A disputa pela janela continua. Ela a quer fechada, pois o vento desarruma seu cabelo. Como estratégia, colocou seu gaveteiro defronte a ela (é uma janela de duas folhas). Chegamos a um meio termo: o gaveteiro fica só na folha próxima a ela, a outra, eu deixo aberta. E aí começa a briga do vento, porque ela diz que a minha parte joga o vento para ela, com consequente desarrumar de seu penteado tão bem preparado durante a manhã - mas ela não abre a folha dela. Hoje achou nova estratégia para tentar deixar a janela fechada: reclamar do sol. Baixou a persiana, sob a alegação que o astro-rei batia nela e atrapalhava a visão do monitor. Sua antecessora passou um ano ali e nunca viu problema, mas o alecrim dourado... enfim.
Enquanto isso, do outro lado da bancada, Mello, sem a companhia da Sabujinha (eles são próximos), passou a implicar com a mania de longa data da Goleador, de trocar os nomes dos colegas por querer - eu mesmo sou Ciro para ela. Não estou a fim de me indispor com ninguém por cousa pouca, mas se Mello tanto se irrita, poderia chamá-la de Silviano, do romance O Amanuense Belmiro; mas não sei se tem esse repertório todo - isso vale tanto para Mello, de conhecer o romance, quanto para Goleador, de ser uma intelectual com inclinações filosóficas e literárias (até onde sei, o único mala com essas aspirações aqui no setor sou eu, e o faço sorrateiramente).
Voltando às minhas questões com a doutora Sabujinha-Mimada, ela notou que estava passeando demais e resolveu ficar um pouco mais na sua baia. Resultado: os colegas começaram a vir até ela para longos colóquios sobre assuntos assaz desinteressantes - conversas de elevador com pompas de erudição (afinal, estão diante de uma doutora!). Além da maçada do evento, isso prejudica todo meu trabalho de fingir que trabalho: o risco de bisbilhotarem, ainda que de modo menos invasivo que de Pacheco, é alto, e isso pode comprometer toda minha estratégia, já levantada aqui em outros textos.
Em resumo: com o passaralho dos cabeças e a reformulação pela qual passamos, aquela tensão por receio de demissão diminuiu, mas o clima geral no setor não está lá muito bom. Entre o bafo da sala e os cabelos esvoaçantes da doutora Sabujinha, vejo minha produtividade de procrastinador profissional prejudicada pela erudição de almanaque que farfalha às minhas costas.
São Paulo, 29 de maio de 2026
PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.

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