domingo, 25 de outubro de 2026

Um pequeno Vietnã virtual

 Há semanas que parecem anos. Conheço essa frase de longa data, e até então ela sempre tinha sido literatura para mim: uma imagem forte, carregada de significado - mas não mais que uma imagem. Desde o dia 5 de outubro, contudo, é essa sensação que carrego no corpo: foram três semanas que pareceram meses. Dentro das minhas possibilidades, sem nunca perder a esperança - resiliência que aprendi na Pastoral dos Migrantes -, dediquei minha energia, meus esforços na busca de reverter o resultado do primeiro turno - estou efetivamente vivenciando como um caso de vida ou morte. E é. Vida ou morte da democracia e, principalmente, de milhares de conterrâneos meus. Estou cansado - há dois dias acordo com dor de cabeça, eu que nunca tenho dores de cabeça. Pessoal, urgente! Pela terceira vez recomeço este texto. É muito raro isso acontecer - em geral os textos têm uma espinha já definida, não enroscam pela metade. Ou se enroscam, os abandono - não tenho por hábito retomar textos que travaram. Insisto. Chove, o celular piscou o aviso de alerta severo, em algum canto das cercanias pessoas cantam - Lula lá, brilha uma estrela. Escuto a última fala do Janones na Live da Virada. Eu que vinha tentando ignorar as pesquisas, agora me preocupo. O pedido de levar uma pessoa parece ser uma última tentativa de virar o jogo - mas uma coisa é militância virtual, outra, a de contato direto com os outros. O que terá dito o tracking da campanha? Decido, é óbvio, que este texto - se ficar pronto - será publicado só depois do resultado - tenho medo, mas ainda acredito que a virada é possível e até lá não devo me abater. Mas antes do abatimento, a angústia - minha companheira inseparável desde o início da campanha. E antes da angústia, o orgulho: a sensação de pertencimento nessa batalha, que eu tenho chamado de “pequena Vietnã virtual”, dada tamanha desproporção de forças que enfrentamos: big techs, mídia corporativa, bancos, grandes empresas, bets, máfias, igrejas evangélicas picaretas, TSE, todo o sistema contra esse personagem histórico grandioso que é Luiz Inácio Lula da Silva - representante do melhor do Brasil. Estes dias eu fiquei a imaginar a pessoa que primeiro soltou a ideia para Lula se tornar sindicalista: foi em tom de convite? De provocação? Falava a sério? Queria só testar? Queria ver como essa pessoa reage hoje (se ainda estiver viva) vendo esse senhor de 80 anos com vitalidade e raciocínio só comparáveis ao seu carisma, que já tem uma biografia gigante, e que poderia gozar de merecida aposentadoria, se empenhar em mais uma campanha, enfrentar um miliciano e uma tropa de chacais, em prol do Brasil, do povo brasileiro, de uma sociedade menos desigual. Ele não tem que provar mais nada - sua causa é coletiva. É isso que tanta gente da minha classe (a classe média) se ressente: não consegue ter mais que aspirações individuais e mesquinhas, e foge à sua compreensão quem se empenha por uma causa coletiva. Por isso Lula é incompreensível para essas pessoas. Por isso a tentativa de diminuí-lo de qualquer modo - o nove dedos sendo a versão mais cretina. Estou exausto, e imagino que muitos dos meus amigos também estão, por tudo o que fizemos nestas três semanas. Eu via seus ícones no Instagram, seus stories no whatsapp, e pensava comigo a alegria de ter tido essa pessoa como amiga, como colega de faculdade, de trabalho, de curso de teatro, de república. Pessoas que têm sua vida confortável, e poderiam se contentar em apenas votar no Lula, mas parece que estavam 24 horas conectadas, como eu, dando o que podiam nessa campanha (e entendo muitos amigos cujo posicionamento eu conheço, mas sei das dificuldades em poder se manifestar). Tenho vontade de mandar uma mensagem agradecendo o empenho, comentando da alegria de, mesmo à distância, saber que estávamos lado a lado. Queria dar um abraço nelas - um abraço para comemorar a vitória. Pessoal, urgente! Vejo imagens da manifestação, o Exército do Lula, os defensores da democracia. Eu estava lá! Vejo as notícias dos vodos cancelados - esquecia da CIA entre os inimigos que enfrentamos. E isso é um atestado de que as urnas são mesmo seguras: é preciso fraudar o processo para conseguir vencer. Desinformação, mentira, ocultação de notícias, mudança de zonas eleitorais, cancelamento de voos para o nordeste, assédio moral nas empresas. O medo me toma, a angústia. Que a mobilização do Janones surta efeito e quando eu publicar este texto, ele seja apenas retrato do momento antes da catarse da vitória - e o início de uma mobilização permanente, necessária para frear o fascismo.


24 de outubro de 2026


PS: veio meu presente de aniversário!



quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Jogral sem ensaio [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Uma das estratégias marotas posta em prática pelo supervisor-geral-responsável-por-fazer-os-contatos-intersetoriais-mais-ágeis foi marcar reuniões próximas ao horário de almoço, às onze da manhã. De início, parece que a coisa estava dando certo: colegas prolixos vinham diminuindo suas intervenções, uma vez que a fome apertava e todos ali só queriam que aquilo terminasse logo para podermos almoçar. Mais que isso: com a reunião terminando quinze para o meio-dia, por exemplo, ganhamos um extra de folga, pois nesse pequeno intervalo já não dá para fazer mais nada.

Contudo, passado o sucesso inicial, o expediente dá sinais de desgaste. Carnegie, nosso fã de Steinbruch (ele não gosta de comer no refeitório e prefere fazê-lo na sua baia, enquanto trabalha), teve reunião que estava tão ansioso para que terminasse que não deixava o colega concluir uma frase, tentando antecipar o que ele ia falar - parecia até um dos monges do livro Pequenos Deuses, do Terry Pratchett, com a sutil diferença que este sabia o que seu interlocutor iria dizer, enquanto Carnegie tem um aproveitamento muito baixo. Vos trago aqui um breve trecho em que Toddy - colega que, efetivamente, gosta de falar com muitas pausas dramáticas quando em reunião -, apresentava seu estudo sobre uma questão pertinente ao nosso setor. A hora, onze e quarenta e cinco:

Diante do que eu expus, o que me parece mais razoável suge...

Propor.

Isso, propor, o que me parece mais razoável propor seja algo que mude nosso mindset enquanto setor, algo, como dizer...

Uma reunião de alinhamento?

Não. Uma...

Estratégia mais focada?

Não é bem isso...

Um plano de ação detalhado?

Não!

Carnegie, deixa ele falar! - isso foi dito quase em coro, o coro dos ansiosos pelo almoço.

Só estou tentando ajudar, ele está nervoso - o que não deixava de ser verdade àquela altura: o único ponto é que ele estava nervoso com toda aquela interrupção

O que me parece mais razoável seja propor uma metodologia...

Sim, uma metodologia!


E nesse jogral sem ensaio seguimos. Não sei se preciso dizer, essa reunião foi até meio-dia e dez, e o nobre colega mereceu reprimenda em off da bancada, depois.

Quem parece que não entendeu essa estratégia foi Goleador: até diminuiu sua prolixidade (e é visível seu esforço nesse sentido), mas em compensação passou a marcar reuniões no horário de almoço. 

É uma reunião rapidinha - ela argumenta.

Foi nesse contexto que Basso, nosso Mr. K. da meritocracia, pode entrar em ação e mostrar sua influência junto ao Manager de Fluxos Intersetoriais. Estávamos nos queixando de uma reunião marcada para meio-dia pela Goleador, e ele nos ouviu.

Deixa que eu vou conversar com o Manager e vamos resolver isso - garantiu.

Nos olhamos com descrença, e fomos para nossa reunião. Era um alinhamento com o colega novo, o Massafera, para que todos ficássemos a par das suas atribuições. Nem faz sentido listar suas atividades todas, mas qual não foi minha surpresa ao ver que Pacheco, a doutora Sabujinha, conseguiu despachar metade das suas demandas para ele! Ela já não faz quase nada e agora fará menos ainda! Macedo, em compensação, segue sobrecarregado - premiação por ser um funcionário competente e interessado.

Pouco antes do fim do expediente, mensagem do Manager no grupo de whats, reiterando que deveríamos manter nosso horário de almoço, salvo situações muito excepcionais. Basso tinha realmente conversado com ele. Comentei com Macedo:

Parece que a disputa pelo mais vagal do recinto vai ganhando uma líder absoluta, nem eu nem Basso somos páreos para Pacheco.


21 de outubro de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas