sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Uma vacina para as deepfakes?

Em 2016 “pós-verdade” era escolhida a palavra do ano pelo dicionário Oxford. O conceito diz respeito à decadência da relevância de fatos objetivos em prol de uma narrativa carregada de emoções que corrobora o viés de confirmação da pessoa, mais que uma interpretação, é uma manipulação do fato. Dez anos atrás, para uma fake news, via de regra, era preciso recortar um fato - ou criar um factóide - e alimentar uma narrativa a respeito, com forte apelo emotivo. Era necessário tempo, repetição, múltiplas abordagens. Não que isso fosse algo novo: a verdadeira novidade era a perda do controle dessa narrativa por parte do estado ou dos entes paraestatais, em especial a mídia hegemônica (poderia citar o sequestro de Abílio Diniz, em 1989, ou então citar Foucault, que comenta de expediente similar no século XVIII). 

Junto com as fake news, outro fator comportamental que impacta na emergência da pós-verdade são as redes sociais. Com seus perfis segmentados e publicidade direcionada, a internet afetou profundamente a ágora, o espaço público de debate público e político, transformando o que antes era uma discussão aberta - não que necessariamente fosse democrática, mas ao menos sabíamos o que estava sendo discutido - em discussões nichadas, feitas em bolhas. Descobrimos isso de modo muito amargo em 2018 - em que gritávamos para nós mesmos “ele não”.

Os avanços da IA generativa nos levam a um novo patamar da pós-verdade. Não é preciso desenvolver minuciosamente uma narrativa, concatenando pontos diversos para encaminhar uma conclusão (como reportagens sobre casos de corrupção, oleodutos cuspindo dólares, discurso de que o país estaria quebrado, para concluir que a culpa era da esquerda e do PT), um vídeo único pode acabar sendo uma prova quase cabal de algo cujo contexto já esteja minimamente pronto (em geral, contexto ditado pela extrema-direita e forças conservadoras). E, novamente, a esquerda parte em desvantagem. Não somente porque estamos num contexto enviesado, de criminalização e satanização (nestes tempos de ascensão religiosa, este termo cabe) das esquerdas e de forças progressistas, o que facilita um evento absurdo poder ser considerado verdadeiro, como por questões financeiras, algorítmicas e mesmo éticas - já que a mentira aberta não é uma estratégia da esquerda brasileira, diferente da extrema-direita, que atua sem pudores.

Em minha bolha, influenciadores de esquerda começam a se mexer contra as deepfake que certamente inundarão o país na época eleitoral (ou alguém espera que Kassio Nunes e André Mendonça, respectivamente presidente e vice do TSE na hora do pleito, vão se mexer para tentar evitar esse tipo de crime?). E fazem-no com uma estratégia que me parece bastante inteligente: ao invés de pegar casos e centrar nos possíveis usos eleitorais - vamos reconhecer, para quem trabalha em escala 6x1, limpa a casa, cuida dos filhos e precisa se divertir, fica difícil achar energia para ainda se debruçar sobre a política institucional -, mostram como uma deepfake é feita e como ela pode afetar nosso dia-a-dia, com golpes de todo tipo. 

Esses vídeos soam uma possível vacina contra as deepfakes no período eleitoral. E, ao mimetizar aquilo que foi muito utilizado na campanha do mensalão e anti-petista na mídia hegemônica (e na qual não há qualquer questão ética), eles não dão a mensagem direta, antes entregam as premissas, mas deixam a conclusão óbvia para quem o assiste - que vai, assim, se achar muito sagaz por ter chegado à conclusão de que políticos podem querer mentir usando deepfakes.


09 de janeiro de 2026







sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Tikal, a altura do tempo [Viagem à Guatemala]

 Três vezes por semana costumo ir à pé para o trabalho - são quarenta minutos de caminhada. Todos os dias subo os sete andares até onde trabalhava (uma semana antes das férias fomos transferidos para o vigésimo quarto andar). Isso para dizer que não estou tão fora de forma e que o passeio a Tikal é mesmo exigente, como subir as escadas até o templo IV, de setenta e cinco metros (os vinte e quatro andares que pretendo começar a subir todos os dias), depois de já ter subido outros três templos e o observatório astronômico, de alturas consideráveis, sem falar nos templos mais baixos, mas com degraus grandes, que forçam ainda mais as pernas. Ademais, ao fim, meu relógio marcava  doze mil passos, o que dá entre oito e nove quilômetros.

Tikal é a maior ruína maia da Guatemala, com milhares de construções - muitas delas ainda por escavar.

À chegada, apenas o vislumbre dos fundos do templo do Jaguar já impressiona. Impressiona é pouco, não acho palavras para descrever a sensação de quando vejo o paredão de pedras com sua cúpula por entre árvores, enquanto o guia Carlos ainda dá explicações gerais sobre a organização da cidade. Eu preciso de silêncio para processar - e há um tipo de silêncio ali que não é feito de ausência de sons. E mesmo agora é difícil pôr em texto (minha capacidade como escritor é limitada, ainda mais por não ser poeta). Se eu fosse minimamente místico, eu poderia me referir à energia do local - porque, sim, há algo que impacta para além do racional: um local grandioso demais, com histórias demais, com detalhes demais, com mistérios demais para eu dar conta de entender minimamente a importância com minha vida estreita de classe média remediada.

Fundada ainda antes da era comum, vivendo seu apogeu no período clássico da cultura maia (200 a 900 dC), e abandonada logo em seguida, Tikal chegou a ter trinta mil habitantes internos, numa população total de duzentas e cinquenta mil pessoas. Conforme Carlos, a cada cinquenta e dois anos (quando o calendário solar e o lunar-religioso se encontram) se suplantava o tempo e o templo anterior, por um mais largo e mais alto. É de se imaginar quantas gerações não construíram seus templos sobre outros ali, e qual tamanho não teria se a cidade tivesse persistido.

Nas décadas de 1950 e 60 foi escavada por missões científicas estadunidenses da universidade de Pensilvânia que, claro, saquearam o que encontraram, de objetos quotidianos e rituais a frontões de templos. Restaram os templos - porque não deu para levar. Mas um deles, o de face sul na praça central, me conta Carlos, desmoronou por conta dos túneis das escavações científicas. O Ocidente agindo como Ocidente - Lia diria: branco fazendo branquice. 

Desse desmoronamento é possível ver outras camadas de construções, com suas máscaras grandiloquentes: os novos templos eram construídos sobre os antigos, sem destruí-los, apenas adicionando novas camadas. 

Ainda na praça central, subi no templo das Máscaras, com cerca de quarenta metros de altura. Tratava-se de um local que era exclusivo para sacerdotes e do seu alto dá para sentir o poder dessa posição: abaixo pessoas diminutas, à frente, fazendo vez ao seu tamanho, o templo do Jaguar. E no horizonte, a floresta e o peso de milhares de anos de história.












05 de dezembro de 2025