sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

O ciclo de vida de um sabujo [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Vida de doutor ou doutora sabujinha não é tão simples assim, reconheço. O deslumbre inicial dos chefes uma hora começa a virar desconfiança, a cobrança por resultados passa a se intensificar, e todo aquele trabalho para fazer com que os números atendam ao que superior queria que fosse verdade vai se desfazendo diante da realidade, que insiste em contradizer os desejos do chefe e as adequações feitas pelo sabujo ou sabuja de turno.

Aqui na empresa teve o doutor Sabujinho que de golden boy, elogiado no meio do expediente em voz alta para todo o setor ouvir, logo se tornou criticado abertamente na reuniões diante da sua inépcia, até começar um processo de assédio, mesmo - quando ele conseguiu uma boa vaga em empresa concorrente, certamente usando das suas habilidades fagúndicas (para usar a personagem da Laerte).

Rivarola, o doutor Sabujinho anterior à atual, era mais vivo e quando viu que suas técnicas de persuasão estavam fazendo água e, mais ainda, quando os resultados que ele precisava entregar começaram a aparecer e se mostraram pífios - os melhores -, tratou de conseguir uma transferência interna - deixando para o nobre colega Desembargador ter que organizar um plano de contenção para dar conta da série de erros primários cometidos.

Agora, pelo visto, é a vez de Pacheco, a doutora Sabujinha, começar seu período de decadência. Hábil na arte de apresentar os dados que o chefe gostaria de receber - e não aqueles que a realidade insiste em entregar -, ela vinha gozando de uma posição bastante tranquila, de pouco trabalho, muita churumela de que vinha com bastante trabalho, e complacência da chefia imediata e superior. Isso até seus lindos relatórios chegarem nos executivos da empresa e estes cobrarem as provas do que vinha sendo reportado. Não havia. Pior, precisaram recuperar um relatório antigo de Carnegie - antes de ele ser escanteado pela doutora Sabujinha -, para evitar que outro B.O. nível Rivarola surgisse.

Outro sinal de que seus “bip-bopping days are over”, de que já era o tempo em que ela sambava na nossa cara, fazia e desfazia quase como se fosse a chefe, se deu na reunião de setor desta semana. A chefe repassou uma nova demanda para ela, que de pronto alegou estar com muito trabalho (o que eu atesto que é mentira, nosso setor é consideravelmente tranquilo). Como a chefe insistiu para que ela ficasse com essa demanda, não se fez de rogada:

Goreti já faz um trabalho que é quase igual a esse, pode deixar com ele.

Goreti não falou nada, apenas alternou o olhar entre ela e a chefe. Esta, que estava respondendo a algo no celular, tratou de terminar sua resposta antes de contestá-la:

Goreti já está trabalhando em outro projeto da área, este fica com você.

Confesso que me regozijei em júbilo, como se diz no clichê, com essa invertida - mais um sinal de que doutora Sabujinha logo procurará outros ares. Macedo discorda da minha avaliação, não crê que a decadência da colega seja tamanha, e eu tive de admitir que ele tem sua boa dose de razão:

Você viu o olhar do Goreti? Parecia um psicopata! Foi para deixar qualquer um com medo.

Foi mesmo. 



22 de janeiro de 2026


segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Deepfakes e a crise epistemológica do cotidiano

Uma cacatua grita “Alexa, play music!” e diante da execução do comando começa a dançar, enquanto a dona grita, exasperada, de fora do quadro, que são duas da manhã. O vídeo curto é engraçado e pode ser real. Ou pode ter sido criado por inteligência artificial. Não sei. Vejo um outro vídeo, um homem mostra os detalhes que atestam que o referido vídeo da cacatua é falso. Ele dá argumentos lógicos e me convence. Porém, não entendo de IA para ter certeza de que o ele fala é fato. Mais, pode ser que esse entendido em IA seja ele também criado por IA - e não saberei identificar, a não ser que outro vídeo venha me provar sua falsidade ou não.

O grau de realismo alcançado com as deepfakes e a facilidade com que são criadas são assustadores. Para além de usos nocivos mais imediatos, como golpes de todos os tipos e interferências nas eleições (que não deixa de ser uma espécie de golpe, mas a vítima é coletiva), vislumbro que essa tecnologia, caminhando para seu paroxismo, sinaliza um problema de ordem epistemológica.

Se a pós-verdade, a hegemonia da opinião sobre o fato, da doxa sobre a episteme, já provocou cisões na sociedade, na sociabilidade; os deepfakes ultra-realistas tem potencial para levar à dúvida de tudo e de todos, em um movimento de descrença generalizado - não se trata mais de desdenhar do fato em prol da explicação mais lógica para seu sistema de crenças, mas de não poder verificar o fato para tirar qualquer conclusão a partir do que se viu. No nosso dia a dia dentro da internet, realidade e falsidade passam a ter exatamente a mesma aparência.

É possível que a ciência, a academia, tenha ferramentas para fazer essa distinção de modo seguro, a ponto de não afetar a produção científica (não vou entrar neste assunto, mas em vídeo na internet, a historiadora portuguesa Raquel Varela sugere a supressão da IA no ensino [bit.ly/4qPa5j5]). Primeiro porém: o tempo da política (entendido aqui como tempo da sociedade) não é o tempo da ciência: o desmentido de uma informação não sai de pronto, exige certo tempo, que por mais que seja curto, dificilmente será da velocidade com que uma notícia falsa, um vídeo deepfake se alastra. Segundo problema: a própria divulgação científica hoje depende da internet, e a lógica de circulação da informação não é de se buscar os canais oficiais, e sim repassar o que se recebe. Novamente o problema da fala de um especialista poder ser uma deep fake dele próprio - Dráuzio Varela é uma das personalidades mais usadas para aplicação de golpes na internet [bit.ly/3LgHqEG]. 

Poderíamos confiar na mídia? Para além do viés de suas publicações, deixando de lado muitas notícias de importância para a população em geral, vale lembrar que ela também não raro acaba por reproduzir seus preconceitos ao invés de se ater ao fatos. Um ótimo exemplo do viés de confirmação da mídia foi a “trolagem” do Não Salvo, enganando quase o mundo todo, do Guardian ao New York Times, passando pelo UOL e Globo, com a notícia de que a Coreia do Norte estaria noticiando que ganhara a copa de 2014 [bit.ly/4b36NEt]. Teríamos ainda os fact-checks, mas esses também são conduzidos majoritariamente pela mídia hegemônica, com auxílio da academia, e recaem nos problemas acima assinalados.


Diante disso, correr atrás de desmentir o deepfake e a fake news não é uma alternativa. De desmentido em desmentido, corrói-se a confiança como um todo - e hoje a internet tem uma relevância enorme como fonte de informação e meio de socialização. 

Que tomemos todas as precauções possíveis para não sermos enganados por uma deepfake, como saber que as pessoas dos nossos círculos, com quem compartilhamos dos mesmos pressupostos, tiveram o mesmo cuidado, e a opinião que formaram não foi com base em um vídeo falso? Como confiar nas novidades do mundo que as pessoas próximas nos contam?

Não se trata, portanto, apenas do receio de um deepfake imitar uma pessoa próxima para aplicar um golpe, mas de pôr em dúvida a pessoa em carne e osso na nossa frente, de que aquilo que ela sabe de fato aconteceu, e não são fakenews, deepfakes.

Não acredito que haverá uma regressão na tecnologia, de modo a evitar essa situação; tenho dúvidas que a regulação dará conta dessa questão; creio antes que precisaremos atravessar essa crise epistemológica para criar repertório que nos permita recobrar a confiança nos próximos - e em nós mesmos, em última análise. Até lá, tempos difíceis se desenham.


12 de janeiro de 2026

Vídeo criado por IA

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Uma vacina para as deepfakes?

Em 2016 “pós-verdade” era escolhida a palavra do ano pelo dicionário Oxford. O conceito diz respeito à decadência da relevância de fatos objetivos em prol de uma narrativa carregada de emoções que corrobora o viés de confirmação da pessoa, mais que uma interpretação, é uma manipulação do fato. Dez anos atrás, para uma fake news, via de regra, era preciso recortar um fato - ou criar um factóide - e alimentar uma narrativa a respeito, com forte apelo emotivo. Era necessário tempo, repetição, múltiplas abordagens. Não que isso fosse algo novo: a verdadeira novidade era a perda do controle dessa narrativa por parte do estado ou dos entes paraestatais, em especial a mídia hegemônica (poderia citar o sequestro de Abílio Diniz, em 1989, ou então citar Foucault, que comenta de expediente similar no século XVIII). 

Junto com as fake news, outro fator comportamental que impacta na emergência da pós-verdade são as redes sociais. Com seus perfis segmentados e publicidade direcionada, a internet afetou profundamente a ágora, o espaço público de debate público e político, transformando o que antes era uma discussão aberta - não que necessariamente fosse democrática, mas ao menos sabíamos o que estava sendo discutido - em discussões nichadas, feitas em bolhas. Descobrimos isso de modo muito amargo em 2018 - em que gritávamos para nós mesmos “ele não”.

Os avanços da IA generativa nos levam a um novo patamar da pós-verdade. Não é preciso desenvolver minuciosamente uma narrativa, concatenando pontos diversos para encaminhar uma conclusão (como reportagens sobre casos de corrupção, oleodutos cuspindo dólares, discurso de que o país estaria quebrado, para concluir que a culpa era da esquerda e do PT), um vídeo único pode acabar sendo uma prova quase cabal de algo cujo contexto já esteja minimamente pronto (em geral, contexto ditado pela extrema-direita e forças conservadoras). E, novamente, a esquerda parte em desvantagem. Não somente porque estamos num contexto enviesado, de criminalização e satanização (nestes tempos de ascensão religiosa, este termo cabe) das esquerdas e de forças progressistas, o que facilita um evento absurdo poder ser considerado verdadeiro, como por questões financeiras, algorítmicas e mesmo éticas - já que a mentira aberta não é uma estratégia da esquerda brasileira, diferente da extrema-direita, que atua sem pudores.

Em minha bolha, influenciadores de esquerda começam a se mexer contra as deepfake que certamente inundarão o país na época eleitoral (ou alguém espera que Kassio Nunes e André Mendonça, respectivamente presidente e vice do TSE na hora do pleito, vão se mexer para tentar evitar esse tipo de crime?). E fazem-no com uma estratégia que me parece bastante inteligente: ao invés de pegar casos e centrar nos possíveis usos eleitorais - vamos reconhecer, para quem trabalha em escala 6x1, limpa a casa, cuida dos filhos e precisa se divertir, fica difícil achar energia para ainda se debruçar sobre a política institucional -, mostram como uma deepfake é feita e como ela pode afetar nosso dia-a-dia, com golpes de todo tipo. 

Esses vídeos soam uma possível vacina contra as deepfakes no período eleitoral. E, ao mimetizar aquilo que foi muito utilizado na campanha do mensalão e anti-petista na mídia hegemônica (e na qual não há qualquer questão ética), eles não dão a mensagem direta, antes entregam as premissas, mas deixam a conclusão óbvia para quem o assiste - que vai, assim, se achar muito sagaz por ter chegado à conclusão de que políticos podem querer mentir usando deepfakes.


09 de janeiro de 2026







sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Tikal, a altura do tempo [Viagem à Guatemala]

 Três vezes por semana costumo ir à pé para o trabalho - são quarenta minutos de caminhada. Todos os dias subo os sete andares até onde trabalhava (uma semana antes das férias fomos transferidos para o vigésimo quarto andar). Isso para dizer que não estou tão fora de forma e que o passeio a Tikal é mesmo exigente, como subir as escadas até o templo IV, de setenta e cinco metros (os vinte e quatro andares que pretendo começar a subir todos os dias), depois de já ter subido outros três templos e o observatório astronômico, de alturas consideráveis, sem falar nos templos mais baixos, mas com degraus grandes, que forçam ainda mais as pernas. Ademais, ao fim, meu relógio marcava  doze mil passos, o que dá entre oito e nove quilômetros.

Tikal é a maior ruína maia da Guatemala, com milhares de construções - muitas delas ainda por escavar.

À chegada, apenas o vislumbre dos fundos do templo do Jaguar já impressiona. Impressiona é pouco, não acho palavras para descrever a sensação de quando vejo o paredão de pedras com sua cúpula por entre árvores, enquanto o guia Carlos ainda dá explicações gerais sobre a organização da cidade. Eu preciso de silêncio para processar - e há um tipo de silêncio ali que não é feito de ausência de sons. E mesmo agora é difícil pôr em texto (minha capacidade como escritor é limitada, ainda mais por não ser poeta). Se eu fosse minimamente místico, eu poderia me referir à energia do local - porque, sim, há algo que impacta para além do racional: um local grandioso demais, com histórias demais, com detalhes demais, com mistérios demais para eu dar conta de entender minimamente a importância com minha vida estreita de classe média remediada.

Fundada ainda antes da era comum, vivendo seu apogeu no período clássico da cultura maia (200 a 900 dC), e abandonada logo em seguida, Tikal chegou a ter trinta mil habitantes internos, numa população total de duzentas e cinquenta mil pessoas. Conforme Carlos, a cada cinquenta e dois anos (quando o calendário solar e o lunar-religioso se encontram) se suplantava o tempo e o templo anterior, por um mais largo e mais alto. É de se imaginar quantas gerações não construíram seus templos sobre outros ali, e qual tamanho não teria se a cidade tivesse persistido.

Nas décadas de 1950 e 60 foi escavada por missões científicas estadunidenses da universidade de Pensilvânia que, claro, saquearam o que encontraram, de objetos quotidianos e rituais a frontões de templos. Restaram os templos - porque não deu para levar. Mas um deles, o de face sul na praça central, me conta Carlos, desmoronou por conta dos túneis das escavações científicas. O Ocidente agindo como Ocidente - Lia diria: branco fazendo branquice. 

Desse desmoronamento é possível ver outras camadas de construções, com suas máscaras grandiloquentes: os novos templos eram construídos sobre os antigos, sem destruí-los, apenas adicionando novas camadas. 

Ainda na praça central, subi no templo das Máscaras, com cerca de quarenta metros de altura. Tratava-se de um local que era exclusivo para sacerdotes e do seu alto dá para sentir o poder dessa posição: abaixo pessoas diminutas, à frente, fazendo vez ao seu tamanho, o templo do Jaguar. E no horizonte, a floresta e o peso de milhares de anos de história.












05 de dezembro de 2025

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Entre ruínas [Viagem à Guatemala]

Reconheço uma grande atração por ruínas. Não sei explicar bem o porquê. Acho que é poder presenciar esse gládio entre o ser humano e o tempo, entre o esquecimento e a obra humana. Pois hoje descobri que ruínas também podem ser uma pugna entre a natureza e a nossa ambição de imortalidade.

A primeira parada do dia foi em Iximché, ruínas de uma cidade maia do pós-clássico, fundada em 1470 e abandonada menos de cem anos depois, após ser conquistada pelos espanhóis - foi a primeira capital da Guatemala, por breve tempo.

A cidade é cercada por escarpa em três de seus lados, e era no baixio dessa montanha que viviam as pessoas “normais”, em casas simples das quais não resta nada. Me chama a atenção o poder da ideologia nesse caso: essas pessoas atendiam aos interesses do rei, dos sacerdotes e da nobreza, sem ganhar objetivamente nada em troca - diferentemente da Europa, onde se oferecia proteção física por servir ao senhor feudal, por exemplo.

De parte das construções, restam apenas as plataformas sobre as quais se erguiam templos, casas e palácios. Outra parte foi tomada pela natureza. Ainda assim, o ser humano insiste, e no final do sítio arqueológico, no último templo da última praça, presencio dois rituais maias em honra aos antepassados - o que já era previsível, visto o cheiro de fumaça que impregnava todo o sítio (havia um terceiro, que me pareceu para turista, visto que eera apenas uma indígena cercada de gente branca) .

A segunda parada foi em La Antigua, por muito tempo a capital da Capitania da Guatemala, e patrimônio histórico da humanidade pela Unesco. A cidade está engessada - segundo William, não se pode construir ou derrubar nada -, mas isso não significa que seja uma cidade morta, numa vida artificial para turistas (como foi minha sensação com a cidade velha de Cartagena de Índias, na Colômbia [http://bit.ly/cG230301]): pessoas moram ali, há uma vida que se desenrola para além do turismo.

Das trinta e seis igrejas que haviam na cidade, restam dezesseis - todas restauradas ou em processo de restauração. Contudo, se as ruínas de Iximché foram tomadas pela natureza depois do abandono, aqui a natureza primeiro transformou parte da cidade em ruínas, por conta dos terremotos, até ela ser abandonada por ordem real - em um processo que levou dez anos - , para voltar a ser ocupada anos depois: “se querem ver as obras que haviam nestas paredes, visitem as igrejas da capital”, no diz William.

Creio que as três construções de destaque da cidade são a igreja de La Merced, uma igreja do barroco antiguenho, de proporções estranhas, uma vez que é baixa e bastante larga; o Arco de Santa Catarina, uma ponte por onde religiosas podiam cruzar a rua sem serem vistas, e com isso sem descumprir seu voto de reclusão, e a catedral de San José.

Desta última, o nártex (o hall de entrada da igreja) foi reconstruído e transformado na nave igreja. É modesta, ainda mais diante do tamanho de suas ruínas, com quase cem metros de comprimento. Nela, me salta aos olhos um Cristo negro. Seria sua cor original?! Nos trabalhos de restauro, descobriu-se que era branco e foi enegrecendo com o tempo. Porém, por conta da fé viva que em torno dele, decidiram mantê-lo tal qual está hoje: uma vez por ano fiéis de várias localidades - inclusive Oaxaca, no México - vêm até aqui por conta dele: “o Deus que quis ser moreno como nós”. 

Na parte de ruínas da catedral, como em outras ruínas daqui que visitei, muitas colunas e paredes reconstruídas - segundo William, ainda é restauro se for menos de 50% do edifício reconstruído. Certamente deve haver questões estruturais que justificam muitas dessas intervenções, outras, como em paredes laterais, me parecem um desejo de retomar a antiga forma, de disfarçar a obra da natureza e do tempo - e acabam por mostrar nossa pequenez diante de nossos sonhos de grandiosidade.


02 de dezembro de 2025










segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Miyazaki na Mesoamérica [Viagem à Guatemala]

O segundo dia amanhece claro e tomo meu café da manhã diante da imponência dos 1.500 metros dos vulcões Tolimán e Atitlán. O roteiro é tomar uma lancha e visitar duas localidades que beiram o lago Atitlán.

A primeira cidade foi San Juan La Laguna. Visitamos uma cafeteria que produz o próprio café, uma loja de chocolate que produz o próprio chocolate - mas não o próprio cacau, que ali não é região cacaueira -, e uma cooperativa de tecelãs que eventualmente produz os próprios fios de algodão - e o tingem artesanalmente, a partir de plantas.

Em Santiago Atitlán (e sempre que ouço esse santo me lembro do curioso caso que é Tiago e Jacob terem a mesma origem), visitamos uma igreja de 1547, com o teto destruído por algum dos terremotos que atingiram a região (substituído por telhas galvanizadas) e cujo átrio defronte, amplo e desocupado, me remeteu às paisagens de De Chirico (e quem me conhece sabe o quanto sou fã desse pintor), porém com o horizonte terminando não no infinito, mas no vulcão Tolimán.

As ruas de Santiago são ruas perfumadas por diversos cheiros - tortillas sendo assadas, temperos, frutas, churrasco -, e as mulheres, como em Chichicastenango, via de regra, estão com trajes típicos - e, novamente, não me parece que seja para performar para o turismo, pois não me parece que milho, sapoti ou produtos de limpeza tenham muito apelo junto aos turistas. 

A outra parada que fizemos na cidade fomos de tuc tuc - uma espécie de moto táxi de três rodas - a uma favela, onde adentramos por uma viela até chegar a uma casa particular. Nessa casa estava a imagem do Gran Abuelo, Rilaj Mam, um santo popular, de origem maia, protetor local, que a cada ano ganha uma máscara nova e fica na casa de um dos membros da confraria. É um dos poucos aspectos em que notei homens tomando a dianteira na manutenção da tradição - e isso dentro de uma aura de grande mistério e círculo fechado. Em geral, o que percebo é que na insistência de aspectos culturais maias no quotidiano são as mulheres que surgem como as principais guardiãs.

Na volta, na lancha, a tarde já caindo, e a mesma neblina solar vai tomando conta do lago. Me sinto numa animação de Miyazaki adaptada para a mesoamérica: os vulcões Tolimán, Atitlán e San Pedro no lugar do monte Fuji, santos populares ocultos em máscaras misteriosas no lugar de grous e mulheres com Huipil e Faja, no lugar de quimono. E uma mesma poesia realisticamente irreal no ar.


01 de dezembro de 2025

domingo, 30 de novembro de 2025

Neblina feita de sol [Viagem à Guatemala]

Hoje, sim, começa minha viagem! O itinerário do pacote, digo. Ontem foi apenas chegada, uma sucessão de pequenos infortúnios (que ganharam outra dimensão por conta do cansaço e da expectativa) e uma visita ao interessante Museo Nacional de Arqueología y Etnografía - e o que ali vi acho que vai se tornar mais interessante conforme o avançar da viagem.

William, o guia, chega ao hotel com a pontualidade do carteiro de De volta para o futuro (não lembro se o 2 ou o 3). No carro, meus companheiros de viagem: um geólogo chileno e dois casais espanhóis. Aparentemente, somente eu, William e Wilson, o motorista, ainda trabalhamos - mas eu estou de férias.

No trajeto, William mostra grandes dotes para manter uma conversação: pulando de assunto aleatório em assunto aleatório, de origem do café à produção industrial brasileira, sem deixar de saber sobre a guerra civil guatemalteca e detalhes aprofudados sobre os maias, e passar pela problematização do termo “povos originários”.

Noto que fala com propriedade ou com dose de cuidado, não parecem dados simplesmente decorados ou erudição oca. Descubro, depois que é historiador, já participou de escavações arqueológicas e sabe um básico de hieróglifos maias. Além de ser guia turístico. Mas ele conta que queria mesmo era ser engenheiro agrônomo.

A primeira parada é em Chichicastenango, em El Quiché, cidade média, conforme William. Quarenta mil habitantes, sendo uns cinco mil na cidade. Isso, 40 mil. Meia Pato Branco. Um cidade média para os padrões guatemaltecos, portanto. Sigamos. A grande atração que fomos ver, a feira de domingo (e quintas) é um tanto cheia e caótica: numa quadra de esportes ocorre a feira de frutas e legumes, ao redor, em corredores estreitos, se organiza uma feira de itens diversos - para turistas e para locais -, quase uma Liberdade de domingo - o que muito me angustia.

Uma primeira coisa que chama a atenção e o guia reforça: as mulheres usam vestes parecidas (mas não iguais!), o mesmo traje típico, de origens maia, vermelho escuro - e, não, não é performance para turista tirar foto. Noto que uma ou outra usa traje azul. William explica: são de outra localidade, por isso a mudança de cores.

A feira ocorre entre duas construções religiosas do século XVI: uma a leste, com portas para oeste, portanto, a igreja de Santo Tomás; a outra, a oeste, com porta para o leste, a capela do Calvário, que tem missa apenas uma vez ao ano, dia primeiro de novembro. Ambas estão, separadas por pouco mais de cem metros e foram construídas sobre templos maias - por isso a precisão dos pontos cardeais.

Fora delas, muita, mas muita fumaça. Por obra do sincretismo religioso local, queima-se muita coisa em oferenda aos antepassados, e a fumaça é a forma de conduzir tais elementos ao mundo superior: velas, incensos, rum, cacao... a queima é feita do lado de fora porque a igreja tenta limitar até onde pode ir esse sincretismo, ao menos dentro de suas portas. Tenta, porque a fumaça adentra o templo de qualquer modo, fazendo dos afrescos nas paredes quase borras negras. Achei curioso que no centro das naves há elevações para se queimar velas - uma tentativa de “domesticar” os hábitos maias, substituindo toda a riqueza de oferendas e cheiros pela pasmaceira das velas? Na capela do Calvário, uma mulher reza sobre a imagem de Cristo como se fosse o próprio velório acontecendo. No convento anexo à igreja de Santo Tomás, uma placa indica que ali, no início do século XVIII, foi encontrado e traduzido o Popol Vuh, livro da cosmologia maia.

Nossa segunda parada em um taller de maíz. Uma casa simples, típica, paredes de adobe, pintadas, chão de terra batida e, o que me chamou a atenção, colunas com capitéis simples. Vimos como se mói o milho manualmente, conforme técnica ancestral, para depois preparar as tortillas, alimento típico, com uso equivalente ao pão.

Ali também fomos apresentados aos quatro tipos de milho cultivados e seus significados na cultura maia: o branco, que simboliza o ar, a pureza, os acestrais; o amarelo, que simboliza a luz, a vida; o preto, que simboliza a noite, a fertilidade; e o vermelho, que simboliza o sangue e o fogo. Por conta dessa represetanção, o milho vermelho é consumido apenas em situações rituais, sendo mais dedicado, por isso, à alimentação animal. Achei curioso, esses usos extremos do mesmo alimento: do mais elevado, o uso ritual, ao mais baixo, o uso animal, como se fosse um ciclo que se fechasse, com o ser humano no meio. 

Seguimos viagem até o lago Atitlán. Um lago vulcânico, com certa de 130 km² e 340 metros de profundidade, a 1.500 metros de altitude. Surgido de uma enorme erupção vulcânica, há 100 milhões de anos, ele hoje é circundado por alguns vulcões - há tempos inativos.

Chegamos perto do fim da tarde, uma estranha neblina cobria o lago, uma neblina que parecia feita de sol.

A visita ao lago ficaria para o dia seguinte.


30 de novembro de 2025

sábado, 29 de novembro de 2025

Merda! [Viagem à Guatemala]

Merda! No teatro de fala assim para desejar que o que é para dar errado, dê antes de entrar no palco. Merda! Eu devia ter dito isso antes de sair de casa para minha viagem de férias, não depois. 

Saí mais cedo com pegar o trem para o aeroporto de Guarulhos, justo para, na eventualidade de qualquer merda acontecer, ter tempo de resolvê-la. E assim foi. Já estava na Luz quando me dei conta de que havia esquecido a doleira. Um detalhe menor, sem dúvida, se eu não estivesse esquecido dentro os dólares que comprara para a viagem. Merda!

Volto para casa, pego a doleira (com os dólares) e vou para o aeroporto de aplicativo, mesmo. Isso dói para um mão de vaca, mas é a vida, às vezes custa um pouco mais. Ao menos minha dose de azar de viagem eu dava por resolvida. 

Ingênuo...

Na escala no Panamá, sou obrigado a despachar minha mala de mão. Faço a contragosto, mas não vai ser isso que vai estragar meu humor (depois de uma semana de extrema ansiedade por conta dessa viagem, o que pus na conta do autismo). Estou na fila para entrar no avião, vejo passar as malas e identifico a minha. Quebrada. Agora, sim: merda!

Durante o vôo ensaio um barraco em castelhano para quando chegar. Me demoram na imigração, e quando alcanço a esteira, minha mala está solitária ao lado dela. E quebrada. Ao menos vejo que foi só o casco externo, todo o resto está nos conformes. Viagem que segue, agora certo de que os deuses do teatro e da viagem já tinham me dado minha dose de merda - duas coisas menores, por sorte, que só vão me custar financeiramente.

A saída do aeroporto me chama a atenção. Na área de desembarque muitas (muitas!) pessoas esperando com balões e flores seus familiares. Muitas, mesmo! Por um instante cheguei a pensar que algum famoso iria desembacar, tal era o clima do local. O responsável da agência de viagens por me buscar, mais prático, tinha apenas uma placa com meu nome.

O hotel é próximo, mas o caminho é caótico. Ele explica que houve um aumento de 400% da frota da cidade desde a pandemia. Comenta também que cerca de 3 milhões de guatemaltecos vivem nos EUA (na internet, buscando depois achei o número de 1,5 milhões), a maioria indocumentado. Imagino que essa migração talvez explique todo o clima de festa na chegada, o que é confirmado: são os documentados voltando para as festas.

No hotel, lembro que não sou de luxo, não: prefiro as coisas mais simples. O corredor chique com cara de filme de terror, as muitas facilidades que vou ter vergonha de aproveitar e as coisas simples que não sei operar - tudo isso me intimida. Apesar de muito tentar, não consigo ligar o chuveiro - tomo banho de banheira, mesmo. Não que eu não goste de ficar na água, duro é se lavar assim.

Mas foi na saída do banho que descobri que os deuses da viagem estavam de mal comigo: não bastasse o pacote de dados internacional que comprei não estar funcionando, uma hora na tomada e a bateria do meu celular havia carregado 8%. Junto a isso, um aviso: carregamento lento, provavelmente causado por cabo danificado.

Bem, eu estava na Guatemala para passear, não para tirar fotos.




29 de agosto de 2025

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Metodista, o hub de informações da empresa, volta das férias [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Metodista voltou de férias - que não são merecidas, pois se trata de direito e não de merecimento. Metodista, que foi trazida apenas rapidamente a estas paisagens textuais, é um hub de informações da empresa. Informações oficiais, extra-oficiais, oficiosas, conjugais e extra-conjugais - e algumas fofocas, de vez em quando, pois ninguém é de ferro.

Pois chegou ela, e não perdi tempo: dei as três horas regulamentares para ela se inteirar, e chamei para um café no refeitório. Como parte do cenário, Goreti preparava seu almoço. Muitas novidades acontecidas nesses vinte dias e fazia-se mister alguma explicação: velhos colegas que saíram, novos colegas que chegaram (eu queria ver o inverso), mudança no leiaute da sala, uns pepinos pra cá, uns abacaxis pra lá, e vida que segue. Ao menos assim eu acreditava.

Pois fiquei sabendo que a funcionária que entrou - já como supervisora - é, na verdade, sobrinha do diretor geral (prima do Baço, de breve passagem, difícil recordação e nenhuma falta). Sua função é pôr ordem na casa, pois pela segunda vez consecutiva não batemos nossas metas - e eu, ingênuo, que acreditava que trabalhava num setor que não possuía metas. Já duas das baixas que tivemos foram trabalhar na concorrência, que ofereceu não só melhores salários como um pouco de alívio na tensão psicológica - afinal, o espectro de um passaralho volta a rondar o setor, que poderia ser incorporado por outro. 

Goreti se aproximou da conversa, prestava atenção, mas olhava com certo olhar aparvorado. Metodista continuava:

Se com passaralho ou sem, o certo é que nosso chefe e o diretor geral entraram em rota de colisão. Ainda não consegui saber como que o chefe não perdeu o emprego.

Nessa hora Goreti interveio:

Deixa eu ver se entendi: Metodista, você está explicando para o Sérgio S. o que aconteceu na empresa nesse período em que você esteve de férias?  Você não viajou, não?

Vinte dias na praia!

E se virando pra mim:

E você, onde esteve, que não sabe nada disso?

Goreti agora tem certeza: sou uma pessoa alienada.


19 de novembro de 2025


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Goreti: o homem dos infortúnios miúdos [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

 Goreti é o cara dos pequenos azares. Nunca tem um grande drama, uma questão dilacerante. É sempre white people problems e nimiedades. Quando parece que algo mais sério aconteceu, logo se mostra uma farsa - como foi o caso do berinjonha, descrito aqui há muito tempo [bit.ly/cG230102]. 

Mês passado lhe afligia suas férias: se ia para Lituânia, Tonga, Tunísia ou Belize. Convenhamos, alguém que tem entre suas opções de destino qualquer um desses países aleatórios é uma pessoa que busca algum tipo de problema - com a língua, que seja. Ou que conhece muito de geografia para saber da existência deles. Ou que paga duolingo e quer fazer uso desse dinheiro gasto.

Hoje chegou do almoço com o nariz sangrando. Ninguém teve dúvidas do que teria acontecido: um assalto, como tem sido muito comum em São Paulo, apesar de ter um polícia em cada esquina, ao qual ele deve ter tentado reagir e acabou apanhando.

O mistério foi longo: se trancou no banheiro e não saiu de lá até que estancasse o sangramento. Quando finalmente conseguiu, o cercamos, ansiosos por mais detalhes: teria sido o mesmo assaltante que passou correndo e levou a correntinha de um colega, tempos atrás? Quiseram levar o celular? O assaltante estava com arma de fogo? Ou só uma faca? Por que reagiu? A polícia conseguiu prender o bandido? Já tentou fazer arte marcial tailandesa, que seria útil nesse caso?

Goreti, como é do seu feitio, primeiro esperou todos falarem, ou melhor, todos se calarem - o que não foi simples, porque quanto mais demorava, mais a ansiedade crescia e mais se falava. Quando finalmente o silêncio se fez, ele contou em detalhes o que aconteceu, e não precisou de um minuto para tanto, mesmo esticando bastante para seu habitual:

Eu estava andando pela Boavista, nem tão distraído assim, pois digo que São Paulo não se pode dar vacilo. Páro para atravessar a rua. É quando sinto a pancada em meu nariz e o sangue jorrando de pronto. Ainda sem entender muito o que tinha acontecido, olhei para o chão e vi um galho de uns trinta centímetros. Foi isso: um galho caiu de uma árvore e conseguiu acertar bem em cheio o meu nariz.

Mas era trinta centímetro de comprimento ou de diâmetro - perguntou Bella (que não é de Isabela).

Macedo não se conteve:

Se fosse trinta centímetros de diâmetro não teríamos um sangramento no nariz, mas um nariz num sangramento.

Exato! - disse Goreti.

Eu complementei:

Convenhamos, não é algo tão difícil de acontecer: com três metros de napa, é o que você tem de mais exposto - visto de cima.

Exato! - Goreti não se abalou com a verdade sendo dita a queima roupa.

Tentei também ser otimista:

Ao menos foi um galho, não a árvore toda, como sói acontecer nesta cidade.

Exato! - exclamou novamente Goreti, como se não tivesse nada mais para falar.

A gente achou que você tinha sido assaltado e agredido - completou Goleador.

Ah, vá, sério?! Não tinha percebido isso - respondeu sem muita paciência o (anti) herói desta crônica.

Enfim, como sempre, Goreti e seus pequenos azares - sem emoção e totalmente quebra-clima. Ao menos ele trouxe o galho como prova do seu feito e para enfeite de sua baia.


20 de outubro de 2025.

Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas



segunda-feira, 22 de setembro de 2025

O dia em que Goreti aprendeu a enrolar [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Goreti tem fama de ser um tanto seco e direto na sua comunicação dentro da empresa, em especial por e-mail - mas não só. Eu o admiro por isso: ao invés de enrolar, ir direto ao ponto me parece uma virtude. Economiza tempo dele e dos colegas. Porém, desafia as etiquetas consagradas no país, em que é preciso dar bons dias, boas tardes, boas noites, perguntar como vai e desejar os melhores votos e estimas. Foi um avanço ele fazer o cumprimento inicial nos e-mails. Contudo, querem mais. Exigem mais.

Em uma reunião de equipe, foi pedido - novamente - que ele não deixasse de se atentar ao essencial, como sempre faz, mas que discorresse um pouco mais nas suas respostas, pois estava passando a impressão de que lera apressadamente o que lhe fora pedido. 

No fundo, um pedido para que eu fique enchendo linguiça - comentou ele, depois, inconformado.

Mas Goreti é uma pessoa que sabe que não se pode afrontar muito a chefia, em certo ponto, o melhor é obedecer, ou é capaz de perder o emprego. Goreti é também uma pessoa do seu tempo.

Semana passada foi-nos repassado um relatório da doutora Sabujinha, ao qual deveríamos dar um retorno. Goreti me mostrou a resposta dele: "boa tarde, achei o relatório bom. vai direto ao ponto e não se perde em firulas. parabéns". Avisei ele que a chefia não iria gostar, e ele respondeu que sabia. 


Ao cabo, recebemos todos a seguinte devolutiva do nobre colega:

“O relatório que você escreveu é verdadeiramente louvável. Ele se destaca por sua clareza e objetividade, qualidades que nem sempre são fáceis de encontrar em documentos de análise. A sua capacidade de ir direto ao ponto, sem se perder em "firulas" ou informações irrelevantes, demonstra um domínio do assunto e um respeito pelo tempo do leitor. É uma habilidade rara, mas extremamente valiosa, especialmente no ambiente de negócios de hoje, onde a velocidade e a precisão são essenciais.

Muitos relatórios falham porque tentam impressionar com um jargão complicado ou uma quantidade excessiva de dados. Eles se assemelham a um labirinto, onde a mensagem principal fica escondida em meio a uma selva de detalhes desnecessários. O seu relatório, por outro lado, é como um mapa claro e conciso. Ele guia o leitor de forma eficiente, permitindo que a mensagem seja absorvida rapidamente e sem esforço. É como um tiro certeiro, que atinge o alvo com precisão e força.

Essa abordagem direta é um reflexo de uma mente organizada e focada. Ela indica que você não apenas compreende os fatos, mas também a hierarquia de sua importância. Você sabe o que é crucial e o que pode ser deixado de lado. Essa capacidade de discernimento é o que transforma um bom relatório em um excelente. É a diferença entre um documento que é lido e um que é de fato compreendido e utilizado.

Além disso, a concisão não significa que o relatório seja superficial. Pelo contrário, ela sugere que cada palavra foi cuidadosamente escolhida, que cada frase tem um propósito. Não há gordura, apenas músculo. Isso torna o documento mais potente e memorável. É um alívio ler algo tão direto, sem a necessidade de procurar a mensagem principal em meio a um oceano de texto.

Em um mundo onde somos bombardeados por informações o tempo todo, a capacidade de comunicar de forma direta e eficaz é uma superpotência. Você possui essa superpotência. O seu relatório não é apenas bom; ele é um exemplo de como a comunicação eficaz deve ser. Meus sinceros parabéns por um trabalho tão bem executado. Você não apenas entregou um relatório, mas também uma lição de clareza e eficiência.”

A chefia adorou. Doutora Sabujinha parecia incrédula - além de regozijar-se em júbilo. Nós, os mais chegados, ficamos em choque: como o rei do laconismo tinha conseguido se transformar em tão verborrágico lero-lerento em tão pouco tempo? Seis parágrafos para não dizer praticamente nada! Seria uma habilidade escondida que ele agora decidira revelar? Fui questioná-lo como tinha feito render tanto aquele comentário, ao que ele respondeu sem meias palavras: pedi pra inteligência artificial reescrevê-la em 500 palavras. 

Ainda não tinha usado IA para meus textos. Sinceramente, senti que minhas crônicas tendem a se tornar supérfluas - como as novas respostas de Goreti.


22 de setembro de 2025


OBS: feito com ajuda da IA.

Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas


segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Banquete de proatividade [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Puxa-saquismo de resultado. Começou a rolar um zumzum no setor de que doutora Sabujinha teria uma proposta de emprego melhor. Sempre disposta a fazer o que os chefes mandam, sem se incomodar com o que seja, nem de passar por cima dos colegas, além de ser uma doutora em sua área, sua possível saída levantou um sinal amarelo da chefia, sempre afeita a funcionários submissos e acríticos. A suspeita ganhou mais corpo com uma série de reuniões entre a chefia e ela. Por fim, ela segue na empresa - por enquanto. 

Fica, porém sem promoção. Diz a rádio peão que é por ter pouco tempo de casa - contudo os doutores sabujinhos que a antecederam conseguiram-na em igual tempo, ou seja, o problema de fato é ela ser mulher. Mas, para não sair de mãos abanando, ou melhor, para ficar de mãos abanando, no lugar da promoção ela ganhou uma reduflação: diminuíram as atividades e responsabilidades que ela tinha - que já eram parcas, por mais que se queixasse.

Claro, trabalhos não somem, alguém precisou ficar com a bucha. Ficou para Carnegie, que se recusou a aceitar, diante de tudo o que já tem para fazer. Sem ter como argumentar contra fatos, a chefe jogou para mim, que não tive como alegar nada e só me restou aceitar - frustrando meus planos enunciados em crônica anterior. Na disputa pelo mais vagal do setor, um a zero para a doutora Sabujinha. Fato curioso: como que esqueceram Macedo, que é quem sempre recebe as demandas sem dono, e as aceita, mesmo estando sobrecarregado?

Puxa-saquismo profissional. Tal qual o último doutor Sabujinho, doutora Sabujinha sabe que é importante fazer uma moral com os colegas - ao menos aqueles que ela ainda não enfiou uma faca nas costas.

Ela, que já era bem relacionada, desde que decidiu permanecer, passou a ser a pessoa mais simpática do setor - para grande amargor dos que já sentiram suas botas de alpinismo no lombo.

Aproveitou a deixa de um grupo para apostar na loto para, inspirada no nobre colega Goreti, organizar uma macarronada com galeto - e mostrar para a chefia proatividade e capacidade de liderar um grupo. Claro, nem todos foram convidados: aqueles que já a enfrentaram ficaram de fora - este escriba entre eles.

Dos que foram convidados, a maioria topou. A data: quinto dia útil do mês, dia em que os funcionários, alegres pelo salário que pingou na conta, saem para comer fora, como se não tivesse o mês todo pela frente.


Assim, foram para o refeitório munidos de três potes de macarrão - um de penne, um de fusilli e um de espaguete -, dois potes de molho - vermelho e branco - e quatro airfryers para o galeto. De modo que na hora de preparar o almoço coletivo eram seis micro-ondas (havia um sendo utilizado por um funcionário de outro setor) e quatro airfryers ligados simultaneamente no mesmo disjuntor. Claro, óbvio, o disjuntor caiu. Não sem antes queimar quatro dos oito micro-ondas e três airfryers.

As reações foram diversas. Alguns, que já caíram no papinho da colega, ficaram consternados por ela; os que tiveram seus eletrodomésticos queimados estão com raiva, e os demais, que não tinham nada a ver com a história, estão simplesmente revoltados - até porque a empresa já avisou que não irá comprar novos aparelhos tão cedo. Assim, as filas para esquentar a comida, que já eram grandes, aumentaram ainda mais, chegando a passar de meia hora!

E se o povo ficou emputecido com ela, por ferrar o horário de almoço, os chefes, que nunca almoçam no refeitório, devem ter achado o gesto genial. Para os colegas, ela estragou o almoço, para a chefia, serviu um banquete de proatividade.


01 de setembro de 2025

Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

Homenagem (atrasada) ao dia dos pais [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]


A homenagem aos pais chegou atrasada aqui na empresa. Bem que Macedo havia comentado de seu estranhamento diante da ausência de qualquer mensagem do RH sobre a data. Pelo visto, esqueceu mesmo. Para disfarçar, a chefe do RH apareceu em pessoa esta segunda-feira, depois do almoço, munida de um tocador de violão e duas funcionárias que carregavam bandejas com bombons e um bilhetinhos para os homens - e que traziam-nas com tanta solenidade e cuidado que mais pareciam duas vestais com instrumentos para uma cirurgia espiritual.

A homenagem poderia terminar por aí: um aluno de canto e violão se esforçando para não errar os acordes nem desafinar muito e um bombom com um recadinho clichê. Porém o que essa homenagem trouxe à baila foi o velho receio do passaralho. Vamos por partes.

Sim, o RH esqueceu de mandar um e-mail com um “Feliz dia dos pais” antes dos dias dos pais. Para compensar, fez o que fez. Pensamos que o chefe poderia ficar incomodado com esse gasto extra, mas quando soubemos que o cantor era outro sobrinho seu, entendemos que o esquecimento foi uma ótima ideia da chefe do RH (e os leitores do TZN. HSG. vão se lembrar que o mesmo expediente era utilizado pela chefe do Bandejão)

Antes de tocar, o moço - mais articulado que Basso, de curta passagem pelo setor - fez um breve discurso motivacional, concluído com “lembrem-se das coisas que fazem sentido, que fazem você se sentir vivo!”. Aplausos da equipe. Olhei para Goreti, ele tinha lágrimas nos olhos - eu imaginava o por quê. Depois, confirmou:

Passo oito horas por dia, quarenta e oito semanas por ano, preso neste trabalho de merda, sem sentido algum, achando Sísifo um sortudo porque ainda pode ver o horizonte quando a pedra rola morro abaixo! Isso pelo lucro do patrão! E ele me pede para lembrar das coisas que fazem sentido?!

Menos melodramático, não pude deixar de complementar o nobre colega:
A dor do chicote estalando no lombo também faz nos lembrarmos que estamos vivos.

Macedo complementou algo em ASMR que não consegui escutar e deixei passar, porque também estava preocupado com o passaralho.

Voltemos à homenagem.

Depois do discurso, a música. Fosse acordeón no lugar do violão e poderíamos nos sentir numa live do ex-presidente que trata os filhos por números, como se fossem presidiários (não que não devessem ser). Outro ponto positivo: não tocou Pais e Filhos, como temeu Macedo, e sim Anunciação, do Alceu Valença. Que sentido faz essa música com o dia dos pais? Fica a interrogação. Pensei depois: poderia ter tocado Pai, do Fábio Júnior. Seria dolorido ouvi-lo tentando imitar o galã (existe ex pra galã, ou uma vez galã, sempre galã?), mas ao menos faria sentido. Quer dizer, faria sentido com o dia dos pais, porque sentido pareceu fazer muito com o recado que vinha junto ao bombom:
“Ser pai é ter um cargo de responsabilidade que você ama e nunca será demitido”.

Seria uma indireta àqueles que não estão satisfeitos com o trabalho? Com quem a chefia acha que não se mostra à altura das suas responsabilidades? De que vai rolar, finalmente, o passaralho que nos ronda desde o fim do ano passado? 

Perturbados, escutávamos um desafinado “tu vens, tu vens, eu já escuto os teus sinais”, enquanto imaginávamos o que não trariam tais sinais.


11 de agosto de 2025


PS: Em outro departamento, a música variou, foi Pra dizer adeus, do Titãs. Mais um sinal...

Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas


sexta-feira, 8 de agosto de 2025

O apagão dos dados públicos e as big techs

O neoliberalismo tinha como algumas de suas premissas o homo oeconomicus - indivíduos racionais que buscam egoisticamente a maximização de utilidades, baseados em expectativas racionais - e a perfeição do mercado - a tal “mão invisível”, que conduziria a uma alocação ótima dos recursos sociais. Disso deriva a ideia de estado mínimo, sem atuação em atividades econômicas, e com funções subsidiárias aos mercados, seja na regulação, com a garantia da propriedade privada, dos contratos, da estabilidade financeira, de evitar práticas concorrenciais desleais; seja na minoração das externalidades negativas das políticas macroeconômicas, via políticas focalizadas de mitigação da miséria; seja na produção de dados e indicativos, sobre os quais empresas e indivíduos podem melhor compreender a sociedade para atuar nos seus mercados - por exemplo, saber se o mercado de trabalho está aquecido ou não é importante para empresas na hora de negociar salários.

O ultraliberalimo, ainda que surgido dos escombros do neoliberalismo pós crise financeira de 2008, rompe com o mínimo de “civilidade” (com muitas aspas) que o neoliberalismo trazia. Saem políticas compensatórias focalizadas pelo “deixa cada um se foder do jeito que quiser”, verbalizada por Guedes; não há mais resguardo da concorrência ou regulação mínima: ao estado cabe, basicamente, a função de polícia patrimonial. É nesse contexto que o Estado tem tentado se desobrigar do levantamento de dados e produção de estatísticas e indicadores.

Durante o governo Bolsonaro, por duas vezes o censo foi adiado. Agora é a vez do governo Trump atacar Departamento de Estatísticas do Trabalho dos EUA (BLS), ao demitir sua diretora, Erika McEntarfer. O que se noticia é que quando os dados não são favoráveis, os governos de extrema-direita preferem atacar o mensageiro e destruir a mensagem. 

A recusa na produção (e divulgação) de estatísticas oficiais parece contraditório num primeiro momento: não apenas políticas públicas são prejudicadas, como a estabilidade financeira, econômica e a política monetária - afetando os mercados. A quem pode interessar o apagão dos dados públicos? 

Com a popularização da internet, o grande volume de dados gerados pelos usuários e processados pelas grandes empresas de tecnologia, o trabalho com grande volume estatístico pode deixar de ser requisitado ao estado por alguns agentes. Em um capitalismo oligopolista, sem qualquer regulação, em que dados pessoais são o novo petróleo, o desmonte de agências estatísticas oficiais atua como uma espécie de privatização dessa função do governo, deixando às grandes empresas de tecnologia um poder de controle sobre estado, sociedade e mercados ainda mais intenso - se com esses dados é possível fazer publicidade quase personalizada, qual seria a dificuldade em extrair conclusões de aspectos macroeconômicos?

Mais que a responsabilização por o que é dito em suas redes, o que as grandes empresas têm a perder é esse grande banco de dados que lhes dão uma vantagem comparativa muito grande em vários setores da economia - ainda mais com governos atuando a seu favor.


08 de agosto de 2025

sexta-feira, 1 de agosto de 2025

Macedo e seus colegas de almoço nas minhas férias [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça]

Voltei das férias - que não chamo de merecidas porque férias não é merecimento, é direito, conquistado com sangue e suor, mendigado por patrões (como se lhes fosse um fardo ceder esse direito) e sempre insuficiente para o tanto que trabalhamos (menos para juízes). Pois bem, voltei de férias e, diferentemente de algumas das férias passadas, ninguém perguntou se eu estava doente e estivera de atestado nos últimos dois dias. Desta feita sequer notaram que eu me ausentara, salvo o pessoal da minha equipe - o que não significa que sentiram minha falta. E isso é uma boa notícia! Sinal que estou no caminho certo - a meta é passar tão despercebido que até o trabalho passe por mim, e me reste apenas o salário (com os devidos descontos tributários, pois não sou sonegador, me opondo frontalmente ao que dizia um certo ex-presidente que usa adornos no tornozelo).

Talvez quem tenha sentido um pouco minha falta foi Macedo, meu contumaz companheiro de almoço. Na minha ausência, ele variou os colegas com quem compartilhou esse momento - e a alta rotatividade mostra que não teve um que tocou seu coraçãozinho ou que suportou seu humor quase silencioso: tiradas mordazes em ASMR. Já comentei algures que ele é de falar pouco e bem baixo. Também já comentei algures que, pobre Macedo, aparentemente tão bom ouvinte por falar pouco e aparentemente ter uma paciência de Jó, ainda por cima é cercado por tagarelas por todos os lados de sua baia e um pouco além - sendo eu o menos parolema (habemus esperanto!) dessa lista, o que não quer dizer muita coisa.

Digo tudo isto porque foi Macedo quem me atualizou das novidades no tempo em que estive fora. Novidades que não traziam nada de novo. Salvo as do almoço, em que descobriu a face oculta de vários colegas.

Do Mello, fiquei sabendo que não oferece chocolate quando se vai almoçar com ele. Compreensível: se aceitou o convite, não precisa te convencer a escutá-lo. O chocolate é uma forma de atrair para seu lero-lero, não uma compensação por suportá-lo.

De Pacheco, a Doutora Sabujinha, nada de novo, segue a pessoa chata e aduladora de sempre (conclusão minha, a partir do que ele contou).

As novidades novidadeiras foram as da Goleador. 

A primeira foi toda uma mobilização no setor de quem estaria matando a suculenta que fica na entrada, mesmo depois do recado afixado junto a ela. Ninguém queria assumir o ato, até que a secretária bateu o martelo: era ela quem iria cuidar da planta, ninguém mais; ao que Goleador respondeu, aliviada:

Ai, que bom! Não aguentava ter mais essa responsabilidade para mim. Eu via a planta morrendo e estava tentando salvá-la. Era a única a regá-la!

Tentando salvar uma suculenta regando todos os dias... Proatividade nem sempre é algo tão positivo assim - e nem digo isso por ser uma pessoa propassiva.

Mas talvez o que mais me chamou a atenção foi quando Macedo contou que conheceu a versão silenciosa dela. Incrédulo, perguntei como aconteceu tal proeza, estaria ela deprimida, talvez por conta da planta?

Não, ela apenas não fala de boca cheia - e estávamos almoçando.


01 de agosto de 2025


Relembrando os velhos tempos de Trezenhum. Humor Sem Graça., este texto contou com contribuição do Ricardo (além, é claro, do Macedo; mas ele não é da época do TZN. HSG)


Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas

quinta-feira, 17 de julho de 2025

Salvador tem clima mais paulistano que São Paulo

 É praxe se queixar da ex-terra da garoa, hoje terra das tormentas, como tendo as quatro estações num único dia. Passei uma semana em Salvador e digo: SP é amadora em viradas climáticas.

Acostumado que a previsão do tempo só acerta prognósticos emitidos com uma hora de atraso, sequer conferi o que me esperava para a capital baiana. Fui com base na minha intuição, retirada das aulas de geografia, século passado, que me ensinaram que no clima tropical os verões são quentes e chuvosos, e os invernos, menos quentes e secos. Já havia comprovado isso in loco, ano passado, em São Luís, no Maranhão. 

Ou ao menos assim achava. Porque este ano pus em dúvida o que os professores Jader e Wilfred me ensinaram - ou teria eu dormido na aula? Não, nessa época eu ainda tinha peso na consciência de dormir em aula. Não é possível que Salvador seja desse clima tropical ensinado! Teria o Trópico de Capricórnio um pequeno desvio, de modo a incluir Salvador no clima subtropical? Serão as mudanças climáticas? Terá sido só coincidência, mesmo? São perguntas.

O que se passou é que foram sete dias de frio e chuva e vento. Claro, há que se relativizar o que é frio na Bahia. Nada como estava em São Paulo, mas os 21ºC eram pouco convidativos para sair de bermuda à noite.

Também foram sete dias de sol e calor ameno e vento, que pouco convidavam a uma praia - menos para Lia, que fez questão de entrar na água, mais por querer muito entrar no mar, do que por estar gostoso para isso naquela ventania que esfriava qualquer 26ºC.

Já antevejo que os defensores mais radicais de São Paulo vão argumentar que aqui ainda é pior: a regularidade soteropolitana, de todas as estações em todos os dias, ainda garante que todos os apetrechos carregados consigo serão de alguma utilidade, enquanto em Éssepê você carrega tudo isso sem ter a certeza de que vai mesmo precisar - essa certeza só surge quando você esquece o guarda-chuvas pois, é claro, vai chover na hora do fim de expediente.

Da minha parte, está posto: nesse ponto, não reclamo mais do clima de São Paulo.


17 de julho de 2025