-judicial dos seus subordinados, ao defender ações indefensáveis da PM com seu "quem não reagiu está vivo", sendo que há imagens e mais imagens (para não falar nas testemunhas e laudos periciais) a mostrar policiais atirando em gente indefesa. Uma das característica do que estou chamando aqui de fascismo (na falta de termo melhor) é a reificação da pessoa, seu rebaixamento do status de "ser humano", tratado como número (estatístico ou capital-mercantil), ou como algo descartável, disponível para qualquer arbitrariedade de quem detém o poder.
Guy Debord, em 1967, definia o fascismo como o "arcaísmo tecnicamente equipado" (tese 109 d'A Sociedade do Espetáculo), e a sociedade em que vivemos - a espetacular - como aquela em que o mais moderno e o mais arcaico se encontram unificadas (tese 23). Da democracia liberal para o fascismo totalitário, basta um breve cochilo. A universidade, como principal centro produtor de conhecimento técnico da sociedade, não podia deixar de dar sua contribuição para o fascismo - afinal, sem seu otimismo e contribuição para com o progresso científico, o século XX teria sido muito diferente. Não quero com isso desqualificar a academia, apenas alertar para o fato de que se ela não se puser em constante autocrítica, logo estará fornecendo quadros para novos Auschwitz, em troca de pessoas sub-humanas, de baixo valor social (como mídia e poder público hoje tentam vender os crackeiros) para experimentos em prol da evolução da ciência e da humanidade.
Fiz esse preâmbulo com ênfase na universidade porque foi com uma dose de choque que li, em meados de maio, a notícia sobre o falecimento de um professor da Faculdade de Medicina da USP, no portal da universidade.
Além de falar de onde estava sendo o velório e seria o enterro, a notícia trazia algumas outras informações sobre o professor. Dizia a área em que atuava, onde havia se formado e feito seus estudos de pós-graduação. Até aí, normal: apesar de uma série de mudanças estruturais, ainda vivemos em uma sociedade do trabalho, uma sociedade em que a ocupação laboral é vista como marca da personalidade da pessoa (ou do seu descaminho, vide o qualificativo de "vagabundo" para qualquer um que questione ou fuja à ordem), e a universidade pública, via de regra, é reforçadora da ordem social.
Talvez por ter lido por alguns anos o obituário de um jornalecão, admito que esperava ler algo também sobre a pessoa que havia perdido a vida: se tinha filhos, esposa ou marido, se era estimado por alunos e colegas, se jogava futebol ou gostava de dançar tango. Nada. Pensei que poderia ser a pedido da família, que preferiu evitar qualquer exposição - e por isso, inclusive, evito citar seu nome. Vamos, então, crer que nada pessoal foi publicado a pedido da família. Justo. A notícia poderia (deveria?) acabar ali: onde se formou, onde será enterrado, ponto. Não. O jornal da USP quis falar mais sobre o professor e dedicou a ele seis parágrafos, onde apresentou o horror fascista em dose homeopática.
A crer pelo que li, o que se perdeu ali não foi a vida de uma pessoa, mas um produtor de estatísticas acadêmicas. Alguém que poderia se chamar Maria ou se chamar João, que não seria rima, nem solução e não faria falta alguma, se não produzisse centenas de artigos e referências e, consequentemente, aumentasse o status da universidade no índice internacional de citações científicas. Parece que o que a universidade perdeu foi um computador de produzir referências.
Não consegui saber se o professor era casado, mas soube que seu h-index variava entre 11 e 20! O que é um h-index?, nem idéia. Teve quase 150 coautorias em trabalho, mais de 70 artigos e quase 80 participações em congresso. Seu livro tem mais de mil citações acadêmicas. Cito todos os números que usaram para descrevê-lo: 2, 2, 70, 79, 1000, 48, 500, 11, 52, 500, 11, 20, 5, 7, 4, 144. Seria um algoritmo? Uma versão mais moderna do HAL 9000? Para além dos números, sobre o que ele falava, escreveu, o que pesquisava e ensinava? Nenhuma palavra. A USP o tratou como uma máquina de produzir estatística em forma de artigos - e cometeu até uma falha grave na tarefa a que se propôs: não informou se era professor MS-4, MS-5 ou MS-6.
Parece que o jornal da USP não percebeu: morria ali uma pessoa. E não vi ninguém se indignar com esse lapso na notícia.

01 de junho de 2017


sábado, 6 de maio de 2017

A negação como condição da afirmação política (ou, sobre pertencimento e afetos políticos)

Ouvi em entrevistas do professor Vladimir Safatle e do rapper Mano Brown que um dos principais - se não o principal - afeto político de hoje é o medo. Construído por uma mídia conservadora sob medida para partidos políticos conservadores, não é de surpreender que a direita saiba fazer bom uso desse afeto - bom aqui no sentido de uso eficiente e não de uso nobre.
Em dado ponto dessa construção política a partir do medo temos o discurso da segurança. Avançando um pouco e temos o "Rota na rua" malufista, repetido por Genoíno, em 2002; mais uma volta no parafuso conservador e encontramos o "quem não reagiu está vivo", com o qual Geraldo Alckmin legitima tribunais de rua e execuções sumárias extra-judiciais por parte de seus subordinados; descambamos, enfim, na extrema-direita de Bolsonaro, Dória Junior (cria de Alckmin), Dallagnol, MBL e que tais, em que o medo e a reação a ele se transformam em ódio aberto, declarado, estimulado, louvado - explicitado na negação do outro como ser humano, passível de tortura e todo tipo de desrespeito. A eleição de um objeto de ódio gera uma sensação de cumplicidade, camaradagem, pertencimento: afetos perdidos com a modernidade e a decadência da comunidade em favor da sociedade e aprofundado pelo discurso do medo generalizado, que apresenta o homem como lobo do próprio homem.
Isso me veio à mente durante a mesa-redonda organizada para o coletivo de formação do Serviço Pastoral do Migrante. Um ponto bastante acentuado foi a questão de pertencimento, seja do quanto o migrante - temporário ou "permanente" - está ligado à sua terra de origem, quanto dos possíveis novos enraizamentos, formados a partir de laços comunitários, e da rede de acolhida, ajuda e cuidado que a idéia de comunidade enseja. Também foi dito, na fala de Verena Glass, da Fundação Rosa Luxemburgo, sobre o bem viver, que além dessa rede de cuidado (que aponta não como projeto para o futuro, mas num fazer-devir presente), o bem viver seria a negação, o embate com a "monocultura colonial" (expressão assaz feliz) imposta desde os países centrais e papagaiada com entusiasmo nas periferias, como pelas elites destes Tristes Trópicos.
O bem viver como negação me fez lembrar de "Operário em Construção", poema de Vinícius de Moraes, assim como da formação do sujeito conforme a psicanálise, que se dá a partir da negação da criança àquilo que lhe é imposto pelo outro, abrindo caminho para se afirmar como sujeito desejante.
Ainda que muito distantes, a negação do outro da extrema-direita e a negação da monocultura colonial do bem viver me parecem ter em comum tanto um desejo de pertencimento quanto um desejo de se afirmar como sujeito. O ponto talvez esteja em como esses desejos são manuseados em função do projeto político de uma sociedade futura. 
De um lado, mobilizados a partir do medo, o discurso do ódio a garantir limites aparentemente firmes (e tranqüilizadores) entre quem é da comunidade, de confiança, quem é o invasor, perigoso, e afirmar (falsamente) a existência do indivíduo enquanto sujeito no comportamento gregário, no assujeitamento à comunidade (ou ao líder que representa essa comunidade), que passa a ser encarnado como desejo próprio. Manter a ordem e negar qualquer dissenso é a garantia de coesão - não pensar autonomamente e nunca se questionar são as condições fundantes para seguir firme nessa senda.
Do outro lado, ainda que também apelando ao medo, mas principalmente ao medo que traz construir coletivamente um devir que não se sabe o que será (a frase é redundante, mas necessária a estes tempos de "museu do amanhã"), a partir de uma multiplicidade de desejos (de sujeitos), a idéia de pertencimento é menos automática - não há um dentro e um fora bem delimitado. Daí, provavelmente, uma das dificuldades em trabalhar a questão da negação - necessária para afirmação do sujeito -, ficando ora em pontos genéricos, abstratos - como a negação do neoliberalismo -, ora numa negação que nada engendra - o "contra burguês, vote..." -, ora em bodes expiatórios, reduções grosseiras de problemas mais amplos - há sempre um nome da vez, já foi Garotinho, Malafaia, Feliciano, agora é Bolsonaro e Doria Junior -, que servem para catarse, muito pouco para política.
Encerro minha divagação com algo dito por Chantal Mouffe em entrevista ao Le Figaro e reproduzido no site O Cafezinho [http://bit.ly/2sMlhnu]: diz a pensadora que a esquerda muitas vezes é racional em excesso, sendo que política também é feita de afeto, e termina por defender um certo populismo de esquerda, que vise não a exclusão do outro, mas a valorização da política enquanto esfera agonística. Talvez um ponto a se pensar e discutir seriamente seja como trabalhar essa negação necessária, essa criação de um "nós" oposto a um "eles", de modo outro que feito até agora, uma negação que não seja meramente reativa, muito menos que leve à negação do outro enquanto ser humano e abra caminho para o ódio. Uma negação que consiga marcar como "eles", como proscrito, não pessoas, mas práticas, discursos e valores que desumanizam homens e mulheres, uma negação que abra caminho para diversas e contraditórias afirmativas, em que o medo do devir, esse desconhecido que povoa o futuro de tudo e de todos, estabeleça a identidade e a solidariedade que permitem a vida em sociedade, ao mesmo tempo que impele a mergulhar nele de cabeça, para ver o que de diferente pode surgir daquilo que hoje temos e somos.

06 de maio de 2017.

O OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO
Vinícius de Moraes. Rio de Janeiro , 1959

E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo:
- Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.
E Jesus, respondendo, disse-lhe:
- Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.
Lucas, cap. V, vs. 5-8.

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão -
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Exercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.

E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:

Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.

Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
- "Convençam-no" do contrário -
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

- Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.

Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.

sábado, 29 de abril de 2017

Fetichizar o pobre para esconder a própria pobreza.

Em artigo na Carta Capital, a antropóloga Rosana Pinheiro-Machado, comenta as repercussões da pesquisa da Fundação Perseu Abramo, ligada ao PT, sobre a "periferia liberal". Não retomo o texto, recomendo sua leitura integral [http://bit.ly/2oFsIvg]. 
Contudo, uma frase dela me pareceu lapidar e emblemática: "nosso fetiche mesmo são os pobres". 
Do porquê desse fetiche, ela levanta algumas possibilidades, como o desejo de poder: delimitar o que o pobre é (seria), o que ele gosta e precisa, e conseguir convencê-lo dessa narrativa - ao menos em parte - ajuda a garanti-lo como massa de manobra para interesses outros - à esquerda e à direita. Foi a tática de dominação colonialista denunciada por Franz Fanon, e ainda hoje a pleno vapor - apenas em versões um pouco menos explícitas. Eu arrisco outra: afim à mentalidade da casa-grande e da academia tupiniquim (seu braço intelectual), faltam aos pesquisadores de boa índole o interesse (e talvez a capacidade) de realizar auto-reflexão e auto-crítica: daí a escassez de pesquisas quando o objeto é a classe média ou alta: presa a um eu ideal, nossa elite intelectual tem medo de se deparar com o vazio que a habita e a mediocridade que produz - viver na ilusão é mais gostoso. Pinço dois exemplos que presenciei em meus longos (e ainda incompletos) anos nos bancos acadêmicos.
O primeiro foi em uma atividade de greve, se não me engano em 2004. Uma professora de história da Unicamp solta que ela é uma proletária como todos os trabalhadores do Brasil, a exploração que ela sofre é a mesma que o terceirizado da limpeza. Soa absurda, mas a comparação foi exatamente essa: um professor universitário concursado, com estabilidade e autonomia, salário inicial de dez mil reais (hoje), que faz parte do 2% mais rico do país, estaria em situação igual à de alguém nos 40% mais pobre, um trabalhador terceirizado, precarizado, instável, com direito a uma folga semanal, e olhe lá, usando uniforme quase igual aos dos presidiários que trabalhavam na universidade, com rendimentos que ao fim de um ano serão equivalentes a um mês dos da professora. Alguns alunos esboçaram indignação, mas a autoridade de seus títulos e o respeito de seus pares (ainda que boa parte marxista que adora falar da classe proletária) calaram esses incautos (dentre os quais este escriba). Talvez por acharem que estão em pé de igualdade com os faxineiros que professores universitários possam afirmar qualquer aura superior aos dos reles trabalhadores, explícito na recusa de participar do sindicato dos trabalhadores. Só falta afirmar - talvez o segure pudores esquerdistas - que sua posição seria fruto exclusivo de seu esforço, de seu mérito.
O segundo exemplo é de um antropólogo com quem morei. Seu objeto de estudo do mestrado era narrativa de moradores de rua. Foi em 2012. A rua Augusta ainda começava seu processo de "gourmetização": predominava ainda botecos baratos, inferninhos mambembes, casas de show descoladas e diversificada fauna social. Esse colega de casa certa feita me perguntou como eu suportava freqüentar a Augusta, ao invés de ir para os bares da Vila Madalena ou Pinheiros. Imaginei que sua preferência fosse pelo fato do público freqüentador da zona oeste ser mais homogêneo: universitários classe média-alta e jovens adultos bem-sucedidos, geralmente brancos, meio intelectuais, meio de esquerda, como nós dois. Nada disso, antes da minha resposta, emendou sua incompreensão: a Augusta era cheia de mendigos enchendo o saco pedindo dinheiro. Então era assim: ele encher o saco dos pobres e ganhar dinheiro com isso, tudo bem, é ciência, é para o bem da nação e dos pobres, por mais que eles não saibam - mas nem por isso não devem deixar de atender o pesquisador branco com diligência e prestatividade. Ele ser incomodado por esses mesmos pobres, pedindo dinheiro, um cigarro ou atenção, aí é encheção de saco (reconheço que boa parte das vezes incomoda, mas já tive ótimas conversas com essas pessoas). Entendi ali sua objetividade cientifica: não apenas distanciamento com seu objeto de pesquisa, mas desdém, mesmo - um meio para alcançar um fim particular, e que se joga fora depois de usado, como um objeto descartável qualquer, copo plástico, hashi de madeira ou pessoa pobre. Achei apenas incompleto seu raciocínio: faltou defender áreas de confinamento para mendigos e moradores de rua não incomodarem os cidadãos de bem. 
Me empolgo e dou um terceiro exemplo, esse mais breve. Muitos dos colegas de IFCH idolatravam Criolo, quase choravam ao cantar Não existe amor em SP, mas ficavam indignados, diziam que ele tinha pisado na bola em Sucrilhos, quando diz "Cientista social, Casas Bahia e tragédia/ Gosta de favelado mais que Nutella". Desde sempre me perguntava dessa decepção que a música acarretava: pisado na bola ou no calo? Sempre calei, para não perder a amizade - ego de acadêmico é algo grande e frágil.
Sem negar relativa importância dessas pesquisas acadêmicas sobre pobre e pobreza em geral, raros são os intelectuais egressos da academia que conseguem chegar perto das análises de Mano Brown. Ele não tem instrumental teórico fundamentado, não tem pressupostos epistemológicos claros, falha fragorosamente no distanciamento científico; tem apenas vivência, empatia, conhecimento prático e sem se achar melhor que seus manos das quebradas, apesar de sua percepção arguta e da sua inteligência afiada, ele não fetichiza o pobre. E mais que isso: Mano Brown sabe como se comunicar com parte dessa população. Daí a necessidade de estigmatizar o rap e tudo a ele relacionado, a excluí-lo da grande imprensa, salvo em versões pasteurizadas classe média - como Gabriel O Pensador, na década de 90, contraponto branco e elitista aos versos que se fazia nos guetos. É nessa lógica que se insere a cruzada de Doria Jr. contra o graffiti e o pixo, dito explicitamente em seu preconceito e ódio ao pobre pelo seu secretário de cultura (sic), André Sturm: "Quero que o artista do Capão Redondo possa viver do que ele faz, mas não limitá-lo ao Capão Redondo. Por que eu não posso levá-lo para São Miguel, Santana ou Pirituba? E até para o Teatro Municipal? Claro, se ele for um rapper, não, mas de repente ele é um músico, um artista que posso levar ao CCSP". Sem maiores comentários.
À elite intelectual branca, de esquerda, classe média, média-alta, talvez junto com a coragem de se olhar no espelho sem idealismos narcísicos venha a necessidade de rever os princípios que seu garantem relativo capital simbólico: o conhecimento produzido pela universidade e pelas regras científicas é mais um, importante, porém longe, muito longe de prescindir de uma fala de Brown, Ferréz ou outros, anônimos, mas dotados de uma capacidade de observação aguçada - pobres ou ricos. Reconhecer que seu objeto de estudo possa ser sujeito - sem ninguém a tutelá-lo ou a legitimar sua "autonomia" -, assim como compreender a si próprio - pretenso sujeito produtor de conhecimento imparcial e universalmente válido - como tão objeto quanto aqueles que fetichizam. Até lá, pelo visto, seguiremos discutindo esses exóticos seres chamados pobres, enquanto tomamos nosso bom vinho apreciando o abismo para o qual nossas elites econômicas empurram o país.

29 de abril de 2017


quarta-feira, 29 de março de 2017

A barbárie Doriana contra a cultura de SP

Dia 27 de março estive no início do protesto da classe artística paulistana, em frente o Teatro Municipal de São Paulo. Protestavam contra o corte absurdo de verbas da cultura (apesar dos R$ 6 bilhões em caixa deixados pelo Haddad), da interrupção dos programas se introdução e estímulo artístico a crianças e jovens, o PIÁ e o Vocacional, e ao atropelo da lei ao alterar o edital de fomento à dança, um verdadeiro descalabro (para usar o termo que a mídia publicitária adora) com a cultura paulistana em meros três meses, perpetrado pelo grileiro de terras gourmet, lobbysta e garoto propaganda full-time, João Doria Júnior, e seu secretário de cultura, o dono de cinema que vive às custas do Estado (o Cine Caixa Belas Artes, R$ 40 reais pra entrar), André Sturm.
Um primeiro ponto que chama a atenção nesse imbróglio é a forma como o tucano se apoderou da máquina pública: motivado pelo golpe de 2016, que implementou uma ditadura no Brasil que queremos crer provisória; por uma imprensa que atua como agência de propaganda, e por uma concepção de que vencedor de eleição ganha carta branca para fazer o que bem entender, à revelia da população, Doria Jr age como se fosse o dono da prefeitura, e não seu ocupante, e sendo boss, espera de todos - funcionários e população - a aceitação passiva e submissa de suas ordens. O gestor que não é político mas vive da política tem sofrido em descobrir que política não se faz só nos conchavos partidários, e sim no dia a dia.
No protesto, o que me saltou aos olhos foi o discurso proferido pelas grades e policiais que cercaram o Teatro Municipal, para proteger o patrimônio artístico dos artistas.
Há primeiro um discurso de provocação: os sete mil artistas presentes no ato não são "artistas de verdade", que mereçam acesso ao mais tradicional teatro da cidade. Em mais de uma situação Doria Jr deixou claro que arte, para ele, não pode trazer qualquer contestação a sua figura ou dos seus companheiros: isso seria propaganda política, petismo, isto é, crime - a mesma lógica seguida por Sérgio Moro para definir o que é jornalista, o que é notícia, o que panfleto partidário petista, portanto, criminoso. Uma cidade que barra o teatro aos seus próprios artistas é uma cidade que abdicou da arte em favor da propaganda (e não é de se surpreender se em breve não abrirá suas bibliotecas para a queima de livros de autores degenerados/petistas/esquerdistas).
O segundo discurso é para o público exterior, aquele que nunca freqüenta o Municipal ou qualquer teatro, porque não se acha inteligente o suficiente (disfarçado sob o argumento de que teatro é chato), ou porque não tem dinheiro, ou por se sentir inibido de frequentar um lugar onde só há negros e periféricos como serviçais. Nesse discurso, Doria Jr tenta reforçar seu mantra de ódio e violência, ao insistir na retórica do medo do "caos": os artistas, esses esquerdistas que mamam na teta do Estado em troca de ações gratuitas na periferia, são perigosos, são violentos, são "fascistas" (como disse o próprio Sturm, indignado de não ser obedecido bovinamente, como fazem seus funcionários temerosos de perder o emprego), e estão dispostos a destruir o patrimônio público se o prefeito e a polícia não intervierem.
Doria acha que por ter a grande imprensa publicitária fechada com ele, pode tratorar autoritariamente as leis e a sociedade civil. Não percebe que o fôlego da pós-verdade que o elegeu lentamente se esvai - como comprovaram as manifestações de 26 de março dos seus partidários, que juntaram, em São Paulo, menos gente que o samba de Santa Cecília ou do Bixiga. Ao mexer com a classe artística e classe média, o grileiro de terras gourmet queima pontes do seu partido com setores importantes da sociedade, e ingenuamente crê ser capaz de domesticar ou aniquilar a arte - pois ele sabe do seu perigo, como comentei em minha última crônica.
A falta de tato do prefeito conseguiu a proeza de unir uma classe afeita a disputas mil em torno de picuinhas mínimas (motivadas, não raro, por egos máximos). A questão é se a classe artística conseguirá manter a mobilização e angariar apoio da população, e se, a partir disso, é capaz de ir além de uma postura reativa e conseguir se impôr e impôr avanços na forma como a arte e a cultura são tratados pelo Estado e pela "opinião pública" (leia-se Grande Imprensa publicitária). Vivemos tempos sombrios, mas a mobilização dos artistas de São Paulo dá alguma esperança de não apenas reverter a marcha em curso do nazi-fascista tupiniquim (o "finanfascismo" do século XXI) no curto prazo, como trazer avanços democráticos no médio prazo.

29 de março de 2017
PS: ainda não entendo o porquê de não haver um movimento de boicote ao estabelecimento do senhor Sturrm, ou ao menos panfletagem intensiva na porta do seu cinema. Esses gestores que não são políticos (ainda que lucrem muito com a política) costumam se condoer de qualquer causa quando lhes cutucam o bolso.


sexta-feira, 24 de março de 2017

Para que serve a arte? [O Brasil em tempos de cólera e golpe]

Em 2005 assisti ao filme Elefant, de Gus Van Sant, inspirado na chacina de Columbine (que por ser no estrangeiro ganha o nome de massacre). Um filme sobre a banalização das violências que sofremos e cometemos todos os dias - a história não é de dois adolescentes perturbados, é de adolescentes normais numa sociedade, essa sim, perturbada [bit.ly/cG050302]. Até então, bullying não era um termo corrente na sociedade, nem vulgarizado pela imprensa. Foi com susto quando me vi na pele dos personagens humilhados pelos colegas, que decidem se vingar a tiros de tudo e todos: tirando pela solução, era um retrato de muito do que passei na infância e adolescência - que eu abstraía tocando Beethoven ao piano.
Mais de dez anos depois, em 2016, assisto à dança Vértigo, das bolivianas Camila Bilbao e Camila Urioste [bit.ly/Cg160804]. Uma poética feminista, que para além do feminismo cutucou minha forma habitual de pensar: a crítica sempre pronta para o outro e ausente quanto a meus próprios hábitos (e generalizo esse hábito à esquerda brasileira em suas disputas fratricidas, especialista em autocrítica alheia). Alguns meses antes, assistindo a outra dança na mesma Galeria Olido, Percursos Transitórios, da Zélia Monteiro, me dei conta de tudo que eu trazia por resolver dentro de mim, quanto às perdas recentes e aos caminhos que a vida me exigia decidir [bit.ly/cG160623].
Entre o filme e as danças, em 2010, sei lá por que, a exposição do Helio Oiticica, Museu é o mundo, no Itaú Cultural, me trouxe uma epifania: foi quando tomei convicção que precisava mudar de vida, e isso começava por morar em São Paulo. Já morador da capital paulistana, sempre zanzando (ou flanando, para usar um termo chique) pelo centro, a exposição Espaço Imantado, da Lygia Pape, na Estação Pinacoteca, em especial sua obra Tteia nº 1, me abriu outra forma de perceber a cidade.
Por falar em epifania, um professor do curso de iluminação contou da que teve assistindo à peça O livro de Jó, do Teatro da Vertigem: até então ele se via confortável na sua bem paga carreira publicitária e pouco interesse tinha por teatro, foi ver a peça arrastado pela então namorada; depois dessa experiência, abandonou a carreira segura e preferiu se dedicar à iluminação cênica.
Não sei se é possível, no século XXI, definir com precisão e sem polêmica o que é arte e para que serve. Por mais que não seja o caso de achar tudo válido, uma definição única e fechada tampouco vale. Ainda assim me arrisco a dizer que uma das principais funções da arte - e aquilo que faz um grande artista - é nos desestabilizar. Uma boa obra de arte nos tira da nossa zona de conforto - não raro, nos joga na cara que nossa "zona de conforto" é antes "zona de comodismo", que de confortável nada tem. E estão enganados os leitores e as leitoras que adoram divisões simplórias do mundo, em achar que isso tem a ver com esquerda e direita: se o esquerdista Saramago me deixou catatônico uma semana com seu Ensaio sobre a cegueira; o conservador Borges me largou em um cipoal que até hoje me pergunto como sair com seu conto "O outro".
Provocar, ensinar a questionar (um ensino que nada tem de pedagogismo), oferecer formas novas de ver a nós próprios e de perceber o mundo que nos rodeia: a boa arte - ou a que busca essa excelência - tem em si  esse gérmen da subversão - na literatura, nas artes visuais, nas artes do corpo, na música, na arte urbana. A arte, se não corrompida pelo poder (econômico e político), é capaz de corroer o poder. 
Um graffiti na Avenida 23 de Maio lembrando dos assassinatos do nosso Estado que se finge de Direito, Amarildo e outros, grita aquilo que Globo e grande imprensa tentam calar; um pixo numa casa nos lembra que a cidade real nada tem da harmonia que políticos fascistas tentam nos impôr; uma peça pode fazer uma pessoa mudar de vida; um filme (e não uma peça publicitária de 1h30, feita em Hollywood e que passa na televisão) é capaz de fazer com que alguém perceba melhor seu entorno; um concerto aguça a audição para além da música; uma escultura aprimora a visão do quotidiano; uma dança que lembra das nossas dores...
É por isso que Dória Jr (o grileiro de terras gourmet) e André Sturm, respectivamente prefeito e secretário de cultura da cidade de São Paulo, fazem, desde que assumiram a prefeitura, uma cruzada contra toda forma de manifestação artística e cultural independente - ação reforçada pelo governador Alckmin (o bom moço cristão que estimula assassinatos extra-judiciais dos seus subordinados). Começou com a caça ao pixo e ao graffiti, por não serem "arte de verdade"; avançou sobre artistas de rua, que vendiam seu artesanato - que por estarem na rua não podem ser "artistas de verdade"; se estendeu aos artistas, músicos, dançarinos e atores, que até podem fazer "arte de verdade", mas por não serem úteis à sociedade e viverem "às custas do Estado", não merecem respeito nem financiamento; e agora avança sobre a população toda, ao acabar com o Vocacional e o Programa de Iniciação Artística (PIÁ), que traziam para o contato artístico crianças de 5 a 14 anos. Afinal, lugar de criança não é tendo aula de artes, e sim aprendendo alguma profissão subalterna (engraxate? telefonista? segurança?), quem sabe pedindo comida no Habbibs, ou cometendo algum ilícito até ser morto pelo Estado que nega a ele qualquer oportunidade de se desenvolver enquanto ser humano. 
Sturm foi claro no seu não-dito: o Estado só deveria reconhecer como detentor de direitos (em último caso, o direito à vida, pois sem dinheiro não se vive na nossa sociedade) quem é útil e subserviente ao poder. E ainda chama de fascista quem o critica - e ele sabe que pode falar isso sem preocupação, porque poucos assistiram a uma montagem de Terror e miséria no III Reich, de Brecht, ou assistiram ao Triunfo da Vontade, da Leni Riefenstahl, leram O Tambor, do Günter Grass, ou mesmo 1984, do George Orwell, para se dar conta de quem é o fascista na história. 
Os objetivos de Sturm na secretaria de cultura parecem ser dois: um segue a lógica da rede Globo: não permitir qualquer centelha crítica no "populacho"; o outro, segue a lógica de seu chefe, a do gestor do PSDB: o Estado só deve manter programas públicos que dêem lucro: se o PIÁ não dá lucro, não tem porque o Estado mantê-lo - já se o Cine Belas Artes, de sua propriedade, com entrada a R$ 40, não dá lucro, aí cabe ao Estado manter, porque, afinal, ele é branco, fez FGV, tem bons contatos, e o cinema atende a pessoas como FHC, e não Zé Ninguéns sem qualquer oportunidade de cultura e lazer [nao.usem.xyz/aru5].
A Globo, porta-voz da nossa elite ignara e que ajudou a eleger o lobbysta Doria Jr, tem o recorrente discurso de que "a arte afasta os jovens das drogas". A questão é que, para essa elite, só é aceito como arte aquilo que age como droga: se entorpece e impede de pensar. Se emburrece, embrutece, desumaniza, então é útil, então é arte, arte verdadeira, tem direito até a R$ 700 mil reais do governo brasileiro - via Lei Rouanet - para realizar sua arte em Miami. Nada de Picasso, Vik Muniz, Os Gêmos, Lima Barreto, Ferréz, Borges, Racionais MC's, Chico Buarque, Dudamel, Pina Bausch, o que o Brasil precisa, segundo eles, é de mais Romero Britto, mais Bia Doria, mais Paulo Coelho, mais sertanejo universitário, mais explosões hollywoodianas, mais novela, mais Faustão e suas dançarinas. Mais ignorância publicitária enfeitada com elementos artísticos: vende milhões, rende milhões, não faz pensar e não incomoda o poder - é útil. É a arte nos tempos do finanfascismo.

24 de março de 2017
PS: estou esperando a hora que Alckmin ou Doria Jr soltar um "quem quer arte, que vá para Paris". Sorte deles que nossa grande imprensa é uma grande agência de publicidade tucana.


Esperando a hora que começarem a mandar queimar livros e obras de arte degeneradas e que atentam contra a moral e os bons costumes, como as de Lygia Pape - expertise eles já tem, com a combustão de favelas e museus...

Como o secretário de cultura trata os artistas, afim à lógica PSDB-Globo.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Pannunzio e o nosso fascismo oculto

Escuto o áudio da "entrevista" do vereador do MBL-DEM Fernando Holiday Silva ao jornalista Fábio Pannunzio, da Rádio Bandeirantes. O breve trecho de três minutos (seria uma homenagem aos Engenheiros do Hawaii?) é um triste retrato do nosso acelerado caminhar para o fascismo.
Ao que dá para entender, Holiday não havia sido chamado ao programa, mas diante de terem dito que usara caixa 2 em sua campanha, liga para a rádio, para dar sua versão dos fatos. Justo, ainda que raro - a grande imprensa não oferece seu tempo assim tranquilamente ao Boulos, por exemplo. Talvez surpreendido por terem feito uma pergunta e cobrado uma resposta a ela, e não apenas a feito como desculpa para abrir o microfone para que falasse o que quisesse, o vereador se exalta e é tirado do ar, sem completar sua resposta (me pergunto se não foi para sorte dele e do grupo Bandeirantes).
O pequeno fascista começou com a desqualificação do site que noticiou seu suposto crime de caixa 2, o BuzzFeed Brasil. Realmente, o site não é algo que inspire grande confiança - até então, o tinha como site de listas bobinhas para perder tempo com inutilidades. Entrei na página do BuzzFeed e não consegui saber quem é o editor responsável - péssimo sinal. Entretanto, os jornalistas que deram o furo têm experiência, ainda que em veículos de baixa credibilidade: Tatiana Farah já trabalhou para O Globo e Severino Motta era da Veja - não sei da qualidade do seu trabalho nos respectivos veículos, pode ser que por serem profissionais éticos que tenham sido demitidos. Na reportagem, nada das frases usadas sempre pelo jornalismo da grande imprensa, nada de "fontes asseguram", "pessoas próximas confirmam" e afins: os repórteres dão nomes e caras aos bois, apresentam planilhas e áudios: uma reportagem muito bem feita, portanto. Se é falsificação - "fake news", como acusa Holiday, ele próprio integrante daquele que foi considerado por pesquisador da USP o maior divulgador de notícias falsas da internet brasileira -, Farah e Motta oferecem de bandeja suas cabeças para processos.
Impedido de falar do veículo e instado a falar do fato, Holiday tenta argumentar que dinheiro não contabilizado não é crime de caixa 2 - infelizmente não deixaram ele completar seu duplipensar, talvez ele dissesse que, não sendo petista ou de esquerda, não há crime. É nesse ponto, ao ser confrontado, que o vereador paulistano começa a gritar e é tirado do ar - medida bastante razoável.
A seguir vem o segundo momento fascista dos três minutos, o mais descarado, e que tem passado em branco - pelos comentários que li até agora. Diz Pannunzio, já sem possibilidade de réplica: "É isso aí, usou caixa 2. É o que aconteceu, e o resto é conversa fiada". Que autoridade tem Pannunzio para determinar a culpa de alguém de modo tão cabal? Ele sequer relativizou sua frase, algo como "para mim, usou caixa 2, ponto final". Fosse em particular, seria tosco, mas no seu direito, dar sentenças a torto e a direito, como se fosse o deus dono da verdade e da justiça, não foi o caso: o jornalista se utilizou de uma concessão pública para emitir um juízo de valor como se fosse fato (não que isso não aconteça o tempo todo na grande imprensa). A investigação das autoridades competentes, o contraditório, o direito à ampla defesa, e a sentença por alguém teoricamente habilitado e neutro, tudo isso é posto de lado: o veridicto está dado: Fernando Holiday Silva é culpado. É a mesma lógica utilizada contra Lula e Dilma, a mesma lógica utilizada contra o pai de Isabela Nardoni e sua mulher, a mesma lógica utilizada contra os donos da Escola Base. Estes conseguiram, vinte anos depois, provar sua inocência (pouco serviu, sua vida estava arruinada); Lula e Dilma tem a seu favor enorme capital simbólico e a completa falta de provas (mas há convicções); os do caso Nardoni, zé-ninguéns sem chance de contraditório, pagam por um crime que ninguém sabe a verdade. Holiday é outro zé-ninguém, apenas vive seus 15 minutos de fama, pode ter o mesmo fim de Nardoni e Jatobá, como nós - basta um suposto crime sensacionalista ou se indispor com o quarto poder, e não há outra justiça possível.
Nos indignamos (com razão) com o massacre sofrido por Dilma e Lula (e eu poria a morte de Marisa Letícia na conta de assassinato por parte do consórcio CIA-Moro-Globo); contudo, o episódio envolvendo Fernando Holiday Silva, até agora, mostra que estamos naturalizando esse tipo de atuação da grande imprensa. Logo estaremos apenas discutindo se os massacrados estavam do lado certo ou errado, do bem ou do mal.
Não se trata de defender Holiday. Ele tem dado reiteradas provas de não ter condições de ser vereador - seja pelos seus discursos de ódio, seja quando invadiu a reunião do PT, requerendo, ainda por cima, proteção da Guarda Civil -, e a cada dia se mostra menos apto para viver em sociedade. Contudo, não é justiçamento que vai dar conta do problema: ou reivindicamos o cumprimento das leis por parte das instâncias responsáveis (algo cada vez mais raro, com ministro do STF atuando como advogados nos casos que julgam ou juízes de província agindo como justiceiros), ou melhor defendermos logo a posse de armas, comprarmos nossa Uzi ou nossa AK-47, e sairmos para matar nossos iguais na praça de guerra.


na data da greve, 15 de março de 2017





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