Em maio comentei aqui da reorganização e do passaralho que ocorreram na empresa. Cortaram vários cargos médios (que eu chamo de subchefe), depois alguns chefes, fizeram mudanças de lugares, e tudo parecia pronto para jazer na ordem que o capital exige. Sejamos sinceros: eu e meus colegas fomos semi-amadores na nossa avaliação. Tem muita coisa que se pode errar na percepção, na avaliação e nas conclusões - agora, achar que um passaralho vai se satisfazer sem passar a faca pelo chão de fábrica é quase como acreditar que privatização de serviço público vai trazer melhorias à população.
rEflexões aleatórias sobre questões aleatórias. nÃo são exatamente opiniões, são antes tentativas de entender o mundo que me habita.
segunda-feira, 17 de agosto de 2026
O colega de banheiro [por Sérgio S. ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]
Em maio comentei aqui da reorganização e do passaralho que ocorreram na empresa. Cortaram vários cargos médios (que eu chamo de subchefe), depois alguns chefes, fizeram mudanças de lugares, e tudo parecia pronto para jazer na ordem que o capital exige. Sejamos sinceros: eu e meus colegas fomos semi-amadores na nossa avaliação. Tem muita coisa que se pode errar na percepção, na avaliação e nas conclusões - agora, achar que um passaralho vai se satisfazer sem passar a faca pelo chão de fábrica é quase como acreditar que privatização de serviço público vai trazer melhorias à população.
segunda-feira, 29 de junho de 2026
Para que tanta pressa? [Diálogos com o teatro]
Fui com Lia assistir ao espetáculo Orkhḗstra Phántasma, de Felipe Hirsch, em cartaz no Sesc Vila Mariana. Saindo de uma quermesse para o teatro, avisei que era bom estarmos bem alimentados, pois eram três horas de espetáculo. Como eu, ela tem um certo receio de apresentações demasiado longas - talvez traumatizada pelo filme Beau tem medo (que eu gostei) -, e questionou: o que será que eles têm para dizer em três horas que não pode ser dita em uma hora e meia?
Lembrei desse questionamento ainda antes da peça completar uma hora, quando o ator Paschoal da Conceição elenca sinais de morte, uma casuística de pequenos sinais absurdos - da narina pela qual se expira à cor do sêmen ou do sangue menstrual, passando por ficar trinta segundos sem piscar - que, segundo ele, seriam sinais de morte para os próximos meses - a não ser que fizesse algum ritual para espantá-la.
A cena é engraçada pelos absurdos elencados - enquanto um casal se pega quentemente sob uma luz vermelha no centro do palco -, mas pareceu se alongar além do necessário: tanto os sinais de morte quanto o casal se pegando, começando a ficar cansativo, tedioso. “Sim, já entendi”, foi a primeira coisa que pensei - e lembrei do questionamento da Lia.
Foi quando entendi o que a peça estava trazendo para além do texto - e que será retomada na penúltima cena, pelo mesmo ator: “para que tanta pressa?” Para que sair logo dessa cena e partir para a próxima, se ainda há mais para se extrair dela? Extração essa que depende de um movimento ativo do espectador: entender o tédio, assumi-lo e pensar por si próprio o que tudo aquilo quer dizer.
Somos seres de linguagem, estamos imersos nela - como uma segunda pele, como Georgette Fadel fala em algum momento -, e nos sentimos como que nus se algo nos passa sem sentido. Daí a necessidade de o tempo todo preenchido de sentido, qualquer sentido, em que um sinal deve ter um significado para além dele. Byung-Chul Han traz esses questionamentos em suas obras sobre a sociedade atual, com o adendo de que estamos habituados a receber esses sentidos, não a produzi-los.
É aqui que entra a grande força de Orkhḗstra Phántasma: ela possui uma intencionalidade, não é um mero acúmulo de cenas aleatórias sem relação entre elas e algumas sem sentido em si, e nos força a pensar não para decifrar um enigma, mas para suportar a ausência de respostas prontas. Mais que isso, ela nos dá tempo para que tentemos por nós próprios entender o que se passa no palco: há espaços vazios, há repetições do (aparentemente) já compreendido, há tédio (não por acaso, desde a primeira hora, várias pessoas saem do espetáculo). Ou seja, há um confronto com nossa passividade, com nosso hábito de ter a explicação pronta, há um convite à reflexão que só o vazio proporciona.
A recordação que me veio nessa hora foi das viagens de férias para Florianópolis, quatorze horas de viagem, no Corcel II branco ou no Santana Quantum azul, já entediado de dormir, enjoado das mesmas músicas que tocavam no toca-fitas, olhando pela janela e elaborando alguma história mirabolante para passar o tempo: um espaço em que eu era invadido por meus próprios pensamentos e eles me levavam para locais inesperados. E essa volta às viagens de férias foi um local inesperado que a peça me levou nesse instante.
Não foi o único salto no tempo. Em determinado momento, o espetáculo faz menção ao “microfone aberto da Rádio Muda, de Campinas”. Ouvir aquilo me trouxe uma satisfação quase física: foi a rádio dos meus tempos de Unicamp, onde passei cinco anos comandando o programa sUbterrâneos do pOp. A Orkhḗstra, feita de fragmentos, começava a colar meus próprios pedaços.
Lia, nessa mesma cena dos sinais de morte, teve outra interpretação, mais ancorada no palco: de como, na preocupação com a morte e em dar sentido a tudo, vamos nos tornando meros voyeurs da vida, dos seus momentos mais interessantes, que acontecem quentes à nossa frente, estão ao nosso alcance, mas não intervimos - sobrecarregados que estamos na busca de tantos significados.
Orkhḗstra Phántasma é um espetáculo provocativo, que tira o público do seu lugar habitual e confortável. Uma peça que nos força a pensar, seja a partir de reflexões explícitas, como em cena de Georgette Fadel, apresentando duas concepções opostas de teatro: uma do teatro como catársis, para se esvaziar de sentimentos, a outra do teatro como para ativar esses sentimentos; seja em momentos sem sentido, como os quatro minutos para a luz se apagar, numa paródia do mindfulness tão em voga hoje em dia.
Se a questão fosse entregar tudo pronto e rapidamente, como nosso senso de urgência (desnecessária) atual nos impinge, a última cena o faz e de forma primorosa! Georgette Fadel em cinco minutos faz todo um ciclo da vida, de bebê aprendendo a caminhar até um idoso já com dificuldade de acompanhar a velocidade do tempo. Não tem como não se enxergar nesse ciclo, e vem o medo de imaginar em que momento dele estamos - e se estamos realmente aproveitando.
29 de junho de 2026
sexta-feira, 26 de junho de 2026
Paulo Freire no café [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]
Período de Copa do Mundo é quase tão tumultuado quanto o que antecede as férias. Na última quarta-feira o jogo do Brasil, por exemplo, nem era em horário comercial e causou o maior congestionamento de São Paulo dos últimos seis anos, com quase 1.700 quilômetros - mais parecia galera saindo para passar o natal na praia. Sem falar que isso é a distância para Cuiabá.
Aqui no escritório, correria também, para dar conta das demandas do dia antes de encerrar o expediente. Houve alguma mudança? Não! Saímos às 17h, como todos os dias, mas parece que tudo ficou corrido, atropelado - e acumulou muita coisa para os dias seguintes. Com a classificação do Brasil e o jogo útil de segunda, demandas foram antecipadas e o chicote comeu solto no resto da semana.
Consequências: quarta não fomos tomar o habitual café da tarde. Na quinta, chegamos num horário fora do habitual. Antes de perguntar se iríamos querer o de sempre, a atendente nos admoestou:
Estão atrasados!
E a seguir perguntou por que havíamos faltado no dia anterior.
Demos risada, nos justificamos de brincadeira e fizemos nosso pedido e falamos do jogo.
Sexta-feira, novamente não fomos no horário habitual. Novamente fomos recriminados:
Virou esbórnia agora? Vocês saem a hora que querem para o café?
Eu e Macedo nos entreolhamos. Agora, além da chefe a nos fiscalizar os horários, tínhamos também a atendente do café a cumprir tal tarefa. E ela parecia séria. Na volta para o trabalho Macedo comentou, um tanto temeroso:
É, melhor não vacilarmos mais nos horários do café, nunca se sabe do que é capaz uma atendente irritada com você.
Achei por bem concordar. Lembrei das conversas que já tive com Brotinho, e citei Paulo Freire: quando a educação não é libertadora, o sonho de todo oprimido é se tornar um opressor. Se uma hora surgir oportunidade para algum tipo de fiscal interno, já temos alguém para indicar!
26 de junho de 2026
PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.
quarta-feira, 24 de junho de 2026
O zagueiro raçudo da São Bento [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]
Se alguém que lê estas mal traçadas linhas também acompanha grupos de fotos antigas de São Paulo no Facebook ou Instagram, sabe que para toda foto da década de 1970 para trás vai ter uma enxurrada de comentários cretinos.
Uma foto de uma criança ou um jovem espremido num terno desconfortável numa tarde de calor de 1920: olha como se vestiam bem aquela época! Uma foto da República com o trânsito totalmente insano e pessoas tomando banho de chuva das rodas de um ônibus enquanto tentam não ser atropeladas, em 1970: destruíram a beleza do centro, hoje só tem cracudo, nóia e puta! Uma foto da praça Roosevelt ou do Largo do Paissandu dos anos 1950, servindo de estacionamento, sem calçada para pedestres: como era bom viver aquela época! Se ler todos os comentários, capaz de ter alguém - até mais de um alguém - falando que naquela época podia andar com celular na rua sem medo de ser roubado.
Em resumo, o que esses comentários sempre dizem é que antigamente a cidade era linda, e estragaram ela - sem nunca conseguir achar o culpado por tal estrago (talvez não seja nunca: às vezes sobra para a população mais pobre, para a população de rua ou migrantes), até porque seria assumir que sempre votou em quem fez as piores escolhas: Minhocão, terceira pista da marginal, destruição da Lei Cidade Limpa...
Mas eis que nosso atual prefeito, com vistas a agradar a esses nostálgicos do que não vivenciaram, está trazendo a beleza e a maravilha do centro de antigamente.
Já há um tempo que na região da Sé e do Anhangabaú basta ligar o pisca alerta e você está autorizado a circular de carro, pressionando os pedestres para saírem da frente. Ainda não começaram os bonitos atropelamentos de antigamente, mas com o aumento da circulação de bicicletas elétricas, esperamos ansiosos por isso.
A nova inovação está na rua São Bento: um lindo lamaçal, que é irrigado mesmo em dias de sol, fazendo com que o cidadão paulistano e o turista que está turistando por ali tenham uma experiência imersiva do que era São Paulo cem anos atrás, sem essa infraestrutura (ainda que incompleta) que torna São Paulo tão feia aos olhos das viúvas e viúvos da ditadura.
“Ah, mas é temporário, só até terminarem as obras no centro”, irá argumentar algum defensor do indefensável prefeito. Correto. O detalhe que toda essa revira estava prevista para terminar antes das eleições... de 2024. Pelo ritmo que vai, teremos sorte se a troca das calçadas for concluída para o próximo pleito municipal (quem sabe se o escolhido do prefeito estiver mal nas pesquisas eles prefiram acelerar ao invés de aditar as obras?).
Deixemos por cá os prolegômenos desta crônica e vamos à cena que a inspira - que cabe num twitter.
Eis que chega Goreti do almoço, enlameado dos pés à cabeça, literalmente, como um zagueiro raçudo dos tempos áureos do futebol, quando se tratava de um esporte e não de uma jogatina: tinha escorregado com gosto na rua São Bento, numa cena de humilhação pública - que, infelizmente, perdi. De volta ao escritório, foi conversar com o chefe, se não poderia encerrar o expediente mais cedo, dado seu estado lastimável que se encontrava.
Claro que não - a resposta da chefia foi lacônica e precisa, também como um zagueiro raçudo dos tempos áureos do futebol.
Inconformado, mas sem ter o que fazer, Goreti voltou à sua baia, se sentou na sua cadeira e voltou a trabalhar. Ao levantar para ir embora, Meirelles, que é mãe e já lidou com situações similares, deu a dica:
Amanhã traga uma toalha para se sentar, ou vai sujar sua roupa de novo, que esse barro vai demorar para sair.
24 de junho de 2026
PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.
segunda-feira, 22 de junho de 2026
Futebol, fé e outras bets [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]
Disse em crônica passada que esta era uma copa inútil. Reconheço minha parcialidade em tal julgamento: trata-se de uma copa inútil para quem trabalha CLT (ou precarizado, como PJ) das oito às cinco. Para quem trabalha à noite, não deixa de ser um alívio. E mesmo para pais e mães de criança pequena, como é o caso de Maceda, que pode assistir ao jogo contra o Haiti, pois Macedinho já tinha sido posto para dormir (Macedo gosta tanto de futebol quanto de novela bíblica).
Quem também soube fazer do limão uma limonada foi minha vizinha de cima - a que tempos atrás (outubro de 2024, para ser mais preciso) precisou da ajuda da síndica para conseguir descapetizar alguém, pois o bicho ruim não ia embora só com o barulho infernal que ela e seus convidados faziam.
Brasil e Haiti, nove e meia da noite. Clima de festa pela cidade durante todo o dia: se a estreia foi uma decepção para Marrocos (e para alguns brasileiros que não acompanham futebol de verdade, ou saberiam que se o hexa vier, vem de zebra), o segundo jogo era favas cantadas - a não ser que acontecesse uma enorme zebra (segundo a transmissão do jogo, mesmo assim, o odd estava bom para apostar, ou melhor, investir com segurança no Brasil, praticamente um tesouro direto das bets).
Nem são nove horas redondas e começam a chegar os convidados da vizinha de cima. E acaba minha paz. Não vou reclamar, afinal, é copa do mundo, muita gente está ansiosa pela primeira vitória da última seleção com Neymar (esperamos). Os convidados vão chegando até a hora do jogo. A partir dessa hora não ouço mais seu interfone tocar nem o tradicional barulho no hall de entrada do apartamento - parece que eles fazem um sapateado para entrar, deve ser algum código interno deles, tipo crianças de doze anos costumam ter, ou ao menos eu tinha (não que eu esteja implicando, só constatando).
O juiz apita. Não tarda, uma oração. Amém. Mais outra oração. Aí eu começo a implicar. Haja reza para a seleção canarinho! Sei que o time não inspira muita confiança, mas não precisava rezar tanto pra ver se deus ajuda. Até porque se tem algo que não me parece condizer com a Bíblia, Jesus, deus e toda a religião cristã, é achar que entes divinos interfeririam num esporte competitivo, escolhendo um lado em detrimento de outro - e isso sem bases morais, que seriam as mais aptas para julgamentos religiosos. Traição, por exemplo, não é pecado? Ou então avareza: que dizer de jogador que comemora convocação fazendo propaganda pra bet? Por sinal, não tem uma bet evangélica, não? Se não existe, os pastores estão perdendo dinheiro!
Enfim, rezar e orar era pouco, com vinte minutos de jogo começaram também os cantos de louvor. Ponho o som da tevê lá em cima, nem tanto para escutar o insuportável narrador da tevê falando de bets enquanto cita o nome de um ou outro jogador que está com a bola, mas para abafar a vizinha de cima, mesmo.
Veio o gol do Brasil. Explosão de alegria e alívio no bairro. A vizinha de cima com seus convidados, impassíveis: seguem cantando e rezando, como se não estivesse acontecendo jogo nenhum.
Irritado com o barulho, deixo a tevê no mudo e coloco Sepultura no talo. Por que Sepultura, deve estar perguntando a desocupada leitora, o desocupado leitor. Ora, para dar uma brasilidade pesada à minha tentativa de infernizar a vizinha e seu culto em casa. Péssima escolha. Foi cutucar o próprio diabo com vara curta. Começaram a falar a língua dos anjos e a pular feito uma manada de elefantes - sentimento que eu já conhecia de outros carnavais, digo, celebrações religiosas. Não, não era delay da minha televisão: foram quase dez minutos até o Brasil fazer o segundo gol que justificasse aquela pulação toda - e eles seguiram pulando esses dez minutos todos e mais um pouco. Até pensei em reclamar para a síndica, mas imaginei que ela não acataria minha reclamação, uma vez que provavelmente também ela estaria pulando e gritando com o jogo, por mais que já tivesse passado das vinte e duas horas.
Fui para um bar perto de casa, acompanhar o jogo em meio ao povo - irritado em ter sido expulso de casa por toda aquela fé sem limites (sonoros).
22 de junho de 2026
PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.
sexta-feira, 19 de junho de 2026
Ciro, o tirano da janela [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]
A confluência de conflitos latentes (ou nem tanto) aqui na equipe tem gerado uma série de saias-justas que chegam a ser divertidas de acompanhar - e mesmo de ser protagonista.
A guerra da janela persiste. Pacheco voltou com sua tática do gaveteiro. Eu ignorei, e abri minha folha, para ventilar um pouco a sala abafada. O dia não estava muito frio, mas reconheço que o vento estava gelado e insistente - quase incômodo, eu diria. Quase!
Não era o que sinalizavam Pacheco e Goleador, que começaram a forçar tosses, na esperança de que eu tomasse a iniciativa de desfazer o que fizera. Eu, com meus fones, fingia que não ouvia.
Não tardou, Pacheco se levantou para seu social habitual, deixando Goleador no frio e na aporia: ou aceitava o vento, ou teria que fazer coro à Doutora Sabujinha pela janela fechada - dar razão à sua arqui-inimiga. Não me recordo se já comentei algures: as duas já nem se cumprimentam e quando conversam, é o extremamente necessário para o serviço - um pouco menos, na verdade (a chefia não sabe dessa parte). Não que isso seja uma novidade para Pacheco: também não somos dignos de seus cumprimentos Carnegie e eu - com Mello ela soube sair do seu lado antes de chegar a esse ponto. Por falar em ponto, mantenho aqui minha indignação já expressada: sua baia virou ponto de encontro de colegas aleatórios de outras equipes e do Mello, o que tem prejudicado assazmente meu rendimento antilaboral.
De volta ao conflito fenéstrico. Outros colegas estavam nas duas fileiras de baias ventiladas pela janela que ocupo, e ninguém mais tossia ou parecia incomodado - um deles, inclusive, se mantinha sem blusa de manga comprida.
Pelo visto, por conta do jogo do Brasil, estava todo mundo adiantando trabalho, sem tempo para conversa de cerca-lourenço, e Sabujinha teve que logo voltar ao seu lugar, fingir que trabalhava e tossia. Tosse cá, tosse lá e vento frio frequente (e eu de fone e blusa). Nessa hora, Macedo, nosso homem da calma, perdeu a paciência e resolveu intervir: pediu, gentilmente e em ASMR, para que eu fechasse a janela, pois o vento estava frio e parecia que não era o único incomodado com isso. Aceitei o pedido do colega e assim o fiz. Depois, no café da tarde, me contou: Goleador foi agradecê-lo, cheia de mesuras, pela intervenção.
Esse agradecimento fez surgir em mim uma pequena dúvida: será que, sem perceber, estou me tornando o novo vilão da equipe, Ciro, o tirano da janela?
19 de junho de 2026
PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.
Enquanto você estiver estudando
Pai, hoje você faria 72 anos. Foi a primeira coisa que lembrei ao acordar - e motivo de eu estar melancólico. Acho que a sequência de crônicas do Sérgio S. ajudou um pouco: lembrei de quando publicava o Trezenhum. Humor Sem Graça. à noite, madrugada muitas vezes, e na manhã seguinte, ao ligar o computador, lá estava um e-mail seu com comentário sobre as agruras da Universidade e, claro, a revisão do texto. Devia ser a primeira coisa que você fazia no dia. Às vezes havia alguns preciosismos gramaticais da sua parte, que eu não concordava, mas alterava por reconhecimento da sua ajuda.
Na verdade, a ideia para hoje era escrever mais uma crônica do Sérgio S. e as disputas miúdas desta burocracia em que faço trabalho de estagiário com diploma de sociólogo. Sérgio S. é um spin-off de Trezenhum - e digo isso só para te provocar: com certeza você me mandaria uma mensagem me criticando por usar um termo em inglês, e eu concordaria contigo: prefiro dizer é uma derivação do Trezenhum. Curiosidade: já tem mais tempo que o original (só não sei se tem mais textos).
Lembrei também quando soltava meus textos mais sérios - esses precisavam de menos revisão, mas de vez em quando vinha. O que vinha mesmo era, na ligação seguinte - por telefone ou skype -, você começar: “Dani, aquilo que você falou no seu último artigo...” e começarmos nossa conversa sobre política, nem sempre confluente, mas sempre respeitosa - até porque éramos dois do campo da esquerda, cada um com seu extremismo particular. Por sinal, uma das principais pessoas para quem eu escrevia era você: mostrar que, ao mesmo tempo, eu seguia seus passos políticos e me diferenciava deles em detalhes. Ainda sinto falta dessas conversas. Como sinto falta de minhas férias serem voltar para Pato Branco, curtir a casa e a companhia sua, da mãe, e das cachorras. Colômbia, Lençóis Maranhenses, Salvador, Guatemala foram destinos legais, mas foram arremedos de férias.Hoje tem jogo do Brasil. Foi com você que aprendi a não torcer pela seleção - mercenários era o que você acusava os jogadores, desde a copa de 1994, que eu me lembre. Patriotismo de fancaria, digo eu, hoje (e reitero o mesmo ranço seu para com Senna). Você era um nacionalista! Foi durante um jogo do Brasil contra a Argentina que você partiu. Hoje o jogo é contra o Haiti, país que rendeu uma das edições mais polêmicas do Trezenhum. Humor Sem Graça. O Brasil deve vencer fácil, eu devo aproveitar esse tempo para estudar. “Enquanto você estiver estudando, a gente te sustenta”, foi o que você me disse uma vez, no início do século, não sei bem se quando eu tinha entrado na psico ou na filosofia. E, de alguma forma, isso continua verdade até hoje.
19 de junho de 2026
quarta-feira, 17 de junho de 2026
A Ilíada do Clube do Café [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]
Marx, parafraseando Hegel, costumava dizer que a história se repete, a primeira como tragédia, a segunda como farsa. Pois esta semana estive diante de um rapto homérico aqui no serviço, mais especificamente no setor onde me encontro alocado como capital circulante. O primeiro rapto homérico, creio ser de conhecimento geral, é de Helena por Páris, desencadeador da Guerra de Tróia. A situação no trabalho talvez seja um pouco menos dramática, ou melhor, trágica, sem rapto de mulheres - até porque os tempos são outros e apesar de eu suspeitar que muitos colegas teçam comentários e tenham visões machistas, no ambiente eles (e elas) mantêm um mínimo de compostura.
Tudo corria relativamente bem naquela quarta-feira fria de sol, quando um colega do Clube do Café decidiu fazer uma pipoca para acompanhar o jogo de Portugal, digo, uma reunião on-line à qual estávamos submetidos. Abriu o armário onde ficam os apetrechos do clube e a panela de arroz de Goreti, buscou, buscou, buscou e... nada da pipoqueira. Discretamente ele comentou na sala:
Alguém viu a pipoqueira do Clube do Café? Não estou encontrando ela no nosso almoxarifado. - sim, eles chamam o armário de almoxarifado do Clube do Café, para irritação do dono da supracitada panela de arroz. A balbúrdia rapidamente se alastrou no ambiente, até porque o gol de Portugal saiu logo no início - e nada da pipoca para acompanhar o evento. Entre aqueles integrantes do Clube que não estavam na reunião, começou uma investigação para descobrir onde poderia estar o referido eletrodoméstico: quem foi o último a usar, quando foi a última vez que comeram pipoca. Sem pistas, a discussão chegou ao grupo de whats - conforme relatava minha fonte, que mantenho o sigilo por direito de ofício -, para indignação de ainda mais integrantes.
Fomos roubados! - bradava uma das vozes mais exasperadas.
Já perguntaram na segurança? - interveio outro, mais prático.
E lá foi Mello, como membro mais proeminente do referido Clube - e não estando em reunião -, ver com os seguranças se haveria possibilidade de analisar as imagens do circuito interno. A sala da segurança fica no mesmo andar do RH - e não foi necessário ir até ela. O cheiro de pipoca impregnava o andar - era intervalo de jogo, deviam estar fazendo a leva para o segundo tempo. O que se seguiu daí são versões contraditórias.
Diz uma versão que Mello chegou pisando duro na sala e ao se deparar com a inefável prova do crime exigiu imediata devolução do item raptado - o que não foi atendido. Saiu prometendo vingança.
A segunda versão diz que ele foi sorrateiramente até o RH, se certificou de que se tratava mesmo da pipoqueira que ele havia escolhido para o Clube, e perguntou quem tinha autorizado a pegar o apetrecho. Para sua surpresa, quem havia autorizado não era ninguém mais, ninguém menos, que um dos membros fundadores do Clube do Café: Conan (sim, temos um colega chamado Conan, inclusive com porte físico para estrelar o filme do bárbaro). Conan que na reorganização pós-passaralho foi transferido de setor, e por isso ninguém mais lembrava dele. Detalhe: ele não foi para o RH - ou seja, mistérios pairando no ar. Enfim, autorização dada, devolução de pipoqueira negada, depois de uma altercação que chamou a atenção da sala ao lado do RH, a da segurança. Mello saiu de lá prometendo vingança.
Quem foi que autorizou à revelia que a pipoqueira fosse emprestada? - questionou Mello, como quem não soubesse do que havia se passado.
Conan vestiu a carapuça e foi direto:
Entrei com minha quota na pipoqueira, tenho direito a usá-la de vez em quando.
Os meandros da discussão deixo de lado, para não cansar a desocupada leitora, o desocupado leitor, com filigranas jurídico-escolástica-econômicas. O resultado é que a pipoqueira ainda não voltou. E a ameaça de vingança de Mello segue pairando no ar.
17 de junho de 2026
PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.
terça-feira, 16 de junho de 2026
Férias steinbruchianas [por Sérgio S. ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]
sexta-feira, 12 de junho de 2026
Você aí [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]
quarta-feira, 10 de junho de 2026
Integração [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]
Se o velho testamento tivesse sido escrito nos tempos atuais, no lugar de praga de gafanhotos, deus teria enviado como praga grupos de whatsapp. Que atire a primeira pedra quem não participa de uma dúzia deles: de trabalho, do condomínio, da família, da família sem o tio e o primo fascistas, dos colegas de faculdade, dos amigos de faculdade, dos ex-integrantes do Trezenhum. Humor Sem Graça. comentando as notícias do dia (sem qualquer humor), de moradores do bairro preocupados com a segurança, e por aí vai.
Uma das decisões das novas chefias, com vistas a melhorar a performance de todas as equipes e do setor como um todo, foi proibir assuntos alheios ao trabalho no grupo de whatsapp. Algum burburinho reclamando dessa decisão autoritária, mas todos acataram - até porque melhor não arriscar o emprego por conta de comunicação virtual sem importância.
Eis que veio o aniversário de Bella (que não é de Isabela). Sempre sociável, ela marcou um almoço em comemoração, ao qual esteve presente pouco mais de metade do setor. Ela atribuiu o fiasco por não poder usar o grupo de whats para fazer o convite, ainda que tenha havido um mutirão junto com alguns colegas, organizado a partir do grupo de whats do Clube do Café, para que todos (ou praticamente todos) fossem convidados. Sim, ela acredita que eu, por exemplo, faltei por não saber, por falta de convite, e não por vontade autônoma e deliberada de evitar esse tipo de maçada.
Assim sendo, atendendo a pedidos e inspirado nos grupos “Mega da Virada” do setor, a chefia criou um grupo de whatsapp para aniversários - afinal a solução para melhorar a integração das pessoas é sempre criar um grupo novo. Chama-se “Grupo de Níver” e nele colocam os convites para essas comemorações, que se perdem em meio a dezenas de mensagens de feliz aniversário. Eu, não precisaria dizer, faço minha parte e não contribuo com essa poluição virtual.
Parece que as reclamações de falta de interação e integração dos setores se mantiveram, e a chefia decidiu criar um grupo geral. Chama-se “Assuntos gerais” mas poderia ser chamado de “Bom dia, boa tarde, boa noite”. Minto. Boa tarde são poucos - nessas horas estamos trabalhando -, mas os bons dias acontecem até aos finais de semana e algumas pessoas mandam boa noite quase todos os dias; de modo que dá para ter uma boa ideia dos hábitos de sono de alguns colegas. Um deles acorda todo dia às cinco - e paira uma forte suspeita aqui na bancada de que ele faz isso para treinar cedo. Goreti se indigna:
Que espécime de pessoa acorda às cinco da manhã pra treinar e faz jejum intermitente?
Outro colega precisa regular melhor seu horário de dormir, pois não faz bem se deitar sempre próximo à uma para acordar às sete - isso talvez ajude a explicar o mau humor que geralmente ele irradia. Apesar que nosso emprego nesta fábrica de moer gente chamada capitalismo também deve ajudar nessa explicação. Mas creio que a principal causa para seu mau humor é que ele é um chato, mesmo.
Enfim, como deu para perceber, ninguém se animou em tratar de assuntos gerais no grupo com os chefes. Foi então que Bella resolveu criar um grupo sem os chefes. Chama-se “Integração”. E preciso admitir a perspicácia dos envolvidos nessa proliferação de grupos de whats do trabalho. Da chefia, por ver que isso era um campo minado, de Bella por perceber que os chefes eram um inibidor da integração do pessoal.
O grupo “Integração” desde o início esteve agitado. Alguns bons dias aparecem, convites para aniversários (para quem eventualmente perdeu em meio aos parabéns do grupo “Grupo de Níver”), até mesmo assuntos de trabalho - ninguém ainda resolveu fazer desabafo sobre, mas creio que esse dia está próximo. O foco, contudo, são assuntos aleatórios: onde comprar alguma coisa, indicações de produtos de beleza, recomendações de filmes (sempre com adjetivos como “sensacional” e “inesquecível” para blockbuster descartáveis) e assim ia, até chegar o assunto futebol. A derrota do São Paulo, na última rodada antes da copa, gerou uma discussão homérica, sempre em alto nível, com alguns argumentos batidos como “time grande não cai” e “51 é pinga” e alguns muito originais, como “o Corinthians está mal por causa do Lula, que afundou o time com o estádio pra Copa”, terminando em ofensas de vários calibres. Por falar em copa, Neymar ajudou a azedar um pouco mais o clima no grupo. Resultado: tem colegas que não estão mais se falando pessoalmente, mas seguem tretando no grupo - “Integração”, bom sempre lembrar o nome dele, cuja ironia não parece ter sido proposital.
Eu sigo em silêncio, acompanhando à distância, quando tenho paciência e estômago. E antevejo quando a copa acabar e chegar a hora de discussões eleitorais - Goreti, por exemplo, já avisou que pretende ser mais ativo. Enquanto isso, o grupo de trabalho dorme em berço esplêndido, sem que os chefes desconfiem de nada.
10 de junho de 2026
PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.
terça-feira, 9 de junho de 2026
A Copa inútil [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]
segunda-feira, 1 de junho de 2026
Neymar, o pitagórico [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]
sexta-feira, 29 de maio de 2026
Guerra de trincheiras [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]
A disputa pela janela continua. Ela a quer fechada, pois o vento desarruma seu cabelo. Como estratégia, colocou seu gaveteiro defronte a ela (é uma janela de duas folhas). Chegamos a um meio termo: o gaveteiro fica só na folha próxima a ela, a outra, eu deixo aberta. E aí começa a briga do vento, porque ela diz que a minha parte joga o vento para ela, com consequente desarrumar de seu penteado tão bem preparado durante a manhã - mas ela não abre a folha dela. Hoje achou nova estratégia para tentar deixar a janela fechada: reclamar do sol. Baixou a persiana, sob a alegação que o astro-rei batia nela e atrapalhava a visão do monitor. Sua antecessora passou um ano ali e nunca viu problema, mas o alecrim dourado... enfim.
Enquanto isso, do outro lado da bancada, Mello, sem a companhia da Sabujinha (eles são próximos), passou a implicar com a mania de longa data da Goleador, de trocar os nomes dos colegas por querer - eu mesmo sou Ciro para ela. Não estou a fim de me indispor com ninguém por cousa pouca, mas se Mello tanto se irrita, poderia chamá-la de Silviano, do romance O Amanuense Belmiro; mas não sei se tem esse repertório todo - isso vale tanto para Mello, de conhecer o romance, quanto para Goleador, de ser uma intelectual com inclinações filosóficas e literárias (até onde sei, o único mala com essas aspirações aqui no setor sou eu, e o faço sorrateiramente).
Voltando às minhas questões com a doutora Sabujinha-Mimada, ela notou que estava passeando demais e resolveu ficar um pouco mais na sua baia. Resultado: os colegas começaram a vir até ela para longos colóquios sobre assuntos assaz desinteressantes - conversas de elevador com pompas de erudição (afinal, estão diante de uma doutora!). Além da maçada do evento, isso prejudica todo meu trabalho de fingir que trabalho: o risco de bisbilhotarem, ainda que de modo menos invasivo que de Pacheco, é alto, e isso pode comprometer toda minha estratégia, já levantada aqui em outros textos.
Em resumo: com o passaralho dos cabeças e a reformulação pela qual passamos, aquela tensão por receio de demissão diminuiu, mas o clima geral no setor não está lá muito bom. Entre o bafo da sala e os cabelos esvoaçantes da doutora Sabujinha, vejo minha produtividade de procrastinador profissional prejudicada pela erudição de almanaque que farfalha às minhas costas.
São Paulo, 29 de maio de 2026
PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.
quinta-feira, 28 de maio de 2026
Xadrez da procrastinação [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]
O novo chefe assumiu querendo mostrar serviço. Uma das suas metas é diminuir o tempo ocioso. E uma das primeiras ações foi mudar o firewall do setor, bloqueando uma série de sites e aplicativos, não apenas no computador da empresa, como nos celulares, caso acessem a internet a partir do wi-fi. Nada de twitter, reddit, youtube, spotify. Instagram, em compensação, segue liberado - até alguém dedurar para a chefia, mas até agora ninguém teve essa brilhante ideia. Fica o questionamento existencial: no que o spotify atrapalha mais que o Instagram na eficiência do trabalho?
É nessa lógica de melhorar a eficiência como um todo que mudaram a doutora Sabujinha de lugar. Pacheco (a doutora Sabujinha), que já tinha se aproximado do novo chefe quando notara suas movimentações internas, convenceu-a de que onde estava antes, em local de grande fluxo, acabava estimulando que pessoas parassem para conversar com ela, atrapalhando seu aproveitamento no serviço. Na real, ela queria era sair de perto de Carnegie, nosso arauto do apocalipse. Agora é ela quem circula. Na verdade, sempre circulou, mas agora é mais ainda - lembrem-se que ela é uma pessoa muito sociável, quando lhe convém. Não acho de todo ruim, pois quanto menos ficar no meu cangote, menos me irrito - mas só de lembrar que ela logo vai voltar, já estraga meu dia: já começamos a brigar por causa da janela: ela quer fechada, eu prefiro aberta, para o ar circular. E fica aqui outra reflexão existencial: por que cargas d’água quem não gosta de levar um ventinho faz questão de sentar junto à janela, mantendo aquele bafo no ambiente todo? Antes que perguntem, o espaço tem ar-condicionado, mas ele gela basicamente quem está na sua linha de tiro, deixando o resto da sala sem alteração.
Contudo, fico aqui a pensar se a doutora Sabujinha fez bem, ou deu um tiro no pé. Seguimos, eu e ela, disputando quem é o mais vagal de todo o setor. Eu, por ora, ganho com louvor. Não que eu trabalhe pouco, mas faço questão de entregar somente o que me pedem, me meto somente no que sou chamado, e demonstro ampla ignorância em tudo o que não tenho pleno conhecimento. Ela, por seu turno, reclama o tempo todo de estar sobrecarregada, chegando a atrasar tarefas simples (e não comprometedoras, pois ela sabe o que pode atrasar) para fingir que tem muitas demandas. Temos tido bons resultados, evidenciados nas férias dos colegas: dificilmente nos passam qualquer tarefa - eu por pretensa incompetência, ela por pretenso excesso de afazeres. Não que eu não fique com certo peso na consciência, pois quem recebe a bucha são Macedo e Goleador, justo os dois que mais trabalham na equipe - e chego mesmo a me oferecer para ajudá-los nessas demandas de férias, sempre em off, claro.
Como disse, Pacheco pode ter feito um movimento errado no seu xadrez da procrastinação (para usar um termo chique): ao ficar zanzando para lá e para cá, conversando sobre qualquer assunto que não seja relacionado ao trabalho, acaba chamando a atenção e pode levantar a suspeita de que suas demandas não são tão altas assim. Meu medo: se/quando posta contra parede, me denuncie como mais vagal que ela, e me faça trabalhar mais.
Depois de Goleador e Carnegie, parece que é minha vez de começar a me indispor com a colega - mas o problema é sempre os outros, pois ela, tão amiga de (quase) todo mundo, não pode ser uma pessoa ruim.
quarta-feira, 27 de maio de 2026
O passaralho chegou! [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]
Chegou o tão anunciado passaralho! Isso faz uns dias, mas só agora consigo entender o que está acontecendo - mais ou menos - e trazer aqui para a desocupada leitora, o desocupado leitor que me acompanha. Justifico a demora: Macedo esteve de férias no meio desse imbróglio todo, e ele é minha fonte oficial, já que preciso manter minha pose de antissocial. Não que eu tenha algo contra meus colegas (salvo alguns), mas prefiro seguir sem ter nada contra, e para isso, nada melhor que evitar contato.
Passada essa perplexidade inicial, veio o medo: limparam o meio-escalão, era hora dos buchas de canhão. Um mês e nada. No início do segundo mês, novo organograma dos setores, excluiu um, incorporou em outro, criou mais um. Agora vem a tesourada, imaginamos. E veio... no chefe. Sempre bem relacionado, não foi suficiente para superar sua improdutividade.
Fora isso, uma série de rearranjos, mas ninguém demitido. Nada de cortes no quadro geral, para “melhorar a eficiência”, como os cabeças de planilha adoram fazer.
Na rádio-peão choveram teorias conspiratórias sobre o que teria acontecido. A mais aceita é que as demissões dos dois subchefes, que eram os braços direitos do chefe, eram para dar chance para este mostrar sua capacidade. Deram um mês de prazo. E ele atestou o que seus subordinados já sabiam.
Também vieram as fofocas quentes. O funcionário contratado não havia muito, com todos os louvores do RH, teria sido quem puxou o tapete dos braços direitos - e ganhou como prêmio a chefia do setor criado a partir da fusão de outros dois, no qual fomos alocados.
Da minha parte, eu não gostava do chefe antigo, então não lamentei. Ainda não tive tempo para desgostar do atual, mas sei que é questão de ter um pouco de paciência. Ao menos ele é mais simpático com os subordinados - até agora.
Consequência da reformulação: dança geral das cadeiras, várias mudanças de baias. Praticamente só a do nosso setor permaneceu intacta. A baia que fica às minhas costas, não. E quem foi sentar logo atrás de mim? A doutora Sabujinha! Com todo seu carisma e sempre animada para conversas de cerca-lourenço, em se queixar da vida e ver o que os outros estão fazendo - prejudicando minha veia literária (se os textos começarem a rarear, já sabem). A nova queixa dela é que onde ela senta (onde ela quis sentar!), perto da janela, é frio. Ela poderia mudar? Poderia. Vai? Já avisou que não. Pior: ela confidenciou a Macedo que gostaria, mesmo, era de ficar no meu lugar. Sabendo do seu sabujismo, isso é uma clara ameaça.
A maioria dos colegas respira aliviado, acreditando que o passaralho passou. Eu, sigo na tensão e já passei o recado via o nobre colega: se forem me tirar do meu lugar, vai ter gritaria!
quinta-feira, 21 de maio de 2026
Fat Free [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça]
Há quatro meses Mello pediu permissão para usar um pequeno armário que estava largado em um canto - cuja única utilidade era guardar a panela de arroz de Goreti -, convenceu um punhado de colegas a fazerem uma vaquinha para comprar os insumos necessários - inclusive o capital fixo investido no projeto - e lançou o Clube do Café.
A ideia não é de todo ruim, dada a qualidade do café servido na empresa e os preços cobrados em cafés simples aqui pelo centro. Também não é de todo boa, pois inibe a saída no meio da tarde (às vezes no meio da manhã também) para tomar um café que presta - o que nos permite ganhar vinte a quarenta minutos diários, como bem ensina o Manifesto Proletário, do Capirotinho.
Para angariar mais sócios, passaram a promover, uma vez a cada quinze dias, o dia do café gurmê, quando um grupo de pessoas se reúne em volta do armário para discutir as notas que aquele café traz. A estratégia foi bem sucedida. Tão bem que até Macedo aderiu ao clube, traindo parcialmente o clube da bancada antissocial. Sendo honesto com o nobre colega, mesmo fazendo parte do Clube do Café, segue a me acompanhando no café da tarde fora - num esbanjamento que meu salário não me permite.
Assim, a comunidade cafeteira foi se formando: começaram a aparecer bolachas para acompanhar o café, e doces diferentes para acompanhar as bolachas - essa parte, até onde entendi, sem financiamento coletivo, na base da camaradagem, mesmo.
Justiça seja feita a Goreti e sua panela de arroz: foi a influência primeira desse tipo de excentricidade, que Mello soube tornar definitivamente numa experiência coletiva.
Hoje eu e Macedo voltamos do café da tarde e nos deparamos com um grupo de cinco marmanjos e uma marmanja em volta da mesa do Clube do Café, em calorosa conversa.
Não ficou para beber o café gurmê hoje? - perguntei a Macedo.
Hoje não é dia de degustação - respondeu meu nobre colega.
Logo a algazarra diminuiu, até se fazer silêncio e apenas os poc poc poc ressoarem pela sala, junto ao cheiro característico que acompanha tal barulho. Quando os barulhos pararam, comemoram: tinham comprado uma pipoqueira elétrica, a ar quente!
Fat free! - fez questão de ressaltar Mello, que explicou que a ideia veio semana passada, quando um cheiro de pipoca de microonda - dessas que fedem a manteiga rançosa, tipo de cinema - escapou do refeitório mais rápido que cheiro de peixe e invadiu nossa sala. E prometeu: semana que vem começa a trazer a manteiga para quem quiser misturar ao milho.
Goreti, que também não participa do Clube do Café, não falou nada. Mas imagino que, amargo do jeito que é, ao ver seu gesto de rebeldia anarquista-individualista se tornar um elemento de integração do pessoal e melhoria do desempenho, não ficou muito feliz.
21 de maio de 2026
PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas
quarta-feira, 20 de maio de 2026
Sexc, Sé e poliestireno expandido com meu sobrinho [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]
Ao deixá-lo em minha casa, meu irmão foi taxativo: nada de telas para o rapaz. Tranquilizei-o mostrando que havia comprado entradas para uma peça infantil no Sesc e que depois iríamos dar uma volta pelo centro - o que deixou meu irmão preocupado.
Qual é, não confia em mim? Alguma vez já perdi ele de vista?
Confesso que não senti muita confiança da parte dele, mas estava em cima da hora para o compromisso que tinham e não havia outra alternativa que não deixá-lo comigo.
Estávamos a caminho da unidade cujo espetáculo seria apresentado, e sentindo que a conversa não rendia muito, decidi usar o sotaque carioca para me referir ao local.
Você costuma ir ao Sexc? Perguntei.
Meu pai me leva de vez em quando.
E o que você mais gosta de fazer no Sexc?
Piscina foi a resposta dele. E nessa hora lembrei que essa realidade eu não possuo: não sendo comerciário, conheço o Sexc apenas da parte cultural.
E por que você está falando Sesc desse jeito estranho?
É mais goxtoso. Experimenta.
Assim fez - e gostou. Eu sabia! Diante de todas as restrições impostas à pobre criança pelos pais e pela escola Voldemort, qualquer leve sinal de desvio já traz um prazer. Notei bem isso quando assistimos a um desenho animado (para família) comendo salgadinho, refrigerante e chocolate: ele não sabia nem como se portar diante de tanta rebeldia.
Depois do Sexc, fomos passear pela Sé - ver a exposição no CCBB, que não era para criança, mas era uma das poucas coisas que os pais deixavam que eu fizesse com o garoto. Ele não se interessou muito, mas se comportou bem - como sempre. No caminho, nos deparamos com bules e copos de café gigantes. Diante de um desses copos, ele questionou:
Tio, que porra é essa?
De onde ele aprendeu a dizer porra, eu não sei. Certamente, não foi comigo. Mas fiquei com medo de repetir a palavra para seus pais logo depois de nosso dia aprazível e eu ter que me explicar novamente ao meu irmão, sem ter como me defender de algo que não fiz. Enfim, expliquei que tinha acontecido a semana de festival do café do centro, por isso aquelas instalações: era uma forma de chamar a atenção para esse problema - o baixo consumo de café - e estimular o turismo local. Não expliquei como isso acontecia, porque eu mesmo não fazia ideia: quem toma café continuou tomando café, quem não toma café não mudou o hábito por causa de um festival sem sentido, e quem pensava em tomar um café diferente no festival desistiu diante dos preços praticados.
A explicação não foi convincente, até porque eu não havia pego o ponto de meu sobrinho:
Mas tio, isso é um copo descartável, de isopor. Eles estão estimulando produzir mais lixo?
Argumento irretocável, o do meu sobrinho. Não tinha como dizer que não era bem assim: era isso, mesmo! Estímulo à produção de lixo desnecessário! E pior: café em copo de isopor perde até parte da graça, quando comparado a uma xícara de verdade.
Sei que você não pode tomar café, por enquanto, mas guarde isso para você: beba sempre café em xícara. E faça questão de café bom!
Foi a lição de moral que consegui tirar desse momento com meu sobrinho. Para trazer um conhecimento a mais, expliquei que isopor era marca, o nome correto é poliestireno expandido. Demorou para ele conseguir decorar o nome, foi me perguntando várias vezes no correr do dia.
Quando seu pai chegou para buscá-lo, contou rapidamente do nosso dia e com a empolgação de um guarda-parque mirim explicou que a prefeitura estava estimulando o uso irresponsável de poliestireno expandido no café.
Ah, é? Veja só, que coisa!
E a seguir olhou para mim, aquele olhar reprovador que ele sempre traz quando acha que fiz algo de errado - mesmo que seja a ampliação do vocabulário de meu sobrinho.
Servir café no copinho de isopor, expliquei. E tratei logo de esclarecer: não bebemos café nenhum, nem ele, nem eu.
PS: Ainda bem que ele não perguntou, porque eu entendi menos ainda o slogan da tal semana do café: “Entre. Sinta viva. O café.” O que é “sinta viva”? Entrar aonde? Na instalação? Enfim, questões profundas que, felizmente, meu sobrinho deixou passar.
sexta-feira, 15 de maio de 2026
A capa da Veja e a avenida para a antipolítica
Quando a mídia corporativa conseguiu assumir a narrativa do caso Master e passou a forçar um vínculo com o STF e com o governo Lula, Luis Nassif de pronto apontou que a Lava Jato 2 havia começado.
O objetivo era emparedar o STF, instituição que havia sido de fundamental importância para a preservação da nossa democracia de baixa intensidade, e abrir uma guerra midiática contra Lula e o PT, no mesmo estilo feito pela Lava Jato 1 (e, antes, o dito Mensalão). A grande diferença, ao meu ver, era a falta de um personagem outsider - como um juiz-justiceiro - que encampasse a guerra do bem contra o mal, em especial, contra a corrupção - ainda que, é certo, tal personagem não tivesse conseguido se cacifar a tempo para as eleições de 2018.
O áudio em que Flávio Bolsonaro aparece cobrando R$ 134 milhões de seu parça Daniel Vorcaro complicou a estratégia dessas elites. Se o Filho 01 é carta fora do baralho, ainda não é possível dizer: apesar de termos outros candidatos do espectro, ele vinha absoluto na raia da direita e extrema-direita, e chegava mesmo a aparecer numericamente à frente de Lula no segundo turno, ainda que dentro da margem de erro.
Creio que dificilmente se recupera, porém seu piso de votos, algo entre 20% e 30% do eleitorado, dificulta o processo de defenestração: pode-se insistir na sua candidatura, acreditando na memória curta de parte da população, alheia às questões políticas, associado à guerra midiática contra o PT, que seguirá intensa até outubro. O nome mais forte que parece despontar para substituí-lo é o da ex-primeira-dama, Michele Bolsonaro - mas aí temos as disputas internas da família.
Independentemente de quem será o candidato, a Lava Jato 2 continua. A prova disso é a capa desta semana da revista Veja - desnecessário adjetivá-la.Pesquisa Quaest sobre a percepção do escândalo do Master junto à população, divulgada dia 13 de maio, mostra que 46% das pessoas acreditam no envolvimento de toda a classe política - 11% atribui a culpa do escândalo ao PT e 9% a Bolsonaro. A capa de Veja, ao pôr as imagens de Lula, Flávio Bolsonaro e o ex-presidente Temer junto de Daniel Vorcaro reforça essa percepção, de que seriam todos “farinha do mesmo saco”.
Ao reiterar o descrédito da política como um todo, a Lava Jato 2 abre uma avenida para um aventureiro, alguém que se diga antipolítico, de fora do sistema, prometendo moralizá-lo. Com anos de satanização de tudo o que é público, essa moralização acaba por passar necessariamente pelo discurso de diminuição do estado - ou seja, por um projeto liberal. Eis que, dentre os nomes que são levantados nas pesquisas de opinião pode surgir um azarão, o dark horse da vez: Renan Santos. Com a capilaridade e o conhecimento do MBL de como atuar nas redes sociais e na internet, ele pode despontar como esse candidato anti-sistema, anti-Lula e anti-Bolsonaro ao mesmo tempo. Por ora segue embolado com Caiado e Zema, mas se conseguir se fazer mais conhecido no curto prazo, pode atrair a simpatia das elites e da mídia corporativa que a vocaliza, e ter um salto de exposição, alcançando o grande público.
Ainda é cedo para apostar nele como viável - vale lembrar que a criação de Bolsonaro para 2018 foi um processo longo -, porém há um caminho aberto e ele certamente está tentando se viabilizar por essa via. De qualquer modo, o desserviço feito à nossa frágil democracia pela atuação da mídia corporativa - tão bem representada pela capa de Veja - está feito. Mas pode piorar.
15 de maio de 2026


















