segunda-feira, 13 de abril de 2026

O fetiche do abismo

Lembro do meu tempo de faculdade de filosofia e ciências sociais, na Unicamp, havia um perfil de estudante-militante adepto do “quanto pior, melhor”. Do Procon ao Bolsa Família, passando pela expansão do ensino superior e as cotas, tudo que não fosse a revolução (com sua pureza de princípios e baseada na “leitura correta” de Marx) ou a pavimentação para ela (baseado em miséria e ódio, deduzia eu), era arrivismo, defesa do capital, e reforço do status quo. 

Saí da Unicamp há quinze anos, mas volta e meia revejo esse tipo de postura em alguns analistas políticos de esquerda. Um pouco mais refinados, é claro, mas a mesma lógica de ser incapaz de analisar a realidade em sua complexidade. Pior, não são meus ex-colegas da Unicamp, mas professores ligados a partidos de esquerda, de várias universidades públicas, que já o eram na época, só não tinham as redes sociais para divulgar em tempo real seu pensamento (não cito nomes porque meu objetivo não é fulanizar a questão).

Duas semanas atrás, um deles se desesperava com o crescimento de Flávio Bolsonaro e praticamente vaticinava: a eleição estava definida se não houvesse uma reação urgente urgentíssima de Lula. Ignorava os múltiplos fatores que explicam o crescimento de Flávio Bolsonaro neste momento e, principalmente, que o PT escolhia o adversário, esperando o fim do período de desincompatibilização para começar a pré-campanha - e melhor um Bolsonaro que Tarcísio.

A nova análise que tenho lido é que Lula ou ganha no primeiro turno ou perde a eleição, porque não teria ninguém para transferir os votos para ele. Sem dúvida, o segundo turno, se houver, será duríssimo - como foi em 2022. Essa leitura é, contudo, para além do catastrofismo de certa esquerda, simplista: como se votos em candidatos de direita fossem necessariamente para Flávio Bolsonaro. Convém lembrar que assim como há o anti-petismo, há também o anti-bolsonarismo, e que uma parte de eleitores dos candidatos menores da extrema-direita pode simplesmente se abster de votar num eventual segundo turno. Há também eleitores não ideológicos e que podem alterar seu voto - como aconteceu em 2006, em que Alckmin teve menos votos no segundo que no primeiro turno. Afora a questão de que será uma eleição concorrida, difícil e que não está ganha, mais sensato me parecem analistas chamando a atenção para Renan Santos, com chances de se “marçalizar” em 2026 e ganhar musculatura para 2030. 

Ilustração sobre o contraste entre catastrofismo acadêmico e análise política de base
Pode-se argumentar que esse catastrofismo serviria para abrir os olhos dos militantes e mobilizar as bases. É a lógica do quanto pior, melhor dos meus ex-colegas do tempo de faculdade: somente na miséria extrema o povo se levantaria para reivindicar seus direitos, que já chegaria na forma de revolução social. Primeira falha, de observação: não se vê população oprimida por carestias materiais elementares se levantar por um ideal abstrato. Segunda falha, de psicologia: diante do tudo está perdido, alguém vai se mexer para quê? Dar murro em ponta de faca só costuma ser um esporte para quem tem para onde correr depois que cansar. Terceira falha, de trabalho de base: ao jogar a pretensa cegueira da situação e a responsabilidade inteiramente no colo do presidente, esses analistas reforçam a ideia de política feita por cima e não a partir das bases, exatamente o contrário do que a esquerda mais radical (no sentido de raiz, não de sectária) defende. Por sinal, esse é o mesmo argumento utilizado para justificar a alegada desmobilização popular dos governos Lula 1 e 2: o governo não teria mobilizado a população, sendo que não é papel de governo de turno fomentar a oposição a si próprio - e há exemplos de movimentos sociais fortes que surgiram desse período, como o MTST, para ficar no mais evidente.

Felizmente esses analistas, apesar de seus currículos acadêmicos vistosos e sua boa escrita, têm pouca penetração na imprensa, mesmo a alternativa - que prefere análises críticas, mas calcada na realidade e que apontem possibilidades. Mas não me surpreenderia se um desses professores do catastrofismo de esquerda acabe sendo convidado para colaborar com a grande mídia, desesperada por apear Lula e o PT do executivo federal.

Sejamos críticos, mas façamos leituras complexas da realidade e saibamos achar brechas por onde construir alternativas. E aos arautos do apocalipse, que vêem o futuro já determinado, um pedido: parem de escrever e comecem a arrumar suas malas - a vida já está dura demais para levar pedrada gratuita do próprio campo.


13 de abril de 2026


sexta-feira, 10 de abril de 2026

Pequena Sociologia da Martelação Auditiva [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça]


Recentemente temos - eu e meu companheiro de almoço, o nobre colega Macedo - trombado pelas ruas do centro da cidade com um cantor munido de um microfone ligado a uma caixa de som de alta potência e baixa qualidade. Parece até que está a nos perseguir: o dia que estamos na República, lá está ele. Quando estamos no triângulo histórico, ele também está. A desocupada leitora, o desocupado leitor poderia dizer que somos nós a persegui-lo, já que somos nós quem estamos caminhando no horário de almoço, mas isso tiraria nosso protagonismo, de que o mundo gira ao nosso redor. Enfim.

Passamos por ele hoje: estava disputando a atenção com britadeiras e serras para concreto no Largo do Café - uma estratégia que merece uma discussão mais aprofundada no correr desta crônica. Eu, muito complacentemente, tentando dar uma colher de chá, comentei com o nobre colega Macedo que, apesar da caixa de som de má qualidade, ele não cantava tão mal assim. Foi quando ele soltou a voz no que é chamado de belting - e que Macedo chamou de agressão gratuita ao nervo auditivo - e mostrou que a caixa de som era o menor dos problemas: ele canta é muito mal, mesmo. 

Mas isso não é o pior. No repertório cantado pelo rapaz sempre bem vestido, apenas músicas de louvor. Não se trata de um cantor de rua (se for, está queimando o filme da categoria, porque pelo centro tem vários que cantam muito bem, fazem versões que mereciam estar no palco). Daí nossa dedução lógica: o pastor, as pessoas da sua igreja, querendo se mostrar acolhedoras e estimuladoras das potencialidades do rapaz - e adeptas da teologia do domínio -, devem ter dito que ele canta bem e poderia usar esse dom para espalhar a palavra. Pessoas que devem entender de música tanto quanto ele. Talvez, deveras, ele seja quem melhor cante na igreja - entretanto isso não corresponde a cantar bem, muito pelo contrário. 

E o pastor para proteger a ovelha? Nada! Pelo contrário: deve ter visto no infeliz mais um cordeiro a cerrar fileiras na guerra santa, um soldado do evangelismo para perturbar as pessoas com pregação de segunda categoria (nesse aspecto, prefiro os esmurradores de Bíblia, que ao menos tem personalidade [https://bit.ly/cG240910]). Aí fica ele pelo centro de São Paulo, incomodando as pessoas e passando vergonha, ignorado pelas pessoas sensatas, destratando as pessoas de ouvidos sensíveis, como este escriba. Cante na igreja, nos cultos de domingo, meu bom cristão inseguro (Goreti sempre diz: quem muito prega, pouco crê), e use o seu tempo livre para algo útil, valoroso - estudar a Bíblia, que seja; quem sabe não aprende algo sobre Cristo.

Agora sobre suas estratégias de divulgação da palavra que ele crê divina. De início, quis acreditar que a caixa de má qualidade fosse por questão financeira, mas logo ficou claro que é falta de ouvido, mesmo; é desprezo pela música e muita vontade de atingir o coração do maior número de pessoas, à força, na base da martelada auditiva. Nessa linha tem também o rapper cristão da bicicleta, que parece estar cantando os lances num leilão de gado nelore. Já cantar junto a britadeiras e serras de concreto mostra toda a sensibilidade artística do artista, seu senso de pertinência - e uma conversa entre pares.

Louvor estourando na caixa, britadeira arrebentando a calçada e serra de concreto serrando o concreto - passamos por essa harmoniosa sinfonia do inferno em silêncio que até parecia obsequioso, mas era só impossibilidade de seguir com a conversa. E pior que nem vai adiantar trocar de rota amanhã: muito provavelmente vamos trombar com ele de novo.




10 de abril de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas


segunda-feira, 23 de março de 2026

A peleja entre o Teatro de Contêiner e o capital

Destruição do Teatro de Contêiner na Luz Cia Mungunzá 2026

Acordo domingo com as cenas da destruição do Teatro de Contêiner, há dez anos na região da Luz, junto à (mal) chamada Cracolândia.

A justificativa oficial é destinar a área para moradia popular. O ponto é que não basta moradia, é preciso qualificação do entorno, tanto que a própria prefeitura, em seu site, diz “no terreno, está prevista a construção de unidades habitacionais, além de espaços de lazer e convivência integrados ao plano de recuperação da região central” (https://bit.ly/4lV1OJm). Nesse aspecto, um teatro que se apresenta também como área de convivência, e tem toda uma relação com o entorno, seria um equipamento dos mais valiosos. Por que não mantê-lo e utilizar outras áreas das cercanias para as moradias? Isso seria de interesse dos próprios moradores.

Há outros equipamentos culturais na região, mas nenhum com a mesma vocação que o Teatro de Contêiner para atender a uma população que vive em moradia popular, não apenas por conta dos valores praticados, como por toda uma série de barreiras invisíveis que são postas a quem não tem berço - ou ao menos uma boa renda para se passar por um dos iniciados (sei que a Osesp até lançou campanha de “vá como se sentir confortável”, mas há uma série de códigos velados que inibem, praticamente impedem, certo tipo de público). 

O ponto para entender é do que se trata o “plano de recuperação da região central”. Recuperar do que, de quem, para quê, para quem? Se o interesse fosse realmente o bem estar das pessoas (já residentes e futuros moradores), esse equipamento seria um elemento vital na recuperação da região. Entretanto, não é difícil desconfiar que a recuperação aqui é a recuperação do capital investido em compra de imóveis velhos, e o público almejado para ocupar as futuras residências da região seja o mesmo que frequenta a sala São Paulo. Sim, o público da Sala São Paulo também pode ocupar o Teatro de Contêiner (não sou o único a fazer esse trajeto), o problema deste é que ele não era seletivo o bastante, pelo contrário, atraía diversos tipos de público, inclusive os indesejados do capital e seus representantes governamentais.

O desejo de “revitalização” da região da Luz é antigo e foi tentado por vários governos - como não lembrar do Complexo Cultural Teatro de Dança (com projeto de Jacques Herzog e Pierre de Meuron), da época de José Serra? Depois de vinte anos, com uma direita que não teme em mostrar para quem trabalha, sem laivos de democracia ou apreço pela vida - que o digam as ações para “limpar” a dita cracolândia -, o projeto de utilização da Luz para valorização do capital vai ganhando corpo - sobre corpos humanos tidos por descartáveis.

Porém, mais que apenas valorização do capital, há um elemento a mais nessa direita - ou, como disse, o Teatro de Contêiner seria um ativo a mais para a região, e mesmo assim foi demolido. 

Para o capital e a extrema-direita que hoje é seu representante preferencial, toda manifestação cultural que não seja publicidade, que não seja elogio do poder, do status quo, deve ser perseguida, banida, proscrita. O Teatro de Contêiner é justamente o oposto desse elogio. Mais que um discurso, ele é uma prática de contestação, pela forma como se enraizou no território, sendo mais que uma sala de espetáculo, um espaço de convivência e de inserção na sociedade - como pelo coletivo Tem Sentimento, que atuava junto ao Teatro. 

A destruição do Teatro de Contêiner é uma declaração de guerra contra a cultura e contra toda a população que por anos viveu num território abandonado pelo poder público. A truculência com que essa destruição foi feita, desde o início, mostra que a moderação com que são pintados o governador Tarcísio de Freitas e o prefeito Ricardo Nunes é apenas uma fantasia - construída pela mídia para quem sabe fazer genuflexão aos cifrões -, e não hesita em passar o trator, ou melhor, a polícia, por cima de quem ousa fazer política.

O sentimento que toma meu domingo é de tristeza, como se tivesse perdido alguém querido. Relembro, com Lia, as ótimas peças a que assistimos ali - da Mungunzá, mas também de outras companhias, como o Coletivo Comum. E é a lembrança dos seus espetáculos - em especial do penúltimo, o sensacional Elã, feito já com toda a perseguição do estado no encalço - que me faz ter certeza de que se o objetivo da extrema-direita e do capital é matar o projeto que o Teatro de Contêiner representa, não foi desta vez que conseguiram: o trabalho ali desenvolvido foi movido antes de tudo por sonhos e amor à arte e à cidade, deixou raízes, e em breve voltará a frutificar. Viva o Teatro de Contêiner! Viva a Cia. Mungunzá!


23 de março de 2026


PS: pertinente o questionamento de Marcos Felipe, da Cia. Mungunzá: para além de toda a truculência e do agir escondido, em pleno domingo, por que o estado gastou dinheiro para levar a estrutura do Teatro de Contêiner até a avenida do Estado e não até o terreno que havia cedido pela municipalidade?

 

sábado, 14 de março de 2026

Carnaval Medieval [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Quem me mandou essa dica para o final de semana foi o nobre colega Macedo. Como ele chegou a esse evento, preferi não perguntar, para manter a amizade, sem julgamentos negativos desnecessários. Pelo mesmo motivo, achei por bem não perguntar se ele iria, em companhia de Maceda e Macedinho. Tampouco irei perguntar como foi, segunda-feira.

Feito essa introdução, vamos a um momento de sociologia de boteco. Tema: carnaval. Basicamente, existem três tipos de relação com essa festa, por parte da classe proletária: amam, aprovam por conta do feriado, e se ressentem porque gostariam de ir mas algum motivo (religioso, distinção social, etc) os impede. E existe essa quarta categoria, que é a galera do mundo da lua, digo, Hogwarts - e que trataremos neste texto.

Trata-se de um pessoal que diz que gosta de história, mas odeia estudar e nega tudo o que pode contradizer sua visão idealizada de uma época em que a Europa vivia sua pureza - tal qual a extrema-direita hoje gostaria de voltar (este é um comentário aleatório, insight que me veio e eu não quis perder). Estou falando do povo que idolatra a época medieval europeia. 

Precariedade, escassez, medo permanente, ignorância, sujeira, conhecimento de mundo extremamente limitado, mulheres submissas: tudo isso são efeitos colaterais aceitáveis diante de todo o misticismo católico milenarista, crenças nórdicas diversas, combates por honra e guerras santas contra os infieis maometanos. Quem não gostaria de morar numa época dessas (nem vamos falar da falta de eletricidade e de internet)?

O que isso tem a ver com o carnaval? Pois aí vem a nova categoria de relação com o carnaval. O evento que Macedo me indicou é o carnaval medieval. O que seria bem interessante, se se tratasse mesmo de uma tentativa de reviver essa festa religiosa (rito de inversão, diriam os antropólogos), dessa época de forte hierarquia social. Mas, quê! O que a festa promete é um clichê idealizado, com toda uma atmosfera medieval (aham), música medieval (só não digo “quero ver!”, porque não quero, mas desconfio que não são cantigas trovadorescas e canto gregoriano. Se tiver concerto do Jordi Savall, até poderia ir), dança medieval (solta a roda e vira, solta a roda e vem...), combates medievais (se não rolar um braço cortado, ao menos, é fake), hidromel artesanal (só espero que não sigam as normas de higiene medievais) e, claro, venda de produtos numa “feira medieval” (escambo?).

Quem ler este texto pode até fazer uma sociologia de boteco com relação a carnaval medieval e dar quatro formas de se relacionar com ele: os que nem sabem da sua existência (meu caso, por felizes nove anos), os que gostam e vão, os que não se incomodam, e os que gastam energia para falar mal de um evento aleatório bobo. Deixo claro: não me enquadro nessa quarta categoria: por mim, para melhorar a ambientação medieval/nórdica/feudal, até torço para que no fim de semana se mantenha esse tempo frio e chuvoso, tão propício a lamaçais - como na idade média.



Capítulo II

Não choveu, pelo contrário, fez sol e um calor tropical. Brotinho achou esse “carnaval” legal, ainda que não se parecesse com um. Eu me recuso a comentar.



14 de março de 2026

PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Justo, justo, não é

Está em discussão no congresso o projeto de lei 4146/2020, que regulamenta a profissão de trabalhador essencial de limpeza urbana e estabelece um piso nacional para a categoria - dois salários mínimos mais adicional de insalubridade em grau máximo. 

Fiquei sabendo dessa lei por um funcionário da limpeza pública de São Paulo, que comentou comigo: “Viu que estão para aprovar uma lei que aumenta nosso salário? Vamos passar a ganhar R$ 4.500”. “Nada mais justo”, foi minha resposta, ao que a tréplica dele me desconcertou: “Justo, justo, não é, porque a gente não tem estudo”. 

Tratei de confrontá-lo: falei da importância do serviço dele e seus colegas e que todo mundo merecia um salário digno. Para além do desconcerto, sua resposta me trouxe ainda uma certa tristeza e perplexidade.

Primeiro por sua percepção de justiça. Ele vai além do interesse pessoal e pensa coletivamente, em termo de justiça e não apenas em “se dar melhor”. Contudo, na sua concepção - uma visão claramente ideológica (me desculpem o palavrão marxista), recebida principalmente do sistema hegemônico de comunicação -, o justo não é ganhar um salário que garanta uma vida digna, justo é ganhar conforme o merecimento.

E merecimento aqui é medido em anos de escolaridade, não em trabalho - muito menos em relevância social. Ele não apenas aceita, como assume como correta, como justa, nossa vergonhosa distribuição de renda. E faz isso em detrimento do seu próprio interesse. Não é alguém de classe média, numa posição confortável, se indignando contra dar um salário ok para profissionais da limpeza - tida por profissão subalterna, quase aviltante -, é um trabalhador recusando o reconhecimento de seu valor social - e, mais que isso, seu valor enquanto ser humano.

Outro elemento da sua resposta é sobre o salário: ele não é visto como um preço pelas horas trabalhadas, e sim como uma recompensa pelo seu esforço. E uma recompensa quase moral - no sentido de estar atrelado a uma série de esforços feitos durante a vida. Nessa sua concepção, o salário não está vinculado ao trabalho, mas ao preparo a ele, e esse preparo é medido em anos de estudo. O círculo vicioso é fácil de ser fechado: quem tem que entrar no mercado de trabalho mais cedo tem menos condições de seguir com seus estudos, logo terá, para o resto da vida, menos direito a um bom salário, pelo motivo de ter estudado menos, por conta de ter trabalhado desde cedo.

Este aspecto talvez ajude a entender muito do ressentimento atual de várias pessoas: terminaram o ensino médio e fizeram faculdade - às vezes trabalhando ao mesmo tempo -, para não verem seu esforço recompensado financeiramente. Cadê a justiça do sistema?

Por fim, sua resposta demonstra também uma auto-estima vulnerabilizada pela própria situação social em que se encontra. Por não ter feito ensino superior - talvez nem mesmo terminado o ensino médio -, ter um trabalho em um ramo com forte estigma (por mais que seja registrado), meu interlocutor não se vê como um cidadão de plenos direitos, não se vê merecedor de direitos - como se fossem questão de mérito. Sua tréplica é quase um pedido de desculpas por poder vir a ganhar mais que muitas outras pessoas que se prepararam mais, que teriam “se esforçado”.

Enquanto esquerda, nosso trabalho de educação política precisa estar no dia-a-dia, confrontar as pessoas em conversas do nosso quotidiano; não para levar a verdade, mas para desfazer esse tipo de construção, que faz com que a pessoa se sinta a responsável pela sua condição precária de vida.

“Justo, justo, não é”. Nesse ponto, meu interlocutor não deixa de ter certa razão: não há justiça em quarenta horas de trabalho, não importa o salário.


26 de fevereiro de 2026



sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

O ciclo de vida de um sabujo [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Vida de doutor ou doutora sabujinha não é tão simples assim, reconheço. O deslumbre inicial dos chefes uma hora começa a virar desconfiança, a cobrança por resultados passa a se intensificar, e todo aquele trabalho para fazer com que os números atendam ao que superior queria que fosse verdade vai se desfazendo diante da realidade, que insiste em contradizer os desejos do chefe e as adequações feitas pelo sabujo ou sabuja de turno.

Aqui na empresa teve o doutor Sabujinho que de golden boy, elogiado no meio do expediente em voz alta para todo o setor ouvir, logo se tornou criticado abertamente na reuniões diante da sua inépcia, até começar um processo de assédio, mesmo - quando ele conseguiu uma boa vaga em empresa concorrente, certamente usando das suas habilidades fagúndicas (para usar a personagem da Laerte).

Rivarola, o doutor Sabujinho anterior à atual, era mais vivo e quando viu que suas técnicas de persuasão estavam fazendo água e, mais ainda, quando os resultados que ele precisava entregar começaram a aparecer e se mostraram pífios - os melhores -, tratou de conseguir uma transferência interna - deixando para o nobre colega Desembargador ter que organizar um plano de contenção para dar conta da série de erros primários cometidos.

Agora, pelo visto, é a vez de Pacheco, a doutora Sabujinha, começar seu período de decadência. Hábil na arte de apresentar os dados que o chefe gostaria de receber - e não aqueles que a realidade insiste em entregar -, ela vinha gozando de uma posição bastante tranquila, de pouco trabalho, muita churumela de que vinha com bastante trabalho, e complacência da chefia imediata e superior. Isso até seus lindos relatórios chegarem nos executivos da empresa e estes cobrarem as provas do que vinha sendo reportado. Não havia. Pior, precisaram recuperar um relatório antigo de Carnegie - antes de ele ser escanteado pela doutora Sabujinha -, para evitar que outro B.O. nível Rivarola surgisse.

Outro sinal de que seus “bip-bopping days are over”, de que já era o tempo em que ela sambava na nossa cara, fazia e desfazia quase como se fosse a chefe, se deu na reunião de setor desta semana. A chefe repassou uma nova demanda para ela, que de pronto alegou estar com muito trabalho (o que eu atesto que é mentira, nosso setor é consideravelmente tranquilo). Como a chefe insistiu para que ela ficasse com essa demanda, não se fez de rogada:

Goreti já faz um trabalho que é quase igual a esse, pode deixar com ele.

Goreti não falou nada, apenas alternou o olhar entre ela e a chefe. Esta, que estava respondendo a algo no celular, tratou de terminar sua resposta antes de contestá-la:

Goreti já está trabalhando em outro projeto da área, este fica com você.

Confesso que me regozijei em júbilo, como se diz no clichê, com essa invertida - mais um sinal de que doutora Sabujinha logo procurará outros ares. Macedo discorda da minha avaliação, não crê que a decadência da colega seja tamanha, e eu tive de admitir que ele tem sua boa dose de razão:

Você viu o olhar do Goreti? Parecia um psicopata! Foi para deixar qualquer um com medo.

Foi mesmo. 



22 de janeiro de 2026


segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Deepfakes e a crise epistemológica do cotidiano

Uma cacatua grita “Alexa, play music!” e diante da execução do comando começa a dançar, enquanto a dona grita, exasperada, de fora do quadro, que são duas da manhã. O vídeo curto é engraçado e pode ser real. Ou pode ter sido criado por inteligência artificial. Não sei. Vejo um outro vídeo, um homem mostra os detalhes que atestam que o referido vídeo da cacatua é falso. Ele dá argumentos lógicos e me convence. Porém, não entendo de IA para ter certeza de que o ele fala é fato. Mais, pode ser que esse entendido em IA seja ele também criado por IA - e não saberei identificar, a não ser que outro vídeo venha me provar sua falsidade ou não.

O grau de realismo alcançado com as deepfakes e a facilidade com que são criadas são assustadores. Para além de usos nocivos mais imediatos, como golpes de todos os tipos e interferências nas eleições (que não deixa de ser uma espécie de golpe, mas a vítima é coletiva), vislumbro que essa tecnologia, caminhando para seu paroxismo, sinaliza um problema de ordem epistemológica.

Se a pós-verdade, a hegemonia da opinião sobre o fato, da doxa sobre a episteme, já provocou cisões na sociedade, na sociabilidade; os deepfakes ultra-realistas tem potencial para levar à dúvida de tudo e de todos, em um movimento de descrença generalizado - não se trata mais de desdenhar do fato em prol da explicação mais lógica para seu sistema de crenças, mas de não poder verificar o fato para tirar qualquer conclusão a partir do que se viu. No nosso dia a dia dentro da internet, realidade e falsidade passam a ter exatamente a mesma aparência.

É possível que a ciência, a academia, tenha ferramentas para fazer essa distinção de modo seguro, a ponto de não afetar a produção científica (não vou entrar neste assunto, mas em vídeo na internet, a historiadora portuguesa Raquel Varela sugere a supressão da IA no ensino [bit.ly/4qPa5j5]). Primeiro porém: o tempo da política (entendido aqui como tempo da sociedade) não é o tempo da ciência: o desmentido de uma informação não sai de pronto, exige certo tempo, que por mais que seja curto, dificilmente será da velocidade com que uma notícia falsa, um vídeo deepfake se alastra. Segundo problema: a própria divulgação científica hoje depende da internet, e a lógica de circulação da informação não é de se buscar os canais oficiais, e sim repassar o que se recebe. Novamente o problema da fala de um especialista poder ser uma deep fake dele próprio - Dráuzio Varela é uma das personalidades mais usadas para aplicação de golpes na internet [bit.ly/3LgHqEG]. 

Poderíamos confiar na mídia? Para além do viés de suas publicações, deixando de lado muitas notícias de importância para a população em geral, vale lembrar que ela também não raro acaba por reproduzir seus preconceitos ao invés de se ater ao fatos. Um ótimo exemplo do viés de confirmação da mídia foi a “trolagem” do Não Salvo, enganando quase o mundo todo, do Guardian ao New York Times, passando pelo UOL e Globo, com a notícia de que a Coreia do Norte estaria noticiando que ganhara a copa de 2014 [bit.ly/4b36NEt]. Teríamos ainda os fact-checks, mas esses também são conduzidos majoritariamente pela mídia hegemônica, com auxílio da academia, e recaem nos problemas acima assinalados.


Diante disso, correr atrás de desmentir o deepfake e a fake news não é uma alternativa. De desmentido em desmentido, corrói-se a confiança como um todo - e hoje a internet tem uma relevância enorme como fonte de informação e meio de socialização. 

Que tomemos todas as precauções possíveis para não sermos enganados por uma deepfake, como saber que as pessoas dos nossos círculos, com quem compartilhamos dos mesmos pressupostos, tiveram o mesmo cuidado, e a opinião que formaram não foi com base em um vídeo falso? Como confiar nas novidades do mundo que as pessoas próximas nos contam?

Não se trata, portanto, apenas do receio de um deepfake imitar uma pessoa próxima para aplicar um golpe, mas de pôr em dúvida a pessoa em carne e osso na nossa frente, de que aquilo que ela sabe de fato aconteceu, e não são fakenews, deepfakes.

Não acredito que haverá uma regressão na tecnologia, de modo a evitar essa situação; tenho dúvidas que a regulação dará conta dessa questão; creio antes que precisaremos atravessar essa crise epistemológica para criar repertório que nos permita recobrar a confiança nos próximos - e em nós mesmos, em última análise. Até lá, tempos difíceis se desenham.


12 de janeiro de 2026

Vídeo criado por IA

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Uma vacina para as deepfakes?

Em 2016 “pós-verdade” era escolhida a palavra do ano pelo dicionário Oxford. O conceito diz respeito à decadência da relevância de fatos objetivos em prol de uma narrativa carregada de emoções que corrobora o viés de confirmação da pessoa, mais que uma interpretação, é uma manipulação do fato. Dez anos atrás, para uma fake news, via de regra, era preciso recortar um fato - ou criar um factóide - e alimentar uma narrativa a respeito, com forte apelo emotivo. Era necessário tempo, repetição, múltiplas abordagens. Não que isso fosse algo novo: a verdadeira novidade era a perda do controle dessa narrativa por parte do estado ou dos entes paraestatais, em especial a mídia hegemônica (poderia citar o sequestro de Abílio Diniz, em 1989, ou então citar Foucault, que comenta de expediente similar no século XVIII). 

Junto com as fake news, outro fator comportamental que impacta na emergência da pós-verdade são as redes sociais. Com seus perfis segmentados e publicidade direcionada, a internet afetou profundamente a ágora, o espaço público de debate público e político, transformando o que antes era uma discussão aberta - não que necessariamente fosse democrática, mas ao menos sabíamos o que estava sendo discutido - em discussões nichadas, feitas em bolhas. Descobrimos isso de modo muito amargo em 2018 - em que gritávamos para nós mesmos “ele não”.

Os avanços da IA generativa nos levam a um novo patamar da pós-verdade. Não é preciso desenvolver minuciosamente uma narrativa, concatenando pontos diversos para encaminhar uma conclusão (como reportagens sobre casos de corrupção, oleodutos cuspindo dólares, discurso de que o país estaria quebrado, para concluir que a culpa era da esquerda e do PT), um vídeo único pode acabar sendo uma prova quase cabal de algo cujo contexto já esteja minimamente pronto (em geral, contexto ditado pela extrema-direita e forças conservadoras). E, novamente, a esquerda parte em desvantagem. Não somente porque estamos num contexto enviesado, de criminalização e satanização (nestes tempos de ascensão religiosa, este termo cabe) das esquerdas e de forças progressistas, o que facilita um evento absurdo poder ser considerado verdadeiro, como por questões financeiras, algorítmicas e mesmo éticas - já que a mentira aberta não é uma estratégia da esquerda brasileira, diferente da extrema-direita, que atua sem pudores.

Em minha bolha, influenciadores de esquerda começam a se mexer contra as deepfake que certamente inundarão o país na época eleitoral (ou alguém espera que Kassio Nunes e André Mendonça, respectivamente presidente e vice do TSE na hora do pleito, vão se mexer para tentar evitar esse tipo de crime?). E fazem-no com uma estratégia que me parece bastante inteligente: ao invés de pegar casos e centrar nos possíveis usos eleitorais - vamos reconhecer, para quem trabalha em escala 6x1, limpa a casa, cuida dos filhos e precisa se divertir, fica difícil achar energia para ainda se debruçar sobre a política institucional -, mostram como uma deepfake é feita e como ela pode afetar nosso dia-a-dia, com golpes de todo tipo. 

Esses vídeos soam uma possível vacina contra as deepfakes no período eleitoral. E, ao mimetizar aquilo que foi muito utilizado na campanha do mensalão e anti-petista na mídia hegemônica (e na qual não há qualquer questão ética), eles não dão a mensagem direta, antes entregam as premissas, mas deixam a conclusão óbvia para quem o assiste - que vai, assim, se achar muito sagaz por ter chegado à conclusão de que políticos podem querer mentir usando deepfakes.


09 de janeiro de 2026







sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Tikal, a altura do tempo [Viagem à Guatemala]

 Três vezes por semana costumo ir à pé para o trabalho - são quarenta minutos de caminhada. Todos os dias subo os sete andares até onde trabalhava (uma semana antes das férias fomos transferidos para o vigésimo quarto andar). Isso para dizer que não estou tão fora de forma e que o passeio a Tikal é mesmo exigente, como subir as escadas até o templo IV, de setenta e cinco metros (os vinte e quatro andares que pretendo começar a subir todos os dias), depois de já ter subido outros três templos e o observatório astronômico, de alturas consideráveis, sem falar nos templos mais baixos, mas com degraus grandes, que forçam ainda mais as pernas. Ademais, ao fim, meu relógio marcava  doze mil passos, o que dá entre oito e nove quilômetros.

Tikal é a maior ruína maia da Guatemala, com milhares de construções - muitas delas ainda por escavar.

À chegada, apenas o vislumbre dos fundos do templo do Jaguar já impressiona. Impressiona é pouco, não acho palavras para descrever a sensação de quando vejo o paredão de pedras com sua cúpula por entre árvores, enquanto o guia Carlos ainda dá explicações gerais sobre a organização da cidade. Eu preciso de silêncio para processar - e há um tipo de silêncio ali que não é feito de ausência de sons. E mesmo agora é difícil pôr em texto (minha capacidade como escritor é limitada, ainda mais por não ser poeta). Se eu fosse minimamente místico, eu poderia me referir à energia do local - porque, sim, há algo que impacta para além do racional: um local grandioso demais, com histórias demais, com detalhes demais, com mistérios demais para eu dar conta de entender minimamente a importância com minha vida estreita de classe média remediada.

Fundada ainda antes da era comum, vivendo seu apogeu no período clássico da cultura maia (200 a 900 dC), e abandonada logo em seguida, Tikal chegou a ter trinta mil habitantes internos, numa população total de duzentas e cinquenta mil pessoas. Conforme Carlos, a cada cinquenta e dois anos (quando o calendário solar e o lunar-religioso se encontram) se suplantava o tempo e o templo anterior, por um mais largo e mais alto. É de se imaginar quantas gerações não construíram seus templos sobre outros ali, e qual tamanho não teria se a cidade tivesse persistido.

Nas décadas de 1950 e 60 foi escavada por missões científicas estadunidenses da universidade de Pensilvânia que, claro, saquearam o que encontraram, de objetos quotidianos e rituais a frontões de templos. Restaram os templos - porque não deu para levar. Mas um deles, o de face sul na praça central, me conta Carlos, desmoronou por conta dos túneis das escavações científicas. O Ocidente agindo como Ocidente - Lia diria: branco fazendo branquice. 

Desse desmoronamento é possível ver outras camadas de construções, com suas máscaras grandiloquentes: os novos templos eram construídos sobre os antigos, sem destruí-los, apenas adicionando novas camadas. 

Ainda na praça central, subi no templo das Máscaras, com cerca de quarenta metros de altura. Tratava-se de um local que era exclusivo para sacerdotes e do seu alto dá para sentir o poder dessa posição: abaixo pessoas diminutas, à frente, fazendo vez ao seu tamanho, o templo do Jaguar. E no horizonte, a floresta e o peso de milhares de anos de história.












05 de dezembro de 2025

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Entre ruínas [Viagem à Guatemala]

Reconheço uma grande atração por ruínas. Não sei explicar bem o porquê. Acho que é poder presenciar esse gládio entre o ser humano e o tempo, entre o esquecimento e a obra humana. Pois hoje descobri que ruínas também podem ser uma pugna entre a natureza e a nossa ambição de imortalidade.

A primeira parada do dia foi em Iximché, ruínas de uma cidade maia do pós-clássico, fundada em 1470 e abandonada menos de cem anos depois, após ser conquistada pelos espanhóis - foi a primeira capital da Guatemala, por breve tempo.

A cidade é cercada por escarpa em três de seus lados, e era no baixio dessa montanha que viviam as pessoas “normais”, em casas simples das quais não resta nada. Me chama a atenção o poder da ideologia nesse caso: essas pessoas atendiam aos interesses do rei, dos sacerdotes e da nobreza, sem ganhar objetivamente nada em troca - diferentemente da Europa, onde se oferecia proteção física por servir ao senhor feudal, por exemplo.

De parte das construções, restam apenas as plataformas sobre as quais se erguiam templos, casas e palácios. Outra parte foi tomada pela natureza. Ainda assim, o ser humano insiste, e no final do sítio arqueológico, no último templo da última praça, presencio dois rituais maias em honra aos antepassados - o que já era previsível, visto o cheiro de fumaça que impregnava todo o sítio (havia um terceiro, que me pareceu para turista, visto que eera apenas uma indígena cercada de gente branca) .

A segunda parada foi em La Antigua, por muito tempo a capital da Capitania da Guatemala, e patrimônio histórico da humanidade pela Unesco. A cidade está engessada - segundo William, não se pode construir ou derrubar nada -, mas isso não significa que seja uma cidade morta, numa vida artificial para turistas (como foi minha sensação com a cidade velha de Cartagena de Índias, na Colômbia [http://bit.ly/cG230301]): pessoas moram ali, há uma vida que se desenrola para além do turismo.

Das trinta e seis igrejas que haviam na cidade, restam dezesseis - todas restauradas ou em processo de restauração. Contudo, se as ruínas de Iximché foram tomadas pela natureza depois do abandono, aqui a natureza primeiro transformou parte da cidade em ruínas, por conta dos terremotos, até ela ser abandonada por ordem real - em um processo que levou dez anos - , para voltar a ser ocupada anos depois: “se querem ver as obras que haviam nestas paredes, visitem as igrejas da capital”, no diz William.

Creio que as três construções de destaque da cidade são a igreja de La Merced, uma igreja do barroco antiguenho, de proporções estranhas, uma vez que é baixa e bastante larga; o Arco de Santa Catarina, uma ponte por onde religiosas podiam cruzar a rua sem serem vistas, e com isso sem descumprir seu voto de reclusão, e a catedral de San José.

Desta última, o nártex (o hall de entrada da igreja) foi reconstruído e transformado na nave igreja. É modesta, ainda mais diante do tamanho de suas ruínas, com quase cem metros de comprimento. Nela, me salta aos olhos um Cristo negro. Seria sua cor original?! Nos trabalhos de restauro, descobriu-se que era branco e foi enegrecendo com o tempo. Porém, por conta da fé viva que em torno dele, decidiram mantê-lo tal qual está hoje: uma vez por ano fiéis de várias localidades - inclusive Oaxaca, no México - vêm até aqui por conta dele: “o Deus que quis ser moreno como nós”. 

Na parte de ruínas da catedral, como em outras ruínas daqui que visitei, muitas colunas e paredes reconstruídas - segundo William, ainda é restauro se for menos de 50% do edifício reconstruído. Certamente deve haver questões estruturais que justificam muitas dessas intervenções, outras, como em paredes laterais, me parecem um desejo de retomar a antiga forma, de disfarçar a obra da natureza e do tempo - e acabam por mostrar nossa pequenez diante de nossos sonhos de grandiosidade.


02 de dezembro de 2025










segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Miyazaki na Mesoamérica [Viagem à Guatemala]

O segundo dia amanhece claro e tomo meu café da manhã diante da imponência dos 1.500 metros dos vulcões Tolimán e Atitlán. O roteiro é tomar uma lancha e visitar duas localidades que beiram o lago Atitlán.

A primeira cidade foi San Juan La Laguna. Visitamos uma cafeteria que produz o próprio café, uma loja de chocolate que produz o próprio chocolate - mas não o próprio cacau, que ali não é região cacaueira -, e uma cooperativa de tecelãs que eventualmente produz os próprios fios de algodão - e o tingem artesanalmente, a partir de plantas.

Em Santiago Atitlán (e sempre que ouço esse santo me lembro do curioso caso que é Tiago e Jacob terem a mesma origem), visitamos uma igreja de 1547, com o teto destruído por algum dos terremotos que atingiram a região (substituído por telhas galvanizadas) e cujo átrio defronte, amplo e desocupado, me remeteu às paisagens de De Chirico (e quem me conhece sabe o quanto sou fã desse pintor), porém com o horizonte terminando não no infinito, mas no vulcão Tolimán.

As ruas de Santiago são ruas perfumadas por diversos cheiros - tortillas sendo assadas, temperos, frutas, churrasco -, e as mulheres, como em Chichicastenango, via de regra, estão com trajes típicos - e, novamente, não me parece que seja para performar para o turismo, pois não me parece que milho, sapoti ou produtos de limpeza tenham muito apelo junto aos turistas. 

A outra parada que fizemos na cidade fomos de tuc tuc - uma espécie de moto táxi de três rodas - a uma favela, onde adentramos por uma viela até chegar a uma casa particular. Nessa casa estava a imagem do Gran Abuelo, Rilaj Mam, um santo popular, de origem maia, protetor local, que a cada ano ganha uma máscara nova e fica na casa de um dos membros da confraria. É um dos poucos aspectos em que notei homens tomando a dianteira na manutenção da tradição - e isso dentro de uma aura de grande mistério e círculo fechado. Em geral, o que percebo é que na insistência de aspectos culturais maias no quotidiano são as mulheres que surgem como as principais guardiãs.

Na volta, na lancha, a tarde já caindo, e a mesma neblina solar vai tomando conta do lago. Me sinto numa animação de Miyazaki adaptada para a mesoamérica: os vulcões Tolimán, Atitlán e San Pedro no lugar do monte Fuji, santos populares ocultos em máscaras misteriosas no lugar de grous e mulheres com Huipil e Faja, no lugar de quimono. E uma mesma poesia realisticamente irreal no ar.


01 de dezembro de 2025

domingo, 30 de novembro de 2025

Neblina feita de sol [Viagem à Guatemala]

Hoje, sim, começa minha viagem! O itinerário do pacote, digo. Ontem foi apenas chegada, uma sucessão de pequenos infortúnios (que ganharam outra dimensão por conta do cansaço e da expectativa) e uma visita ao interessante Museo Nacional de Arqueología y Etnografía - e o que ali vi acho que vai se tornar mais interessante conforme o avançar da viagem.

William, o guia, chega ao hotel com a pontualidade do carteiro de De volta para o futuro (não lembro se o 2 ou o 3). No carro, meus companheiros de viagem: um geólogo chileno e dois casais espanhóis. Aparentemente, somente eu, William e Wilson, o motorista, ainda trabalhamos - mas eu estou de férias.

No trajeto, William mostra grandes dotes para manter uma conversação: pulando de assunto aleatório em assunto aleatório, de origem do café à produção industrial brasileira, sem deixar de saber sobre a guerra civil guatemalteca e detalhes aprofudados sobre os maias, e passar pela problematização do termo “povos originários”.

Noto que fala com propriedade ou com dose de cuidado, não parecem dados simplesmente decorados ou erudição oca. Descubro, depois que é historiador, já participou de escavações arqueológicas e sabe um básico de hieróglifos maias. Além de ser guia turístico. Mas ele conta que queria mesmo era ser engenheiro agrônomo.

A primeira parada é em Chichicastenango, em El Quiché, cidade média, conforme William. Quarenta mil habitantes, sendo uns cinco mil na cidade. Isso, 40 mil. Meia Pato Branco. Um cidade média para os padrões guatemaltecos, portanto. Sigamos. A grande atração que fomos ver, a feira de domingo (e quintas) é um tanto cheia e caótica: numa quadra de esportes ocorre a feira de frutas e legumes, ao redor, em corredores estreitos, se organiza uma feira de itens diversos - para turistas e para locais -, quase uma Liberdade de domingo - o que muito me angustia.

Uma primeira coisa que chama a atenção e o guia reforça: as mulheres usam vestes parecidas (mas não iguais!), o mesmo traje típico, de origens maia, vermelho escuro - e, não, não é performance para turista tirar foto. Noto que uma ou outra usa traje azul. William explica: são de outra localidade, por isso a mudança de cores.

A feira ocorre entre duas construções religiosas do século XVI: uma a leste, com portas para oeste, portanto, a igreja de Santo Tomás; a outra, a oeste, com porta para o leste, a capela do Calvário, que tem missa apenas uma vez ao ano, dia primeiro de novembro. Ambas estão, separadas por pouco mais de cem metros e foram construídas sobre templos maias - por isso a precisão dos pontos cardeais.

Fora delas, muita, mas muita fumaça. Por obra do sincretismo religioso local, queima-se muita coisa em oferenda aos antepassados, e a fumaça é a forma de conduzir tais elementos ao mundo superior: velas, incensos, rum, cacao... a queima é feita do lado de fora porque a igreja tenta limitar até onde pode ir esse sincretismo, ao menos dentro de suas portas. Tenta, porque a fumaça adentra o templo de qualquer modo, fazendo dos afrescos nas paredes quase borras negras. Achei curioso que no centro das naves há elevações para se queimar velas - uma tentativa de “domesticar” os hábitos maias, substituindo toda a riqueza de oferendas e cheiros pela pasmaceira das velas? Na capela do Calvário, uma mulher reza sobre a imagem de Cristo como se fosse o próprio velório acontecendo. No convento anexo à igreja de Santo Tomás, uma placa indica que ali, no início do século XVIII, foi encontrado e traduzido o Popol Vuh, livro da cosmologia maia.

Nossa segunda parada em um taller de maíz. Uma casa simples, típica, paredes de adobe, pintadas, chão de terra batida e, o que me chamou a atenção, colunas com capitéis simples. Vimos como se mói o milho manualmente, conforme técnica ancestral, para depois preparar as tortillas, alimento típico, com uso equivalente ao pão.

Ali também fomos apresentados aos quatro tipos de milho cultivados e seus significados na cultura maia: o branco, que simboliza o ar, a pureza, os acestrais; o amarelo, que simboliza a luz, a vida; o preto, que simboliza a noite, a fertilidade; e o vermelho, que simboliza o sangue e o fogo. Por conta dessa represetanção, o milho vermelho é consumido apenas em situações rituais, sendo mais dedicado, por isso, à alimentação animal. Achei curioso, esses usos extremos do mesmo alimento: do mais elevado, o uso ritual, ao mais baixo, o uso animal, como se fosse um ciclo que se fechasse, com o ser humano no meio. 

Seguimos viagem até o lago Atitlán. Um lago vulcânico, com certa de 130 km² e 340 metros de profundidade, a 1.500 metros de altitude. Surgido de uma enorme erupção vulcânica, há 100 milhões de anos, ele hoje é circundado por alguns vulcões - há tempos inativos.

Chegamos perto do fim da tarde, uma estranha neblina cobria o lago, uma neblina que parecia feita de sol.

A visita ao lago ficaria para o dia seguinte.


30 de novembro de 2025

sábado, 29 de novembro de 2025

Merda! [Viagem à Guatemala]

Merda! No teatro de fala assim para desejar que o que é para dar errado, dê antes de entrar no palco. Merda! Eu devia ter dito isso antes de sair de casa para minha viagem de férias, não depois. 

Saí mais cedo com pegar o trem para o aeroporto de Guarulhos, justo para, na eventualidade de qualquer merda acontecer, ter tempo de resolvê-la. E assim foi. Já estava na Luz quando me dei conta de que havia esquecido a doleira. Um detalhe menor, sem dúvida, se eu não estivesse esquecido dentro os dólares que comprara para a viagem. Merda!

Volto para casa, pego a doleira (com os dólares) e vou para o aeroporto de aplicativo, mesmo. Isso dói para um mão de vaca, mas é a vida, às vezes custa um pouco mais. Ao menos minha dose de azar de viagem eu dava por resolvida. 

Ingênuo...

Na escala no Panamá, sou obrigado a despachar minha mala de mão. Faço a contragosto, mas não vai ser isso que vai estragar meu humor (depois de uma semana de extrema ansiedade por conta dessa viagem, o que pus na conta do autismo). Estou na fila para entrar no avião, vejo passar as malas e identifico a minha. Quebrada. Agora, sim: merda!

Durante o vôo ensaio um barraco em castelhano para quando chegar. Me demoram na imigração, e quando alcanço a esteira, minha mala está solitária ao lado dela. E quebrada. Ao menos vejo que foi só o casco externo, todo o resto está nos conformes. Viagem que segue, agora certo de que os deuses do teatro e da viagem já tinham me dado minha dose de merda - duas coisas menores, por sorte, que só vão me custar financeiramente.

A saída do aeroporto me chama a atenção. Na área de desembarque muitas (muitas!) pessoas esperando com balões e flores seus familiares. Muitas, mesmo! Por um instante cheguei a pensar que algum famoso iria desembacar, tal era o clima do local. O responsável da agência de viagens por me buscar, mais prático, tinha apenas uma placa com meu nome.

O hotel é próximo, mas o caminho é caótico. Ele explica que houve um aumento de 400% da frota da cidade desde a pandemia. Comenta também que cerca de 3 milhões de guatemaltecos vivem nos EUA (na internet, buscando depois achei o número de 1,5 milhões), a maioria indocumentado. Imagino que essa migração talvez explique todo o clima de festa na chegada, o que é confirmado: são os documentados voltando para as festas.

No hotel, lembro que não sou de luxo, não: prefiro as coisas mais simples. O corredor chique com cara de filme de terror, as muitas facilidades que vou ter vergonha de aproveitar e as coisas simples que não sei operar - tudo isso me intimida. Apesar de muito tentar, não consigo ligar o chuveiro - tomo banho de banheira, mesmo. Não que eu não goste de ficar na água, duro é se lavar assim.

Mas foi na saída do banho que descobri que os deuses da viagem estavam de mal comigo: não bastasse o pacote de dados internacional que comprei não estar funcionando, uma hora na tomada e a bateria do meu celular havia carregado 8%. Junto a isso, um aviso: carregamento lento, provavelmente causado por cabo danificado.

Bem, eu estava na Guatemala para passear, não para tirar fotos.




29 de agosto de 2025

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Metodista, o hub de informações da empresa, volta das férias [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Metodista voltou de férias - que não são merecidas, pois se trata de direito e não de merecimento. Metodista, que foi trazida apenas rapidamente a estas paisagens textuais, é um hub de informações da empresa. Informações oficiais, extra-oficiais, oficiosas, conjugais e extra-conjugais - e algumas fofocas, de vez em quando, pois ninguém é de ferro.

Pois chegou ela, e não perdi tempo: dei as três horas regulamentares para ela se inteirar, e chamei para um café no refeitório. Como parte do cenário, Goreti preparava seu almoço. Muitas novidades acontecidas nesses vinte dias e fazia-se mister alguma explicação: velhos colegas que saíram, novos colegas que chegaram (eu queria ver o inverso), mudança no leiaute da sala, uns pepinos pra cá, uns abacaxis pra lá, e vida que segue. Ao menos assim eu acreditava.

Pois fiquei sabendo que a funcionária que entrou - já como supervisora - é, na verdade, sobrinha do diretor geral (prima do Baço, de breve passagem, difícil recordação e nenhuma falta). Sua função é pôr ordem na casa, pois pela segunda vez consecutiva não batemos nossas metas - e eu, ingênuo, que acreditava que trabalhava num setor que não possuía metas. Já duas das baixas que tivemos foram trabalhar na concorrência, que ofereceu não só melhores salários como um pouco de alívio na tensão psicológica - afinal, o espectro de um passaralho volta a rondar o setor, que poderia ser incorporado por outro. 

Goreti se aproximou da conversa, prestava atenção, mas olhava com certo olhar aparvorado. Metodista continuava:

Se com passaralho ou sem, o certo é que nosso chefe e o diretor geral entraram em rota de colisão. Ainda não consegui saber como que o chefe não perdeu o emprego.

Nessa hora Goreti interveio:

Deixa eu ver se entendi: Metodista, você está explicando para o Sérgio S. o que aconteceu na empresa nesse período em que você esteve de férias?  Você não viajou, não?

Vinte dias na praia!

E se virando pra mim:

E você, onde esteve, que não sabe nada disso?

Goreti agora tem certeza: sou uma pessoa alienada.


19 de novembro de 2025


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Goreti: o homem dos infortúnios miúdos [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

 Goreti é o cara dos pequenos azares. Nunca tem um grande drama, uma questão dilacerante. É sempre white people problems e nimiedades. Quando parece que algo mais sério aconteceu, logo se mostra uma farsa - como foi o caso do berinjonha, descrito aqui há muito tempo [bit.ly/cG230102]. 

Mês passado lhe afligia suas férias: se ia para Lituânia, Tonga, Tunísia ou Belize. Convenhamos, alguém que tem entre suas opções de destino qualquer um desses países aleatórios é uma pessoa que busca algum tipo de problema - com a língua, que seja. Ou que conhece muito de geografia para saber da existência deles. Ou que paga duolingo e quer fazer uso desse dinheiro gasto.

Hoje chegou do almoço com o nariz sangrando. Ninguém teve dúvidas do que teria acontecido: um assalto, como tem sido muito comum em São Paulo, apesar de ter um polícia em cada esquina, ao qual ele deve ter tentado reagir e acabou apanhando.

O mistério foi longo: se trancou no banheiro e não saiu de lá até que estancasse o sangramento. Quando finalmente conseguiu, o cercamos, ansiosos por mais detalhes: teria sido o mesmo assaltante que passou correndo e levou a correntinha de um colega, tempos atrás? Quiseram levar o celular? O assaltante estava com arma de fogo? Ou só uma faca? Por que reagiu? A polícia conseguiu prender o bandido? Já tentou fazer arte marcial tailandesa, que seria útil nesse caso?

Goreti, como é do seu feitio, primeiro esperou todos falarem, ou melhor, todos se calarem - o que não foi simples, porque quanto mais demorava, mais a ansiedade crescia e mais se falava. Quando finalmente o silêncio se fez, ele contou em detalhes o que aconteceu, e não precisou de um minuto para tanto, mesmo esticando bastante para seu habitual:

Eu estava andando pela Boavista, nem tão distraído assim, pois digo que São Paulo não se pode dar vacilo. Páro para atravessar a rua. É quando sinto a pancada em meu nariz e o sangue jorrando de pronto. Ainda sem entender muito o que tinha acontecido, olhei para o chão e vi um galho de uns trinta centímetros. Foi isso: um galho caiu de uma árvore e conseguiu acertar bem em cheio o meu nariz.

Mas era trinta centímetro de comprimento ou de diâmetro - perguntou Bella (que não é de Isabela).

Macedo não se conteve:

Se fosse trinta centímetros de diâmetro não teríamos um sangramento no nariz, mas um nariz num sangramento.

Exato! - disse Goreti.

Eu complementei:

Convenhamos, não é algo tão difícil de acontecer: com três metros de napa, é o que você tem de mais exposto - visto de cima.

Exato! - Goreti não se abalou com a verdade sendo dita a queima roupa.

Tentei também ser otimista:

Ao menos foi um galho, não a árvore toda, como sói acontecer nesta cidade.

Exato! - exclamou novamente Goreti, como se não tivesse nada mais para falar.

A gente achou que você tinha sido assaltado e agredido - completou Goleador.

Ah, vá, sério?! Não tinha percebido isso - respondeu sem muita paciência o (anti) herói desta crônica.

Enfim, como sempre, Goreti e seus pequenos azares - sem emoção e totalmente quebra-clima. Ao menos ele trouxe o galho como prova do seu feito e para enfeite de sua baia.


20 de outubro de 2025.

Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas