domingo, 27 de maio de 2012

As greves políticas e as greves justas.

Venho cá chutar cachorro morto e chover no molhado: é o que se faz quando se fala da imprensa nacional. Salvo os detalhes do momento, o que se tem é um movimento regular, contínuo, bem estruturado da mídia contra um partido que ela ainda vê como esquerda demi-comunista – isso vale tanto para o protofascismo de Veja quanto para o partidarismo não-assumido mas evidente de Folha.

O assunto desta semana foi greve.

Há várias na principal cidade do interior do Estado, talvez os leitores de Folha não saibam: Campinas, além das crises sobre quem ocupará a cadeira de prefeito na semana seguinte, vive caos na saúde, já há muito é um zero na cultura, teve há pouco greve no transporte que se serve do público, e segue com boa parte dos servidores públicos em greve. É onde fica a Unicamp, uma das principais universidades do Estado e do país, talvez perdendo só para a USP.

Vamos para a capital, onde as coisas acontecem, dizem. Onde oito milhões de almas são tidas como decisivas para o futuro dos dois principais partidos do país – em contrapartida, os dois principais partidos do país pouco se mostram interessados no futuro da cidade.

Na quarta, tivemos uma “greve política” do metrô, conforme editorial da Folha (“Greve contra São Paulo”, 24/05/12). Adoro quando falam em “greves políticas”! De uma redundância maior que subir pra cima, tão esclarecedor quanto dizer que a cor vermelha é vermelha, que a água é molhada, que o sol é quente, e assim vai. O dia que me apresentarem uma greve apolítica – até a das mulheres de Atenas foi política –, farei questão de aderir. Até lá, terei de suportar um jornal que se diz a serviço o Brasil utilizar política como sinônimo direto de coisa ruim. Porém, pior do que falar em “greve política”, só os argumentos do editorial.

Primeiro, conforme a Folha, quem recebe salário acima da média brasileira não deve reclamar (se fosse acima do PIB per capta do Qatar, cerca de US$ 90 mil, eu até poderia concordar). Fica a dúvida porque quem recebe estímulos estatais bem superiores aos dos milhões de miseráveis do Bolsa-Família teria o direito: se a Folha pretende ser tão independente como apregoa, que comece recusando todo patrocínio de governos, empresas estatais ou que tenham ligação com o Estado.

Segundo: a determinação da justiça de 100% de funcionamento do sistema no horário de pico. Há alguma coisa errada numa no conceito de “greve” quando todo mundo é obrigado a seguir trabalhando. Contudo, a novalíngua da Folha não vê nenhuma contradição nisso: deve o jornal, então, reivindicar a mudança do artigo nos dicionários, que insistem em dizer que greve é “cessação voluntária e coletiva do trabalho”, a justiça do trabalho, de fato, rejeitou a possibilidade de greve – tenha tido razão ou não, é outra história. É fácil defender o direito de greve quando greve não implica em nenhuma mudança da rotina, em nenhum custo aos patrões.

Terceiro: Folha ignora que os metroviários fizeram uma contraproposta a essa estapafúrdia decisão da justiça: 100% dos funcionários trabalhando, mas com as catracas liberadas. O governo recusou, ameaçou usar a força policial contra os grevistas, caso isso ocorresse. Fica a dúvida: quem trabalhou para prejudicar os usuários foram os trabalhadores ou o governador Alckmin?

Outra greve são as das universidades federais. Essas, para Folha, não são políticas – logo, há de se acreditar que sejam justas. A acreditar que a Folha não use dois pesos, duas medidas, um professor universitário ganha menos do que um motorista de ônibus, assim sendo, tem direito a fazer greve – se não for, hora de chamar a polícia para pôr ordem (fiquei esperando um editorial e não veio).

Ao invés de apresentar um panorama com os pontos positivos e negativos das IFES – como fez um outro jornal do grupo, dedicado à elite e não à classe média inculta, que sequer sabe quem foi Hegel (ao menos assim pensa a Folha de seus leitores) –, o jornal se centra na Unifesp, que, pelo que dá a entender a reportagem, seria uma das piores universidades do país, sem qualquer infra-estrutura. Pior: se centra na Unifesp de Guarulhos, ignorando os outros sete campi. Por que será? Se a infra-estrutura do campus de Guarulhos é realmente péssima – se é que não soa ridículo falar em infra-estrutura para o campus de Guarulhos –, o mesmo não se pode falar do de Diadema, para ficarmos num exemplo de campus novo. Neste campus, o problema está na assistência estudantil, como ausência de bandejão, e não na qualidade dos prédios e laboratórios – equipados com o que há de melhor, conforme me disse um amigo que estuda lá (e é do comitê de greve).

Os motivos de não terem ido ver as condições da UFAM, UFCG ou de outra federal perdida nos rincões do Brasil, e ter se fixado no pior campus de uma que está praticamente na capital paulistana tem motivo bem evidente: atingir Fernando Haddad, atual ministro da educação e pré-candidato petista à prefeitura de São Paulo. Faltou só eles falarem “se Haddad não é capaz de dar condições a uma universidade, o que dizer a uma cidade?” Quer dizer, do jeito que vai, logo eles falarão isso – só o Haddad sair dos 3%.

O relativismo da Folha é aviltante a qualquer pessoa que não coadune com a burrice e a má-fé; de qualquer forma, sinaliza do que se pode esperar para as eleições municipais.

São Paulo, 27 de maio de 2012.

sábado, 26 de maio de 2012

Santa Ifigênia à noite.

Sábado passado fui assistir à Osesp, na sala São Paulo. Depois, resolvi aproveitar a deixa para passear pela região da Santa Ifigênia à noite – início da noite, é certo, mas deserticamente desestimulante para andar despreocupadamente. O passeio durou umas duas horas, tendo começado umas seis e meia. Aos que não conhecem bem São Paulo, a região da Luz, da Santa Ifigênia, costuma ser mais conhecida por Cracolândia – andou passando por uma certa higienização social, mas ainda faz jus ao nome.

Saio da Sala São Paulo, na estação Julio Prestes, já noite escura. Ainda que tivesse me organizado para subir a Duque de Caxias, me perco, não sei como, e acabo na rua do Triunfo – daí a decisão de levar a cabo o que até então era apenas plano, o do passeio pela região. Não vou saber por quais ruas deambulei, sei que tratei logo de achar a Avenida Rio Branco. Já havia circulado algumas vezes por essa região – famosa pelos eletrônicos –, porém sempre em momentos de movimento e de dia – salvo a primeira, quando ainda não morava em São Paulo, que saí da Estação Pinacoteca e meio que me perdi por ali, no início da noite.

Tenho plena consciência que não é um lugar muito tranqüilo, e sei que pessoas de boa família ou que aspiram a ser bons intelectuais ou acadêmicos brasileiros não deveriam dar esse tipo de rolê, em meio ao povo, sempre perigoso e sujo, ainda mais quando se trata da escória da escória. Desprezo essa brasilidade da nossa academia, e torço para que nada me aconteça.

Próximo a uma delegacia de polícia, vejo dois homens que aparentemente perseguem uma mulher. Ao mesmo tempo que parece assustada, a mulher ri – como se estivessem brincando de pega-pega. Defronte a delegacia, duas mulheres observam a cena. Ok, se está acontecendo algo fora dos padrões de sociabilidade aceitos ali, as mulheres tomarão alguma atitude, penso, e prefiro não olhar para trás. Noto que destôo um pouco dos habitantes do local, e resolvo usar o capuz do moletom que uso – ainda que isso me faça passar a ter medo da polícia, aliviado um pouco pelo bilhete da orquestra, para o caso de uma abordagem o que você está fazendo aqui, playboy? Numa rua escura, atravesso ao avistar à minha frente um grupo de pessoas encostadas no muro. Na hora penso se não é preconceito da minha parte, desviar das pessoas só porque estão em grupo. Sigo caminhando, observando a paisagem urbana – prédios, nóias, imigrantes, samba nos bares, ruas repentinamente desertas, repentinamente povoadas e agitadas. Na rua Conselheiro Nébias resolvo não atravessar ao ver um grupo sob uma marquise. Sou nóia, mas sou sangue bão, diz a mulher a dois homens que estão com ela. Não sei de onde surge, mas noto um homem caminhando à minha frente: anda com um braço flexionado, o pulso fechado, um sorriso estranho no rosto. Aponta repetidamente para o braço. Finjo que não é comigo, sigo meu caminho, ele na minha frente. Uma hora ele fecha o sorriso, se volta e vem na minha direção, pronto pra desferir um golpe. Não chega a finalizar o ato, não sei como me desvencilho, estou já na sua frente. Ele aponta para um carro da polícia, na esquina atravessando a rua, desconfio que foi por isso a tentativa de agressão. Estou na minha, vou virar aqui, mano, e dobro a esquina para a praça Júlio de Mesquita. Olho para trás, ele corre atrás de mim. Não penso duas vezes e faço bom uso das pernas que herdei. Me sinto um cachorro escorraçado. Duas vezes. Talvez seja assim que ele também se sinta, e apenas esteja marcando território.

Mesmo com as pernas bambas e o coração funcionando aceleradamente pelo susto, resolvo prosseguir meu passeio. Depois de algumas voltas a esmo, passo ao lado da praça da República e entro na rua do Arouche. Nesta região, que passei já algumas outras vezes, inclusive em horários mais tardios, volto a ter mais medo da polícia do que dos seus usuários.

Me avisaram que o Largo do Arouche é ponto de prostituição masculina. Um conhecido – acadêmico – me disse que da vez que passou ali viu dois michês brigando por ponto, todos ensanguentados. De minha parte, nunca vi nada anormal para o local – e com as três vezes desse sábado, já foram uns cinco vezes que passei pelo Largo. Me pergunto se ele teve “sorte” de passar ali justo quando acontecia uma briga dessas, ou se foi seu preconceito que permitiu ver muito além do que acontecia – talvez, se muito, fosse uma discussão pelo ponto. Passo por um grupo de três rapazes, inocentemente achando que só estão ali parados. Logo a atrás de mim vem um homem, mais velho. Vamos transar gostoso, perguntam ao homem. Descubro que não é só no Largo que rola a prostituição. Na esquina seguinte, um rapaz e duas mulheres – uma das quais desconfiei que fosse travesti – entregam um panfleto a um michê. Fico curioso em saber do que se trata, mas não peço um. Quando passo por eles, ouço uma parte da conversa. Se a gente não fosse tão conhecido depois da praça da República, dava pra ir pra lá. Como não guardo nenhuma visão idílica de pessoas de vida sofrida, não creio que sejam anjos dotados de sexo, fico me questionando conhecidos por quem, por o que? Disputa de ponto, faxina social, marcados pela polícia por conta de uma eventual ficha policial, grupo de extermínio? Há o dito que se não há deus, tudo é permitido. Mesmo havendo deus, se o Estado é falho – e muitas vezes ilegal, que crê que bandido bom é bandido morto –, como o nosso, tudo é permitido, logo, todos devem ser temidos. O trio me parece muito tranqüilo para que os tema, sigo meu trajeto e logo me distancio, pois páram para entregar outro folheto.

Perambulo um pouco mais por ali. Dois dias antes, dezessete de maio, havia sido dia de combate à homofobia, imaginei que fosse ter alguma campanha do gênero: nada. Talvez o trio da rua do Arouche?

São oito horas, mais ou menos. Os prostíbulos ainda esperam sua hora, botecos e pontos já estão cheios de travestis – diferentemente dos michês, essas me chamam para gozar gostoso –, algumas põem o celular pra tocar, outras dançam com fones de ouvido – e esse dançar aparentemente sem som dá um ar de loucura, de delírio onírico à cena, por mais ritmada que seja a dança –; muitos carros passam, alguns param, pessoas malham nas academias, mendigos dividem o fim da pinga e vasculham o lixo, espectadores entram em um teatro: a noite de sábado ainda está apenas começando.

São Paulo, 26 de maio de 2012.