[livre
interpretação de “Corpo sobre tela”, de Marcos Abranches]
No
canto direito, ao fundo, um homem de camisa social e gravata. Está
sentado, pega a garrafa de vinho que está sobre a mesa. O braço
treme, entorna a garrafa antes da boca, o líquido cai sobre seu
rosto, mancha sua roupa, se espalha pelo chão – pouco sobra para
beber. Parece uma cena um tanto batida, porém há algo a mais ali.
Não, não é aquele banho de vinho de celebração. Soa antes nossa
incapacidade de relaxar, se divertir, celebrar verdadeiramente. O
cenário é feito de sete painéis meio a la Pollock – a maioria
deles com muito espaço em branco, como se se tratassem de obras
inacabadas –, e luminárias também coloridas (a iluminação é de
lâmpadas fluorescentes). Ele se levanta, os passos descompassados,
os braços rebeldes, contorcidos, como se ele não tivesse controle
do próprio corpo. Começa a tirar a roupa. A prisão de nossas
máscaras sociais, penso. Fica apenas de ceroulas. O corpo segue seu
movimento descompassado, teso e maleável. Lembro da companhia
Taanteatro e sua “mandala de energia corporal”. Lembro de meu
falecido avô, que teve um avc e por nove anos não se comunicou e
não movimentava um dos lados do corpo. Lembro de Pessoa, “O dominó
que vesti era errado./ Conheceram-me logo por quem não era e não
desmenti, e perdi-me./ Quando quis tirar a máscara,/ Estava pegada à
cara./ Quando a tirei e me vi ao espelho,/ Já tinha envelhecido./
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha
tirado”. Me dou conta o quanto somos prisioneiros dos nossos
próprios corpos, o quanto aceitamos limitações e mutilações em
nome de alguma pretensa normalidade, e depois o quanto precisamos
lutar para conseguir nos livrar da prisão que adentramos contentes.
Por que nunca nos avisam que o caminho da normalidade é a rota do
abatedouro? Marcos Abranches se movimenta pelo palco. O corpo sempre
tensionado e os movimentos descoordenados são acompanhados de uma
música que reforça o clima de agonia (tanto na acepção de aflição
quanto na de luta), gritos guturais e de falas distorcidas, às vezes
difíceis de entender. Na frente, à esquerda, uma mulher toda de
branco, traduz as falas e gritos para gestos, sinais (libras?). Tem
uma aparência impressionantemente plácida e calma. É o contraponto
de Abranches. Não consigo pensar o que seria toda aquela serenidade
diante daquele corpo agônico: sei que também se destaca, também
perturba. Ele vai até a frente do palco, onde um pote de tinta
branca o espera. Se pinta todo de branco – a língua inclusive.
Sobe numa caixa, faz uma pose que lembra cachorro: na sociedade do
espetáculo e da imagem, em que todos posam o tempo todo (sorria,
você está sendo filmado), os ideais gregos que tentamos mimetizar
nos rebaixam a cães adestrados? Ou simplesmente nos impedem de
viver? Lembro de Pirandello: “A gaveta está ceia de fotografias
suas. Ela me mostrou várias, antigas e recentes. - Todas mortas –
lhe disse (...). Posar é como se tornar estátua por um momento. A
vida se move continuamente e nunca pode ver a si mesma (...). A
senhora só pode reconhecer-se posando: estátua sem vida. Quando
alguém vive, vive sem se ver (...). A senhora fica tanto tempo se
olhando nesse espelho, em todos os espelhos, porque não vive”.
Abranches volta para a frente do palco, começa a se pintar de azul.
“Todos os dias, pela manhã, me pinto de branco para então
descobrir novas cores”. Depois do azul, o vermelho. O corpo sempre
tensionado sem muita coordenação (mais coordenado na hora de se
jogar tinta), se atirando no chão sem muitos receios. Noto que meu
corpo também está tenso, acompanhando o dançarino. Jogar sobre si
todas as cores – o branco – para ir se desfazendo daquelas que
não lhe cabe naquele dia? Ser tudo ao amanhecer para ir se moldando
conforme o desenrolar do dia? Depois do vermelho, o amarelo, jogado
primeiro na mulher, sobre a qual ele rola em cima. Minha gastrite
chega a dar alguns sinais, tento relaxar. Action painting? Havia
visto uma performance desse tipo em um Festival de Apartamento, em
Campinas – sem originalidade e sem vida, absolutamente dispensável.
Aqui é diferente. Abranches se joga então o verde, rola pelo chão,
caminha um tanto mais. As cores vão perdendo o vivo que tinham logo
ao encontrar seu corpo, se tornam uma massa escura informe. Começa a
distensão – ainda que persista o corpo tenso e os movimentos sem
jeito. Vai até o fundo e se enrola em um dos painéis, que solta e
cai. Se debate sob o painel, e grita “uhul” quando se
desvencilha. A tensão praticamente acaba. Ele ressurge, o corpo
ainda tenso, mas menos, os movimentos desengonçados. Acho que o
espetáculo perdeu o momento certo de acabar: a quebra da tensão
ajuda a deglutir melhor o espetáculo, mesmo antes d'ele acabar e
cada um seguir para sua casa. O dançarino retira do centro do palco
uma tela, pintada durante sua performance – daí o título, “Corpo
sobre tela”. Põe-na em um cavalete, dá um ajuste final com tinta
branca. Não precisava desse final feliz, podia deixar o incômodo ao
público – já faço minha ante-crítica –, ainda que esse fim
não desabone o trabalho impressionante do artista. Ele se retira
para trás dos painéis (todos pintados em suas apresentações,
dezenove com aquela). Há ainda um longo momento de silêncio até
começarem os aplausos – faço questão de aplaudir de pé.
Abranches volta, o corpo já sem toda aquela tensão e... os mesmos
movimentos descoordenados! Só então me dou conta de que ele não os representava! E não sendo só representação, deixo de interpretar o
tal final feliz como uma mensagem de “é só tentar para
conseguir”: esse final é a afirmação de uma pessoa em sua
totalidade: uma mente-corpo que, à despeito de suas dificuldades por
conta de uma paralisia cerebral, se afirma como totalidade;
diferentemente do que se vê em muitos corpos famosos e invejados –
modelos, atores, atrizes –, que não passam de corpos ocos.
Descobrir que não era só uma representação faz com que a dança, que
já me parecera fantástica, se transforme em dilacerante: Abranches
transforma em potência o que é visto como uma fraqueza. Estaria
relegado pela nossa sociedade a um peso inútil e incômodo e, ao
invés disso, se supera e nos mostra que somos todos feitos do mesmo
barro: eu, sem problemas de movimento, me identifiquei plenamente com
sua atuação; ao mesmo tempo que joga na nossa cara que nossa
pretensa liberdade e saúde oculta que temos nossos movimentos
tolhidos e normatizados. Que ele desfruta de cores para colorir suas
horas enquanto nós temos nosso olhar embotado para as luzes do
dia-a-dia. E o que era aquela mulher tão serena no canto, traduzindo
em gestos seus gritos? O recado de que aquela agonia era apenas luta
e não aflição? Que dentro daquele corpo teso estava uma alma
calma? Que, ao contrário do que eu imaginava, ele representava, sim: não suas dificuldades, mas as nossas limitações?
Olhei
para o lado, para os amigos que me acompanhavam. Tínhamos nós, ao
fim do espetáculo, dificuldade para articular a fala.
São
Paulo, 17 de novembro de 2013.
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