quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Bate panela, ô, ô [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Depois das reformulações, cortes e que tais, sobrou um bom espaço aqui na nossa sala. Parte foi para o Manager de Fluxos Intersetoriais - que tomou parte da sala do chefe - e seu staff, outra permaneceu ociosa. Decidiram, então, trazer de volta o sofá da sala do antigo chefe, com mais duas poltronas tiradas de não sei onde, e criou-se um ambiente de vivência - por onde obrigatoriamente se passa para ir para a sala de trabalho. Dá um ar de empresa moderna, preocupada com o funcionário (até a página dois); algo meio Google, só que sem videogame ou coisas legais.

Principalmente no final do horário do almoço, várias pessoas - a maioria homens do Clube do Café - se sentam ali e ficam papeando assuntos aleatórios - geralmente ou Floriano está palestrando sobre qualquer tema desinteressante com sua verve mais maçante que o próprio trabalho, ou então estão falando de futebol, o que não é menos desinteressante. Política, pouco se fala ali ou na empresa em geral, fora dos pequenos grupos. Mesmo na eleição, o assunto não tomou as conversas - apesar de eu estar na militância digital quase minhas oito horas diárias. Não esta semana. 

O clima na empresa está bem dividido: quem é da democracia está trabalhando normalmente - posso mesmo dizer que calmamente, apesar das pressões de prazos e coisas do tipo -, mais que isso, com um sorriso no rosto; já os partidários do candidato das máfias (e como gosto de ser justo, incluo nossa mídia corporativa como parte delas) estão num clima de velório que tenho tido dificuldade em conter minha expressão de alegria quando os vejo - e olha que, diferentemente de Macedo, não sofro de incontinência facial, como diz o Brotinho. Hoje falavam de como a fuga do cagão era necessária para organizar a resistência e sei lá mais o que: passei sem paciência para ouvir, mas fiquei pensando que o café deles deve ter ficado bem aguado de tantas lágrimas que caíam.

Problema por causa das eleições eu quase cheguei a ter em minha casa, mesmo. Foi no dia de bater panela. Duas horas antes, passei em revista minhas panelas e escolhi uma frigideira, por conta do cabo maior e da sua ressonância. Testei colher de metal e de madeira e fiquei com esta última não só pelo som, como por acreditar (acertadamente) que ela não danificaria tanto a panela - da colher sobrou só o cabo, que guardei para mostrar para Brotinho, que me deu uma bronca dizendo que eu não podia mais usá-la, como se eu não soubesse. Horário combinado, estava eu a postos e comecei a bater. Menos de um minuto e aquele pein pein pein da minha panela doía lá dentro do ouvido. Lembrei dos fones que uso no trabalho, com abafador de ruído. Deu certo! Escutava a batida, mas sem ser tão estridente. Me veio uma ideia melhor: e se eu pusesse uma música pra entreter enquanto batia panela? Preciso assumir, sem falsa modéstia: a ideia foi ótima! Coloquei uma playlist com roques hispanohablantes e dá-lhe tentar seguir o ritmo. Também preciso assumir, sem mentir: sou ruim demais pra ritmo! Putaqueopariu! Mas como só eu sabia o que eu estava escutando, o ritmo que eu tentava seguir, está valendo. E me diverti horrores: bate panela, ô, ô, bate panela, a, a. Molotov, El Mató a un Policía Motorizado, El Cuarteto de Nos, La Renga. Perdi a noção do tempo. 

Quando decidi mudar, colocar um Rage Against the Machine, vi uma discussão no grupo do prédio, reclamando do vizinho que seguia batendo panela - eram dez e meia da noite, pouco mais. Havia também uma mensagem privada da síndica, fazia mais de dez minutos, perguntando se acaso não era eu o batedor ensandecido - e que ela já havia interfonado, eu não atendera, mas parecia que o som saía do meu apartamento.

Perto do exorcismo da vizinha de cima, retratado aqui em outra crônica, uma panela é quase nada - mas ainda assim incomoda. Pedi desculpas, portanto. Felizmente, pude dizer no domingo, isso não vai se repetir - ao menos nos próximos quatro anos.


28 de outubro de 2026



PS: Deixo aqui o destaque para duas vizinhas das cercanias, que no debate da Globo atuaram como checagem dos fatos para vizinhança, e a cada vez que Flávio Bolsonaro falava uma mentira - cada vez que abria a boca, portanto - gritavam: É mentira! É mentira! É mentira!


PS 2: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas

terça-feira, 27 de outubro de 2026

Três semanas que decidiram a eleição, quatro anos para sustentar a mobilização


Encerrado o processo, podemos agora fazer uma análise mais detalhada das eleições. Se o segundo turno foi histórico e heróico, o primeiro foi um desastre: a extrema-direita se tornou força dominante no congresso e nos estados. 

Foram 15 governadores eleitos (PL, PP, Podemos e Republicanos), contra seis dos partidos do dito centrão (MDB e PSD), quatro de esquerda (PT) e dois do que seria a direita tradicional, o PSDB (sendo que em Alagoas o partido estava coligado com PL e PP). 

No congresso, só o PL ficou com quase um quarto da câmara (23,5%), 121 deputados, três a menos que a soma das esquerdas (124). No senado, as esquerdas terão 15 senadores, pouco mais da metade do que o PL possuirá, 28 - no total, a extrema-direita terá 49 assentos. Vale notar também o crescimento da extrema-direita gourmet, o Novo, com 3 senadores e 10 deputados. Mesmo sem o executivo, a extrema-direita tem condições para pautar as duas casas e trabalhar num sistema de boicote permanente ao presidente. Mais que isso, para alterar a constituição, como já haviam anunciado ao cabo do primeiro turno, faltam apenas 49 votos na câmara para chegar aos 308 - no senado eles já possuem quórum suficiente -, e negociações nos estados podem ajudar a conseguir esses deputados. É importante lembrar que mudança constitucional não passa por sanção presidencial. Serão quatro anos de pressão intensa sobre o governo e ameaça constante à democracia.

A corrida eleitoral

No primeiro turno, foi uma eleição fria: pouca, muito pouca discussão sobre os candidatos, não só por conta da campanha curta, como pela jogada do bolsonarismo, via STF e mídia, de pautar o debate em torno das relações de Vorcaro com Alexandre de Moraes, o que tirou o foco das eleições e dos candidatos e ainda jogou no colo do governo um problema que ele não tinha nada a ver - numa associação tosca mas eficiente de que se Moraes é “contra” o bolsonarismo ele é necessariamente “aliado” de Lula.

Sobre a campanha curta, sei que é assim há dez anos, mas esse é um ponto importante de ser levado em consideração, pois diminui o tempo de exposição dos candidatos e de debate entre eles, e favorece quem já tem visibilidade e sabe usar das novas tecnologias para criar ondas. Isso vale à direita, mas também à esquerda, como mostraram as candidaturas de Jones Manoel e Elias Jabbour, por exemplo.

Sobre a eleição fria, nada mais que consequência de quatro anos em que seguimos com trabalho de base praticamente inexistente. Nossa atitude é compreensível: não apenas por conta de um esvaziamento da política, resultado dos rearranjos institucionais neoliberais, como por um esgotamento dos anos de governo Bolsonaro pai: a vitória de Lula foi a oportunidade de podermos tocar nossa vida sem um desgaste por dia provocado pelo governo. Ademais, já tínhamos um candidato forte para 2026: o presidente em exercício. O problema: nós largamos mão de acompanhar política, eles, não. Seguiram mobilizados, principalmente na internet e nas redes sociais, com amplo apoio e divulgação da mídia corporativa - que, no meu caso, ajudou a manter o cansaço durante o governo Lula, visto que todo dia era uma pauta negativa diferente. 

A mídia corporativa, por seu turno, não decepcionou: pelos quatro anos se comportou como o partido de oposição, papel que assumiu desde quando Lula assumiu, em 2002, e PFL e PSDB não se mostraram à altura de uma oposição política - e isso é profundamente diferente de ser vigilante com os atos do governo, não se trata de fazer jornalismo chapa branca, mas criar todo um clima de desesperança e pessimismo não é jornalismo. Na campanha, se não divulgou fake news, omitiu notícias em doses industriais sobre Flávio e seus desvios de conduta, em especial com o Banco Master - depois, soubemos, parece que eram todos do mesmo círculo de “amigos”. 

Por um tempo, acreditei que esse apoio - velado de início, mais visível depois da proibição das bets - de Globo, Folha e outros fosse uma estratégia para forçar o segundo turno e barganhar com Lula uma agenda que atendesse aos seus interesses e daqueles que esses veículos representam sem dizer o nome. Porque com o currículo de Flávio, essa era uma eleição para Lula ganhar no primeiro turno, se a mídia corporativa tivesse feito o básico do jornalismo. Não fez. Porém, Flávio não é Jair, e a convivência dessa mídia com esse fascismo menos tosco (mas ainda tosco) se mostrou muito harmônica, orgânica - com direito a almoço antes de sabatina fake.

O segundo turno e depois

O segundo turno, desnecessário detalhar muito, foi esse movimento colossal de massas, nas ruas e nas redes, e que aconteceu de modo espontâneo e bastante orgânico. O Exército de Lula, comandado por Janones, foi importantíssimo para qualificar nossas ações nas redes e dar um sentido a elas. Esse é um fator fundamental em uma democracia de massas, apesar do quanto isso dói no ego de muita gente de esquerda, em especial a acadêmica, de ter que seguir ordens simples e ser “só” mais um, ao invés de ser o estopim da revolução com um textão acadêmico, ou então de colocar vários poréns para explicar que seguiria, mas que não concordava com tudo e blábláblá. Cito como exemplo algumas (poucas) pessoas da minha bolha querendo problematizar o muso do moletom cinza da manifestação de 11 de outubro na Paulista, como se isso tivesse importância diante da urgência de barrar o fascismo. Diferentemente do primeiro turno, quando teve influenciador de esquerda fazendo campanha para Derrite e Prado, ao atacar Tebet por não ser de esquerda, e sendo muito republicado: um belíssimo exemplo de tiro no pé (ou em órgãos vitais, pensando no histórico de um dos eleitos) dessa esquerda radical formada nas universidades e que parece ter esquecido do mundo real em que foi criada. 

Junto com a importância das redes, a centralidade das ruas: foram nessas mobilizações que a campanha de Lula mostrou sua real força e criou a onda que o levou à vitória inconteste, mesmo com a tentativa de golpe por parte de empresas de transporte e prefeitos bolsonaristas (inclusive, a necessidade de fraudar o processo eleitoral reforça o discurso de segurança das urnas).

E ouso dizer: foi nossa sorte que Flávio Bolsonaro tenha terminado o primeiro turno à frente. Não só porque eles trataram de subir a rampa do Planalto e sentar na cadeira presidencial, já montavam o ministério e distribuíam cargos, anunciavam seu real programa de governo, ainda que apenas em linhas gerais, mas, principalmente, porque nos despertou um senso de urgência que não teria se o resultado fosse 47% para Lula e 45% para Flávio: penso que a campanha esquentaria um pouco, mas a organização nas redes e as mobilizações nas ruas só começariam depois das primeiras pesquisas, dando a virada de Flávio - nisso, perderíamos ao menos uma semana, e talvez a chance de vencer.

O ponto agora é se conseguiremos manter essas mobilizações - nas redes e nas ruas -, ainda que em ritmo menor (que ninguém aguenta o ritmo que foram essas três semanas). Convém lembrar que em 2018 tivemos um grande movimento de vira voto, principalmente de rua, e que desapareceu tão logo fecharam as urnas e decretaram a vitória de Bolsonaro - Haddad não teve estatura para entender o momento e conduzir a resistência ao fascismo, preferindo retomar sua vida normal, como se ele não tivesse liderado 47 milhões de votos e vivêssemos num período de normalidade democrática.

Lula, no seu discurso após a vitória, sinalizou que entendeu o novo momento e disse que vai governar com o povo: mobilização e pressão popular vão se tornar um elemento fundamental deste período, a única forma de conseguir aprovar pautas de interesse da população e da soberania nacional com o congresso que foi eleito - as habituais negociações do presidencialismo de coalização já se mostravam esgotadas no Lula 3 e devem se tornar praticamente inviáveis agora. É também a oportunidade para criar novas lideranças para encabeçar a sucessão do presidente: ainda é cedo para citar nomes, mas talvez o PT precise abrir mão da cabeça de chapa - afinal, nosso objetivo primeiro será o mesmo desta eleição: manter o estado de direito e vencer a extrema-direita e o fascismo. 


27 de outubro de 2026



domingo, 25 de outubro de 2026

Pequena Vietnã virtual

 Há semanas que parecem anos. Conheço essa frase de longa data, e até então ela sempre tinha sido literatura para mim: uma imagem forte, carregada de significado - mas não mais que uma imagem. Desde o dia 5 de outubro, contudo, é essa sensação que carrego no corpo: foram três semanas que pareceram meses. Dentro das minhas possibilidades, sem nunca perder a esperança - resiliência que aprendi na Pastoral dos Migrantes -, dediquei minha energia, meus esforços na busca de reverter o resultado do primeiro turno - estou efetivamente vivenciando como um caso de vida ou morte. E é. Vida ou morte da democracia e, principalmente, de milhares de conterrâneos meus. Estou cansado - há dois dias acordo com dor de cabeça, eu que nunca tenho dores de cabeça. Pessoal, urgente! Pela terceira vez recomeço este texto. É muito raro isso acontecer - em geral os textos têm uma espinha já definida, não enroscam pela metade. Ou se enroscam, os abandono - não tenho por hábito retomar textos que travaram. Insisto. Chove, o celular piscou o aviso de alerta severo, em algum canto das cercanias pessoas cantam - Lula lá, brilha uma estrela. Escuto a última fala do Janones na Live da Virada. Eu que vinha tentando ignorar as pesquisas, agora me preocupo. O pedido de levar uma pessoa parece ser uma última tentativa de virar o jogo - mas uma coisa é militância virtual, outra, a de contato direto com os outros. O que terá dito o tracking da campanha? Decido, é óbvio, que este texto - se ficar pronto - será publicado só depois do resultado - tenho medo, mas ainda acredito que a virada é possível e até lá não devo me abater. Mas antes do abatimento, a angústia - minha companheira inseparável desde o início da campanha. E antes da angústia, o orgulho: a sensação de pertencimento nessa batalha, que eu tenho chamado de “pequena Vietnã virtual”, dada tamanha desproporção de forças que enfrentamos: big techs, mídia corporativa, bancos, grandes empresas, bets, máfias, igrejas evangélicas picaretas, TSE, todo o sistema contra esse personagem histórico grandioso que é Luiz Inácio Lula da Silva - representante do melhor do Brasil. Estes dias eu fiquei a imaginar a pessoa que primeiro soltou a ideia para Lula se tornar sindicalista: foi em tom de convite? De provocação? Falava a sério? Queria só testar? Queria ver como essa pessoa reage hoje (se ainda estiver viva) vendo esse senhor de 80 anos com vitalidade e raciocínio só comparáveis ao seu carisma, que já tem uma biografia gigante, e que poderia gozar de merecida aposentadoria, se empenhar em mais uma campanha, enfrentar um miliciano e uma tropa de chacais, em prol do Brasil, do povo brasileiro, de uma sociedade menos desigual. Ele não tem que provar mais nada - sua causa é coletiva. É isso que tanta gente da minha classe (a classe média) se ressente: não consegue ter mais que aspirações individuais e mesquinhas, e foge à sua compreensão quem se empenha por uma causa coletiva. Por isso Lula é incompreensível para essas pessoas. Por isso a tentativa de diminuí-lo de qualquer modo - o nove dedos sendo a versão mais cretina. Estou exausto, e imagino que muitos dos meus amigos também estão, por tudo o que fizemos nestas três semanas. Eu via seus ícones no Instagram, seus stories no whatsapp, e pensava comigo a alegria de ter tido essa pessoa como amiga, como colega de faculdade, de trabalho, de curso de teatro, de república. Pessoas que têm sua vida confortável, e poderiam se contentar em apenas votar no Lula, mas parece que estavam 24 horas conectadas, como eu, dando o que podiam nessa campanha (e entendo muitos amigos cujo posicionamento eu conheço, mas sei das dificuldades em poder se manifestar). Tenho vontade de mandar uma mensagem agradecendo o empenho, comentando da alegria de, mesmo à distância, saber que estávamos lado a lado. Queria dar um abraço nelas - um abraço para comemorar a vitória. Pessoal, urgente! Vejo imagens da manifestação, o Exército do Lula, os defensores da democracia. Eu estava lá! Vejo as notícias dos vodos cancelados - esquecia da CIA entre os inimigos que enfrentamos. E isso é um atestado de que as urnas são mesmo seguras: é preciso fraudar o processo para conseguir vencer. Desinformação, mentira, ocultação de notícias, mudança de zonas eleitorais, cancelamento de voos para o nordeste, assédio moral nas empresas. O medo me toma, a angústia. Que a mobilização do Janones surta efeito e quando eu publicar este texto, ele seja apenas retrato do momento antes da catarse da vitória - e o início de uma mobilização permanente, necessária para frear o fascismo.


24 de outubro de 2026


PS: veio meu presente de aniversário!



quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Jogral sem ensaio [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Uma das estratégias marotas posta em prática pelo supervisor-geral-responsável-por-fazer-os-contatos-intersetoriais-mais-ágeis foi marcar reuniões próximas ao horário de almoço, às onze da manhã. De início, parece que a coisa estava dando certo: colegas prolixos vinham diminuindo suas intervenções, uma vez que a fome apertava e todos ali só queriam que aquilo terminasse logo para podermos almoçar. Mais que isso: com a reunião terminando quinze para o meio-dia, por exemplo, ganhamos um extra de folga, pois nesse pequeno intervalo já não dá para fazer mais nada.

Contudo, passado o sucesso inicial, o expediente dá sinais de desgaste. Carnegie, nosso fã de Steinbruch (ele não gosta de comer no refeitório e prefere fazê-lo na sua baia, enquanto trabalha), teve reunião que estava tão ansioso para que terminasse que não deixava o colega concluir uma frase, tentando antecipar o que ele ia falar - parecia até um dos monges do livro Pequenos Deuses, do Terry Pratchett, com a sutil diferença que este sabia o que seu interlocutor iria dizer, enquanto Carnegie tem um aproveitamento muito baixo. Vos trago aqui um breve trecho em que Toddy - colega que, efetivamente, gosta de falar com muitas pausas dramáticas quando em reunião -, apresentava seu estudo sobre uma questão pertinente ao nosso setor. A hora, onze e quarenta e cinco:

Diante do que eu expus, o que me parece mais razoável suge...

Propor.

Isso, propor, o que me parece mais razoável propor seja algo que mude nosso mindset enquanto setor, algo, como dizer...

Uma reunião de alinhamento?

Não. Uma...

Estratégia mais focada?

Não é bem isso...

Um plano de ação detalhado?

Não!

Carnegie, deixa ele falar! - isso foi dito quase em coro, o coro dos ansiosos pelo almoço.

Só estou tentando ajudar, ele está nervoso - o que não deixava de ser verdade àquela altura: o único ponto é que ele estava nervoso com toda aquela interrupção

O que me parece mais razoável seja propor uma metodologia...

Sim, uma metodologia!


E nesse jogral sem ensaio seguimos. Não sei se preciso dizer, essa reunião foi até meio-dia e dez, e o nobre colega mereceu reprimenda em off da bancada, depois.

Quem parece que não entendeu essa estratégia foi Goleador: até diminuiu sua prolixidade (e é visível seu esforço nesse sentido), mas em compensação passou a marcar reuniões no horário de almoço. 

É uma reunião rapidinha - ela argumenta.

Foi nesse contexto que Basso, nosso Mr. K. da meritocracia, pode entrar em ação e mostrar sua influência junto ao Manager de Fluxos Intersetoriais. Estávamos nos queixando de uma reunião marcada para meio-dia pela Goleador, e ele nos ouviu.

Deixa que eu vou conversar com o Manager e vamos resolver isso - garantiu.

Nos olhamos com descrença, e fomos para nossa reunião. Era um alinhamento com o colega novo, o Massafera, para que todos ficássemos a par das suas atribuições. Nem faz sentido listar suas atividades todas, mas qual não foi minha surpresa ao ver que Pacheco, a doutora Sabujinha, conseguiu despachar metade das suas demandas para ele! Ela já não faz quase nada e agora fará menos ainda! Macedo, em compensação, segue sobrecarregado - premiação por ser um funcionário competente e interessado.

Pouco antes do fim do expediente, mensagem do Manager no grupo de whats, reiterando que deveríamos manter nosso horário de almoço, salvo situações muito excepcionais. Basso tinha realmente conversado com ele. Comentei com Macedo:

Parece que a disputa pelo mais vagal do recinto vai ganhando uma líder absoluta, nem eu nem Basso somos páreos para Pacheco.


21 de outubro de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas

terça-feira, 20 de outubro de 2026

Mr. K. da Meritocracia [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Estou tranquilo no meu canto, fingindo que trabalho, quando chega um novo funcionário, acompanhado pela secretária do supervisor-geral-responsável-por-fazer-os-contatos-intersetoriais-mais-ágeis. Olho para ele e penso: conheço de algum lugar. A cachola 486 DX4-100 (os antigos vão reconhecer) começa a vasculhar os arquivos, mas não consegue identificar ninguém. Lembra um vendedor de enciclopédia que bateu na casa de meus pais, quarenta anos atrás - mas ele deve ter trinta anos, se muito. Aguardo sua apresentação à equipe, porém ela não vem. Mas que eu conheço ele de algum lugar, conheço! 

Pouco antes do almoço, enquanto decidíamos aonde iríamos almoçar, Macedo me pergunta o que achei do retorno do colega. Retorno? Então ele já teria trabalhado no nosso setor?

Como assim, você não lembra do sobrinho do diretor geral?

Eu realmente tinha apagado da memória essa figura: é Basso - Cabaço para os que falam dele pelas costas -, nosso Mr. K. da meritocracia.

Ele não tinha galgado uns cargos aqui na empresa, não? - Questionei, ingênuo.

Foi Carnegie, o Arauto do Apocalipse, quem puxou a capivara do sujeito nos meandros da empresa, desde sua chegada, no início do ano passado: do setor de vendas ao criativo, passando pelo administrativo, relações públicas e jurídico, sempre em algum cargo de subchefia. Sem dúvida, o rapaz é invejável pelas suas múltiplas habilidades - praticamente só faltou ele passar pela portaria, faxina e cargos de direção para gabaritar todos os setores.

Mas ele está trabalhando arduamente nesse sentido. Diferentemente do que imaginávamos, ele não está voltando ao setor, e sim sendo promovido a assessor especial do Manager de Fluxos Intersetoriais - que, como explicado em crônica anterior, ocupa parte da nossa sala.

Foi-lhe concedido um lugar de destaque, tais quais seus méritos: deslocaram um pouco a mesa da secretária do Manager, e puseram sua mesa na frente: qualquer pessoa que entra na sala vai se deparar primeiramente com ele. 

No pouco que ouvi ele conversar, se gabava de que teria acesso direto ao Manager, e sempre seria consultado para questões importantes, mas até agora o que pudemos ver é, na melhor das hipóteses, um recepcionista da secretária: a pessoa teria que falar com ele, que passaria para a secretária, que avisaria o supervisor. 

Uso o futuro do pretérito porque parece que a coisa não está funcionando muito do jeito que ele imaginava: é comum que a pessoa passe por ele com um cumprimento rápido e se dirija direto à secretária - quando não direito ao supervisor, como é o caso de Goleador, que parece estar levando a sério essa coisa de contatos mais ágeis, e já ganha a antipatia da secretária.

Carnegie andou dando uma olhada na tela do colega, para saber o que ele faz durante seu expediente: até tem coisa de trabalho, mas em geral ele está vendo cotação de cripto (eu sabia!) e fazendo militância virtual para a extrema-direita (não dá para ficar sustentando vagabundo com Bolsa Família, né?). 

Pois é, parece que eu e Doutora Sabujinha temos um concorrente de peso agora para saber quem é o mais vagal do nosso recinto.


20 de outubro de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas 


sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Golden Boy por acidente [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Ainda em fase de reformulação pós passaralho feito de afogadilho, chegou um colega novo de outro setor. Já o conhecia de uma das muitas reuniões que já tive com supervisor-geral-responsável-por-fazer-os-contatos-intersetoriais-mais-ágeis (ou Manager de Fluxos Intersetoriais). É uma pessoa agradável, e faz questão de sê-lo. Perguntou para Macedo (sempre Macedo) qual era a etiqueta do setor: cumprimenta todo mundo, cada baia possui seu spalla, é cada um na sua? 

Macedo achou estranho e compartilhei de seu estranhamento: sem protocolo, cada um escolhe se quer cumprimentar ou não: eu, por exemplo, dou bom dia para Macedo quando chego, porque senta ao meu lado. No caminho, eventualmente aparecem uma ou duas mãos a quem retribuo o cumprimento e está feito. A Doutora Sabujinha (que trouxe lembrancinhas de sua viagem para todos, menos para mim, Carnegie e Goleador), só nos cumprimentamos quando precisamos trocar alguma informação - coisa que evitamos com afinco. Outros cumprimento de vez em quando - e a recíproca é verdadeira -, ainda que não me pareça que haja qualquer animosidade entre nós - nem amizade. 

Há dois colegas que fazem questão de passar de baia em baia para cumprimentar a todos - e costumam ser os últimos a chegar. Entendo sua estratégia sutil: só com isso lá se vão meia hora de expediente sem ninguém perceber e ainda deixa umas conversas sobre futebol e outros assuntos para continuar depois que terminar de cumprimentar todo mundo. Ou seja, é uma hora e meia a menos de mais-valia com esse expediente. O chefe faz o mesmo - e ele eu não entendo o porquê.

Ontem Massafera, o novo colega, veio ter comigo e Carnegie, num momento em que conversávamos qualquer aleatoriedade. Tentando se enturmar, entrou no grupo da Bella (que não é de Isabella), formado desde quando nosso setor foi desmembrado, e foi ao almoço coletivo da semana - agora esses almoços acontecem em algum restaurante aqui do centro, não mais cada um trazendo sua airfryer para usar no refeitório, como organizou certa feita Doutora Sabujinha (Pacheco para os íntimos). Contou na mesa que estava na nossa equipe e disse que os antigos colegas disseram que eu e Carnegie somos os “golden boys” da equipe. 

Acreditei na sinceridade do relato, mas desconfiei seriamente do que foi dito a nosso respeito - ou melhor, a meu respeito. Mais tarde contamos esse relato na bancada - e nosso estranhamento. Meirelles propôs que Macedo já está em outro patamar: ele é o padrão-ouro de funcionário do setor, não um mero golden boy - por isso o título para nós dois e não para ele. Não tivemos como discordar. Argumentei que a doutora Sabujinha merecia esse título mais do que eu - no caso, golden girl. Aí Meirelles novamente trouxe um ponto chave, que concordamos, até porque já presenciamos em outros empregos: somos dois homens brancos, logo, naturalmente, somos mais capazes. Alguém complementou: talvez ela já não esteja tão bem vista porque seu puxa-saquismo de resultado esteja por demais evidente. Certo. Ainda assim, golden boy serve para o Carnegie, não para mim.

Fui para casa com essa pulga atrás da orelha: de onde tiraram que eu seria o golden boy? Só se fosse da procrastinação - e numa disputa muito apertada com doutora Sabujinha. Contei para o Brotinho que, acostumada a observar o comportamento humano com toda sua perspicácia de professora, achou a confusão:

Você não diz que fica num canto quieto, do lado do Macedo, que pouco socializa também? Será que não confundiram vocês dois?

No dia seguinte, a explicação foi aceita pela bancada por unanimidade. E fica o aprendizado: se algum dia me promoverem, é melhor checar duas vezes - capaz de que a promoção seja para Macedo.


09 de outubro de 2026



PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.



domingo, 4 de outubro de 2026

Stories de uma eleição

Um amigo de priscas eras, que há mais de uma década não tenho o prazer de encontrar, mas que trocamos longas mensagens duas ou três vezes ao ano, comemora parte do resultado da eleição. Olho de novo, não quero acreditar, mas os próximos stories reiteram o primeiro. Não lembro de falarmos mais diretamente sobre política partidária - ainda que eu exponha sempre meu ponto de vista em meus textos e postagens em redes sociais, ele nunca se manifestou.

O Brasil não tem 50% de fascistas - me vem o corte do filósofo Marcos Nobre que circula nas redes. Eu, ao menos desde 2019, já sabia disso, fruto de conversas francas com pessoas “apolíticas” que votaram no Bolsonaro em 2018 - e da minha insistente crença de que as pessoas seriam boas (não todas, mas a maioria), apenas ignorantes. 
É o que quero imaginar do meu amigo: apenas um ignorante, apesar de toda oportunidade que teve. Não tem formação na área de humanidades e é manipulado por uma verdadeira indústria militar, que são os meios de comunicação e seu braço autônomo, as redes sociais. Ele não deve ser fascista, certamente não se vê fascista, não percebe que foi capturado por um discurso que atenta contra o que ele próprio diz defender, e deve se ofender se for (quando é) chamado assim.
Partindo desse ponto, vejo que parte de nossa falha se deu ainda em 2018, quando taxamos os eleitores de Bolsonaro de fascistas, sem maiores explicações. Não que seus 20 a 30% de seguidores fanáticos não sejam. Mas e o restante? Aprendemos no cinema (e também na escola), que o nazifascismo era cruel, desumano, feito de pessoas horríveis, que queriam o mal e por isso seguiam as ordens de um sanguinário. Meu amigo é uma boa pessoa, um bom pai, bom marido, não quer o mal de - quase - ninguém. E, nisso, até eu. Ele não pode ser fascista - ele dificilmente vai se enxergar como um. Diferentemente de um então amigo de escola, que em 2018 legitimava a violência extrema e a desumanização do adversário, tido como inimigo, ao comemorar o atentado a tiros contra o presidente Lula. 
Ademais, esse meu amigo não segue a ordem de ninguém: seu voto foi fruto de uma decisão racional a partir das informações que ele recebeu diariamente, por anos, da rede Globo, posteriormente das redes sociais.
Ele quer um país melhor, quer pelos filhos dele. Ele não sabe o que isso significa de concreto - incapaz de imaginar sozinho futuros que não sejam de consumo -, mas tem boas intenções. Ele quer mais segurança - ele não sabe o que é atribuição de quem. É pelo Brasil - ele não entende de relações internacionais, deve achar que a ocupação estadunidense viria com um porta-aviões na costa do Rio de Janeiro, não com uma delegação de Marco Rubio no governo de transição (por sinal, nunca deve nem ter ouvido falar, nem do Rubio nem de governo de transição). Ele é contra a corrupção - e vota em corruptos que se dizem perseguidos por estarem indo contra o “sistema” dentro do qual estão plenamente inseridos desde o berço.
Desde que a extrema-direita passou a ganhar força, em 2016, soubemos identificá-la, mas não soubemos nomeá-la de um modo taticamente adequado. Não sou dos acadêmicos puristas que querem restringir o fascismo a um momento do século XX: o que vivemos hoje é fascismo, devidamente repaginado para o século XXI, mas essencialmente o mesmo de Hitler, de Mussolini, dos camisas verdes, e antes deles, dos protofascismos de Leopoldo II, do genocídio indígena, da diáspora negra - é a essência do capitalismo se manifestando. Mas quantos são capazes de identificá-lo em seus meandros quotidianos, das pequenas violências naturalizadas que abrem espaço para grandes arroubos de ressentimento e violência aberta? 
Meu amigo se vê uma boa pessoa. Nas últimas mensagens, ele falava da sua preocupação com as contas, a troca de emprego, os receios com os filhos, as dificuldades no casamento. Não passa pela sua cabeça que ele seja um fascista, que dê suporte a fascistas; logo, ele pode ignorar tudo o mais que vem do nosso campo - até porque há anos abandonamos o trabalho de base e paramos de verdadeiramente escutar o outro (isso enquanto a extrema-direita nos ouve com perfeição através de seus algoritmos, pois são eles os controladores dos meios de produção do imaginário atual). E sigo ingenuamente acreditando que, em casos como o dele, é uma questão de ignorância, e que através do diálogo é possível tirá-lo da órbita da extrema-direita.

04 de outubro de 2026

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Desatenção flutuante [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]


 Parte da minha estratégia em evitar a fadiga do trabalho (na medida do possível, claro) consiste em fazer uso da “desatenção flutuante”, como quase diriam os psicanalistas: no meu canto, com meus fones de ouvido, evito escutar assuntos de trabalho, para não ter risco de parecer negligente, ao não dar uma informação que eu sei, nem para me estressar com assuntos que não mos foram designados (parênteses para celebração gramática-literária: combinação de pronomes oblíquos átonos!). Escuto somente quando vejo que é algo que realmente diz respeito a mim - quando escuto, porque não é incomum ver pessoas agitando os braços para mim, como esses bonecos de posto.

Macedo, por exemplo, faz o exato oposto e como prêmio está sempre sendo contemplado com uma reunião extra para participar. Já tentamos lhe explicar que aqui não é uma escola Voldemort e que ser prestativo assim serve para acumular mais trabalho, não para que ajudem quando ele precisar.

Enfim. Me chamam apenas para reuniões essenciais - e o novo chefe, na última, presencial, ainda confundiu nossos nomes, numa cena curiosa. Após os apontamentos de Macedo, ele olhou para mim - que estava ao lado do nobre colega - e perguntou:

E você, Macedo, o que tem para complementar?

Bem, acho que é isso - respondeu o interpelado.

A sala ficou um tempo em silêncio. Ele me olhava fixamente, e eu devolvia o olhar, fingindo que não era comigo.

E então, Macedo?

Macedo sou eu - respondeu o próprio.

Ah, desculpa.

Nisso o clima deu uma desanuviada, contamos causos de colegas outros que nos confundem, Mello se lembrou de um outro tópico que ele precisava discutir e eu consegui passar incólume.

Estava eu hoje no meu cantinho, tomando minha água, reclamando do calor e fazendo ativismo digital para Lula e Haddad e deputados e senadores de esquerda, quando chega mensagem de Meirelles no whatsapp, com o link para a reunião e a senha, e o aviso: 

Só falta você para começar, e o diretor geral já deu pinta que hoje está mordido.

Pqp, eu tinha esquecido completamente dessa reunião no meio da tarde! Desliguei o som e entrei aturdido na reunião. O diretor estava com o semblante fechado e falava de alguma dificuldade junto a um grande fornecedor, devido a atrasos na consecução do plano de ação.

Como eu disse, desatenção flutuante é o meu forte, e eu vi que estava mesmo bem na minha tática: não fazia a menor mínima ideia do que estavam tratando. Eu só precisava torcer para que o diretor não fizesse como o chefe, e pedisse minha opinião. Quanto mais ele falava, mais eu ficava nervoso: minha ignorância era tanta que eu não conseguiria sequer dar uma enrolada. Minha cara na câmera devia ser da incompetência e do pavor em pessoa. E como cantavam o Planet Hemp: os cães farejam medo. No meio da fala o diretor interrompe e se dirige a mim:

Sérgio S.?

Pronto, eu devia saber que esse dia uma hora iria chegar (ou seria melhor dizer que essa hora um dia iria chegar?). Com isso, eu definitivamente entraria para a lista do próximo passaralho - se é que esperariam até lá.

Pois não, diretor.

O que você está fazendo aqui?

É, pelo visto minha cara me denunciava muito mais do que eu imaginava. Tentei gaguejar uma resposta, mas fui interrompido:

Você não faz parte do compliance, por que está nesta reunião?

Me passaram o link, dizendo que eu estava atrasado, nem tive tempo de pensar.

Pois saia agora!

Nem terminei de dizer com licença e tratei de sair da reunião. Meirelles agora é quem deve estar preocupada...


30 de setembro de 2026


PD: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.



quinta-feira, 24 de setembro de 2026

O carisma de uma porta de elevador [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Precisamos falar sobre foto de perfil no Whatsapp - principalmente se você utiliza seu Whats para trabalho também, como é o caso na empresa.

Em geral, as pessoas aqui mudam pouco sua foto de perfil. A minha, por exemplo, coloquei em um desses eventos internéticos de criança viada, em 2016; em 2024 troquei por uma em que estou montado, e depois de um chamado dos superiores, de que eu precisava uma foto mais séria e condizente com o serviço, coloquei minha cara, como se estivesse numa foto 3x4 para identidade: olhos abertos, expressão entre a meio morta e a assustada e o carisma de uma porta de elevador - Brotinho diz que estou bonito nela, e eu prefiro não imaginar se eu estivesse feio... Lino e Goleador devem trocar cada dois ou três anos, apenas para mostrar o que mudaram nesse tempo. Carnegie há anos colocou uma foto sua cheia de efeitos que nem dá para notar a ação do tempo nesse ínterim. Meirelles está com a foto da eleição passada, ainda - não é propaganda de nenhuma candidatura, mas tem seu simbolismo ainda atual. Macedo usa uma da sua mala de viagem, das férias de 2022. Inclusive já foi assunto da bancada, qual seria o significado dessa mala: desejo de partir? Saudades de viajar pelo mundão, quase sem rumo e quase sem programação (foi uma ironia, vide o texto Má Influência, de abril de 2023)? Aviso falso de que está de férias, para ver se assim recebe menos demanda? Ele atesta que é escolha estética - e preguiça. Gosto muito de um colega de outro setor, que tem a foto de uma santa em uma caixa dourada numa parede de pequenos azulejos vermelhos: parece que foi tirada em algum banheiro de parada de ônibus.

Quem alterou recentemente foi Mello. Na verdade foram duas trocas. Numa, colocou uma foto levemente adulterada por IA, que fez com que parecesse o George Clooney. Tenho a impressão de que rolou algum tipo de piadinha no Clube do Café, pois uma semana depois (hoje) ele resolveu trocar. E o fez sem avisar.

O dia corria bem. A dada altura, precisei mandar alguns arquivos para ele. Com o web Whatsapp aberto (sim, Meta e Alphabet sabem de tudo o que se passa aqui na empresa, se algum dia virem que ela vai bombar, chega uma proposta pouco antes), digito seu nome, arrasto os arquivos, mando e vou fazer o que mais tenho que fazer.

No meio do expediente, entro no web Whatsapp - uso um add-on no navegador para embaçar os nomes, então só vejo a foto e a última mensagem - e não reconheço uma das primeiras fotos que aparece, apenas identifico que a última mensagem é o arquivo que eu enviara para Mello. Pronto!, pensei (ainda que em termos um pouco menos publicáveis), mandei documentos sigilosos da empresa para o entregador do Mercado Livre! Nada, era apenas o colega em foto um pouco menos modificada, parecendo com qualquer outra pessoa que não ele - nem o George Clooney. Da minha baia, gritei para ele: 

Se não for botar uma foto que te identifique, se for pôr uma foto de uma pessoa genérica que você acha que se parece com você, ao menos avise!

Minha mulher achou que fiquei bem nela - justificou.

Sim, tão bem quanto eu na minha, que também contou com a aprovação do Brotinho.


24 de setembro de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definida

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Saldão de Bíblia e prateleira de vidro [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]


Muito lentamente, desde que Lula assumiu a presidência, o centro de São Paulo vem recuperando parte de seu comércio. Alguns trechos ainda estão desertos e mostram a profundidade da crise do governo anterior - e a inépcia do governo municipal. As ruas São Bento, entre a Direita e a Praça Ouvidor Pacheco e Silva (todo tapumado, utilizado como depósito para as reformas no centro, programadas para terminar nas eleições... do ano retrasado) e a José Bonifácio, por exemplo, seguem desertas de comércio. Na própria rua Direita, o comércio resistente parece sobreviver a dura custas - uma parte já fechou.

Numa dessas lojas vazias abriu uma das lojas mais aleatórias que vi até agora - opinião compartilhada por Macedo e Goreti. Sem nenhum letreiro externo, nenhuma reforma interna, simplesmente levantaram a porta, distribuíram uns baldes para recolher a água das goteiras e instalaram uma faixa com três linhas: “Loja de fábrica/Saldão de Bíblia e/Prateleira de vidro”.

Quando abriu, imaginei que seria um comércio breve - talvez o dono da sala que se meteu em negócios furados de diversos calibres, uma espécie de Ronaldinho Gaúcho das empresas - e aproveitou que estava sem ganhar o aluguel da sala para se desfazer daquilo que aceitou como pagamento de dívidas. Passaram um, dois, três meses - e a loja seguia lá, com seu saldão de Bíblia e prateleiras de vidro. Passou um ano, pouco mais, e ela seguia aberta. Da última vez que passamos por ela, havia diversificado seus produtos: calça jeans a preços de saque de caminhão tombado (um suco de frutas sai mais caro pela redondezas) e uma vasta coleção de quadros de leões - todos emoldurados em molduras bastante bregas.

Sempre fico a me perguntar o que é aquela loja, que surrealismo paulistano a explica. Desta vez explicitei a pergunta ao nobre colega Goreti que, de início, levantou a teoria de ser refugo das lojas da Conde de Sarzedas, famosa rua de vendas de artigos para igrejas evangélicas.

E as prateleiras de vidro?

Refugo de onde se expunham os sex toys na Love Nox.

Nunca tinha ouvido nessa Love Nox. Fui pesquisar na internet, talvez seja um bom lugar para levar o brotinho...

21 de setembro de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definida

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Jogo de War no escritório [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]


Consequências ainda de toda a rerereformulação da empresa, nosso setor ficou mais enxuto, para ganhar agilidade e dinamicidade, aproveitando da “competência e resiliência” de quem sobrou: “aqui só estão os melhores”, avisou o supervisor-geral-responsável-por-fazer-os-contatos-intersetoriais-mais-ágeis dia desses, conhecido oficialmente como Manager de Fluxos Intersetoriais. Melhores no que, ele esqueceu de explicar. E tenho alguma forte suspeita de que não são os melhores em serviço, visto que eu e a doutora Sabujinha seguimos firmes e fortes na empresa - ela inclusive em treinamento externo pago pela empresa, pronta para galgar posições aqui. Puxa-saquismo de resultados! Assumo que subestimei sua capacidade - capacho para qualquer porta.

Enfim, setor enxuto significa mais trabalho por pessoa, sobrecarregando quem já vinha sobrecarregado - Macedo que o diga -, e dando trabalho a quem vinha com esmero evitando esse tipo de fadiga - no caso, eu.

Essa enxutagem fez com que se abrissem espaços vazios na sala - como já comentei alhures, a sala da antiga subchefe virou nossa sala de reunião. Não mais. Decidiram que ali seria um bom espaço para o supervisor-geral-responsável-por-fazer-os-contatos-intersetoriais-mais-ágeis e sua equipe de seis pessoas - dentre os quais um seboso colega leitor de Olavo de Carvalho (ele está sempre com um livro do autoproclamado filósofo anal), cujo comportamento é muito cordato e as falas, discreta e constantemente preconceituosas.

Quem não ficou muito feliz foi nosso atual chefe, que viu o aquário da chefia ser dividido em dois, para que metade fique com o manager - cada um com seu ar-condicionado, claro, enquanto o resto da sala possui, toda ela, outro ar (desregulado). Pois é, achava que ia reinar sozinho, mas vai ter que dividir. Ele pode ver pelo lado positivo: se conseguir dividir também as preocupações, quem sabe a velocidade com que seus cabelos estão embranquecendo desde que assumiu o posto diminua também?

Nós, reles mortais CLT, acompanhamos esse verdadeiro jogo de War - como bem definiu Macedo - com apreensão. Quer dizer, eu não, pois já garantiram que vou continuar no meu cantinho aqui, então eu só assisto, mesmo. Surgiram dois focos de tensionamento. 

O primeiro foi o Clube do Café e Goreti. Com mais gente na sala, sobrou menos espaço livre, menos espaço para o armário onde estão os apetrechos do Clube do Café e a panela de arroz de Goreti. É certo que o Clube do Café está mais para clube da bolacha água e sal ultimamente: os colegas que costumam fazer o café toda manhã foram transferidos e os que sobraram tem preguiça; a pipoca também, passado o ânimo inicial (ou será o fim do clima de copa do mundo), só tem acontecido de vez em quando. Mas Goreti segue firme e forte com sua panela de arroz. Por enquanto o móvel segue no lugar, com um armário colado a ele, atrapalhando parte do corredor e dificultando o uso da tomada o referido Clube.

O segundo é mais grave e alcança um número maior de colegas. Nessa de diminuir nossos espaços para caber mais gente - otimização espacial para pessoas resilientes, afinal, para que uma baia em que cabem dois monitores para quem só usa um? -, quem está na mira é um frigobar que apareceu em algum passado remoto, ninguém sabe de onde, e aqui segue - apesar da briga de longa data do RH para levar para sua sala e, mais recentemente, dos funcionários transferidos levarem para o setor onde foram alocados. Goreti diz que já tem a solução, mas quer antes saber se vai ter mais gente a defender o móvel do Clube do Café, antes de soltar sua solução maravilhosa - que, por ora, ele só contou para mim e para Macedo, sob jura de confidencialidade:

É só usar o frigobar como suporte para a impressora.

Está aí, Goreti soube incorporar o novo espírito da empresa e está sugerindo adaptá-lo até mesmo ao frigobar!


15 de setembro de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas

terça-feira, 1 de setembro de 2026

O padre e o RH [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]


Nessa de reformulações, passaralho, contratações, remanejamentos e outras bossas acontecidas nos últimos tempos dentro da empresa, criaram um cargo novo, uma espécie de supervisor-geral-responsável-por-fazer-os-contatos-intersetoriais-mais-ágeis (o nome é mais curto, mas mais hermético também). Ou, como ele mesmo disse na sua apresentação: “cheguei para fazer acontecer”. Enfim, não sei onde ele se encontra no organograma da empresa, que poderes possui, porém, reconheço, a coisa parece que começou a fluir melhor nas trocas entre setores. Isso não quer dizer que tenha feito um grande trabalho: quando tudo está parado, qualquer passo de tartaruga é um avanço.

Eu ainda estava a caminho do serviço quando Macedo anuncia no grupo de whatsapp: 

O padre já chegou ao escritório.

Padre?! Não entendi a história e achei que era o único perdido, mas descobri que não. Depois de ele garantir que era um padre de verdade - e não um de eleições e festa junina -, Carnegie perguntou:

Ele vai para qual setor?

A pergunta era pertinente - eu temia perder meu cantinho na janela -, mas eu tinha uma dúvida ainda prévia:

Padre pode ter dois empregos?

Macedo acabou nem respondendo no grupo, já que, aos poucos, íamos chegando ao escritório - ele gosta de ser o primeiro, parece até crescido na tradição japonesa. De qualquer modo, ele também não tinha muito mais o que esclarecer: havia chegado junto com um dos chefes, que trazia o padre, todo paramentado.

No meio da manhã, o padre apareceu no setor. Com uma garrafinha de água mineral na mão (daquela marca que teve lote recolhido por estar com bactérias), espargindo a água pelo setor - mas com cuidado para não acertar ninguém. Um colega até comentou que era a primeira vez que via padre benzer com água mineral. 

Ele deve ter esquecido o aspersório e a caldeirinha na sacristia; mais importante é a intenção - respondeu, depois, Mello, um dos que ficaram a ciceronear o padre todo o tempo, revelando um passado de coroinha, ou ao menos de papa-hóstia (se é que esta parte é passado).

Depois de percorrer o prédio todo, benzendo e rezando um pai nosso com quem quisesse, o padre se despediu e foi embora: não, não era um novo contratado, apenas amigo do novo supervisor-geral-responsável-por-fazer-os-contatos-intersetoriais-mais-ágeis, que, talvez tendo em vista o estado que estamos todos, decidiu apelar aos santos, ver se conseguia fazer acontecer de algum modo, como havia prometido.

Detalhe importante, que ficamos sabendo depois do almoço, quando um alvoroço tomou conta da empresa: ele não passou no RH. Restou o grande questionamento: que coisa ruim está no RH que o padre achou por bem evitar o setor - ao menos sem os equipamentos oficiais de exorcismo? Goreti, sem nomear, foi preciso:

Nem o padre quis entrar lá, e nós temos que nos submeter...


01 de setembro de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

O que está sob o tapete [Diálogos com o cinema]

À primeira vista, O Convite, de Olivia Wilde, é uma comédia sobre relacionamentos - tanto relacionamento monogâmico quanto relacionamento aberto -, e todas as dificuldades que a convivência entre duas pessoas traz, independentemente do formato estabelecido. Se desentendimentos e brigas são mais comuns no casal monogâmico da história, Angela (Olivia Wilde) e Joe (Seth Rogen), as desavenças aparecem também no casal heterodoxo, convidado para o jantar e conhecer o apartamento, Piña (Penelope Cruz) e Hawk (Edward Norton).

Entretanto, remake de um filme espanhol (Sentimental, 2020, de Cesc Gay), o filme traz também uma camada de fracasso da promessa capitalista neoliberal, o fracasso de uma classe média tradicional, branca, cis-hetero. Essa chave é dada pela profissão de cada um dos personagens e sua relação com o trabalho.

Piña é sexóloga, aparentemente gosta do que faz, mas não consegue instituir uma separação entre momento de trabalho e momento da vida, atuando em certo momento, durante o encontro, como terapeuta do casal anfitrião.

Hawk se tornou massagista, porém antes era bombeiro e abandonou a profissão quando notou que a utilizava como uma válvula de escape inconsequente, pondo não somente a si como a outras pessoas em risco, após a morte da esposa.

Angela fez graduação em artes, mas se dedica às atividades do lar, sem conseguir a contento fazer o que se espera de sua ocupação - o suflê que dá errado, a cozinha suja, o marido que não ajuda com os calçados. Presa à rotina, Angela tenta a partir da própria casa “criar” algo novo - o tapete da sala, que seja. Contudo, como o casamento, como sua própria vida, uma reforma maior do apartamento está estagnada, travada na sua incapacidade de decidir uma cor para as paredes - e na recusa do marido em ajudar em tal escolha. Mais: o próprio marido desdenha dessas suas tentativas e questiona o que ela faz (“de útil”, poderíamos completar) durante o dia.

Já Joe vive a frustração e o ressentimento de sua banda ter tido um efêmero sucesso, em 2008, e nada mais, sendo agora professor de música num pequeno conservatório; ademais, sua “conquista”, o apartamento onde moram, não é fruto do seu trabalho, mas herança dos pais - ele que sequer tem carro, volta de bicicleta por pressão da esposa.

Essas dinâmicas externas acabam por interferir, é claro, na dinâmica de cada casal.


No caso de Piña e Hawk, por um bom momento, o filme sustenta a imagem de um casal amoroso, erótico (com suas festas sexuais e suas fantasias abertamente trazidas sem preconceito) e sem fraturas, já que estão sempre abertos ao diálogo. Isso até a discussão entre ambos, quando ela, que é espanhola, estoura ao ser corrigida no seu inglês (mostrando feridas na sua integração como migrante) e o acusa de acelerar o momento do convite aos vizinhos de baixo para uma das suas festas. Nesse momento, fica evidenciada uma pressa de Hawk nesses eventos, de onde é possível perceber neles algo de fuga, uma tentativa de tamponar uma ausência, deslocada dos riscos que assumia quando bombeiro; enquanto Piña cede ao companheiro e depois se ressente - afinal, é ela a pessoa experiente nesse tipo de ocasião, não somente por sua profissão, mas por tê-la apresentado a Hawk.

Entre Angela e Joe, o diagnóstico é mais evidente: como esperar momentos leves, uma libido acesa, se o dia a dia é baço, sem perspectivas, sem sonhos, feito de remoer os planos de juventude que fracassaram? Mais que manter o casamento por causa da filha, como eles atestam, antes é a filha quem mantém nos pais algum interesse pela vida sem jogar tudo pelos ares - não por acaso Angela lamenta que ela irá para a faculdade e sairá de casa... daqui seis anos.

Contudo, cabem as perguntas: que abismo é esse que se vislumbra e se teme quando se evita assumir as coisas como estão (o casamento falido, nesse caso) e encarar o que se pode fazer a partir disso? O quanto das nossas apostas fracassadas (a graduação em artes, a banda que quase fez sucesso) não servem como álibi para não alterar esse estado de coisas, deixando a responsabilidade no passado e evitando um comprometimento presente com o desejo e o devir?


01 de setembro de 2026

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

O colega de banheiro [por Sérgio S. ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]


Em maio comentei aqui da reorganização e do passaralho que ocorreram na empresa. Cortaram vários cargos médios (que eu chamo de subchefe), depois alguns chefes, fizeram mudanças de lugares, e tudo parecia pronto para jazer na ordem que o capital exige. Sejamos sinceros: eu e meus colegas fomos semi-amadores na nossa avaliação. Tem muita coisa que se pode errar na percepção, na avaliação e nas conclusões - agora, achar que um passaralho vai se satisfazer sem passar a faca pelo chão de fábrica é quase como acreditar que privatização de serviço público vai trazer melhorias à população.
Mesmo que nunca tivesse trabalhado antes, era questão de observação e análise: cada setor fez uma reformulação, juntaram tudo e apresentaram como um trabalho coerente, sendo que em momento algum pareceu haver uma coordenação geral das reformulações, pensando na empresa como um todo e não em diretrizes gerais e cada setor em particular.
Resultado: não tardou um mês e começaram a reformular os setores reformulados - inclusive com contratações. Mais um mês e aí, sim, com mais uma série de fusões e desdobramentos de setores, mudanças de nomes e mudanças de salas, veio o novo passaralho - cortando, inclusive, vários daqueles funcionários que haviam sido contratados havia um mês.
Nessa novela, nosso setor teve várias transferências, algumas contratações, algumas demissões. Uma das salas que ocupávamos está vazia, a sala do antigo subchefe virou sala de reunião, e vários rostos desconhecidos apareceram (para compensar os rostos desconhecidos que desapareceram). Não me queixo totalmente: fui jogado para um canto, tenho agora apenas a janela às minhas costas - à qual deixo aberta, escancarada, o dia inteiro - e, mais importante: sem doutora Sabujinha nas proximidades. Pelo visto, notaram que havia algum clima belicoso entre mim e ela, e nos puseram em extremidades distantes. Pior para Carnegie, o Arauto do Apocalipse, que está agora sentado à direita da colega mais simpática do setor (quiçá da empresa, ainda que eu ache que não, preciso ser justo: tem gente muito podre aqui dentro).
O mais curioso dessa reformulação é que parece que quem pensou a nova distribuição geográfica dos funcionários fez curso de cálculo de microondas no refeitório - conforme o meme consagrado.
Dia desses encontrei Fernandes, o colega de cima (agora apenas um andar acima!) no corredor do nosso andar. Conversamos normalmente, e no final lembrei de perguntar o que ele fazia ali:
- Vim usar o banheiro, que os de cima estavam todos ocupados, com fila.
Achei que poderia ser algo pontual - um café da manhã coletivo com algo passado e que afetou todo o setor. Não era o caso.
Dia desses fui cumprimentado esfuziantemente por um colega no banheiro. Achei estranho: todos aqui conhecem minha fama - mesmo os novatos, parecem que já são alertados que eu sou uma pessoa de poucas conversas. Como sou educado, cumprimentei, mas sem a mesma alegria que ele. Na saída, perguntei ao Macedo, que me esperava para irmos almoçar, quem era aquele que havia saído antes de mim:
- É colega novo?
- Não. Ele tem anos de casa.
- Mas como nunca o vi antes?
- Foi transferido pro setor que ficou no andar abaixo, e estão com poucos banheiros para a quantidade de funcionários alocados.
Ou seja, a empresa lançou a inovação do colega de banheiro. E eu, que já não faço parte do clube do café, para não ter que socializar, agora preciso evitar até mesmo o mictório!





17 de agosto de 2026



PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Para que tanta pressa? [Diálogos com o teatro]

 Fui com Lia assistir ao espetáculo Orkhḗstra Phántasma, de Felipe Hirsch, em cartaz no Sesc Vila Mariana. Saindo de uma quermesse para o teatro, avisei que era bom estarmos bem alimentados, pois eram três horas de espetáculo. Como eu, ela tem um certo receio de apresentações demasiado longas - talvez traumatizada pelo filme Beau tem medo (que eu gostei) -, e questionou: o que será que eles têm para dizer em três horas que não pode ser dita em uma hora e meia?

Lembrei desse questionamento ainda antes da peça completar uma hora, quando o ator Paschoal da Conceição elenca sinais de morte, uma casuística de pequenos sinais absurdos - da narina pela qual se expira à cor do sêmen ou do sangue menstrual, passando por ficar trinta segundos sem piscar - que, segundo ele, seriam sinais de morte para os próximos meses - a não ser que fizesse algum ritual para espantá-la. 

A cena é engraçada pelos absurdos elencados - enquanto um casal se pega quentemente sob uma luz vermelha no centro do palco -, mas pareceu se alongar além do necessário: tanto os sinais de morte quanto o casal se pegando, começando a ficar cansativo, tedioso. “Sim, já entendi”, foi a primeira coisa que pensei - e lembrei do questionamento da Lia. 

Foi quando entendi o que a peça estava trazendo para além do texto - e que será retomada na penúltima cena, pelo mesmo ator: “para que tanta pressa?” Para que sair logo dessa cena e partir para a próxima, se ainda há mais para se extrair dela? Extração essa que depende de um movimento ativo do espectador: entender o tédio, assumi-lo e pensar por si próprio o que tudo aquilo quer dizer. 

Somos seres de linguagem, estamos imersos nela - como uma segunda pele, como Georgette Fadel fala em algum momento -, e nos sentimos como que nus se algo nos passa sem sentido. Daí a necessidade de o tempo todo preenchido de sentido, qualquer sentido, em que um sinal deve ter um significado para além dele. Byung-Chul Han traz esses questionamentos em suas obras sobre a sociedade atual, com o adendo de que estamos habituados a receber esses sentidos, não a produzi-los. 

É aqui que entra a grande força de  Orkhḗstra Phántasma: ela possui uma intencionalidade, não é um mero acúmulo de cenas aleatórias sem relação entre elas e algumas sem sentido em si, e nos força a pensar não para decifrar um enigma, mas para suportar a ausência de respostas prontas. Mais que isso, ela nos dá tempo para que tentemos por nós próprios entender o que se passa no palco: há espaços vazios, há repetições do (aparentemente) já compreendido, há tédio (não por acaso, desde a primeira hora, várias pessoas saem do espetáculo). Ou seja, há um confronto com nossa passividade, com nosso hábito de ter a explicação pronta, há um convite à reflexão que só o vazio proporciona. 

A recordação que me veio nessa hora foi das viagens de férias para Florianópolis, quatorze horas de viagem, no Corcel II branco ou no Santana Quantum azul, já entediado de dormir, enjoado das mesmas músicas que tocavam no toca-fitas, olhando pela janela e elaborando alguma história mirabolante para passar o tempo: um espaço em que eu era invadido por meus próprios pensamentos e eles me levavam para locais inesperados. E essa volta às viagens de férias foi um local inesperado que a peça me levou nesse instante.

Não foi o único salto no tempo. Em determinado momento, o espetáculo faz menção ao “microfone aberto da Rádio Muda, de Campinas”. Ouvir aquilo me trouxe uma satisfação quase física: foi a rádio dos meus tempos de Unicamp, onde passei cinco anos comandando o programa sUbterrâneos do pOp. A Orkhḗstra, feita de fragmentos, começava a colar meus próprios pedaços.

Lia, nessa mesma cena dos sinais de morte, teve outra interpretação, mais ancorada no palco: de como, na preocupação com a morte e em dar sentido a tudo, vamos nos tornando meros voyeurs da vida, dos seus momentos mais interessantes, que acontecem quentes à nossa frente, estão ao nosso alcance, mas não intervimos - sobrecarregados que estamos na busca de tantos significados.

Orkhḗstra Phántasma é um espetáculo provocativo, que tira o público do seu lugar habitual e confortável. Uma peça que nos força a pensar, seja a partir de reflexões explícitas, como em cena de Georgette Fadel, apresentando duas concepções opostas de teatro: uma do teatro como catársis, para se esvaziar de sentimentos, a outra do teatro como para ativar esses sentimentos; seja em momentos sem sentido, como os quatro minutos para a luz se apagar, numa paródia do mindfulness tão em voga hoje em dia. 

Se a questão fosse entregar tudo pronto e rapidamente, como nosso senso de urgência (desnecessária) atual nos impinge, a última cena o faz e de forma primorosa! Georgette Fadel em cinco minutos faz todo um ciclo da vida, de bebê aprendendo a caminhar até um idoso já com dificuldade de acompanhar a velocidade do tempo. Não tem como não se enxergar nesse ciclo, e vem o medo de imaginar em que momento dele estamos - e se estamos realmente aproveitando.


29 de junho de 2026




sexta-feira, 26 de junho de 2026

Paulo Freire no café [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Período de Copa do Mundo é quase tão tumultuado quanto o que antecede as férias. Na última quarta-feira o jogo do Brasil, por exemplo, nem era em horário comercial e causou o maior congestionamento de São Paulo dos últimos seis anos, com quase 1.700 quilômetros - mais parecia galera saindo para passar o natal na praia. Sem falar que isso é a distância para Cuiabá.

Aqui no escritório, correria também, para dar conta das demandas do dia antes de encerrar o expediente. Houve alguma mudança? Não! Saímos às 17h, como todos os dias, mas parece que tudo ficou corrido, atropelado - e acumulou muita coisa para os dias seguintes. Com a classificação do Brasil e o jogo útil de segunda, demandas foram antecipadas e o chicote comeu solto no resto da semana. 

Consequências: quarta não fomos tomar o habitual café da tarde. Na quinta, chegamos num horário fora do habitual. Antes de perguntar se iríamos querer o de sempre, a atendente nos admoestou:

Estão atrasados!

E a seguir perguntou por que havíamos faltado no dia anterior.

Demos risada, nos justificamos de brincadeira e fizemos nosso pedido e falamos do jogo.

Sexta-feira, novamente não fomos no horário habitual. Novamente fomos recriminados:

Virou esbórnia agora? Vocês saem a hora que querem para o café?

Eu e Macedo nos entreolhamos. Agora, além da chefe a nos fiscalizar os horários, tínhamos também a atendente do café a cumprir tal tarefa. E ela parecia séria. Na volta para o trabalho Macedo comentou, um tanto temeroso:

É, melhor não vacilarmos mais nos horários do café, nunca se sabe do que é capaz uma atendente irritada com você.

Achei por bem concordar. Lembrei das conversas que já tive com Brotinho, e citei Paulo Freire: quando a educação não é libertadora, o sonho de todo oprimido é se tornar um opressor. Se uma hora surgir oportunidade para algum tipo de fiscal interno, já temos alguém para indicar!



26 de junho de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

O zagueiro raçudo da São Bento [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Se alguém que lê estas mal traçadas linhas também acompanha grupos de fotos antigas de São Paulo no Facebook ou Instagram, sabe que para toda foto da década de 1970 para trás vai ter uma enxurrada de comentários cretinos.

 Uma foto de uma criança ou um jovem espremido num terno desconfortável numa tarde de calor de 1920: olha como se vestiam bem aquela época! Uma foto da República com o trânsito totalmente insano e pessoas tomando banho de chuva das rodas de um ônibus enquanto tentam não ser atropeladas, em 1970: destruíram a beleza do centro, hoje só tem cracudo, nóia e puta! Uma foto da praça Roosevelt ou do Largo do Paissandu dos anos 1950, servindo de estacionamento, sem calçada para pedestres: como era bom viver aquela época! Se ler todos os comentários, capaz de ter alguém - até mais de um alguém - falando que naquela época podia andar com celular na rua sem medo de ser roubado. 

Em resumo, o que esses comentários sempre dizem é que antigamente a cidade era linda, e estragaram ela - sem nunca conseguir achar o culpado por tal estrago (talvez não seja nunca: às vezes sobra para a população mais pobre, para a população de rua ou migrantes), até porque seria assumir que sempre votou em quem fez as piores escolhas: Minhocão, terceira pista da marginal, destruição da Lei Cidade Limpa...

Mas eis que nosso atual prefeito, com vistas a agradar a esses nostálgicos do que não vivenciaram, está trazendo a beleza e a maravilha do centro de antigamente. 

Já há um tempo que na região da Sé e do Anhangabaú basta ligar o pisca alerta e você está autorizado a circular de carro, pressionando os pedestres para saírem da frente. Ainda não começaram os bonitos atropelamentos de antigamente, mas com o aumento da circulação de bicicletas elétricas, esperamos ansiosos por isso.

A nova inovação está na rua São Bento: um lindo lamaçal, que é irrigado mesmo em dias de sol, fazendo com que o cidadão paulistano e o turista que está turistando por ali tenham uma experiência imersiva do que era São Paulo cem anos atrás, sem essa infraestrutura (ainda que incompleta) que torna São Paulo tão feia aos olhos das viúvas e viúvos da ditadura.

“Ah, mas é temporário, só até terminarem as obras no centro”, irá argumentar algum defensor do indefensável prefeito. Correto. O detalhe que toda essa revira estava prevista para terminar antes das eleições... de 2024. Pelo ritmo que vai, teremos sorte se a troca das calçadas for concluída para o próximo pleito municipal (quem sabe se o escolhido do prefeito estiver mal nas pesquisas eles prefiram acelerar ao invés de aditar as obras?).

Deixemos por cá os prolegômenos desta crônica e vamos à cena que a inspira - que cabe num twitter.

Eis que chega Goreti do almoço, enlameado dos pés à cabeça, literalmente, como um zagueiro raçudo dos tempos áureos do futebol, quando se tratava de um esporte e não de uma jogatina: tinha escorregado com gosto na rua São Bento, numa cena de humilhação pública - que, infelizmente, perdi. De volta ao escritório, foi conversar com o chefe, se não poderia encerrar o expediente mais cedo, dado seu estado lastimável que se encontrava.

Claro que não - a resposta da chefia foi lacônica e precisa, também como um zagueiro raçudo dos tempos áureos do futebol.

Inconformado, mas sem ter o que fazer, Goreti voltou à sua baia, se sentou na sua cadeira e voltou a trabalhar. Ao levantar para ir embora, Meirelles, que é mãe e já lidou com situações similares, deu a dica:

Amanhã traga uma toalha para se sentar, ou vai sujar sua roupa de novo, que esse barro vai demorar para sair.


24 de junho de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Futebol, fé e outras bets [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Disse em crônica passada que esta era uma copa inútil. Reconheço minha parcialidade em tal julgamento: trata-se de uma copa inútil para quem trabalha CLT (ou precarizado, como PJ) das oito às cinco. Para quem trabalha à noite, não deixa de ser um alívio. E mesmo para pais e mães de criança pequena, como é o caso de Maceda, que pode assistir ao jogo contra o Haiti, pois Macedinho já tinha sido posto para dormir (Macedo gosta tanto de futebol quanto de novela bíblica).

Quem também soube fazer do limão uma limonada foi minha vizinha de cima - a que tempos atrás (outubro de 2024, para ser mais preciso) precisou da ajuda da síndica para conseguir descapetizar alguém, pois o bicho ruim não ia embora só com o barulho infernal que ela e seus convidados faziam.

Brasil e Haiti, nove e meia da noite. Clima de festa pela cidade durante todo o dia: se a estreia foi uma decepção para Marrocos (e para alguns brasileiros que não acompanham futebol de verdade, ou saberiam que se o hexa vier, vem de zebra), o segundo jogo era favas cantadas - a não ser que acontecesse uma enorme zebra (segundo a transmissão do jogo, mesmo assim, o odd estava bom para apostar, ou melhor, investir com segurança no Brasil, praticamente um tesouro direto das bets). 

Nem são nove horas redondas e começam a chegar os convidados da vizinha de cima. E acaba minha paz. Não vou reclamar, afinal, é copa do mundo, muita gente está ansiosa pela primeira vitória da última seleção com Neymar (esperamos). Os convidados vão chegando até a hora do jogo. A partir dessa hora não ouço mais seu interfone tocar nem o tradicional barulho no hall de entrada do apartamento - parece que eles fazem um sapateado para entrar, deve ser algum código interno deles, tipo crianças de doze anos costumam ter, ou ao menos eu tinha (não que eu esteja implicando, só constatando). 

O juiz apita. Não tarda, uma oração. Amém. Mais outra oração. Aí eu começo a implicar. Haja reza para a seleção canarinho! Sei que o time não inspira muita confiança, mas não precisava rezar tanto pra ver se deus ajuda. Até porque se tem algo que não me parece condizer com a Bíblia, Jesus, deus e toda a religião cristã, é achar que entes divinos interfeririam num esporte competitivo, escolhendo um lado em detrimento de outro - e isso sem bases morais, que seriam as mais aptas para julgamentos religiosos. Traição, por exemplo, não é pecado? Ou então avareza: que dizer de jogador que comemora convocação fazendo propaganda pra bet? Por sinal, não tem uma bet evangélica, não? Se não existe, os pastores estão perdendo dinheiro!

Enfim, rezar e orar era pouco, com vinte minutos de jogo começaram também os cantos de louvor. Ponho o som da tevê lá em cima, nem tanto para escutar o insuportável narrador da tevê falando de bets enquanto cita o nome de um ou outro jogador que está com a bola, mas para abafar a vizinha de cima, mesmo. 

Veio o gol do Brasil. Explosão de alegria e alívio no bairro. A vizinha de cima com seus convidados, impassíveis: seguem cantando e rezando, como se não estivesse acontecendo jogo nenhum.

Irritado com o barulho, deixo a tevê no mudo e coloco Sepultura no talo. Por que Sepultura, deve estar perguntando a desocupada leitora, o desocupado leitor. Ora, para dar uma brasilidade pesada à minha tentativa de infernizar a vizinha e seu culto em casa. Péssima escolha. Foi cutucar o próprio diabo com vara curta. Começaram a falar a língua dos anjos e a pular feito uma manada de elefantes - sentimento que eu já conhecia de outros carnavais, digo, celebrações religiosas. Não, não era delay da minha televisão: foram quase dez minutos até o Brasil fazer o segundo gol que justificasse aquela pulação toda - e eles seguiram pulando esses dez minutos todos e mais um pouco. Até pensei em reclamar para a síndica, mas imaginei que ela não acataria minha reclamação, uma vez que provavelmente também ela estaria pulando e gritando com o jogo, por mais que já tivesse passado das vinte e duas horas.

Fui para um bar perto de casa, acompanhar o jogo em meio ao povo - irritado em ter sido expulso de casa por toda aquela fé sem limites (sonoros).


22 de junho de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.