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sexta-feira, 15 de maio de 2026

A capa da Veja e a avenida para a antipolítica

Quando a mídia corporativa conseguiu assumir a narrativa do caso Master e passou a forçar um vínculo com o STF e com o governo Lula, Luis Nassif de pronto apontou que a Lava Jato 2 havia começado. 

O objetivo era emparedar o STF, instituição que havia sido de fundamental importância para a preservação da nossa democracia de baixa intensidade, e abrir uma guerra midiática contra Lula e o PT, no mesmo estilo feito pela Lava Jato 1 (e, antes, o dito Mensalão). A grande diferença, ao meu ver, era a falta de um personagem outsider - como um juiz-justiceiro - que encampasse a guerra do bem contra o mal, em especial, contra a corrupção - ainda que, é certo, tal personagem não tivesse conseguido se cacifar a tempo para as eleições de 2018.

Na ausência dessa figura, apelou-se a quem estava à mão, desde que fosse alguém disposto a implementar o ultraliberalismo nestes Tristes Trópicos. Havia ainda um “recall” do sobrenome Bolsonaro na luta contra o “sistema” e a vinculação do Partido dos Trabalhadores a esse sistema carcomido, de modo que Flávio Bolsonaro, tornado Flávio-sem-sobrenome (quase um Ulisses na ilha dos Ciclopes), encarnava os “ideais” desse grupo, herdava os votos do dito bolsonarismo raiz e, se não conseguiria se apresentar como um outsider, ao menos se apresentava como um anti-petista para pessoas “cansadas de tanta roubalheira”. O Supremo, acuado, e o TSE, comandado por um indicado de Bolsonaro, não prometiam muita resistência a possíveis excessos durante a campanha.


O áudio em que Flávio Bolsonaro aparece cobrando R$ 134 milhões de seu parça Daniel Vorcaro complicou a estratégia dessas elites. Se o Filho 01 é carta fora do baralho, ainda não é possível dizer: apesar de termos outros candidatos do espectro, ele vinha absoluto na raia da direita e extrema-direita, e chegava mesmo a aparecer numericamente à frente de Lula no segundo turno, ainda que dentro da margem de erro. 

Creio que dificilmente se recupera, porém seu piso de votos, algo entre 20% e 30% do eleitorado, dificulta o processo de defenestração: pode-se insistir na sua candidatura, acreditando na memória curta de parte da população, alheia às questões políticas, associado à guerra midiática contra o PT, que seguirá intensa até outubro. O nome mais forte que parece despontar para substituí-lo é o da ex-primeira-dama, Michele Bolsonaro - mas aí temos as disputas internas da família.

Independentemente de quem será o candidato, a Lava Jato 2 continua. A prova disso é a capa desta semana da revista Veja - desnecessário adjetivá-la.

Pesquisa Quaest sobre a percepção do escândalo do Master junto à população, divulgada dia 13 de maio, mostra que 46% das pessoas acreditam no envolvimento de toda a classe política - 11% atribui a culpa do escândalo ao PT e 9% a Bolsonaro. A capa de Veja, ao pôr as imagens de Lula, Flávio Bolsonaro e o ex-presidente Temer junto de Daniel Vorcaro reforça essa percepção, de que seriam todos “farinha do mesmo saco”. 

Ao reiterar o descrédito da política como um todo, a Lava Jato 2 abre uma avenida para um aventureiro, alguém que se diga antipolítico, de fora do sistema, prometendo moralizá-lo. Com anos de satanização de tudo o que é público, essa moralização acaba por passar necessariamente pelo discurso de diminuição do estado - ou seja, por um projeto liberal. Eis que, dentre os nomes que são levantados nas pesquisas de opinião pode surgir um azarão, o dark horse da vez: Renan Santos. Com a capilaridade e o conhecimento do MBL de como atuar nas redes sociais e na internet, ele pode despontar como esse candidato anti-sistema, anti-Lula e anti-Bolsonaro ao mesmo tempo. Por ora segue embolado com Caiado e Zema, mas se conseguir se fazer mais conhecido no curto prazo, pode atrair a simpatia das elites e da mídia corporativa que a vocaliza, e ter um salto de exposição, alcançando o grande público.

Ainda é cedo para apostar nele como viável - vale lembrar que a criação de Bolsonaro para 2018 foi um processo longo -, porém há um caminho aberto e ele certamente está tentando se viabilizar por essa via. De qualquer modo, o desserviço feito à nossa frágil democracia pela atuação da mídia corporativa - tão bem representada pela capa de Veja - está feito. Mas pode piorar.


 15 de maio de 2026

segunda-feira, 13 de abril de 2026

O fetiche do abismo

Lembro do meu tempo de faculdade de filosofia e ciências sociais, na Unicamp, havia um perfil de estudante-militante adepto do “quanto pior, melhor”. Do Procon ao Bolsa Família, passando pela expansão do ensino superior e as cotas, tudo que não fosse a revolução (com sua pureza de princípios e baseada na “leitura correta” de Marx) ou a pavimentação para ela (baseado em miséria e ódio, deduzia eu), era arrivismo, defesa do capital, e reforço do status quo. 

Saí da Unicamp há quinze anos, mas volta e meia revejo esse tipo de postura em alguns analistas políticos de esquerda. Um pouco mais refinados, é claro, mas a mesma lógica de ser incapaz de analisar a realidade em sua complexidade. Pior, não são meus ex-colegas da Unicamp, mas professores ligados a partidos de esquerda, de várias universidades públicas, que já o eram na época, só não tinham as redes sociais para divulgar em tempo real seu pensamento (não cito nomes porque meu objetivo não é fulanizar a questão).

Duas semanas atrás, um deles se desesperava com o crescimento de Flávio Bolsonaro e praticamente vaticinava: a eleição estava definida se não houvesse uma reação urgente urgentíssima de Lula. Ignorava os múltiplos fatores que explicam o crescimento de Flávio Bolsonaro neste momento e, principalmente, que o PT escolhia o adversário, esperando o fim do período de desincompatibilização para começar a pré-campanha - e melhor um Bolsonaro que Tarcísio.

A nova análise que tenho lido é que Lula ou ganha no primeiro turno ou perde a eleição, porque não teria ninguém para transferir os votos para ele. Sem dúvida, o segundo turno, se houver, será duríssimo - como foi em 2022. Essa leitura é, contudo, para além do catastrofismo de certa esquerda, simplista: como se votos em candidatos de direita fossem necessariamente para Flávio Bolsonaro. Convém lembrar que assim como há o anti-petismo, há também o anti-bolsonarismo, e que uma parte de eleitores dos candidatos menores da extrema-direita pode simplesmente se abster de votar num eventual segundo turno. Há também eleitores não ideológicos e que podem alterar seu voto - como aconteceu em 2006, em que Alckmin teve menos votos no segundo que no primeiro turno. Afora a questão de que será uma eleição concorrida, difícil e que não está ganha, mais sensato me parecem analistas chamando a atenção para Renan Santos, com chances de se “marçalizar” em 2026 e ganhar musculatura para 2030. 

Ilustração sobre o contraste entre catastrofismo acadêmico e análise política de base
Pode-se argumentar que esse catastrofismo serviria para abrir os olhos dos militantes e mobilizar as bases. É a lógica do quanto pior, melhor dos meus ex-colegas do tempo de faculdade: somente na miséria extrema o povo se levantaria para reivindicar seus direitos, que já chegaria na forma de revolução social. Primeira falha, de observação: não se vê população oprimida por carestias materiais elementares se levantar por um ideal abstrato. Segunda falha, de psicologia: diante do tudo está perdido, alguém vai se mexer para quê? Dar murro em ponta de faca só costuma ser um esporte para quem tem para onde correr depois que cansar. Terceira falha, de trabalho de base: ao jogar a pretensa cegueira da situação e a responsabilidade inteiramente no colo do presidente, esses analistas reforçam a ideia de política feita por cima e não a partir das bases, exatamente o contrário do que a esquerda mais radical (no sentido de raiz, não de sectária) defende. Por sinal, esse é o mesmo argumento utilizado para justificar a alegada desmobilização popular dos governos Lula 1 e 2: o governo não teria mobilizado a população, sendo que não é papel de governo de turno fomentar a oposição a si próprio - e há exemplos de movimentos sociais fortes que surgiram desse período, como o MTST, para ficar no mais evidente.

Felizmente esses analistas, apesar de seus currículos acadêmicos vistosos e sua boa escrita, têm pouca penetração na imprensa, mesmo a alternativa - que prefere análises críticas, mas calcada na realidade e que apontem possibilidades. Mas não me surpreenderia se um desses professores do catastrofismo de esquerda acabe sendo convidado para colaborar com a grande mídia, desesperada por apear Lula e o PT do executivo federal.

Sejamos críticos, mas façamos leituras complexas da realidade e saibamos achar brechas por onde construir alternativas. E aos arautos do apocalipse, que vêem o futuro já determinado, um pedido: parem de escrever e comecem a arrumar suas malas - a vida já está dura demais para levar pedrada gratuita do próprio campo.


13 de abril de 2026