segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Saldão de Bíblia e prateleira de vidro [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]


Muito lentamente, desde que Lula assumiu a presidência, o centro de São Paulo vem recuperando parte de seu comércio. Alguns trechos ainda estão desertos e mostram a profundidade da crise do governo anterior - e a inépcia do governo municipal. As ruas São Bento, entre a Direita e a Praça Ouvidor Pacheco e Silva (todo tapumado, utilizado como depósito para as reformas no centro, programadas para terminar nas eleições... do ano retrasado) e a José Bonifácio, por exemplo, seguem desertas de comércio. Na própria rua Direita, o comércio resistente parece sobreviver a dura custas - uma parte já fechou.

Numa dessas lojas vazias abriu uma das lojas mais aleatórias que vi até agora - opinião compartilhada por Macedo e Goreti. Sem nenhum letreiro externo, nenhuma reforma interna, simplesmente levantaram a porta, distribuíram uns baldes para recolher a água das goteiras e instalaram uma faixa com três linhas: “Loja de fábrica/Saldão de Bíblia e/Prateleira de vidro”.

Quando abriu, imaginei que seria um comércio breve - talvez o dono da sala que se meteu em negócios furados de diversos calibres, uma espécie de Ronaldinho Gaúcho das empresas - e aproveitou que estava sem ganhar o aluguel da sala para se desfazer daquilo que aceitou como pagamento de dívidas. Passaram um, dois, três meses - e a loja seguia lá, com seu saldão de Bíblia e prateleiras de vidro. Passou um ano, pouco mais, e ela seguia aberta. Da última vez que passamos por ela, havia diversificado seus produtos: calça jeans a preços de saque de caminhão tombado (um suco de frutas sai mais caro pela redondezas) e uma vasta coleção de quadros de leões - todos emoldurados em molduras bastante bregas.

Sempre fico a me perguntar o que é aquela loja, que surrealismo paulistano a explica. Desta vez explicitei a pergunta ao nobre colega Goreti que, de início, levantou a teoria de ser refugo das lojas da Conde de Sarzedas, famosa rua de vendas de artigos para igrejas evangélicas.

E as prateleiras de vidro?

Refugo de onde se expunham os sex toys na Love Nox.

Nunca tinha ouvido nessa Love Nox. Fui pesquisar na internet, talvez seja um bom lugar para levar o brotinho...

21 de setembro de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definida

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Jogo de War no escritório [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]


Consequências ainda de toda a rerereformulação da empresa, nosso setor ficou mais enxuto, para ganhar agilidade e dinamicidade, aproveitando da “competência e resiliência” de quem sobrou: “aqui só estão os melhores”, avisou o supervisor-geral-responsável-por-fazer-os-contatos-intersetoriais-mais-ágeis dia desses, conhecido oficialmente como Manager de Fluxos Intersetoriais. Melhores no que, ele esqueceu de explicar. E tenho alguma forte suspeita de que não são os melhores em serviço, visto que eu e a doutora Sabujinha seguimos firmes e fortes na empresa - ela inclusive em treinamento externo pago pela empresa, pronta para galgar posições aqui. Puxa-saquismo de resultados! Assumo que subestimei sua capacidade - capacho para qualquer porta.

Enfim, setor enxuto significa mais trabalho por pessoa, sobrecarregando quem já vinha sobrecarregado - Macedo que o diga -, e dando trabalho a quem vinha com esmero evitando esse tipo de fadiga - no caso, eu.

Essa enxutagem fez com que se abrissem espaços vazios na sala - como já comentei alhures, a sala da antiga subchefe virou nossa sala de reunião. Não mais. Decidiram que ali seria um bom espaço para o supervisor-geral-responsável-por-fazer-os-contatos-intersetoriais-mais-ágeis e sua equipe de seis pessoas - dentre os quais um seboso colega leitor de Olavo de Carvalho (ele está sempre com um livro do autoproclamado filósofo anal), cujo comportamento é muito cordato e as falas, discreta e constantemente preconceituosas.

Quem não ficou muito feliz foi nosso atual chefe, que viu o aquário da chefia ser dividido em dois, para que metade fique com o manager - cada um com seu ar-condicionado, claro, enquanto o resto da sala possui, toda ela, outro ar (desregulado). Pois é, achava que ia reinar sozinho, mas vai ter que dividir. Ele pode ver pelo lado positivo: se conseguir dividir também as preocupações, quem sabe a velocidade com que seus cabelos estão embranquecendo desde que assumiu o posto diminua também?

Nós, reles mortais CLT, acompanhamos esse verdadeiro jogo de War - como bem definiu Macedo - com apreensão. Quer dizer, eu não, pois já garantiram que vou continuar no meu cantinho aqui, então eu só assisto, mesmo. Surgiram dois focos de tensionamento. 

O primeiro foi o Clube do Café e Goreti. Com mais gente na sala, sobrou menos espaço livre, menos espaço para o armário onde estão os apetrechos do Clube do Café e a panela de arroz de Goreti. É certo que o Clube do Café está mais para clube da bolacha água e sal ultimamente: os colegas que costumam fazer o café toda manhã foram transferidos e os que sobraram tem preguiça; a pipoca também, passado o ânimo inicial (ou será o fim do clima de copa do mundo), só tem acontecido de vez em quando. Mas Goreti segue firme e forte com sua panela de arroz. Por enquanto o móvel segue no lugar, com um armário colado a ele, atrapalhando parte do corredor e dificultando o uso da tomada o referido Clube.

O segundo é mais grave e alcança um número maior de colegas. Nessa de diminuir nossos espaços para caber mais gente - otimização espacial para pessoas resilientes, afinal, para que uma baia em que cabem dois monitores para quem só usa um? -, quem está na mira é um frigobar que apareceu em algum passado remoto, ninguém sabe de onde, e aqui segue - apesar da briga de longa data do RH para levar para sua sala e, mais recentemente, dos funcionários transferidos levarem para o setor onde foram alocados. Goreti diz que já tem a solução, mas quer antes saber se vai ter mais gente a defender o móvel do Clube do Café, antes de soltar sua solução maravilhosa - que, por ora, ele só contou para mim e para Macedo, sob jura de confidencialidade:

É só usar o frigobar como suporte para a impressora.

Está aí, Goreti soube incorporar o novo espírito da empresa e está sugerindo adaptá-lo até mesmo ao frigobar!


15 de setembro de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas

terça-feira, 1 de setembro de 2026

O padre e o RH [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]


Nessa de reformulações, passaralho, contratações, remanejamentos e outras bossas acontecidas nos últimos tempos dentro da empresa, criaram um cargo novo, uma espécie de supervisor-geral-responsável-por-fazer-os-contatos-intersetoriais-mais-ágeis (o nome é mais curto, mas mais hermético também). Ou, como ele mesmo disse na sua apresentação: “cheguei para fazer acontecer”. Enfim, não sei onde ele se encontra no organograma da empresa, que poderes possui, porém, reconheço, a coisa parece que começou a fluir melhor nas trocas entre setores. Isso não quer dizer que tenha feito um grande trabalho: quando tudo está parado, qualquer passo de tartaruga é um avanço.

Eu ainda estava a caminho do serviço quando Macedo anuncia no grupo de whatsapp: 

O padre já chegou ao escritório.

Padre?! Não entendi a história e achei que era o único perdido, mas descobri que não. Depois de ele garantir que era um padre de verdade - e não um de eleições e festa junina -, Carnegie perguntou:

Ele vai para qual setor?

A pergunta era pertinente - eu temia perder meu cantinho na janela -, mas eu tinha uma dúvida ainda prévia:

Padre pode ter dois empregos?

Macedo acabou nem respondendo no grupo, já que, aos poucos, íamos chegando ao escritório - ele gosta de ser o primeiro, parece até crescido na tradição japonesa. De qualquer modo, ele também não tinha muito mais o que esclarecer: havia chegado junto com um dos chefes, que trazia o padre, todo paramentado.

No meio da manhã, o padre apareceu no setor. Com uma garrafinha de água mineral na mão (daquela marca que teve lote recolhido por estar com bactérias), espargindo a água pelo setor - mas com cuidado para não acertar ninguém. Um colega até comentou que era a primeira vez que via padre benzer com água mineral. 

Ele deve ter esquecido o aspersório e a caldeirinha na sacristia; mais importante é a intenção - respondeu, depois, Mello, um dos que ficaram a ciceronear o padre todo o tempo, revelando um passado de coroinha, ou ao menos de papa-hóstia (se é que esta parte é passado).

Depois de percorrer o prédio todo, benzendo e rezando um pai nosso com quem quisesse, o padre se despediu e foi embora: não, não era um novo contratado, apenas amigo do novo supervisor-geral-responsável-por-fazer-os-contatos-intersetoriais-mais-ágeis, que, talvez tendo em vista o estado que estamos todos, decidiu apelar aos santos, ver se conseguia fazer acontecer de algum modo, como havia prometido.

Detalhe importante, que ficamos sabendo depois do almoço, quando um alvoroço tomou conta da empresa: ele não passou no RH. Restou o grande questionamento: que coisa ruim está no RH que o padre achou por bem evitar o setor - ao menos sem os equipamentos oficiais de exorcismo? Goreti, sem nomear, foi preciso:

Nem o padre quis entrar lá, e nós temos que nos submeter...


01 de setembro de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

O que está sob o tapete [Diálogos com o cinema]

À primeira vista, O Convite, de Olivia Wilde, é uma comédia sobre relacionamentos - tanto relacionamento monogâmico quanto relacionamento aberto -, e todas as dificuldades que a convivência entre duas pessoas traz, independentemente do formato estabelecido. Se desentendimentos e brigas são mais comuns no casal monogâmico da história, Angela (Olivia Wilde) e Joe (Seth Rogen), as desavenças aparecem também no casal heterodoxo, convidado para o jantar e conhecer o apartamento, Piña (Penelope Cruz) e Hawk (Edward Norton).

Entretanto, remake de um filme espanhol (Sentimental, 2020, de Cesc Gay), o filme traz também uma camada de fracasso da promessa capitalista neoliberal, o fracasso de uma classe média tradicional, branca, cis-hetero. Essa chave é dada pela profissão de cada um dos personagens e sua relação com o trabalho.

Piña é sexóloga, aparentemente gosta do que faz, mas não consegue instituir uma separação entre momento de trabalho e momento da vida, atuando em certo momento, durante o encontro, como terapeuta do casal anfitrião.

Hawk se tornou massagista, porém antes era bombeiro e abandonou a profissão quando notou que a utilizava como uma válvula de escape inconsequente, pondo não somente a si como a outras pessoas em risco, após a morte da esposa.

Angela fez graduação em artes, mas se dedica às atividades do lar, sem conseguir a contento fazer o que se espera de sua ocupação - o suflê que dá errado, a cozinha suja, o marido que não ajuda com os calçados. Presa à rotina, Angela tenta a partir da própria casa “criar” algo novo - o tapete da sala, que seja. Contudo, como o casamento, como sua própria vida, uma reforma maior do apartamento está estagnada, travada na sua incapacidade de decidir uma cor para as paredes - e na recusa do marido em ajudar em tal escolha. Mais: o próprio marido desdenha dessas suas tentativas e questiona o que ela faz (“de útil”, poderíamos completar) durante o dia.

Já Joe vive a frustração e o ressentimento de sua banda ter tido um efêmero sucesso, em 2008, e nada mais, sendo agora professor de música num pequeno conservatório; ademais, sua “conquista”, o apartamento onde moram, não é fruto do seu trabalho, mas herança dos pais - ele que sequer tem carro, volta de bicicleta por pressão da esposa.

Essas dinâmicas externas acabam por interferir, é claro, na dinâmica de cada casal.


No caso de Piña e Hawk, por um bom momento, o filme sustenta a imagem de um casal amoroso, erótico (com suas festas sexuais e suas fantasias abertamente trazidas sem preconceito) e sem fraturas, já que estão sempre abertos ao diálogo. Isso até a discussão entre ambos, quando ela, que é espanhola, estoura ao ser corrigida no seu inglês (mostrando feridas na sua integração como migrante) e o acusa de acelerar o momento do convite aos vizinhos de baixo para uma das suas festas. Nesse momento, fica evidenciada uma pressa de Hawk nesses eventos, de onde é possível perceber neles algo de fuga, uma tentativa de tamponar uma ausência, deslocada dos riscos que assumia quando bombeiro; enquanto Piña cede ao companheiro e depois se ressente - afinal, é ela a pessoa experiente nesse tipo de ocasião, não somente por sua profissão, mas por tê-la apresentado a Hawk.

Entre Angela e Joe, o diagnóstico é mais evidente: como esperar momentos leves, uma libido acesa, se o dia a dia é baço, sem perspectivas, sem sonhos, feito de remoer os planos de juventude que fracassaram? Mais que manter o casamento por causa da filha, como eles atestam, antes é a filha quem mantém nos pais algum interesse pela vida sem jogar tudo pelos ares - não por acaso Angela lamenta que ela irá para a faculdade e sairá de casa... daqui seis anos.

Contudo, cabem as perguntas: que abismo é esse que se vislumbra e se teme quando se evita assumir as coisas como estão (o casamento falido, nesse caso) e encarar o que se pode fazer a partir disso? O quanto das nossas apostas fracassadas (a graduação em artes, a banda que quase fez sucesso) não servem como álibi para não alterar esse estado de coisas, deixando a responsabilidade no passado e evitando um comprometimento presente com o desejo e o devir?


01 de setembro de 2026

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

O colega de banheiro [por Sérgio S. ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]


Em maio comentei aqui da reorganização e do passaralho que ocorreram na empresa. Cortaram vários cargos médios (que eu chamo de subchefe), depois alguns chefes, fizeram mudanças de lugares, e tudo parecia pronto para jazer na ordem que o capital exige. Sejamos sinceros: eu e meus colegas fomos semi-amadores na nossa avaliação. Tem muita coisa que se pode errar na percepção, na avaliação e nas conclusões - agora, achar que um passaralho vai se satisfazer sem passar a faca pelo chão de fábrica é quase como acreditar que privatização de serviço público vai trazer melhorias à população.
Mesmo que nunca tivesse trabalhado antes, era questão de observação e análise: cada setor fez uma reformulação, juntaram tudo e apresentaram como um trabalho coerente, sendo que em momento algum pareceu haver uma coordenação geral das reformulações, pensando na empresa como um todo e não em diretrizes gerais e cada setor em particular.
Resultado: não tardou um mês e começaram a reformular os setores reformulados - inclusive com contratações. Mais um mês e aí, sim, com mais uma série de fusões e desdobramentos de setores, mudanças de nomes e mudanças de salas, veio o novo passaralho - cortando, inclusive, vários daqueles funcionários que haviam sido contratados havia um mês.
Nessa novela, nosso setor teve várias transferências, algumas contratações, algumas demissões. Uma das salas que ocupávamos está vazia, a sala do antigo subchefe virou sala de reunião, e vários rostos desconhecidos apareceram (para compensar os rostos desconhecidos que desapareceram). Não me queixo totalmente: fui jogado para um canto, tenho agora apenas a janela às minhas costas - à qual deixo aberta, escancarada, o dia inteiro - e, mais importante: sem doutora Sabujinha nas proximidades. Pelo visto, notaram que havia algum clima belicoso entre mim e ela, e nos puseram em extremidades distantes. Pior para Carnegie, o Arauto do Apocalipse, que está agora sentado à direita da colega mais simpática do setor (quiçá da empresa, ainda que eu ache que não, preciso ser justo: tem gente muito podre aqui dentro).
O mais curioso dessa reformulação é que parece que quem pensou a nova distribuição geográfica dos funcionários fez curso de cálculo de microondas no refeitório - conforme o meme consagrado.
Dia desses encontrei Fernandes, o colega de cima (agora apenas um andar acima!) no corredor do nosso andar. Conversamos normalmente, e no final lembrei de perguntar o que ele fazia ali:
- Vim usar o banheiro, que os de cima estavam todos ocupados, com fila.
Achei que poderia ser algo pontual - um café da manhã coletivo com algo passado e que afetou todo o setor. Não era o caso.
Dia desses fui cumprimentado esfuziantemente por um colega no banheiro. Achei estranho: todos aqui conhecem minha fama - mesmo os novatos, parecem que já são alertados que eu sou uma pessoa de poucas conversas. Como sou educado, cumprimentei, mas sem a mesma alegria que ele. Na saída, perguntei ao Macedo, que me esperava para irmos almoçar, quem era aquele que havia saído antes de mim:
- É colega novo?
- Não. Ele tem anos de casa.
- Mas como nunca o vi antes?
- Foi transferido pro setor que ficou no andar abaixo, e estão com poucos banheiros para a quantidade de funcionários alocados.
Ou seja, a empresa lançou a inovação do colega de banheiro. E eu, que já não faço parte do clube do café, para não ter que socializar, agora preciso evitar até mesmo o mictório!





17 de agosto de 2026



PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Para que tanta pressa? [Diálogos com o teatro]

 Fui com Lia assistir ao espetáculo Orkhḗstra Phántasma, de Felipe Hirsch, em cartaz no Sesc Vila Mariana. Saindo de uma quermesse para o teatro, avisei que era bom estarmos bem alimentados, pois eram três horas de espetáculo. Como eu, ela tem um certo receio de apresentações demasiado longas - talvez traumatizada pelo filme Beau tem medo (que eu gostei) -, e questionou: o que será que eles têm para dizer em três horas que não pode ser dita em uma hora e meia?

Lembrei desse questionamento ainda antes da peça completar uma hora, quando o ator Paschoal da Conceição elenca sinais de morte, uma casuística de pequenos sinais absurdos - da narina pela qual se expira à cor do sêmen ou do sangue menstrual, passando por ficar trinta segundos sem piscar - que, segundo ele, seriam sinais de morte para os próximos meses - a não ser que fizesse algum ritual para espantá-la. 

A cena é engraçada pelos absurdos elencados - enquanto um casal se pega quentemente sob uma luz vermelha no centro do palco -, mas pareceu se alongar além do necessário: tanto os sinais de morte quanto o casal se pegando, começando a ficar cansativo, tedioso. “Sim, já entendi”, foi a primeira coisa que pensei - e lembrei do questionamento da Lia. 

Foi quando entendi o que a peça estava trazendo para além do texto - e que será retomada na penúltima cena, pelo mesmo ator: “para que tanta pressa?” Para que sair logo dessa cena e partir para a próxima, se ainda há mais para se extrair dela? Extração essa que depende de um movimento ativo do espectador: entender o tédio, assumi-lo e pensar por si próprio o que tudo aquilo quer dizer. 

Somos seres de linguagem, estamos imersos nela - como uma segunda pele, como Georgette Fadel fala em algum momento -, e nos sentimos como que nus se algo nos passa sem sentido. Daí a necessidade de o tempo todo preenchido de sentido, qualquer sentido, em que um sinal deve ter um significado para além dele. Byung-Chul Han traz esses questionamentos em suas obras sobre a sociedade atual, com o adendo de que estamos habituados a receber esses sentidos, não a produzi-los. 

É aqui que entra a grande força de  Orkhḗstra Phántasma: ela possui uma intencionalidade, não é um mero acúmulo de cenas aleatórias sem relação entre elas e algumas sem sentido em si, e nos força a pensar não para decifrar um enigma, mas para suportar a ausência de respostas prontas. Mais que isso, ela nos dá tempo para que tentemos por nós próprios entender o que se passa no palco: há espaços vazios, há repetições do (aparentemente) já compreendido, há tédio (não por acaso, desde a primeira hora, várias pessoas saem do espetáculo). Ou seja, há um confronto com nossa passividade, com nosso hábito de ter a explicação pronta, há um convite à reflexão que só o vazio proporciona. 

A recordação que me veio nessa hora foi das viagens de férias para Florianópolis, quatorze horas de viagem, no Corcel II branco ou no Santana Quantum azul, já entediado de dormir, enjoado das mesmas músicas que tocavam no toca-fitas, olhando pela janela e elaborando alguma história mirabolante para passar o tempo: um espaço em que eu era invadido por meus próprios pensamentos e eles me levavam para locais inesperados. E essa volta às viagens de férias foi um local inesperado que a peça me levou nesse instante.

Não foi o único salto no tempo. Em determinado momento, o espetáculo faz menção ao “microfone aberto da Rádio Muda, de Campinas”. Ouvir aquilo me trouxe uma satisfação quase física: foi a rádio dos meus tempos de Unicamp, onde passei cinco anos comandando o programa sUbterrâneos do pOp. A Orkhḗstra, feita de fragmentos, começava a colar meus próprios pedaços.

Lia, nessa mesma cena dos sinais de morte, teve outra interpretação, mais ancorada no palco: de como, na preocupação com a morte e em dar sentido a tudo, vamos nos tornando meros voyeurs da vida, dos seus momentos mais interessantes, que acontecem quentes à nossa frente, estão ao nosso alcance, mas não intervimos - sobrecarregados que estamos na busca de tantos significados.

Orkhḗstra Phántasma é um espetáculo provocativo, que tira o público do seu lugar habitual e confortável. Uma peça que nos força a pensar, seja a partir de reflexões explícitas, como em cena de Georgette Fadel, apresentando duas concepções opostas de teatro: uma do teatro como catársis, para se esvaziar de sentimentos, a outra do teatro como para ativar esses sentimentos; seja em momentos sem sentido, como os quatro minutos para a luz se apagar, numa paródia do mindfulness tão em voga hoje em dia. 

Se a questão fosse entregar tudo pronto e rapidamente, como nosso senso de urgência (desnecessária) atual nos impinge, a última cena o faz e de forma primorosa! Georgette Fadel em cinco minutos faz todo um ciclo da vida, de bebê aprendendo a caminhar até um idoso já com dificuldade de acompanhar a velocidade do tempo. Não tem como não se enxergar nesse ciclo, e vem o medo de imaginar em que momento dele estamos - e se estamos realmente aproveitando.


29 de junho de 2026




sexta-feira, 26 de junho de 2026

Paulo Freire no café [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Período de Copa do Mundo é quase tão tumultuado quanto o que antecede as férias. Na última quarta-feira o jogo do Brasil, por exemplo, nem era em horário comercial e causou o maior congestionamento de São Paulo dos últimos seis anos, com quase 1.700 quilômetros - mais parecia galera saindo para passar o natal na praia. Sem falar que isso é a distância para Cuiabá.

Aqui no escritório, correria também, para dar conta das demandas do dia antes de encerrar o expediente. Houve alguma mudança? Não! Saímos às 17h, como todos os dias, mas parece que tudo ficou corrido, atropelado - e acumulou muita coisa para os dias seguintes. Com a classificação do Brasil e o jogo útil de segunda, demandas foram antecipadas e o chicote comeu solto no resto da semana. 

Consequências: quarta não fomos tomar o habitual café da tarde. Na quinta, chegamos num horário fora do habitual. Antes de perguntar se iríamos querer o de sempre, a atendente nos admoestou:

Estão atrasados!

E a seguir perguntou por que havíamos faltado no dia anterior.

Demos risada, nos justificamos de brincadeira e fizemos nosso pedido e falamos do jogo.

Sexta-feira, novamente não fomos no horário habitual. Novamente fomos recriminados:

Virou esbórnia agora? Vocês saem a hora que querem para o café?

Eu e Macedo nos entreolhamos. Agora, além da chefe a nos fiscalizar os horários, tínhamos também a atendente do café a cumprir tal tarefa. E ela parecia séria. Na volta para o trabalho Macedo comentou, um tanto temeroso:

É, melhor não vacilarmos mais nos horários do café, nunca se sabe do que é capaz uma atendente irritada com você.

Achei por bem concordar. Lembrei das conversas que já tive com Brotinho, e citei Paulo Freire: quando a educação não é libertadora, o sonho de todo oprimido é se tornar um opressor. Se uma hora surgir oportunidade para algum tipo de fiscal interno, já temos alguém para indicar!



26 de junho de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

O zagueiro raçudo da São Bento [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Se alguém que lê estas mal traçadas linhas também acompanha grupos de fotos antigas de São Paulo no Facebook ou Instagram, sabe que para toda foto da década de 1970 para trás vai ter uma enxurrada de comentários cretinos.

 Uma foto de uma criança ou um jovem espremido num terno desconfortável numa tarde de calor de 1920: olha como se vestiam bem aquela época! Uma foto da República com o trânsito totalmente insano e pessoas tomando banho de chuva das rodas de um ônibus enquanto tentam não ser atropeladas, em 1970: destruíram a beleza do centro, hoje só tem cracudo, nóia e puta! Uma foto da praça Roosevelt ou do Largo do Paissandu dos anos 1950, servindo de estacionamento, sem calçada para pedestres: como era bom viver aquela época! Se ler todos os comentários, capaz de ter alguém - até mais de um alguém - falando que naquela época podia andar com celular na rua sem medo de ser roubado. 

Em resumo, o que esses comentários sempre dizem é que antigamente a cidade era linda, e estragaram ela - sem nunca conseguir achar o culpado por tal estrago (talvez não seja nunca: às vezes sobra para a população mais pobre, para a população de rua ou migrantes), até porque seria assumir que sempre votou em quem fez as piores escolhas: Minhocão, terceira pista da marginal, destruição da Lei Cidade Limpa...

Mas eis que nosso atual prefeito, com vistas a agradar a esses nostálgicos do que não vivenciaram, está trazendo a beleza e a maravilha do centro de antigamente. 

Já há um tempo que na região da Sé e do Anhangabaú basta ligar o pisca alerta e você está autorizado a circular de carro, pressionando os pedestres para saírem da frente. Ainda não começaram os bonitos atropelamentos de antigamente, mas com o aumento da circulação de bicicletas elétricas, esperamos ansiosos por isso.

A nova inovação está na rua São Bento: um lindo lamaçal, que é irrigado mesmo em dias de sol, fazendo com que o cidadão paulistano e o turista que está turistando por ali tenham uma experiência imersiva do que era São Paulo cem anos atrás, sem essa infraestrutura (ainda que incompleta) que torna São Paulo tão feia aos olhos das viúvas e viúvos da ditadura.

“Ah, mas é temporário, só até terminarem as obras no centro”, irá argumentar algum defensor do indefensável prefeito. Correto. O detalhe que toda essa revira estava prevista para terminar antes das eleições... de 2024. Pelo ritmo que vai, teremos sorte se a troca das calçadas for concluída para o próximo pleito municipal (quem sabe se o escolhido do prefeito estiver mal nas pesquisas eles prefiram acelerar ao invés de aditar as obras?).

Deixemos por cá os prolegômenos desta crônica e vamos à cena que a inspira - que cabe num twitter.

Eis que chega Goreti do almoço, enlameado dos pés à cabeça, literalmente, como um zagueiro raçudo dos tempos áureos do futebol, quando se tratava de um esporte e não de uma jogatina: tinha escorregado com gosto na rua São Bento, numa cena de humilhação pública - que, infelizmente, perdi. De volta ao escritório, foi conversar com o chefe, se não poderia encerrar o expediente mais cedo, dado seu estado lastimável que se encontrava.

Claro que não - a resposta da chefia foi lacônica e precisa, também como um zagueiro raçudo dos tempos áureos do futebol.

Inconformado, mas sem ter o que fazer, Goreti voltou à sua baia, se sentou na sua cadeira e voltou a trabalhar. Ao levantar para ir embora, Meirelles, que é mãe e já lidou com situações similares, deu a dica:

Amanhã traga uma toalha para se sentar, ou vai sujar sua roupa de novo, que esse barro vai demorar para sair.


24 de junho de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Futebol, fé e outras bets [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Disse em crônica passada que esta era uma copa inútil. Reconheço minha parcialidade em tal julgamento: trata-se de uma copa inútil para quem trabalha CLT (ou precarizado, como PJ) das oito às cinco. Para quem trabalha à noite, não deixa de ser um alívio. E mesmo para pais e mães de criança pequena, como é o caso de Maceda, que pode assistir ao jogo contra o Haiti, pois Macedinho já tinha sido posto para dormir (Macedo gosta tanto de futebol quanto de novela bíblica).

Quem também soube fazer do limão uma limonada foi minha vizinha de cima - a que tempos atrás (outubro de 2024, para ser mais preciso) precisou da ajuda da síndica para conseguir descapetizar alguém, pois o bicho ruim não ia embora só com o barulho infernal que ela e seus convidados faziam.

Brasil e Haiti, nove e meia da noite. Clima de festa pela cidade durante todo o dia: se a estreia foi uma decepção para Marrocos (e para alguns brasileiros que não acompanham futebol de verdade, ou saberiam que se o hexa vier, vem de zebra), o segundo jogo era favas cantadas - a não ser que acontecesse uma enorme zebra (segundo a transmissão do jogo, mesmo assim, o odd estava bom para apostar, ou melhor, investir com segurança no Brasil, praticamente um tesouro direto das bets). 

Nem são nove horas redondas e começam a chegar os convidados da vizinha de cima. E acaba minha paz. Não vou reclamar, afinal, é copa do mundo, muita gente está ansiosa pela primeira vitória da última seleção com Neymar (esperamos). Os convidados vão chegando até a hora do jogo. A partir dessa hora não ouço mais seu interfone tocar nem o tradicional barulho no hall de entrada do apartamento - parece que eles fazem um sapateado para entrar, deve ser algum código interno deles, tipo crianças de doze anos costumam ter, ou ao menos eu tinha (não que eu esteja implicando, só constatando). 

O juiz apita. Não tarda, uma oração. Amém. Mais outra oração. Aí eu começo a implicar. Haja reza para a seleção canarinho! Sei que o time não inspira muita confiança, mas não precisava rezar tanto pra ver se deus ajuda. Até porque se tem algo que não me parece condizer com a Bíblia, Jesus, deus e toda a religião cristã, é achar que entes divinos interfeririam num esporte competitivo, escolhendo um lado em detrimento de outro - e isso sem bases morais, que seriam as mais aptas para julgamentos religiosos. Traição, por exemplo, não é pecado? Ou então avareza: que dizer de jogador que comemora convocação fazendo propaganda pra bet? Por sinal, não tem uma bet evangélica, não? Se não existe, os pastores estão perdendo dinheiro!

Enfim, rezar e orar era pouco, com vinte minutos de jogo começaram também os cantos de louvor. Ponho o som da tevê lá em cima, nem tanto para escutar o insuportável narrador da tevê falando de bets enquanto cita o nome de um ou outro jogador que está com a bola, mas para abafar a vizinha de cima, mesmo. 

Veio o gol do Brasil. Explosão de alegria e alívio no bairro. A vizinha de cima com seus convidados, impassíveis: seguem cantando e rezando, como se não estivesse acontecendo jogo nenhum.

Irritado com o barulho, deixo a tevê no mudo e coloco Sepultura no talo. Por que Sepultura, deve estar perguntando a desocupada leitora, o desocupado leitor. Ora, para dar uma brasilidade pesada à minha tentativa de infernizar a vizinha e seu culto em casa. Péssima escolha. Foi cutucar o próprio diabo com vara curta. Começaram a falar a língua dos anjos e a pular feito uma manada de elefantes - sentimento que eu já conhecia de outros carnavais, digo, celebrações religiosas. Não, não era delay da minha televisão: foram quase dez minutos até o Brasil fazer o segundo gol que justificasse aquela pulação toda - e eles seguiram pulando esses dez minutos todos e mais um pouco. Até pensei em reclamar para a síndica, mas imaginei que ela não acataria minha reclamação, uma vez que provavelmente também ela estaria pulando e gritando com o jogo, por mais que já tivesse passado das vinte e duas horas.

Fui para um bar perto de casa, acompanhar o jogo em meio ao povo - irritado em ter sido expulso de casa por toda aquela fé sem limites (sonoros).


22 de junho de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Ciro, o tirano da janela [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

A confluência de conflitos latentes (ou nem tanto) aqui na equipe tem gerado uma série de saias-justas que chegam a ser divertidas de acompanhar - e mesmo de ser protagonista. 

A guerra da janela persiste. Pacheco voltou com sua tática do gaveteiro. Eu ignorei, e abri minha folha, para ventilar um pouco a sala abafada. O dia não estava muito frio, mas reconheço que o vento estava gelado e insistente - quase incômodo, eu diria. Quase!

Não era o que sinalizavam Pacheco e Goleador, que começaram a forçar tosses, na esperança de que eu tomasse a iniciativa de desfazer o que fizera. Eu, com meus fones, fingia que não ouvia. 

Não tardou, Pacheco se levantou para seu social habitual, deixando Goleador no frio e na aporia: ou aceitava o vento, ou teria que fazer coro à Doutora Sabujinha pela janela fechada - dar razão à sua arqui-inimiga. Não me recordo se já comentei algures: as duas já nem se cumprimentam e quando conversam, é o extremamente necessário para o serviço - um pouco menos, na verdade (a chefia não sabe dessa parte). Não que isso seja uma novidade para Pacheco: também não somos dignos de seus cumprimentos Carnegie e eu - com Mello ela soube sair do seu lado antes de chegar a esse ponto. Por falar em ponto, mantenho aqui minha indignação já expressada: sua baia virou ponto de encontro de colegas aleatórios de outras equipes e do Mello, o que tem prejudicado assazmente meu rendimento antilaboral.

De volta ao conflito fenéstrico. Outros colegas estavam nas duas fileiras de baias ventiladas pela janela que ocupo, e ninguém mais tossia ou parecia incomodado - um deles, inclusive, se mantinha sem blusa de manga comprida. 

Pelo visto, por conta do jogo do Brasil, estava todo mundo adiantando trabalho, sem tempo para conversa de cerca-lourenço, e Sabujinha teve que logo voltar ao seu lugar, fingir que trabalhava e tossia. Tosse cá, tosse lá e vento frio frequente (e eu de fone e blusa). Nessa hora, Macedo, nosso homem da calma, perdeu a paciência e resolveu intervir: pediu, gentilmente e em ASMR, para que eu fechasse a janela, pois o vento estava frio e parecia que não era o único incomodado com isso. Aceitei o pedido do colega e assim o fiz. Depois, no café da tarde, me contou: Goleador foi agradecê-lo, cheia de mesuras, pela intervenção. 

Esse agradecimento fez surgir em mim uma pequena dúvida: será que, sem perceber, estou me tornando o novo vilão da equipe, Ciro, o tirano da janela? 



19 de junho de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.

Enquanto você estiver estudando

Pai, hoje você faria 72 anos. Foi a primeira coisa que lembrei ao acordar - e motivo de eu estar melancólico. Acho que a sequência de crônicas do Sérgio S. ajudou um pouco: lembrei de quando publicava o Trezenhum. Humor Sem Graça. à noite, madrugada muitas vezes, e na manhã seguinte, ao ligar o computador, lá estava um e-mail seu com comentário sobre as agruras da Universidade e, claro, a revisão do texto. Devia ser a primeira coisa que você fazia no dia. Às vezes havia alguns preciosismos gramaticais da sua parte, que eu não concordava, mas alterava por reconhecimento da sua ajuda. 

Na verdade, a ideia para hoje era escrever mais uma crônica do Sérgio S. e as disputas miúdas desta burocracia em que faço trabalho de estagiário com diploma de sociólogo. Sérgio S. é um spin-off de Trezenhum - e digo isso só para te provocar: com certeza você me mandaria uma mensagem me criticando por usar um termo em inglês, e eu concordaria contigo: prefiro dizer é uma derivação do Trezenhum. Curiosidade: já tem mais tempo que o original (só não sei se tem mais textos).

Lembrei também quando soltava meus textos mais sérios - esses precisavam de menos revisão, mas de vez em quando vinha. O que vinha mesmo era, na ligação seguinte - por telefone ou skype -, você começar: “Dani, aquilo que você falou no seu último artigo...” e começarmos nossa conversa sobre política, nem sempre confluente, mas sempre respeitosa - até porque éramos dois do campo da esquerda, cada um com seu extremismo particular. Por sinal, uma das principais pessoas para quem eu escrevia era você: mostrar que, ao mesmo tempo, eu seguia seus passos políticos e me diferenciava deles em detalhes. Ainda sinto falta dessas conversas. Como sinto falta de minhas férias serem voltar para Pato Branco, curtir a casa e a companhia sua, da mãe, e das cachorras. Colômbia, Lençóis Maranhenses, Salvador, Guatemala foram destinos legais, mas foram arremedos de férias.

Hoje tem jogo do Brasil. Foi com você que aprendi a não torcer pela seleção - mercenários era o que você acusava os jogadores, desde a copa de 1994, que eu me lembre. Patriotismo de fancaria, digo eu, hoje (e reitero o mesmo ranço seu para com Senna). Você era um nacionalista! Foi durante um jogo do Brasil contra a Argentina que você partiu. Hoje o jogo é contra o Haiti, país que rendeu uma das edições mais polêmicas do Trezenhum. Humor Sem Graça. O Brasil deve vencer fácil, eu devo aproveitar esse tempo para estudar. “Enquanto você estiver estudando, a gente te sustenta”, foi o que você me disse uma vez, no início do século, não sei bem se quando eu tinha entrado na psico ou na filosofia. E, de alguma forma, isso continua verdade até hoje.



19 de junho de 2026

quarta-feira, 17 de junho de 2026

A Ilíada do Clube do Café [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Marx, parafraseando Hegel, costumava dizer que a história se repete, a primeira como tragédia, a segunda como farsa. Pois esta semana estive diante de um rapto homérico aqui no serviço, mais especificamente no setor onde me encontro alocado como capital circulante. O primeiro rapto homérico, creio ser de conhecimento geral, é de Helena por Páris, desencadeador da Guerra de Tróia. A situação no trabalho talvez seja um pouco menos dramática, ou melhor, trágica, sem rapto de mulheres - até porque os tempos são outros e apesar de eu suspeitar que muitos colegas teçam comentários e tenham visões machistas, no ambiente eles (e elas) mantêm um mínimo de compostura.

Tudo corria relativamente bem naquela quarta-feira fria de sol, quando um colega do Clube do Café decidiu fazer uma pipoca para acompanhar o jogo de Portugal, digo, uma reunião on-line à qual estávamos submetidos. Abriu o armário onde ficam os apetrechos do clube e a panela de arroz de Goreti, buscou, buscou, buscou e... nada da pipoqueira. Discretamente ele comentou na sala:

Alguém viu a pipoqueira do Clube do Café? Não estou encontrando ela no nosso almoxarifado. - sim, eles chamam o armário de almoxarifado do Clube do Café, para irritação do dono da supracitada panela de arroz. A balbúrdia rapidamente se alastrou no ambiente, até porque o gol de Portugal saiu logo no início - e nada da pipoca para acompanhar o evento. Entre aqueles integrantes do Clube que não estavam na reunião, começou uma investigação para descobrir onde poderia estar o referido eletrodoméstico: quem foi o último a usar, quando foi a última vez que comeram pipoca. Sem pistas, a discussão chegou ao grupo de whats - conforme relatava minha fonte, que mantenho o sigilo por direito de ofício -, para indignação de ainda mais integrantes.

Fomos roubados! - bradava uma das vozes mais exasperadas.

Já perguntaram na segurança? - interveio outro, mais prático.

E lá foi Mello, como membro mais proeminente do referido Clube - e não estando em reunião -, ver com os seguranças se haveria possibilidade de analisar as imagens do circuito interno. A sala da segurança fica no mesmo andar do RH - e não foi necessário ir até ela. O cheiro de pipoca impregnava o andar - era intervalo de jogo, deviam estar fazendo a leva para o segundo tempo. O que se seguiu daí são versões contraditórias.

Diz uma versão que Mello chegou pisando duro na sala e ao se deparar com a inefável prova do crime exigiu imediata devolução do item raptado - o que não foi atendido. Saiu prometendo vingança.

A segunda versão diz que ele foi sorrateiramente até o RH, se certificou de que se tratava mesmo da pipoqueira que ele havia escolhido para o Clube, e perguntou quem tinha autorizado a pegar o apetrecho. Para sua surpresa, quem havia autorizado não era ninguém mais, ninguém menos, que um dos membros fundadores do Clube do Café: Conan (sim, temos um colega chamado Conan, inclusive com porte físico para estrelar o filme do bárbaro). Conan que na reorganização pós-passaralho foi transferido de setor, e por isso ninguém mais lembrava dele. Detalhe: ele não foi para o RH - ou seja, mistérios pairando no ar. Enfim, autorização dada, devolução de pipoqueira negada, depois de uma altercação que chamou a atenção da sala ao lado do RH, a da segurança. Mello saiu de lá prometendo vingança.


A discussão foi para o grupo de whats:

Quem foi que autorizou à revelia que a pipoqueira fosse emprestada? - questionou Mello, como quem não soubesse do que havia se passado.

Conan vestiu a carapuça e foi direto:

Entrei com minha quota na pipoqueira, tenho direito a usá-la de vez em quando.

Os meandros da discussão deixo de lado, para não cansar a desocupada leitora, o desocupado leitor, com filigranas jurídico-escolástica-econômicas. O resultado é que a pipoqueira ainda não voltou. E a ameaça de vingança de Mello segue pairando no ar.


17 de junho de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.

terça-feira, 16 de junho de 2026

Férias steinbruchianas [por Sérgio S. ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Carnegie pistola é engraçado. E não precisa de muito para ele ficar assim: uma derrota do Palmeiras, uma vitória do Corinthians, falar o óbvio sobre futebol (ele tem posições bem heterodoxas sobre o esporte bretão em terra brasilis, em especial sobre Corinthians e Palmeiras, sendo que este seria o verdadeiro time popular), uma conversa simples com algum desafeto seu do trabalho, algum assunto político quente do momento. 
Minha forma mais habitual de deixá-lo pistola é dizer que ele é fã do Benjamin Steinbruch. Para avivar a memória da desocupada leitora, do desocupado leitor - ou mesmo trazer essa informação a quem não acompanha economia e política com muito afinco -, Steinbruch já defendeu que horário de almoço de trabalhador é um desperdício de tempo, que ele poderia comer um sanduíche com uma mão e seguir operando a máquina com a outra, levando 15 minutos para isso. Uma hora de almoço é praticamente um potlatch que esquerdista defende. Para quem não sabe, Potlatch é uma cerimônia tradicional de povos indígenas da América do Norte, de desperdício e/ou destruição de bens. O objetivo é ganhar prestígio, dividir riquezas e fortalecer alianças na comunidade. 
Enfim, eu falava de Carnegie, nosso arauto do apocalipse, que fica pistola sempre que eu digo que ele é steinbruchiano, porque ao invés de ir ao refeitório, ele prefere almoçar na sua baia, enquanto trabalha (só que não é um sanduíche e não são só quinze minutos, por enquanto). Ele diz que assim faz porque gosta de comer em horários em que o refeitório está muito cheio e, principalmente, porque tem algo urgente para terminar aquele dia, mas não é sempre assim - ainda que isso aconteça todo dia.
Eis que estamos eu, Meirelles, Macedo e Goreti conversando sobre assuntos aleatórios (impressionantemente, não é sobre a copa, nossa bancada é meio rebelde) antes de começar de verdade a trabalhar, quando chega o herói desta crônica. Olhamos para ele surpresos:
Você está de férias! - fala de pronto Meirelles, antes mesmo do bom dia.
Eu sei, mas... - tenta responder Carnegie.
Ótimo que você sabe, então, tchau. - responde correta e secamente Goreti.
É que eu tenho um assunto urgente e importante para resolver.
Se não for recolher suas coisas porque ganhou na loteria, não é importante, nem urgente.
Se ele ganhasse na loteria, nem precisaria vir buscar as coisas dele - me intrometo na discussão, dada a falha lógica no argumento do colega Goreti, que não posso deixar passar.
Tem razão - humildemente ele concorda -, então, vamos lá: se não veio recolher seus apetrechos porque conseguiu um emprego melhor, não é urgente nem importante.
Nada disso. Mas eu tinha que ter terminado um relatório semana passada e não deu tempo.
Isso é problema da chefia e quem ela designou para te substituir, no caso, o Sérgio S.
A lembrança desse pepino pra resolver me faz estremecer.
Prefiro eu mesmo fazer.
Vai ganhar uma estrelinha de bom funcionário.
Minha vontade é pôr panos quentes nessa história: deixa o colega vir trabalhar nas férias, se ele está entediado em casa. Mas me controlo, não posso dar bandeira tão grande assim da minha constante luta pelo ócio.
Carnegie nem responde: já está posicionado defronte ao computador, disposto a terminar o relatório o quanto antes, para começar a desfrutar - finalmente - suas férias. Meu maior receio é que depois do almoço steinbruchiano, suas férias steibruchianas, de quem segue trabalhando normalmente - com as duas mãos! - enquanto descansa, se tornem um exemplo para os superiores. Até lá, cruzo os braços e aproveito a proatividade alheia.

16 de junho de 2026

PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Você aí [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

A guerra da janela entre mim e a doutora Sabujinha continua. Sua estratégia de pôr o gaveteiro defronte a elas foi vetada pela CIPA - exatamente como atrapalharia no caso de um acidente, incêndio, não faço ideia. Impediria as pessoas de pularem? De qualquer modo, comemorei a decisão. A dinâmica tem parecido esquete de humor de segunda categoria: eu chego primeiro, abro as janelas; ela chega depois, fecha a folha dela; saio primeiro para o almoço, quando volto, a janela está toda fechada; abro-a; ela volta e fecha a folha dela, bufando. Todo dia a mesma história. Acho que só não fecha toda a janela depois que eu e Macedo saímos para nosso café da tarde porque ela fica muito pouco em seu lugar, e à tarde é o melhor horário para confraternizar.
Sofrer com a proximidade da doutora Sabujinha à minha baia não é nada original da minha parte. Descobri, ontem, que na verdade sua mudança de local não foi só porque ela quis, mas porque o clima entre ela e Bello começava a azedar - assim como azedou com todo mundo que se sentou próximo a ela. Com base nessa informação, reconheço que sua escolha do novo lugar tem uma lógica: se sentando ao lado de uma estagiária, esta não vai ter como reclamar da sênior: terá que suportar e, no máximo, pedir à chefia para trocar de lugar, depois de inventar alguma justificativa, por não poder dizer a verdade. Não fosse a janela, talvez pudesse trabalhar em paz, mas eis que tem eu e cá estamos em guerra.
Mas o assunto hoje nem era esse. Reunião de equipe, o novo chefe, aquele que doutora Sabujinha sabuja desde antes de assumir a chefia, decide que as demandas de Carnegie, que sai em férias semana que vem, não ficarão, como sói acontecer, entre Macedo e Goleador - que estão, é sabido de quem me acompanha aqui, sobrecarregados. Pois é, dá a impressão de que o chefe atual gosta de ser bajulado mas não cede tão fácil assim. Ademais, parece também que dá poucos ouvidos às fofocas de escritório, ao menos as que tratam da incompetência de certos funcionários. Para completar, tudo indica que acredita em dados objetivos e avaliou o que cada um da equipe realiza corriqueiramente. Conclusão do silogismo a partir das premissas acima expostas: fomos desmascarados em nossa disputa por quem menos trabalha. Resultado: divisão cinquenta-cinquenta entre mim e Pacheco das demandas de Carnegie, sem direito a escolha.
Até aqui, dias de luta, dias de fracasso. É parte do jogo, acontece. O grande momento, contudo, foi quando o chefe foi distribuir as tarefas: dividiu-as em dois blocos e então atribuiu cada um a um funcionário:
Sérgio S. fica com o bloco um e a... a... a... você aí, fica com o segundo bloco.
Sabujinha já se desmanchava diante do lapso do chefe, trazia uma expressão de choro, mas Carnegie, nosso arauto do apocalipse, não podia deixar de pontuar:
A Pacheco?
Isso! Pacheco fica com o bloco dois.
Em silêncio, nós, as vítimas de Pacheco, trocamos alguns olhares cúmplices, regozijando em júbilo respeitoso, ao ver o ego da colega sendo ferido assim involuntariamente. 


12 de junho de 2026

PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Integração [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Se o velho testamento tivesse sido escrito nos tempos atuais, no lugar de praga de gafanhotos, deus teria enviado como praga grupos de whatsapp. Que atire a primeira pedra quem não participa de uma dúzia deles: de trabalho, do condomínio, da família, da família sem o tio e o primo fascistas, dos colegas de faculdade, dos amigos de faculdade, dos ex-integrantes do Trezenhum. Humor Sem Graça. comentando as notícias do dia (sem qualquer humor), de moradores do bairro preocupados com a segurança, e por aí vai.

Uma das decisões das novas chefias, com vistas a melhorar a performance de todas as equipes e do setor como um todo, foi proibir assuntos alheios ao trabalho no grupo de whatsapp. Algum burburinho reclamando dessa decisão autoritária, mas todos acataram - até porque melhor não arriscar o emprego por conta de comunicação virtual sem importância. 

Eis que veio o aniversário de Bella (que não é de Isabela). Sempre sociável, ela marcou um almoço em comemoração, ao qual esteve presente pouco mais de metade do setor. Ela atribuiu o fiasco por não poder usar o grupo de whats para fazer o convite, ainda que tenha havido um mutirão junto com alguns colegas, organizado a partir do grupo de whats do Clube do Café, para que todos (ou praticamente todos) fossem convidados. Sim, ela acredita que eu, por exemplo, faltei por não saber, por falta de convite, e não por vontade autônoma e deliberada de evitar esse tipo de maçada.

Assim sendo, atendendo a pedidos e inspirado nos grupos “Mega da Virada” do setor, a chefia criou um grupo de whatsapp para aniversários - afinal a solução para melhorar a integração das pessoas é sempre criar um grupo novo. Chama-se “Grupo de Níver” e nele colocam os convites para essas comemorações, que se perdem em meio a dezenas de mensagens de feliz aniversário. Eu, não precisaria dizer, faço minha parte e não contribuo com essa poluição virtual.

Parece que as reclamações de falta de interação e integração dos setores se mantiveram, e a chefia decidiu criar um grupo geral. Chama-se “Assuntos gerais” mas poderia ser chamado de “Bom dia, boa tarde, boa noite”. Minto. Boa tarde são poucos - nessas horas estamos trabalhando -, mas os bons dias acontecem até aos finais de semana e algumas pessoas mandam boa noite quase todos os dias; de modo que dá para ter uma boa ideia dos hábitos de sono de alguns colegas. Um deles acorda todo dia às cinco - e paira uma forte suspeita aqui na bancada de que ele faz isso para treinar cedo. Goreti se indigna:

Que espécime de pessoa acorda às cinco da manhã pra treinar e faz jejum intermitente? 

Outro colega precisa regular melhor seu horário de dormir, pois não faz bem se deitar sempre próximo à uma para acordar às sete - isso talvez ajude a explicar o mau humor que geralmente ele irradia. Apesar que nosso emprego nesta fábrica de moer gente chamada capitalismo também deve ajudar nessa explicação. Mas creio que a principal causa para seu mau humor é que ele é um chato, mesmo.

Enfim, como deu para perceber, ninguém se animou em tratar de assuntos gerais no grupo com os chefes. Foi então que Bella resolveu criar um grupo sem os chefes. Chama-se “Integração”. E preciso admitir a perspicácia dos envolvidos nessa proliferação de grupos de whats do trabalho. Da chefia, por ver que isso era um campo minado, de Bella por perceber que os chefes eram um inibidor da integração do pessoal.

O grupo “Integração” desde o início esteve agitado. Alguns bons dias aparecem, convites para aniversários (para quem eventualmente perdeu em meio aos parabéns do grupo “Grupo de Níver”), até mesmo assuntos de trabalho - ninguém ainda resolveu fazer desabafo sobre, mas creio que esse dia está próximo. O foco, contudo, são assuntos aleatórios: onde comprar alguma coisa, indicações de produtos de beleza, recomendações de filmes (sempre com adjetivos como “sensacional” e “inesquecível” para blockbuster descartáveis) e assim ia, até chegar o assunto futebol. A derrota do São Paulo, na última rodada antes da copa, gerou uma discussão homérica, sempre em alto nível, com alguns argumentos batidos como “time grande não cai” e “51 é pinga” e alguns muito originais, como “o Corinthians está mal por causa do Lula, que afundou o time com o estádio pra Copa”, terminando em ofensas de vários calibres. Por falar em copa, Neymar ajudou a azedar um pouco mais o clima no grupo. Resultado: tem colegas que não estão mais se falando pessoalmente, mas seguem tretando no grupo - “Integração”, bom sempre lembrar o nome dele, cuja ironia não parece ter sido proposital.

Eu sigo em silêncio, acompanhando à distância, quando tenho paciência e estômago. E antevejo quando a copa acabar e chegar a hora de discussões eleitorais - Goreti, por exemplo, já avisou que pretende ser mais ativo. Enquanto isso, o grupo de trabalho dorme em berço esplêndido, sem que os chefes desconfiem de nada.


10 de junho de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.

terça-feira, 9 de junho de 2026

A Copa inútil [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Ao contrário do que a desocupada leitora, o desocupado leitor, poderia imaginar a partir do título, o móbile desta crônica não é a disputa entre mim e a Pacheco, vulgo doutora Sabujinha, sobre quem é o mais inútil do setor. É sobre a copa do mundo, mesmo.
Nossa bancada é um pouco dividida quando o assunto é futebol: uma parte mal sabe da existência do esporte, a outra é fanática e trata do assunto com uma seriedade digna dos grandes assuntos da atualidade, como a guerra contra o Irã ou a separação da Virgínia com o Vini Jr.
Foi com surpresa que presenciei Goreti falando da copa, ele sempre tão alheio a esses (e a outros) assuntos. Fala da copa não com ânimo ou interesse, mas com raiva:
É a copa mais inútil de todos os tempos! Primeira fase não tem um mísero joguinho durante o expediente! Me diga, copa assim para quê? 
Eu, claro, concordo não concordando inteiramente com o nobre colega e trago à baila a de 2002, sem jogos durante o expediente e ainda com foguetório atrapalhando o sono.
Ao menos naquela fomos campeões! - Ele retruca.
E isso muda algo? - respondo, ao mesmo tempo que lembro de minhas concepções da época, que foram enterradas com a copa do Japão e da Coreia.
Houve um tempo em que acreditei que o futebol influenciava na percepção de bem estar da população e, consequentemente, influenciava nas eleições presidenciais de outubro. Eu era jovem e a copa de 2002 foi uma prova de que minha sociologia de boteco se sustentava tanto quanto a do Luciano Huck - com a diferença que ele, com seus milhões, tem direito a plateia e repercussão das atrocidades que diz. E se eu me exponho aqui é só para mostrar, uma vez mais, meu compromisso com a verdade, doa a quem doer.
Minha resposta mexeu com os brios de parte dos colegas, indignados com meu desdém pelo penta, que passaram a defender tanto o evento quanto o escrete canarinho - por mais que as esperanças não sejam muito esperançosas.
De qualquer forma, não tenho como não concordar com Goreti: se avançarmos, ainda conseguimos dois ou três jogos para diminuir o expediente - muito pouco para toda a expectativa criada:
Tirando a copa de 2002, esta é a mais inútil desde que estou vivo e consciente da passagem do tempo - e, principalmente, enredado nas teias do capitalismo por intermédio da revenda de meu tempo de vida sob a forma de mão de obra assalariada. Digo isso da perspectiva de quem não se emociona com esse evento, hoje transformado em uma data puramente comercial, tal qual o natal. 
Minha bonita fala não foi compartilhada pelos aficionados da ludopedia bretã, em especial os seguidores do adolescente Ney (conforme os pitagóricos, já explicado em crônica anterior), que poderão ver seu ídolo e modelo de homem esquentando o banco de reservas, fazendo joinha para a câmera, chutando levemente a bola antes do jogo e, quem sabe, até mesmo ver o craque em ação, deitando e rolando pelos gramados da América do Norte. A discussão se instaura para além da bancada. É nessa hora que Goreti decide cutucar o vespeiro com vara curta:
Que o Brasil caia logo da primeira fase! Neymar é o ápice de toda uma geração do que só foi em potência - disse ele aristotelicamente. Neymar, Keirrison, Ganso, Foquinha, Pato: essa geração merece esse vexame para mostrar que futebol se faz no gramado, treinando e jogando sério. 
O fuzuê completo foi armado. Não era dia de jogo, mas o expediente foi praticamente suspenso na discussão que se seguiu.

09 de junho de 2026



PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Neymar, o pitagórico [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Então é Copa do Mundo, ou quase. Não tenho uma escalação ideal para palpitar, mas quero enfiar meu bedelho na polêmica convocação do Neymar. 
Para tal empreitada, tendo sempre em mente a neutralidade científica e uma avaliação desapaixonada (ao melhor estilo weberiano), deixarei de lado minhas opiniões pessoais sobre a referida pessoa. Isso talvez desagrade muitas das minhas desocupadas leitoras, dos meus desocupados leitores, mas me fio pela verdade e pela justiça, independente de quão impopulares e desagradáveis tudo isso pode ser. Ao veredicto. 
Sem concordar com quem apoia Neymar, preciso, contudo, discordar veementemente dos críticos do provável camisa 10 do escrete canarinho. Não tanto pelas avaliações desabonadoras de sua condição atlética, de sua forma física e da qualidade atual de seu futebol, mas pelo que falam - injustamente - da pessoa Neymar.
Muitos o acusam de imaturo, de estar em idade - 34 anos - que não permitiria mais ser chamado de Menino Ney, muito menos de agir como um adolescente playboy mimado, sem comprometimento com coisa alguma que não seus desejos de reizinho.
O que tem passado despercebido dessas pessoas é que Neymar, na verdade, tem um pé no pitagorismo. A partir do momento em que se entende isso, que se conhece alguns princípios pitagóricos, tudo faz sentido, e esse ídolo da machulência, de mau caráter mercenário pode passar a ser visto como adepto da filosofia criada por Pitágoras de Samos, ainda no século VI antes da era comum.
Quem me deu a letra foi o Brotinho, que está lendo Foucault. No curso da Hermenêutica do Sujeito, na aula de 20 de janeiro de 1982 (exatos dez anos e quinze dias antes do nascimento do craque, o que não deve ser por acaso), página 85, diz o filósofo “que para os pitagóricos a vida humana era dividida em quatro períodos, cada qual de vinte anos: durante os vinte primeiros anos, na tradição pitagórica, era-se criança; de vinte a quarenta, adolescente; de quarenta a sessenta, jovem; e, a partir dos sessenta, idoso”. Ou seja, o termo “Menino Ney” peca por certa imprecisão: Neymar oficialmente é um adolescente. Mas, convenhamos, quantos de nós não chamamos adolescentes de crianças - principalmente quando estão em bando barulhento, no metrô, na fila do mercado ou no cinema? Daí que me parece aceitável essa licença poética, de apenas um período para outro - diferentemente se ele já fosse jovem e seguisse sendo chamado de menino, seria até mesmo desrespeitoso para com ele.
Sobre a outra parte da polêmica de sua convocação, de ele a ter comemorado fazendo propaganda de bet, novamente o pitagorismo explica. Conforme resumo da IA: “sua doutrina central defendia que ‘tudo é número’, unindo o rigor da matemática e a busca pela harmonia cósmica à crença na imortalidade e transmigração (reencarnação) da alma”. Está aí, Neymarketing está apenas buscando a harmonia cósmica através do acréscimo de números à sua numerosa conta bancária, que lhe permitiria a imortalidade.
A mesma coisa vale para sua lesão: ele continua com duas panturrilhas, ou seja, numericamente segue perfeito e pode, portanto, participar da copa. Qualquer outra avaliação sobre sua convocação é uma perseguição injusta contra o Menino Ney, que tantas alegrias trouxe ao povo brasileiro com toda sua irreverência aprendida no pôquer com os parças.
Tudo isso porque fui almoçar com meu irmão e meu sobrinho este final de semana. Parece que o garoto anda ficando rebelde, apesar de ainda ser criança - e não somente segundo os pitagóricos. Tem insistido por um álbum de figurinha da copa; pelos comentários que tem feito, parece já ter assistido a jogos de futebol na tevê (no estádio com certeza não foi, por enquanto, é uma questão de tempo até o tio aqui levá-lo), o que contraria as diretrizes da Escola Voldemort, e, pior, tem usado um vocabulário que deixa seus pais em choque. 
No almoço, eu comentava, com todo o cuidado lexical, de minhas desavenças com a doutora Sabujinha. Ele comia como se não prestasse atenção, até uma hora soltar:
Essa sua colega é uma verdadeira fã de Neymar!
Sem muito entender o porquê Neymar entrou nessa conversa, tentei defender minha colega - eu e meu senso de justiça:
Não sei das preferências futebolísticas dela, mas acredito que não seja fã, não.
Não, tio, você não entendeu. Pouco importa que ela goste mesmo dele, mas ela é uma fã de Neymar com certeza: mimada, idiota e que não aceita críticas, igual o ídolo. Ela faz caretas bocós também?
Só então entendi que se tratava de um xingamento juvenil, ou melhor, infantil. E o pior: sim, doutora Sabujinha gosta de fazer caretas bocós quando conta certas histórias. Enquanto seus pais o repreendiam por usar as palavras “idiota” e “bocós”, eu pensava que ele leva jeito para análises, talvez dê um bom psicólogo ou sociólogo no futuro: doutora Sabujinha é uma verdadeira fã de Neymar!

01 de junho de 2026

PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Guerra de trincheiras [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Tenho sido injusto com Pacheco, a doutora Sabujinha, preciso reconhecer isso, humildemente. Bastou pouco mais de uma semana com ela sentada ao meu lado, ou melhor, às minhas costas, para ver que sabujinha é apenas um dos adjetivos que lhe cabe. Sabujinha-Mimada é mais apropriado, mas ainda assim não capta de maneira completa toda a holística que envolve esse ser tão... tão... tão cativante, vamos dizer assim. 

A disputa pela janela continua. Ela a quer fechada, pois o vento desarruma seu cabelo. Como estratégia, colocou seu gaveteiro defronte a ela (é uma janela de duas folhas). Chegamos a um meio termo: o gaveteiro fica só na folha próxima a ela, a outra, eu deixo aberta. E aí começa a briga do vento, porque ela diz que a minha parte joga o vento para ela, com consequente desarrumar de seu penteado tão bem preparado durante a manhã - mas ela não abre a folha dela. Hoje achou nova estratégia para tentar deixar a janela fechada: reclamar do sol. Baixou a persiana, sob a alegação que o astro-rei batia nela e atrapalhava a visão do monitor. Sua antecessora passou um ano ali e nunca viu problema, mas o alecrim dourado... enfim.

Enquanto isso, do outro lado da bancada, Mello, sem a companhia da Sabujinha (eles são próximos), passou a implicar com a mania de longa data da Goleador, de trocar os nomes dos colegas por querer - eu mesmo sou Ciro para ela. Não estou a fim de me indispor com ninguém por cousa pouca, mas se Mello tanto se irrita, poderia chamá-la de Silviano, do romance O Amanuense Belmiro; mas não sei se tem esse repertório todo - isso vale tanto para Mello, de conhecer o romance, quanto para Goleador, de ser uma intelectual com inclinações filosóficas e literárias (até onde sei, o único mala com essas aspirações aqui no setor sou eu, e o faço sorrateiramente).

Voltando às minhas questões com a doutora Sabujinha-Mimada, ela notou que estava passeando demais e resolveu ficar um pouco mais na sua baia. Resultado: os colegas começaram a vir até ela para longos colóquios sobre assuntos assaz desinteressantes - conversas de elevador com pompas de erudição (afinal, estão diante de uma doutora!). Além da maçada do evento, isso prejudica todo meu trabalho de fingir que trabalho: o risco de bisbilhotarem, ainda que de modo menos invasivo que de Pacheco, é alto, e isso pode comprometer toda minha estratégia, já levantada aqui em outros textos.

Em resumo: com o passaralho dos cabeças e a reformulação pela qual passamos, aquela tensão por receio de demissão diminuiu, mas o clima geral no setor não está lá muito bom. Entre o bafo da sala e os cabelos esvoaçantes da doutora Sabujinha, vejo minha produtividade de procrastinador profissional prejudicada pela erudição de almanaque que farfalha às minhas costas. 


São Paulo, 29 de maio de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Xadrez da procrastinação [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

O novo chefe assumiu querendo mostrar serviço. Uma das suas metas é diminuir o tempo ocioso. E uma das primeiras ações foi mudar o firewall do setor, bloqueando uma série de sites e aplicativos, não apenas no computador da empresa, como nos celulares, caso acessem a internet a partir do wi-fi. Nada de twitter, reddit, youtube, spotify. Instagram, em compensação, segue liberado - até alguém dedurar para a chefia, mas até agora ninguém teve essa brilhante ideia. Fica o questionamento existencial: no que o spotify atrapalha mais que o Instagram na eficiência do trabalho? 

É nessa lógica de melhorar a eficiência como um todo que mudaram a doutora Sabujinha de lugar. Pacheco (a doutora Sabujinha), que já tinha se aproximado do novo chefe quando notara suas movimentações internas, convenceu-a de que onde estava antes, em local de grande fluxo, acabava estimulando que pessoas parassem para conversar com ela, atrapalhando seu aproveitamento no serviço. Na real, ela queria era sair de perto de Carnegie, nosso arauto do apocalipse. Agora é ela quem circula. Na verdade, sempre circulou, mas agora é mais ainda - lembrem-se que ela é uma pessoa muito sociável, quando lhe convém. Não acho de todo ruim, pois quanto menos ficar no meu cangote, menos me irrito - mas só de lembrar que ela logo vai voltar, já estraga meu dia: já começamos a brigar por causa da janela: ela quer fechada, eu prefiro aberta, para o ar circular. E fica aqui outra reflexão existencial: por que cargas d’água quem não gosta de levar um ventinho faz questão de sentar junto à janela, mantendo aquele bafo no ambiente todo? Antes que perguntem, o espaço tem ar-condicionado, mas ele gela basicamente quem está na sua linha de tiro, deixando o resto da sala sem alteração.

Contudo, fico aqui a pensar se a doutora Sabujinha fez bem, ou deu um tiro no pé. Seguimos, eu e ela, disputando quem é o mais vagal de todo o setor. Eu, por ora, ganho com louvor. Não que eu trabalhe pouco, mas faço questão de entregar somente o que me pedem, me meto somente no que sou chamado, e demonstro ampla ignorância em tudo o que não tenho pleno conhecimento. Ela, por seu turno, reclama o tempo todo de estar sobrecarregada, chegando a atrasar tarefas simples (e não comprometedoras, pois ela sabe o que pode atrasar) para fingir que tem muitas demandas. Temos tido bons resultados, evidenciados nas férias dos colegas: dificilmente nos passam qualquer tarefa - eu por pretensa incompetência, ela por pretenso excesso de afazeres. Não que eu não fique com certo peso na consciência, pois quem recebe a bucha são Macedo e Goleador, justo os dois que mais trabalham na equipe - e chego mesmo a me oferecer para ajudá-los nessas demandas de férias, sempre em off, claro.

Como disse, Pacheco pode ter feito um movimento errado no seu xadrez da procrastinação (para usar um termo chique): ao ficar zanzando para lá e para cá, conversando sobre qualquer assunto que não seja relacionado ao trabalho, acaba chamando a atenção e pode levantar a suspeita de que suas demandas não são tão altas assim. Meu medo: se/quando posta contra parede, me denuncie como mais vagal que ela, e me faça trabalhar mais.

Depois de Goleador e Carnegie, parece que é minha vez de começar a me indispor com a colega - mas o problema é sempre os outros, pois ela, tão amiga de (quase) todo mundo, não pode ser uma pessoa ruim.


28 de maio de 2026

PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas 

quarta-feira, 27 de maio de 2026

O passaralho chegou! [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Chegou o tão anunciado passaralho! Isso faz uns dias, mas só agora consigo entender o que está acontecendo - mais ou menos - e trazer aqui para a desocupada leitora, o desocupado leitor que me acompanha. Justifico a demora: Macedo esteve de férias no meio desse imbróglio todo, e ele é minha fonte oficial, já que preciso manter minha pose de antissocial. Não que eu tenha algo contra meus colegas (salvo alguns), mas prefiro seguir sem ter nada contra, e para isso, nada melhor que evitar contato.

Doutora Sabujinha de olho no que Sérgio S. está fazendo no trabalho, enquanto este está mal humorado
O passaralho veio, mas foi muito diferente do que imaginávamos. Começaram pelo escalão do meio, os subchefes (que têm, ou melhor, tinham títulos mais pomposos, mas gosto de marcar que eram subchefes). A surpresa foi geral, pois eram duas das pessoas mais proativas, que vestiam a camisa da empresa e dispostas a sacrificar finais de semana para resolver pepinos que o chefe deixava passar por incompetência. 

Passada essa perplexidade inicial, veio o medo: limparam o meio-escalão, era hora dos buchas de canhão. Um mês e nada. No início do segundo mês, novo organograma dos setores, excluiu um, incorporou em outro, criou mais um. Agora vem a tesourada, imaginamos. E veio... no chefe. Sempre bem relacionado, não foi suficiente para superar sua improdutividade. 

Fora isso, uma série de rearranjos, mas ninguém demitido. Nada de cortes no quadro geral, para “melhorar a eficiência”, como os cabeças de planilha adoram fazer.

Na rádio-peão choveram teorias conspiratórias sobre o que teria acontecido. A mais aceita é que as demissões dos dois subchefes, que eram os braços direitos do chefe, eram para dar chance para este mostrar sua capacidade. Deram um mês de prazo. E ele atestou o que seus subordinados já sabiam.

Também vieram as fofocas quentes. O funcionário contratado não havia muito, com todos os louvores do RH, teria sido quem puxou o tapete dos braços direitos - e ganhou como prêmio a chefia do setor criado a partir da fusão de outros dois, no qual fomos alocados. 

Da minha parte, eu não gostava do chefe antigo, então não lamentei. Ainda não tive tempo para desgostar do atual, mas sei que é questão de ter um pouco de paciência. Ao menos ele é mais simpático com os subordinados - até agora.

Consequência da reformulação: dança geral das cadeiras, várias mudanças de baias. Praticamente só a do nosso setor permaneceu intacta. A baia que fica às minhas costas, não. E quem foi sentar logo atrás de mim? A doutora Sabujinha! Com todo seu carisma e sempre animada para conversas de cerca-lourenço, em se queixar da vida e ver o que os outros estão fazendo - prejudicando minha veia literária (se os textos começarem a rarear, já sabem). A nova queixa dela é que onde ela senta (onde ela quis sentar!), perto da janela, é frio. Ela poderia mudar? Poderia. Vai? Já avisou que não. Pior: ela confidenciou a Macedo que gostaria, mesmo, era de ficar no meu lugar. Sabendo do seu sabujismo, isso é uma clara ameaça.

A maioria dos colegas respira aliviado, acreditando que o passaralho passou. Eu, sigo na tensão e já passei o recado via o nobre colega: se forem me tirar do meu lugar, vai ter gritaria!


27 de maio de 2026

PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas