rEflexões aleatórias sobre questões aleatórias. nÃo são exatamente opiniões, são antes tentativas de entender o mundo que me habita.
domingo, 4 de outubro de 2026
Stories de uma eleição
sexta-feira, 15 de maio de 2026
A capa da Veja e a avenida para a antipolítica
Quando a mídia corporativa conseguiu assumir a narrativa do caso Master e passou a forçar um vínculo com o STF e com o governo Lula, Luis Nassif de pronto apontou que a Lava Jato 2 havia começado.
O objetivo era emparedar o STF, instituição que havia sido de fundamental importância para a preservação da nossa democracia de baixa intensidade, e abrir uma guerra midiática contra Lula e o PT, no mesmo estilo feito pela Lava Jato 1 (e, antes, o dito Mensalão). A grande diferença, ao meu ver, era a falta de um personagem outsider - como um juiz-justiceiro - que encampasse a guerra do bem contra o mal, em especial, contra a corrupção - ainda que, é certo, tal personagem não tivesse conseguido se cacifar a tempo para as eleições de 2018.
O áudio em que Flávio Bolsonaro aparece cobrando R$ 134 milhões de seu parça Daniel Vorcaro complicou a estratégia dessas elites. Se o Filho 01 é carta fora do baralho, ainda não é possível dizer: apesar de termos outros candidatos do espectro, ele vinha absoluto na raia da direita e extrema-direita, e chegava mesmo a aparecer numericamente à frente de Lula no segundo turno, ainda que dentro da margem de erro.
Creio que dificilmente se recupera, porém seu piso de votos, algo entre 20% e 30% do eleitorado, dificulta o processo de defenestração: pode-se insistir na sua candidatura, acreditando na memória curta de parte da população, alheia às questões políticas, associado à guerra midiática contra o PT, que seguirá intensa até outubro. O nome mais forte que parece despontar para substituí-lo é o da ex-primeira-dama, Michele Bolsonaro - mas aí temos as disputas internas da família.
Independentemente de quem será o candidato, a Lava Jato 2 continua. A prova disso é a capa desta semana da revista Veja - desnecessário adjetivá-la.Pesquisa Quaest sobre a percepção do escândalo do Master junto à população, divulgada dia 13 de maio, mostra que 46% das pessoas acreditam no envolvimento de toda a classe política - 11% atribui a culpa do escândalo ao PT e 9% a Bolsonaro. A capa de Veja, ao pôr as imagens de Lula, Flávio Bolsonaro e o ex-presidente Temer junto de Daniel Vorcaro reforça essa percepção, de que seriam todos “farinha do mesmo saco”.
Ao reiterar o descrédito da política como um todo, a Lava Jato 2 abre uma avenida para um aventureiro, alguém que se diga antipolítico, de fora do sistema, prometendo moralizá-lo. Com anos de satanização de tudo o que é público, essa moralização acaba por passar necessariamente pelo discurso de diminuição do estado - ou seja, por um projeto liberal. Eis que, dentre os nomes que são levantados nas pesquisas de opinião pode surgir um azarão, o dark horse da vez: Renan Santos. Com a capilaridade e o conhecimento do MBL de como atuar nas redes sociais e na internet, ele pode despontar como esse candidato anti-sistema, anti-Lula e anti-Bolsonaro ao mesmo tempo. Por ora segue embolado com Caiado e Zema, mas se conseguir se fazer mais conhecido no curto prazo, pode atrair a simpatia das elites e da mídia corporativa que a vocaliza, e ter um salto de exposição, alcançando o grande público.
Ainda é cedo para apostar nele como viável - vale lembrar que a criação de Bolsonaro para 2018 foi um processo longo -, porém há um caminho aberto e ele certamente está tentando se viabilizar por essa via. De qualquer modo, o desserviço feito à nossa frágil democracia pela atuação da mídia corporativa - tão bem representada pela capa de Veja - está feito. Mas pode piorar.
15 de maio de 2026
segunda-feira, 13 de abril de 2026
O fetiche do abismo
Lembro do meu tempo de faculdade de filosofia e ciências sociais, na Unicamp, havia um perfil de estudante-militante adepto do “quanto pior, melhor”. Do Procon ao Bolsa Família, passando pela expansão do ensino superior e as cotas, tudo que não fosse a revolução (com sua pureza de princípios e baseada na “leitura correta” de Marx) ou a pavimentação para ela (baseado em miséria e ódio, deduzia eu), era arrivismo, defesa do capital, e reforço do status quo.
Saí da Unicamp há quinze anos, mas volta e meia revejo esse tipo de postura em alguns analistas políticos de esquerda. Um pouco mais refinados, é claro, mas a mesma lógica de ser incapaz de analisar a realidade em sua complexidade. Pior, não são meus ex-colegas da Unicamp, mas professores ligados a partidos de esquerda, de várias universidades públicas, que já o eram na época, só não tinham as redes sociais para divulgar em tempo real seu pensamento (não cito nomes porque meu objetivo não é fulanizar a questão).
Duas semanas atrás, um deles se desesperava com o crescimento de Flávio Bolsonaro e praticamente vaticinava: a eleição estava definida se não houvesse uma reação urgente urgentíssima de Lula. Ignorava os múltiplos fatores que explicam o crescimento de Flávio Bolsonaro neste momento e, principalmente, que o PT escolhia o adversário, esperando o fim do período de desincompatibilização para começar a pré-campanha - e melhor um Bolsonaro que Tarcísio.
A nova análise que tenho lido é que Lula ou ganha no primeiro turno ou perde a eleição, porque não teria ninguém para transferir os votos para ele. Sem dúvida, o segundo turno, se houver, será duríssimo - como foi em 2022. Essa leitura é, contudo, para além do catastrofismo de certa esquerda, simplista: como se votos em candidatos de direita fossem necessariamente para Flávio Bolsonaro. Convém lembrar que assim como há o anti-petismo, há também o anti-bolsonarismo, e que uma parte de eleitores dos candidatos menores da extrema-direita pode simplesmente se abster de votar num eventual segundo turno. Há também eleitores não ideológicos e que podem alterar seu voto - como aconteceu em 2006, em que Alckmin teve menos votos no segundo que no primeiro turno. Afora a questão de que será uma eleição concorrida, difícil e que não está ganha, mais sensato me parecem analistas chamando a atenção para Renan Santos, com chances de se “marçalizar” em 2026 e ganhar musculatura para 2030.
Felizmente esses analistas, apesar de seus currículos acadêmicos vistosos e sua boa escrita, têm pouca penetração na imprensa, mesmo a alternativa - que prefere análises críticas, mas calcada na realidade e que apontem possibilidades. Mas não me surpreenderia se um desses professores do catastrofismo de esquerda acabe sendo convidado para colaborar com a grande mídia, desesperada por apear Lula e o PT do executivo federal.
Sejamos críticos, mas façamos leituras complexas da realidade e saibamos achar brechas por onde construir alternativas. E aos arautos do apocalipse, que vêem o futuro já determinado, um pedido: parem de escrever e comecem a arrumar suas malas - a vida já está dura demais para levar pedrada gratuita do próprio campo.


