Acordo domingo com as cenas da destruição do Teatro de Contêiner, há dez anos na região da Luz, junto à (mal) chamada Cracolândia.
A justificativa oficial é destinar a área para moradia popular. O ponto é que não basta moradia, é preciso qualificação do entorno, tanto que a própria prefeitura, em seu site, diz “no terreno, está prevista a construção de unidades habitacionais, além de espaços de lazer e convivência integrados ao plano de recuperação da região central” (https://bit.ly/4lV1OJm). Nesse aspecto, um teatro que se apresenta também como área de convivência, e tem toda uma relação com o entorno, seria um equipamento dos mais valiosos. Por que não mantê-lo e utilizar outras áreas das cercanias para as moradias? Isso seria de interesse dos próprios moradores.
Há outros equipamentos culturais na região, mas nenhum com a mesma vocação que o Teatro de Contêiner para atender a uma população que vive em moradia popular, não apenas por conta dos valores praticados, como por toda uma série de barreiras invisíveis que são postas a quem não tem berço - ou ao menos uma boa renda para se passar por um dos iniciados (sei que a Osesp até lançou campanha de “vá como se sentir confortável”, mas há uma série de códigos velados que inibem, praticamente impedem, certo tipo de público).
O ponto para entender é do que se trata o “plano de recuperação da região central”. Recuperar do que, de quem, para quê, para quem? Se o interesse fosse realmente o bem estar das pessoas (já residentes e futuros moradores), esse equipamento seria um elemento vital na recuperação da região. Entretanto, não é difícil desconfiar que a recuperação aqui é a recuperação do capital investido em compra de imóveis velhos, e o público almejado para ocupar as futuras residências da região seja o mesmo que frequenta a sala São Paulo. Sim, o público da Sala São Paulo também pode ocupar o Teatro de Contêiner (não sou o único a fazer esse trajeto), o problema deste é que ele não era seletivo o bastante, pelo contrário, atraía diversos tipos de público, inclusive os indesejados do capital e seus representantes governamentais.
O desejo de “revitalização” da região da Luz é antigo e foi tentado por vários governos - como não lembrar do Complexo Cultural Teatro de Dança (com projeto de Jacques Herzog e Pierre de Meuron), da época de José Serra? Depois de vinte anos, com uma direita que não teme em mostrar para quem trabalha, sem laivos de democracia ou apreço pela vida - que o digam as ações para “limpar” a dita cracolândia -, o projeto de utilização da Luz para valorização do capital vai ganhando corpo - sobre corpos humanos tidos por descartáveis.
Porém, mais que apenas valorização do capital, há um elemento a mais nessa direita - ou, como disse, o Teatro de Contêiner seria um ativo a mais para a região, e mesmo assim foi demolido.
Para o capital e a extrema-direita que hoje é seu representante preferencial, toda manifestação cultural que não seja publicidade, que não seja elogio do poder, do status quo, deve ser perseguida, banida, proscrita. O Teatro de Contêiner é justamente o oposto desse elogio. Mais que um discurso, ele é uma prática de contestação, pela forma como se enraizou no território, sendo mais que uma sala de espetáculo, um espaço de convivência e de inserção na sociedade - como pelo coletivo Tem Sentimento, que atuava junto ao Teatro.
A destruição do Teatro de Contêiner é uma declaração de guerra contra a cultura e contra toda a população que por anos viveu num território abandonado pelo poder público. A truculência com que essa destruição foi feita, desde o início, mostra que a moderação com que são pintados o governador Tarcísio de Freitas e o prefeito Ricardo Nunes é apenas uma fantasia - construída pela mídia para quem sabe fazer genuflexão aos cifrões -, e não hesita em passar o trator, ou melhor, a polícia, por cima de quem ousa fazer política.
O sentimento que toma meu domingo é de tristeza, como se tivesse perdido alguém querido. Relembro, com Lia, as ótimas peças a que assistimos ali - da Mungunzá, mas também de outras companhias, como o Coletivo Comum. E é a lembrança dos seus espetáculos - em especial do penúltimo, o sensacional Elã, feito já com toda a perseguição do estado no encalço - que me faz ter certeza de que se o objetivo da extrema-direita e do capital é matar o projeto que o Teatro de Contêiner representa, não foi desta vez que conseguiram: o trabalho ali desenvolvido foi movido antes de tudo por sonhos e amor à arte e à cidade, deixou raízes, e em breve voltará a frutificar. Viva o Teatro de Contêiner! Viva a Cia. Mungunzá!
23 de março de 2026
PS: pertinente o questionamento de Marcos Felipe, da Cia. Mungunzá: para além de toda a truculência e do agir escondido, em pleno domingo, por que o estado gastou dinheiro para levar a estrutura do Teatro de Contêiner até a avenida do Estado e não até o terreno que havia cedido pela municipalidade?

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