quarta-feira, 28 de março de 2012

Quando Ruth, a balconista, se esquivou de encarar a realidade

Há pessoas que têm dificuldade em lidar de frente com situações difíceis.

Tinha eu meu mensal programa da terceira idade - médico - em Campinas, e aproveito a deixa, é claro, para encontrar alguns amigos. Saio da consulta com o Aílton e tenho tempo de ir até a farmácia onde Ruth trabalha, antes de encontrar com Vannucci, com quem almoçaria. O horário da consulta, marcada há um mês, foi escolhido a dedo, para dar tempo de ir à farmácia de Ruth, no horário em que, a princípio, ela deveria estar atendendo.

Chego à farmácia, e tão logo a porta abre, dou uma olhada geral, ver se desta feita ela está lá. Sim, Ruth, a balconista, está! E está no caixa, pra facilitar: ou seja: não teria como não ser atendido, em algum momento, por ela.

Há, porém, entre a consulta anterior e esta, além da distância, um namorico no meio do caminho, e esta ida à farmácia era praticamente uma compra de adeus.

Vou até o balcão, peço minhas imprescindíveis vitaminas, as quais ainda sequer terminei o pote anterior - sinal de que ou o controle de qualidade do laboratório é falho, e estão e dando comprimidos a mais, ou não ando tomando elas com a esperada regularidade. A caminho do caixa, me vem uma idéia rápida, dessas que não tive (ainda não costumo ter) quando precisei de verdade: páro para comprar um pacote de preservativos. Chego no caixa e qual não é minha surpresa ao ver que Ruth, a balconista, que estava no caixa, voltou ao balcão, se negando a encarar os fatos, rejeitando minha sutileza de avisá-la que há outras mulheres no mundo - assim como há outros homens, e que desejo a ela muita sorte. Poderia até explicar: não é questão da distância, menos ainda contra uma bochechuda sardenta de belos olhos - a questão é que outro belíssimo par de olhos (e bochecas - quer dizer, corrijo: maçãs do rosto proeminentes) havia tido mais sorte.

Ok, cada um lida com sua dor como crê ser o melhor, pensei ao sair da farmácia. Mas então também pensei: por que raios eu comprei as tais vitaminas, se ainda tenho meio pote, me enrolando com uma balconista outra e perdendo a oportunidade de me encontrar frente a frente com Ruth, e dar meu recado a ela? Veio então outra dúvida: e se ela encarasse meu sutil sinal de adeus como um convite para daqui a pouco? Seria um momento já um tanto tarde pra ela tomar essa iniciativa... entendo que a distância, os desencontros atrapalharam muito... mas de qualquer forma, seria uma situação complexa... seria Ruth do outro lado do balcão... enfim, me abstenho de dizer qual seria minha resposta, para não me comprometer, já que Camila é capaz de vir a ler esta crônica.

Ao  sair da farmácia, vi Ruth me acompanhar com o olhar. Preferi não observá-la muito: esse olhar, essa conversa, esse convite, estavam já fora do tempo - gaguejavam.

Ao encontrar o Vannucci, dez minutos depois, já nem lembrava de Ruth: tinha novidades sobre um belo par de olhos para lhe contar. 

Campinas, 28 de março de 2012.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Um mar de rosas?


Andar na contra-mão, dançar conforme a música, buscar seu próprio bailado, disputar pra ser o primeiro. “La vie en rose???”, espetáculo da Companhia de Danças de Diadema, consegue apresentar uma interessante resposta à pergunta que se põe – se a vida é um mar de rosas.

Trata-se de uma apresentação alegre – otimista em alguma medida, portanto –, mas que não compartilha da idéia de uma alegria permanente e idílica. A trilha sonora é composta de várias músicas que se sobrepõem, de Bizet a hip hop, passando por Chico Buarque e Edith Piaf. Quem dá o tom, contudo, é Satié e suas Gnossiennes. Não faz muito, uma amiga disse que achava tristes as Gnossiennes e Gymnopedies. Eu as sinto de uma melancolia doce. Em “La vie em rose???” elas preenchem parte da coreografia com a sensação de falta, de ausência, e talvez seja essa uma das alternativas propostas pelo grupo para encarar o mar da vida: o estar com o outro – diferentemente de como começa a dança para uma das bailarinas.

A coreografia, contudo, não é linear, um caminhar para o encontro, para a alegria, para o mar de rosas. Ela tem o oscilar do oceano – esse que exige que navegar seja preciso, enquanto a vida dispensa dessas precisões, mais ou menos como cantam Pessoa em uma das músicas tocadas. Ora em harmonia, ora em disputa, ora em briga – se o paraíso talvez esteja nos outros, o inferno, já comentava Sartre, também está. A dificuldade em achar alguém que “dê uma mãozinha”, e a hesitação de se oferecer essa ajuda – que chega quando não mais necessária –, mostram os desencontros, as falhas de comunicação, os medos, os egoísmos.

A frase O que vocês estão fazendo?, repetida por uma das bailarinas três vezes, dá um outro ponto da resposta que o grupo tenta construir: parece que ter um pouco de consciência do que se está fazendo leva a um refazê-lo em outros termos – e não se trata de parar para pensar, às vezes é agir para pensar. Não por acaso a parte que me pareceu mais bela da coreografia vem depois dessa frase, dita após os cinco bailarinos dançarem belicosamente – com uma imagem urbana ao fundo, o que me pareceu uma ligação direta infeliz entre cidade e violência. O que vocês estão fazendo? Não havia resposta, e a conseqüência foi um maravilhoso flutuar da dançarina, bailando como o vôo de um pássaro – livre mas ciente das alturas que consegue alcançar, por mais que supere suas limitações –, com a ajuda dos cinco homens.

No final, após novamente a pergunta O que vocês estão fazendo?, cada dançarino em sua própria dança, gerando uma coreografia harmoniosa e bonita. Seria um grand finalle, a tão sonhada solução. Seria bonito, porém irreal, demais Poliana. A dança díspar de todos vai se homogeneizando, até todos estarem dançando igual – o que não é ruim por princípio, o problema é quando vira imposição. A saída para essa uniformidade, de todos juntos, mas isolados? Havia uma janela ao fundo, entreaberta, que mostrava luz do outro lado – uma janela, não uma solução.

São Paulo, 23 de março de 2012.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Motoristas em uma quinta à noite

Saio de casa apressado: queria jantar e ainda pegar algum mercado próximo aberto – hoje tinha preguiça de passear pela av. Paulista, como tivera de cozinhar algo decente no almoço.

Na rua da Consolação, o sinal para pedestres pisca e resolvo esperar. Um rapaz, seus vinte e cinco anos, atravessa a rua, vindo na minha direção. Para atravessar, precisa contornar um carro que parara em cima da faixa – dirigido por outro rapaz, também nos seus vinte e cinco anos. Enquanto passa, gesticula. Que foi, pergunta irritado o motorista, Porra, olha onde você pára, em cima da faixa, Que tem, não gostou, Não tem respeito, não, idiota, não tem educação. O sinal abre, mas os ânimos seguem exaltados. O carro parte, Eu devia descer e te dar uma porrada, isso sim, palhaço. O pedestre responde algo, mas eu já estou distraído com duas mulheres que dobram a esquina correndo – Pega ladrão, grita alguém do bar, em tom jocoso.

Na esquina seguinte, escuto barulhos estranhos vindos de um carro que espera o sinal abrir: um "japonês" acompanha a bateria da música que ouve batendo duas baquetas contra o volante – eu chutaria que ele é antes jogador de Guitar Hero do que baterista.

Dobro em direção à rua Augusta. Um homem, fora da faixa, perna enfaixada e muleta, atravessa lentamente a rua. Um carro se aproxima e vai diminuindo a velocidade, até ter espaço para contornar pelo lado – imaginei que fosse buzinar, mas não o fez. Bom que não teve pressa, porque dez metros a frente precisou parar atrás de uma fila de carros, num pequeno congestionamento – muito provavelmente porque algum motorista mais lento tentava estacionar.



Já na Augusta, dois andinos, um na caixa, outro no charango e na flauta de pan, tocavam uma música típica – como estava com pressa não pude parar para ouvi-los, infelizmente. Quando voltei da lanchonete, já haviam encerrado a apresentação, e uma esquina acima contavam o que haviam recebido. Em frente ao Conjunto Nacional um homem apresentava sua arte no saxofone. Nada traumático, do nível de Kenny G, mas lamentei que não fosse música andina.

No mercado, a caixa ganha da cliente um pão de mel. Obrigada, eu nem gosto de doce... sou pior que formiga. Apesar da caixa ter terminado sua frase, a cliente não havia ouvido a resposta: Dá para alguém que goste, então. No outro caixa uma mulher acena para seu "filho", um cachorro que a espera com a filha (esta sem aspas) do lado de fora.

No caminho para casa, nenhuma Flávia parecida com Carla Bruni, mas um grupo de japoneses (estes sem aspas) conversa animadamente – e me vejo concordando com o Cássio: parece que estão brigando, pela entonação própria do idioma.

Praticamente em frente ao prédio onde moro, espero os carros passarem para atravessar a rua. Uma mulher vem lentamente, conversando no celular enquanto dirige. De repente noto que avança em minha direção. Dou um pulo para trás. Pela velocidade não chegou a assustar – e eu, que de início achei que ela queria estacionar, e não que simplesmente perdera a direção do carro, concentrada que estava na conversa, acabo não tendo uma segunda reação de indignação.

Antes de chegar em casa, dou licença à Mercedes do vizinho do prédio ao lado, apressado que está em entrar na garagem. Pela pressa, devia estar com dor de barriga, os odores do organismo a pestilentar o carro caro, até então com cheiro de novo. E eu devia estar mesmo cansado, pois acabo não me irritando com mais isso – sequer para sarcasticamente cumprimentá-lo.

Sem sarcasmo, cumprimento Luís, o porteiro do turno, e subo para estudar mais um pouco – que troco por esta crônica.


São Paulo, 22 de março de 2012.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Elevador exclusivo

Hoje fui com meu irmão dar uma volta, apresentá-lo a São Paulo – ao mesmo tempo que ele aproveitava para me apresentá-la um pouco mais. Até sábado, quando chegou, o que meu irmão conhecia da cidade se resumia a ir de metrô do terminal rodoviário do Tietê até o da Barra Funda.

Chegou na hora que eu recebia a visita de alguns grandes amigos. Quando se foram, levei-o pra dar uma olhada no que é a Rua Augusta num sábado à noite – sem podermos nos demorar muito, pois ele tinha compromisso no dia seguinte, mas o suficiente para que o impressionasse o a fauna, a balbúrdia, o tanto de gente na rua.

Segunda-feira, com praticamente todos os museus fechados, restringimos nossa visita a um rolê pelo centrão de São Paulo: Mosteiro São Bento, Sé, Edifício Banespa, Largo São Francisco. A catedral da Sé, eu havia entrado pela última vez há uns sete anos. Lamentei que o quiosque que vende souvenir não vendesse café expresso, achei o lugar aconchegante, agradável – bem diferente do escuro, pesado e sádico Mosteiro São Bento, que eu ainda não conhecia. Tampouco conhecia o edifício Banespa e seu mirante – e as duas horas por cinco minutos de vista, tanto eu quanto meu irmão ficamos em dúvida se valeram a pena. O Largo São Francisco eu conhecia, mas nunca havia entrado na Faculdade de Direito.

O prédio, da década de 1930, projetado pelo sucessor de Ramos de Azevedo (responsável pelo Teatro Municipal, por exemplo), Ricardo Severo, é imponente e seu interior transmite muito bem essa imponência, como se anunciasse já em sua arquitetura: daqui sai a elite da elite tupiniquim, desde os tempos do Rei – louvada seja a Faculdade de Direito.

Os tempos eram outros, de um Brasil antigo, quase uma mera continuação do Brasil Colônia, e essa afirmação de superioridade de classe era natural e bem-vista. Diz o texto da faculdade, sobre o edifício: “representou a própria criação do estilo neocolonial, que agregava à moderna arquitetura, elementos do barroco luso-brasileiro, evocando a tradição cultural do país e do velho convento” – ocultou que a tal tradição cultural evocada passa também pelos seus aspectos sociológicos. E é essa tradição que segue presente para além da arquitetura, já neste Brasil Moderno, de modernização sempre conservadora, meio a la Lenin, com um passo para trás – mas não necessariamente para dar dois adiante.

Nossa visita à faculdade começou com a ingenuidade do meu irmão: foi entrando na biblioteca, para conhecê-la, como se público para a USP fosse sinônimo de algo destinado ao público e não a um certo, bem delimitado e selecionado público. O guarda, muito gentil, nos informou que precisávamos pegar uma autorização no prédio principal. No tal prédio, foi meu irmão quem chamou a atenção para os elevadores de uso exclusivo dos “senhores professores”. Pior: não bastasse essa distinção, os elevadores exclusivos para os senhores professores possuem ascensoristas. Sim, um funcionário que passa o dia sentado, esperando por esse ser superior – o Professor Doutor – entrar e dizer: segundo, e após um minuto, se tanto, anunciar, cabeça baixa, segundo andar. Ao mesmo tempo, toda essa pompa é incapaz de atentar para a manutenção do prédio, que tinha o teto e paredes descascando – mas era no terceiro andar, talvez por isso pudesse deixar passar: importante é o hall de entrada, a sala de visitas ser chique.

Ao chegar em casa, antes de escrever esta crônica, abro o Facebook. Uma amiga – que não estudou na “Sanfran”, mas na Unicamp, que também tem como meta (primeira, mas velada) garantir a distinção de classe – compartilhou uma tirinha falando das agruras dos pobres (ex) pós-graduandos de universidade pública, incapazes de conseguir um emprego à altura do que merecem – como acontece desde o trote, apelando ao tradicional escárnio da nossa elite intelectual (!?) para com quem não teve o mesmo berço ou a mesma sorte.

Com isso, fiquei na dúvida: melhor o escárnio pós-moderno – bem humorado (?) –, ou se prender às velhas formas de distinção. A segunda parece saber conciliar nossa tradição cultural com a modernidade que aspiramos e fingimos ter alcançado – e isso seria o Brasil democrático: toda doméstica tem direito a usar o elevador de serviço (não precisa subir pelas escadas). A primeira, ilustrada, não apenas acredita, como comprova cientificamente que alcançamos tal modernidade – nosso atraso se deve exclusivamente a uma elite (não ela, claro) perversa, e às domésticas, que insistem em preferir o elevador de serviço.


São Paulo, 19 de março de 2012.

domingo, 11 de março de 2012

Para que serve uma federação estadual de futebol?

Na década de noventa, me lembro, o campeonato catarinense era um campeonato menor – e não digo por ser do Paraná. Era visível pelo pequeno número de participantes – mesmo atualmente o campeonato só tem duas divisões, a primeira com dez, a segunda com sete times – e pelo papel menor no cenário nacional do futebol local. Até hoje, nunca um time catarinense ficou entre os quatro primeiros do campeonato brasileiro, enquanto o Paraná tem dois títulos, e oito vezes algum time do estado já ficou entre os quatro – sendo que o primeiro a conseguir a façanha foi o Londrina, em 1977.

Em 1989, os dois principais clubes da capital paranaense – Atlético e Coritiba, o Paraná seria criado apenas no final do ano – caem pra série B do campeonato nacional. No ano seguinte, Atlético consegue retornar à elite, e o Operário Ferroviário, de Ponta Grossa, fica muito perto de conseguir a vaga – termina em quinto, apesar de, no geral, a campanha ser melhor do que a do Atlético. Vale lembrar que estamos nos anos dos regulamentos kafkianos do futebol tupiniquim – ainda reproduzido por muitas federações estaduais, não sei se precisava lembrar da Paranaense. A partir de então, o estado sempre teve um time na primeira divisão nacional.

Em 1991, na série B, o Coritiba termina em terceiro, o Paraná, em sexto, o Londrina é décimo primeiro. O Operário, apesar de terminar à frente do Criciúma, foi despachado pra série C no ano seguinte, ao contrário do time catarinense. Na série A, o Atlético perigou cair, mas acabou ficando em décimo sétimo, de vinte clubes.

Em 1993, diante da virada de mesa da CBF, Coritiba consegue voltar à elite, mesmo tendo sido décimo segundo na série B no ano anterior – vencida pelo Paraná Clube –, e Santa Catarina consegue alçar um clube à elite do futebol brasileiro pela primeira vez em cinco anos. Depois de cinco anos, em 1998, o Criciúma cairia para a série B. Em 2001, quando o Atlético Paranaense levantou o caneco, não havia nenhum representante barriga-verde, enquanto havia os três da capital paranaense: o Figueirense subiria aquele ano, junto com o Paysandu. Deixava para trás o Avaí, Joinvile e Criciúma, mas também Londrina e Malutrom. Ou seja, nas duas principais divisões, haviam cinco paranaenses contra quatro catarinenses.

Em 2003, o Brasileirão adota o sistema de pontos corridos – apesar do forte lobby contra da Rede Globo. Desde lá, somando as participações dos clubes, são vinte aparições paranaenses na série A e nove na B, contra doze na A e quinze na B dos catarinenses. Em 2012, cada estado terá apenas um representante na elite do futebol nacional. Em compensação, na série B, serão três catarinenses – Avaí, Criciúma, Joinvile – e dois paranaenses – Paraná e Atlético. Santa Catarina ainda tem um representante na série C, que chegou muito perto de subir pra B em 2011, o Chapecoense. Isso se refletiu no campeonato estadual: o Coxa sobrou no campeonato paranaense – conhecido como Ruralzão – em 2011, enquanto o Figueira, que disputou com o Coxa vaga na Libertadores, acabou em terceiro no catarinense.

A organização dos times, sem dúvida, é fundamental para bons resultados. O Barcelona não é a referência que é hoje por um acaso. O crescimento do Figueirense tampouco se dá sem planejamento. Há um outro fator, contudo, que ajuda a entender a inversão de papéis entre o futebol paranaense e catarinense: o apoio das federações.

A novela do campeonato paranaense da divisão de acesso em 2012 mostra o porquê dessa inversão entre o futebol desses dois estados.

Depois de uma campanha merecedora do rebaixamento, em 2011, não adiantou brigar na justiça desportiva, o Paraná Clube fez jus pelo que jogou e foi enviado para série B do Ruralzão. Eu, ingenuamente, imaginando que a FPF tinha o objetivo de fortalecer o futebol no estado, já via o Paraná numa pré-temporada de luxo: sem a pressão de disputar o título, com times muito inferiores, podendo fazer dos jogos jogos-treinos, poupando os titulares de viagens, e aproveitando pra observar reservas e jogadores da base (que um dia já foi referência e revelou craques do nível daquele que hoje ocupa a prancheta do time). Eu deveria ter me informado mais sobre FPF, Hélio Cury e cupinchas.

Para “não prejudicar” times do porte do Júnior Team, a FPF recusou o pedido de antecipar o campeonato – ela que deveria ter tomado a iniciativa de fazê-lo, sem necessidade de pedido de clube algum. Apenas a título de comparação: a Federação Paulista de Futebol tem suas três divisões principais ocorrendo simultaneamente. Primeiro porque sabe que acavalar o calendário da A2 com a B do Brasileirão prejudicaria clubes como o Santo André. Depois, porque sabe que eventualmente as divisões de acesso podem apresentar jogadores aos clubes principais. Mais: faz acordo com a Rede Vida para transmissão dos jogos da A3 em rede aberta.

Enquanto isso, nestes tristes sub-trópicos, em nome de “justiça” e não prejudicar clube algum, a federação prejudica uma das três forças do estado, e ainda pode fazer com que os demais clubes tenha um enorme prejuízo. Conforme levantamento do blogueiro paranista Luis Hansen, se o Paraná fizer respeitar as 66 horas entre duas partidas, o campeonato da Divisão de Acesso, que deveria ir de maio a julho se estenderá até outubro; ou seja, clubes sem receita tendo que arcar com salários pelo dobro do tempo. O detalhe: o Paraná Clube se mexia e praticamente havia conseguido transmissão pela TV, negociando um patrocinador para a competição. A FPF, já em férias, e em respeito à unanimidade, recusou o arranjo.

A conclusão desta breve comparação é óbvia: enquanto Santa Catarina consegue elevar sua representatividade no futebol nacional, com clubes de quatro das oito regiões do estado nas três principais divisão do país; no Paraná, mal e mal restam os três grandes da capital. No próprio estadual, apenas seis, das dez regiões em que o estado é dividido, possuem representantes. O tradicional Londrina, só em 2012 voltou à elite do futebol estadual, e faz uma campanha mediana; o segundo time mais antigo do estado, o Operário Ferroviário, de Ponta Grossa, só não está disputando o rebaixamento no seu centenário porque Paranavaí e Irati assumiram as últimas posições e parecem dispostas a não sair dali. A federação o que faz? Para ajudar o futebol do estado, absolutamente nada: seus diretores devem achar que há coisas mais importantes pra federação cuidar. O que? Aí só eles poderiam responder.


São Paulo, 11 de março de 2012.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Viva os noivos!

O Facebook, como outrora o Orkut, tem como grande utilidade não deixar esvair-se o reino da fofoca. Nos põe numa grande aldeia global (não faço referências aqui a McLuhan), em que bisbilhotamos a vida de todos, apesar de não conhecermos verdadeiramente ninguém.

Pato Branco, claro, já está conectada à internet, tem Coca-Cola, e essas coisas básicas – outras novidades, um pouco menos alardeadas, ainda não chegaram: procurei em quatro super-mercados. Aqui, porém, além da aldeia global, resta a aldeia local. O centro da cidade contribui para o encontro. Organizado de forma que lembra – em partes – shopping centers, com calçadas muito bem iluminadas, lojas bem cuidadas, bancos para se sentar – que fazem com que a rua seja mais do que um lugar de passagem, como também de encontro –, e uma certa assepsia social. Por aqui as listas de casamento ainda estão nas vitrinas das lojas. 
 
Meus pais têm por hábito parar em uma dessas lojas e atentar para quem são os casamenteiros, para ver se tem algum conhecido, ou mesmo para conhecer nomes novos – esses nomes que os pais, em arrombos da criatividade, cravam em bebês indefesos para o resto da vida.

Caminhava com eles pela cidade, paramos na referida loja, e nenhum nome esdrúxulo. Em compensação, um casal trazia nomes conhecidos. Nomes que me levaram a quinze anos atrás, quando eu tinha meus quatorze anos, por aí, e costumava ir à casa de um amigo – morava no décimo andar –, comer esfirra, jogar lixo para janela, só para ver cair, e assistir ao programa X-Tudo (que na minha casa não pegava TV Cultura).

O noivo, havíamos estudado junto – os três – em algum cursinho de inglês. A noiva – cuja irmã, junto com uma amiga, foi das primeiras a mexer com minha imaginação pré-adolescente – era a primeira paixão desse meu amigo.

Teve um dia que, cansado dos seus reiterados suspiros apaixonados, resolvi aconselhá-lo. Propus uma tomada de atitude sumária, do estilo chega junto e manda ver, sem blábláblá, direto ao ponto. Um ano mais velho, o aconselhei fazendo uso da autoridade do meu maior tempo no mundo – o que não queria dizer, em absoluto, que fosse mais escolado nas coisas do mundo. Seguiu meu conselho, tão crente nele como no amor e em Jesus Cristo. No dia seguinte voltou me amaldiçoando solteirisse eterna e com apenas uma das crenças das que tinha no dia anterior. Ao menos resolveu o meu problema com seus suspiros.

Ao chegar em casa depois do passeio com meus pais fui, é claro, bisbilhotar o Facebook. O noivo, filho de uma das famílias-coronéis da cidade, parece bem mais velho do que é. Seu emprego, não sei qual é, mas deve ser tocar os negócios da família sem afundá-los – e creio que tenha competência para isso. Ela, no que trabalha nem chega a ser importante, já que será esposa de um dos donos da cidade. Aproveitei e vi o “perfil” desse amigo da infância. Talvez se meu conselho tivesse dado certo, ou então, mais sensato, se ele não tivesse seguido meu conselho e tivesse outra sorte, atualmente fosse uma pessoa diferente, com mais leveza e menos culpa. Entretanto, a contar por hoje, nem o meu, nem o conselho de quem fosse, teria alterado suas chances com a guria.

Em tempo: o noivo nunca me pediu conselhos para nada.


Pato Braco, 07 de março de 2012.

sábado, 3 de março de 2012

Serra candidato: sepultura tucana e nova disputa moralista?

Sem acompanhar com muita atenção os jornais durante a semana, fui pego de surpresa com a nomeação do Bispo Crivella – que prefere não ser chamado de bispo – para o ministério da Pesca. A primeira pergunta: Bispo Crivella na pesca?? Logo a seguir respiro aliviado: ainda bem que não no da Educação ou no Ministério de Desenvolvimento Social. Vem, então, uma segunda questão – já respondida –, mas que mesmo assim faço, e julgo até mais importante: por que uma secretaria com estatuto de ministério, com todo o dispêndio que acarreta? Pra quê, está claro: moeda de troca política. E o timming da substituição dos ministros – justo quando Serra anuncia sua pré-candidatura à prefeitura de São Paulo – não deixa dúvidas para isso.

A prefeitura valendo um ministério para a bancada evangélica, outra coisa para não se admirar: um dos pré-candidatos de São Paulo, Chalita, vem como representante da Paróquia de Aparecida; com Serra na disputa, o PT se arma para uma nova disputa a la 2010: família, aborto, religião, casamento gay, divórcio, valores, Deus – logo voltaremos a discutir o biquini e a mini-saia.

Serra como candidato é o PSDB cavar a própria sepultura. Para médio prazo, sepultura eleitoral: o partido tem sérias dificuldades em repor seus quadros, e o demonstra ao aceitar Serra para a disputa em São Paulo, ao mesmo tempo que abdica de concorrer em outras cidades importantes do Estado, como Campinas e São José do Rio Preto. Na ânsia de uma vitória no curto prazo – Maringoni diz que os partidos da chamada direita não sobrevivem sem o Estado, por falta de base social –, o PSDB perde a chance de se renovar – por mais que tal renovação seja repaginar o sobrenome, como Covas em São Paulo, Richa no Paraná, Neves em Minas. Serra pode vencer – o eleitorado paulistano é suficiente conservador, não esqueçamos a dupla Boris Casoy-Jânio Quadros, em 1985 –, mas, diante das disputas fratricidas internas tucanadas, o único a ganhar com isso é ele. Se perder, perde o partido todo – e Kassab, que embarcou nessa empreitada por puro sentimentalismo.

Se essa questão dos quadros – cuja modelo de renovação, no Brasil, ficou marcada como sendo típica do PFL/DEM – é um dos aspectos que apontam para a sepultura tucana, a outra, mais imediata, é do próprio ideal de um partido moderno – naquelas modernização-conservadora típica tupiniquim, da qual nem o PT escapa. O PSDB já possui Alckmin como governador do principal estado da nação – dispensando comentários sobre seu conservadorismo truculento –; com Serra novamente em destaque, vai assumindo e se firmando como um partido conservador não apenas na economia – que isso o PT também é –, mas principalmente nos costumes (comentei isso em crônica anterior [j.mp/cG24112]).

Não há como não lembrar de Chico de Oliveira, quando este falou da irrelevância da política pós reformas estruturais da era FHC: com o principal partido de oposição sem um projeto alternativo para o país, sem uma discussão sobre a urbe, resta a rinha em cima de migalhas moralistas, num momento de recrudescimento das posições conservadoras – de esquerda e de direita, é bom salientar.

Pior: o PT sabe disso, não nega, e se adapta: ele sabe da irrelevância da política e não tem interesse em alterar esse panorama, pois se beneficia dele.


Pato Branco, 03 de março de 2012.