segunda-feira, 21 de agosto de 2017

As desumanidades da fome [Diálogos com o teatro]

Ao fim de duas horas de espetáculo, foi com um certo incômodo que perguntei aos meus amigos se animavam em comer algo: eu tinha fome, havia comido no meio da tarde um pedaço de bolo de chocolate que fizera (diet, devido a minha disfunção metabólica) e nada mais. Fome. É essa minha experiência da fome: um intervalo mais longo entre duas refeições, na qual o organismo reclama que não está satisfeito e ameaça, caso não atendido, de reclamar em voz alta (pela boca do estômago?), me deixar de mau humor e não me deixar dormir. O que entendo por fome faz de 800 milhões de pessoas que passam fome um universo absolutamente desconhecido para mim - um marxista luckasiano talvez assinalasse que as noventa pessoas presentes no CCSP nessa noite chuvosa e fria de domingo são ontologicamente diferentes desses 800 milhões. Universos desconhecidos - que não faço questão nenhuma de conhecer in loco -, mas que nem por isso retiram dessas milhões de pessoas o essencial que temos em comum: a humanidade. Humanidade que talvez alguns milhares de pessoas não tenham: os que decidem sobre a fome, se haverá fome no mundo ou não. Fome sempre dos outros, nunca a deles e de seus próximos.
Fome.doc, espetáculo da Kiwi Companhia de Teatro, com roteiro e direção de Fernando Kinas, traz numa de suas primeiras falas essa verdade inconveniente (para usar um termo de um homem que teve poder suficiente para resolver a questão, ex-residente do Observatório Naval, ocupante de um dos três cargos mais importantes dos EUA): a fome é uma decisão. Uma decisão tomada à mesa. Não à mesa dos que têm fome - que geralmente sequer mesa têm -, mas na mesa de decisões, de homens que entre um banquete e outro decidem o futuro de milhares de seus semelhantes - ou ao menos assim imaginamos nós, os humanistas ingênuos: de que todos os humanos são, no fundo, semelhantes, uma grande família.
A fome nestes Tristes Trópicos é a prorrogação da escravidão, a metade não abolida pela abolição de 1888. E se José de Alencar usava das belas letras para justificar as atrocidades benfazejas da escravidão, hoje não faltam os que usem de seus títulos acadêmicos e suas concessões de rádio e tv para justificar a fome - como principal diferença, a ausência de qualquer estilo refinado para edulcorar nossa incivilização. Usa-se números para justificar a inevitabilidade da fome que marca o corpo e a pele de 800 milhões de pessoas - números, esses velhos conhecidos dos campos de extermínio nazista -, usa-se da moral para justificar as humilhações de bilhões de pessoas, que rastejam, comem gilete, vidro, merda, por um tanto insuficiente de comida: quem não trabalha, quem não contribui para a produção, para o crescimento da nação, não merece comer, não merece "vida boa", não merece "bolsa-vagabundagem". E nunca se levanta a questão: se o mundo produz alimentos mais que suficientes para todos, por que, ainda assim, há fome? Nessas horas, mesmo sabendo ser ontologicamente diferente de 800 milhões de pessoas, é desses outros milhões que cospem ódio aprendido na escola e na tv que não consigo reconhecer um semelhante meu.
E se os paladinos neomodernos (neoconservadores, neorreacionários, neomoralistas, neohipócritas, neoliberais, neofascistas, neonazistas) do ódio reduzem tudo a números, numa novalíngua cada vez mais pobre e precária - empobrecedora e precarizante de quem a segue tanto de quem reduzem a coisa -, a fome constrói seu próprio vocabulário, tentando disfarçar a falta do que comer nas palavras que esquadrinham o mundo em que sobrevivem, expressões que escorrem da boca junto com a baba verde dos homens famintos junto ao cais - em cena que se repete árida no interior do Brasil: Josué de Castro elenca as gírias da fome, o "é batata", o "descascar um abacaxi", entre outras, que a nós - bem comidos -, soam apenas pitorescas.
Fome.doc tenta nos tocar nessa experiência que não tivemos, não queremos ter e - espero - não queremos que ninguém tenha: a do corpo que se consome para se manter vivo, na esperança - instintiva, biológica - de em breve algo de fora adentre a boca e percorra a garganta e forneça a energia necessária para a manutenção das funções vitais e - quem sabe - a energia necessária para a abertura de possibilidade de uma vida digna, de uma vida humana. As citações de Primo Levi, com as referências aos campos de extermínio nazista, não são despropositadas. Seus prisioneiros são o kafkiano artista da fome à sua revelia - como o são os personagem de Vidas Secas: desnutridos, jejuantes compulsórios, escassos de palavras como de comida. Artistas da fome. Ao escrever sobre a peça, me lembro quando o atual prefeito de Curitiba (cidade vanguarda do neofascismo tupiniquim), Rafael Greca, então ministro do turismo do governo FHC, no alto de sua obesidade mórbida, morbidamente se alegrava com os famintos esquálidos do país - via neles Carlitos recitando poesia lírica com seus estômagos estufados de vermes, sustentados pela fome de seus corpos esquálidos. Em 2014, depois de doze anos de governos de esquerda, o Brasil saiu do Mapa da Fome da ONU - é pouco, não quer dizer que erradicou a fome no país, mas nem por isso deve deixar de ser comemorado. Para muitos, deve ser combatido. Três anos depois, um golpe de Estado perpetrado pelas elites de sempre - econômica, política, midiática, judiciária, burocrática, burra, desumana - ameaça pôr novamente o Brasil nesse mapa cruel, mórbido. Quem sabe daqui 20 anos, quando finda a emenda constitucional com teto para gastos sociais, boa parte do Brasil não possa ser vista como um grande Auschwitz homeopática? Ou quem sabe não retornaremos mais no tempo, aos colonizadores latinos das américas, e oferecemos carne humana para alimentar os cachorros? Parece ser desejo de parte do Brasil acelerar o passo para esse futuro grandioso. Argumentarão que vêem ali poesia, milhares de Chaplins, futuros Primos Levis, artistas da fome? Ou será que dirão que se trata do destino-manifesto de negros, índios e outros rejeitados por seu deus?
Fome.doc tem mais de duas horas de espetáculo, é feita de fragmentos - não fragmentos de cenas, mas de discursos, de textos (autores que citaram ou identifiquei: Carolina de Jesus, José de Alencar, Josué de Castro, Primo Levi, Graciliano Ramos, Glauber Rocha, Oscar Wilde, Eliane Brum, Kafka, Frantz Fannon) -, com um ou outro elemento para quebrar a sisudez que a transformaria numa palestra. Possui uma dinâmica que lembra teatro de rua: é possível entrar a qualquer momento da peça (que possui vários pontos de "imantação", para tentar me apropriar de Lygia Pape) e acompanhá-la a partir daí. E uma vez capturado, é difícil desviar a atenção: os atores conseguem sustentar o interesse do público por duas horas. Não cansa - mas incomoda, perturba. Ainda que não seja na minha mesa que a fome dos outros seja decidida, sequer seja defendida a morte de milhares, milhões de meus semelhantes. Perturba a ponto de perguntar sem graça a meus amigos se se animam em comer - em uma refeição simples comeremos o que pessoas comem em uma semana, em duas. Não se trata de culpa - o espetáculo faz questão de ressaltar que não é da boa vontade que se resolverá o problema -, é a ponta de niilismo que a peça não impede que bata.
Me recordo de meu pai. Lembro, quando criança, de não querer comer algo, ou deixar sobrar alguns grãos de arroz no prato. Levava bronca. Eu tentava argumentar, dizia que era comida pouca, barata, ao que ele respondia: "não importa quanto custa, na África tem pessoas catando arroz do chão pra comer e você vai desperdiçar comida?" Apesar de terem beirado a miséria, não me consta que ele ou minha mãe tenham passado fome - essa fome - na infância, mas o senso de humanidade de ambos me ensinou que as experiências que vivi e viverei diretamente não dão conta do mundo. Fome.doc acho que se incluiria nessa didática dos meus pais: mostra ao público aquilo que nunca vivenciaram (nem nunca vivenciarão), a partir daí tenta sensibilizá-los, apelando a sua humanidade - se ainda o tem (certamente não é o caso dos que pedem para SP acelerar, enquanto proíbem sopão aos que tem fome e acordam com água fria os que dormem no frio).
Um dos textos utilizados é de Eliane Brum, sobre a família de ribeirinhos de Otávio e Maria Chagas, desalojada para a construção de Belo Monte. Bonecos entristecidos fazem as vezes da família. Diz Brum, dizem Fernanda Azevedo e Renan Rovida, a sabedoria amarga de quem vive a chaga aberta da fome: "casa é onde não tem fome. Se tem fome, é só teto". Para 800 milhões de pessoas, a Terra não é casa, é só teto, um lugar de penúria e fome. A noite fria e chuvosa de São Paulo me faz lembrar: para muitos, nem teto.

21 de agosto de 2017

PS: a peça voltará a ficar em cartaz em breve, no Galpão do Folias


quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Youtubers: a ponta de lança da resistência progressista?

Faz um tempo desativei o rastreamento do Google, de modo a ser bisbilhotado apenas sem meu consentimento; como resultado, o Youtube tem apresentado sugestões de vídeos muito aleatórios para meus gostos já razoavelmente aleatórios (as propagandas seguem certeiras nas buscas que fiz). Hoje entrei para ver o novo vídeo do Porta dos Fundos. Serviu para dirimir minha suspeita de auto-censura por parte do grupo - a nova dona da marca, Viacom, poderia, talvez, estar pedindo para moderarem nas críticas religiosas, para não perder esse importante mercado consumidor que são os evangélicos (e católicos) conservadores-reacionários. Parece que o grupo não está se censurando, e sim aprofundado a crítica no ponto exato: o uso do nome de deus, e não o próprio.
Findo a esquete em que um deputado tenta convencer seus interrogadores da justiça que apenas praticava corrupção, e não qualquer ato sexual com outro homem - pois era pastor e não podia ficar mal com seu rebanho, caso fosse visto como gay -, me distraio e o Youtube engata um vídeo na sequência. Dois youtubers que nunca vi na frente respondem a um terceiro - ilustre desconhecido meu, como todos os youtubers, pelo visto. Por procrastinação crônica, fico a assistir.
A discussão que eles traziam era sobre o grande debate atual do Brasil, na falta de questões mais urgentes: se Hitler e o nazismo seriam de esquerda - ou mesmo comunistas. Uma questão quase pueril diante de quem defende que a Terra é plana. Só não inocente porque não estamos falando de algo enterrado no passado - a possibilidade de um segundo turno em 2018 (se tivermos eleições) entre Bolsonaro e Doria Jr que o diga.
A dupla que fez a tréplica prima pelo rigor e pelo respeito à inteligência daqueles que os assistem - mas numa linguagem que caminha para a do líder do MBL, K.K. (K?) (ao menos nos dois vídeos que vi desse pequeno apedeuta levado às páginas da Folha de São Paulo para falar sobre Power Rangers e atestar a qualidade e índole do "maior jornal do Brasil"), apenas um pouco menos cínica e dona da verdade - talvez seja minha ignorância da linguagem usada pelos youtubers do mundo. O boçal a quem respondiam tem a fala pausada dos velhos sábios donos da sacro-santa verdade - um O. C. ou L. F. P. metaleiro. Como os mestres, abusa de má-fé e usa de mil referências bibliográficas e citações descontextualizadas para justificar seu preconceito para um público desejoso de uma mentira envernizada (ou nem tanto) que encubra sua ignorância e justifique seu ódio (uma forma de fuga de suas vidas existencialmente miseráveis?).
Após os vinte minutos de vídeo, o Youtube me manda para uma outra tréplica contra o mesmo nazi-metaleiro. A questão agora é religiosa. E o youtuber da vez tem uma estética despreocupada, para aparentar que o vídeo foi gravado de sopetão, sem maior preparo, com ele exprimindo sua opinião como se não tivesse elaborado o discurso - ao menos ele realmente exprime uma opinião e não um veridicto divino.
Por conta própria, resolvo encarar o youtuber raiz desses vídeos que acabei por assistir - fui logo no primeiro sugerido, em que ele fala de religião. Diz que não é Jesus nem pretende sê-lo - mas age como se fosse o irmão mais novo dele, com a sensível diferença de ser um vida boa e que optou por fugir dos pregos e das cruzes e encruzilhadas da vida (linha reta é sempre mais rápido. Acelera!). Retira uma meia dúzia de passagens bíblicas para justificar homofobia e defender que Jesus pregava o ódio e a intolerância - ah, a Bíblia, esse livro maravilhoso que serve a qualquer propósito e ninguém se anima a seguir à risca faz um par de anos, pouco mais de dois mil. O nazi-metaleiro não tem trinta anos, mas fala como se tivesse a sabedora de um velho mandarim da China antiga. Seu público, pelo que dá para deduzir, deve ser como muitos dos meus tios e primos (em tempo: não posso escolher meus parentes, no máximo, como fiz, romper com eles): carente de um grande pai (dono de um grande falo) que diga o que é certo e o que é errado, se ajoelha para o primeiro que assumir o papel farsesco e repete o que ele fala como se pensasse. E aos homens-gado e mulheres-gado o ódio é sempre mais fácil de internalizar e entender - talvez por dinâmica interna.
Ao fim de uma hora de vídeos, os últimos vinte minutos do mais puro dejeto intelectual, a recusa soberba e orgulhosa do pensar - louvada como "coragem de falar o que pensa" nos comentários -, me pus a perguntar porque tenho perdido tanto meu tempo com porcarias (minha relação com a internet até merecia uma crônica).
De uma porcaria a outra, vou ao Fakebook, minha bolha política virtual. Lá, um professor universitário (da área de humanas e de esquerda) avisa que não há erro maior que responder à acusação de que o nazismo era de esquerda: isso seria dar verniz de assunto sério a um descalabro sem tamanho. A torre de marfim tupiniquim não me desaponta! E entendo que ter perdido meu tempo com os youtubers não foi em vão.
A ignorância de mundo do professor doutor e pós-doutor me fez entender a importância dos youtubers: são jovens dispostos a dar a cara e discutir no mesmo terreno (um dos) que a extrema-direita avança com sua ignorância planejada. Poucos são os professores universitários que se arriscam a "se rebaixar" e encarar a mídia de massa - ou mesmo um público amplo sem "formação superior" nem endinheirado -, levar alguma luz (e no atual contexto não é descabido esse tom salvacionista) a uma massa que tem como ídolos Neymar, Rodrigo Hilbert e Ana Hickman; que tem como formadores de opinião Bonner, Galvão Bueno, Datena e Luciano Huck. Esses poucos que se arriscam, tem dificuldade em achar uma linguagem que impacte muito além dos que tendem a concordar com suas posições - Karnal talvez fosse o grande nome desses iluministas-midiáticos, mas foi ele próprio seduzido pelo cio da cadela do nazismo (como ele mesmo dizia). Safatle, que vejo como sucessor da Chauí na empreitada midiática, é um dos poucos que se expõem, mas os dois filósofos recusaram maior jogo de cintura e preferiram afirmar desde cara uma posição - o que tem seus pontos positivos e negativos. Mesmo pela rede, a maioria dos professores universitários que sigo prefere discussões herméticas, nos seus melhores momentos, quando não destilam puro ressentimento contra o PT ou se auto-iludem de que ensinar teoria marxista para os filhos da elite é fazer a revolução - Luis Felipe Miguel, professor da UnB e uma das mais lúcidas vozes da atualidade, é uma exceção obrigatória de ser acompanhada! Os professores não-universitários, esses, quando podem falar em sala de aula sem risco de perderem o emprego ou serem intimidados pelos vigilantes do "Escola Sem Partido", devem ficar contentes - e a academia retira deles qualquer legitimidade para pleitear voz como especialistas na sociedade.
Ao fim destas duas horas de procrastinação depressiva pela internet, em grosseiras linhas gerais, ouso dizer que, enquanto a extrema-direita se organiza e ataca por várias frentes e em várias linguagens, se aproveitando de seu poderio econômico, sua hegemonia na grande imprensa e de um sistema educacional falido de alto a baixo, da pré-escola à pós-graduação - USP ou Unicamp serem as melhores universidades da América Latina beira a insignificância social, uma vez que o que é produzido ali dentro parece não extrapolar seus muros (ainda que o professor da Faculdade de Medicina da Unicamp, Paulo Palma, me faça temer que, sim, o pensamento acadêmico tem contaminado o país, e é por isso que discutimos se Hitler é de esquerda, e logo estaremos acompanhando uma discussão sobre se as balas utilizadas pela PM para execução de negros e periféricos deve ser paga pelas famílias que perderam seus entes queridos) -, a esquerda oscila entre brigas ressentidas entre partidos (quando não em movimentos oportunistas de políticos de expressão, como Luciana Genro), movimentos sociais que tentam acordar e se reestruturar depois da letargia otimista dos anos Lula (MTST é o grande ponto fora da curva), sindicatos transformados em impotentes grupos de lobby, e acadêmicos que dão mais valor às discussões herméticas sobre a epistemologia marxiana do que às condições objetivas da sociedade atual - a alienação da universidade pública frente a realidade que está inserida é tamanha que não percebe nem quando está sendo atacada: mesmo com o anúncio de seu desmonte, ainda antes de Temer assumir, e depois com a emenda constitucional que congelou os gastos com saúde, educação e segurança por 20 anos, nada, absolutamente nada fez, que não xingar um pouco no twitter. Nesse contexto, parece que a ponta de lança de alguma possibilidade de reação e mudança vem da juventude, com os secundaristas na ação direta, e com os youtubers, na frente de comunicação, formação e contra-informação. A despeito das boas intenções, é muito pouco para fazer frente.

17 de agosto de 2017

PS1: Não falei da direita não extrema; essa, infelizmente, desapareceu do Brasil, com a adesão do PSDB ao nazi-fascismo tupiniquim desde Serra 2010, engolido de vez por Bolsonaro e Doria Jr, fina flor do hitlerismo tropical do século XXI (e para registrar: este comentário pode me custar o emprego).
PS2: visualizações dos vídeos citados (até 12h do dia 18): Coisa de Nerd: 345 mil; Izzy Nobre: 456 mil; nazi-metaleiro: 464 mil. A título de comparação. Os últimos 3 vídeos do PSOL tem, respectivamente, 22, 442 e 2,3 mil visualizações; os do PT, quando muito, chegam a uma centena.


segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Entendeu ou quer que eu desenhe?

"Entendeu ou quer que eu desenhe?" Não sei de quando vem essa frase, sem que é do século passado, ao menos, porque ouvia quando era adolescente. Não se usava muito, não que eu me lembre - ao menos no rincão do Brasil onde eu morava. Hoje tenho lido ela com certa freqüência em minha bolha virtual - minha linha do tempo do Fakebook -, ocupada majoritariamente por pessoas de esquerda e/ou progressistas (por favor, menos idealismo ingênuo ao querer identificar a esquerda com mentalidade progressista). 
Seu uso mais recorrente tem sido ao falar dos desdobramentos do golpe judiciário-policial-midiático de 2016. A cada nova demonstração de que a Lava Jato não era contra a corrupção, que Temer era o desastre em pessoa, ou qualquer coisa do gênero, vejo alguém comentar a notícia com um singelo "será que agora os seguidores do pato amarelo entenderam, ou será preciso que desenhe?" Já li em comentário de jornalistas de esquerda, de professores, de sociólogos. A frase é dita de boa fé - vamos dizer assim - e evidencia um enorme (e justificado) ressentimento com colegas de classe, incapazes de enxergar um palmo à frente. Entretanto, evidencia também uma falta de auto-reflexão, que grita na entrelinha.
Evidencia primeiro um preconceito acadêmico: por que um desenho seria mais fácil de compreender que um texto? Ora, porque um texto é um texto, exige estudo, anos de estudo, exige articulação da linguagem escrita, exige decifração de um código. E um desenho, um Poty, um Picasso, um Pollock? 
O que evidencia por segundo, portanto, é ignorância acadêmica (e social): achar que um desenho não possui um código, uma decifração, uma articulação de linguagens. Como se uma representação fosse um dado imediato da consciência. Um pouco de conhecimento de artes (e não só selfie numa exposição) ajudaria a notar tamanha ignorância. Conversar com pessoas analfabetas ou pouco letradas também.
A questão é que como o objeto de escárnio está obrigatoriamente fora da academia (quer dizer, está dentro, limpando banheiros, mas isso é irrelevante), não há porque (nem quem) defendê-lo. Afinal, um analfabeto, por não ser capaz de decifrar um texto, vai ser capaz de ler qualquer coisa? Um desenho - bem simplório, talvez esquemático - ajudaria ele a pelo menos não ficar na ignorância total. Mais um pouco e voltaremos a discutir o voto dos analfabetos. Enquanto isso, esquecem que quem bate panela e segue o pato são pessoas com "nível superior", mestres, doutores, pós-doutores.
Não estou aqui defendendo que instrução seja supérflua. Há tempos digo: instrução formal é a salvação dos medíocres. Muito provavelmente se eu fosse analfabeto, ou pouco letrado, não teria um quinto da leitura de mundo que tenho hoje - no meu caso específico, as letrinhas me abriram as portas da percepção. Porém, tive alunas de alfabetização, em especial dona Maria, uma senhora com então 76 anos (hoje, se estiver viva, tem 90), que tinha uma visão crítica de mundo impressionante, amplo vocabulário, e vinha de longa data sua leitura de mundo: brigou pelo seu divórcio no sertão do Brasil, na década de 1970, mal passada uma década do Estatuto da Mulher Casada, tão logo a Lei do Divórcio fora aprovada. Ou então o Amarildo, um porteiro com quem tinha amizade, em Ribeirão, era analfabeto e tinha criado um código próprio: não perdia um recado que pediam a ele para dar. Mas eram dois analfabetos, dois incapazes de entender o mundo, então façamos um desenho.
"Entendeu ou quer que eu desenhe?" Não sei, pode ser preconceito meu também, mas um quadro de Vermeer ou da Paula Rego me parecem bem mais complexos e cheios de significados que a obra completa do Paulo Coelho. Ou um desenho de um grafo do Lacan, em que se pergunta porque ele não tratou só de escrever, porque dá muito trabalho tentar entender? Mas no ressentimento, nossos preconceitos afloram, e no subtexto dos meus amigos virtuais de esquerda e/ou progressistas um raciocínio que vai ao encontro do professor de medicina da Unicamp, Paulo Palma, que para justificar como as cotas são perniciosas à ciência explica para os apedeutas como este escriba que para cursar dança não se exige QI - afinal, o que é o corpo, esse amontoado de carne, diante de um texto ou de um estetoscópio? 
Não quero com esta crônica pintar a completa falta de perspectivas. Creio que há uma significativa diferença entre os amigos da minha linha do tempo que perguntam se quer que desenhe ou o professor da Unicamp e os seguidores do pato: enquanto estes se orgulham do seu preconceito e ignorância, se algum daqueles chegar a ler esta crônica, certamente vai se sentir incomodado e rever suas expressões.

07 de agosto de 2017

Entendeu, ou quer que eu escreva?