sexta-feira, 18 de maio de 2012

Soninha Francine e o metrô “sussa”

Soninha Francine, pré-candidata do PPS à prefeitura de São Paulo, jura que foi ironia o que escreveu no twitter: "Metrô caótico, é? Não fosse pela TV e o Twitter, nem saberia. Peguei linha verde e amarela sussa". Sendo uma figura pública e conhecendo das suas posições políticas, não consegui encontrar a ironia na frase – e não creio na sua incapacidade intelectual para ironias, antes na sua inabilidade política para tentar salvar o chefe. O comentário foi uma clara tentativa tornar o acidente na linha 3 como um caso isolado, resguardando o resto do maravilhoso sistema de metrô da cidade.

Sua frase serviu de gancho para lembrar a decepção – não só minha – que a ex-apresentadora e agora política profissional foi para uma geração – essa que hoje está entre os vinte e cinco e trinta anos, mais ou menos. Com bandeiras progressistas na área de direitos humanos, lembro de muitos amigos terem votado nela para deputada federal, em 2006, quando era ainda filiada ao PT. Depois trocou de partido, foi para o PPS, partido reboque de segunda mão (em vias de se tornar de primeira, com o naufrágio do DEM) do PSDB. Em 2010 apoiou Alckmin e participou da campanha de José Serra, dois dos expoentes mais fortes do conservadorismo reacionário em direitos humanos. Soninha definitivamente se transformava numa carcaça do que um dia havia sido.

Surpreende? Não. Decepciona, isso, sim.

Não surpreende porque Soninha é antes cria da indústria cultural. Oriunda da MTV, onde a linguagem da emissora – na época, década de 1990 – dava aos apresentadores a impressão de donos de uma personalidade independente e não mero representantes de um figurino para a ocasião, teve coragem de admitir que fumava maconha e de ter feito um aborto. Se admitir que usava maconha custou-lhe o emprego na emissora controlada pelo PSDB, ter assumido o aborto, para sua sorte, não lhe custou a estima do cruzadista da moralidade, José Serra – porque político, como comunicador, é uma espécie bem maleável. Contudo, ao aceitar participar da campanha do candidato tucano, parece que, no fundo, aceitou o pensamento de todo bom moralista: que os outros não façam aquilo que julgo errado, por mais que eu já tenha feito.

Sentimento semelhante de deslumbramento com um candidato parece ter acontecido com Marina Silva, na eleição para a presidência, em 2010. As diferenças, contudo, são enormes, e não fosse a própria Soninha jogar fora seu histórico, soaria ofensivo a comparação: Marina Silva é o Alckmin de saia, aversa aos avanços dos direitos civis, só que travestido num discurso up to date de preservação do meio-ambiente. Discurso que não é vago, visto sua história de vida, mas que não me surpreenderia ela ir para o outro oposto, caso fosse politicamente necessário – vide seu silêncio sepulcral durante todo o início da discussão do novo código florestal, quando ela estava mais preocupada em disputar o poder interno do PV.

Não tenho certeza disso que vou falar agora: porém tenho a impressão de que o Tiririca é menos nocivo à política nacional – encarando aqui além de seus aspectos pragmáticos, no que há de simbólico –, do que a Soninha. Ou talvez, sendo mais sensato, o palhaço Tiririca talvez seja só uma versão sem disfarces da comunicadora Soninha Francine.

São Paulo, 18 de maio de 2012.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Um acidente para começar a discutir São Paulo?

Em meio a discussões sobre copa do mundo, CPI, Comissão da Verdade, o acidente do metrô, esta quarta, dia 16 de maio, pode ter sido o pontapé inicial para que a disputa pela prefeitura paulistana se dê em torno de problemas do município. O acidente é mais um episódio que se soma aos constantes problemas com o sistema ferroviário urbano, que vão de crateras a casos de corrupção, passando por panes em trens e agora acidente no metrô. Felizmente não houve mortos ou feridos graves. O mais grave atingido talvez tenha sido o PSDB, que tem o estado de São Paulo como foco de resistência contra seu esfacelamento a la DEM, e de busca de uma identidade de um partido que não sabe a arte de fazer política em sua completude (ora como governo, ora como oposição).

A precariedade dos serviços de transportes públicos na cidade e região metropolitana são evidentes. São poucos os corredores exclusivos para ônibus, a espera nos pontos é grande e os trajetos das viagens não raro são um tanto irracionais – do ponto de vista do usuário. Quem reclama da lotação do metrô é porque desconhece o que é (ou era, ao menos, antes da linha quatro) o trem para Osasco: com intervalo de até vinte minutos, domingo à tarde os carros iam cheios. A vez que tive a brilhante idéia de pegar às sete da noite de uma sexta-feira, tive uma sensação de estar no trem para o inferno.

Como comentou um cara com quem vim de carona de São Paulo: a linha quatro foi inaugurada não faz um ano, e a cidade se mostra hoje impensável sem ela. Quantas outras linhas amarelas não seriam impensáveis, caso existissem, mas que sua na ausência, vamos dando um jeito e tocando a vida do jeito que dá? A resposta do PSDB para o problema do transporte público foi dizer que trem é metrô, e contribuir para o caos urbano, com novas faixas na marginal Tietê.

A título de comparação: São Paulo e Pequim possuíam, na década de 1970, malha metroviária muito próximas, algo em torno de 30 km. Na virada do século, São Paulo tinha 47 km, contra 53 km da capital chinesa – que em 2003, com duas novas linhas, foi para 113 km. Hoje Pequim tem 372 km em 15 linhas e 218 estações, contra as cinco linhas paulistanas e seus 74 km de trilhos onde se espalham míseras 64 estações – ainda acusadas de levar gentalha aos bairros onde vive gente feliz, como Morumbi ou Higienópolis.

O PT deve explorar o episódio, inaugurando, finalmente, um assunto de interesse local na disputa local que ocorre este ano. Faz parte da hipocrisia política representativa: um partido que jogasse justo não ganharia nada. Convém lembrar, contudo, que enquanto a expansão (ou criação) dos metrôs pelo país vai devagar, quase parando, apesar de ser mais do que urgente, o governo federal – PT – insiste no trem bala ligando São Paulo ao Rio. Conversava com o arquiteto português que mora comigo, e ele contava da idéia dos trens balas em Portugal: o deslumbramento do país crescendo, e a vontade de ser como toda a Europa rica, que possui trem bala, levou o governo a começar a implementação de três linhas. Depois de alguns gastos com desapropriações e início das obras, foram abandonados. Quando me contou, senti o Brasil embarcando um pouco atrasado nesse trem que Portugal já havia abandonado.

Que o acidente do metrô e a discussão que promete seguir dele ao menos faça com que o debate sobre a disputa municipal se centre na urbe, seus problemas quotidianos, propostas para torná-la menos hostil às pessoas que nela vivem. Que a disputa seja pautada em projetos sobre o futuro da cidade e não sobre o futuro dos partidos e candidatos. Porque o que vimos até agora foi a cadeira de prefeito ser disputada por conta da função que teve nos últimos anos: trampolim para cargos mais “nobres”.


São Paulo, 17 de maio de 2012.