Se o velho testamento tivesse sido escrito nos tempos atuais, no lugar de praga de gafanhotos, deus teria enviado como praga grupos de whatsapp. Que atire a primeira pedra quem não participa de uma dúzia deles: de trabalho, do condomínio, da família, da família sem o tio e o primo fascistas, dos colegas de faculdade, dos amigos de faculdade, dos ex-integrantes do Trezenhum. Humor Sem Graça. comentando as notícias do dia (sem qualquer humor), de moradores do bairro preocupados com a segurança, e por aí vai.
Uma das decisões das novas chefias, com vistas a melhorar a performance de todas as equipes e do setor como um todo, foi proibir assuntos alheios ao trabalho no grupo de whatsapp. Algum burburinho reclamando dessa decisão autoritária, mas todos acataram - até porque melhor não arriscar o emprego por conta de comunicação virtual sem importância.
Eis que veio o aniversário de Bella (que não é de Isabela). Sempre sociável, ela marcou um almoço em comemoração, ao qual esteve presente pouco mais de metade do setor. Ela atribuiu o fiasco por não poder usar o grupo de whats para fazer o convite, ainda que tenha havido um mutirão junto com alguns colegas, organizado a partir do grupo de whats do Clube do Café, para que todos (ou praticamente todos) fossem convidados. Sim, ela acredita que eu, por exemplo, faltei por não saber, por falta de convite, e não por vontade autônoma e deliberada de evitar esse tipo de maçada.
Assim sendo, atendendo a pedidos e inspirado nos grupos “Mega da Virada” do setor, a chefia criou um grupo de whatsapp para aniversários - afinal a solução para melhorar a integração das pessoas é sempre criar um grupo novo. Chama-se “Grupo de Níver” e nele colocam os convites para essas comemorações, que se perdem em meio a dezenas de mensagens de feliz aniversário. Eu, não precisaria dizer, faço minha parte e não contribuo com essa poluição virtual.
Parece que as reclamações de falta de interação e integração dos setores se mantiveram, e a chefia decidiu criar um grupo geral. Chama-se “Assuntos gerais” mas poderia ser chamado de “Bom dia, boa tarde, boa noite”. Minto. Boa tarde são poucos - nessas horas estamos trabalhando -, mas os bons dias acontecem até aos finais de semana e algumas pessoas mandam boa noite quase todos os dias; de modo que dá para ter uma boa ideia dos hábitos de sono de alguns colegas. Um deles acorda todo dia às cinco - e paira uma forte suspeita aqui na bancada de que ele faz isso para treinar cedo. Goreti se indigna:
Que espécime de pessoa acorda às cinco da manhã pra treinar e faz jejum intermitente?
Outro colega precisa regular melhor seu horário de dormir, pois não faz bem se deitar sempre próximo à uma para acordar às sete - isso talvez ajude a explicar o mau humor que geralmente ele irradia. Apesar que nosso emprego nesta fábrica de moer gente chamada capitalismo também deve ajudar nessa explicação. Mas creio que a principal causa para seu mau humor é que ele é um chato, mesmo.
Enfim, como deu para perceber, ninguém se animou em tratar de assuntos gerais no grupo com os chefes. Foi então que Bella resolveu criar um grupo sem os chefes. Chama-se “Integração”. E preciso admitir a perspicácia dos envolvidos nessa proliferação de grupos de whats do trabalho. Da chefia, por ver que isso era um campo minado, de Bella por perceber que os chefes eram um inibidor da integração do pessoal.
O grupo “Integração” desde o início esteve agitado. Alguns bons dias aparecem, convites para aniversários (para quem eventualmente perdeu em meio aos parabéns do grupo “Grupo de Níver”), até mesmo assuntos de trabalho - ninguém ainda resolveu fazer desabafo sobre, mas creio que esse dia está próximo. O foco, contudo, são assuntos aleatórios: onde comprar alguma coisa, indicações de produtos de beleza, recomendações de filmes (sempre com adjetivos como “sensacional” e “inesquecível” para blockbuster descartáveis) e assim ia, até chegar o assunto futebol. A derrota do São Paulo, na última rodada antes da copa, gerou uma discussão homérica, sempre em alto nível, com alguns argumentos batidos como “time grande não cai” e “51 é pinga” e alguns muito originais, como “o Corinthians está mal por causa do Lula, que afundou o time com o estádio pra Copa”, terminando em ofensas de vários calibres. Por falar em copa, Neymar ajudou a azedar um pouco mais o clima no grupo. Resultado: tem colegas que não estão mais se falando pessoalmente, mas seguem tretando no grupo - “Integração”, bom sempre lembrar o nome dele, cuja ironia não parece ter sido proposital.
Eu sigo em silêncio, acompanhando à distância, quando tenho paciência e estômago. E antevejo quando a copa acabar e chegar a hora de discussões eleitorais - Goreti, por exemplo, já avisou que pretende ser mais ativo. Enquanto isso, o grupo de trabalho dorme em berço esplêndido, sem que os chefes desconfiem de nada.
10 de junho de 2026
PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.

Sem comentários:
Enviar um comentário