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domingo, 4 de outubro de 2026

Stories de uma eleição

Um amigo de priscas eras, que há mais de uma década não tenho o prazer de encontrar, mas que trocamos longas mensagens duas ou três vezes ao ano, comemora parte do resultado da eleição. Olho de novo, não quero acreditar, mas os próximos stories reiteram o primeiro. Não lembro de falarmos mais diretamente sobre política partidária - ainda que eu exponha sempre meu ponto de vista em meus textos e postagens em redes sociais, ele nunca se manifestou.

O Brasil não tem 50% de fascistas - me vem o corte do filósofo Marcos Nobre que circula nas redes. Eu, ao menos desde 2019, já sabia disso, fruto de conversas francas com pessoas “apolíticas” que votaram no Bolsonaro em 2018 - e da minha insistente crença de que as pessoas seriam boas (não todas, mas a maioria), apenas ignorantes. 
É o que quero imaginar do meu amigo: apenas um ignorante, apesar de toda oportunidade que teve. Não tem formação na área de humanidades e é manipulado por uma verdadeira indústria militar, que são os meios de comunicação e seu braço autônomo, as redes sociais. Ele não deve ser fascista, certamente não se vê fascista, não percebe que foi capturado por um discurso que atenta contra o que ele próprio diz defender, e deve se ofender se for (quando é) chamado assim.
Partindo desse ponto, vejo que parte de nossa falha se deu ainda em 2018, quando taxamos os eleitores de Bolsonaro de fascistas, sem maiores explicações. Não que seus 20 a 30% de seguidores fanáticos não sejam. Mas e o restante? Aprendemos no cinema (e também na escola), que o nazifascismo era cruel, desumano, feito de pessoas horríveis, que queriam o mal e por isso seguiam as ordens de um sanguinário. Meu amigo é uma boa pessoa, um bom pai, bom marido, não quer o mal de - quase - ninguém. E, nisso, até eu. Ele não pode ser fascista - ele dificilmente vai se enxergar como um. Diferentemente de um então amigo de escola, que em 2018 legitimava a violência extrema e a desumanização do adversário, tido como inimigo, ao comemorar o atentado a tiros contra o presidente Lula. 
Ademais, esse meu amigo não segue a ordem de ninguém: seu voto foi fruto de uma decisão racional a partir das informações que ele recebeu diariamente, por anos, da rede Globo, posteriormente das redes sociais.
Ele quer um país melhor, quer pelos filhos dele. Ele não sabe o que isso significa de concreto - incapaz de imaginar sozinho futuros que não sejam de consumo -, mas tem boas intenções. Ele quer mais segurança - ele não sabe o que é atribuição de quem. É pelo Brasil - ele não entende de relações internacionais, deve achar que a ocupação estadunidense viria com um porta-aviões na costa do Rio de Janeiro, não com uma delegação de Marco Rubio no governo de transição (por sinal, nunca deve nem ter ouvido falar, nem do Rubio nem de governo de transição). Ele é contra a corrupção - e vota em corruptos que se dizem perseguidos por estarem indo contra o “sistema” dentro do qual estão plenamente inseridos desde o berço.
Desde que a extrema-direita passou a ganhar força, em 2016, soubemos identificá-la, mas não soubemos nomeá-la de um modo taticamente adequado. Não sou dos acadêmicos puristas que querem restringir o fascismo a um momento do século XX: o que vivemos hoje é fascismo, devidamente repaginado para o século XXI, mas essencialmente o mesmo de Hitler, de Mussolini, dos camisas verdes, e antes deles, dos protofascismos de Leopoldo II, do genocídio indígena, da diáspora negra - é a essência do capitalismo se manifestando. Mas quantos são capazes de identificá-lo em seus meandros quotidianos, das pequenas violências naturalizadas que abrem espaço para grandes arroubos de ressentimento e violência aberta? 
Meu amigo se vê uma boa pessoa. Nas últimas mensagens, ele falava da sua preocupação com as contas, a troca de emprego, os receios com os filhos, as dificuldades no casamento. Não passa pela sua cabeça que ele seja um fascista, que dê suporte a fascistas; logo, ele pode ignorar tudo o mais que vem do nosso campo - até porque há anos abandonamos o trabalho de base e paramos de verdadeiramente escutar o outro (isso enquanto a extrema-direita nos ouve com perfeição através de seus algoritmos, pois são eles os controladores dos meios de produção do imaginário atual). E sigo ingenuamente acreditando que, em casos como o dele, é uma questão de ignorância, e que através do diálogo é possível tirá-lo da órbita da extrema-direita.

04 de outubro de 2026

sexta-feira, 15 de maio de 2026

A capa da Veja e a avenida para a antipolítica

Quando a mídia corporativa conseguiu assumir a narrativa do caso Master e passou a forçar um vínculo com o STF e com o governo Lula, Luis Nassif de pronto apontou que a Lava Jato 2 havia começado. 

O objetivo era emparedar o STF, instituição que havia sido de fundamental importância para a preservação da nossa democracia de baixa intensidade, e abrir uma guerra midiática contra Lula e o PT, no mesmo estilo feito pela Lava Jato 1 (e, antes, o dito Mensalão). A grande diferença, ao meu ver, era a falta de um personagem outsider - como um juiz-justiceiro - que encampasse a guerra do bem contra o mal, em especial, contra a corrupção - ainda que, é certo, tal personagem não tivesse conseguido se cacifar a tempo para as eleições de 2018.

Na ausência dessa figura, apelou-se a quem estava à mão, desde que fosse alguém disposto a implementar o ultraliberalismo nestes Tristes Trópicos. Havia ainda um “recall” do sobrenome Bolsonaro na luta contra o “sistema” e a vinculação do Partido dos Trabalhadores a esse sistema carcomido, de modo que Flávio Bolsonaro, tornado Flávio-sem-sobrenome (quase um Ulisses na ilha dos Ciclopes), encarnava os “ideais” desse grupo, herdava os votos do dito bolsonarismo raiz e, se não conseguiria se apresentar como um outsider, ao menos se apresentava como um anti-petista para pessoas “cansadas de tanta roubalheira”. O Supremo, acuado, e o TSE, comandado por um indicado de Bolsonaro, não prometiam muita resistência a possíveis excessos durante a campanha.


O áudio em que Flávio Bolsonaro aparece cobrando R$ 134 milhões de seu parça Daniel Vorcaro complicou a estratégia dessas elites. Se o Filho 01 é carta fora do baralho, ainda não é possível dizer: apesar de termos outros candidatos do espectro, ele vinha absoluto na raia da direita e extrema-direita, e chegava mesmo a aparecer numericamente à frente de Lula no segundo turno, ainda que dentro da margem de erro. 

Creio que dificilmente se recupera, porém seu piso de votos, algo entre 20% e 30% do eleitorado, dificulta o processo de defenestração: pode-se insistir na sua candidatura, acreditando na memória curta de parte da população, alheia às questões políticas, associado à guerra midiática contra o PT, que seguirá intensa até outubro. O nome mais forte que parece despontar para substituí-lo é o da ex-primeira-dama, Michele Bolsonaro - mas aí temos as disputas internas da família.

Independentemente de quem será o candidato, a Lava Jato 2 continua. A prova disso é a capa desta semana da revista Veja - desnecessário adjetivá-la.

Pesquisa Quaest sobre a percepção do escândalo do Master junto à população, divulgada dia 13 de maio, mostra que 46% das pessoas acreditam no envolvimento de toda a classe política - 11% atribui a culpa do escândalo ao PT e 9% a Bolsonaro. A capa de Veja, ao pôr as imagens de Lula, Flávio Bolsonaro e o ex-presidente Temer junto de Daniel Vorcaro reforça essa percepção, de que seriam todos “farinha do mesmo saco”. 

Ao reiterar o descrédito da política como um todo, a Lava Jato 2 abre uma avenida para um aventureiro, alguém que se diga antipolítico, de fora do sistema, prometendo moralizá-lo. Com anos de satanização de tudo o que é público, essa moralização acaba por passar necessariamente pelo discurso de diminuição do estado - ou seja, por um projeto liberal. Eis que, dentre os nomes que são levantados nas pesquisas de opinião pode surgir um azarão, o dark horse da vez: Renan Santos. Com a capilaridade e o conhecimento do MBL de como atuar nas redes sociais e na internet, ele pode despontar como esse candidato anti-sistema, anti-Lula e anti-Bolsonaro ao mesmo tempo. Por ora segue embolado com Caiado e Zema, mas se conseguir se fazer mais conhecido no curto prazo, pode atrair a simpatia das elites e da mídia corporativa que a vocaliza, e ter um salto de exposição, alcançando o grande público.

Ainda é cedo para apostar nele como viável - vale lembrar que a criação de Bolsonaro para 2018 foi um processo longo -, porém há um caminho aberto e ele certamente está tentando se viabilizar por essa via. De qualquer modo, o desserviço feito à nossa frágil democracia pela atuação da mídia corporativa - tão bem representada pela capa de Veja - está feito. Mas pode piorar.


 15 de maio de 2026

segunda-feira, 13 de abril de 2026

O fetiche do abismo

Lembro do meu tempo de faculdade de filosofia e ciências sociais, na Unicamp, havia um perfil de estudante-militante adepto do “quanto pior, melhor”. Do Procon ao Bolsa Família, passando pela expansão do ensino superior e as cotas, tudo que não fosse a revolução (com sua pureza de princípios e baseada na “leitura correta” de Marx) ou a pavimentação para ela (baseado em miséria e ódio, deduzia eu), era arrivismo, defesa do capital, e reforço do status quo. 

Saí da Unicamp há quinze anos, mas volta e meia revejo esse tipo de postura em alguns analistas políticos de esquerda. Um pouco mais refinados, é claro, mas a mesma lógica de ser incapaz de analisar a realidade em sua complexidade. Pior, não são meus ex-colegas da Unicamp, mas professores ligados a partidos de esquerda, de várias universidades públicas, que já o eram na época, só não tinham as redes sociais para divulgar em tempo real seu pensamento (não cito nomes porque meu objetivo não é fulanizar a questão).

Duas semanas atrás, um deles se desesperava com o crescimento de Flávio Bolsonaro e praticamente vaticinava: a eleição estava definida se não houvesse uma reação urgente urgentíssima de Lula. Ignorava os múltiplos fatores que explicam o crescimento de Flávio Bolsonaro neste momento e, principalmente, que o PT escolhia o adversário, esperando o fim do período de desincompatibilização para começar a pré-campanha - e melhor um Bolsonaro que Tarcísio.

A nova análise que tenho lido é que Lula ou ganha no primeiro turno ou perde a eleição, porque não teria ninguém para transferir os votos para ele. Sem dúvida, o segundo turno, se houver, será duríssimo - como foi em 2022. Essa leitura é, contudo, para além do catastrofismo de certa esquerda, simplista: como se votos em candidatos de direita fossem necessariamente para Flávio Bolsonaro. Convém lembrar que assim como há o anti-petismo, há também o anti-bolsonarismo, e que uma parte de eleitores dos candidatos menores da extrema-direita pode simplesmente se abster de votar num eventual segundo turno. Há também eleitores não ideológicos e que podem alterar seu voto - como aconteceu em 2006, em que Alckmin teve menos votos no segundo que no primeiro turno. Afora a questão de que será uma eleição concorrida, difícil e que não está ganha, mais sensato me parecem analistas chamando a atenção para Renan Santos, com chances de se “marçalizar” em 2026 e ganhar musculatura para 2030. 

Ilustração sobre o contraste entre catastrofismo acadêmico e análise política de base
Pode-se argumentar que esse catastrofismo serviria para abrir os olhos dos militantes e mobilizar as bases. É a lógica do quanto pior, melhor dos meus ex-colegas do tempo de faculdade: somente na miséria extrema o povo se levantaria para reivindicar seus direitos, que já chegaria na forma de revolução social. Primeira falha, de observação: não se vê população oprimida por carestias materiais elementares se levantar por um ideal abstrato. Segunda falha, de psicologia: diante do tudo está perdido, alguém vai se mexer para quê? Dar murro em ponta de faca só costuma ser um esporte para quem tem para onde correr depois que cansar. Terceira falha, de trabalho de base: ao jogar a pretensa cegueira da situação e a responsabilidade inteiramente no colo do presidente, esses analistas reforçam a ideia de política feita por cima e não a partir das bases, exatamente o contrário do que a esquerda mais radical (no sentido de raiz, não de sectária) defende. Por sinal, esse é o mesmo argumento utilizado para justificar a alegada desmobilização popular dos governos Lula 1 e 2: o governo não teria mobilizado a população, sendo que não é papel de governo de turno fomentar a oposição a si próprio - e há exemplos de movimentos sociais fortes que surgiram desse período, como o MTST, para ficar no mais evidente.

Felizmente esses analistas, apesar de seus currículos acadêmicos vistosos e sua boa escrita, têm pouca penetração na imprensa, mesmo a alternativa - que prefere análises críticas, mas calcada na realidade e que apontem possibilidades. Mas não me surpreenderia se um desses professores do catastrofismo de esquerda acabe sendo convidado para colaborar com a grande mídia, desesperada por apear Lula e o PT do executivo federal.

Sejamos críticos, mas façamos leituras complexas da realidade e saibamos achar brechas por onde construir alternativas. E aos arautos do apocalipse, que vêem o futuro já determinado, um pedido: parem de escrever e comecem a arrumar suas malas - a vida já está dura demais para levar pedrada gratuita do próprio campo.


13 de abril de 2026