rEflexões aleatórias sobre questões aleatórias. nÃo são exatamente opiniões, são antes tentativas de entender o mundo que me habita.
quinta-feira, 30 de julho de 2015
terça-feira, 28 de julho de 2015
Menos Odílio, mais Francisco, por favor [ou, praça da Sé, 28 de julho de 2015, 16h]
Enquanto
o Papa Francisco anima progressistas dos mais variados matizes -
incluídos os ateus - com o direcionamento que tenta dar à igreja
católica, mais próxima ao povo e sensível às questões sociais, a
igreja católica do Brasil - ou ao menos a de São Paulo - caminha na
direção diametralmente oposta. Ainda fico a me questionar se os
rumos ditados por dom Odílio Scherer são mera questão de vingança
de um ressentido, afinal, ele foi preterido por um argentino (e,
diria Nietzsche, nada mais cristão que ressentimento e vingança),
ou se ele possui uma convicção verdadeira (fé?) no fascismo e nos
ideais da Casa Grande.
Começo
com um exemplo requentado. Não sei o quanto saiu do círculo dos
filhos da PUC (como este que aqui escreve) ou do restrito círculo
universitário, a polêmica em torno do veto à Cátedra Michel
Foucault, na PUC de São Paulo, feita pelo arcebispo de São Paulo,
Dom Odilio Scherer. Com o veto, a universidade - na qual estão dois
dos principais especialistas do Brasil nesse seminal filósofo do
século XX, Márcio Alves da Fonseca e Salma Tannus Muchail - pode
ter que devolver os áudios com as palestras do francês, recebidas
do Collège de France. O argumento: as idéias de Foucault não estão
em consonância com os princípios católicos. Argumento bastante
razoável, pensando na igreja da Idade Média. Inclusive, Foucault
merecia ter ido para a santa fogueira por pelos menos dois bons
motivos: pensar e ser homossexual. Como Foucault mortuus est,
ainda se pode jogar seus livros na fogueira - ou ao menos seus
heréticos áudios.
Admito,
isso de início me deixou perplexo: teria a igreja católica
brasileira complexo de ser sempre do contra? Quando no Vaticano
estavam reacionários, a PUC-SP abrigava comunistas e ateus; agora
que na basílica de São Pedro está um progressista que prega,
dentre outras coisas, o diálogo com as outras religiões, a PUC-SP
tenta excluir tudo o que soe minimamente desviante dos "princípios
católicos" - o pensamento de Foucault ou os professores Peter
Pál Pelbart, Jonnefer Barbosa e Yolanda Gloria Gamboa Muñoz
[http://j.mp/1D6KSI4]. E onde fica a infabilidade papal para Odílio
Scherer? Valeu de Pacelli a Ratzinger, mas não vale para Bergoglio?
Tive
nova mostra da cara da igreja católica de dom Odílio na tarde deste
28 de julho.
Eu
caminhava pela Sé quando avistei dois policiais militares levando um
homem pelo braço. A cena me chamou a atenção pela estranheza da
atitude dos militares: agiam com firmeza, mas não com a truculência
que, via de regra, dispensam à (chamada) escória social. Pensei que
talvez o homem tivesse sido apartado de uma briga com outros
moradores de rua que estavam ali perto, mas o homem estava muito
calmo para alguém que brigava, e o resto da escória social também
- definitivamente, não houvera briga. Ele tentava argumentar com os
militares, que apenas ordenavam que caminhasse um pouco mais. Não
poderia ser algo relacionado ao metrô, pois para isso há a
segurança da empresa. Passando mal? Se era intenção ajudá-lo (mas
por que a polícia militar ajudaria um pobre, que não produz nem
paga imposto?), por que o levavam com aquela firmeza e tantos passos?
Ao
passar ao lado da catedral da Sé, minha dúvida é, ao menos
parcialmente, sanada. Comenta o segurança da igreja com um grupo de
pessoas, como se estivesse no púlpito, diante da cena que ainda se
desenrola ao longe: "olha, olha o que eles vão fazer: levam até
lá e soltam. Fazer só isso não adianta nada, logo ele volta...".
Provavelmente o homem estava pedindo dinheiro ou havia entrado na
casa de Cristo (que heresia!). Fiquei a me indagar o que o segurança
da catedral da Sé queria que os policiais fizessem: prendessem-no
por ser negro e pobre (e quer motivo maior que esses dois?)? Dessem
uma "geral" das antigas, pra ver se ele aprende a não
importunar os cidadãos de bem? Ou simplesmente "apagassem"
o cidadão, que nada tem a contribuir com a sociedade (afinal, é
sabido há longo tempo que o Brasil é esse país de segunda
categoria por causa dos negros e nordestinos, incompententes para a
vida civilizada, como atestam as recentes investigações sobre a
corrupção)?
Bem,
essa cena que presenciei talvez prove que, contrariamente ao que
disse acima, dom Odílio Scherer siga os passos do papa Francisco:
atento à questão social, não hesita em chamar a polícia militar
para tratar dela, como sempre aconteceu nestes tristes trópicos; e
quanto à proximidade do povo, apenas uma questão de definir povo:
se for patriarcal, conservador, branco, heterossexual e com uma conta
digna de entrar no ramo VIP dos bancos, a igreja católica e o reino
dos céus está de braços abertos ao povo. Por fim, tolerância de
pensamento é algo que Dom Odílio Scherer também deve visar: os que
ele considera povo têm total liberdade de se expressarem, mesmo que
isso possa parecer contraditório aos "princípios católicos"
- como ser favorável à pena de morte e à violência contra
minorias por serem minorias, por exemplo.
Talvez
o papa Francisco seja um ponto fora da curva da história católica -
e ainda não conseguiram enviá-lo para se retratar diretamente com
deus. Mas nele eu tenho esperança - quase ouso dizer fé. Para o
Brasil: menos Odílio, mais Francisco, por favor.
28
de julho de 2015.
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Não basta emporcalharem a praça, querem ainda entrar na igreja? |
sábado, 18 de julho de 2015
Gatos mágicos somem com toalha!
Logo
ao acordar notei que faltava a toalha de chão que eu havia deixado
secando na porta da máquina de lavar (parênteses: minha casa é
"estilo londrino", conforme uma amiga que morou em Londres,
isto é, a lavanderia fica no banheiro. Fecha parênteses). Não fui
tomado por nenhum espanto com esse sumiço, sabia que era coisa da
dupla com quem divido apartamento. Procurei no banheiro, não achei.
Estranhei que tivessem arrastado para fora dele sem deixar qualquer
marca, uma vez que a toalha estava bem molhada. No quarto, embaixo da
cama, nada. Na sala, nada. Na cozinha também não, já que ela fica
fechada. Encafifei onde os dois teriam enfiado a toalha - e como?!
Busquei mais uma, duas vezes, nada. Sai para meus afazeres, perplexo
da toalhar ter desaparecido assim: seriam meus gatos mágicos?
Descartei que pudessem tê-la comido: era muito grande, mesmo que
cada um ficasse com metade. Mais plausível que tivesse conseguido
enfiar no canto onde somem bolas, canetas e outras coisas que dou pra
eles - ou eles pegam sem eu dar -, apesar de toalhas não rolarem,
ainda mais molhadas. Voltei para casa, me pus a buscar a dita toalha
- agora, com mais calma, eu daria conta que estava na minha fuça,
mas me passara despercebido. A contar que eu sabia onde estava minha
fuça, a toalha não estava junto a ela. Nem embaixo dos móveis, nem
em cima deles. Nem embaixo da colcha - vai que na pressa para arrumar
a cama, não tivesse notado que eles tinham subido ela para meu
leito. Gatos mágicos? Comecei a ficar preocupado: eventualmente
tenho o sono bem pesado - já perdi concurso por ter desligado quatro
despertadores sem acordar de fato -, e sonhei algumas vezes que eles
haviam tentado (e conseguido) escapar pela porta - num dos sonhos
Guile se atirava do corredor, quatorze andares abaixo. Seria eu
sonâmbulo, e parte do que eu achava que eram sonhos se tratavam, na
verdade, de fatos mal-percebidos pela minha consciência
semi-desperta no meio do deambular dormente? Teria eu levantando à
noite, aberto a porta, posto a toalha no lixo e voltado a dormir?
Temi não só pelos gatos, como por mim mesmo! Outra busca pela casa,
nada. À noite eu conversava com minha mãe pelo telefone, falava
justo dessa preocupação que ia me tomando, de que eu fosse
sonâmbulo nível hard, abrisse a porta de casa pela
madrugada, perseguisse gatos fugitivos e jogasse toalhas no lixo. Ou
seriam meus gatos realmente especiais? Foi quando abri a janela da
sala para eles irem um pouco "fora" (os cinco centímetros
entre a janela e a rede de segurança): a toalha estava no trilho da
janela (e assim que se chama?): então lembrei! Eu havia posto ela
ali durante a madrugada, quando começou a chover forte e com vento,
para evitar que entrasse água no apartamento. A sensação de
alívio, admito, foi enorme! Resumo da história: nem gatos mágicos
ou comedores de toalhas, nem sonambulismo hard, apenas um
lapso causado pelo sono e uma crônica sem graça.
18
de julho de 2015.
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E o medo que eles tivessem levado uma toalha molhada pra cima dos meus livros? |
sexta-feira, 17 de julho de 2015
Tudo o que é leve se desfaz no chão [Diálogos com a dança]
"Dançar na selva de pedra" - foi a leitura feita pela amiga que me acompanhou ao espetáculo Sim, da KeyZetta&Cia, na Galeria Olido. De minha parte, não saí com leitura alguma, e mesmo depois, pouca coisa consegui captar do que o espetáculo pretendia comunicar. Não, isso não é uma crítica ao espetáculo: não quer dizer que não aproveitei ou não gostei, apenas não entendi, não consegui decifrá-los em códigos que me são familiares - e como o estranho, o estrangeiro, me atrai, estar em território desconhecido, me deparar com signos alienígenas pode ser algo prazeroso, ainda que um prazer diferente de quando me deparo com algo que me é familiar.
Este blablablá sobre mim mesmo pode soar egocêntrico e sem muita relação com o espetáculo que me propus comentar, contudo mostra ou uma severa limitação deste escriba ou algo sobre a companhia. Sem negar limitações razoáveis de minha parte, prefiro atribuir o estranhamento ao mérito de Key Sawao, Ricardo Iazetta e demais integrantes. Sim foi o quarto ou quinto espetáculo da companhia a que assisti - já deveria estar, portanto, mais familiarizado com sua linguagem. Sem contar que há um ano e meio sou aluno da Key Sawao.
A KeyZetta&Cia parece sempre disposta a pesquisar e experimentar elementos exógenos ou pouco usuais à sala de espetáculos e a apresentações de dança: sua veia é claramente na performativa, em jogos - questionadores - com o logos ou com o espaço. Sim dialoga com o espaço - e com a própria dança. Logo de cara, causa estranhamento a paisagem de um bosque pintada ao fundo, como cenário - não parece ornar com dança contemporânea. O chão, coberto de pedras brita, também desloca o espectador da sua zona de conforto - inclusive olfativa (daí haver máscaras cirúrgicas para o público se proteger da poeira) e sonora. A união entre esses dois elementos, admito, eu não consegui concatenar, diferentemente da minha amiga - talvez pelas pedras me remeterem imediatamente a estacionamento (não sou da cidade grande, onde shoppings oferecem estacionamentos asfaltados).
E são as pedras, em especial seu barulho, o que mais me chama a atenção: elas dão um grande peso aos gestos, a toda a dança. Me fazem lembrar de um dos meus trechos favoritos de Em busca do tempo perdido, no qual Proust comenta da importância da audição para dar corpo ao que é visto: “quanto ao surdo integral, visto que a perda de um sentido acrescenta tanta beleza ao mundo como o não faria a sua aquisição, é com delícia que passeia agora por uma Terra quase edênica onde o som ainda não foi criado. As mais altas cascatas se desenrolam, para os seus olhos apenas, mais calmas que o mar imóvel, como cataratas do Paraíso. Como o ruído era para ele, antes da surdez; a forma perceptível sob a qual jazia a causa de um movimento, os objetos movidos sem rumor parecem movidos sem causa”
Pode não ser agradável, mas Sim está intimamente ligado à audição, ao barulho das pedras sob os corpos que dançam sobre elas. Assim, todo gesto do espetáculo ganha corpo, esse corpo pesado que o balé clássico tenta fazer esquecer em seus saltos, que muito da dança - ao menos para o senso comum - tenta ocultar com seu ideal de leveza e superação da gravidade. Foi nos solos de Beatriz que essa condição e contradição me saltou aos olhos: seus gestos são leves, o movimento de seus braços me soam aquosos, mas o som desfaz a impressão de leveza que os olhos captam. Não querendo acreditar que aqueles gestos fossem capaz de tamanho peso, desconfio que o chão seja microfonado - minha amiga diz que não, e ela tem razão, uma vez que não há variação na altura do som, esperado conforme se aproxima ou se distancia do microfone.
Saio da Olido sem fazer ligação entre os movimentos dos intérpretes com o cenário e a trilha sonora de bosque com os sutis movimentos de luz com o chão cheio de pedras. A única ligação que consegui fazer foi entre a leveza e o peso - e para tanto, alguma coisa, algum preconceito, algum conceito há muito arraigado, se rompeu.
17 de julho de 2015
quarta-feira, 15 de julho de 2015
1964 e 2015: algumas comparações
É
evidente e explícito que parte do Establishment
tupiniquim se organiza com vistas ao poder. Há um golpe em curso -
que ora parece almejar a destituição da presidenta da República,
ora parece se conformar em agir como a Rede Globo, Veja, Fiesp e
congêneres, agiram na eleição de 1989, com manipulação,
mentiras, terrorismo e tudo aquilo que é de conhecimento público (a
quem tem interesse por conhecer algo da história recente do país).
Porém, entre desejar e organizar um golpe (e mesmo aplicar um golpe
midiático) e achar que a tomada do poder está em marcha, como parte
da esquerda vê desde o fim do ano passado, vai uma certa distância.
Contudo, mesmo deixando de lado casos folclóricos (como Paulo
Henrique Amorim, que vê golpe em cada esquina, parecendo a versão à
esquerda de Dennis Lerrer Rosenfield, professor de filosofia que no
início dos governos petistas via comunista em cada poste e ganhava
amplo espaço na Grande Mídia, quando a direita ainda buscava um
ideólogo com algum estofo intelectual), tanto se fala em golpe que
soa conveniente traçar alguns paralelos entre a situação atual e a
que antecedeu o golpe civil-militar de 1964 - não por achar que a
história se repita, mas porque parte das forças sociais atuantes
continuam as mesmas, e seguem agindo de modo semelhante à de
cinqüenta anos atrás.
Conforme
Caio Navarro de Toledo, em "A democracia populista golpeada", as características principais do país no
momento anterior ao golpe de 64 são: "uma intensa e prolongada
crise econômico-financeira (recessão e uma inflação com taxas
jamais conhecidas); constantes crises político-institucionais; ampla
mobilização política das classes populares (as classes médias, a
partir de meados de 1963, também entram em cena); fortalecimento do
movimento operário e dos trabalhadores do campo; crise do sistema
partidário e um inédito acirramento da luta ideológica de
classes". Enquanto isso, no sub-continente americano vários
governos popularmente eleitos foram, estavam ou seriam
desestabilizados e derrubados por golpes de Estado: Colômbia, 1957;
Venezuela, 1958; Cuba, 1959 (vale lembrar que Fidel e companhia foram
inicialmente saudados pelos EUA, que patrocinou tentativa de golpe
contra o regime em 1961); Argentina, 1962 e 1966; Peru, 1962;
Guatemala, Equador, República Dominicana e Honduras, 1963; Bolívia
e Brasil, 1964 - para ficarmos só em uma década. Atualmente,
acompanhamos tensões políticas na Argentina, Venezuela, Chile,
Peru, Colômbia, Honduras e México - além da crise no Brasil.
Para
além do que foi levantado acima, Dilma, assim como Jango, é
herdeira política de um estadista com apuradíssimo faro político,
está diante de um congresso conservador e sua base de sustentação
nele é limitada. Recentemente, os movimentos sociais - cujos ânimos
arrefeceram após a ascenção de Lula - retomaram parte da pauta da
sociedade, via Movimento Passe Livre e Movimento de Trabalhadores Sem
Teto; enquanto os panelaço anti-PT, assim como a Marcha da família
com Deus pela liberdade, são marcadamente manifestações de uma
elite (branca) e aspirantes a. Na economia, observa-se uma guinada à
direita na economia - então com o Plano Trienal, adesão à
ortodoxia proposta pelos EUA para ajuda externa, agora via
(Anti-)Plano Levy. A semelhança mais importante a se levantar talvez
seja o conluio feito pelas elites locais com apoio do capital
internacional, capitaneada por uma direita pouco comprometida com a
democracia e seus valores e defendida, justificada e estimulada pela
Grande Imprensa - essa descaradamente anti-democrática.
Há,
contudo, diferenças, e muitas soam bastante fortes para inibir um
golpe de fato - restando a alternativa de golpe via mídia para
influenciar as urnas. A primeira e mais visível é que os militares
- no Brasil e nas vizinhanças - não têm intervindo diretamente na
dinâmica política. Diante das manifestações de março, por
exemplo, eu apostaria antes no exército atuando conforme ordens da
presidenta Dilma a debandar para o lado golpista - poderiam, com
isso, cobrar o fim de investigações sobre a ditadura. Outra
diferença: conforme Toledo, no governo Jango, a partir do segundo
semestre de 1963, "uma pergunta passou a dominar a cena
política: Quem dará o golpe?".
Atualmente, amplo espectro da esquerda defende a democracia -
inclusive prega seu aprofundamento -, e tanto o governo Dilma quanto
o PT já deram reiteradas mostras de respeitarem as regras do jogo
democrático, diferentemente do PSDB, que aprovou a ementa da
reeleição em benefício próprio e agora fala em destituir a
presidenta sem qualquer base legal (não apareceu qualquer escuta em
que o principal ministro do chefe do executivo combinava com um
subordinado, "no limite da irresponsabilidade", quem seriam
os vencedores das privatizações da telefonia, por exemplo). Por
fim, outra diferença marcante é que, enquanto o prógono de Goulart
havia dado um tiro no peito uma década antes, o de Dilma segue vivo,
ativo e forte - mesmo com a campanha cerrada da Grande Imprensa
contra Lula há mais de uma década. Inclusive, seu nome é
reiteradamente ventilado, tanto pela direita quanto pela esquerda,
como candidato a ser batido em 2018 - e seria parte do golpe
midiático mudar esse panorama até lá.
Não
vejo, portanto, condições para um golpe de Estado neste momento,
como apregoam muitos analistas de esquerda - e apologistas de
direita. O que não quer dizer que esteja tudo tranqüilo: há um
intenso movimento para enfraquecer a presidenta e tirar o PT do
comando do executivo federal, se aproveitando do poder desproporcional que a direita possui,
graças ao oligopólio da mídia - com o qual tenta reviver a questão
de 1964, sobre quem dará o golpe -, e aos aliados na presidência
das casas legislativas federais, dois personagens sem qualquer pudor
nem respeito pela democracia. Com esse panorama, o PSDB, o Cunhistão
e os barões da mídia não deixariam passar a oportunidade de um
golpe "dentro das regras democráticas", como foi feito
para a aprovação da reforma política ou da maioridade penal.
Esperar a tentativa de golpe para então reagir é um modus
operandi típico de nossa
esquerda super-intelectual. A esquerda está numa situação bastante
delicada: precisa defender a democracia sem defender as atuais regras
de eleição, que geram esse parlamento abjeto, e sem defender o
atual governo - ao menos enquanto enquanto Dilma não decidir dar uma
guinada à esquerda e se aproximar dos movimentos sociais, como
defende Boulos. É preciso nos anteciparmos: cerrar fileiras pela
democracia e pelo seu aprofundamento, defender políticas sociais e
principalmente, neste momento, combater a direita dentro do seu
próprio campo.
15
de julho de 2015
sexta-feira, 10 de julho de 2015
quarta-feira, 8 de julho de 2015
Lei da terceirização e privatização
Em
abril, o Cunhistão aprovou a lei da terceirização (PL 4330/04),
que libera as empresas para terceirizarem também suas atividades
fim. Os críticos do projeto dizem que terceirizar significa
precarizar; os defensores, que não implica necessariamente em
precarização do emprego. Penso estarem corretos os segundos, na
teoria; na prática, os primeiros se mostram pornograficamente certos
- ou alguém tem algum conhecido que trocou um emprego contratado por
um equivalente em uma terceirizada? Já os que fizeram, ou gostariam
de fazer o caminho inverso...
Nos
destaques à lei, foi aprovado um que excluía as empresas públicas
e de economia mista das novas regras da terceirização. Um dos
defensores do destaque é o deputado udenista Carlos Sampaio, do PSDB
de São Paulo, que diz que isso garantiria o ingresso por concurso
público. O intuito aparentemente é nobre, mas - infelizmente -
convém ter atenção redobrada àquilo que udenistas em geral - os
tucanos em particular - apregoam como benéfico ao público. Vale
para a água, vale para a CPMF, vale para a redução da idade penal,
vale também para esse destaque na lei da terceirização.
Deixar
as empresas públicas de fora significa preparar o terreno para a sua
privatização. A relação não está explícita, mas é evidente. O
principal ataque dos ideólogos do neoliberalismo às empresas e à
administração pública é quanto a sua presumida ineficiência -
diferentemente do presumido eficiente setor privado. Eficiente ou
ineficiente neste caso pensado em termos estritamente monetários,
sem qualquer preocupação social: fazer mais com menos. Ora, um
principais custos de uma empresa é sua folha de pagamento.
Terceirizar ataca justamente esse custo: o funcionário contratado
que custava dez, terceirizado custa seis (por mais que o funcionário
mesmo receba quatro). Se uma empresa cobra R$ 2 por um produto ou
serviço, e a empresa concorrente cobra R$ 1,60 pelo mesmo produto ou
serviço, o consumidor não vai comprar o mais caro porque a empresa
paga R$ 1 ao funcionário, enquanto a outra paga R$ 0,50: vai comprar
o mais barato. Excluir as empresas públicas da terceirização é
colocá-las em grande desvantagem competitiva - ineficiência que
será sanada pela privatização.
Não
estou aqui defendendo a terceirização - pelo contrário, diante do
retrocesso social que ela representa, sou contra. O que pretendo
alertar é para o fato de que o ataque às empresas públicas
continua cerrado, e vai além de escândalos de corrupção na
Petrobrás (curiosamente o Metrô de São Paulo passa incólume, por
ora), se insinuando muitas vezes de forma sutil, preparando o terreno
onde parece não ter nenhuma relação.
08 de julho de 2015
domingo, 5 de julho de 2015
Por outras notícias, por outras provocações!
Em
seu livro Sociedade Excitada: filosofia da sensação,
Christoph Türcke comenta que não é qualquer fato que merece ser
notícia, e sim aqueles que dizem respeito a todos - ao menos era
assim na Roma antiga, em que eram noticiadas questões concernentes
à res pública. Com o
advento da imprensa de massa e da indústria cultural - da empresa
jornalística -, o que merece ou não ser notícia, que coisas são
relevantes ao público ou não, passa a ser alvo de disputa - tanto
quanto aquilo que é noticiado. Na pressão por vendas, a imprensa
corporativa não hesita em dar relevância a temas irrelevantes -
mas
que atraem o público -, e não tem pudores em ser seletiva nos
assuntos da res pública que
devem ser considerados importantes.
Além desta necessidade de sobressair, Türcke destaca outros dois
denominadores comuns da notícia em nosso tempo: deve ser nova e
deve
ser compreensível. Este último aspecto implica na simplificação
da realidade, em tornar um assunto complexo em familiar ao grande
público, em algo quantificável, em uma imagem - ou seja, em algo
próximo da linguagem publicitária: que demande o mínimo de atenção
e esforço mental. Sobre a necessidade de ser sempre nova, algo
merecedor de ser notícia em um dia deixa de sê-lo no dia seguinte
se não houver desdobramentos que o justifiquem. Ao cabo, a lógica
da notícia acaba sendo invertida: "a ser comunicado, porque
importante" a ideologia apregoa, sub-repticiamente, que
"importante, porque comunicado".
Tudo isto mostra algumas das dificuldades da imprensa alternativa,
tanto na questão do conteúdo quanto da forma: como impôr pautas no
debate público, quais pautas postas pela Grande Imprensa merecem
ser
discutidas; de que modo fazer isso?
Não
resta dúvida que as novas tecnologias têm alterado nossa
percepção:
cada vez é mais difícil manter a concentração em um longo texto
enquanto links para assuntos relacionados surgem aos borbotões em
todos os lados da tela do computador ou do celular. Isso
justificaria
reduzir a análise a um tuíter, a um slogan publicitário, a uma
palavra de ordem? Coxinha
e petralha são dois
exemplos de "conceito-síntese"
que permitem uma crítica em uma linha: enuncia-se o "descalabro"
ou o "desrespeito" e avisa que é coisa de petralha
ou coxinha. No que
isso contribui para o debate?
Ademais:
devemos aceitar como notícia apenas o que está candente? Estamos
estarrecidos com a votação da PEC da maioridade penal, mas não
podemos esquecer que ainda correm a reforma política e a lei da
terceirização. Assim como rebatemos o que a Grande Imprensa nos
faz
lembrar diuturnamente, não podemos sucumbir ao esquecimento
seletivo
que ela - e o ritmo alucinado da timeline
do Fakebook - nos propõe.
Provocar, mas não pela provocação rasteira veiculada na Grande
Imprensa e repetida alhures, que apenas reforça posições e incita
o ódio. Por uma provocação que nos desestabilize da nossa zona de
conforto, que critique também o ponto onde estamos. Por uma
provocação que nos convide a repensar e a rediscutir - e nos
incite
a agir.
05 de julho de 2015
quinta-feira, 2 de julho de 2015
Disputas na madrugada
Após ler minha última crônica sobre meus companheiros de apartamento, a voluntária da ONG Adote Um Gatinho que intermediou a adoção de Mafalda e Guile, hoje minha amiga no Fakebook, se disse espantada de eu ainda disputar com os peludos se eles dormirão comigo ou não. Se me conhecesse um pouco melhor, bem provável que se espantasse dos gatos ainda insistirem em dividir cama - e travesseiro! - comigo. Conto aqui um pouco dessa questão tensa que é dormir.
De início, as primeiras duas semanas, uma maravilha: eles dormiam na cadeira "deles", eu na minha cama. Se durante a noite precisavam ir ao banheiro - onde fica sua caixa de areia -, atravessavam meu quarto sem fazer barulho. É que ainda se consideravam visitas. Foi notarem que a casa era deles também e folgaram. Talvez tenha sido esse o período mais tenso da nossa relação noturna - até esta semana. Quando eu pensava em dormir, eles acordavam com a pilha toda. Não importava a hora: se num dia eu ia dormir à uma, eles estavam hiperativos às dez pra uma. Se no dia seguinte eu fosse dormir às três, à uma eles dormiam satisfeitos, e às dez pras trés eles acordavam - na pilha. Correm, pulam, derrubam, brincam, batem, sobem na cama, miam, sacolejam, alopram: tudo o que não haviam feito o dia todo, quando eu estava acordado - ou sequer estava em casa -, os dois dito cujos faziam na hora que eu ia dormir - e não havia o que fizessem param. Até então minha cama tinha um estatuto ainda ambíguo, certas noites era apenas um dos brinquedos desse apertado parque de diversões notívago, outras era a cama deles também. Meu irmão passou uma semana em minha casa nessa temporada, sofreu com a hiperatividade deles: houve uma noite que ele trancou os dois na sala, junto comigo, sem lembrar de pôr junto a caixa de areia. Foi durante a visita de meu irmão que eles, pelo visto, passaram a identificar a cama mais com o dono do que com a cama mesmo: antes de serem trancados sem banheiro novamente, passaram a me procurar para dormir.
Essa fase passou, felizmente. Digo, a fase de fazerem bagunça justo na hora em que vou dormir: agora eles esperam eu começar a roncar para só então tocarem o terror no apartamento, conforme verifico seguidamente pela manhã. Não me acordando, não me incomodo. A nova - e atual - fase, apesar de mais tranqüila, não o é de todo. Seria, se Mafalda seguisse os passos de Guile: ele chega, sobe pelos pés da cama, procura um lugar livre na metade de baixo, deita e dorme. Mafalda, não. Ela chega miando, não sei se anunciando sua chegada ou reclamando de não ter sido chamada, sobe na cama, passa por cima do meu rosto, cheira meu nariz, se preciso, passa por cima do meu rosto de novo, e insiste até achar uma brecha e dormir de conchinha: ou ela "por trás", uma pata entre meu braço e o corpo, se eles estão próximos, ou ela enconchada, se acaso deixo espaço entre o braço e o corpo suficiente para se enfiar. Para coroar, começa a roncar. Sim, também acho uma graça gato ronronar - mas não quando quero dormir! Aquele barulho bem junto ao meu ouvido e aquela mini britadeira me chacoalhando. Tento afastá-la, ela reclama, volta, afasto uma vez mais, ela demora pra voltar, e quando volta (se volta) já não estou mais neste mundo.
Esta semana, em outra (incomum) noite de insônia, Mafalda querendo dormir de conchinha, coloquei ela pra dormir junto com Guile, nos pés da cama - uma, duas, três vezes. Até os cobri com um outro cobertor - para ficarem mais à vontade. Ela reclamou, desceu da cama, logo voltou, ficou com o irmão e dormimos. Manhã seguinte, preparo minha vitamina para o café da manhã e vou me sentar na espreguiçadeira que tenho - um tecido em uma armação de metal. Ao sentar, sinto o pijama molhar. Me levanto, desacreditando que fosse o que parecia ser. E era: ela tinha mijado em minha espreguiçadeira (por sorte, para limpar é só jogar na máquina de lavar). Passou o dia arredia, mesmo à noite, quando tentei fazer as pazes. Na hora de dormir, se achegou direto com Guile. Gostei, e se ela se sentia vingada pela nova distribuição na cama, nem reclamaria mais da sua travessura. Por vias das dúvidas dormi com uma orelha em pé.
02 de julho de 2015
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