Há semanas que parecem anos. Conheço essa frase de longa data, e até então ela sempre tinha sido literatura para mim: uma imagem forte, carregada de significado - mas não mais que uma imagem. Desde o dia 5 de outubro, contudo, é essa sensação que carrego no corpo: foram três semanas que pareceram meses. Dentro das minhas possibilidades, sem nunca perder a esperança - resiliência que aprendi na Pastoral dos Migrantes -, dediquei minha energia, meus esforços na busca de reverter o resultado do primeiro turno - estou efetivamente vivenciando como um caso de vida ou morte. E é. Vida ou morte da democracia e, principalmente, de milhares de conterrâneos meus. Estou cansado - há dois dias acordo com dor de cabeça, eu que nunca tenho dores de cabeça. Pessoal, urgente! Pela terceira vez recomeço este texto. É muito raro isso acontecer - em geral os textos têm uma espinha já definida, não enroscam pela metade. Ou se enroscam, os abandono - não tenho por hábito retomar textos que travaram. Insisto. Chove, o celular piscou o aviso de alerta severo, em algum canto das cercanias pessoas cantam - Lula lá, brilha uma estrela. Escuto a última fala do Janones na Live da Virada. Eu que vinha tentando ignorar as pesquisas, agora me preocupo. O pedido de levar uma pessoa parece ser uma última tentativa de virar o jogo - mas uma coisa é militância virtual, outra, a de contato direto com os outros. O que terá dito o tracking da campanha? Decido, é óbvio, que este texto - se ficar pronto - será publicado só depois do resultado - tenho medo, mas ainda acredito que a virada é possível e até lá não devo me abater. Mas antes do abatimento, a angústia - minha companheira inseparável desde o início da campanha. E antes da angústia, o orgulho: a sensação de pertencimento nessa batalha, que eu tenho chamado de “pequena Vietnã virtual”, dada tamanha desproporção de forças que enfrentamos: big techs, mídia corporativa, bancos, grandes empresas, bets, máfias, igrejas evangélicas picaretas, TSE, todo o sistema contra esse personagem histórico grandioso que é Luiz Inácio Lula da Silva - representante do melhor do Brasil. Estes dias eu fiquei a imaginar a pessoa que primeiro soltou a ideia para Lula se tornar sindicalista: foi em tom de convite? De provocação? Falava a sério? Queria só testar? Queria ver como essa pessoa reage hoje (se ainda estiver viva) vendo esse senhor de 80 anos com vitalidade e raciocínio só comparáveis ao seu carisma, que já tem uma biografia gigante, e que poderia gozar de merecida aposentadoria, se empenhar em mais uma campanha, enfrentar um miliciano e uma tropa de chacais, em prol do Brasil, do povo brasileiro, de uma sociedade menos desigual. Ele não tem que provar mais nada - sua causa é coletiva. É isso que tanta gente da minha classe (a classe média) se ressente: não consegue ter mais que aspirações individuais e mesquinhas, e foge à sua compreensão quem se empenha por uma causa coletiva. Por isso Lula é incompreensível para essas pessoas. Por isso a tentativa de diminuí-lo de qualquer modo - o nove dedos sendo a versão mais cretina. Estou exausto, e imagino que muitos dos meus amigos também estão, por tudo o que fizemos nestas três semanas. Eu via seus ícones no Instagram, seus stories no whatsapp, e pensava comigo a alegria de ter tido essa pessoa como amiga, como colega de faculdade, de trabalho, de curso de teatro, de república. Pessoas que têm sua vida confortável, e poderiam se contentar em apenas votar no Lula, mas parece que estavam 24 horas conectadas, como eu, dando o que podiam nessa campanha (e entendo muitos amigos cujo posicionamento eu conheço, mas sei das dificuldades em poder se manifestar). Tenho vontade de mandar uma mensagem agradecendo o empenho, comentando da alegria de, mesmo à distância, saber que estávamos lado a lado. Queria dar um abraço nelas - um abraço para comemorar a vitória. Pessoal, urgente! Vejo imagens da manifestação, o Exército do Lula, os defensores da democracia. Eu estava lá! Vejo as notícias dos vodos cancelados - esquecia da CIA entre os inimigos que enfrentamos. E isso é um atestado de que as urnas são mesmo seguras: é preciso fraudar o processo para conseguir vencer. Desinformação, mentira, ocultação de notícias, mudança de zonas eleitorais, cancelamento de voos para o nordeste, assédio moral nas empresas. O medo me toma, a angústia. Que a mobilização do Janones surta efeito e quando eu publicar este texto, ele seja apenas retrato do momento antes da catarse da vitória - e o início de uma mobilização permanente, necessária para frear o fascismo.
24 de outubro de 2026
PS: veio meu presente de aniversário!
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