Lembro do meu tempo de faculdade de filosofia e ciências sociais, na Unicamp, havia um perfil de estudante-militante adepto do “quanto pior, melhor”. Do Procon ao Bolsa Família, passando pela expansão do ensino superior e as cotas, tudo que não fosse a revolução (com sua pureza de princípios e baseada na “leitura correta” de Marx) ou a pavimentação para ela (baseado em miséria e ódio, deduzia eu), era arrivismo, defesa do capital, e reforço do status quo.
Saí da Unicamp há quinze anos, mas volta e meia revejo esse tipo de postura em alguns analistas políticos de esquerda. Um pouco mais refinados, é claro, mas a mesma lógica de ser incapaz de analisar a realidade em sua complexidade. Pior, não são meus ex-colegas da Unicamp, mas professores ligados a partidos de esquerda, de várias universidades públicas, que já o eram na época, só não tinham as redes sociais para divulgar em tempo real seu pensamento (não cito nomes porque meu objetivo não é fulanizar a questão).
Duas semanas atrás, um deles se desesperava com o crescimento de Flávio Bolsonaro e praticamente vaticinava: a eleição estava definida se não houvesse uma reação urgente urgentíssima de Lula. Ignorava os múltiplos fatores que explicam o crescimento de Flávio Bolsonaro neste momento e, principalmente, que o PT escolhia o adversário, esperando o fim do período de desincompatibilização para começar a pré-campanha - e melhor um Bolsonaro que Tarcísio.
A nova análise que tenho lido é que Lula ou ganha no primeiro turno ou perde a eleição, porque não teria ninguém para transferir os votos para ele. Sem dúvida, o segundo turno, se houver, será duríssimo - como foi em 2022. Essa leitura é, contudo, para além do catastrofismo de certa esquerda, simplista: como se votos em candidatos de direita fossem necessariamente para Flávio Bolsonaro. Convém lembrar que assim como há o anti-petismo, há também o anti-bolsonarismo, e que uma parte de eleitores dos candidatos menores da extrema-direita pode simplesmente se abster de votar num eventual segundo turno. Há também eleitores não ideológicos e que podem alterar seu voto - como aconteceu em 2006, em que Alckmin teve menos votos no segundo que no primeiro turno. Afora a questão de que será uma eleição concorrida, difícil e que não está ganha, mais sensato me parecem analistas chamando a atenção para Renan Santos, com chances de se “marçalizar” em 2026 e ganhar musculatura para 2030.
Felizmente esses analistas, apesar de seus currículos acadêmicos vistosos e sua boa escrita, têm pouca penetração na imprensa, mesmo a alternativa - que prefere análises críticas, mas calcada na realidade e que apontem possibilidades. Mas não me surpreenderia se um desses professores do catastrofismo de esquerda acabe sendo convidado para colaborar com a grande mídia, desesperada por apear Lula e o PT do executivo federal.
Sejamos críticos, mas façamos leituras complexas da realidade e saibamos achar brechas por onde construir alternativas. E aos arautos do apocalipse, que vêem o futuro já determinado, um pedido: parem de escrever e comecem a arrumar suas malas - a vida já está dura demais para levar pedrada gratuita do próprio campo.
