segunda-feira, 29 de junho de 2026

Para que tanta pressa? [Diálogos com o teatro]

 Fui com Lia assistir ao espetáculo Orkhḗstra Phántasma, de Felipe Hirsch, em cartaz no Sesc Vila Mariana. Saindo de uma quermesse para o teatro, avisei que era bom estarmos bem alimentados, pois eram três horas de espetáculo. Como eu, ela tem um certo receio de apresentações demasiado longas - talvez traumatizada pelo filme Beau tem medo (que eu gostei) -, e questionou: o que será que eles têm para dizer em três horas que não pode ser dita em uma hora e meia?

Lembrei desse questionamento ainda antes da peça completar uma hora, quando o ator Paschoal da Conceição elenca sinais de morte, uma casuística de pequenos sinais absurdos - da narina pela qual se expira à cor do sêmen ou do sangue menstrual, passando por ficar trinta segundos sem piscar - que, segundo ele, seriam sinais de morte para os próximos meses - a não ser que fizesse algum ritual para espantá-la. 

A cena é engraçada pelos absurdos elencados - enquanto um casal se pega quentemente sob uma luz vermelha no centro do palco -, mas pareceu se alongar além do necessário: tanto os sinais de morte quanto o casal se pegando, começando a ficar cansativo, tedioso. “Sim, já entendi”, foi a primeira coisa que pensei - e lembrei do questionamento da Lia. 

Foi quando entendi o que a peça estava trazendo para além do texto - e que será retomada na penúltima cena, pelo mesmo ator: “para que tanta pressa?” Para que sair logo dessa cena e partir para a próxima, se ainda há mais para se extrair dela? Extração essa que depende de um movimento ativo do espectador: entender o tédio, assumi-lo e pensar por si próprio o que tudo aquilo quer dizer. 

Somos seres de linguagem, estamos imersos nela - como uma segunda pele, como Georgette Fadel fala em algum momento -, e nos sentimos como que nus se algo nos passa sem sentido. Daí a necessidade de o tempo todo preenchido de sentido, qualquer sentido, em que um sinal deve ter um significado para além dele. Byung-Chul Han traz esses questionamentos em suas obras sobre a sociedade atual, com o adendo de que estamos habituados a receber esses sentidos, não a produzi-los. 

É aqui que entra a grande força de  Orkhḗstra Phántasma: ela possui uma intencionalidade, não é um mero acúmulo de cenas aleatórias sem relação entre elas e algumas sem sentido em si, e nos força a pensar não para decifrar um enigma, mas para suportar a ausência de respostas prontas. Mais que isso, ela nos dá tempo para que tentemos por nós próprios entender o que se passa no palco: há espaços vazios, há repetições do (aparentemente) já compreendido, há tédio (não por acaso, desde a primeira hora, várias pessoas saem do espetáculo). Ou seja, há um confronto com nossa passividade, com nosso hábito de ter a explicação pronta, há um convite à reflexão que só o vazio proporciona. 

A recordação que me veio nessa hora foi das viagens de férias para Florianópolis, quatorze horas de viagem, no Corcel II branco ou no Santana Quantum azul, já entediado de dormir, enjoado das mesmas músicas que tocavam no toca-fitas, olhando pela janela e elaborando alguma história mirabolante para passar o tempo: um espaço em que eu era invadido por meus próprios pensamentos e eles me levavam para locais inesperados. E essa volta às viagens de férias foi um local inesperado que a peça me levou nesse instante.

Não foi o único salto no tempo. Em determinado momento, o espetáculo faz menção ao “microfone aberto da Rádio Muda, de Campinas”. Ouvir aquilo me trouxe uma satisfação quase física: foi a rádio dos meus tempos de Unicamp, onde passei cinco anos comandando o programa sUbterrâneos do pOp. A Orkhḗstra, feita de fragmentos, começava a colar meus próprios pedaços.

Lia, nessa mesma cena dos sinais de morte, teve outra interpretação, mais ancorada no palco: de como, na preocupação com a morte e em dar sentido a tudo, vamos nos tornando meros voyeurs da vida, dos seus momentos mais interessantes, que acontecem quentes à nossa frente, estão ao nosso alcance, mas não intervimos - sobrecarregados que estamos na busca de tantos significados.

Orkhḗstra Phántasma é um espetáculo provocativo, que tira o público do seu lugar habitual e confortável. Uma peça que nos força a pensar, seja a partir de reflexões explícitas, como em cena de Georgette Fadel, apresentando duas concepções opostas de teatro: uma do teatro como catársis, para se esvaziar de sentimentos, a outra do teatro como para ativar esses sentimentos; seja em momentos sem sentido, como os quatro minutos para a luz se apagar, numa paródia do mindfulness tão em voga hoje em dia. 

Se a questão fosse entregar tudo pronto e rapidamente, como nosso senso de urgência (desnecessária) atual nos impinge, a última cena o faz e de forma primorosa! Georgette Fadel em cinco minutos faz todo um ciclo da vida, de bebê aprendendo a caminhar até um idoso já com dificuldade de acompanhar a velocidade do tempo. Não tem como não se enxergar nesse ciclo, e vem o medo de imaginar em que momento dele estamos - e se estamos realmente aproveitando.


29 de junho de 2026




sexta-feira, 26 de junho de 2026

Paulo Freire no café [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Período de Copa do Mundo é quase tão tumultuado quanto o que antecede as férias. Na última quarta-feira o jogo do Brasil, por exemplo, nem era em horário comercial e causou o maior congestionamento de São Paulo dos últimos seis anos, com quase 1.700 quilômetros - mais parecia galera saindo para passar o natal na praia. Sem falar que isso é a distância para Cuiabá.

Aqui no escritório, correria também, para dar conta das demandas do dia antes de encerrar o expediente. Houve alguma mudança? Não! Saímos às 17h, como todos os dias, mas parece que tudo ficou corrido, atropelado - e acumulou muita coisa para os dias seguintes. Com a classificação do Brasil e o jogo útil de segunda, demandas foram antecipadas e o chicote comeu solto no resto da semana. 

Consequências: quarta não fomos tomar o habitual café da tarde. Na quinta, chegamos num horário fora do habitual. Antes de perguntar se iríamos querer o de sempre, a atendente nos admoestou:

Estão atrasados!

E a seguir perguntou por que havíamos faltado no dia anterior.

Demos risada, nos justificamos de brincadeira e fizemos nosso pedido e falamos do jogo.

Sexta-feira, novamente não fomos no horário habitual. Novamente fomos recriminados:

Virou esbórnia agora? Vocês saem a hora que querem para o café?

Eu e Macedo nos entreolhamos. Agora, além da chefe a nos fiscalizar os horários, tínhamos também a atendente do café a cumprir tal tarefa. E ela parecia séria. Na volta para o trabalho Macedo comentou, um tanto temeroso:

É, melhor não vacilarmos mais nos horários do café, nunca se sabe do que é capaz uma atendente irritada com você.

Achei por bem concordar. Lembrei das conversas que já tive com Brotinho, e citei Paulo Freire: quando a educação não é libertadora, o sonho de todo oprimido é se tornar um opressor. Se uma hora surgir oportunidade para algum tipo de fiscal interno, já temos alguém para indicar!



26 de junho de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

O zagueiro raçudo da São Bento [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Se alguém que lê estas mal traçadas linhas também acompanha grupos de fotos antigas de São Paulo no Facebook ou Instagram, sabe que para toda foto da década de 1970 para trás vai ter uma enxurrada de comentários cretinos.

 Uma foto de uma criança ou um jovem espremido num terno desconfortável numa tarde de calor de 1920: olha como se vestiam bem aquela época! Uma foto da República com o trânsito totalmente insano e pessoas tomando banho de chuva das rodas de um ônibus enquanto tentam não ser atropeladas, em 1970: destruíram a beleza do centro, hoje só tem cracudo, nóia e puta! Uma foto da praça Roosevelt ou do Largo do Paissandu dos anos 1950, servindo de estacionamento, sem calçada para pedestres: como era bom viver aquela época! Se ler todos os comentários, capaz de ter alguém - até mais de um alguém - falando que naquela época podia andar com celular na rua sem medo de ser roubado. 

Em resumo, o que esses comentários sempre dizem é que antigamente a cidade era linda, e estragaram ela - sem nunca conseguir achar o culpado por tal estrago (talvez não seja nunca: às vezes sobra para a população mais pobre, para a população de rua ou migrantes), até porque seria assumir que sempre votou em quem fez as piores escolhas: Minhocão, terceira pista da marginal, destruição da Lei Cidade Limpa...

Mas eis que nosso atual prefeito, com vistas a agradar a esses nostálgicos do que não vivenciaram, está trazendo a beleza e a maravilha do centro de antigamente. 

Já há um tempo que na região da Sé e do Anhangabaú basta ligar o pisca alerta e você está autorizado a circular de carro, pressionando os pedestres para saírem da frente. Ainda não começaram os bonitos atropelamentos de antigamente, mas com o aumento da circulação de bicicletas elétricas, esperamos ansiosos por isso.

A nova inovação está na rua São Bento: um lindo lamaçal, que é irrigado mesmo em dias de sol, fazendo com que o cidadão paulistano e o turista que está turistando por ali tenham uma experiência imersiva do que era São Paulo cem anos atrás, sem essa infraestrutura (ainda que incompleta) que torna São Paulo tão feia aos olhos das viúvas e viúvos da ditadura.

“Ah, mas é temporário, só até terminarem as obras no centro”, irá argumentar algum defensor do indefensável prefeito. Correto. O detalhe que toda essa revira estava prevista para terminar antes das eleições... de 2024. Pelo ritmo que vai, teremos sorte se a troca das calçadas for concluída para o próximo pleito municipal (quem sabe se o escolhido do prefeito estiver mal nas pesquisas eles prefiram acelerar ao invés de aditar as obras?).

Deixemos por cá os prolegômenos desta crônica e vamos à cena que a inspira - que cabe num twitter.

Eis que chega Goreti do almoço, enlameado dos pés à cabeça, literalmente, como um zagueiro raçudo dos tempos áureos do futebol, quando se tratava de um esporte e não de uma jogatina: tinha escorregado com gosto na rua São Bento, numa cena de humilhação pública - que, infelizmente, perdi. De volta ao escritório, foi conversar com o chefe, se não poderia encerrar o expediente mais cedo, dado seu estado lastimável que se encontrava.

Claro que não - a resposta da chefia foi lacônica e precisa, também como um zagueiro raçudo dos tempos áureos do futebol.

Inconformado, mas sem ter o que fazer, Goreti voltou à sua baia, se sentou na sua cadeira e voltou a trabalhar. Ao levantar para ir embora, Meirelles, que é mãe e já lidou com situações similares, deu a dica:

Amanhã traga uma toalha para se sentar, ou vai sujar sua roupa de novo, que esse barro vai demorar para sair.


24 de junho de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Futebol, fé e outras bets [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Disse em crônica passada que esta era uma copa inútil. Reconheço minha parcialidade em tal julgamento: trata-se de uma copa inútil para quem trabalha CLT (ou precarizado, como PJ) das oito às cinco. Para quem trabalha à noite, não deixa de ser um alívio. E mesmo para pais e mães de criança pequena, como é o caso de Maceda, que pode assistir ao jogo contra o Haiti, pois Macedinho já tinha sido posto para dormir (Macedo gosta tanto de futebol quanto de novela bíblica).

Quem também soube fazer do limão uma limonada foi minha vizinha de cima - a que tempos atrás (outubro de 2024, para ser mais preciso) precisou da ajuda da síndica para conseguir descapetizar alguém, pois o bicho ruim não ia embora só com o barulho infernal que ela e seus convidados faziam.

Brasil e Haiti, nove e meia da noite. Clima de festa pela cidade durante todo o dia: se a estreia foi uma decepção para Marrocos (e para alguns brasileiros que não acompanham futebol de verdade, ou saberiam que se o hexa vier, vem de zebra), o segundo jogo era favas cantadas - a não ser que acontecesse uma enorme zebra (segundo a transmissão do jogo, mesmo assim, o odd estava bom para apostar, ou melhor, investir com segurança no Brasil, praticamente um tesouro direto das bets). 

Nem são nove horas redondas e começam a chegar os convidados da vizinha de cima. E acaba minha paz. Não vou reclamar, afinal, é copa do mundo, muita gente está ansiosa pela primeira vitória da última seleção com Neymar (esperamos). Os convidados vão chegando até a hora do jogo. A partir dessa hora não ouço mais seu interfone tocar nem o tradicional barulho no hall de entrada do apartamento - parece que eles fazem um sapateado para entrar, deve ser algum código interno deles, tipo crianças de doze anos costumam ter, ou ao menos eu tinha (não que eu esteja implicando, só constatando). 

O juiz apita. Não tarda, uma oração. Amém. Mais outra oração. Aí eu começo a implicar. Haja reza para a seleção canarinho! Sei que o time não inspira muita confiança, mas não precisava rezar tanto pra ver se deus ajuda. Até porque se tem algo que não me parece condizer com a Bíblia, Jesus, deus e toda a religião cristã, é achar que entes divinos interfeririam num esporte competitivo, escolhendo um lado em detrimento de outro - e isso sem bases morais, que seriam as mais aptas para julgamentos religiosos. Traição, por exemplo, não é pecado? Ou então avareza: que dizer de jogador que comemora convocação fazendo propaganda pra bet? Por sinal, não tem uma bet evangélica, não? Se não existe, os pastores estão perdendo dinheiro!

Enfim, rezar e orar era pouco, com vinte minutos de jogo começaram também os cantos de louvor. Ponho o som da tevê lá em cima, nem tanto para escutar o insuportável narrador da tevê falando de bets enquanto cita o nome de um ou outro jogador que está com a bola, mas para abafar a vizinha de cima, mesmo. 

Veio o gol do Brasil. Explosão de alegria e alívio no bairro. A vizinha de cima com seus convidados, impassíveis: seguem cantando e rezando, como se não estivesse acontecendo jogo nenhum.

Irritado com o barulho, deixo a tevê no mudo e coloco Sepultura no talo. Por que Sepultura, deve estar perguntando a desocupada leitora, o desocupado leitor. Ora, para dar uma brasilidade pesada à minha tentativa de infernizar a vizinha e seu culto em casa. Péssima escolha. Foi cutucar o próprio diabo com vara curta. Começaram a falar a língua dos anjos e a pular feito uma manada de elefantes - sentimento que eu já conhecia de outros carnavais, digo, celebrações religiosas. Não, não era delay da minha televisão: foram quase dez minutos até o Brasil fazer o segundo gol que justificasse aquela pulação toda - e eles seguiram pulando esses dez minutos todos e mais um pouco. Até pensei em reclamar para a síndica, mas imaginei que ela não acataria minha reclamação, uma vez que provavelmente também ela estaria pulando e gritando com o jogo, por mais que já tivesse passado das vinte e duas horas.

Fui para um bar perto de casa, acompanhar o jogo em meio ao povo - irritado em ter sido expulso de casa por toda aquela fé sem limites (sonoros).


22 de junho de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Ciro, o tirano da janela [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

A confluência de conflitos latentes (ou nem tanto) aqui na equipe tem gerado uma série de saias-justas que chegam a ser divertidas de acompanhar - e mesmo de ser protagonista. 

A guerra da janela persiste. Pacheco voltou com sua tática do gaveteiro. Eu ignorei, e abri minha folha, para ventilar um pouco a sala abafada. O dia não estava muito frio, mas reconheço que o vento estava gelado e insistente - quase incômodo, eu diria. Quase!

Não era o que sinalizavam Pacheco e Goleador, que começaram a forçar tosses, na esperança de que eu tomasse a iniciativa de desfazer o que fizera. Eu, com meus fones, fingia que não ouvia. 

Não tardou, Pacheco se levantou para seu social habitual, deixando Goleador no frio e na aporia: ou aceitava o vento, ou teria que fazer coro à Doutora Sabujinha pela janela fechada - dar razão à sua arqui-inimiga. Não me recordo se já comentei algures: as duas já nem se cumprimentam e quando conversam, é o extremamente necessário para o serviço - um pouco menos, na verdade (a chefia não sabe dessa parte). Não que isso seja uma novidade para Pacheco: também não somos dignos de seus cumprimentos Carnegie e eu - com Mello ela soube sair do seu lado antes de chegar a esse ponto. Por falar em ponto, mantenho aqui minha indignação já expressada: sua baia virou ponto de encontro de colegas aleatórios de outras equipes e do Mello, o que tem prejudicado assazmente meu rendimento antilaboral.

De volta ao conflito fenéstrico. Outros colegas estavam nas duas fileiras de baias ventiladas pela janela que ocupo, e ninguém mais tossia ou parecia incomodado - um deles, inclusive, se mantinha sem blusa de manga comprida. 

Pelo visto, por conta do jogo do Brasil, estava todo mundo adiantando trabalho, sem tempo para conversa de cerca-lourenço, e Sabujinha teve que logo voltar ao seu lugar, fingir que trabalhava e tossia. Tosse cá, tosse lá e vento frio frequente (e eu de fone e blusa). Nessa hora, Macedo, nosso homem da calma, perdeu a paciência e resolveu intervir: pediu, gentilmente e em ASMR, para que eu fechasse a janela, pois o vento estava frio e parecia que não era o único incomodado com isso. Aceitei o pedido do colega e assim o fiz. Depois, no café da tarde, me contou: Goleador foi agradecê-lo, cheia de mesuras, pela intervenção. 

Esse agradecimento fez surgir em mim uma pequena dúvida: será que, sem perceber, estou me tornando o novo vilão da equipe, Ciro, o tirano da janela? 



19 de junho de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.

Enquanto você estiver estudando

Pai, hoje você faria 72 anos. Foi a primeira coisa que lembrei ao acordar - e motivo de eu estar melancólico. Acho que a sequência de crônicas do Sérgio S. ajudou um pouco: lembrei de quando publicava o Trezenhum. Humor Sem Graça. à noite, madrugada muitas vezes, e na manhã seguinte, ao ligar o computador, lá estava um e-mail seu com comentário sobre as agruras da Universidade e, claro, a revisão do texto. Devia ser a primeira coisa que você fazia no dia. Às vezes havia alguns preciosismos gramaticais da sua parte, que eu não concordava, mas alterava por reconhecimento da sua ajuda. 

Na verdade, a ideia para hoje era escrever mais uma crônica do Sérgio S. e as disputas miúdas desta burocracia em que faço trabalho de estagiário com diploma de sociólogo. Sérgio S. é um spin-off de Trezenhum - e digo isso só para te provocar: com certeza você me mandaria uma mensagem me criticando por usar um termo em inglês, e eu concordaria contigo: prefiro dizer é uma derivação do Trezenhum. Curiosidade: já tem mais tempo que o original (só não sei se tem mais textos).

Lembrei também quando soltava meus textos mais sérios - esses precisavam de menos revisão, mas de vez em quando vinha. O que vinha mesmo era, na ligação seguinte - por telefone ou skype -, você começar: “Dani, aquilo que você falou no seu último artigo...” e começarmos nossa conversa sobre política, nem sempre confluente, mas sempre respeitosa - até porque éramos dois do campo da esquerda, cada um com seu extremismo particular. Por sinal, uma das principais pessoas para quem eu escrevia era você: mostrar que, ao mesmo tempo, eu seguia seus passos políticos e me diferenciava deles em detalhes. Ainda sinto falta dessas conversas. Como sinto falta de minhas férias serem voltar para Pato Branco, curtir a casa e a companhia sua, da mãe, e das cachorras. Colômbia, Lençóis Maranhenses, Salvador, Guatemala foram destinos legais, mas foram arremedos de férias.

Hoje tem jogo do Brasil. Foi com você que aprendi a não torcer pela seleção - mercenários era o que você acusava os jogadores, desde a copa de 1994, que eu me lembre. Patriotismo de fancaria, digo eu, hoje (e reitero o mesmo ranço seu para com Senna). Você era um nacionalista! Foi durante um jogo do Brasil contra a Argentina que você partiu. Hoje o jogo é contra o Haiti, país que rendeu uma das edições mais polêmicas do Trezenhum. Humor Sem Graça. O Brasil deve vencer fácil, eu devo aproveitar esse tempo para estudar. “Enquanto você estiver estudando, a gente te sustenta”, foi o que você me disse uma vez, no início do século, não sei bem se quando eu tinha entrado na psico ou na filosofia. E, de alguma forma, isso continua verdade até hoje.



19 de junho de 2026

quarta-feira, 17 de junho de 2026

A Ilíada do Clube do Café [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Marx, parafraseando Hegel, costumava dizer que a história se repete, a primeira como tragédia, a segunda como farsa. Pois esta semana estive diante de um rapto homérico aqui no serviço, mais especificamente no setor onde me encontro alocado como capital circulante. O primeiro rapto homérico, creio ser de conhecimento geral, é de Helena por Páris, desencadeador da Guerra de Tróia. A situação no trabalho talvez seja um pouco menos dramática, ou melhor, trágica, sem rapto de mulheres - até porque os tempos são outros e apesar de eu suspeitar que muitos colegas teçam comentários e tenham visões machistas, no ambiente eles (e elas) mantêm um mínimo de compostura.

Tudo corria relativamente bem naquela quarta-feira fria de sol, quando um colega do Clube do Café decidiu fazer uma pipoca para acompanhar o jogo de Portugal, digo, uma reunião on-line à qual estávamos submetidos. Abriu o armário onde ficam os apetrechos do clube e a panela de arroz de Goreti, buscou, buscou, buscou e... nada da pipoqueira. Discretamente ele comentou na sala:

Alguém viu a pipoqueira do Clube do Café? Não estou encontrando ela no nosso almoxarifado. - sim, eles chamam o armário de almoxarifado do Clube do Café, para irritação do dono da supracitada panela de arroz. A balbúrdia rapidamente se alastrou no ambiente, até porque o gol de Portugal saiu logo no início - e nada da pipoca para acompanhar o evento. Entre aqueles integrantes do Clube que não estavam na reunião, começou uma investigação para descobrir onde poderia estar o referido eletrodoméstico: quem foi o último a usar, quando foi a última vez que comeram pipoca. Sem pistas, a discussão chegou ao grupo de whats - conforme relatava minha fonte, que mantenho o sigilo por direito de ofício -, para indignação de ainda mais integrantes.

Fomos roubados! - bradava uma das vozes mais exasperadas.

Já perguntaram na segurança? - interveio outro, mais prático.

E lá foi Mello, como membro mais proeminente do referido Clube - e não estando em reunião -, ver com os seguranças se haveria possibilidade de analisar as imagens do circuito interno. A sala da segurança fica no mesmo andar do RH - e não foi necessário ir até ela. O cheiro de pipoca impregnava o andar - era intervalo de jogo, deviam estar fazendo a leva para o segundo tempo. O que se seguiu daí são versões contraditórias.

Diz uma versão que Mello chegou pisando duro na sala e ao se deparar com a inefável prova do crime exigiu imediata devolução do item raptado - o que não foi atendido. Saiu prometendo vingança.

A segunda versão diz que ele foi sorrateiramente até o RH, se certificou de que se tratava mesmo da pipoqueira que ele havia escolhido para o Clube, e perguntou quem tinha autorizado a pegar o apetrecho. Para sua surpresa, quem havia autorizado não era ninguém mais, ninguém menos, que um dos membros fundadores do Clube do Café: Conan (sim, temos um colega chamado Conan, inclusive com porte físico para estrelar o filme do bárbaro). Conan que na reorganização pós-passaralho foi transferido de setor, e por isso ninguém mais lembrava dele. Detalhe: ele não foi para o RH - ou seja, mistérios pairando no ar. Enfim, autorização dada, devolução de pipoqueira negada, depois de uma altercação que chamou a atenção da sala ao lado do RH, a da segurança. Mello saiu de lá prometendo vingança.


A discussão foi para o grupo de whats:

Quem foi que autorizou à revelia que a pipoqueira fosse emprestada? - questionou Mello, como quem não soubesse do que havia se passado.

Conan vestiu a carapuça e foi direto:

Entrei com minha quota na pipoqueira, tenho direito a usá-la de vez em quando.

Os meandros da discussão deixo de lado, para não cansar a desocupada leitora, o desocupado leitor, com filigranas jurídico-escolástica-econômicas. O resultado é que a pipoqueira ainda não voltou. E a ameaça de vingança de Mello segue pairando no ar.


17 de junho de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.

terça-feira, 16 de junho de 2026

Férias steinbruchianas [por Sérgio S. ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Carnegie pistola é engraçado. E não precisa de muito para ele ficar assim: uma derrota do Palmeiras, uma vitória do Corinthians, falar o óbvio sobre futebol (ele tem posições bem heterodoxas sobre o esporte bretão em terra brasilis, em especial sobre Corinthians e Palmeiras, sendo que este seria o verdadeiro time popular), uma conversa simples com algum desafeto seu do trabalho, algum assunto político quente do momento. 
Minha forma mais habitual de deixá-lo pistola é dizer que ele é fã do Benjamin Steinbruch. Para avivar a memória da desocupada leitora, do desocupado leitor - ou mesmo trazer essa informação a quem não acompanha economia e política com muito afinco -, Steinbruch já defendeu que horário de almoço de trabalhador é um desperdício de tempo, que ele poderia comer um sanduíche com uma mão e seguir operando a máquina com a outra, levando 15 minutos para isso. Uma hora de almoço é praticamente um potlatch que esquerdista defende. Para quem não sabe, Potlatch é uma cerimônia tradicional de povos indígenas da América do Norte, de desperdício e/ou destruição de bens. O objetivo é ganhar prestígio, dividir riquezas e fortalecer alianças na comunidade. 
Enfim, eu falava de Carnegie, nosso arauto do apocalipse, que fica pistola sempre que eu digo que ele é steinbruchiano, porque ao invés de ir ao refeitório, ele prefere almoçar na sua baia, enquanto trabalha (só que não é um sanduíche e não são só quinze minutos, por enquanto). Ele diz que assim faz porque gosta de comer em horários em que o refeitório está muito cheio e, principalmente, porque tem algo urgente para terminar aquele dia, mas não é sempre assim - ainda que isso aconteça todo dia.
Eis que estamos eu, Meirelles, Macedo e Goreti conversando sobre assuntos aleatórios (impressionantemente, não é sobre a copa, nossa bancada é meio rebelde) antes de começar de verdade a trabalhar, quando chega o herói desta crônica. Olhamos para ele surpresos:
Você está de férias! - fala de pronto Meirelles, antes mesmo do bom dia.
Eu sei, mas... - tenta responder Carnegie.
Ótimo que você sabe, então, tchau. - responde correta e secamente Goreti.
É que eu tenho um assunto urgente e importante para resolver.
Se não for recolher suas coisas porque ganhou na loteria, não é importante, nem urgente.
Se ele ganhasse na loteria, nem precisaria vir buscar as coisas dele - me intrometo na discussão, dada a falha lógica no argumento do colega Goreti, que não posso deixar passar.
Tem razão - humildemente ele concorda -, então, vamos lá: se não veio recolher seus apetrechos porque conseguiu um emprego melhor, não é urgente nem importante.
Nada disso. Mas eu tinha que ter terminado um relatório semana passada e não deu tempo.
Isso é problema da chefia e quem ela designou para te substituir, no caso, o Sérgio S.
A lembrança desse pepino pra resolver me faz estremecer.
Prefiro eu mesmo fazer.
Vai ganhar uma estrelinha de bom funcionário.
Minha vontade é pôr panos quentes nessa história: deixa o colega vir trabalhar nas férias, se ele está entediado em casa. Mas me controlo, não posso dar bandeira tão grande assim da minha constante luta pelo ócio.
Carnegie nem responde: já está posicionado defronte ao computador, disposto a terminar o relatório o quanto antes, para começar a desfrutar - finalmente - suas férias. Meu maior receio é que depois do almoço steinbruchiano, suas férias steibruchianas, de quem segue trabalhando normalmente - com as duas mãos! - enquanto descansa, se tornem um exemplo para os superiores. Até lá, cruzo os braços e aproveito a proatividade alheia.

16 de junho de 2026

PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Você aí [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

A guerra da janela entre mim e a doutora Sabujinha continua. Sua estratégia de pôr o gaveteiro defronte a elas foi vetada pela CIPA - exatamente como atrapalharia no caso de um acidente, incêndio, não faço ideia. Impediria as pessoas de pularem? De qualquer modo, comemorei a decisão. A dinâmica tem parecido esquete de humor de segunda categoria: eu chego primeiro, abro as janelas; ela chega depois, fecha a folha dela; saio primeiro para o almoço, quando volto, a janela está toda fechada; abro-a; ela volta e fecha a folha dela, bufando. Todo dia a mesma história. Acho que só não fecha toda a janela depois que eu e Macedo saímos para nosso café da tarde porque ela fica muito pouco em seu lugar, e à tarde é o melhor horário para confraternizar.
Sofrer com a proximidade da doutora Sabujinha à minha baia não é nada original da minha parte. Descobri, ontem, que na verdade sua mudança de local não foi só porque ela quis, mas porque o clima entre ela e Bello começava a azedar - assim como azedou com todo mundo que se sentou próximo a ela. Com base nessa informação, reconheço que sua escolha do novo lugar tem uma lógica: se sentando ao lado de uma estagiária, esta não vai ter como reclamar da sênior: terá que suportar e, no máximo, pedir à chefia para trocar de lugar, depois de inventar alguma justificativa, por não poder dizer a verdade. Não fosse a janela, talvez pudesse trabalhar em paz, mas eis que tem eu e cá estamos em guerra.
Mas o assunto hoje nem era esse. Reunião de equipe, o novo chefe, aquele que doutora Sabujinha sabuja desde antes de assumir a chefia, decide que as demandas de Carnegie, que sai em férias semana que vem, não ficarão, como sói acontecer, entre Macedo e Goleador - que estão, é sabido de quem me acompanha aqui, sobrecarregados. Pois é, dá a impressão de que o chefe atual gosta de ser bajulado mas não cede tão fácil assim. Ademais, parece também que dá poucos ouvidos às fofocas de escritório, ao menos as que tratam da incompetência de certos funcionários. Para completar, tudo indica que acredita em dados objetivos e avaliou o que cada um da equipe realiza corriqueiramente. Conclusão do silogismo a partir das premissas acima expostas: fomos desmascarados em nossa disputa por quem menos trabalha. Resultado: divisão cinquenta-cinquenta entre mim e Pacheco das demandas de Carnegie, sem direito a escolha.
Até aqui, dias de luta, dias de fracasso. É parte do jogo, acontece. O grande momento, contudo, foi quando o chefe foi distribuir as tarefas: dividiu-as em dois blocos e então atribuiu cada um a um funcionário:
Sérgio S. fica com o bloco um e a... a... a... você aí, fica com o segundo bloco.
Sabujinha já se desmanchava diante do lapso do chefe, trazia uma expressão de choro, mas Carnegie, nosso arauto do apocalipse, não podia deixar de pontuar:
A Pacheco?
Isso! Pacheco fica com o bloco dois.
Em silêncio, nós, as vítimas de Pacheco, trocamos alguns olhares cúmplices, regozijando em júbilo respeitoso, ao ver o ego da colega sendo ferido assim involuntariamente. 


12 de junho de 2026

PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Integração [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Se o velho testamento tivesse sido escrito nos tempos atuais, no lugar de praga de gafanhotos, deus teria enviado como praga grupos de whatsapp. Que atire a primeira pedra quem não participa de uma dúzia deles: de trabalho, do condomínio, da família, da família sem o tio e o primo fascistas, dos colegas de faculdade, dos amigos de faculdade, dos ex-integrantes do Trezenhum. Humor Sem Graça. comentando as notícias do dia (sem qualquer humor), de moradores do bairro preocupados com a segurança, e por aí vai.

Uma das decisões das novas chefias, com vistas a melhorar a performance de todas as equipes e do setor como um todo, foi proibir assuntos alheios ao trabalho no grupo de whatsapp. Algum burburinho reclamando dessa decisão autoritária, mas todos acataram - até porque melhor não arriscar o emprego por conta de comunicação virtual sem importância. 

Eis que veio o aniversário de Bella (que não é de Isabela). Sempre sociável, ela marcou um almoço em comemoração, ao qual esteve presente pouco mais de metade do setor. Ela atribuiu o fiasco por não poder usar o grupo de whats para fazer o convite, ainda que tenha havido um mutirão junto com alguns colegas, organizado a partir do grupo de whats do Clube do Café, para que todos (ou praticamente todos) fossem convidados. Sim, ela acredita que eu, por exemplo, faltei por não saber, por falta de convite, e não por vontade autônoma e deliberada de evitar esse tipo de maçada.

Assim sendo, atendendo a pedidos e inspirado nos grupos “Mega da Virada” do setor, a chefia criou um grupo de whatsapp para aniversários - afinal a solução para melhorar a integração das pessoas é sempre criar um grupo novo. Chama-se “Grupo de Níver” e nele colocam os convites para essas comemorações, que se perdem em meio a dezenas de mensagens de feliz aniversário. Eu, não precisaria dizer, faço minha parte e não contribuo com essa poluição virtual.

Parece que as reclamações de falta de interação e integração dos setores se mantiveram, e a chefia decidiu criar um grupo geral. Chama-se “Assuntos gerais” mas poderia ser chamado de “Bom dia, boa tarde, boa noite”. Minto. Boa tarde são poucos - nessas horas estamos trabalhando -, mas os bons dias acontecem até aos finais de semana e algumas pessoas mandam boa noite quase todos os dias; de modo que dá para ter uma boa ideia dos hábitos de sono de alguns colegas. Um deles acorda todo dia às cinco - e paira uma forte suspeita aqui na bancada de que ele faz isso para treinar cedo. Goreti se indigna:

Que espécime de pessoa acorda às cinco da manhã pra treinar e faz jejum intermitente? 

Outro colega precisa regular melhor seu horário de dormir, pois não faz bem se deitar sempre próximo à uma para acordar às sete - isso talvez ajude a explicar o mau humor que geralmente ele irradia. Apesar que nosso emprego nesta fábrica de moer gente chamada capitalismo também deve ajudar nessa explicação. Mas creio que a principal causa para seu mau humor é que ele é um chato, mesmo.

Enfim, como deu para perceber, ninguém se animou em tratar de assuntos gerais no grupo com os chefes. Foi então que Bella resolveu criar um grupo sem os chefes. Chama-se “Integração”. E preciso admitir a perspicácia dos envolvidos nessa proliferação de grupos de whats do trabalho. Da chefia, por ver que isso era um campo minado, de Bella por perceber que os chefes eram um inibidor da integração do pessoal.

O grupo “Integração” desde o início esteve agitado. Alguns bons dias aparecem, convites para aniversários (para quem eventualmente perdeu em meio aos parabéns do grupo “Grupo de Níver”), até mesmo assuntos de trabalho - ninguém ainda resolveu fazer desabafo sobre, mas creio que esse dia está próximo. O foco, contudo, são assuntos aleatórios: onde comprar alguma coisa, indicações de produtos de beleza, recomendações de filmes (sempre com adjetivos como “sensacional” e “inesquecível” para blockbuster descartáveis) e assim ia, até chegar o assunto futebol. A derrota do São Paulo, na última rodada antes da copa, gerou uma discussão homérica, sempre em alto nível, com alguns argumentos batidos como “time grande não cai” e “51 é pinga” e alguns muito originais, como “o Corinthians está mal por causa do Lula, que afundou o time com o estádio pra Copa”, terminando em ofensas de vários calibres. Por falar em copa, Neymar ajudou a azedar um pouco mais o clima no grupo. Resultado: tem colegas que não estão mais se falando pessoalmente, mas seguem tretando no grupo - “Integração”, bom sempre lembrar o nome dele, cuja ironia não parece ter sido proposital.

Eu sigo em silêncio, acompanhando à distância, quando tenho paciência e estômago. E antevejo quando a copa acabar e chegar a hora de discussões eleitorais - Goreti, por exemplo, já avisou que pretende ser mais ativo. Enquanto isso, o grupo de trabalho dorme em berço esplêndido, sem que os chefes desconfiem de nada.


10 de junho de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.

terça-feira, 9 de junho de 2026

A Copa inútil [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Ao contrário do que a desocupada leitora, o desocupado leitor, poderia imaginar a partir do título, o móbile desta crônica não é a disputa entre mim e a Pacheco, vulgo doutora Sabujinha, sobre quem é o mais inútil do setor. É sobre a copa do mundo, mesmo.
Nossa bancada é um pouco dividida quando o assunto é futebol: uma parte mal sabe da existência do esporte, a outra é fanática e trata do assunto com uma seriedade digna dos grandes assuntos da atualidade, como a guerra contra o Irã ou a separação da Virgínia com o Vini Jr.
Foi com surpresa que presenciei Goreti falando da copa, ele sempre tão alheio a esses (e a outros) assuntos. Fala da copa não com ânimo ou interesse, mas com raiva:
É a copa mais inútil de todos os tempos! Primeira fase não tem um mísero joguinho durante o expediente! Me diga, copa assim para quê? 
Eu, claro, concordo não concordando inteiramente com o nobre colega e trago à baila a de 2002, sem jogos durante o expediente e ainda com foguetório atrapalhando o sono.
Ao menos naquela fomos campeões! - Ele retruca.
E isso muda algo? - respondo, ao mesmo tempo que lembro de minhas concepções da época, que foram enterradas com a copa do Japão e da Coreia.
Houve um tempo em que acreditei que o futebol influenciava na percepção de bem estar da população e, consequentemente, influenciava nas eleições presidenciais de outubro. Eu era jovem e a copa de 2002 foi uma prova de que minha sociologia de boteco se sustentava tanto quanto a do Luciano Huck - com a diferença que ele, com seus milhões, tem direito a plateia e repercussão das atrocidades que diz. E se eu me exponho aqui é só para mostrar, uma vez mais, meu compromisso com a verdade, doa a quem doer.
Minha resposta mexeu com os brios de parte dos colegas, indignados com meu desdém pelo penta, que passaram a defender tanto o evento quanto o escrete canarinho - por mais que as esperanças não sejam muito esperançosas.
De qualquer forma, não tenho como não concordar com Goreti: se avançarmos, ainda conseguimos dois ou três jogos para diminuir o expediente - muito pouco para toda a expectativa criada:
Tirando a copa de 2002, esta é a mais inútil desde que estou vivo e consciente da passagem do tempo - e, principalmente, enredado nas teias do capitalismo por intermédio da revenda de meu tempo de vida sob a forma de mão de obra assalariada. Digo isso da perspectiva de quem não se emociona com esse evento, hoje transformado em uma data puramente comercial, tal qual o natal. 
Minha bonita fala não foi compartilhada pelos aficionados da ludopedia bretã, em especial os seguidores do adolescente Ney (conforme os pitagóricos, já explicado em crônica anterior), que poderão ver seu ídolo e modelo de homem esquentando o banco de reservas, fazendo joinha para a câmera, chutando levemente a bola antes do jogo e, quem sabe, até mesmo ver o craque em ação, deitando e rolando pelos gramados da América do Norte. A discussão se instaura para além da bancada. É nessa hora que Goreti decide cutucar o vespeiro com vara curta:
Que o Brasil caia logo da primeira fase! Neymar é o ápice de toda uma geração do que só foi em potência - disse ele aristotelicamente. Neymar, Keirrison, Ganso, Foquinha, Pato: essa geração merece esse vexame para mostrar que futebol se faz no gramado, treinando e jogando sério. 
O fuzuê completo foi armado. Não era dia de jogo, mas o expediente foi praticamente suspenso na discussão que se seguiu.

09 de junho de 2026



PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Neymar, o pitagórico [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Então é Copa do Mundo, ou quase. Não tenho uma escalação ideal para palpitar, mas quero enfiar meu bedelho na polêmica convocação do Neymar. 
Para tal empreitada, tendo sempre em mente a neutralidade científica e uma avaliação desapaixonada (ao melhor estilo weberiano), deixarei de lado minhas opiniões pessoais sobre a referida pessoa. Isso talvez desagrade muitas das minhas desocupadas leitoras, dos meus desocupados leitores, mas me fio pela verdade e pela justiça, independente de quão impopulares e desagradáveis tudo isso pode ser. Ao veredicto. 
Sem concordar com quem apoia Neymar, preciso, contudo, discordar veementemente dos críticos do provável camisa 10 do escrete canarinho. Não tanto pelas avaliações desabonadoras de sua condição atlética, de sua forma física e da qualidade atual de seu futebol, mas pelo que falam - injustamente - da pessoa Neymar.
Muitos o acusam de imaturo, de estar em idade - 34 anos - que não permitiria mais ser chamado de Menino Ney, muito menos de agir como um adolescente playboy mimado, sem comprometimento com coisa alguma que não seus desejos de reizinho.
O que tem passado despercebido dessas pessoas é que Neymar, na verdade, tem um pé no pitagorismo. A partir do momento em que se entende isso, que se conhece alguns princípios pitagóricos, tudo faz sentido, e esse ídolo da machulência, de mau caráter mercenário pode passar a ser visto como adepto da filosofia criada por Pitágoras de Samos, ainda no século VI antes da era comum.
Quem me deu a letra foi o Brotinho, que está lendo Foucault. No curso da Hermenêutica do Sujeito, na aula de 20 de janeiro de 1982 (exatos dez anos e quinze dias antes do nascimento do craque, o que não deve ser por acaso), página 85, diz o filósofo “que para os pitagóricos a vida humana era dividida em quatro períodos, cada qual de vinte anos: durante os vinte primeiros anos, na tradição pitagórica, era-se criança; de vinte a quarenta, adolescente; de quarenta a sessenta, jovem; e, a partir dos sessenta, idoso”. Ou seja, o termo “Menino Ney” peca por certa imprecisão: Neymar oficialmente é um adolescente. Mas, convenhamos, quantos de nós não chamamos adolescentes de crianças - principalmente quando estão em bando barulhento, no metrô, na fila do mercado ou no cinema? Daí que me parece aceitável essa licença poética, de apenas um período para outro - diferentemente se ele já fosse jovem e seguisse sendo chamado de menino, seria até mesmo desrespeitoso para com ele.
Sobre a outra parte da polêmica de sua convocação, de ele a ter comemorado fazendo propaganda de bet, novamente o pitagorismo explica. Conforme resumo da IA: “sua doutrina central defendia que ‘tudo é número’, unindo o rigor da matemática e a busca pela harmonia cósmica à crença na imortalidade e transmigração (reencarnação) da alma”. Está aí, Neymarketing está apenas buscando a harmonia cósmica através do acréscimo de números à sua numerosa conta bancária, que lhe permitiria a imortalidade.
A mesma coisa vale para sua lesão: ele continua com duas panturrilhas, ou seja, numericamente segue perfeito e pode, portanto, participar da copa. Qualquer outra avaliação sobre sua convocação é uma perseguição injusta contra o Menino Ney, que tantas alegrias trouxe ao povo brasileiro com toda sua irreverência aprendida no pôquer com os parças.
Tudo isso porque fui almoçar com meu irmão e meu sobrinho este final de semana. Parece que o garoto anda ficando rebelde, apesar de ainda ser criança - e não somente segundo os pitagóricos. Tem insistido por um álbum de figurinha da copa; pelos comentários que tem feito, parece já ter assistido a jogos de futebol na tevê (no estádio com certeza não foi, por enquanto, é uma questão de tempo até o tio aqui levá-lo), o que contraria as diretrizes da Escola Voldemort, e, pior, tem usado um vocabulário que deixa seus pais em choque. 
No almoço, eu comentava, com todo o cuidado lexical, de minhas desavenças com a doutora Sabujinha. Ele comia como se não prestasse atenção, até uma hora soltar:
Essa sua colega é uma verdadeira fã de Neymar!
Sem muito entender o porquê Neymar entrou nessa conversa, tentei defender minha colega - eu e meu senso de justiça:
Não sei das preferências futebolísticas dela, mas acredito que não seja fã, não.
Não, tio, você não entendeu. Pouco importa que ela goste mesmo dele, mas ela é uma fã de Neymar com certeza: mimada, idiota e que não aceita críticas, igual o ídolo. Ela faz caretas bocós também?
Só então entendi que se tratava de um xingamento juvenil, ou melhor, infantil. E o pior: sim, doutora Sabujinha gosta de fazer caretas bocós quando conta certas histórias. Enquanto seus pais o repreendiam por usar as palavras “idiota” e “bocós”, eu pensava que ele leva jeito para análises, talvez dê um bom psicólogo ou sociólogo no futuro: doutora Sabujinha é uma verdadeira fã de Neymar!

01 de junho de 2026

PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.